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Ictiologia do Alto Rio Negro

Os rios na bacia do Alto rio Negro se caracterizam por sua oligotrofia, isto é, pela pobreza em nutrientes dissolvidos, o que geralmente reflete a qualidade dos solos da sua região de drenagem (spodosolos). Esta oligotrofia invariavelmente influencia a cadeia alimentar nestes ambientes, resultando em uma biomassa ictiológica relativamente baixa. Clark & Uhl (1987) estimaram que a produtividade média nos rios Negro (alto curso), Casiquiare e Guainía se situa entre 6,6 a 13,2 kg/ha/ano, o que vem a ser uma das menores para rios tropicais. Em comparação, para as várzeas do rio Amazonas, Welcome (1979) e Bayley (1984) estimaram uma produtividade anual de 50 kg por hectare, ou seja, quatro a oito vezes maior que no Alto rio Negro.

Em contraste com a baixa produção da biomassa, a ictiofauna das águas pretas se caracteriza pela alta diversidade de espécies, o que se supõe ser uma notável adaptação evolutiva voltada ao aproveitamento eficiente dos nichos alimentares disponíveis neste bioma. Somente no rio Negro, por exemplo, Goulding et al (1988) identificaram mais de 450 espécies de peixe, estimando que ainda haja por volta de 250 espécies não identificadas nos seus afluentes e igarapés. Esta quantidade representa mais que o dobro do número de espécies existentes em todos os rios europeus juntos, provavelmente excedendo também a quantidade de espécies existentes no conjunto dos rios norte-americanos (Goulding et al 1988).

No rio Tiquié, a antropóloga Berta Ribeiro (1995) identificou 109 espécies de peixe entre os Desana do Mádio Tiquié (São João). Baseando-se nas informações obtidas junto aos pescadores locais, ela dividiu estas espécies de acordo com seu habitat (basicamente, rio, igarapé, lago ou praia), registrando 64 espécies que vivem no rio, 34 espécies dos igarapés, 43 nos lagos e 5 espécies nas praias. A maior parte destes peixes possuem hábitos generalistas podendo ser encontrados em mais de um habitat.

Pesquisa em andamento no alto Tiquié (a montante de Pari-Cachoeira) identificou até o momento 139 espécies de peixe, alguma das quais desconhecidas para a ictiologia ocidental. Esse estudo está sendo realizado em parceria pelo ISA, ATRIART, Museu de Zoologia da USP e FOIRN, contando com uma equipe formada por pescadores da região, uma antropólogo (Aloisio Cabalzar, ISA), um ictiólogo (Flávio Lima, MZ-USP), e um engenheiro de pesca e desenhista (Mauro Lopes, ISA). Esse trabalho está associando as denominações e conhecimentos indígenas (tukano e tuyuka) relativos à ictiofauna com identificações e descrições científicas. Até o momento, três espécies novas de peixes foram descritas para o alto rio Tiquié, baseadas em espécimens coletado durante o projeto: duas piabas, Moenkhausia dyktiota Lima & Toledo-Piza (2001) (tumuapé, tuniupe), Creagrutus tuyuka Vari & Lima (2003) (wegueró), e um bagrinho ornamental, Corydoras tukano Britto & Lima (2003) (waipotá). Pelo menos outras três espécies novas do alto rio Tiquié estão em processo de descrição, e outras mais aguardam ser batizadas.

Veja tabela de espécies

Segundo uma hipótese de Goulding et al (1988), as espécies de pequenos peixes são dominantes na bacia do rio Negro em termos de números de indivíduos, o que parece ocorrer de uma maneira inversamente proporcional à quantidade dos nutrientes dissolvidos na água. Esta hipótese vale principalmente para peixes que se reproduzem com um tamanho inferior a 4 cm. Weitzman & Vari (1988) citaram 85 espécies de peixes sul-americanos de água doce (muitos dos quais ocorrentes na bacia do Rio Negro) que não ultrapassam 2,6 cm de comprimento quando adultos. De acordo com Goulding et al (1988), a capacidade de reprodução precoce ofereceria uma vantagem na competição com alevinos de outras espécies, especialmente nos ambientes oligotróficos, o que explicaria a abundância de piabas em sistemas de água preta como no rio Tiquié.

Existe uma grande diferença de produtividade e composição da biomassa pesqueira entre o alto e o Baixo Rio Tiquié, sendo este último mais produtivo e diverso devido à abundância de lagos e igapós no seu percurso. A ausência de lagos no alto rio Tiquié elimina uma série de espécies de peixes endêmicos das águas lênticas que não se adaptam às águas lóticas daquele trecho, enquanto que a reduzida área de igapó implica também em uma limitada disponibilidade de alimento e proteção naquele ambiente.

Uma outra distinção importante para se descrever a ictiologia do Rio Tiquié é a diferença entre peixes migradores e residentes. Os primeiros incluem várias espécies de aracu, pacu, sardinha, bagre e piaba, que sobem até o alto rio Tiquié para se reproduzir na época da piracema (migração de piracema). Esta população itinerante provavelmente constitui grande parte da biomassa ictiológica do rio (especialmente no percurso superior, onde não há lagos), se movimentando de acordo com a estação do ano e com determinadas mudanças no nível d'água.

A composição das espécies do rio Tiquié também varia de acordo com o trecho do rio. A cachoeira de Caruru por exemplo, forma uma barreira intransponível para a maior parte dos peixes, exceto para alguns migradores como os aracus Leporinus frederici e L. brunneus; piabas denominadas em sibiokũ e seãpihkũ; ou uma espécie de sardinha conhecida por akoroã. Peixes como o surubim ou o aracu Leporinus agassizi, por exemplo, não conseguem ultrapassar esta cachoeira, acumulando-se nas águas à jusante durante a migração reprodutiva. Por causa deste obstáculo, também não existem arraias, poraquês e nem botos (Inia geoffrensis) à montante de Caruru.

Pescadores afirmam que antigamente também não havia exemplares de acará trovão (Satanoperca jurupari) acima de Caruru, tendo sido introduzidos ali por seus antepassados. O mesmo ocorreu com o jacundá vermelho (Chrenicicla johanna), que foi introduzido há alguns anos no alto Tiquié colombiano, vindo do rio Apapóris (bacia do rio Japurá) e que hoje parece estar se alastrando pelos trechos acima de Caruru.

Em linhas gerais, as espécies migradoras sobem o rio Tiquié em levas consecutivas por volta de maio até julho, na ocasião das enchentes de inverno. Os primeiros peixes a surgirem no Tiquié são as piabas, de espécies localmente conhecidas por nomes como seãphkũ, yohãwũ, busawũ, sibiokũ ou werãwũ, por exemplo, que sobem o rio com alguns dias de intervalo. Os cardumes de piabas são seguidos por várias espécies de aracu do gênero Leporinus. Os primeiros a chegar no alto rio Tiquié são exemplares menores de Leporinus agazissi, que chegam praticamente junto com as piabas. De junho até julho chegam exemplares maiores, primeiro da espécie Leporinus frederici, seguido de perto pelo Leporinus fasciatum. De julho a setembro, novas levas de peixe costumam chegar ao percurso superior do rio Tiquié, como por exemplo o matrinchã (Brycon spp.), o pacu (Myleus sp.) e outras espécies de aracu como L. klausewitzi e os exemplares maiores de L. agazissi. De acordo com vários pescadores, a maioria das espécies de aracú aqui citadas são provenientes do rio Uaupés, cujos igapós estão secando nesta época. Predadores maiores também começam a subir o rio entre junho e agosto, como o surubim e a piraíba, provavelmente oriundos dos igarapés do próprio Tiquié. Por ocasião destas subidas, os cardumes tendem a se congestionar nas barreiras naturais que encontram no caminho, principalmente na cachoeiras de Pari Cachoeira e Caruru.

Todavia não se conhece muito bem os hábitos de migração destes peixes. Pescadores no rio Uaupés costumam avistar muitos cardumes de piabas entrando no Tiquié nesta época, enquanto que outros cardumes são vistos seguindo direto, na direção do rio Papurí. Os informantes afirmam que as piabas sobem o rio Tiquié somente até um determinado trecho do percurso inferior, onde costumam entrar nos lagos e igapós, enquanto que a população de piabas residentes nestes habitats, por sua vez, inicia simultaneamente uma migração para o alto rio Tiquié. Este padrão de ocupação parece se repetir para diversas espécies de peixe.

Por volta de outubro, acompanhando as chuvas, ocorre uma série de enchentes, que abrandam de dezembro a janeiro, para dar início ao verão. As primeiras piracemas costumam acontecer nesse período, com a subida das águas, prosseguindo pelo verão adentro, mais ou menos até abril, antes das chuvas do inverno seguinte. Cada espécie faz diversas piracemas neste intervalo, dependendo do número de enchentes. Estas enchentes representam o fator abiótico determinante para a reprodução.

As piracemas podem ocorrer no meio rio (como no caso do L. agassizi, Pseudoplatystoma fasciatum ou Myleus sp., por exemplo), no igapó (como no caso de L. frederici) ou na cachoeira (como no caso de L. brunneus), de acordo com a preferência específica. Muitas vezes, quando as condições ideais ocorrem, a reprodução de diferentes espécies costuma ocorrer simultaneamente em vários lugares do rio. Os pescadores também relatam que diferentes espécies de peixes podem até realizar o acasalamento na mesma hora e lugar, como no caso do aracu L. agassizi e as piabas seãpikũ e sibiokũ. O mesmo acontece com Leporinus frederici e estas duas espécies de piaba.

Uma piracema geralmente acontece somente após uma noite de intensas chuvas, capaz de provocar uma enchente que se mantenha pelo resto do dia. Esta combinação de fatores estimula a ovulação nas fêmeas e faz com que os peixes formem um cardume em um determinado trecho do rio para realizar a reprodução.

No fim da temporada de reprodução, por volta de abril, a maior parte da biomassa pesqueira se desloca novamente rio abaixo para uma migração trófica (alimentar) aos trechos inundáveis situados no baixo Tiquié e no rio Uaupés. Esta migração coincide com a época de maturação das frutas do igapó, das quais muitos peixes se alimentam. Os peixes partem em levas sucessivas a partir de janeiro, até por volta de abril/maio, quando as últimas espécies migratórias deixam suas respectivas áreas de reprodução. Em consequência, a calha do alto e médio rio Tiquié apresenta uma biomassa reduzida durante dois a três meses por ano, até o retomo das primeiras espécies migratórias a partir do mês de junho. É a época de maior escassez para os habitantes do alto Tiquié, quando o consumo de peixe cai drasticamente.