From Indigenous Peoples in Brazil
The printable version is no longer supported and may have rendering errors. Please update your browser bookmarks and please use the default browser print function instead.

News

Vigência do marco temporal é injusta e imoral

04/08/2024

Autor: STEINER, Leonardo

Fonte: O Globo - https://oglobo.globo.com/



Vigência do marco temporal é injusta e imoral
A Carta de 1988 trata direitos originários dos povos indígenas à terra como indisponíveis, inalienáveis e imprescritíveis

Leonardo Steiner

04/08/2024

Os povos indígenas estão, mais uma vez, diante de um momento crucial de luta pela preservação dos direitos conquistados com esforço e mobilização na Constituição Federal de 1988. Está previsto para amanhã o início das audiências de conciliação, determinadas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes. Foram convocados representantes de diversos órgãos de Estado e setores da sociedade - alguns com interesses particulares nos territórios indígenas - que discutirão direitos já consagrados em nosso marco de convivência.

Em setembro do ano passado, o STF, por 9 votos a 2, afastou a tese do marco temporal - que estabelece o direito apenas às terras que eles já ocupavam ou disputavam em 5 de outubro de 1988, data de promulgação da Constituição. O Supremo confirmou a constitucionalidade dos direitos indígenas, já previstos na Carta como fundamentais.

Não poderia ser diferente, já que a Constituição de 1988 trata esses direitos originários à terra como indisponíveis, inalienáveis e imprescritíveis, cabendo à União proteger e demarcar. Isso significa que são direitos insubmissos a negociatas, barganhas ou escambos.

Todos sabemos que a vigência do marco temporal é injusta e imoral, pois representa um decreto de impunidade a todas as atrocidades até então cometidas contra os povos indígenas, colocando em risco a vida de comunidades inteiras em função do rompimento com seus territórios tradicionais. O resultado tem sido a onda de violência contra comunidades indígenas, a exemplo do que ocorre neste momento em Mato Grosso do Sul e no Paraná.

Os dados alarmantes de 2023 do Relatório de Violência contra os Povos Indígenas - que o Conselho Indigenista Missionário publicou em julho deste ano - também dão o tom do que a lei põe em curso.

Embora o STF já tenha afastado o marco temporal por inconstitucionalidade, o assunto volta à análise da Corte. E, desta vez, o relator das ações, Gilmar Mendes, decidiu pela constituição de uma comissão especial de conciliação formada por órgãos do governo e diversos setores da sociedade.

Mais uma vez, a Corte tem nas suas mãos as condições de, em primeiro lugar, manter a decisão de setembro de 2023; depois, de não permitir que se negociem direitos indisponíveis dos povos indígenas. O STF não pode deixar prevalecer os interesses dos mais apoderados sobre a singela gente da terra.

O Papa Francisco afirma que é indispensável uma atenção especial aos povos indígenas. "Com efeito, para eles a terra não é um bem econômico, mas um dom gratuito de Deus e dos antepassados que nela descansam, um espaço sagrado (...) Eles, quando permanecem em seus territórios, são quem melhor os cuida", afirma na encíclica Laudato Si.

O pontífice também destaca que os esforços até então empreendidos para diminuir os impactos negativos das mudanças climáticas têm sido inadequados. Isso porque, "muitos daqueles que detêm mais recursos e poder econômico ou político parecem concentrar-se sobretudo em mascarar os problemas ou ocultar os seus sintomas".

Assim como o Papa nos ensina, estamos esperançosos na garantia dos direitos dos indígenas e em que o STF mantenha a decisão de setembro de 2023. É fundamental que toda a sociedade brasileira, todas as igrejas e segmentos acompanhem com atenção este momento crucial para a vida dos povos indígenas, para que a paz e a justiça sejam o horizonte do convívio entre os povos.

https://oglobo.globo.com/opiniao/artigos/coluna/2024/08/vigencia-do-marco-temporal-e-injusta-e-imoral.ghtml
 

The news items published by the Indigenous Peoples in Brazil site are researched daily from a variety of media outlets and transcribed as presented by their original source. ISA is not responsible for the opinios expressed or errors contained in these texts. Please report any errors in the news items directly to the source