Histórico

A Educação Escolar no Parque Indígena do Xingu

A primeira referência do processo de escolarização no Parque Indígena do Xingu foi a escola do Posto Indígena Leonardo, que começou a funcionar em 1976, com a presença de uma professora não-índia. A maior parte dos alunos eram filhos de lideranças das aldeias vinculadas a esse posto indígena. Nos outros postos, esse modelo se repetiu durante a década de 1980, sempre de forma intermitente, pois dependiam de pessoas contratadas pela FUNAI. A maioria dos alunos só falava a língua indígena, mas foram alfabetizados em português.

No final da década de 1980, todas as escolas estavam desativadas por falta de professores. Ex-alunos da escola do Posto Diauarum e Pavuru, que eram das etnias Kaiabi, Suyá, Yudjá e Ikpeng começaram a ensinar informalmente em suas próprias comunidades. O ensino promovido por eles era exclusivamente em língua portuguesa, sem nenhuma orientação pedagógica. Estes jovens voluntários, apoiados por suas comunidades, começaram então a reivindicar uma formação que permitisse o desenvolvimento de sua prática didática e o estudo das línguas indígenas na escola.

Em função desta demanda, a Fundação Mata Virgem organizou reuniões com as lideranças do Parque a fim de consultá-las sobre o interesse no desenvolvimento de um projeto de formação de professores indígenas.

Em 1994 deu-se início à primeira etapa do Curso de Formação de Professores para o Magistério nos Postos Indígenas Diauarum e Pavuru, contando com a participação de todas as etnias do Parque. Esse projeto, inicialmente promovido pela Fundação Mata Virgem e posteriormente pela Associação Vida e Ambiente, vem sendo desenvolvido pelo Instituto Socioambiental desde 1996, com o apoio da Fundação Rainforest da Noruega, SEDUC-MT (Secretaria Estadual de Educação do Mato Grosso), MEC (Ministério da Educação) e FUNAI (Fundação Nacional do Índio). O Curso realiza duas etapas intensivas anuais de 30 dias, no período intermediário entre essas etapas, é desenvolvido o acompanhamento pedagógico às escolas do PIX por educadores da equipe do ISA.

Logo após a primeira etapa os cursistas começaram a lecionar, inaugurando assim uma nova fase da educação escolar no Parque Indígena do Xingu, com as escolas funcionando nas aldeias. Hoje em dia são 36 escolas no Parque, uma na Terra Indígena Panará e uma na aldeia Cururuzinho, na Terra Indígena Kaiabi.

A equipe redigiu, entre 1996 e 1997, a Proposta Curricular de Formação, que foi aprovada pelo Conselho Estadual de Educação do Mato Grosso em 1998, regularizando o Curso de Magistério equivalente ao Ensino Médio. Entre 1999 e 2003, o Curso formou 38 professores. Dentre eles, 19 realizaram prova e ingressaram no Curso de Licenciatura da Universidade de Mato Grosso em 2000.

Os professores indígenas, com assessoria da equipe do ISA, redigiram nos últimos cinco anos o Projeto Político Pedagógico de suas escolas de 1o a 4o etapas (séries), com cada escola seguindo um calendário específico de acordo com as atividades culturais e econômicas da comunidade. Por essa razão o ano escolar corresponde a um ano e meio ou dois anos. Este Projeto foi aprovado pelo Conselho Estadual de Educação de Mato Grosso em 2002.

Relato dos Professores Indígenas

O que é a Escola Indígena?”

A escola indígena existe para preservar o costume, a cultura e o hábito da comunidade. Nela o professor ensina música, dança, cantiga e as histórias dos antepassados. A escola é para incentivar o valor tradicional de cada povo, assim aquele povo é sempre aquele povo. Ela serve para pesquisar as histórias dos antepassados e escrevê-las, conseguir a publicação das histórias pesquisadas, para ficarem publicadas igual às histórias dos brancos.

Ela ensina também o conhecimento do mundo do branco, a falar português, elaborar documentos para autoridades, fazer projetos para conseguir recursos para atender os interesses da comunidade.

Ela ensina também como defender o território do Xingu, como manejar os recursos naturais, tudo que tem a ver com o índio a escola ensina, esse é o benefício da escola para cada povo.

PROFESSOR KOROTOWÏ IKPENG

A escola indígena tem uma metodologia de ensino diferente da escola ocidental, pois valoriza a língua, cultura, história, mitos e os direitos indígenas. Na escola indígena temos o professor índio, alunos índios, comunidade indígena, alimentação diferente, calendário diferente, tem suas festas e rituais diferentes.

A escola é muito importante para nós pesquisarmos as coisas que tem dentro da nossa comunidade. Também saber como lidar com o mundo de fora, aprender a defender o seu território, saber converter os políticos para defender os direitos indígenas.

As escolas indígenas também levam recado para dentro da comunidade sobre doenças, contaminação, devastação ambiental, orientações para a comunidade valorizar dois modelos de ensino, na língua indígena e em língua portuguesa.

PROFESSOR ATURI KAIABI

A escola indígena trabalha com educação diferenciada de acordo com o entendimento de cada povo envolvido. A escola é um apoio para levar as informações, o entendimento melhor do mundo ocidental às comunidades das aldeias, para que eles saibam se defender, resgatar a cultura e as tradições do domínio não-indígena. A escola trabalha a defesa territorial, o resgate e a preservação cultural. Estuda o meio-ambiente, o ecossistema onde cada povo vive.

PROFESSOR KANAWAYURI KAMAIURÁ

A escola é muito importante dentro da comunidade. Nela os jovens vão sempre ouvir os velhos contando coisas importantes, para que levem a sabedoria dos velhos para frente e também estudar uma maneira nova para se defender de seus inimigos.

A escola traz coisas que nós nunca conhecemos e também na escola indígena não existe branco estudando. Por isso nós índios contamos direitinho sobre nossa cultura, não inventamos, como os não-índios costumam inventar as coisas sem conhecer bem a cultura dos povos indígenas.

Aqui no Xingu estudamos na escola como vamos nos organizar, como vamos usar os recursos naturais e manter a riqueza de nosso ecossistema.

PROFESSOR TARUPI KAIABI

A escola é boa para ensinar as crianças a ler e escrever. Nós ensinamos as crianças na língua indígena, porque elas sabem a nossa cultura, o nosso costume.

Serve para explicar sobre a prevenção das doenças, para as comunidades entenderem. Também ensina as crianças a falar e escrever em português. Tem calendário diferenciado porque tem festas e danças, por isso fizemos calendário diferenciado. A escola é importante para os alunos e também para os pais dos alunos.

PROFESSOR UGISE KALAPALO

Com a escola indígena as crianças, os adolescentes e os adultos podem resgatar e recuperar sua cultura e as tradições. Serve para recuperar algum material de uso que ficou desaparecido. Serve para toda a comunidade. Os velhos e o professor vão estar presentes na escola para ensinar.

O professor, mesmo trabalhando na escola, falando português, pode pintar, dançar, falar a língua, fazer artesanato e fazer reza.

PROFESSOR TEMPTY SUYÁ

Na escola nós podemos aprender a fazer o que é o interesse da comunidade.

A escola indígena é para educar as crianças, explicar sobre os cuidados de higiene e outras informações para eles levarem para os pais. Para ajudar o agente de saúde dentro da comunidade.

PROFESSOR MYATARI KAIABI