| Por Ricardo Barretto,
com colaboração de Eduardo Utlma, Flávio
Soares, Maria Inês Zanchetta, Mônica Takako
Shimabukuro, Rodrigo Castardo, Rose Rurico e Rosely
Sanches.
A soja ameaça
o Parque Indígena do Xingu
Quem olha o mapa do Parque Indígena do Xingu,
se surpreende com o verde que predomina em seus 2,8
milhões de hectares de extensão. O mesmo
mapa revela, no entanto, um entorno degradado por desmatamentos
e queimadas associados à formação
de lavouras e pastagens, que já encostam nos
limites do parque. Os povos indígenas xinguanos
estão atentos e, de tempos em tempos, a Associação
Terra Indígena do Xingu (Atix) promove expedições
de fiscalização de fronteiras. Os índios
querem evitar que o lugar onde vivem, e que preservam,
seja invadido e prejudicado pelo desastre ambiental
que ocorre na área do entorno.
Desmatamento na região
dos formadores do Rio Xingu

A carta-imagem elaborada a partir
do mapeamento feito em 2000 pelo satélite Landsat
7 mostra ao centro a vegetação preservada
do Parque Indígena do Xingu, cercada por um quadro
avançado de desmatamentos, resultado de décadas
de atividade pecuária e da recente e intensa
expansão do cultivo da soja. (clique no mapa
para acessar o especial Xingu na mira da soja)
 |
| Fotos aéreas realizadas
em julho, durante sobrevôo pelo município
de Peixoto de Azevedo, a oeste do Parque Indígena
do Xingu, mostram as diferentes etapas do desmatamento. |
A última dessas expedições, realizada
em maio, foi a quarta organizada pela Atix. Saiu de
Canarana, onde está a sede da Atix, em direção
à Terra Indígena Wawi, fim da linha no
rumo norte, passando pelos limites a leste do parque.
A equipe vai constatando, ao longo de 1800 quilômetros
percorridos em estradas de terra, os desmatamentos,
as queimadas e os assoreamentos de nascentes e córregos.
O quadro se repete na região de entorno ao sul
do parque (leia item impactos ambientais).
Ao mesmo tempo, observa-se o crescimento de lavouras
de soja, tanto em áreas onde antes se criava
gado, como onde havia floresta em pé. Tais constatações
são reforçadas pelo líder da equipe
da expedição, Winti Suyá - coordenador
do projeto Fronteiras (veja texto abaixo) da
Atix, que percorre a região com freqüência.
A equipe que Winti coordena é composta por Tamaluí
Mehinaku, chefe do Posto Indígena de Vigilância
(PIV) Tanguro, Vanité Kalapalo, do PIV Culuene,
e integrantes do Instituto Socioambiental, parceiro
da Atix nessas e em outras empreitadas: a analista de
geoprocessamento Mônica Takako Shimabukuro, o
jornalista Ricardo Barretto, e a bióloga Rosely
Sanches.

Mapa com a rota da expedição e algumas
características da região e do Parque
do Xingu. |
Das áreas de florestas e cerrados da região,
descritas no último trabalho de campo realizado
pelo ISA e pela Atix em 1999, muitas desapareceram e
outras áreas foram intensamente alteradas. Mudanças
confirmadas por informações que constam
nos mapas elaborados pelo Instituto Socioambiental em
2000.
Fazendo um retrospecto do período 1994-2000
pode-se verificar que os desmatamentos em toda a região,
excetuando-se o Parque
Indígena aumentaram cerca de 40%. Passaram
de 23,8 mil km2 para 33,7 mil km2.
No período considerado perdeu-se um terço
da cobertura vegetal dessa região.
Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
(Inpe) mostram que em 2000, o desmatamento de áreas
de floresta na Bacia do Rio Xingu, localizadas fora
de áreas protegidas, somou 2,9 milhões
de hectares, o equivalente a pouco mais que um Parque
do Xingu. Embora, daí em diante, os números
estejam baixando, ainda são alarmantes. Em 2001,
por exemplo, o Inpe registrou um índice de 238
mil hectares e no ano passado, o desmatamento em áreas
de floresta alcançou 131 mil hectares. (clique
aqui
para saber mais sobre o desmatamento na Amazônia
Legal).
| Desmatamento
na região dos formadores do rio Xingu (RFX)
no ano 2000 |
| |
Superfície
territorial
(km2) |
Área
desmatada
(km2) |
Área
desmatada em relação
à superfície territorial
(%) |
| RFX |
177.778,51 |
34.431,91 |
19,37% |
| RFX excluídas
TIs e UCs |
134.131,39
|
33.759,34 |
25,17% |
| Terras
Indígenas |
42.200,19 |
617,51 |
1,46% |
| UC's
|
1.446,94 |
55,05 |
3,80% |
Fonte dos dados: Laboratório
de Geoprocessamento - ISA (2001) e relatório "Situação
das áreas naturais" (ISA, 2002). T.Is = terras
indígenas; UC = unidades de conservação
(Estação Ecológica Estadual do Rio
Ronuro e Reserva Ecológica Estadual do Culuene).
Menos gado, mais soja
À medida que a equipe avançava em seu
percurso, observava que a maioria dos desmatamentos
era recente - principalmente na área de floresta
de transição entre o Cerrado e a Amazônia
- e tinha relação com a abertura de novas
áreas para o plantio da soja. Segundo a Empresa
de Assistência Rural do Estado do Mato Grosso
(Empaer), o cultivo da soja tornou-se a atividade agrícola
predominante em todo o leste mato-grossense, que envolve
parte da bacia do Rio Xingu e parte do Vale do Araguaia,
rio que delimita a fronteira com Goiás.
Apesar desse avanço, que acontece também
sobre áreas de pecuária, a soja não
conseguiu ainda desbancar a pecuária, que ocupa
mais de 50% das terras produtivas do leste do Mato Grosso,
de acordo com a Empaer.
A substituição do boi pela soja se explica
por várias razões:queda de produtividade
da pecuária devido à degradação
do solo; disponibilidade maior de crédito; facilidade
de manejo do cultivo; produtividade; rentabilidade.
O preço das sacas de soja é determinado
pelo mercado internacional, pela bolsa de Chicago, pelo
mercado interno e pela cotação do dólar.
Em setembro de 2003, o valor da saca estava em torno
de R$ 34,00 (ou US$ 11).
"O preço da soja está no auge de
uns dois anos para cá, está muito bom.
O produtor que consegue colher 50 sacas por hectare
tem um retorno de cerca de 35%", explica Vericimo
Pucheta, gerente da Bunge Brasil, em Canarana, uma das
empresas compradoras e armazenadoras do grão."
Já o retorno da pecuária é da ordem
de 10%, segundo dados da Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária (Embrapa).
Esse fenômeno é reflexo do que acontece
em todo o Estado do Mato Grosso e no território
nacional. De acordo com o último levantamento
da safra 2002/2003 realizado pela Companhia Nacional
de Abastecimento (Conab), do Ministério da Agricultura,
Pecuária e Abastecimento, no Mato Grosso a soja
teve um aumento de 20% na produção, passando
de 3,8 milhões de toneladas em 2001/2002 para
4,6 milhões em 2002/2003. (saiba mais em A
soja no Brasil ).
| Fiscalização
no Xingu
Não é de hoje que os índios
estão preocupados com o que se passa nos
limites do Parque Indígena do Xingu. Ali
vivem 14 etnias diferentes, com culturas e costumes
diversos. As operações de fiscalização
tiveram início em 1989, quando começaram
a ser instalados os postos indígenas de
vigilância (PIVs) junto a alguns rios. A
meta principal dos PIVs era controlar a invasão
da área do Parque por pescadores e caçadores.
Com o tempo, veio a idéia de vigiar os
limites do parque, fora do alcance dos rios. A
expedição de maio foi a primeira
com o objetivo de mapear os efeitos da expansão
da soja no entorno do parque.
Alguns integrantes da Atix acabaram se tornando
fiscais colaboradores do Instituto Brasileiro
do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
(Ibama). Essa parceria rendeu apoio do órgão
federal a algumas expedições, ao
mesmo tempo em que os índios auxiliam os
funcionários do Ibama com o conhecimento
que possuem da região. Mairawë Kaiabi,
presidente da Atix, considera que a parceria pode
gerar resultados mais significativos, já
que a ação local do Ibama ainda
é tímida e acaba não barrando
irregularidades, como a derrubada de mata fora
dos limites estabelecidos por lei. A Atix também
está em contato com a Polícia Federal
e a Fundação do Meio Ambiente do
Estado do Mato Grosso (Fema), com o objetivo de
proteger e fiscalizar o entorno do parque. |

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