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	<title>Povos Indígenas no Brasil - Contribuições do(a) usuário(a) [pt-br]</title>
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	<updated>2026-04-04T08:06:10Z</updated>
	<subtitle>Contribuições do(a) usuário(a)</subtitle>
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		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Pira-tapuya&amp;diff=8539</id>
		<title>Povo:Pira-tapuya</title>
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		<updated>2025-11-18T17:13:07Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Os Waíkhana, regionalmente conhecidos como Pira-tapuya, vivem na região de fronteira entre o Brasil e a Colômbia, às margens do médio curso do rio Papuri e do baixo e médio curso do rio Uaupés. O etnônimo Waikhana significa “povo peixe” e Pira-tapuya é um apelido que ganharam após a chegada dos colonizadores: uma tradução aproximada do nome do grupo para o ‘’nheengatu’’, língua geral amazônica introduzida na região do rio Negro pelos missionários católicos entre os séculos XVIII e XIX. Eles são também chamados de Pinoã Mahsã, “gente cobra”, por outros grupos da família Tukano Oriental com os quais compartilham territórios e mantêm trocas matrimoniais e culturais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Língua ==&lt;br /&gt;
A língua waíkhana pertence à família linguística Tukano Oriental. Todas as línguas dessa família compartilham muitas características em comum, mas aquela que tem maior proximidade com o waíkhana é a língua [[Povo:Kotiria#Língua|kotiria]] (wanano). Embora o número exato de falantes do waíkhana seja atualmente desconhecido, a língua é considerada em situação de ameaça (Stenzel, 2018), em razão das dinâmicas de mobilidade de famílias waíkhana entre as aldeias de origem e outras localidades no Alto e Médio Rio Negro e do uso crescente da língua tukano como língua franca na região. Assim como toda a população indígena do Uaupés brasileiro, os Waíkhana são fluentes também na língua portuguesa e os que vivem na fronteira costumam falar ainda o espanhol (na Colômbia todos são fluentes no espanhol).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Localização e População ==&lt;br /&gt;
Dividida internamente em vários segmentos ou clãs, a maior parte da população waikhana vive hoje do lado brasileiro da fronteira, atualmente cerca de 850 pessoas. O território tradicional dos Waikhana é o médio rio Papuri e afluentes, onde se concentra grande parte de suas comunidades, tanto do lado brasileiro quanto colombiano – o Papuri serve de linha de fronteira entre os dois países. Mas conforme narram os próprios waikhana, há séculos que alguns de seus subgrupos e clãs saíram do médio Papuri e se dispersaram para outras regiões do Uaupés, sobretudo seu médio e baixo curso, e mesmo pela calha do rio Negro. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Homens cortando e tingindo talos de arumã em frente a maloca da comunidade Waikhana em São Gabriel (Pohsaya Pit), médio Papuri. Foto: Aline Scolfaro, 2010.&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/6/6/4/9/4_feeac2e38e19be3/66494scr_2026163de350850.jpg?v=2020-09-25+10%3A53%3A02}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As principais comunidades e sítios waikhana no Papuri são Japim (Ñohsõ Nõã), São Gabriel (Pohsaya Pitó), Teresita (povoado sede de missão católica do lado colombiano, onde se concentra a maior população waikhana do Papuri), São Francisco (Wunu Peó, já no igarapé Macucu, lado colombiano); Taracuá (Yuhku Pitó), Tucunaré (Beé Peó) e São Paulo (Sana Kohpedi, comunidade hoje esvaziada). Já entre os cursos do baixo e médio Uaupés estão Uriri (Nanasari Ñoa), Açaí-paraná, São Francisco (Mariwá), Aracú Ponta (Bo’tea Pehta, a maior comunidade waikhana no Uaupés) e Miriti. Parte dessas comunidades no Uaupés foram formadas por grupos Waikhana e Tukano e hoje congregam famílias de ambos os povos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas últimas décadas, muitas famílias também migraram de suas comunidades para outras localidades, como o povoado de Iauaretê, onde hoje vive um grande número de famílias waikhana, e ainda as cidades de São Gabriel da Cachoeira e Santa Isabel do Rio Negro, além de diversas comunidades multiétnicas no trecho do médio rio Negro. Do mesmo modo, do lado colombiano houve uma migração intensa para a cidade de Mitu. Resulta que os Waikhana constituem hoje um grupo com grande dispersão territorial e com uma população significativa vivendo nos centros urbanos, como acontece com vários outros povos do alto rio Negro. Atualmente estão presentes em sete Terras Indígenas da parte brasileira do Noroeste Amazônico, além das cidades, onde convivem com outros povos tukano e grupos de filiação linguística aruak e [[Povo:Maku#Língua|maku]]: Alto Rio Negro, que concentra a maior parte de sua população; Balaio; Cué-Cué Marabitanas; Médio Rio Negro I; Médio Rio Negro II; Rio-Tea; e Jurubaxi-Tea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Histórico do Contato ==&lt;br /&gt;
Com uma história de contato de quase três séculos, marcada por muita violência, exploração, escravidão, descimentos e deslocamentos forçados, intolerância e atrocidades de toda ordem, o que hoje é a região do Uaupés guarda, à primeira vista, pouco em comum com uma realidade à qual os Waíkhana costumam se referir como o “tempo dos antigos” ou o “tempo das malocas”. Tais expressões remetem a um período anterior à chegada dos brancos, ou, ao menos, anterior à chegada dos missionários salesianos, ordem religiosa que se estabeleceu no Uaupés nas primeiras décadas do século XX, especificamente na parte brasileira, e que foi responsável por algumas das transformações que afetaram de forma mais drástica o modo de vida dos povos da região. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo os Waíkhana, o problema foi que os primeiros padres não conseguiram entender os costumes e o modo de vida de seus antepassados, as festas e cerimônias que seus pais e avós faziam, e assim começaram a perseguir suas tradições “como se fossem coisas do diabo”. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O antropólogo waíkhana Dorvalino Chagas (2001, p. 50) dá uma ideia da situação de temor em que se encontravam os Waíkhana no período em que os salesianos chegaram à região:  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
Os Waíkhana conheceram o homem branco igual a eles, mas de comportamentos diferentes, incompatíveis com seu modo de pensar. Não acatavam a maneira de viver deles. Visto como dono de vários tipos de doenças que lhes causaram o medo excessivo. Esse medo provocado é que fez os antepassados embrenharem na mata ou nas cabeceiras de igarapés para se ocultar do invasor. Pensavam que nesse esconderijo poderiam viver à vontade. Mas não foi bem assim, pois a devastação da população foram as epidemias como a ''bisiká'' (varíola) e o ''sarapu''  (sarampo)... Quando os missionários chegaram nessa terra, a partir da primeira década do século XX, pediram aos Waíkhana para morarem nas margens dos rios onde seria fácil a administração de catequese e garantia de proteção contra os não-índios”.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de toda a violência, exploração e desmandos cometidos pelos comerciantes, seringueiros e agentes governamentais que controlaram a região até o início do século XX, a população indígena do Uaupés também foi drasticamente afetada pelas doenças e epidemias trazidas pelos brancos. Há histórias de clãs, ou mesmo de grupos inteiros, que simplesmente desapareceram, pois foram completamente dizimados por epidemias de sarampo e varíola - mas muitos deles ainda têm seus nomes citados nas genealogias waíkhana e na relação de nomes oferecida pelos conhecedores. Neste contexto, não é de se estranhar que a chegada dos missionários salesianos tenha representado uma esperança de proteção contra a violência colonial. É por isso que os Waíkhana, assim como outros grupos do Uaupés, se resignaram em abandonar suas malocas, seus rituais, suas flautas sagradas de ''jurupari'', suas caixas de enfeites de dança, dentre outros elementos centrais de sua vida ritual, em troca da proteção oferecida pelos padres. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Relação com os Salesianos ===&lt;br /&gt;
Através de seu programa de civilização e catequese – implantado estrategicamente em um dos momentos mais críticos e violentos da atuação dos comerciantes e “patrões” na região – os salesianos iniciaram uma investida contra tudo aquilo que era visivelmente valorizado pelos povos da região e que constituía o cerne de sua vida ritual. Já de início queimaram quase todas as malocas que havia do lado brasileiro do Uaupés, forçando os índios a viverem em aldeias nucleadas com casas separadas para cada família. As malocas, grandes casas comunais nas quais chegavam a viver até dez famílias, representavam para os índios muito mais do que uma simples moradia. Elas constituíam o centro de sua vida ritual e o coração do grupo local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Chamadas de “casa de dança” na maioria das línguas da região (em waíkhana se diz ''bahsali wu’u'') e imbuídas de profundos significados mítico-cosmológicos, eram o espaço por excelência das mais importantes festas, rituais e cerimônias. Percebendo logo a centralidade das malocas para a vida ritual e espiritual nativa, os padres passaram então a combatê-las veementemente, demonizando-as (os religiosos as chamavam de “casas do diabo”) e obrigando os índios a abandoná-las em prol das moradias unifamiliares em aldeias organizadas segundo os preceitos cristãos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Junto a isso, os missionários passaram a reprimir duramente, pela chantagem e pela força, importantes rituais até então realizados por todos os povos da região, como o ritual de iniciação masculina, em que eram utilizadas as flautas sagradas de ''jurupari'' (''miniã pona'', na língua waíkhana), e outras cerimônias em que se fazia o uso da bebida ''kahpi'' (produzida a partir do cipó ''Banisteriopsis caapi''). Os mais velhos contam que em dias de festa e cerimônias os padres entravam nas aldeias virando cochos de ''caxiri'' (''paidu'') e potes de ''kahpi'', destruindo cuias de ''ipadu'' (''patu'') e ordenando o cessar de suas danças e cantos (''bahsa''), os quais eram acompanhados pelo som de vários tipos de flautas e trompetes. Contam ainda que os religiosos se utilizaram de todo tipo de chantagem para obrigar os seus pais e avôs a entregarem as suas caixas de enfeites de dança (''bahsa bu’sa ahkadó'' na língua waíkhana) e outros ornamentos e instrumentos sagrados utilizados nas festas e rituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Através de seus sermões, os padres demonizavam os rituais, o xamanismo e os elementos mais visíveis da cultura nativa, impondo rígidas sanções para aqueles que infringissem as novas regras e resistissem em abandonar tais práticas. Uma das estratégias consistia em negar o acesso a certas mercadorias básicas que a esta altura eram já bem conhecidas pelos indígenas, tais como fósforos, sabão e roupas. Do mesmo modo, o acesso ao batismo e aos cultos católicos; à educação escolar e aos conhecimentos que esta possibilitava – itens da sociedade branca já há muito valorizados e desejados pelos índios –; e, de modo importante, a própria garantia de proteção que os religiosos passaram a representar face à violência e atrocidades cometidas pelos comerciantes e ‘patrões da borracha’, foram também, em grande medida, “benefícios” condicionados à obediência e adequação dos índios às novas regras e valores da veiculados pelo missão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Organização Social e Política ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Moradores Waikhana da comunidade Uriri em exercício de mapeamento de seu território no baixo Uaupés. Foto: Aline Scolfaro, 2010.&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/6/6/4/9/0_22a12d0decce73e/66490scr_e1096bb92daffc5.jpg?v=2020-09-25+10%3A51%3A35}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No contexto do Noroeste Amazônico, os Waíkhana estão inseridos em um amplo sistema regional indígena, caracterizado pela existência de uma rede de&lt;br /&gt;
relações e alianças interétnicas na qual estão envolvidas diversas modalidades de trocas: econômicas, rituais, matrimoniais. Na bacia do Uaupés, osWaíkhana convivem e mantém relações com vários grupos: com alguns eles trocam mulheres, como os [[Povo:Desana|Desana]], os Tukano e os Tariano (grupo aruak); com outros eles partilham uma “irmandade mítica” que os proíbe de estabelecer trocas matrimoniais, como os Wanano e os [[Povo:Arapaso|Arapaso]]; e com quase todos os outros, mesmo que não haja hoje muita interação direta, eles se relacionam por meio de uma história de origem comum que os colocam enquanto “gentes” (''mahsã'') portadoras de uma mesma condição humana. Assim, muitos destes grupos figuram na mitologia de origem waíkhana, ocupando posições que constituem os fundamentos de suas relações atuais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como os demais grupos tukano, os Waíkhana são patrilineares e exogâmicos, isto é, os indivíduos pertencem ao grupo de seu pai e devem se casar com membros de outros grupos, idealmente falantes de outras línguas. Também praticam a patrilocalidade, ou seja, a esposa é quem vai viver e formar a nova família na comunidade do marido. E assim como todos os povos do Uaupés, estão divididos internamente em vários subgrupos (clãs ou ''sibs''), hierarquizados de acordo com uma ordem de senioridade cujos fundamentos se encontram nas narrativas de origem e ocupação do território pelos primeiros ancestrais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
De acordo com membros do clã Wehetada Bahuí, que vivem no médio rio Papuri, e com as análises do antropólogo waíkhana Dorvalino Chagas (Chagas, 2001), os Waíkhana se dividem em três subgrupos mais abrangentes, a partir dos quais derivam as suas séries de clãs. Os três subgrupos, chamados Wehetada, Sõãliã e Wehetada Bahuí, são hierarquizados conforme a ordem de senioridade de seus ancestrais fundadores, os quais se originaram a partir de um ancestral comum. E essa mesma lógica se replica para a série de clãs internas a cada subgrupo e para linhas agnáticas dentro do próprio clã. O primeiro clã de cada subgrupo é chamado de “cabeça”, “chefe” (''puhtoro''), enquanto os últimos são reconhecidos como antigos “servidores” (''peona'') do clã de chefes. Os Waíkhana dizem que a relação entre chefes e servidores envolvia respeito e apoio mútuo e os últimos eram os auxiliares dos chefes nos trabalhos das malocas, especialmente na preparação de grandes festas e rituais. Dentre os clãs waíkhanas listados estão: Wehetada, Waikhun (ou Pou), Ñali Pedó, Diami (também chamado de Uhpó, Wayokali ou Shunkumpuã), Manu Kanabudu, Buhkuda, Ñehkantudu, Komepahka, Kãino, Duhkudu, Sõãliã Poné, Wehetada Bahuí, Ñehkantudu Yepupé, Manu Yuhkuphin, Manu Uhashutú, Yehepoali, Bi’kudua, Padakodoa, Ñapa e Poedoa. Mas vale ressaltar que entre os Waíkhana parece haver diferentes formas de apresentar o sistema de clãs, as quais variam conforme o grau de conhecimento do narrador, mas também de sua própria posição dentro desse sistema. Membros de clãs maiores dos Wehetada, por exemplo, parecem levar menos em conta a divisão dos subgrupos e enfatizar uma classificação mais linear dos clãs.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conforme contam os mais velhos, no tempo das malocas, os laços agnáticos e o sistema de senioridade eram princípios mais estruturantes das relações sociais, do sistema de prestígio e da posição de chefia no âmbito dos grupos locais do que se verifica hoje. O chefe da maloca era também o irmão maior, o “cabeça” do clã, quem detinha a prerrogativa da chefia. Do mesmo modo, através de seu espírito agregador e de sua capacidade retórica, era ele quem zelava pela união e pela harmonia do grupo (formado idealmente por um conjunto de irmãos, suas mulheres e filhos), organizando festas e trabalhos coletivos e incitando as pessoas a viverem bem e com respeito para com os parentes e cunhados. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a implementação do modelo de comunidade proposto pelos missionários&lt;br /&gt;
em meados da década de 1960, as chamadas “Comunidades Eclesiais de Base”, um novo modo de organização sociopolítica passou a vigorar nos povoados indígenas, o qual teve como pedra de toque a instituição de um sistema de cargos comunitários eletivos e rotativos: os postos de “capitão” e de “vice-capitão”, escolhidos por votação, além dos cargos de “animador” e “catequista”. Com isso, novos padrões de relações sociais começaram a se sobrepor às formas tradicionais de organização sociopolítica, assim como estes novos papéis sociais – que hoje incluem também, conforme sugeriu Lasmar (2005, p. 91), os cargos de professor e agente de saúde –, passaram a constituir uma via alternativa para a obtenção de influência e prestígio. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas apesar da ideia de comunidade ter sido introduzida pelos missionários, os princípios éticos, políticos e estéticos que os Waíkhana, especialmente os mais velhos, parecem ter em mente quando se referem à noção, remetem ao tempo das malocas e à noção nativa de ''mahka'', palavra waíkhana que designa os sítios habitados e cujos significados transcendem o conceito de comunidade hoje utilizado. Aqui o ideal da agnação e o idioma da senioridade, (ao lado dos princípios da reciprocidade e da aliança), continuam sendo fatores relevantes na política local. Em muitos casos, estes constituem ainda princípios estruturantes do ethos comunitário que informa a vida social, cujos valores são aqueles mesmos que os missionários tentaram neutralizar com a introdução do modelo de comunidade. Em muitas delas, os cargos comunitários foram apropriados e ressignificados pelo próprio sistema tradicional; onde isto não se verifica, o “cabeça” do clã, como os waíkhana costumam chamar aquele que se situa no topo da hierarquia de senioridade, continua sendo reconhecido e respeitado como o “chefe tradicional” e, muitas vezes também, como o “guia” espiritual (''kumu'') do grupo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Cortando e tingindo talos de arumã para fazer balaios. Comunidade São Gabriel (Pohsaya Pit) no médio Papuri. Foto: Aline Scolfaro, 2010.&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/6/6/4/9/3_18a39445e534a74/66493scr_dedaa334732dc8f.jpg?v=2020-09-25+10%3A52%3A45}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No contexto atual, marcado por um esvaziamento das comunidades em&lt;br /&gt;
decorrência da migração de muitas famílias para os centros urbanos, os que ficaram parecem mesmo se esforçar para que o elo existente entre os membros do grupo agnático continue vivo. Aliás, muitos dizem hoje que, com todas as transformações ocorridas na região desde a chegada dos brancos, é preciso um esforço constante para que aquilo que restou da vida, dos ensinamentos e da riqueza deixada pelos “antigos” não tenha o mesmo destino que tiveram muitos daqueles componentes mais valiosos e visíveis da “cultura” - alvos privilegiados da repressão missionária.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Cosmologia e Mitologia ==&lt;br /&gt;
Os Waíkhana, assim como a grande maioria dos povos tukano, reconhecem que os seus primeiros ancestrais surgiram no extremo leste da terra, num local chamado ''Ahpenkõ'' Taro, Lago de Leite, ao lado dos ancestrais Tukano e Desana. Criados por ''Uhpó Kõãkhun'', Deus Trovão ou Avô do Universo, a partir de resíduos encontrados nos diferentes domínios do cosmos, estes primeiros ancestrais, que no início eram ''wai mahsã'' (gente peixe) e não propriamente humanos, chegaram ao Uaupés depois de uma longa viagem subaquática a bordo de uma cobra-canoa, denominada ''pamulin yuhkusoa'', “canoa de  transformação.&lt;br /&gt;
Constituindo, ao mesmo tempo, uma passagem entre distintas dimensões espaço-temporais, ou entre distintos níveis cósmicos, a viagem ancestral do Lago de Leite até as cabeceiras do Uaupés e afluentes, região considerada como o centro do mundo, representa também um longo processo de transformação e desenvolvimento a partir do qual estes primeiros seres ancestrais puderam finalmente alcançar a forma humana. Por isso, eles mesmos ganharam o nome de ''Pamulin Mahsã'', “Gente da Transformação”, aqueles que passaram pelo processo de humanização.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao longo da extensa viagem, os ancestrais pararam em diversos locais que são hoje reconhecidos como “casas de transformação”: locais onde obtiveram uma série de artefatos, capacidades e conhecimentos necessários para a sua transformação em seres humanos e para a vida de seus futuros descendentes. Dentre estas aquisições encontram-se aqueles bens materiais e imateriais, tais como ornamentos de dança, objetos cerimoniais, substâncias rituais, rezas xamânicas, cantos, danças, nomes, a língua e as próprias falas que contam a história desta saga ancestral. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Transmitida agnaticamente através das gerações, esta riqueza (''doedikhen'') é o que passará a compor o patrimônio ritual de cada grupo de descendência, sendo ao mesmo tempo a manifestação e o veículo dos princípios espirituais e das potência envolvidas no processo de transformação/humanização ancestral. Por isso é que as “casas de transformação”, e as riquezas que foram nelas obtidas, são ainda hoje cruciais nos procedimentos xamânicos de constituição da pessoa e de manutenção da vitalidade do grupo, ainda que grande parte de seu aspecto visível e tangível tenha sido eclipsado com as transformações culturais do último século.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As falas que narram a origem waíkhana possuem três momentos distintos. O primeiro momento narra os passos dados pelo Avô do Universo em seu trabalho de criação e incrementação da vida (''kahtiró'') dos primeiros ancestrais da verdadeira humanidade. Nele encontram-se as bases para alguns dos mais importantes e vitais benzimentos (''bahseye''), bem como trechos ou falas essenciais para uma operacionalização mais completa e potente do benzimento da alma (''hedipona bahseye'', quando as crianças recém nascidas recebem seu nome ritual, que é também sua força vital). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O segundo momento remete à grande viagem de transformação dos primeiros ancestrais à bordo da cobra-canoa e é caracterizado por uma fala que refaz todo o percurso da embarcação desde o Lago de Leite até o centro do mundo (no caso dos Waíkhana, a cabeceira do igarapé Macucu, afluente do médio Papuri), passando pelas inúmeras “casas de transformação” existentes ao longo do percurso. O que os ancestrais vivenciam nessas “casas” constitui as bases para a configuração atual do mundo, informando, assim, diversos tipos de procedimentos técnicos, regras sociais e conhecimentos xamânicos hoje fundamentais para a vida das pessoas e dos coletivos waíkhana. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o terceiro momento da narrativa representa uma outra etapa da história ancestral, que marca o fim do que a antropóloga Christine Hugh-Jones (1979) chamou de “era pré-descendência”. Esta se inicia após a chegada dos ancestrais waíkhana à última casa, chamada de ''Hedi Wu’u'' (Casa do Suspiro) e localizada nas cabeceiras do igarapé Macucu, afluente da margem esquerda do médio Papuri (do lado colombiano). Deste ponto em diante o que vemos é a história de um tempo propriamente humano, marcada pelo crescimento dos Waíkhana enquanto um grupo de descendência exogâmico, pelas alianças matrimoniais com grupos afins e pelas segmentações internas. Do mesmo modo, as histórias dos diversos subgrupos e clãs se particularizam, permeadas por brigas, disputas por prerrogativas, rupturas, deslocamentos e migrações – as quais dão conta de explicar a atual configuração socioespacial do povo Waíkhana, isto é, o modo como os subgrupos e clãs estão hoje distribuídos pelo território. Na dissertação de Dorvalino Chagas é possível encontrar uma detalhada descrição dessas dinâmicas socioespaciais dos Waíkhana (Chagas, 2001). Veja, abaixo, como se inicia essa longa narrativa&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Tempo da Criação ==&lt;br /&gt;
Texto editado a partir de versão narrada por Laureano Cordeiro e traduzida por seu irmão menor Marcelino Cordeiro, ambos Waikhana Wehetada Bahuí da comunidade São Gabriel (Pohsaya Pitó), médio Papuri. Laureano faleceu em 2020 em decorrência de complicações causadas pela Covid19&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conta-se que, antigamente, num tempo anterior ao surgimento dos primeiros&lt;br /&gt;
ancestrais, o mundo era uma casa, uma maloca, em cujo seio corria um rio. Esta casa, que continha todo o universo, chamava-se ''Tauro Wu’u'' (Casa da Barragem). Foi ''Uhpó Kõãkhun'', Deus Trovão ou Avô do Universo, quem criou ''Tauro Wu’u'' através de seu pensamento. ''Uhpó'' apareceu por si mesmo na Casa de Pedra de Quartzo (''Uhta Boho Wu’u'') e no início era somente ele. Manifestava-se como ‘puro pensamento’ (''tu’otuaye bahueye'') e foi assim que fez aparecer ''Tauro Wu’u'', a casa-universo. Aí viveram as primeiras ‘gentes’ (''mahsã'') criadas por ele através do sopro da fumaça do cigarro. Mas essas ‘gentes’ do início, por não terem conseguido viver de acordo com os ensinamentos de ''Uhpó'', foram exterminadas pelo grande dilúvio que assolou ''Tauro Wu’u'' no início dos tempos. Teria sido o próprio ''Uhpó'' quem decidiu acabar com a sua primeira criação, pedindo a Se’ẽ Pinõ, uma grande cobra que podia também se transformar em pássaro, para que tampasse com o seu rabo a saída de ''Tauro Wu’u''. Com isso, as águas que antes fluíam pela grande maloca se acumularam lá dentro, devastando toda a terra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o desaparecimento de todos os seres, exceto ''Yairo Kõãkhun'', um pássaro-pajé que sobreviveu ao dilúvio protegido sob sua cuia de bronze e pedra de quartzo, ''Uhpó Kõãkhun'' se viu novamente sozinho. E de sua morada na Casa de Pedra de Quartzo ele começou a pensar em como poderia fazer para criar uma nova geração de ‘gentes’. Decidiu que era preciso primeiro limpar e ajeitar a casa ''Dia Tauro'', transformando-a num lugar bom e acolhedor para se viver, pois com o dilúvio muitas doenças e perigos haviam sido disseminados pelo mundo. Em seguida, resolveu mudar o nome da casa-universo para ''Dia Ahpenkõ 'Wu’u'' (Casa do Rio de Leite) e decidiu que seria este o local onde faria aparecer as novas ‘gentes’ que agora povoariam a Terra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o seu pensamento, ''Uhpó'' começou então a preparar as coisas com as quais daria início à sua nova criação. A primeira coisa que ele preparou foi ''yuido'', o suporte de cuia, que colocou com cuidado no centro do pátio de ''Ahpenkõ Wu’u''. Em seguida fez aparecer a ‘cuia da vida’ (''kahtidi wahastoa''), arrumando-a delicadamente sobre o suporte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Depois chamou (''wa’metiaga'') os ‘cigarros da vida’ (''kahtidi munoku''): o ‘cigarro de transformação’ (''pamulin munoku''), o ‘cigarro de leite’ (''ahpenkõ munoku'') e o ‘cigarro de água’ (''ahkó munoku''). E por fim preparou ''sãlinopu'', a forquilha porta cigarros. Depois de arranjar estes objetos cuidadosamente, colocando cada um no seu devido lugar (os cigarros na forquilha, a forquilha na cuia e a cuia no suporte), ''Uhpó'' começou então a benzer, chamando e soprando na ‘cuia da vida’ uma série de substâncias doces, tais como o mel, o leite e o sumo de diversas frutas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Assim, teria sido o próprio ''Uhpó Kõãkhun'' o primeiro a fazer o benzimento de&lt;br /&gt;
purificação. Mas diz-se que terminando de benzer a ‘cuia da vida’ com leite, mel e sumo de frutas doces, ele ainda não sabia ao certo de que forma poderia fazer para repovoar esta terra, para criar as novas ‘gentes’. Então continuou pensando e resolveu que procuraria por este mundo, pelos quatro cantos da terra, as coisas com as quais poderia criar as novas vidas. E foi procurando por todo o universo, pelos distintos domínios dos cosmos – pelo espaço, pela terra e pela água – que ele finalmente encontrou aquilo que seria o princípio da vida das novas ‘gentes’: o ‘coração’, o ‘sopro de vida’ (''hedipona'') dos primeiros seres que, mais tarde, se multiplicariam e povoariam a terra, dando origem aos atuais seres humanos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A viagem de Uhpó pelas camadas do cosmos foi narrada assim pelo kumu Laureano Cordeiro e traduzida por seu irmão, Marcelino Cordeiro:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
“Então Uhpó Kõãkhun se levantou e no mesmo instante o seu pensamento se elevou às alturas, chegando até a ‘casa do céu’ (''u’muse wu’u''), e depois baixou e correu até o leste, onde o sol nasce e para onde as águas correm (''dia to’pea''). Em seguida, todo o seu pensamento seguiu para a ‘casa do poente’, o oeste, onde os rios nascem e o sol se esconde (''dia po’te''). Por fim, baixou até o sul e na casa do sul procurou. ''Uhpó''  tateava com uma das mãos todo o universo e todos os cantos por onde o seu pensamento corria. E assim ia juntando em sua mão tudo aquilo que conseguia recolher nas casas por onde passava. Quando terminou de procurar, depositou a fina poeira que conseguiu juntar na cuia que havia benzido. E isto era o próprio ‘coração’ (hedipona), a ‘essência da vida’ dos Desana. É por isso que eles são ‘Gente do Espaço’, ‘Gente do Universo’: são os ''Dehkoli Mahsã'', ‘Gente do Dia’. Foi ''Dehkoli'' o primeiro a surgir.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Então, vendo que sua jornada pelo universo havia dado certo, Uhpó resolveu percorrer novamente os quatro cantos da terra para tentar encontrar outras coisas com as quais poderia dar continuidade à sua criação. E mais uma vez subiu até o céu, correu para o leste, para o oeste e para o sul, mas desta vez nada encontrou. Então pensou em procurar na terra, na ‘terra de transformação’ (''yepá pamulin di’ita''). E procurou na terra preta (''di’ita niño''), procurou na terra branca (''di’ita yesedó''), procurou na terra vermelha (''di’ita sõãno''). Em todas essas terras ele procurou, buscando por todo o chão deste mundo as coisas com as quais poderia criar as novas vidas. E enquanto pensava e procurava, foi tateando a terra com uma das mãos, apanhando tudo o que conseguia alcançar. Em seguida, depositou na cuia benzida a poeira de terra que havia recolhido. Fazendo isso, Uhpó estava colhendo o ‘coração’ (''hedipona''), a ‘essência da vida’ de ''Dahseido'', os Tukano. Por isso é que eles serão ''Yepá Mahsã'', ‘Gente Terra’.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seguida, Uhpó  se pôs mais uma vez a pensar e sentiu que faltava ainda alguma coisa. Então começou a procurar novamente por todo o universo, por todos os cantos do espaço. Subiu até o céu, correu até o leste, até o oeste e até o sul. Mas nada encontrou. Voltou então a procurar pela terra, pela ‘terra de transformação’. Procurou na terra preta, na terra branca, na terra vermelha. E mais uma vez não encontrou nada. Então decidiu descer até o rio, o rio de ‘água de transformação’ (''pamulin ahkó'') para continuar a sua busca. E procurou por todo o mundo das águas, tateando com uma das mãos. Tateou a foz, na casa do nascente. Depois procurou pelas cabeceiras, na casa do poente. E foi assim que conseguiu encontrar o outro ‘coração’ (''hedipona''), a  outra ‘essência de vida’, a qual depositou na cuia benzida. Agora eram três ‘corações’, três ‘elementos de vida’ que logo ‘viriam a ser’. Foi assim que Uhpó  criou os seus netos; e foi na água que ele nos encontrou: nós somos netos do Waíkhana, ‘Povo Peixe’. Por isso é que temos esse nome, por esse trabalho que fez Uhpó Kõãkhun. Mas também ali, na beira do rio de ‘água de transformação’, é que apareceu Koleinogu, o Arapaço. E é por isso que Arapaço é por nós considerado irmão menor. Mas foram somente estes que surgiram em ''Dia Ahpenkõ'', somente estes vieram de lá. Pois muitos dos outros [das outras etnias] só apareceram em Ipanoré. Em ''Dia Ahpenkõ Wu’u'' (Casa do Rio de Leite) eram somente Dehkoli, Yepá, Waíkhana e Koleinogu, que apareceu depois”.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É, pois, de domínios específicos do cosmos que provém a “essência da vida”, o&lt;br /&gt;
“sopro”, ou a própria “alma” (''hedipona'') dos ancestrais que darão origem a cada um desses povos. E junto com este princípio vital aparecem também os seus nomes. Esses nomes, que serão posteriormente transmitidos aos seus descendentes, carregarão com eles a “potência de vida” (''kahtiró'') desses primeiros ancestrais e todo o poder criativo dos domínios de onde eles provêm. Pois é da água que os Waíkhana tiram sua força, assim como os Tukano (''Yepá Mahsã'') a tiram da terra e os Desana (''Dehkoli Mahsã'') do ar e dos raios de sol. O ancestral Desana terá a capacidade de voar, de viajar pelo ar e pousar nos topos de árvores e montanhas e o ancestral Waíkhana terá a habilidade e a força necessária para comandar a futura viagem pelo rio de água de transformação. Dizem até que a cobra-canoa, na qual todos embarcarão rumo ao centro da terra, era, na verdade, o próprio corpo de 'Waikhun, o primeiro ancestral Waíkhana (também chamado de Kenein em algumas narrativas). É por isso que os Waíkhana, Povo Peixe, são também ''Pinoã Mahsã'', Gente Cobra, aqueles que surgiram no mundo das águas, no rio de água de transformação. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Festas e Rituais: Entre o Passado e o Presente ==&lt;br /&gt;
Os Waíkhana mais velhos, tanto homens quanto mulheres, costumam lembrar com nostalgia dos tempos em que seus pais e avôs realizavam grandes festas e cerimônias, nas quais todos se pintavam e se paramentavam para dançar e cantar ao som de vários tipos de instrumentos musicais. Descrevem com saudades como eram os ''dabucuri'' (''pooyé'') de antigamente, cerimônias de oferecimento de alimentos e produtos artesanais entre grupos afins e parentes próximos; as festas de ''kapiwaya'', conjunto muito valorizado de cantos e danças executado em ocasiões rituais em que se faz também o uso da bebida ''kahpi''; as cerimônias de iniciação dos meninos com uso das flautas de ''jurupari''; os ritos de iniciação das meninas e as festas de caxiri que os seus antepassados faziam. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As cerimônias de dabucuri e as festas de caxiri constituem ainda hoje elementos centrais da sociabilidade waíkhana para com parentes e cunhados. Também as danças embaladas ao som das flautas cariçu são amplamente praticadas nas comunidades do Papuri e do Uaupés. Alguns grupos locais, especialmente no Papuri, ainda realizam as danças e cantos de kapiwaya, embora em contextos menos ritualizados do que faziam os antigos. Mas outras práticas rituais como o jurupari e a ingestão do kahpi não são mais realizadas pelos Waíkhana. Os mais velhos dizem que esses conhecimentos foram perdidos, que hoje não existe mais entre os Waíkhana quem saiba preparar e benzer o kahpi, nem quem detenha os saberes para realizar a cerimônia de jurupari. E mesmo no contexto de retomada de algumas práticas e no esforço por fortalecer os conhecimentos, a língua e a cultura waíkhana empreendido por alguns de seus clãs nos últimos vinte anos, muitos parecem crer que certas coisas não podem mais ser resgatadas. Pois além dos saberes que se perderam, certas práticas exigem um preparo corporal e espiritual que hoje, segundo dizem, quase ninguém mais possuiria ou estaria disposto a alcançar. Pois com o tipo de vida que agora se leva, seria muito difícil para as pessoas cumprirem certas regras e restrições que estas tarefas e cerimônias exigem, devido às potências que mobilizam. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, mesmo sem os grandes rituais do passado, os Waíkhana vão prosseguindo na constituição de pessoas e no fortalecimento da força de vida do grupo. Isso se dá através da língua, dos  benzimentos, dos nomes cerimoniais, da memória social e das narrativas passadas de geração em geração. Assim, mesmo dispersos por um território tão extenso, os Waíkhana mantêm sua identidade cultural e o vínculo espiritual com o passado ancestral, o que os constitui enquanto um grupo de descendência e um coletivo diferenciado na rede intercultural do Noroeste Amazônico. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de Informação ==&lt;br /&gt;
* ANDRELLO, G. ''Cidade do índio: transformações e cotidiano em Iauaretê''. São Paulo: Editora UNESP/ISA; Rio de Janeiro: NUTI, 2006  &lt;br /&gt;
* CHAGAS, Dorvalino S. J. V. ''O mundo dos Pamulin Mahsã Waíkhana''. Dissertação de mestrado. UFPE, 2001&lt;br /&gt;
* LASMAR, Cristiane. ''De volta ao lago de leite: gênero e transformação no Alto Rio Negro''. Unesp, 2005.&lt;br /&gt;
* PEREIRA, Rosilene Fonseca et al. ''Criando gente no alto Rio Negro: um olhar waíkhana''. Dissertação de mestrado. Manaus: Ufam, 2013.&lt;br /&gt;
* SILVA, Aline Scolfaro Caetano da et al. ''Falas Waíkhana: conhecimento e transformações no alto rio Negro (rio Papuri)''. Dissertação de mestrado. São Carlos: UFScar, 2012.&lt;br /&gt;
* STENZEL, Kristine; CEZARIO, Bruna. ''WA’IKHANA WEHSEPɄ BUUDE WEHẼ GɄ EHSAMII EMO SAÑODUKUGɄ TɄ’OSUAɄ F''. O. Rio de Janeiro: Revista Linguística, 2019.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
Cuidado ao editar esta seção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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Detalhes em http://www.mediawiki.org/wiki/Transclusion#Semantic_MediaWiki&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE: Waíkhana (Pira-tapuya)}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Aline Scolfaro Caetano da Silva}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
{{#set:Capa=capa_pira_tapuia.jpg}}&lt;br /&gt;
{{#set:Crédito capa=Aline Scolfaro, 2010}}&lt;br /&gt;
{{#set:Counter=60574}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=2002-09-01}}&lt;br /&gt;
{{#set:Estilo=escuro}}&lt;br /&gt;
{{#set:Povo Id=218}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas no Amazonas]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos transfronteiriços: Brasil-Colômbia]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Quem_%C3%A9_%C3%ADndio%3F&amp;diff=8538</id>
		<title>Quem é índio?</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Quem_%C3%A9_%C3%ADndio%3F&amp;diff=8538"/>
		<updated>2025-11-11T14:49:32Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Por Eduardo Viveiros de Castro, pesquisador e professor de antropologia do Museu Nacional (UFRJ) e sócio-fundador do ISA&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
    &amp;quot;Indígena&amp;quot; é qualquer membro de uma comunidade indígena, reconhecido por ela como tal.&lt;br /&gt;
    &amp;quot;Comunidade indígena&amp;quot; é toda comunidade fundada em relações de parentesco ou vizinhança entre seus membros, que mantém laços histórico-culturais com as organizações sociais indígenas pré-colombianas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As relações de parentesco ou vizinhança constitutivas da comunidade incluem as relações de afinidade, de filiação adotiva, de parentesco ritual ou religioso, e, mais geralmente, definem-se nos termos da concepção dos vínculos interpessoais fundamentais própria da comunidade em questão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os laços histórico-culturais com as organizações sociais pré-colombianas compreendem dimensões históricas, culturais e sociopolíticas, a saber:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
    A continuidade da presente implantação territorial da comunidade em relação à situação existente no período pré-colombiano. Tal continuidade inclui, em particular, a derivação da situação presente a partir de determinações ou contingências impostas pelos poderes coloniais ou nacionais no passado, tais como migrações forçadas, descimentos, reduções, aldeamentos e demais medidas de assimilação e oclusão étnicas;  &lt;br /&gt;
    A orientação positiva e ativa do grupo face a discursos e práticas comunitários derivados do fundo cultural ameríndio, e concebidos como patrimônio relevante do grupo. Em vista dos processos de destruição, redução e oclusão cultural associados à situação evocada no item anterior, tais discursos e práticas não são necessariamente aqueles específicos da área cultural (no sentido histórico-etnológico) onde se acha hoje a comunidade;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
    A decisão, seja ela manifesta ou simplesmente presumida, da comunidade de se constituir como entidade socialmente diferenciada dentro da comunhão nacional, com autonomia para estatuir e deliberar sobre sua composição (modos de recrutamento e critérios de inclusão de seus membros) e negócios internos (governança comunitária, formas de ocupação do território, regime de intercâmbio com a sociedade envolvente), bem como de definir suas modalidades próprias de reprodução simbólica e material.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[Maio, 2005]&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Categoria:Artigos assinados]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8537</id>
		<title>Povo:Zo'é</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8537"/>
		<updated>2025-11-10T18:23:09Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Vivem numa área de densas florestas, entre os rios Cuminapanema e Erepecuru, no Norte do Pará. Os Zo’é convivem com agentes de assistência há quase quatro décadas, mantendo vigorosamente suas formas de organização social e territorial. Este povo em situação de recente contato vem se mobilizando para implementar o PGTA da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3927 TI Zo'é] e seu protocolo de consulta. Através da sua organização representativa, a Tekohara, fortalecem a gestão de um Fundo de Artesanato, um mecanismo original de trocas coletivas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conheça mais sobre esse povo no documentário &amp;lt;em&amp;gt;Zo’é rekoha – modo de vida zo’é&amp;lt;/em&amp;gt;. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;htmltag tagname=&amp;quot;iframe&amp;quot; src=&amp;quot;https://www.youtube.com/embed/ADG2M06cEBQ?si=YF_B7YHBW1aEvTn2&amp;quot; width=&amp;quot;100%&amp;quot; height=&amp;quot;394&amp;quot; allow=&amp;quot;autoplay&amp;quot;&amp;gt; Video Iframe &amp;lt;/htmltag&amp;gt;&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
== Nome e língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Os Zo'é durante uma oficina de Letramento, Dominique Gallois, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/4_f54a65283e04d93/52684scr_8d884e9b4241947.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pronome &amp;lt;em&amp;gt;jo’é&amp;lt;/em&amp;gt; [zo’é], “nós mesmos”, se consolidou como uma autodenominação que diferencia este povo dos não indígenas, chamados &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;. Já outros povos indígenas são chamados de “&amp;lt;em&amp;gt;amõ jo’é&amp;lt;/em&amp;gt;” (outros, como nós). No final dos anos 1980, quando começaram a conviver com missionários e com servidores da Funai, esse termo não era usado para designar a eles mesmos, mas para identificar qualquer pessoa que adquirisse alguma proximidade e que passasse, então, a ser considerada “gente como nós”. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os termos &amp;lt;em&amp;gt;Poturu&amp;lt;/em&amp;gt;, ou &amp;lt;em&amp;gt;Poturujara&amp;lt;/em&amp;gt;, difundidos inicialmente por agentes da Funai como denominação do povo recém-contatado na região do Cuminapanema, designam tão somente a madeira da árvore utilizada para confeccionar os adornos labiais &amp;lt;em&amp;gt;embe’pot&amp;lt;/em&amp;gt;. “&amp;lt;em&amp;gt;Poturu!&amp;lt;/em&amp;gt;” respondiam os Zo’é, quando alguém apontava para seus rostos, buscando saber seu nome.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Zo’é são falantes de uma língua Tupi-Guarani, do tronco Tupi. A maior parte da comunidade é monolíngue, com exceção de alguns chefes e de uma dezena de jovens, que aprenderam a se comunicar em português e estão adquirindo rapidamente maior fluência, no âmbito de suas funções de gestão da &amp;lt;strong&amp;gt;Tekohara – Organização Zo’é&amp;lt;/strong&amp;gt;. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Experiências de contato e de convivência com ''kirahi'' ==&lt;br /&gt;
A área onde vivem os Zo’é situa-se em território histórico de povos de língua Karib, que ocupam as terras firmes do planalto das Guianas. Seus vizinhos mais próximos são os [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Tiriy%C3%B3 Tiriyó], ao Norte; os [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Aparai Aparai] e [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Wayana Wayana], a Leste; os quilombolas e castanheiros não indígenas ao Sul. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As fontes disponíveis sobre a região Norte do Pará não trazem informações suficientes para acompanhar a trajetória da migração dos Zo’é até seu &amp;lt;em&amp;gt;habitat&amp;lt;/em&amp;gt; atual, mas é certo que este povo tem sua origem ao sul. Essa é a direção que eles indicam quando são indagados sobre sua procedência antiga, embora a localização das aldeias de antepassados longínquos não seja assunto de grande interesse.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como ocorre na tradição oral das sociedades indígenas que mantêm contatos antigos com a população regional, a presença de não indígenas acaba sendo integrada ao tempo mítico. Os Zo’é não questionam nem a origem, nem os movimentos dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;, ou dos povos inimigos: todos eles, simplesmente, sempre existiriam. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diz-se, inclusive, que quando &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt; recriou a humanidade, não precisou refazer os não indígenas, que não haviam sido engolidos pelo dilúvio: eles já existiam, mas estavam longe, “na borda da terra”. Elementos históricos são agregados ao mito, associando o evento da recriação a contatos interétnicos. O fogo que destruiu a terra foi provocado por inimigos, habitantes do Leste; para alcançar as ossadas dos humanos destruídos pelo dilúvio, o herói vem do Sul, flutuando em um recipiente típico dos não indígenas: um corote de gasolina. Depois, cada um volta a ocupar seu espaço: os não indígenas ficam no Sul; os Zo’é nas serras, longe dos rios; os inimigos a Leste.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/Jipohan_%C3%A9_gente_como_voc%C3%AA “Jipohan é gente como você”, por Jurusi uhu, Pa'hi e Tatitu Zo'é]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/763735-2/DSC_3332_edit.JPG|Jurusi uhu Zo'é. Foto: Dominique Tilkin Gallois&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Era comum, nos anos 1990, os Zo’é perguntarem aos visitantes: “Vocês viram onde está &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt;, aquele herói que revitalizou seus ancestrais juntando ossos dos flagelados pelo último cataclismo?” Os Zo’é consideravam &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt; como um &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;. Após sua façanha de recriação, ele voltou para sua terra de origem, no Sul. É descrito usando roupas, escrevendo, usando canoa com motor, gravador, injeções e ferramentas diversas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como é comum na elipse temporal que o mito efetua, os Zo’é atualizam suas tradições com ingredientes extraídos de sua experiência do passado e de suas expectativas de futuro. Razão pela qual, na morada celeste dos mortos, os ex-Zo’é têm acesso irrestrito à mercadorias, inclusive espingardas, que lhes são fornecidas por alguns ex-&amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; generosos – como foi um servidor da Funai, Isidoro, que segue lhes trazendo mercadorias desejadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como ocorreu em muitos lugares, os eventos do contato dos Zo’é com missionários e depois com servidores da Funai envolveu diretamente a questão do acesso às mercadorias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Luis Donisete B. Grupioni/1989&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281189-1/zoe_7.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os então chamados “Índios do Cuminapanema” foram apresentados ao mundo em 1989, em reportagens que enfatizavam sua “pureza” e “fragilidade” e os descreviam como um dos últimos povos “intactos” na Amazônia. E justamente por serem um dos raros grupos ainda “não atingidos” nem pela mensagem evangélica, nem pela assistência oficial, os Zo’é atraíram a atenção da Missão Novas Tribos (MNT), que iniciou seu trabalho na região em 1982. Foram necessários cinco anos de sucessivas aproximações e recuos para “pacificar” os Zo’é – até que em 1987 os missionários  instalaram a Base Esperança na porção sul da atual TI Zo’é. Ali, passaram a controlar sozinhos o processo de acomodação dos Zo’é à nova situação, até a Funai assumir a área em 1991.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, os Zo’é já tinham experiências de encontro com não indígenas desde muito tempo. Relatam inclusive a saída de uma mulher que viajou até Santarém, de onde acabou voltando, provavelmente no final do século XIX.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
No final dos anos 1960, o território zo’é passou a ser percorrido por caçadores de felinos, conhecidos como “gateiros”. Nesse período, os Zo’é encontravam em suas trilhas, gaiolas, ferramentas abandonadas, restos de acampamentos. Também encontravam vestígios de coletores de castanha. Eram contatos indiretos, ou, como dizem os Zo’é, “sem carne/sem corpo”, pois não viam os forasteiros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Dominique Gallois, 1991&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281182-1/zoe_4.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1975, eles foram surpreendidos por visitas mais espetaculares, quando um helicóptero do Instituto de Estudos e Pesquisas do Pará despejou embrulhos com roupas e objetos sobre a aldeia Kejã. Foi também com presentes lançados do céu, ou dependurados no caminho das aldeias, que os membros da Missão Novas Tribos se aproximaram. Entre 1982 e 1987, eles estiveram várias vezes em acampamentos ou aldeias, saindo rapidamente. Segundo os Zo’é, muitas pessoas ficavam doentes na sequência dessas visitas e, como demoravam meses para voltar, as pessoas acometidas por doenças pulmonares morriam. Eles também relatam que resolveram se deslocar rumo ao Sul, em busca de uma explicação para esse “sopro” de doenças e para pegar mais objetos, chegando finalmente à Base Esperança em outubro de 1987, data oficial do “contato” com a MNT. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
===Terçados, epidemia e mortes===&lt;br /&gt;
{{Lead |por '''Fábio Ribeiro'''}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As notícias trazidas sobre os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; que davam facões e machados logo se espalharam pelas aldeias e em pouco tempo muitos Zo’é foram atrás dos missionários. Como não havia ferramentas para todos, o clima logo ficou tenso. Os homens que não pegaram facões ficaram bravos, bateram nas paredes entraram e saquearam a casa dos missionários, na localidade de Kuruaty. Esses, com muito medo, foram embora. As doenças, no entanto, ficaram. É nesse período que tem início a epidemia que em poucos dias tirou a vida muitas outras pessoas zo’é. “&amp;lt;em&amp;gt;Kirahi rahy ate juke&amp;lt;/em&amp;gt;. Foi a doença dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; que matou”. O relato de Hun, um atual chefe Zo’é é claro ao afirmar que a epidemia teve início logo após o encontro de Tun e Dubehaj com os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; e que, apenas muito tempo depois, quando encontraram Sera’yt (em 1987), é que os missionários trouxeram injeções com remédios, mas não vacinas. Hun, ainda criança nessa época, foi duramente afetado: seu pai, sua mãe e alguns de seus irmãos morreram na maloca de Pirity. “Naquele tempo os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; foram embora mesmo. Depois os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; pensaram de novo, queriam ver os Zo’é de novo, aí os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; voltaram. Foi então nessa época que encontraram Sera’yt (...) e ficaram alegres. Naquela época os Zo’é tinham mandado embora, então os kirahi pensaram, aí abriram o caminho novamente. Passaram-se muitas luas naquele tempo, e aí os missionários voltaram.” – Adaptado de &amp;lt;em&amp;gt;Kampugerau: crônica de um movimento zo’é &amp;lt;/em&amp;gt;, 2024&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após essa notícia, a Funai criou o PINC Cuminapanema, subordinado à 4ª SUER/Funai em Belém (Portaria nº 1.061, de 22 de maio de 1987). No ano seguinte, o convênio 008/1998 celebrado entre a Funai e a MNT vedava sua atuação em áreas de indígenas isolados. Mas a Missão não se retirou e continuou seu trabalho junto aos Zo’é. Até que, em janeiro de 1989, a Missão alertou a Funai sobre a precária situação de saúde dos Zo’é. O sertanista Sidney Possuelo conseguiu apoio da imprensa e pôde assim realizar uma primeira visita à área. Numa segunda viagem, pouco tempo depois, a equipe da Funai verificou que a situação de saúde estava piorando e começou então a planejar um trabalho mais sistemático. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante mais de um ano, os Zo’é assistiram à convivência tensa entre as equipes da Funai e da Missão Novas Tribos, cada uma com sua base, entre as quais eles continuaram circulando para obter remédios e objetos industrializados. Quando conseguiu recursos e pessoal adequados para assumir um trabalho de assistência que abrangesse a totalidade das quatro aldeias existentes na época, a Funai retirou os missionários da área, em outubro de 1991. A partir desse momento, os sucessivos responsáveis pelo PINC Cuminapanema, orientados pelo então Departamento de Índios Isolados (DII), da Funai, passaram a desempenhar  ações de proteção do povo Zo’é e de sua terra, em formatos que variaram sensivelmente ao longo dos anos. Foi somente a partir de dezembro de 2009, com a reestruturação da Funai, que o órgão indigenista instituiu a  Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC), incluindo a proteção às populações de recente contato como os Zo’é. A Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema (FPEC) foi criada em 2011 (Portaria Nº 1816/PRES, de 30 de dezembro de 2011) e, desde então, segue novas diretrizes para a promoção da integridade cultural e territorial do povo Zo’é.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A regularização da TI Zo’é ==&lt;br /&gt;
Em 1987, a Funai procedeu à interdição da Área Indígena Cuminapanema/Urucuriana, com uma extensão de aproximadamente 2.059.700 hectares, ao sul do [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3885 Parque Indígena de Tumucumaque], nos municípios de Alenquer e Óbidos, Pará ([https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/ZED00005.pdf Portaria nº 4.098 de 30/12/1987]). A interdição visava dar condições de trabalho à equipe da Funai, para o reconhecimento de numerosas referências de indígenas  isolados levantadas pelo então DII. Na época, a Funai já conhecia a presença dos Zo’é, através de informações repassadas pela Missão Novas Tribos, que havia localizado este povo em 1982.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Zo'é trabalhando na construção de novas casas, Leonardo Viana Braga, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/9/0_eedce20393fa4de/52690scr_4bbc991f8b7ca54.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os trabalhos de identificação e delimitação da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3927 Terra Indígena Zo'é] aconteceram entre 1996 e 1998, com a participação ativa dos Zo’é e de vários técnicos e especialistas, em muitas etapas. A primeira, de estudos antropológicos, incluiu a preparação da comunidade para que os Zo’é pudessem acompanhar todos os procedimentos da regularização de seu território. A Portaria nº 309 de 04/04/1997 constituiu o Grupo de Trabalho cujo [https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/ZED00014.pdf relatório de identificação e delimitação] foi submetido à aprovação da Funai em novembro de 1998.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A demarcação física da Terra Indígena, com 668.565 hectares, foi realizada entre 1999 e 2000, por uma empresa contratada pela Funai. Contrariamente ao acordado com os Zo’é durante os trabalhos de identificação, eles não puderam acompanhar os trabalhos demarcatórios e foram mantidos alheios ao processo de regularização de seu território. Após a revisão de erros na delimitação do limite sul, a homologação e o registro no Serviço de Patrimônio da União (SPU), a demarcação da Terra Indígena foi finalmente  consagrada por decreto presidencial (s/n), publicado no Diário Oficial da União (DOU) em 22 de dezembro de 2009.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2008, a pedido do Ministério Público Federal, foi criada uma faixa de amortecimento em volta da Terra Indígena, a Zona Intangível das Florestas Estaduais (FES) [https://uc.socioambiental.org/pt-br/arp/4641 Trombetas] e [https://uc.socioambiental.org/pt-br/arp/4642 Paru]. Essa área não poderia receber nenhum tipo de exploração econômica para evitar a contaminação dos indígenas em situação de recente contato. Com a aprovação do Plano de Manejo da FES do Trombetas pelo Conselho Estadual de Meio Ambiente do Pará, a faixa foi incorporada no zoneamento da Unidade de Conservação. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Iniciativas dos Zo’é consolidam novos rumos ==&lt;br /&gt;
Durante vinte anos, a atuação do órgão indigenista se centrou em manter os Zo’é afastados das relações com os não indígenas e suas tecnologias, evitando também qualquer encontro com povos indígenas vizinhos. Mas em 2010, os Zo’é tomaram a iniciativa de romper a aliança que mantinham com a equipe da Frente de Proteção da Funai e saíram da terra demarcada para buscar mercadorias que lhes eram recusadas em seu território. Um grupo se dirigiu ao Norte, ao encontro dos Tiriyó no Rio Marapi, e outro se dirigiu aos Campos Gerais, além do limite Sul da Terra Indígena, onde trabalharam com coletores de castanha. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Voltaram trazendo espingardas velhas, redes de &amp;lt;em&amp;gt;nylon&amp;lt;/em&amp;gt;, roupas usadas e alguns gêneros alimentícios, além de várias pessoas doentes. A experiência rendeu importantes aprendizados no que toca aos modos de relação com seus vizinhos, indígenas e não indígenas, e resultou na revisão da política de proteção da TI Zo’é – até então fundada na manutenção de um rígido “isolamento” e na contenção de seus pedidos de acesso não só às mercadorias como a conhecimentos sobre o modo de vida dos não indígenas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi nesse contexto que o [https://institutoiepe.org.br/ Instituto Iepé] estabeleceu, em 2016, uma parceria com a nova gestão da Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema (FPEC), visando criar alternativas para que os Zo’é acessassem informações e experiências que lhes permitissem compreender e se posicionar frente aos interesses dos diferentes setores da sociedade brasileira. Buscou-se atender às demandas dos Zo’é, através de um conjunto de ações educativas e de apoio às suas próprias iniciativas de vigilância territorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Planejando o futuro e a proteção do território ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em novembro de 2019, os Zo'é pactuaram seu Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da TI Zo'é, onde definem suas prioridades para o futuro. “&amp;lt;em&amp;gt;Jo’e rekoha bokitute ram&amp;lt;/em&amp;gt; – Planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro” foi o título escolhido pelos Zo’é para esse plano de gestão, onde explicitam as diretrizes para a proteção de seu território e de seu modo de vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Foto: Transporte de canoa recém construída pelos Zo'é, Hugo Prudente, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/6_92ae3e7baf9ad67/52686scr_d2b118ef8ea028d.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas atividades realizadas para a construção do PGTA, entre 2016 e 2019, confirmou-se a mudança de foco nos interesses dos Zo’é. Menos inquietos em garantir abastecimento de objetos dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;, estavam mobilizados para ampliar sua circulação pelo território, não só reconhecendo áreas ocupadas pelos antigos, como abrindo novos percursos para avaliar as reservas de caça e pesca e as possibilidades de abertura de novos assentamentos. No documento, os Zo’é afirmam: “Queremos que nossos filhos sigam ocupando vastamente o nosso território”, colocando o processo de dispersão de aldeias como um dos fundamentos do bem viver. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa mobilidade promoveu novas incursões e a vigilância mais sistemática em áreas fartas em recursos, como os grandes castanhais no Sul e em outras porções do território. Uma das diretrizes do PGTA dedica especial atenção à vigilância dessa região, que foi invadida por castanheiros em 2018 e que, desde então, vem sendo ocupada por aldeias novas e acampamentos. Como escreveram os Zo’é no documento: “Nós, coletando essa castanha, invasores não virão mesmo. Aqui é nossa terra, a castanha está na nossa terra. Tem castanha na terra dos não índios, essa deve ser a castanha deles. Essa aqui é nossa castanha. Estamos falando duramente agora”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
“Fazer saber o nosso território” é uma afirmação e um objetivo a ser buscado, articulando ações de vigilância e de ocupação. Mobiliza concepções importantes da territorialidade zo’e, como o zelo pelos lugares habitados, a articulação entre os diversos grupos familiares na abertura de uma nova aldeia e o caráter regular das idas e vindas implicadas em uma iniciativa de expansão territorial. Nesse movimento, os grupos territoriais se reestruturam, mantendo suas diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
Confira aqui o [https://institutoiepe.org.br/2022/05/plano-de-gestao-territorial-e-ambiental-zoe/ PGTA &amp;lt;em&amp;gt;Jo’e Rekoha Bokituteha Ram&amp;lt;/em&amp;gt; – Planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro]!&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== População e proliferação de aldeias ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Distribuição de bebida ''sepy'' durante uma festa dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/7/4/6_cd584b0ad074849/52746scr_dcd3b057e91c8af.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A população Zo'é praticamente dobrou nos últimos trinta anos: eram 172 em 1998, à época da identificação da TI. Em 2011 eram 261 e hoje são 350 pessoas (Iepé, 2025). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Zo'é subdividem-se em dois grandes grupos, respectivamente situados ao Norte e ao Sul da Base da Funai, em que se distribuem os 19 grupos locais (&amp;lt;em&amp;gt;iwana&amp;lt;/em&amp;gt;), que circulam em determinadas áreas territoriais, onde estão suas aldeias antigas e recentes, além de acampamentos. Os &amp;lt;em&amp;gt;Iwana&amp;lt;/em&amp;gt; agregados de famílias extensas, atualmente em número de 31, que vivem em aldeias próximas, e cuja composição sofre constantes alterações em função das alianças matrimoniais e das parcerias estabelecidas para ocupar novas áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos últimos dez anos, ocorreu um processo de proliferação de aldeias muito significativo. Na época da instalação da Funai em 1991, eram apenas quatro; eram cinco em 1998, 12 em 2011 e hoje existem 62 aldeias. Configuram conjuntos de pequenas aldeias ocupadas de forma intermitente por famílias extensas que vivem em lugares próximos e circulam entre seus vários assentamentos, em função da fartura de recursos e dos cuidados das roças. Essa intensa mobilidade está relacionada ao apoio logístico que recebem tanto da FPE-Funai como do Iepé, com uma rede de radiofonia em praticamente todas as aldeias. Merece destaque o fato de que, nos últimos anos, os Zo’é têm optado por fabricar suas próprias canoas em madeira de aroeira, preferidas – por enquanto – às voadeiras de alumínio, não só difíceis de transportar até a TI, como exigindo manutenção custosa. Aprenderam a fabricar canoas num intercâmbio que levou especialistas do povo [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Waiwai Waiwai] para a TI Zo’é em 2017 e, desde então, cada família procura construir sua própria embarcação, na qual são instalados os motores rabeta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Estações e ritmos da vida ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Indígenas zo'é finalizando uma rede de fibra de castanheira, Flora Dias Cabalzar, 2016.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/5_7ed184682c27e1c/52685scr_a5f3ac836c6e409.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma das principais características do modo de vida dos Zo’é, até hoje, é a intensa mobilidade das famílias pelo território. Todos têm acesso aos recursos florestais sem esgotá-los, uma vez que as atividades de cultivo das roças, de caça, pesca e coleta são feitas em pequena escala, pelas diferentes famílias, em áreas distintas. É também nesses movimentos que os Zo’é atualizam o exímio conhecimento acumulado sobre seu território, constantemente percorrido através de uma intrincada rede de caminhos entre aldeias, capoeiras e locais de coleta de itens necessários no dia a dia, tanto para alimentação como para a fabricação de utensílios.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um modo de vida que garante aos Zo’é uma alimentação exclusivamente composta de sua produção agrícola, da caça, pescado e frutas. Também merece destaque o fato de os Zo’é não utilizarem espingardas, mas sim seus arcos, flechas e arpões, complementados com anzóis e linhas de pesca industrializadas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Homem zo'é cuidando de flechas, Dominique Tilkin Gallois, 2023.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/7_234521b7fa212cf/162427scr_wm_3c5190633e93dd0.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O caráter sazonal de alguns recursos dos quais os Zo’é se utilizam conforma a dinâmica de circulação das famílias pelo território e também repercute nos movimentos de aproximação e distanciamento entre essas famílias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É no tempo das chuvas, de fevereiro a julho, que acontecem os períodos mais prolongados de dispersão das famílias pelo território, quando são realizadas grandes caçadas, principalmente de macaco-aranha e de tucano. No início das chuvas, as famílias também se deslocam para a beira de igarapés e hoje também de rios maiores, aproveitando o volume das águas para caçar urubu-rei, usando peixes podres como iscas. Instalados nos acampamentos, os Zo’é retornam às aldeias para buscar farinha, preparada com antecedência e estocada nas casas; quando ela acaba, permanecem alguns dias para preparar mais farinha, beiju e tapioca.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O período ideal para a caça de ''kwata'' (macaco-aranha, coatá ou coamba) vai de março a maio, período denominado ''kwata ike'', quando estão gordos. Montam-se acampamentos específicos, de onde os homens saem para as serras, em busca dos macacos. No final desse período, em maio, tucanos, araras e papagaios já estão comendo frutas de palmeiras. É a estação chamada de ''token ike'', do “tucano gordo”, que dura cerca de um mês e meio, quando bandos numerosos de aves vêm comer patauá ou açaí, em locais de concentração de frutas. Já é no final da estação chuvosa e início da estação seca que os porcos queixadas e caititus estão gordos, motivando saídas frequentes de grupos de homens às trilhas das varas de porcos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Moça zo'é preparando leite de castanha, Dominique Tilkin Gallois, 2023.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/9_d567041deb9c12a/162429scr_wm_697db62eab28f2f.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre os recursos mais valorizados nesse calendário do tempo das chuvas, a castanha-do-Brasil é um alimento básico na dieta. Os Zo’é colhem os ouriços a partir de janeiro e consomem amêndoas em profusão durante toda a estação chuvosa; durante o verão, colhem ouriços ainda verdes e continuam comendo castanha o ano todo, em preparos diversos com produtos da mandioca ou carnes. Como é também nesse período que muitas frutas amadurecem, é comum interromperem o movimento de dispersão entre acampamentos para fazer festas, quando se distribui grande quantidade de bebida fermentada ''sepy''.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A estação seca, de final de julho até o início de janeiro, é marcada pelo trabalho nas roças. É quando a vida nas aldeias se intensifica, sendo um período de maior aproximação entre grupos familiares. Isso não significa que as famílias não mantenham, no verão, outras atividades que as leve a deixar a aldeia. Saem para buscar frutas da estação, como o açaí que é trazido em grandes cachos. Mas sobretudo saem para pescar com timbó, com anzóis, ou ainda com flecha ou zagaia. No verão, também acontecem expedições de caça, em geral mais curtas e só entre homens, já que as mulheres ficam nas aldeias cuidando das roças. Além disso, como muitas famílias mantêm cultivos em mais de uma aldeia, deslocam-se para dar conta de todas as roças. O corte, queima e limpeza das roças se prolonga até dezembro, meados de janeiro, quando a castanha está de novo madura, e os Zo’é limpam a roça da mandioca que brotou e fazem novo plantio. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Refeição familiar dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017.&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/9_9e70545c4b7fee0/52689scr_5d2f4b741f6cd92.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A mandioca é o principal cultivo, com uma variedade de produtos: farinha, beiju, tapioca, tucupi. As mulheres, inclusive com colaboração dos homens para ralar as raízes, dedicam muito de seu tempo ao processamento da mandioca: descascar, ralar, espremer no tipiti, peneirar, torrar farinha. Os Zo’é também cultivam pimenta, batata-doce, cará, banana, mamão, caju, goiaba, graviola, manga, urucum, algodão, cuia, cabaça, curauá e cana de flecha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade de vida dos Zo’é decorre, portanto, desse grande acervo de saberes e práticas do cotidiano, transmitidos e aperfeiçoados ao longo das gerações. Se, nas últimas décadas, os Zo’é se apropriaram seletivamente de alguns itens industrializados, continuam valorizando suas próprias tecnologias para fabricar os artefatos que utilizam cotidianamente.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Ler e escrever na própria língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Os Zo'e durante uma oficina de Letramento, Dominique Tilkin Gallois, 2023&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/6_07c4c88f97d55fe/162426scr_wm_9578fba3a29bfe7.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre as ações educativas construídas com os Zo’é para promover a discussão e pactuação do PGTA, destacam-se as atividades de letramento, iniciadas pelo Iepé em 2017. Tanto para a formulação adequada das medidas de proteção como, sobretudo, para a apropriação duradoura deste plano, era imprescindível que os próprios Zo’é pudessem redigir e atualizar as diretrizes de gestão de seu território. Trata-se de um programa não escolar de letramento, que é concebido não apenas como um meio de apropriação da leitura e escrita – por enquanto apenas na língua zo’é – e a iniciação à matemática, mas também como aproximação aos conceitos, à linguagem e às práticas relacionadas aos direitos assegurados aos povos indígenas pela [https://pib.socioambiental.org/pt/Constitui%C3%A7%C3%A3o Constituição brasileira de 1988]. É nesse sentido que as ações de letramento viabilizaram a criação da Tekohara, organização representativa do povo Zo’é, na consolidação de seu Fundo de Artesanato, o FAZ, e na construção de um [https://institutoiepe.org.br/2025/08/protocolo-de-consulta-e-consentimento-zoe/ protocolo de consulta e consentimento]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a pandemia de Covid-19, durante a qual todos os trabalhos com os Zo’é foram suspensos, consolidou-se uma turma de cerca de 40 jovens e adultos, depois separada em duas, correspondendo aos grupos do Norte e do Sul. Reúnem-se quatro vezes por ano nos Encontros de Letramento, realizados na “casa grande” da Base da Funai, em Kejã. Destacaram-se rapidamente oito jovens, que passaram a atuar como multiplicadores nas atividades de letramento, como tradutores e mais recentemente assumiram cargos na gestão da organização representativa, Tekohara. Além desses Encontros, oficinas específicas promovem a construção participativa de materiais didáticos, hoje já com mais de 20 títulos versando sobre os mais diversos temas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Todos os materiais produzidos procuram registrar as reflexões dos Zo’é sobre seu modo de vida, sobre as mudanças recentes que interferem nas formas de ocupação do território, sobre experiências novas de gestão advindas da consolidação de sua associação etc. Entre eles, destacam-se os cadernos da série ''Rekoha'', que sempre iniciam com a feitura de um mapa por um líder de grupo local, complementado por pequenos textos extraídos das conversas sobre suas iniciativas de abertura de caminhos, roças, acampamentos de caca e pesca, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra série de materiais traz resultados de uma pesquisa colaborativa sobre cantos, engajando jovens letrados e conhecedores mais idosos, que permitiu também introduzir o uso da informática, para a gestão de um acervo de cantos e de suas transcrições. Além disso, outros cadernos específicos apoiam a formação em gestão tanto da Tekohara como do Fundo de Artesanato Zo’é (FAZ). Mais recentemente, alguns cadernos trazem saberes das mulheres – que praticamente não participam das atividades de letramento – especialmente sobre o ciclo da castanha e sua culinária. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
=== Tekohara – Organização Zo’é ===&lt;br /&gt;
Após a pandemia de Covid-19, os Zo’é reativaram seu movimento de reorganização de relações com os não indígenas, inaugurado com a pactuação do PGTA, e criaram em 2022 uma organização representativa, denominada Tekohara. O nome ''Tekohara'' foi especialmente criado para a associação. Segundo os fundadores, a expressão inexiste na língua zo’é, porém remete à proteção do território, chamado em sua língua de – ''tekoha''. Constitui assim uma síntese do que consideram ser a atuação prioritária da organização, em consonância com todo o trabalho de gestão territorial que os Zo’é vêm conduzindo nos últimos anos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A assembleia de fundação reuniu praticamente toda a população zo’é, incluindo idosos e crianças. Desses, todos os maiores de 17 anos, totalizando 198 pessoas à época, se tornaram associados, que escolheram e aclamaram seus representantes para duas instâncias de gestão:  o Conselho de Chefes e a Diretoria. O primeiro é composto por ''sete iy'', principais líderes zo’é, reconhecidos pelos demais chefes de todos os subgrupos. Em 2025, a assembleia escolheu outros chefes para o conselho, hoje um total de 11, que também constituem o Conselho Fiscal da associação. A diretoria é constituída por cinco jovens letrados, que se consideram “ajudantes dos chefes” e atuam diretamente nas instâncias que exigem a leitura e escrita de documentos, a convocação e mediação de reuniões, a gestão de recursos, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2024, os chefes do conselho e os jovens da diretoria, além de outros adultos interessados, construíram o protocolo de consulta e consentimento, ao longo de cinco oficinas e de várias reuniões de apresentação e aprovação do documento, publicado em duas línguas, em 2025. Afirmam, neste protocolo: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
“Temos nos reunido regularmente para conversar e com isso nossa associação está firme, porque discutimos todos os assuntos importantes. Como consolidamos nosso próprio jeito de fazer reuniões e tomar decisões, temos clareza sobre como devemos nos posicionar sobre quem pode e quem não pode entrar em nosso território (...) É porque mantemos um mesmo entendimento sobre a proteção de nosso território que as decisões não são difíceis. É assim que alcançamos consenso entre nós todos”. – Protocolo de consulta e consentimento Zo’é (2025, pp. 14-21)&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/3_8ec6e605f080da0/162433scr_wm_6306ea1916b3650.jpg| Lideranças zo'é durante uma reunião da Tekohara, Kamikia Kisedje, 2024}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A gestão coletiva de um Fundo de Artesanato ==&lt;br /&gt;
Desde a instalação da Funai na Terra Indígena, em 1991, os Zo’é têm produzido artesanato para troca com visitantes, ainda que de modo episódico, obtendo assim diversos utensílios que foram, desde então, incorporados ao seu modo de vida. Naquele período, o Posto de Atração distribuía uma ou duas vezes por ano ferramentas, material de pesca, lanternas e pilhas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Os Zo'e durante a etiquetagem de peças comercializadas por meio do Fundo de Artesanato, Dominique Gallois, 2023&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/5_22188c531215eb0/162425scr_wm_ee3a42b7ee661ff.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já a partir de 2011, a CGIIRC-Funai passou a rever sua política de proteção, garantindo aos indígenas em situação de recém-contato novas experiências e formas de participação. Foi nesse contexto que o Fundo de Artesanato Zo’é (FAZ), foi criado em 2012, pela Frente Cuminapanema (FPEC). Tratava-se de ampliar as possibilidades de troca e assegurar maior autonomia no abastecimento de itens industrializados demandados pelos Zo’é. Sobretudo se buscou passar de um sistema de doação para um mecanismo coletivo de permutas, assegurando a distribuição de itens industrializados previamente selecionados para todas as famílias, que por sua vez entregam lotes de peças que correspondem aproximadamente ao valor dos objetos adquiridos pelo Fundo. Durante dez anos, o FAZ se consolidou sob gestão da equipe da Funai, mas desde 2022, é gerido diretamente pelos Zo’é, por meio da associação Tekohara, ainda que com algum apoio dos parceiros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O FAZ consiste num sistema de trocas que envolve todas as famílias zo’é, atendendo suas demandas por objetos industrializados. Nos últimos anos, acordou-se com os parceiros que itens como material de pesca, ferramentas, entre outros, são adquiridos através de projetos do Iepé, desonerando assim o FAZ. A lista do que deve ser comprado é aberta, mas inclui cerca de 20 itens, todos eles incorporados ao modo de vida dos Zo’é há várias décadas. A lista envolve itens de uso pessoal, como sandálias, espelhos, linhas para tipoias, sabão, panelas, tigelas, além de alguns itens necessários às atividades produtivas do cotidiano, como isqueiros, sacos para armazenar farinha e eventualmente ferramentas que não podem ser adquiridas através dos projetos dos parceiros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Tebo Zo'é segurando cumaru, Kamikia Kisedje, 2024&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/1_1085df758a31880/162431scr_wm_04d1d66a3aa490a.jpg }}&lt;br /&gt;
  &lt;br /&gt;
As famílias entregam peças de artesanato e recebem itens prévia e cuidadosamente selecionados em reuniões com os chefes de todas as aldeias. Ou seja, a um certo conjunto de artesanato vendido corresponde um certo número de itens industrializados adquiridos com o recurso da comercialização das peças. Seguindo a expressa preferência dos Zo’é, os itens são sempre comprados na quantidade que atenderá rigorosamente todas as famílias. As entregas são realizadas três a quatro vezes por ano, com itens que são escolhidos em reuniões trimestrais, para atender às necessidades do momento. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os artefatos comercializados pelo FAZ são os mesmos utilizados no cotidiano dos Zo’é e incluem trançados, recipientes em cerâmica, colheres, pentes, brincos e pulseiras. Tal seleção, entre os muitos itens da cultura material zo’é, obedece a critérios de sustentabilidade. A legislação vigente não permite a venda de plumária ou de flechas com ponta de osso, ou qualquer objeto fabricado com partes de animais. Arcos de madeira e redes feitas de fibras de castanheira tampouco são vendidos, para garantir aos Zo’é exclusividade no acesso a esses materiais essenciais em seu modo de vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar dessas restrições, os resultados do FAZ são muito promissores, não apenas por incentivar a continuidade dos saberes e práticas artesanais dos Zo’é, como por viabilizar a formação em gestão dos jovens e dos chefes. Ao se apropriar deste Fundo, os Zo’é souberam declarar e garantir critérios próprios na distribuição adequada dos bens adquiridos, em acordo com seus valores e considerações quanto às diferenças de gênero, idade e processos de aprendizagem, bem como à isonomia entre os grupos locais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além da venda de artesanato, a Tekohara também realiza a  venda de sementes de cumaru, coletadas pelas famílias envolvidas no FAZ. Desde 2019, o Fundo se beneficia ainda com a venda exclusiva dos livros da série Saberes Zo’é, atualmente com três títulos: [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Potuwa.pdf ''Potuwa pora kõ'' – O que se guarda no ''potuwa''] (2019); [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2021/07/Eremiu-rupa.-Abrindo-rocas_Trecho.pdf ''Eremi’u rupa'' – Abrindo roças] (2021) e [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Canoa-Zoe.pdf ''Ihara rape rupi'' – Pelo caminho da canoa] (2023).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/4_f91f5d08e62cbad/162424scr_wm_0c86653fd01dc21.jpg| Distribuição de sabão adquirido com recursos do FAZ, Dominique Tilkin Gallois, 2025}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;CABRAL, Ana Suely.Uma escrita para a Língua Zo'é. Brasília: Lalli/Unb/Funai, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin. De arredio a isolado : perspectivas de autonomia para os povos indígenas isolados. In: GRUPIONI, Luís Donisete Benzi (Org.). Índios no Brasil. São Paulo : Secretaria Municipal de Cultura, 1992. p. 121-34.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Essa incansável tradução : entrevista. Sexta Feira: Antropologia, Artes e Humanidades, São Paulo : Pletora, n. 6, p. 103-21, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Tupi do Cuminapanema : eles se chamam Zo'É. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1991/1995. São Paulo : Instituto Socioambiental, 1996. p. 280-7.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Zo'é. In: ASSIS, Rogério. São Paulo: Terceiro Nome, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Sobre alguns modos zo’e de fazer coletivos e lideranças”. In: FAJARDO GRUPIONI, D.; Andrade, L. M. M. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; GRUPIONI, Luís Donisete Benzi. O índio na Missão Novas Tribos. In: WRIGHT, Robin (Org.). Transformando os Deuses : os múltiplos sentidos da conversão entre os povos indígenas no Brasil. Campinas : Unicamp, 1999. p. 77-130.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
GALLOIS, Dominique Tilkin; BRAGA, Leonardo Viana; PEDREIRA, H. P. S. 2020 Construindo o Plano de Gestão Territorial e Ambiental com os Zo’é. In: Luis Donizete Benzi Grupioni (org.). Em busca do bem viver: Experiências de elaboração de Planos de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas. São Paulo: Rede de Cooperação Amazônica, 1. ed., v. 1.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. A redescoberta dos amáveis selvagens. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1987/88/89/90. São Paulo : Cedi, 1991. p. 209-14. (Aconteceu Especial, 18)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; HAVT, Nadja. Relatório de identificação da Terra Indígena Zo'é : Portaria 309/PRES/Funai - 04.04.97. São Paulo : Funai, 1998.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;HAVT, Nadja. De algumas questões sobre a participação de “índios isolados” no processo de regularização fundiária : o exemplo dos Zo’É. In: GRAMKOW, Márcia Maria (Org.). Demarcando terras indígenas II : experiências e desafios de um projeto de parceria. Brasília : Funai/PPTAL/GTZ, 2002. p. 85-94.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Representações do Ambiente e da Territorialidade entre os Zo’é/PA. Dissertação de Mestrado. FFLCH/USP, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;Iepé &amp;amp; FPEC/Funai. Jo’e bokitute ram: planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro. Plano de Gestão Territorial e Ambiental da TI Zo’é. São Paulo: Iepé, 2019.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
BRAGA, Leonardo Viana. Micropeças sobre gênero e caçada junto aos Zo’é. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas:&lt;br /&gt;
índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. ''Pani'em'': um esboço sobre os modos de saber entre os Zo'é. Dissertação de mestrado. FFLCH/USP, 2017.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Eremi'u rupa. Abrindo roças. 1. ed. São Paulo: Série Saberes Zo'é - Iepé, FPEC/Funai &amp;amp; Fundo de Artesanato Zo'é (FAZ), 2021. v. 2. 189p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
BRAGA, Leonardo Viana; PEDREIRA, Hugo Prudente S.; CABALZAR, Flora Dias. 2020. 'Fazer saber a própria terra'. In: Nelson Russo de Moraes; Leila Adriana Baptaglin; Lamounier Erthal Vilella; Alexandre de Castro Campos; Raoni Fernandes Azerêdo. (Org.). Povos Originários e Comunidades Tradicionais: trabalhos de pesquisa e de extensão universitária – volume 4, 1ed.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; &lt;br /&gt;
PEDREIRA, Hugo Prudente da Silva. ''Potuwa pora kõ'' - o que se guarda no ''potuwa. 1''. ed. São Paulo: Instituto de Pesquisa e Formação Indígena - Iepé, 2019. v. 1. 148p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; RIBEIRO, Fabio N. “Os Zo’é e as metamorfoses do fundamentalismo evangélico”. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Encontros Zo’é nas Guianas. Tese de doutorado. FFLCH/USP, 2019.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. ''Ihara Rape Rupi'': pelo caminho da canoa. 1. ed. São Paulo: Iepé - Instituto de Pesquisa e Formação Indígena, 2023. v. 1. 132p .&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
Cuidado ao editar esta seção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&amp;lt;noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Zo'é}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Dominique T. Gallois}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
{{#set:Capa=https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/0_2410c1af65bd0e1/162430scr_wm_9d03db1dcc7a9e9.jpg}}&lt;br /&gt;
{{#set:Counter=61505}}&lt;br /&gt;
{{#set:Crédito capa=Kamikia Kisedje/Nia Tero, 2024}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=1997-01-01}}&lt;br /&gt;
{{#set:Estilo=claro}}&lt;br /&gt;
{{#set:Povo Id=321}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas no Pará]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Yudja&amp;diff=8536</id>
		<title>Povo:Yudja</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Yudja&amp;diff=8536"/>
		<updated>2025-10-31T14:55:53Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
'''Conversa com um homem:'''&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
— Qual é o nome desse rio?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse rio não tem nome, dizemos simplesmente iya ithabï.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
— Quais são as fronteiras de sua terra?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
De Altamira ao Morená, este rio é nossa terra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
— O que quer dizer seu nome?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nosso nome, Yudjá, nós o temos porque somos deste rio, nós outros fomos criados neste rio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
— Por que vocês caçam de canoa?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não podemos andar a pé, não somos Índios! Temos canoas para navegar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
'''Conversa com uma mulher:'''&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
— Por que o cauim carrega o nome de gente?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Claro que é porque os donos ficam bêbados com o cauim! ‘Como pode ser assim, o pessoal já se perguntou, como pode ser gente? É gente por nos fazer ficar bêbados, por nos matar um pouco’. O cauim é gente para o pessoal. É gente, pois nos mata, ficamos bêbados e caímos no sono. O cauim nos faz morrer.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Localização ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
 |Homens com chapéus improvisados para um canto de cauinagem.Foto: Tânia Stolze Lima. Aldeia de Tubatuba, 2001&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/239561-1/yudja_2.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Canoeiros, os Yudjá são antigos habitantes das ilhas e penínsulas do baixo e médio Xingu, um dos rios mais importantes da Amazônia meridional, atualmente ameaçado por projetos de implantação de complexos hidrelétricos. Há cerca de cem anos, este povo acha-se separado em dois grupos por uma enorme distância. Uma parte vive na região de ocupação muito antiga, o médio Xingu, na tão diminuta [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3788 Terra Indígena Paquiçamba] e adjacências não contempladas pelo reconhecimento oficial, bem como em Altamira (Pará). A outra parte vive no alto curso do mesmo rio, na área do [[Povo:Xingu | Parque Indígena do Xingu (PIX)]] criado em 1961, no estado do Mato Grosso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este verbete enfoca basicamente o grupo do PIX que é um dos 14 povos que ali hoje habitam. Suas aldeias estão localizadas na parte norte da Terra Indígena, entre a BR 80 e o Posto Indígena Diauarum. Neste eixo, as terras da margem ocidental do Xingu pertencem ao município de Marcelândia, e as da margem oriental, a São José do Xingu. Tomando-se um critério lingüístico e em grande medida também cultural, os Yudjá ali possuem quatro aldeias, mas estas, segundo critérios etnopolíticos, poderiam ser reduzidas a uma única: Tubatuba, na foz do Manissauá-Missu. Por razões diplomáticas e em certos contextos, as duas aldeias que se formaram por divisão de Tubatuba preferem definir-se como “fazendas” (Fazenda Novo Parque Samba e Fazenda Boa Vista), onde são criadas algumas cabeças de gado bovino. Já Pequizal é tida ora como uma aldeia kayabi, por ter membros deste povo, ora como uma aldeia yudjá devido à língua que ali se fala. Em censo de junho de 2001, os Yudjá somavam cerca de 270 pessoas.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Tânia Stolze Lima|Tânia Stolze Lima]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nome ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
 |Mulher Yudjá. Foto: Rubens Belluzzo Brando, 1977.&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/239563-1/yudja_3.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O etnônimo Juruna (Yuruna, Jurúna, Juruûna, Juruhuna, Geruna) é de origem estrangeira e parece significar “boca preta” em Língua Geral; teria sido motivado por uma tatuagem que, segundo consta em registros do século XVII, este povo usava quando o seu território no baixo Xingu foi invadido, alguns anos depois da fundação de Belém (1615). Sua autodenominação é Yudjá [Yudya; em escrita fonêmica: Iuja], entretanto Yuruna não apenas é usado como auto-referência como prevalecia antes da introdução de escolas nas aldeias, em meados dos anos 1990, quando vem passando a ser considerado incorreto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Juruna ou Yudjá opõem-se a dois coletivos humanos: os ''Abi ''(“Índios”, em glosa juruna) incluem todos os povos indígenas que nem são falantes do juruna (ou, segundo o contexto, de língua próxima a esta), nem produtores de cauim e navegadores tradicionais da bacia do Xingu. Os ''Karaí ''(“Brancos”, em glosa juruna) incluem os demais humanos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Yudjá são retratados em sua mitologia como a humanidade prototípica, isto é, canoeira e produtora de cauim; os Abi provêm dos Yudjá que se perderam nas matas após o dilúvio e se tornaram Selvagens (''imama'': Outros, bravios, caçadores nômades, não-canibais, não-produtores de cauim). Já os Karaí provêm de guerreiros que, após provocarem a separação entre os Yudjá e seu Criador, negando-lhe carne de Abi, fizeram contra ele uma perseguição que o motivou a virar sua fala pelo avesso (daí derivando o português) e dar-lhes um curral de gado para torná-los sedentários.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Embora não se possa analisar o significado do etnônimo Yudjá, os Juruna se consideram como tal por serem ninguém menos que “os donos do rio Xingu”.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Tânia Stolze Lima|Tânia Stolze Lima]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Língua ==&lt;br /&gt;
Os Yudjá falam uma língua do tronco tupi classificada na família linguística Juruna, que também incluía as línguas já extintas dos povos Arupaia, Xipaia, Peapaia e Aoku (não-identificado), além dos Maritsawá. No que tange à cultura, eles aproximam-se sensivelmente de povos que falam línguas da família tupi-guarani. Sua tradição oral menciona uma substituição de palavras da língua juruna por aquela do povo Shadí (não-identificado). Nimuendajú considerava as línguas juruna (só mais tarde assim classificadas) como um tupi impuro, que teria sofrido a influência de línguas arawak e caribe (sem contar os empréstimos de vocábulos da Língua Geral).&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
 |Desenho: Yabaiwá Yudjá, 1998.&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/239565-1/yudja_4.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nem todos os homens com mais de 50 anos dominam o português e talvez apenas a metade das mulheres adultas tenha dele uma compreensão razoável. Não é improvável que algumas possam fazer uso dessa língua, mas em quase dois anos de convivência jamais o fizeram na presença da autora deste verbete. Os meninos começam a falar português na puberdade. Com a introdução de escolas tidas como bilíngües nas aldeias, é permitido presumir que a timidez feminina será quebrada em breve, promovendo talvez uma reordenação das relações de gênero e, principalmente, das formas de comunicação (atualmente muito reduzidas) entre as mulheres Yudjá e as dos demais povos indígenas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1989, o grupo Yudjá da TI Paquiçamba do médio Xingu contava com um único membro capaz de comunicar-se em juruna. Em idos dos anos 1970, apenas uma mulher era falante da língua do outro único povo da família juruna que pôde chegar ao século XX, os Xipaia. Motivada pela morte de sua língua, ela fez ao capitão Juruna do alto Xingu, em Altamira, um presente de nomes próprios.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Tânia Stolze Lima|Tânia Stolze Lima]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== História e população ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
 |Mulheres Yudjá preparam cauim. Foto: Adélia de Oliveira, 1966.&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/239573-1/yudja_6.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Imagine um povo cuja população soma 2.000 em 1842; 200 em 1884; 150 em 1896; 52 em 1916 (dados tomados de, respectivamente, Adalberto, Steinen, Coudreau e Nimuendajú). Foi em meio a esta terrível experiência que uma parte dos Yudjá fugiu para o alto curso do rio. Escrita em 1920 por Nimuendajú, uma carta para o diretor do Serviço de Proteção aos Índios registra o seguinte:&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;Os Juruna, antigamente a tribo mais importante do Xingu, sofreu todo o peso do avanço dos seringueiros. Especialmente o pessoal do Crl. [Coronel] Tancredo Martins Jorge, na boca do rio Fresco cometeu, do assassinato para baixo, toda sorte de crimes contra estes pobres, até que eles se revoltaram e fugiram, chefiados pelo seu Tuxáua Máma, para além das fronteiras do Mato Grosso, onde se estabeleceram numa ilha acima da Cachoeira de Martius. Lá os encontrou Fontoura quando em comissão da Defesa da Borracha desceu o Xingu do Mato Grosso em 1913 (?). Em seguida os Yudjá fizeram as pazes com o seringueiro Major Constantino Viana, da Pedra Seca, que com eles tripulou as suas embarcações em 1916 e desceu a Altamira onde em poucos dias morreram 11 dos Yudjá. Quando os sobreviventes voltaram com esta notícia o velho Máma fugiu com o resto novamente rio acima, e ninguém sabe hoje do paradeiro deste bando que se comp[unha] de umas 40 cabeças. Um outro bandozinho, a família do Tuxáua Muratú, umas 12 pessoas, conservou-se, protegido pelas terríveis cachoeiras da ‘Volta’ do Xingu, no Salto Jurucuá, pouco abaixo da boca do Pacajá”.&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pior sorte tiveram outros povos ribeirinhos do médio Xingu, vizinhos e relacionados com os Yudjá por sua língua e/ou civilização, como os Peapaia, Arupaia e Takunyapé (este, da família tupi-guarani) inteiramente dizimados nesta onda de genocídio promovida pela invasão do médio Xingu pelos seringalistas na segunda metade do século XIX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E esta não foi a primeira vez que as terras dos Yudjá e seus vizinhos foram invadidas; como já foi dito, a sua história está ligada à nossa desde a fundação de Belém. Em meados do século XVIII, o resultado mais evidente dos primeiros cem anos de uma história marcada por aprisionamento, escravização, guerra e redução era o “abandono” de todo o baixo Xingu pelos indígenas. De acordo com Nimuendajú, pode-se presumir que os Yudjá fugiram para montante, enquanto um povo tupi-guarani, os Waiãpi, seus vizinhos das margens do Xingu, atravessaram o Amazonas e partiram rumo ao Oiapoque.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
 |Interior de uma casa Yudjá. Foto: Eduardo Galvão, década de 1960.&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/239575-1/yudja_7.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A hipótese desses deslocamentos progressivos em função das invasões, embora consistente, como denota o Mapa Etno-Histórico de Curt Nimuendajú (IBGE, 1981), não deve servir para subestimar a provável onda de genocídio que afetou os povos do baixo Xingu no século XVII. Se uma diferença importante existe entre os acontecimentos daquele período e a experiência da virada do século XX, é que nesta última não havia mais meios de reunir 30 canoas para a comemoração de uma vitória sobre “expedições”, como ocorrera com a de Gonçalo Pais de Araújo e seus aliciados Kuruáya, derrotados, em 1686, pelos Yudjá e seus aliados Takunyapé.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No início dos anos 1950 morreu entre os Yudjá no alto Xingu o último membro do povo Takunyapé. As pessoas lembram-se de sua emoção ao ouvir a fala de membros do povo Kayabi recém-chegados. Mas, quanta decepção! A língua podia lembrar, mas não era a sua, aqueles não eram realmente os Takunyapé.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A história oral dos Yudjá, aparentemente, não dá lugar nem a sua ocupação do baixo Xingu nem a sua última tragédia demográfica. Atribuindo a extinção dos povos Takunyapé, Arupaia e Peapaia à sua própria ação guerreira e aos seus inimigos memoráveis, os Txukahamãe, afirmam que o território original estendia-se por toda a região da Volta Grande do Xingu (isto é, a grande curva do rio onde está situada Altamira) até a desembocadura do rio Fresco. Seus antepassados abandonaram-no fugindo para montante, antes de os Brancos ali chegarem, por terem tirado a vida do capitão que chefiava as três aldeias do grupo então existentes. Teria sido na boca do Rio Fresco que conheceram os Karaí, vindo a associar-se mais tarde a Constantino Viana, dono de seringais situados bem a montante, em Pedra Seca. O medo da represália pela morte de uma vaca provocada pelo caldo de mandioca das mulheres Yudjá levou-os a fugir para montante, para “a última cachoeira do Xingu” (Cachoeira Von Martius).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, sua mitologia não fecha os olhos para o genocídio. Dos três céus que formavam com a terra um cosmos dotado de quatro andares, já caíram dois e periga cair o último, derrubados por Selã’ã em represália ao extermínio dos povos indígenas do rio Xingu. Segundo um mito, “Selã’ã ficou furioso e derrubou o céu, queria exterminar os Brancos.O rio havia desaparecido. Foi no tempo em que os Yudjá foram extintos, estavam à  beira da extinção, e quando Selã’ã tentou avistar o rio,não havia mais rio, e ele ficou furioso e derrubou o céu (…). O sol apagou, tudo ficou escuro. Os Juruna ficaram apreensivos, os poucos Juruna sobreviventes. (…) Os que se abrigaram ao pé de um grande rochedo, somente eles se salvaram; os que se encontravam alhures morreram, todos os Brancos, os Brancos todos morreram, os Índios morreram, os Juruna morreram. Os que estavam abrigados sob um rochedo escavaram o céu espesso com um pedaço de pau (…) Os sobreviventes reproduziram-se. Selã’ã disse [a um Juruna, no passado recente]: ‘É assim que hei de fazer: quando os Índios desaparecerem, quando os Índios desaparecerem das ilhas, eu desmoronarei o céu, o último céu’”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para permanecer no alto Xingu, os Yudjá tiveram de travar alguns conflitos sangrentos com os povos da região, especialmente os Kamayurá e os Suyá, que culminaram em dois episódios dignos de nota na memória do grupo. Durante um período, os Yudjá perderam totalmente sua autonomia política: os guerreiros foram massacrados e as demais pessoas tornaram-se prisioneiras dos Suyá (sendo algumas delas roubadas mais tarde pelos Kamayurá). Por fim, um velho fugiu para ir buscar em Pedra Seca o auxílio de Constantino Viana e seus homens, resultando disso um massacre para os Suyá e a recuperação da independência pelos Yudjá, que assim puderam estabelecer uma aldeia própria com unicamente quatro homens, umas dez mulheres e quase nenhuma criança. Alguns anos mais tarde, em 1950, logo após as relações de paz impostas pela Expedição Roncador-Xingu que ali entrara havia uns dois anos, a população Yudjá estava reduzida a 37 pessoas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Viviam então em duas aldeias, voltando a se reunir em uma única em 1967. Um conflito entre o fim dos 70 e o início dos 80 provocou uma divisão do grupo que então contava com 18 homens adultos. Em 1984 suas aldeias (Saúva e Tubatuba) contavam cada uma respectivamente com 7 e 13 famílias, somando uma população total de 80 pessoas. Um conflito com os Txukahamãe motivou os Yudjá a se reunirem em Tubatuba no mês de outubro de 1988. Em agosto de 1990, as 27 famílias desta aldeia somavam 121 pessoas. A última divisão ocorreu em 1996, mas os dois conjuntos de famílias que saíram Tubatuba rotulam suas aldeias de fazendas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O censo apresentado no quadro abaixo diz respeito ao mês de junho de 2001 e inclui cônjuges que são membros dos povos Kayabi, Txukahamãe e [[Povo:Ikpeng|Ikpeng]], mas não inclui membros (e descendentes) do povo Yudjá incorporados pelo grupo de seus cônjuges (os Suyá). Os jovens solteiros que residem no Diauarum foram incluídos no censo de Tubatuba, a que se sentem ligados através da família.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;table-responsive&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;table class=&amp;quot;table table-hover&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
(Observações: Piaraçu é um ex-Posto de Vigilância, na beira da BR 80. Tem por dono um homem Txukahamãe casado com uma mulher Yudjá, e que é considerado dono também da fazenda Boa Vista. A fazenda Novo Parque Samba é também conhecida como aldeia Paquiçamba. Quanto à aldeia Pequizal, ela é sítio de uma das aldeias Yudjá dos anos 1950 e 1960, dissolvida em 1967. A filha do chefe passou a ali morar sozinha com seu marido, membro do povo Kayabi. Em 1984 era habitada apenas por este casal e quatro filhos em idade de crescimento, até que nos anos 1990 os filhos começaram a constituir família e para lá se mudaram a sogra e o cunhado do dono da aldeia. Do total de famílias, 10 são formadas por casamentos de mulheres Yudjá com membros de outros povos: oito Kayabi, um Txukahamãe e um Ikpeng).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Tânia Stolze Lima|Tânia Stolze Lima]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Os Juruna da Volta Grande do Xingu ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Numa carta de 1920, Nimuendajú escrevia o seguinte:&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;Os Juruna, antigamente a tribo mais importante do Xingu, sofreu  todo o peso do avanço dos seringueiros. Especialmente o pessoal do Crl. [Coronel] Tancredo Martins Jorge, na boca do rio Fresco, cometeu, do assassinato para baixo, toda sorte de crimes contra estes pobres, até que eles se revoltaram e fugiram”&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Depois de algumas mudanças rio acima e rio abaixo, os Juruna se dividiram em dois grupos: cerca de 40 pessoas rumaram rio acima, encontrando-se hoje no [[Povo:Xingu | Parque Indígena do Xingu]], no Mato Grosso. Um grupo pequeno, a família do Tuxáua Muratú, cerca de 12 pessoas, permaneceu próximo à cachoeira do Jericoá, dando origem ao grupo que até hoje habita a região do Médio Xingu. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Estes indígenas estão espalhados em Altamira, nos beiradões do Xingu (especialmente na Volta Grande) e na &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://ti.socioambiental.org/pt-br/#!/pt-br/terras-indigenas/3788&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;Terra Indígena Paquiçamba&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, em três aldeias: Paquiçamba, Muratu e Furo Seco. Há também uma aldeia no quilômetro 17 da estrada entre Altamira e Vitória do Xingu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Juruna são habitantes tradicionais das ilhas do rio Xingu situadas entre a Volta Grande e o rio Fresco. Essas ilhas e as margens do rio eram território de uma civilização canoeira que incluía os [[Povo:Xipaya | Xipaia]], mas também outros povos que desapareceram desde que os brancos, há algumas centenas de anos, começaram a chegar na região.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a progressiva urbanização da região, intensificada a cada ciclo econômico e fortemente pressionada pela construção da rodovia Transamazônica, os Juruna do médio Xingu absorveram em sua cultura diversos itens típicos da sociedade branca: a língua portuguesa, a televisão, as roupas e os celulares. Casaram-se, durante muitas décadas, com beiradeiros  e com indígenas de outras etnias. Acompanharam as diferentes atividades econômicas que se sucederam e conviveram com  as diversas levas de migrantes que vieram se instalando em seu território. E mantiveram, em meio a esse dinamismo de culturas, seus conhecimentos tradicionais sobre a pesca e a floresta, e uma forte relação com o rio Xingu e sua história.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em contato com seus parentes do Parque indígena do Xingu que mantiveram sua língua e um modo de vida mais próximo dos antigos, os Juruna da região de Altamira têm relembrado seu &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/yudja/644&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot;&amp;gt;idioma&amp;lt;/htmltag&amp;gt; e práticas tradicionais, como cantos e danças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Juruna guardam uma relação especial com o rio Xingu: são exímios navegantes e pescadores, empregando uma grande variedade de técnicas de pesca e detendo um conhecimento profundo da ecologia do rio. Pescadores atrevidos, mergulham sem medo em suas águas atrás de acaris ou tracajás.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Xingu é essencial à vida dos Juruna: além de viverem principalmente da pesca, dependem do rio para se deslocar, pois participam de uma ampla rede de parentesco e amizades que inclui Altamira e toda a Volta Grande. O barramento imposto com a &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;https://www.socioambiental.org/pt-br/dossie-belo-monte&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot;&amp;gt;usina de Belo Monte&amp;lt;/htmltag&amp;gt; põe seu modo de vida atual diretamente em risco, uma vez que se prevê o desvio da maior parte do fluxo do rio, trazendo uma seca permanente à Volta Grande. Tanto a pesca quanto a navegação estarão comprometidas no futuro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Juruna têm resistido há séculos à invasão de seu território. Belo Monte é mais um episódio desta invasão: um episódio que trará mudanças drásticas nas condições ambientais da região, cujas consequências mal se podem vislumbrar.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Eric Macedo|Eric Macedo]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Donos e grupos ==&lt;br /&gt;
A sociedade Yudjá é formada por grupos de parentelas bilaterais dispersos ao longo do rio e constituídos em torno de um “dono” ou capitão: aquele que reúne as características de mais-velho [se’uraha] e de afim [saha] da maioria dos homens maduros que são “donos” de grupos domésticos. Estes últimos são predominantemente fundados nas relações entre mãe e filhas e entre sogro e genros. [O léxico da língua Juruna distingue vários tipos de relações e/ou posições concernentes à figura do “dono” (''iwa, ijifa, iju’a, iui’a, iu’a, i’uraha, awai'').&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A produção da vida social é regida basicamente por um princípio sociológico encarnado na figura de um “dono”, por cujo intermédio um conjunto de pessoas ligadas por relações de parentesco é transformado em um grupo plenamente político, tenha este a amplitude de um conjunto de aldeias formado por uma aldeia-mãe e as outras menores que dela derivam, ou a de um grupo doméstico ocupante de uma seção residencial (ou mesmo de uma única casa). Em um nível intermédio, o da aldeia, a unidade desta pode ser exprimida espacialmente em uma Casa do Cauim, idealmente construída pelo dono da aldeia (mas uma casa velha pode ser para isso aproveitada), e que funciona como uma cozinha coletiva para o trabalho feminino de processamento dos produtos da roça e como salão para as cauinagens.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Existe ainda uma outra expressão da figura sociológica do dono que é igualmente importante. Trata-se de uma posição ocupada efemeramente por qualquer homem casado e/ou dono de roça que tome a iniciativa de promover uma atividade coletiva, como uma caçada, uma pescaria com timbó ou uma festa, ou mesmo a puxada de uma canoa nova desde a floresta até o porto. Oferecer uma cauinagem é o procedimento indispensável de todo homem que pretenda assumir-se como dono de uma atividade coletiva, tornando-se no mesmo golpe dono do grupo. Todo homem tem o direito de assumir essa posição, mas, na prática, antes de tornar-se sogro e, com isso, entrar na maturidade, muitos são suficientemente tímidos para não concretizar essa ambição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com base em observações efetuadas no período 1984-1994, pode-se afirmar que estas diferentes unidades sociais são determinadas muito mais como unidades de consumo que de produção. Existe um código culinário que articula diferentes categorias de alimentos às três unidades sociais básicas (a família, o grupo doméstico e a aldeia) e permite à aldeia Yudjá ter as refeições coletivas como uma prática cotidiana. Entretanto, em Tubatuba, nos anos de 1999 e 2001, essas refeições não tinham a mesma freqüência e o mesmo valor, em concomitância com uma carência relativa de canoas — um indicativo de mudança dos padrões de pesca — e a adoção, por parte de algumas famílias, do fogão a gás, louças individualizadas, arroz e macarrão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Do conjunto de relações de parentesco, a afinidade destaca-se como tendo um cunho político fundamental. O método de classificação dessas relações adotado pelos Yudjá é talvez o mais difundido entres as sociedades índigenas amazônicas. Ele dá origem a um sistema de relações bipartido em consangüinidade e afinidade. O pai e o irmão do pai são classificados como consangüíneos, assim como a mãe e a irmã da mãe; já o irmão da mãe e a irmã do pai são classificados como afins. Coerentemente, os filhos do irmão do pai e os filhos da irmã da mãe (isto é, os primos paralelos) são parentes da mesma categoria que os irmãos, enquanto os filhos do tio materno e os da tia paterna (isto é, os primos cruzados) pertencem à categoria oposta. O casamento considerado ideal é aquele entre primos cruzados. Tendo isso por base, as mulheres Yudjá, p. ex., classificam como ''umãbïa ''os seus próprios filhos, aqueles de sua irmã, aqueles da filha do irmão de seu pai e os da filha da irmã de sua mãe, e também os filhos de seu primo cruzado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sistemas deste tipo são rotulados nos dias de hoje como “dravidianos”. Todavia, cabe registrar que o sistema Yudjá apresenta as seguintes particularidades. Os filhos daqueles primos cruzados do mesmo sexo que não se tornaram efetivamente cunhados não são classificados como afins (‘sobrinho’ e ‘sobrinha’, isto é, genro e nora virtuais) mas sim como ‘filhos’. Do mesmo modo, para uma perspectiva masculina e unicamente para ela, os filhos de sobrinho ou sobrinha que não se tornaram efetivamente genro ou nora são classificados como ‘primos cruzados’. Para a perspectiva feminina, dá-se o seguinte: em função daquelas possibilidades de casamento não realizadas por sua mãe, uma mulher pode ter como ‘primo cruzado’ (cônjuge virtual) o tio materno de sua mãe; mas os filhos de seus próprios sobrinho(a)s serão em qualquer circunstância seus ‘netos’.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Tânia Stolze Lima|Tânia Stolze Lima]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Cosmologia e xamanismo ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
 |Homem tocando a flauta dos mortos no fim de uma cauinagem.&lt;br /&gt;
Foto: Tânia Stolze Lima. Aldeia de Tubatuba, 2001.&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/239577-1/yudja_8.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Parte do saber cosmológico e da vida ritual depende de modo crucial dos xamãs, e não existem mais xamãs entre os Yudjá desde os anos 1980. Algumas pessoas tentaram, fazendo uso dos remédios apropriados, mas faltou-lhes coragem, desistiram com medo, como relatou o ''capitão ''em 1989: &amp;quot;Eu me defrontei com uma onça e não quis preparar [o remédio] ''arïpa ''de novo. Tive medo que acontecesse outra vez. Acho perigoso — a onça brincou comigo! Bebi apenas um pouquinho e tomei um único banho [do remédio]. Depois de alguns dias fui pescar, e a onça avançou em minha direção na hora em que flechei um tucunaré. Aproximou-se de mim e me mostrou os dentes, peguei o arco, tentei bater nela, mas  correu. Eu não tinha flecha de caça; e minhas flechas de pesca, duas apenas, nem as tinha arrancado dos peixes ainda. Foi um perigo! Pensei que ia me pegar. Por isso peguei o arco e brandi, a onça recuou um pouco e ficou me fitando. Arranquei as flechas dos peixes, matei-os e disse à onça, venha de novo! Pretendia flechá-la, mas foi embora. É muito perigoso! Se fosse em sonho, tudo bem, se a onça me aparecesse dizendo que está brincando comigo, tudo bem. Mas não foi em sonho.”&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre as razões prováveis deste esmorecimento, não se poderia subestimar nem a tragédia demográfica e sociológica provocada pelo ciclo da borracha, nem a incorporação das sociedades indígenas alto-xinguanas em meados do século XX pelo órgão do Estado nacional responsável pela assistência aos indígenas; nem, tampouco, o contexto político e cultural particular do PIX. Os Yudjá procuram os serviços terapêuticos de xamãs Kayabi, e, mais raramente, Kamayurá (quando se trata de desenfeitiçamento).&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
 |Desenho: Karin Yudjá, 1998.&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/239581-1/yudja_9.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir de 1987, algumas pessoas, mulheres e homens, receberam de xamãs Kayabi o poder de curar, e vêm efetuando uma terapia xamânica simplificada. Sem terem passado por qualquer aprendizado mais formal do xamanismo Kayabi, sua prática alia a noção de um poder obtido junto a forças cósmicas estrangeiras a teorias próprias das doenças, das quais a mais importante afirma que elas derivam em última instância da ação humana: as forças despendidas pelas pessoas sobre as coisas são replicadas pelas (almas das) coisas no corpo das pessoas ou de parentes seus. Cabe ao xamã extrair tais doenças. Além de contar com esses curadores constituídos por poderes Kayabi, hoje em dia o xamã mais importante de Tubatuba é um homem Ikpeng.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Três são as coordenadas fundamentais da cosmologia Yudjá:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
a) A oposição entre vida e morte, em primeiro lugar; ela está longe de ser uma dicotomia tão drástica como afirma a nossa cosmologia, pois há algumas transições cruciais engendradas pelo funcionamento dinâmico da máquina cosmológica, desde algo como pequenas mortes passageiras, provocadas pelo sono e cuja expressão mais típica são os sonhos, até mortes antecipadas. A relação entre vida e morte é menos de exclusão recíproca (se está morto, não pode estar vivo) que de inclusão: ele está morto aqui, mas vivo em outro lugar; aqui ainda está vivo mas já morreu no além. Em outras palavras, trata-se de uma relação de disjunção relativa, capaz de dar lugar a conjunções importantes. Os xamãs Yudjá eram os mestres dessas transições.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
b) Em segundo lugar, os eixos do mundo são dados pelas oposições entre Rio e Floresta e Céu e Terra, cada uma articulada à oposição entre presença e ausência de antropofagia. O Rio e o Céu têm uma ligação positiva com a última. Dir-se-ia que todas as coisas que existem poderiam ser duplicadas a partir de tais oposições: os humanos (os povos do rio e os da floresta), os espíritos dos mortos (os dos grandes rochedos da beira do Xingu, que não gostam de carne de gente, e os do céu), os animais mamíferos (as espécies da floresta e seus correspondentes ''isãmï ''do fundo do rio), os Yudjá e seus correspondentes ''ãwã ''do fundo rio, os Abi da floresta e seus correspondentes ''ãwã ''dos locais sujos e sombrios da mata longínqua. Além disso, considera-se que todos os tipos de coisas existentes na terra, existem também no céu (este é uma terra parecida com a nossa). Já o rio, que não é para os Yudjá cópia da floresta, pode ser tido como uma cópia da terra por certos de seus habitantes, exceto que a floresta da terra deles é a nossa floresta de galeria, e as suas roças são terrenos desmoronados da beira do rio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
c) A terceira e última operação cosmológica fundamental repousa sobre a oposição entre o ponto de vista do sujeito humano vivo e desperto e pontos de vista alheios, como o de animais, animais-isãmï, ãwã, e finalmente o dos ''’i’ãnay'' (os mortos). O dinamismo e a complexidade da cosmologia Yudjá dependem estreitamente do confronto, virtualmente perigoso, desses pontos de vista discordantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O xamanismo Yudjá desdobrava-se em dois sistemas relacionados cada um com uma sociedade de mortos. Considera-se rara a possibilidade de um xamã praticar os dois xamanismos: os mortos dos rochedos temem por demais os do céu, cuja sociedade é formada pelas almas dos guerreiros em torno do ''capitão ''e xamã Kumahari. Um pavor talvez ainda maior experimentam hoje os Yudjá por eles, e este xamanismo é incrivelmente mais poderoso, perigoso e difícil de se obter.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada sistema estava relacionado a um grande festival em honra de sua respectiva categoria de mortos. O dos mortos dos rochedos (''’ï’ãna kariay'' ) desenvolvia-se ao som de música de flautas e cantos executados por eles próprios, soprados na boca do xamã. Aquele chamado duru ''karia ''(ou ''’e’ãmï karia'') desenvolvia-se ao som da música de um conjunto de trombetas (duru). Em sua festa, Kumahari e seus associados, à comida oferecida pelos Yudjá, preferiam comer a carne de Índio assada trazida do além; recusando também o cauim, diziam que já estavam bastante bêbados. Já os hóspedes provenientes dos rochedos, após a refeição, bebiam bastante, temperando o cauim das mulheres Yudjá com uma porção de cauim trazido do além. Ambos os festivais duravam em torno de um mês, e seu encerramento motivava a participação de diferentes aldeias. As últimas celebrações foram realizadas nos idos da década de 1970.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nem por isso, contudo, da vida ritual dos Yudjá pode-se dizer que não é bastante intensa. Além de sua rotina ser interrompida por cauinagens a intervalos tão curtos como quatro ou cinco dias, celebram todo ano dois festivais (tendo cada um a duração aproximada de um mês).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo a mitologia, de uma humanidade celeste, imortal (os ''alapa''), provêm os cantos do festival das plantas cultivadas (''koataha de abïa''), controlado pelas mulheres. Aos ''ãwã ''produtores de cauim que vivem em aldeias localizadas no fundo do rio e lagoas, os Yudjá devem dois festivais de clarinetas (''pïri''), bem como os adornos corporais que servem de distintivos étnicos: a penugem de pato colada nos cabelos e o botão vermelho colado no alto da testa feito de almécega e fiapinhos de tecido vermelho picotado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nenhum desses três festivais tem, é certo, a mesma importância cosmológica dos rituais xamânicos, mas são dotados de grande valor social.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Tânia Stolze Lima|Tânia Stolze Lima]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Cauinagem ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
 |Canoa de cauim dubia. Foto: Tânia Stolze Lima. Aldeia de Tubatuba, 2001.&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/239589-1/yudja_10.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dentre as muitas bebidas fermentadas que produzem, destacam-se, por sua importância na dieta e seu simbolismo, dois cauins de mandioca, o ''dubia ''e o ''yakupa''. Por seu poder embriagante, o ''dubia ''não é destituído de mistério, e a fermentação não deixa de ser uma transubstanciação. Objeto de diversas relações simbólicas com a Pessoa, o cauim é simultaneamente um “filho” da&lt;br /&gt;
mulher que o produz e uma “carne de caça” cujos pêlos espetam o coração das pessoas. Sua alma toma o caminho que conduz ao país dos mortos que habitam os rochedos do Xingu; enquanto, com o seu cadáver, representado pelos restos de puba fresca que foram colocados para secar ao sol em cima de um jirau, é produzido o ''yakupa'', um cauim refrescante consumido diariamente no seio da família.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de gostar muito de cauim, os Yudjá realmente sabem beber. Para a festa de encerramento da reclusão de sua filha em maio de 2001, Kushina, auxiliada pelas jovens primas e sobrinhas da menina, produziu cerca de 1500 litros de ''dubia'', enquanto sua prima fez um com cerca de 400 litros. O cauim foi consumido entre a meia-noite e as quatro da tarde!&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas não é só a alegria de viver que é projetada na cauinagem, muito da infelicidade também a isso é concernida, e, assim, as pessoas também enfrentam ali seus antagonismos. Rivalidades entre cônjuges e entre afins podem dar lugar a situações muito dramáticas mas estas raramente provocam uma cisão da aldeia (como foi, porém, o caso da cisão que atingiu Tubatuba em 1996).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sendo verdadeiramente uma pessoa simbólica, parece legítimo considerar o cauim como uma reflexão sobre a condição mortal da humanidade, e a cauinagem, essa antropofagia figurada, como uma reflexão sobre a finitude da sociedade.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Tânia Stolze Lima|Tânia Stolze Lima]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nota sobre as fontes ==&lt;br /&gt;
Estudos antropológicos sobre este povo foram efetuados por Adélia Engrácia de Oliveira em meados dos anos de 1960 e pela autora deste verbete, nos períodos 1984-1985, 1988-1990 e a partir de 1999. A tese de doutorado da primeira acha-se publicada desde 1970, mas permanecem inéditas a dissertação de mestrado e a tese de doutorado da segunda. Os campos etnográficos cobertos por esses estudos são praticamente os mesmos (organização social, parentesco, mitologia e cosmologia) exceto que Tânia Lima, além de basear sua investigação em uma compreensão razoável da língua indígena, oferece uma visada etnográfica mais extensa e profunda. Artigos desta autora versando sobre as noções cosmológicas dos Yudjá têm sido publicados em revistas especializadas. A língua juruna vem sendo estudada pela lingüista Cristina Martins Fargetti. Ela realizou o vídeo Sãluahã sobre a festa da reclusão de duas moças. Sobre o grupo juruna do médio Xingu, foram publicados artigos de Lúcia M. M. de Andrade e Eduardo Viveiros de Castro no volume As Hidrelétricas do Xingu e os Povos Indígenas (Comissão Pró-Índio de São Paulo, 1988).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Tânia Stolze Lima|Tânia Stolze Lima]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
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* ATHAYDE, Simone Ferreira de (Org.). Arte indígena Parque do Xingu : catálogo de divulgação cultural e comercial. São Paulo : ISA ; Canarana : Atix, 2001.&lt;br /&gt;
* --------. O projeto Kumana e a experiência da Atix na comercialização de artesanato Kaiabi, Yudjá e Suyá em 1998 : Relatório. São Paulo : ISA, 1999. 87 p.&lt;br /&gt;
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* FARGETTI, Cristina Martins. Análise fonológica da língua juruna. Campinas : Unicamp, 1992. 124 p. (Dissertação de Mestrado)&lt;br /&gt;
* --------. Estudo fonológico e morfossintático da língua Juruna. Campinas : Unicamp, 2001. 317 p. (Tese de Doutorado)&lt;br /&gt;
* -------- (Org.). Yudja kamena dju’a papera. São Paulo : ISA ; Brasília : MEC, nov. 1998. 84 p.&lt;br /&gt;
* FERREIRA, Mariana Kawall Leal. Da origem dos homens a conquista da escrita : um estudo sobre povos indígenas e educação escolar no Brasil. São Paulo : USP, 1992. 227 p. (Dissertação de Mestrado)&lt;br /&gt;
* -------- (Org.). Histórias do Xingu : coletânea de depoimentos dos índios Suyá, Kayabi, Juruna, Trumai, Txucarramãe e Txicão. São Paulo : USP-NHII/Fapesp, 1994. 240 p.&lt;br /&gt;
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* --------. Laudo histórico-antropológico relativo ao Processo 00.0003594-7 - Ação Originaria de Reivindicação Indenizatória na 3ª Vara da Justiça Federal do Mato Grosso. São Paulo : s.ed., 1994. 130 p. (AI: Parque Indígena do Xingu)&lt;br /&gt;
* LIMA, Tânia Stolze. A cerâmica dos índios Juruna (rio Xingu). Boletim do MPEG: Série Antropologia, Belém : MPEG, n.41, 25 p., ago. 1969.&lt;br /&gt;
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* --------. Para uma teoria etnográfica da distinção entre natureza e cultura na cosmologia Juruna. Rev. Brasil. de Ci. Soc., São Paulo : Anpocs, v.14, n.40, p.43-52, 1999.&lt;br /&gt;
* --------. A parte do cauim : etnografia juruna. Rio de Janeiro : UFRJ-Museu Nacional, 1995. (Tese de Doutorado)&lt;br /&gt;
* --------. A vida social entre os Yudja (índios Juruna) : elementos de sua ética alimentar. Rio de Janeiro : UFRJ, 1986. 173 p. (Dissertação de Mestrado)&lt;br /&gt;
* OLIVEIRA, Adelia Engracia. Os índios Juruna do Alto Xingu. Rio Claro : Fac. de Filosofia de Rio Claro, 1969. 342 p. (Tese de Doutorado)&lt;br /&gt;
* --------. Os índios Juruna e sua cultura nos dias atuais. Boletim do MPEG: Série Antropologia, Belém : MPEG, n.35, 38 p., mai. 1968.&lt;br /&gt;
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* SANTOS, Leinad Ayer O.; ANDRADE, Lúcia M. M. de. (Orgs.). As hidrelétricas do Xingu e os povos indígenas. São Paulo : CPI-SP, 1988. 196 p.&lt;br /&gt;
* SICK, Helmut. Tukani : entre os animais e os índios do Brasil Central. Rio de Janeiro : Marigo Comunicação Visual, 1997. 294 p.&lt;br /&gt;
* SILVA, Geraldo Mosimann da. Agricultura Kaiabi e Yudjá na paisagem norte do Parque Indígena do Xingu. São Paulo : ISA, 1999. 104 p.&lt;br /&gt;
* --------. Ciência da roça. São Paulo : ISA, 1999. 56 p.&lt;br /&gt;
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* SIMÕES, Mário E. Os “Txikão” e outras tribos marginais do Alto Xingu. Rev. do Museu Paulista, São Paulo : USP, v. 14, p.76-104, 1963.&lt;br /&gt;
* TRONCARELLI, Maria Cristina; WURKER, Estela; ATHAIDE, Simone (Orgs.). Vegetação Yudjá. São Paulo : ISA, 1998. 54 p.&lt;br /&gt;
* VILLAS BÔAS, Orlando; VILLAS BÔAS, Cláudio. Almanaque do sertão : histórias de visitantes, sertanejos e índios. São Paulo : Globo, 1997. 303 p.&lt;br /&gt;
* --------. Os Juruna no Alto-Xingu. Reflexão, Goiânia : UFGO, n.1, p.61-85, 1970.&lt;br /&gt;
* --------. Xingu : los indios, sus mitos. Quito : Abya-Yala ; Roma : MLAL, 1991. 237 p. (Colección 500 Años, 33)&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Tânia Stolze Lima|Tânia Stolze Lima]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== VÍDEOS ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;huzzazWrapper&amp;quot; style=&amp;quot;width:100%; height: 1700px; margin: 0 auto;&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;htmltag allowfullscreen=&amp;quot;&amp;quot; allowtransparency=&amp;quot;true&amp;quot; frameborder=&amp;quot;0&amp;quot; height=&amp;quot;100%&amp;quot; mozallowfullscreen=&amp;quot;&amp;quot; src=&amp;quot;https://huzzaz.com/embed/juruna-yudj?vpp=12&amp;quot; tagname=&amp;quot;iframe&amp;quot; webkitallowfullscreen=&amp;quot;&amp;quot; width=&amp;quot;100%&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;/htmltag&amp;gt;&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
[[Categoria:Parque Indígena do Xingu]]&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
Cuidado ao editar esta seção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bloco &amp;quot;&amp;lt;noinclude&amp;gt;&amp;quot; usado para evitar que propriedades sejam propagadas em páginas transcluídas:&lt;br /&gt;
Detalhes em http://www.mediawiki.org/wiki/Transclusion#Semantic_MediaWiki&lt;br /&gt;
--&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Yudja (Juruna)}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Tânia Stolze Lima}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Eric Macedo}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
{{#set:Capa=1507245852563cf24daf8f6.png}}&lt;br /&gt;
{{#set:Counter=77413}}&lt;br /&gt;
{{#set:Crédito capa=Geraldo Silva, 2000}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=2001-11-01}}&lt;br /&gt;
{{#set:Estilo=claro}}&lt;br /&gt;
{{#set:Povo Id=115}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Yudja&amp;diff=8535</id>
		<title>Povo:Yudja</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Yudja&amp;diff=8535"/>
		<updated>2025-10-31T14:55:26Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
'''Conversa com um homem:'''&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
— Qual é o nome desse rio?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse rio não tem nome, dizemos simplesmente iya ithabï.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
— Quais são as fronteiras de sua terra?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
De Altamira ao Morená, este rio é nossa terra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
— O que quer dizer seu nome?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nosso nome, Yudjá, nós o temos porque somos deste rio, nós outros fomos criados neste rio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
— Por que vocês caçam de canoa?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não podemos andar a pé, não somos Índios! Temos canoas para navegar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
'''Conversa com uma mulher:'''&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
— Por que o cauim carrega o nome de gente?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Claro que é porque os donos ficam bêbados com o cauim! ‘Como pode ser assim, o pessoal já se perguntou, como pode ser gente? É gente por nos fazer ficar bêbados, por nos matar um pouco’. O cauim é gente para o pessoal. É gente, pois nos mata, ficamos bêbados e caímos no sono. O cauim nos faz morrer.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Localização ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
 |Homens com chapéus improvisados para um canto de cauinagem.Foto: Tânia Stolze Lima. Aldeia de Tubatuba, 2001&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/239561-1/yudja_2.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Canoeiros, os Yudjá são antigos habitantes das ilhas e penínsulas do baixo e médio Xingu, um dos rios mais importantes da Amazônia meridional, atualmente ameaçado por projetos de implantação de complexos hidrelétricos. Há cerca de cem anos, este povo acha-se separado em dois grupos por uma enorme distância. Uma parte vive na região de ocupação muito antiga, o médio Xingu, na tão diminuta [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3788 Terra Indígena Paquiçamba] e adjacências não contempladas pelo reconhecimento oficial, bem como em Altamira (Pará). A outra parte vive no alto curso do mesmo rio, na área do [[Povo:Xingu | Parque Indígena do Xingu (PIX)]] criado em 1961, no estado do Mato Grosso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este verbete enfoca basicamente o grupo do PIX que é um dos 14 povos que ali hoje habitam. Suas aldeias estão localizadas na parte norte da Terra Indígena, entre a BR 80 e o Posto Indígena Diauarum. Neste eixo, as terras da margem ocidental do Xingu pertencem ao município de Marcelândia, e as da margem oriental, a São José do Xingu. Tomando-se um critério lingüístico e em grande medida também cultural, os Yudjá ali possuem quatro aldeias, mas estas, segundo critérios etnopolíticos, poderiam ser reduzidas a uma única: Tubatuba, na foz do Manissauá-Missu. Por razões diplomáticas e em certos contextos, as duas aldeias que se formaram por divisão de Tubatuba preferem definir-se como “fazendas” (Fazenda Novo Parque Samba e Fazenda Boa Vista), onde são criadas algumas cabeças de gado bovino. Já Pequizal é tida ora como uma aldeia kayabi, por ter membros deste povo, ora como uma aldeia yudjá devido à língua que ali se fala. Em censo de junho de 2001, os Yudjá somavam cerca de 270 pessoas.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Tânia Stolze Lima|Tânia Stolze Lima]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nome ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
 |Mulher Yudjá. Foto: Rubens Belluzzo Brando, 1977.&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/239563-1/yudja_3.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O etnônimo Juruna (Yuruna, Jurúna, Juruûna, Juruhuna, Geruna) é de origem estrangeira e parece significar “boca preta” em Língua Geral; teria sido motivado por uma tatuagem que, segundo consta em registros do século XVII, este povo usava quando o seu território no baixo Xingu foi invadido, alguns anos depois da fundação de Belém (1615). Sua autodenominação é Yudjá [Yudya; em escrita fonêmica: Iuja], entretanto Yuruna não apenas é usado como auto-referência como prevalecia antes da introdução de escolas nas aldeias, em meados dos anos 1990, quando vem passando a ser considerado incorreto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Juruna ou Yudjá opõem-se a dois coletivos humanos: os ''Abi ''(“Índios”, em glosa juruna) incluem todos os povos indígenas que nem são falantes do juruna (ou, segundo o contexto, de língua próxima a esta), nem produtores de cauim e navegadores tradicionais da bacia do Xingu. Os ''Karaí ''(“Brancos”, em glosa juruna) incluem os demais humanos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Yudjá são retratados em sua mitologia como a humanidade prototípica, isto é, canoeira e produtora de cauim; os Abi provêm dos Yudjá que se perderam nas matas após o dilúvio e se tornaram Selvagens (''imama'': Outros, bravios, caçadores nômades, não-canibais, não-produtores de cauim). Já os Karaí provêm de guerreiros que, após provocarem a separação entre os Yudjá e seu Criador, negando-lhe carne de Abi, fizeram contra ele uma perseguição que o motivou a virar sua fala pelo avesso (daí derivando o português) e dar-lhes um curral de gado para torná-los sedentários.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Embora não se possa analisar o significado do etnônimo Yudjá, os Juruna se consideram como tal por serem ninguém menos que “os donos do rio Xingu”.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Tânia Stolze Lima|Tânia Stolze Lima]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Língua ==&lt;br /&gt;
Os Yudjá falam uma língua do tronco tupi classificada na família linguística Juruna, que também incluía as línguas já extintas dos povos Arupaia, Xipaia, Peapaia e Aoku (não-identificado), além dos Maritsawá. No que tange à cultura, eles aproximam-se sensivelmente de povos que falam línguas da família tupi-guarani. Sua tradição oral menciona uma substituição de palavras da língua juruna por aquela do povo Shadí (não-identificado). Nimuendajú considerava as línguas juruna (só mais tarde assim classificadas) como um tupi impuro, que teria sofrido a influência de línguas arawak e caribe (sem contar os empréstimos de vocábulos da Língua Geral).&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
 |Desenho: Yabaiwá Yudjá, 1998.&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/239565-1/yudja_4.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nem todos os homens com mais de 50 anos dominam o português e talvez apenas a metade das mulheres adultas tenha dele uma compreensão razoável. Não é improvável que algumas possam fazer uso dessa língua, mas em quase dois anos de convivência jamais o fizeram na presença da autora deste verbete. Os meninos começam a falar português na puberdade. Com a introdução de escolas tidas como bilíngües nas aldeias, é permitido presumir que a timidez feminina será quebrada em breve, promovendo talvez uma reordenação das relações de gênero e, principalmente, das formas de comunicação (atualmente muito reduzidas) entre as mulheres Yudjá e as dos demais povos indígenas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1989, o grupo Yudjá da TI Paquiçamba do médio Xingu contava com um único membro capaz de comunicar-se em juruna. Em idos dos anos 1970, apenas uma mulher era falante da língua do outro único povo da família juruna que pôde chegar ao século XX, os Xipaia. Motivada pela morte de sua língua, ela fez ao capitão Juruna do alto Xingu, em Altamira, um presente de nomes próprios.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Tânia Stolze Lima|Tânia Stolze Lima]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== História e população ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
 |Mulheres Yudjá preparam cauim. Foto: Adélia de Oliveira, 1966.&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/239573-1/yudja_6.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Imagine um povo cuja população soma 2.000 em 1842; 200 em 1884; 150 em 1896; 52 em 1916 (dados tomados de, respectivamente, Adalberto, Steinen, Coudreau e Nimuendajú). Foi em meio a esta terrível experiência que uma parte dos Yudjá fugiu para o alto curso do rio. Escrita em 1920 por Nimuendajú, uma carta para o diretor do Serviço de Proteção aos Índios registra o seguinte:&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;Os Juruna, antigamente a tribo mais importante do Xingu, sofreu todo o peso do avanço dos seringueiros. Especialmente o pessoal do Crl. [Coronel] Tancredo Martins Jorge, na boca do rio Fresco cometeu, do assassinato para baixo, toda sorte de crimes contra estes pobres, até que eles se revoltaram e fugiram, chefiados pelo seu Tuxáua Máma, para além das fronteiras do Mato Grosso, onde se estabeleceram numa ilha acima da Cachoeira de Martius. Lá os encontrou Fontoura quando em comissão da Defesa da Borracha desceu o Xingu do Mato Grosso em 1913 (?). Em seguida os Yudjá fizeram as pazes com o seringueiro Major Constantino Viana, da Pedra Seca, que com eles tripulou as suas embarcações em 1916 e desceu a Altamira onde em poucos dias morreram 11 dos Yudjá. Quando os sobreviventes voltaram com esta notícia o velho Máma fugiu com o resto novamente rio acima, e ninguém sabe hoje do paradeiro deste bando que se comp[unha] de umas 40 cabeças. Um outro bandozinho, a família do Tuxáua Muratú, umas 12 pessoas, conservou-se, protegido pelas terríveis cachoeiras da ‘Volta’ do Xingu, no Salto Jurucuá, pouco abaixo da boca do Pacajá”.&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pior sorte tiveram outros povos ribeirinhos do médio Xingu, vizinhos e relacionados com os Yudjá por sua língua e/ou civilização, como os Peapaia, Arupaia e Takunyapé (este, da família tupi-guarani) inteiramente dizimados nesta onda de genocídio promovida pela invasão do médio Xingu pelos seringalistas na segunda metade do século XIX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E esta não foi a primeira vez que as terras dos Yudjá e seus vizinhos foram invadidas; como já foi dito, a sua história está ligada à nossa desde a fundação de Belém. Em meados do século XVIII, o resultado mais evidente dos primeiros cem anos de uma história marcada por aprisionamento, escravização, guerra e redução era o “abandono” de todo o baixo Xingu pelos indígenas. De acordo com Nimuendajú, pode-se presumir que os Yudjá fugiram para montante, enquanto um povo tupi-guarani, os Waiãpi, seus vizinhos das margens do Xingu, atravessaram o Amazonas e partiram rumo ao Oiapoque.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
 |Interior de uma casa Yudjá. Foto: Eduardo Galvão, década de 1960.&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/239575-1/yudja_7.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A hipótese desses deslocamentos progressivos em função das invasões, embora consistente, como denota o Mapa Etno-Histórico de Curt Nimuendajú (IBGE, 1981), não deve servir para subestimar a provável onda de genocídio que afetou os povos do baixo Xingu no século XVII. Se uma diferença importante existe entre os acontecimentos daquele período e a experiência da virada do século XX, é que nesta última não havia mais meios de reunir 30 canoas para a comemoração de uma vitória sobre “expedições”, como ocorrera com a de Gonçalo Pais de Araújo e seus aliciados Kuruáya, derrotados, em 1686, pelos Yudjá e seus aliados Takunyapé.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No início dos anos 1950 morreu entre os Yudjá no alto Xingu o último membro do povo Takunyapé. As pessoas lembram-se de sua emoção ao ouvir a fala de membros do povo Kayabi recém-chegados. Mas, quanta decepção! A língua podia lembrar, mas não era a sua, aqueles não eram realmente os Takunyapé.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A história oral dos Yudjá, aparentemente, não dá lugar nem a sua ocupação do baixo Xingu nem a sua última tragédia demográfica. Atribuindo a extinção dos povos Takunyapé, Arupaia e Peapaia à sua própria ação guerreira e aos seus inimigos memoráveis, os Txukahamãe, afirmam que o território original estendia-se por toda a região da Volta Grande do Xingu (isto é, a grande curva do rio onde está situada Altamira) até a desembocadura do rio Fresco. Seus antepassados abandonaram-no fugindo para montante, antes de os Brancos ali chegarem, por terem tirado a vida do capitão que chefiava as três aldeias do grupo então existentes. Teria sido na boca do Rio Fresco que conheceram os Karaí, vindo a associar-se mais tarde a Constantino Viana, dono de seringais situados bem a montante, em Pedra Seca. O medo da represália pela morte de uma vaca provocada pelo caldo de mandioca das mulheres Yudjá levou-os a fugir para montante, para “a última cachoeira do Xingu” (Cachoeira Von Martius).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, sua mitologia não fecha os olhos para o genocídio. Dos três céus que formavam com a terra um cosmos dotado de quatro andares, já caíram dois e periga cair o último, derrubados por Selã’ã em represália ao extermínio dos povos indígenas do rio Xingu. Segundo um mito, “Selã’ã ficou furioso e derrubou o céu, queria exterminar os Brancos.O rio havia desaparecido. Foi no tempo em que os Yudjá foram extintos, estavam à  beira da extinção, e quando Selã’ã tentou avistar o rio,não havia mais rio, e ele ficou furioso e derrubou o céu (…). O sol apagou, tudo ficou escuro. Os Juruna ficaram apreensivos, os poucos Juruna sobreviventes. (…) Os que se abrigaram ao pé de um grande rochedo, somente eles se salvaram; os que se encontravam alhures morreram, todos os Brancos, os Brancos todos morreram, os Índios morreram, os Juruna morreram. Os que estavam abrigados sob um rochedo escavaram o céu espesso com um pedaço de pau (…) Os sobreviventes reproduziram-se. Selã’ã disse [a um Juruna, no passado recente]: ‘É assim que hei de fazer: quando os Índios desaparecerem, quando os Índios desaparecerem das ilhas, eu desmoronarei o céu, o último céu’”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para permanecer no alto Xingu, os Yudjá tiveram de travar alguns conflitos sangrentos com os povos da região, especialmente os Kamayurá e os Suyá, que culminaram em dois episódios dignos de nota na memória do grupo. Durante um período, os Yudjá perderam totalmente sua autonomia política: os guerreiros foram massacrados e as demais pessoas tornaram-se prisioneiras dos Suyá (sendo algumas delas roubadas mais tarde pelos Kamayurá). Por fim, um velho fugiu para ir buscar em Pedra Seca o auxílio de Constantino Viana e seus homens, resultando disso um massacre para os Suyá e a recuperação da independência pelos Yudjá, que assim puderam estabelecer uma aldeia própria com unicamente quatro homens, umas dez mulheres e quase nenhuma criança. Alguns anos mais tarde, em 1950, logo após as relações de paz impostas pela Expedição Roncador-Xingu que ali entrara havia uns dois anos, a população Yudjá estava reduzida a 37 pessoas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Viviam então em duas aldeias, voltando a se reunir em uma única em 1967. Um conflito entre o fim dos 70 e o início dos 80 provocou uma divisão do grupo que então contava com 18 homens adultos. Em 1984 suas aldeias (Saúva e Tubatuba) contavam cada uma respectivamente com 7 e 13 famílias, somando uma população total de 80 pessoas. Um conflito com os Txukahamãe motivou os Yudjá a se reunirem em Tubatuba no mês de outubro de 1988. Em agosto de 1990, as 27 famílias desta aldeia somavam 121 pessoas. A última divisão ocorreu em 1996, mas os dois conjuntos de famílias que saíram Tubatuba rotulam suas aldeias de fazendas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O censo apresentado no quadro abaixo diz respeito ao mês de junho de 2001 e inclui cônjuges que são membros dos povos Kayabi, Txukahamãe e [[Povo:Ikpeng|Ikpeng]], mas não inclui membros (e descendentes) do povo Yudjá incorporados pelo grupo de seus cônjuges (os Suyá). Os jovens solteiros que residem no Diauarum foram incluídos no censo de Tubatuba, a que se sentem ligados através da família.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;table-responsive&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;table class=&amp;quot;table table-hover&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
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&amp;lt;/table&amp;gt;&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(Observações: Piaraçu é um ex-Posto de Vigilância, na beira da BR 80. Tem por dono um homem Txukahamãe casado com uma mulher Yudjá, e que é considerado dono também da fazenda Boa Vista. A fazenda Novo Parque Samba é também conhecida como aldeia Paquiçamba. Quanto à aldeia Pequizal, ela é sítio de uma das aldeias Yudjá dos anos 1950 e 1960, dissolvida em 1967. A filha do chefe passou a ali morar sozinha com seu marido, membro do povo Kayabi. Em 1984 era habitada apenas por este casal e quatro filhos em idade de crescimento, até que nos anos 1990 os filhos começaram a constituir família e para lá se mudaram a sogra e o cunhado do dono da aldeia. Do total de famílias, 10 são formadas por casamentos de mulheres Yudjá com membros de outros povos: oito Kayabi, um Txukahamãe e um Ikpeng).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Tânia Stolze Lima|Tânia Stolze Lima]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Os Juruna da Volta Grande do Xingu ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Numa carta de 1920, Nimuendajú escrevia o seguinte:&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;Os Juruna, antigamente a tribo mais importante do Xingu, sofreu  todo o peso do avanço dos seringueiros. Especialmente o pessoal do Crl. [Coronel] Tancredo Martins Jorge, na boca do rio Fresco, cometeu, do assassinato para baixo, toda sorte de crimes contra estes pobres, até que eles se revoltaram e fugiram”&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Depois de algumas mudanças rio acima e rio abaixo, os Juruna se dividiram em dois grupos: cerca de 40 pessoas rumaram rio acima, encontrando-se hoje no [[Povo:Xingu | Parque Indígena do Xingu]], no Mato Grosso. Um grupo pequeno, a família do Tuxáua Muratú, cerca de 12 pessoas, permaneceu próximo à cachoeira do Jericoá, dando origem ao grupo que até hoje habita a região do Médio Xingu. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Estes indígenas estão espalhados em Altamira, nos beiradões do Xingu (especialmente na Volta Grande) e na &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://ti.socioambiental.org/pt-br/#!/pt-br/terras-indigenas/3788&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;Terra Indígena Paquiçamba&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, em três aldeias: Paquiçamba, Muratu e Furo Seco. Há também uma aldeia no quilômetro 17 da estrada entre Altamira e Vitória do Xingu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Juruna são habitantes tradicionais das ilhas do rio Xingu situadas entre a Volta Grande e o rio Fresco. Essas ilhas e as margens do rio eram território de uma civilização canoeira que incluía os [[Povo:Xipaya | Xipaia]], mas também outros povos que desapareceram desde que os brancos, há algumas centenas de anos, começaram a chegar na região.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a progressiva urbanização da região, intensificada a cada ciclo econômico e fortemente pressionada pela construção da rodovia Transamazônica, os Juruna do médio Xingu absorveram em sua cultura diversos itens típicos da sociedade branca: a língua portuguesa, a televisão, as roupas e os celulares. Casaram-se, durante muitas décadas, com beiradeiros  e com indígenas de outras etnias. Acompanharam as diferentes atividades econômicas que se sucederam e conviveram com  as diversas levas de migrantes que vieram se instalando em seu território. E mantiveram, em meio a esse dinamismo de culturas, seus conhecimentos tradicionais sobre a pesca e a floresta, e uma forte relação com o rio Xingu e sua história.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em contato com seus parentes do Parque indígena do Xingu que mantiveram sua língua e um modo de vida mais próximo dos antigos, os Juruna da região de Altamira têm relembrado seu &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/yudja/644&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot;&amp;gt;idioma&amp;lt;/htmltag&amp;gt; e práticas tradicionais, como cantos e danças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Juruna guardam uma relação especial com o rio Xingu: são exímios navegantes e pescadores, empregando uma grande variedade de técnicas de pesca e detendo um conhecimento profundo da ecologia do rio. Pescadores atrevidos, mergulham sem medo em suas águas atrás de acaris ou tracajás.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Xingu é essencial à vida dos Juruna: além de viverem principalmente da pesca, dependem do rio para se deslocar, pois participam de uma ampla rede de parentesco e amizades que inclui Altamira e toda a Volta Grande. O barramento imposto com a &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;https://www.socioambiental.org/pt-br/dossie-belo-monte&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot;&amp;gt;usina de Belo Monte&amp;lt;/htmltag&amp;gt; põe seu modo de vida atual diretamente em risco, uma vez que se prevê o desvio da maior parte do fluxo do rio, trazendo uma seca permanente à Volta Grande. Tanto a pesca quanto a navegação estarão comprometidas no futuro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Juruna têm resistido há séculos à invasão de seu território. Belo Monte é mais um episódio desta invasão: um episódio que trará mudanças drásticas nas condições ambientais da região, cujas consequências mal se podem vislumbrar.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Eric Macedo|Eric Macedo]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Donos e grupos ==&lt;br /&gt;
A sociedade Yudjá é formada por grupos de parentelas bilaterais dispersos ao longo do rio e constituídos em torno de um “dono” ou capitão: aquele que reúne as características de mais-velho [se’uraha] e de afim [saha] da maioria dos homens maduros que são “donos” de grupos domésticos. Estes últimos são predominantemente fundados nas relações entre mãe e filhas e entre sogro e genros. [O léxico da língua Juruna distingue vários tipos de relações e/ou posições concernentes à figura do “dono” (''iwa, ijifa, iju’a, iui’a, iu’a, i’uraha, awai'').&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A produção da vida social é regida basicamente por um princípio sociológico encarnado na figura de um “dono”, por cujo intermédio um conjunto de pessoas ligadas por relações de parentesco é transformado em um grupo plenamente político, tenha este a amplitude de um conjunto de aldeias formado por uma aldeia-mãe e as outras menores que dela derivam, ou a de um grupo doméstico ocupante de uma seção residencial (ou mesmo de uma única casa). Em um nível intermédio, o da aldeia, a unidade desta pode ser exprimida espacialmente em uma Casa do Cauim, idealmente construída pelo dono da aldeia (mas uma casa velha pode ser para isso aproveitada), e que funciona como uma cozinha coletiva para o trabalho feminino de processamento dos produtos da roça e como salão para as cauinagens.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Existe ainda uma outra expressão da figura sociológica do dono que é igualmente importante. Trata-se de uma posição ocupada efemeramente por qualquer homem casado e/ou dono de roça que tome a iniciativa de promover uma atividade coletiva, como uma caçada, uma pescaria com timbó ou uma festa, ou mesmo a puxada de uma canoa nova desde a floresta até o porto. Oferecer uma cauinagem é o procedimento indispensável de todo homem que pretenda assumir-se como dono de uma atividade coletiva, tornando-se no mesmo golpe dono do grupo. Todo homem tem o direito de assumir essa posição, mas, na prática, antes de tornar-se sogro e, com isso, entrar na maturidade, muitos são suficientemente tímidos para não concretizar essa ambição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com base em observações efetuadas no período 1984-1994, pode-se afirmar que estas diferentes unidades sociais são determinadas muito mais como unidades de consumo que de produção. Existe um código culinário que articula diferentes categorias de alimentos às três unidades sociais básicas (a família, o grupo doméstico e a aldeia) e permite à aldeia Yudjá ter as refeições coletivas como uma prática cotidiana. Entretanto, em Tubatuba, nos anos de 1999 e 2001, essas refeições não tinham a mesma freqüência e o mesmo valor, em concomitância com uma carência relativa de canoas — um indicativo de mudança dos padrões de pesca — e a adoção, por parte de algumas famílias, do fogão a gás, louças individualizadas, arroz e macarrão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Do conjunto de relações de parentesco, a afinidade destaca-se como tendo um cunho político fundamental. O método de classificação dessas relações adotado pelos Yudjá é talvez o mais difundido entres as sociedades índigenas amazônicas. Ele dá origem a um sistema de relações bipartido em consangüinidade e afinidade. O pai e o irmão do pai são classificados como consangüíneos, assim como a mãe e a irmã da mãe; já o irmão da mãe e a irmã do pai são classificados como afins. Coerentemente, os filhos do irmão do pai e os filhos da irmã da mãe (isto é, os primos paralelos) são parentes da mesma categoria que os irmãos, enquanto os filhos do tio materno e os da tia paterna (isto é, os primos cruzados) pertencem à categoria oposta. O casamento considerado ideal é aquele entre primos cruzados. Tendo isso por base, as mulheres Yudjá, p. ex., classificam como ''umãbïa ''os seus próprios filhos, aqueles de sua irmã, aqueles da filha do irmão de seu pai e os da filha da irmã de sua mãe, e também os filhos de seu primo cruzado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sistemas deste tipo são rotulados nos dias de hoje como “dravidianos”. Todavia, cabe registrar que o sistema Yudjá apresenta as seguintes particularidades. Os filhos daqueles primos cruzados do mesmo sexo que não se tornaram efetivamente cunhados não são classificados como afins (‘sobrinho’ e ‘sobrinha’, isto é, genro e nora virtuais) mas sim como ‘filhos’. Do mesmo modo, para uma perspectiva masculina e unicamente para ela, os filhos de sobrinho ou sobrinha que não se tornaram efetivamente genro ou nora são classificados como ‘primos cruzados’. Para a perspectiva feminina, dá-se o seguinte: em função daquelas possibilidades de casamento não realizadas por sua mãe, uma mulher pode ter como ‘primo cruzado’ (cônjuge virtual) o tio materno de sua mãe; mas os filhos de seus próprios sobrinho(a)s serão em qualquer circunstância seus ‘netos’.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Tânia Stolze Lima|Tânia Stolze Lima]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Cosmologia e xamanismo ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
 |Homem tocando a flauta dos mortos no fim de uma cauinagem.&lt;br /&gt;
Foto: Tânia Stolze Lima. Aldeia de Tubatuba, 2001.&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/239577-1/yudja_8.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Parte do saber cosmológico e da vida ritual depende de modo crucial dos xamãs, e não existem mais xamãs entre os Yudjá desde os anos 1980. Algumas pessoas tentaram, fazendo uso dos remédios apropriados, mas faltou-lhes coragem, desistiram com medo, como relatou o ''capitão ''em 1989: &amp;quot;Eu me defrontei com uma onça e não quis preparar [o remédio] ''arïpa ''de novo. Tive medo que acontecesse outra vez. Acho perigoso — a onça brincou comigo! Bebi apenas um pouquinho e tomei um único banho [do remédio]. Depois de alguns dias fui pescar, e a onça avançou em minha direção na hora em que flechei um tucunaré. Aproximou-se de mim e me mostrou os dentes, peguei o arco, tentei bater nela, mas  correu. Eu não tinha flecha de caça; e minhas flechas de pesca, duas apenas, nem as tinha arrancado dos peixes ainda. Foi um perigo! Pensei que ia me pegar. Por isso peguei o arco e brandi, a onça recuou um pouco e ficou me fitando. Arranquei as flechas dos peixes, matei-os e disse à onça, venha de novo! Pretendia flechá-la, mas foi embora. É muito perigoso! Se fosse em sonho, tudo bem, se a onça me aparecesse dizendo que está brincando comigo, tudo bem. Mas não foi em sonho.”&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre as razões prováveis deste esmorecimento, não se poderia subestimar nem a tragédia demográfica e sociológica provocada pelo ciclo da borracha, nem a incorporação das sociedades indígenas alto-xinguanas em meados do século XX pelo órgão do Estado nacional responsável pela assistência aos indígenas; nem, tampouco, o contexto político e cultural particular do PIX. Os Yudjá procuram os serviços terapêuticos de xamãs Kayabi, e, mais raramente, Kamayurá (quando se trata de desenfeitiçamento).&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
 |Desenho: Karin Yudjá, 1998.&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/239581-1/yudja_9.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir de 1987, algumas pessoas, mulheres e homens, receberam de xamãs Kayabi o poder de curar, e vêm efetuando uma terapia xamânica simplificada. Sem terem passado por qualquer aprendizado mais formal do xamanismo Kayabi, sua prática alia a noção de um poder obtido junto a forças cósmicas estrangeiras a teorias próprias das doenças, das quais a mais importante afirma que elas derivam em última instância da ação humana: as forças despendidas pelas pessoas sobre as coisas são replicadas pelas (almas das) coisas no corpo das pessoas ou de parentes seus. Cabe ao xamã extrair tais doenças. Além de contar com esses curadores constituídos por poderes Kayabi, hoje em dia o xamã mais importante de Tubatuba é um homem Ikpeng.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Três são as coordenadas fundamentais da cosmologia Yudjá:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
a) A oposição entre vida e morte, em primeiro lugar; ela está longe de ser uma dicotomia tão drástica como afirma a nossa cosmologia, pois há algumas transições cruciais engendradas pelo funcionamento dinâmico da máquina cosmológica, desde algo como pequenas mortes passageiras, provocadas pelo sono e cuja expressão mais típica são os sonhos, até mortes antecipadas. A relação entre vida e morte é menos de exclusão recíproca (se está morto, não pode estar vivo) que de inclusão: ele está morto aqui, mas vivo em outro lugar; aqui ainda está vivo mas já morreu no além. Em outras palavras, trata-se de uma relação de disjunção relativa, capaz de dar lugar a conjunções importantes. Os xamãs Yudjá eram os mestres dessas transições.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
b) Em segundo lugar, os eixos do mundo são dados pelas oposições entre Rio e Floresta e Céu e Terra, cada uma articulada à oposição entre presença e ausência de antropofagia. O Rio e o Céu têm uma ligação positiva com a última. Dir-se-ia que todas as coisas que existem poderiam ser duplicadas a partir de tais oposições: os humanos (os povos do rio e os da floresta), os espíritos dos mortos (os dos grandes rochedos da beira do Xingu, que não gostam de carne de gente, e os do céu), os animais mamíferos (as espécies da floresta e seus correspondentes ''isãmï ''do fundo do rio), os Yudjá e seus correspondentes ''ãwã ''do fundo rio, os Abi da floresta e seus correspondentes ''ãwã ''dos locais sujos e sombrios da mata longínqua. Além disso, considera-se que todos os tipos de coisas existentes na terra, existem também no céu (este é uma terra parecida com a nossa). Já o rio, que não é para os Yudjá cópia da floresta, pode ser tido como uma cópia da terra por certos de seus habitantes, exceto que a floresta da terra deles é a nossa floresta de galeria, e as suas roças são terrenos desmoronados da beira do rio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
c) A terceira e última operação cosmológica fundamental repousa sobre a oposição entre o ponto de vista do sujeito humano vivo e desperto e pontos de vista alheios, como o de animais, animais-isãmï, ãwã, e finalmente o dos ''’i’ãnay'' (os mortos). O dinamismo e a complexidade da cosmologia Yudjá dependem estreitamente do confronto, virtualmente perigoso, desses pontos de vista discordantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O xamanismo Yudjá desdobrava-se em dois sistemas relacionados cada um com uma sociedade de mortos. Considera-se rara a possibilidade de um xamã praticar os dois xamanismos: os mortos dos rochedos temem por demais os do céu, cuja sociedade é formada pelas almas dos guerreiros em torno do ''capitão ''e xamã Kumahari. Um pavor talvez ainda maior experimentam hoje os Yudjá por eles, e este xamanismo é incrivelmente mais poderoso, perigoso e difícil de se obter.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada sistema estava relacionado a um grande festival em honra de sua respectiva categoria de mortos. O dos mortos dos rochedos (''’ï’ãna kariay'' ) desenvolvia-se ao som de música de flautas e cantos executados por eles próprios, soprados na boca do xamã. Aquele chamado duru ''karia ''(ou ''’e’ãmï karia'') desenvolvia-se ao som da música de um conjunto de trombetas (duru). Em sua festa, Kumahari e seus associados, à comida oferecida pelos Yudjá, preferiam comer a carne de Índio assada trazida do além; recusando também o cauim, diziam que já estavam bastante bêbados. Já os hóspedes provenientes dos rochedos, após a refeição, bebiam bastante, temperando o cauim das mulheres Yudjá com uma porção de cauim trazido do além. Ambos os festivais duravam em torno de um mês, e seu encerramento motivava a participação de diferentes aldeias. As últimas celebrações foram realizadas nos idos da década de 1970.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nem por isso, contudo, da vida ritual dos Yudjá pode-se dizer que não é bastante intensa. Além de sua rotina ser interrompida por cauinagens a intervalos tão curtos como quatro ou cinco dias, celebram todo ano dois festivais (tendo cada um a duração aproximada de um mês).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo a mitologia, de uma humanidade celeste, imortal (os ''alapa''), provêm os cantos do festival das plantas cultivadas (''koataha de abïa''), controlado pelas mulheres. Aos ''ãwã ''produtores de cauim que vivem em aldeias localizadas no fundo do rio e lagoas, os Yudjá devem dois festivais de clarinetas (''pïri''), bem como os adornos corporais que servem de distintivos étnicos: a penugem de pato colada nos cabelos e o botão vermelho colado no alto da testa feito de almécega e fiapinhos de tecido vermelho picotado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nenhum desses três festivais tem, é certo, a mesma importância cosmológica dos rituais xamânicos, mas são dotados de grande valor social.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Tânia Stolze Lima|Tânia Stolze Lima]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Cauinagem ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
 |Canoa de cauim dubia. Foto: Tânia Stolze Lima. Aldeia de Tubatuba, 2001.&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/239589-1/yudja_10.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dentre as muitas bebidas fermentadas que produzem, destacam-se, por sua importância na dieta e seu simbolismo, dois cauins de mandioca, o ''dubia ''e o ''yakupa''. Por seu poder embriagante, o ''dubia ''não é destituído de mistério, e a fermentação não deixa de ser uma transubstanciação. Objeto de diversas relações simbólicas com a Pessoa, o cauim é simultaneamente um “filho” da&lt;br /&gt;
mulher que o produz e uma “carne de caça” cujos pêlos espetam o coração das pessoas. Sua alma toma o caminho que conduz ao país dos mortos que habitam os rochedos do Xingu; enquanto, com o seu cadáver, representado pelos restos de puba fresca que foram colocados para secar ao sol em cima de um jirau, é produzido o ''yakupa'', um cauim refrescante consumido diariamente no seio da família.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de gostar muito de cauim, os Yudjá realmente sabem beber. Para a festa de encerramento da reclusão de sua filha em maio de 2001, Kushina, auxiliada pelas jovens primas e sobrinhas da menina, produziu cerca de 1500 litros de ''dubia'', enquanto sua prima fez um com cerca de 400 litros. O cauim foi consumido entre a meia-noite e as quatro da tarde!&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas não é só a alegria de viver que é projetada na cauinagem, muito da infelicidade também a isso é concernida, e, assim, as pessoas também enfrentam ali seus antagonismos. Rivalidades entre cônjuges e entre afins podem dar lugar a situações muito dramáticas mas estas raramente provocam uma cisão da aldeia (como foi, porém, o caso da cisão que atingiu Tubatuba em 1996).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sendo verdadeiramente uma pessoa simbólica, parece legítimo considerar o cauim como uma reflexão sobre a condição mortal da humanidade, e a cauinagem, essa antropofagia figurada, como uma reflexão sobre a finitude da sociedade.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Tânia Stolze Lima|Tânia Stolze Lima]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nota sobre as fontes ==&lt;br /&gt;
Estudos antropológicos sobre este povo foram efetuados por Adélia Engrácia de Oliveira em meados dos anos de 1960 e pela autora deste verbete, nos períodos 1984-1985, 1988-1990 e a partir de 1999. A tese de doutorado da primeira acha-se publicada desde 1970, mas permanecem inéditas a dissertação de mestrado e a tese de doutorado da segunda. Os campos etnográficos cobertos por esses estudos são praticamente os mesmos (organização social, parentesco, mitologia e cosmologia) exceto que Tânia Lima, além de basear sua investigação em uma compreensão razoável da língua indígena, oferece uma visada etnográfica mais extensa e profunda. Artigos desta autora versando sobre as noções cosmológicas dos Yudjá têm sido publicados em revistas especializadas. A língua juruna vem sendo estudada pela lingüista Cristina Martins Fargetti. Ela realizou o vídeo Sãluahã sobre a festa da reclusão de duas moças. Sobre o grupo juruna do médio Xingu, foram publicados artigos de Lúcia M. M. de Andrade e Eduardo Viveiros de Castro no volume As Hidrelétricas do Xingu e os Povos Indígenas (Comissão Pró-Índio de São Paulo, 1988).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Tânia Stolze Lima|Tânia Stolze Lima]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
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* FARGETTI, Cristina Martins. Análise fonológica da língua juruna. Campinas : Unicamp, 1992. 124 p. (Dissertação de Mestrado)&lt;br /&gt;
* --------. Estudo fonológico e morfossintático da língua Juruna. Campinas : Unicamp, 2001. 317 p. (Tese de Doutorado)&lt;br /&gt;
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* OLIVEIRA, Adelia Engracia. Os índios Juruna do Alto Xingu. Rio Claro : Fac. de Filosofia de Rio Claro, 1969. 342 p. (Tese de Doutorado)&lt;br /&gt;
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* --------. Xingu : los indios, sus mitos. Quito : Abya-Yala ; Roma : MLAL, 1991. 237 p. (Colección 500 Años, 33)&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== VÍDEOS ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;huzzazWrapper&amp;quot; style=&amp;quot;width:100%; height: 1700px; margin: 0 auto;&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;htmltag allowfullscreen=&amp;quot;&amp;quot; allowtransparency=&amp;quot;true&amp;quot; frameborder=&amp;quot;0&amp;quot; height=&amp;quot;100%&amp;quot; mozallowfullscreen=&amp;quot;&amp;quot; src=&amp;quot;https://huzzaz.com/embed/juruna-yudj?vpp=12&amp;quot; tagname=&amp;quot;iframe&amp;quot; webkitallowfullscreen=&amp;quot;&amp;quot; width=&amp;quot;100%&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;/htmltag&amp;gt;&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
[[Categoria:Parque Indígena do Xingu]]&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
Cuidado ao editar esta seção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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Detalhes em http://www.mediawiki.org/wiki/Transclusion#Semantic_MediaWiki&lt;br /&gt;
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{{DISPLAYTITLE:Yudjá (Juruna)}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Tânia Stolze Lima}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Eric Macedo}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
{{#set:Capa=1507245852563cf24daf8f6.png}}&lt;br /&gt;
{{#set:Counter=77413}}&lt;br /&gt;
{{#set:Crédito capa=Geraldo Silva, 2000}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=2001-11-01}}&lt;br /&gt;
{{#set:Estilo=claro}}&lt;br /&gt;
{{#set:Povo Id=115}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Yudja&amp;diff=8534</id>
		<title>Povo:Yudja</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Yudja&amp;diff=8534"/>
		<updated>2025-10-31T14:55:14Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
'''Conversa com um homem:'''&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
— Qual é o nome desse rio?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse rio não tem nome, dizemos simplesmente iya ithabï.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
— Quais são as fronteiras de sua terra?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
De Altamira ao Morená, este rio é nossa terra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
— O que quer dizer seu nome?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nosso nome, Yudjá, nós o temos porque somos deste rio, nós outros fomos criados neste rio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
— Por que vocês caçam de canoa?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não podemos andar a pé, não somos Índios! Temos canoas para navegar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
'''Conversa com uma mulher:'''&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
— Por que o cauim carrega o nome de gente?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Claro que é porque os donos ficam bêbados com o cauim! ‘Como pode ser assim, o pessoal já se perguntou, como pode ser gente? É gente por nos fazer ficar bêbados, por nos matar um pouco’. O cauim é gente para o pessoal. É gente, pois nos mata, ficamos bêbados e caímos no sono. O cauim nos faz morrer.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Localização ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
 |Homens com chapéus improvisados para um canto de cauinagem.Foto: Tânia Stolze Lima. Aldeia de Tubatuba, 2001&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/239561-1/yudja_2.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Canoeiros, os Yudjá são antigos habitantes das ilhas e penínsulas do baixo e médio Xingu, um dos rios mais importantes da Amazônia meridional, atualmente ameaçado por projetos de implantação de complexos hidrelétricos. Há cerca de cem anos, este povo acha-se separado em dois grupos por uma enorme distância. Uma parte vive na região de ocupação muito antiga, o médio Xingu, na tão diminuta [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3788 Terra Indígena Paquiçamba] e adjacências não contempladas pelo reconhecimento oficial, bem como em Altamira (Pará). A outra parte vive no alto curso do mesmo rio, na área do [[Povo:Xingu | Parque Indígena do Xingu (PIX)]] criado em 1961, no estado do Mato Grosso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este verbete enfoca basicamente o grupo do PIX que é um dos 14 povos que ali hoje habitam. Suas aldeias estão localizadas na parte norte da Terra Indígena, entre a BR 80 e o Posto Indígena Diauarum. Neste eixo, as terras da margem ocidental do Xingu pertencem ao município de Marcelândia, e as da margem oriental, a São José do Xingu. Tomando-se um critério lingüístico e em grande medida também cultural, os Yudjá ali possuem quatro aldeias, mas estas, segundo critérios etnopolíticos, poderiam ser reduzidas a uma única: Tubatuba, na foz do Manissauá-Missu. Por razões diplomáticas e em certos contextos, as duas aldeias que se formaram por divisão de Tubatuba preferem definir-se como “fazendas” (Fazenda Novo Parque Samba e Fazenda Boa Vista), onde são criadas algumas cabeças de gado bovino. Já Pequizal é tida ora como uma aldeia kayabi, por ter membros deste povo, ora como uma aldeia yudjá devido à língua que ali se fala. Em censo de junho de 2001, os Yudjá somavam cerca de 270 pessoas.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Tânia Stolze Lima|Tânia Stolze Lima]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nome ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
 |Mulher Yudjá. Foto: Rubens Belluzzo Brando, 1977.&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/239563-1/yudja_3.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O etnônimo Juruna (Yuruna, Jurúna, Juruûna, Juruhuna, Geruna) é de origem estrangeira e parece significar “boca preta” em Língua Geral; teria sido motivado por uma tatuagem que, segundo consta em registros do século XVII, este povo usava quando o seu território no baixo Xingu foi invadido, alguns anos depois da fundação de Belém (1615). Sua autodenominação é Yudjá [Yudya; em escrita fonêmica: Iuja], entretanto Yuruna não apenas é usado como auto-referência como prevalecia antes da introdução de escolas nas aldeias, em meados dos anos 1990, quando vem passando a ser considerado incorreto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Juruna ou Yudjá opõem-se a dois coletivos humanos: os ''Abi ''(“Índios”, em glosa juruna) incluem todos os povos indígenas que nem são falantes do juruna (ou, segundo o contexto, de língua próxima a esta), nem produtores de cauim e navegadores tradicionais da bacia do Xingu. Os ''Karaí ''(“Brancos”, em glosa juruna) incluem os demais humanos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Yudjá são retratados em sua mitologia como a humanidade prototípica, isto é, canoeira e produtora de cauim; os Abi provêm dos Yudjá que se perderam nas matas após o dilúvio e se tornaram Selvagens (''imama'': Outros, bravios, caçadores nômades, não-canibais, não-produtores de cauim). Já os Karaí provêm de guerreiros que, após provocarem a separação entre os Yudjá e seu Criador, negando-lhe carne de Abi, fizeram contra ele uma perseguição que o motivou a virar sua fala pelo avesso (daí derivando o português) e dar-lhes um curral de gado para torná-los sedentários.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Embora não se possa analisar o significado do etnônimo Yudjá, os Juruna se consideram como tal por serem ninguém menos que “os donos do rio Xingu”.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Tânia Stolze Lima|Tânia Stolze Lima]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Língua ==&lt;br /&gt;
Os Yudjá falam uma língua do tronco tupi classificada na família linguística Juruna, que também incluía as línguas já extintas dos povos Arupaia, Xipaia, Peapaia e Aoku (não-identificado), além dos Maritsawá. No que tange à cultura, eles aproximam-se sensivelmente de povos que falam línguas da família tupi-guarani. Sua tradição oral menciona uma substituição de palavras da língua juruna por aquela do povo Shadí (não-identificado). Nimuendajú considerava as línguas juruna (só mais tarde assim classificadas) como um tupi impuro, que teria sofrido a influência de línguas arawak e caribe (sem contar os empréstimos de vocábulos da Língua Geral).&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
 |Desenho: Yabaiwá Yudjá, 1998.&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/239565-1/yudja_4.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nem todos os homens com mais de 50 anos dominam o português e talvez apenas a metade das mulheres adultas tenha dele uma compreensão razoável. Não é improvável que algumas possam fazer uso dessa língua, mas em quase dois anos de convivência jamais o fizeram na presença da autora deste verbete. Os meninos começam a falar português na puberdade. Com a introdução de escolas tidas como bilíngües nas aldeias, é permitido presumir que a timidez feminina será quebrada em breve, promovendo talvez uma reordenação das relações de gênero e, principalmente, das formas de comunicação (atualmente muito reduzidas) entre as mulheres Yudjá e as dos demais povos indígenas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1989, o grupo Yudjá da TI Paquiçamba do médio Xingu contava com um único membro capaz de comunicar-se em juruna. Em idos dos anos 1970, apenas uma mulher era falante da língua do outro único povo da família juruna que pôde chegar ao século XX, os Xipaia. Motivada pela morte de sua língua, ela fez ao capitão Juruna do alto Xingu, em Altamira, um presente de nomes próprios.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Tânia Stolze Lima|Tânia Stolze Lima]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== História e população ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
 |Mulheres Yudjá preparam cauim. Foto: Adélia de Oliveira, 1966.&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/239573-1/yudja_6.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Imagine um povo cuja população soma 2.000 em 1842; 200 em 1884; 150 em 1896; 52 em 1916 (dados tomados de, respectivamente, Adalberto, Steinen, Coudreau e Nimuendajú). Foi em meio a esta terrível experiência que uma parte dos Yudjá fugiu para o alto curso do rio. Escrita em 1920 por Nimuendajú, uma carta para o diretor do Serviço de Proteção aos Índios registra o seguinte:&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;Os Juruna, antigamente a tribo mais importante do Xingu, sofreu todo o peso do avanço dos seringueiros. Especialmente o pessoal do Crl. [Coronel] Tancredo Martins Jorge, na boca do rio Fresco cometeu, do assassinato para baixo, toda sorte de crimes contra estes pobres, até que eles se revoltaram e fugiram, chefiados pelo seu Tuxáua Máma, para além das fronteiras do Mato Grosso, onde se estabeleceram numa ilha acima da Cachoeira de Martius. Lá os encontrou Fontoura quando em comissão da Defesa da Borracha desceu o Xingu do Mato Grosso em 1913 (?). Em seguida os Yudjá fizeram as pazes com o seringueiro Major Constantino Viana, da Pedra Seca, que com eles tripulou as suas embarcações em 1916 e desceu a Altamira onde em poucos dias morreram 11 dos Yudjá. Quando os sobreviventes voltaram com esta notícia o velho Máma fugiu com o resto novamente rio acima, e ninguém sabe hoje do paradeiro deste bando que se comp[unha] de umas 40 cabeças. Um outro bandozinho, a família do Tuxáua Muratú, umas 12 pessoas, conservou-se, protegido pelas terríveis cachoeiras da ‘Volta’ do Xingu, no Salto Jurucuá, pouco abaixo da boca do Pacajá”.&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pior sorte tiveram outros povos ribeirinhos do médio Xingu, vizinhos e relacionados com os Yudjá por sua língua e/ou civilização, como os Peapaia, Arupaia e Takunyapé (este, da família tupi-guarani) inteiramente dizimados nesta onda de genocídio promovida pela invasão do médio Xingu pelos seringalistas na segunda metade do século XIX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
E esta não foi a primeira vez que as terras dos Yudjá e seus vizinhos foram invadidas; como já foi dito, a sua história está ligada à nossa desde a fundação de Belém. Em meados do século XVIII, o resultado mais evidente dos primeiros cem anos de uma história marcada por aprisionamento, escravização, guerra e redução era o “abandono” de todo o baixo Xingu pelos indígenas. De acordo com Nimuendajú, pode-se presumir que os Yudjá fugiram para montante, enquanto um povo tupi-guarani, os Waiãpi, seus vizinhos das margens do Xingu, atravessaram o Amazonas e partiram rumo ao Oiapoque.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
 |Interior de uma casa Yudjá. Foto: Eduardo Galvão, década de 1960.&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/239575-1/yudja_7.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A hipótese desses deslocamentos progressivos em função das invasões, embora consistente, como denota o Mapa Etno-Histórico de Curt Nimuendajú (IBGE, 1981), não deve servir para subestimar a provável onda de genocídio que afetou os povos do baixo Xingu no século XVII. Se uma diferença importante existe entre os acontecimentos daquele período e a experiência da virada do século XX, é que nesta última não havia mais meios de reunir 30 canoas para a comemoração de uma vitória sobre “expedições”, como ocorrera com a de Gonçalo Pais de Araújo e seus aliciados Kuruáya, derrotados, em 1686, pelos Yudjá e seus aliados Takunyapé.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No início dos anos 1950 morreu entre os Yudjá no alto Xingu o último membro do povo Takunyapé. As pessoas lembram-se de sua emoção ao ouvir a fala de membros do povo Kayabi recém-chegados. Mas, quanta decepção! A língua podia lembrar, mas não era a sua, aqueles não eram realmente os Takunyapé.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A história oral dos Yudjá, aparentemente, não dá lugar nem a sua ocupação do baixo Xingu nem a sua última tragédia demográfica. Atribuindo a extinção dos povos Takunyapé, Arupaia e Peapaia à sua própria ação guerreira e aos seus inimigos memoráveis, os Txukahamãe, afirmam que o território original estendia-se por toda a região da Volta Grande do Xingu (isto é, a grande curva do rio onde está situada Altamira) até a desembocadura do rio Fresco. Seus antepassados abandonaram-no fugindo para montante, antes de os Brancos ali chegarem, por terem tirado a vida do capitão que chefiava as três aldeias do grupo então existentes. Teria sido na boca do Rio Fresco que conheceram os Karaí, vindo a associar-se mais tarde a Constantino Viana, dono de seringais situados bem a montante, em Pedra Seca. O medo da represália pela morte de uma vaca provocada pelo caldo de mandioca das mulheres Yudjá levou-os a fugir para montante, para “a última cachoeira do Xingu” (Cachoeira Von Martius).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, sua mitologia não fecha os olhos para o genocídio. Dos três céus que formavam com a terra um cosmos dotado de quatro andares, já caíram dois e periga cair o último, derrubados por Selã’ã em represália ao extermínio dos povos indígenas do rio Xingu. Segundo um mito, “Selã’ã ficou furioso e derrubou o céu, queria exterminar os Brancos.O rio havia desaparecido. Foi no tempo em que os Yudjá foram extintos, estavam à  beira da extinção, e quando Selã’ã tentou avistar o rio,não havia mais rio, e ele ficou furioso e derrubou o céu (…). O sol apagou, tudo ficou escuro. Os Juruna ficaram apreensivos, os poucos Juruna sobreviventes. (…) Os que se abrigaram ao pé de um grande rochedo, somente eles se salvaram; os que se encontravam alhures morreram, todos os Brancos, os Brancos todos morreram, os Índios morreram, os Juruna morreram. Os que estavam abrigados sob um rochedo escavaram o céu espesso com um pedaço de pau (…) Os sobreviventes reproduziram-se. Selã’ã disse [a um Juruna, no passado recente]: ‘É assim que hei de fazer: quando os Índios desaparecerem, quando os Índios desaparecerem das ilhas, eu desmoronarei o céu, o último céu’”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para permanecer no alto Xingu, os Yudjá tiveram de travar alguns conflitos sangrentos com os povos da região, especialmente os Kamayurá e os Suyá, que culminaram em dois episódios dignos de nota na memória do grupo. Durante um período, os Yudjá perderam totalmente sua autonomia política: os guerreiros foram massacrados e as demais pessoas tornaram-se prisioneiras dos Suyá (sendo algumas delas roubadas mais tarde pelos Kamayurá). Por fim, um velho fugiu para ir buscar em Pedra Seca o auxílio de Constantino Viana e seus homens, resultando disso um massacre para os Suyá e a recuperação da independência pelos Yudjá, que assim puderam estabelecer uma aldeia própria com unicamente quatro homens, umas dez mulheres e quase nenhuma criança. Alguns anos mais tarde, em 1950, logo após as relações de paz impostas pela Expedição Roncador-Xingu que ali entrara havia uns dois anos, a população Yudjá estava reduzida a 37 pessoas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Viviam então em duas aldeias, voltando a se reunir em uma única em 1967. Um conflito entre o fim dos 70 e o início dos 80 provocou uma divisão do grupo que então contava com 18 homens adultos. Em 1984 suas aldeias (Saúva e Tubatuba) contavam cada uma respectivamente com 7 e 13 famílias, somando uma população total de 80 pessoas. Um conflito com os Txukahamãe motivou os Yudjá a se reunirem em Tubatuba no mês de outubro de 1988. Em agosto de 1990, as 27 famílias desta aldeia somavam 121 pessoas. A última divisão ocorreu em 1996, mas os dois conjuntos de famílias que saíram Tubatuba rotulam suas aldeias de fazendas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O censo apresentado no quadro abaixo diz respeito ao mês de junho de 2001 e inclui cônjuges que são membros dos povos Kayabi, Txukahamãe e [[Povo:Ikpeng|Ikpeng]], mas não inclui membros (e descendentes) do povo Yudjá incorporados pelo grupo de seus cônjuges (os Suyá). Os jovens solteiros que residem no Diauarum foram incluídos no censo de Tubatuba, a que se sentem ligados através da família.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;table-responsive&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;table class=&amp;quot;table table-hover&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;LOCAL&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;FAMÍLIAS&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
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&amp;lt;td&amp;gt;Tubatuba&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
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&amp;lt;td&amp;gt;'''48'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''278'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/table&amp;gt;&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(Observações: Piaraçu é um ex-Posto de Vigilância, na beira da BR 80. Tem por dono um homem Txukahamãe casado com uma mulher Yudjá, e que é considerado dono também da fazenda Boa Vista. A fazenda Novo Parque Samba é também conhecida como aldeia Paquiçamba. Quanto à aldeia Pequizal, ela é sítio de uma das aldeias Yudjá dos anos 1950 e 1960, dissolvida em 1967. A filha do chefe passou a ali morar sozinha com seu marido, membro do povo Kayabi. Em 1984 era habitada apenas por este casal e quatro filhos em idade de crescimento, até que nos anos 1990 os filhos começaram a constituir família e para lá se mudaram a sogra e o cunhado do dono da aldeia. Do total de famílias, 10 são formadas por casamentos de mulheres Yudjá com membros de outros povos: oito Kayabi, um Txukahamãe e um Ikpeng).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Tânia Stolze Lima|Tânia Stolze Lima]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Os Juruna da Volta Grande do Xingu ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Numa carta de 1920, Nimuendajú escrevia o seguinte:&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;Os Juruna, antigamente a tribo mais importante do Xingu, sofreu  todo o peso do avanço dos seringueiros. Especialmente o pessoal do Crl. [Coronel] Tancredo Martins Jorge, na boca do rio Fresco, cometeu, do assassinato para baixo, toda sorte de crimes contra estes pobres, até que eles se revoltaram e fugiram”&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Depois de algumas mudanças rio acima e rio abaixo, os Juruna se dividiram em dois grupos: cerca de 40 pessoas rumaram rio acima, encontrando-se hoje no [[Povo:Xingu | Parque Indígena do Xingu]], no Mato Grosso. Um grupo pequeno, a família do Tuxáua Muratú, cerca de 12 pessoas, permaneceu próximo à cachoeira do Jericoá, dando origem ao grupo que até hoje habita a região do Médio Xingu. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Estes indígenas estão espalhados em Altamira, nos beiradões do Xingu (especialmente na Volta Grande) e na &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://ti.socioambiental.org/pt-br/#!/pt-br/terras-indigenas/3788&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;Terra Indígena Paquiçamba&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, em três aldeias: Paquiçamba, Muratu e Furo Seco. Há também uma aldeia no quilômetro 17 da estrada entre Altamira e Vitória do Xingu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Juruna são habitantes tradicionais das ilhas do rio Xingu situadas entre a Volta Grande e o rio Fresco. Essas ilhas e as margens do rio eram território de uma civilização canoeira que incluía os [[Povo:Xipaya | Xipaia]], mas também outros povos que desapareceram desde que os brancos, há algumas centenas de anos, começaram a chegar na região.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a progressiva urbanização da região, intensificada a cada ciclo econômico e fortemente pressionada pela construção da rodovia Transamazônica, os Juruna do médio Xingu absorveram em sua cultura diversos itens típicos da sociedade branca: a língua portuguesa, a televisão, as roupas e os celulares. Casaram-se, durante muitas décadas, com beiradeiros  e com indígenas de outras etnias. Acompanharam as diferentes atividades econômicas que se sucederam e conviveram com  as diversas levas de migrantes que vieram se instalando em seu território. E mantiveram, em meio a esse dinamismo de culturas, seus conhecimentos tradicionais sobre a pesca e a floresta, e uma forte relação com o rio Xingu e sua história.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em contato com seus parentes do Parque indígena do Xingu que mantiveram sua língua e um modo de vida mais próximo dos antigos, os Juruna da região de Altamira têm relembrado seu &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/yudja/644&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot;&amp;gt;idioma&amp;lt;/htmltag&amp;gt; e práticas tradicionais, como cantos e danças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Juruna guardam uma relação especial com o rio Xingu: são exímios navegantes e pescadores, empregando uma grande variedade de técnicas de pesca e detendo um conhecimento profundo da ecologia do rio. Pescadores atrevidos, mergulham sem medo em suas águas atrás de acaris ou tracajás.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Xingu é essencial à vida dos Juruna: além de viverem principalmente da pesca, dependem do rio para se deslocar, pois participam de uma ampla rede de parentesco e amizades que inclui Altamira e toda a Volta Grande. O barramento imposto com a &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;https://www.socioambiental.org/pt-br/dossie-belo-monte&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot;&amp;gt;usina de Belo Monte&amp;lt;/htmltag&amp;gt; põe seu modo de vida atual diretamente em risco, uma vez que se prevê o desvio da maior parte do fluxo do rio, trazendo uma seca permanente à Volta Grande. Tanto a pesca quanto a navegação estarão comprometidas no futuro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Juruna têm resistido há séculos à invasão de seu território. Belo Monte é mais um episódio desta invasão: um episódio que trará mudanças drásticas nas condições ambientais da região, cujas consequências mal se podem vislumbrar.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Eric Macedo|Eric Macedo]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Donos e grupos ==&lt;br /&gt;
A sociedade Yudjá é formada por grupos de parentelas bilaterais dispersos ao longo do rio e constituídos em torno de um “dono” ou capitão: aquele que reúne as características de mais-velho [se’uraha] e de afim [saha] da maioria dos homens maduros que são “donos” de grupos domésticos. Estes últimos são predominantemente fundados nas relações entre mãe e filhas e entre sogro e genros. [O léxico da língua Juruna distingue vários tipos de relações e/ou posições concernentes à figura do “dono” (''iwa, ijifa, iju’a, iui’a, iu’a, i’uraha, awai'').&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A produção da vida social é regida basicamente por um princípio sociológico encarnado na figura de um “dono”, por cujo intermédio um conjunto de pessoas ligadas por relações de parentesco é transformado em um grupo plenamente político, tenha este a amplitude de um conjunto de aldeias formado por uma aldeia-mãe e as outras menores que dela derivam, ou a de um grupo doméstico ocupante de uma seção residencial (ou mesmo de uma única casa). Em um nível intermédio, o da aldeia, a unidade desta pode ser exprimida espacialmente em uma Casa do Cauim, idealmente construída pelo dono da aldeia (mas uma casa velha pode ser para isso aproveitada), e que funciona como uma cozinha coletiva para o trabalho feminino de processamento dos produtos da roça e como salão para as cauinagens.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Existe ainda uma outra expressão da figura sociológica do dono que é igualmente importante. Trata-se de uma posição ocupada efemeramente por qualquer homem casado e/ou dono de roça que tome a iniciativa de promover uma atividade coletiva, como uma caçada, uma pescaria com timbó ou uma festa, ou mesmo a puxada de uma canoa nova desde a floresta até o porto. Oferecer uma cauinagem é o procedimento indispensável de todo homem que pretenda assumir-se como dono de uma atividade coletiva, tornando-se no mesmo golpe dono do grupo. Todo homem tem o direito de assumir essa posição, mas, na prática, antes de tornar-se sogro e, com isso, entrar na maturidade, muitos são suficientemente tímidos para não concretizar essa ambição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com base em observações efetuadas no período 1984-1994, pode-se afirmar que estas diferentes unidades sociais são determinadas muito mais como unidades de consumo que de produção. Existe um código culinário que articula diferentes categorias de alimentos às três unidades sociais básicas (a família, o grupo doméstico e a aldeia) e permite à aldeia Yudjá ter as refeições coletivas como uma prática cotidiana. Entretanto, em Tubatuba, nos anos de 1999 e 2001, essas refeições não tinham a mesma freqüência e o mesmo valor, em concomitância com uma carência relativa de canoas — um indicativo de mudança dos padrões de pesca — e a adoção, por parte de algumas famílias, do fogão a gás, louças individualizadas, arroz e macarrão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Do conjunto de relações de parentesco, a afinidade destaca-se como tendo um cunho político fundamental. O método de classificação dessas relações adotado pelos Yudjá é talvez o mais difundido entres as sociedades índigenas amazônicas. Ele dá origem a um sistema de relações bipartido em consangüinidade e afinidade. O pai e o irmão do pai são classificados como consangüíneos, assim como a mãe e a irmã da mãe; já o irmão da mãe e a irmã do pai são classificados como afins. Coerentemente, os filhos do irmão do pai e os filhos da irmã da mãe (isto é, os primos paralelos) são parentes da mesma categoria que os irmãos, enquanto os filhos do tio materno e os da tia paterna (isto é, os primos cruzados) pertencem à categoria oposta. O casamento considerado ideal é aquele entre primos cruzados. Tendo isso por base, as mulheres Yudjá, p. ex., classificam como ''umãbïa ''os seus próprios filhos, aqueles de sua irmã, aqueles da filha do irmão de seu pai e os da filha da irmã de sua mãe, e também os filhos de seu primo cruzado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sistemas deste tipo são rotulados nos dias de hoje como “dravidianos”. Todavia, cabe registrar que o sistema Yudjá apresenta as seguintes particularidades. Os filhos daqueles primos cruzados do mesmo sexo que não se tornaram efetivamente cunhados não são classificados como afins (‘sobrinho’ e ‘sobrinha’, isto é, genro e nora virtuais) mas sim como ‘filhos’. Do mesmo modo, para uma perspectiva masculina e unicamente para ela, os filhos de sobrinho ou sobrinha que não se tornaram efetivamente genro ou nora são classificados como ‘primos cruzados’. Para a perspectiva feminina, dá-se o seguinte: em função daquelas possibilidades de casamento não realizadas por sua mãe, uma mulher pode ter como ‘primo cruzado’ (cônjuge virtual) o tio materno de sua mãe; mas os filhos de seus próprios sobrinho(a)s serão em qualquer circunstância seus ‘netos’.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Tânia Stolze Lima|Tânia Stolze Lima]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Cosmologia e xamanismo ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
 |Homem tocando a flauta dos mortos no fim de uma cauinagem.&lt;br /&gt;
Foto: Tânia Stolze Lima. Aldeia de Tubatuba, 2001.&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/239577-1/yudja_8.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Parte do saber cosmológico e da vida ritual depende de modo crucial dos xamãs, e não existem mais xamãs entre os Yudjá desde os anos 1980. Algumas pessoas tentaram, fazendo uso dos remédios apropriados, mas faltou-lhes coragem, desistiram com medo, como relatou o ''capitão ''em 1989: &amp;quot;Eu me defrontei com uma onça e não quis preparar [o remédio] ''arïpa ''de novo. Tive medo que acontecesse outra vez. Acho perigoso — a onça brincou comigo! Bebi apenas um pouquinho e tomei um único banho [do remédio]. Depois de alguns dias fui pescar, e a onça avançou em minha direção na hora em que flechei um tucunaré. Aproximou-se de mim e me mostrou os dentes, peguei o arco, tentei bater nela, mas  correu. Eu não tinha flecha de caça; e minhas flechas de pesca, duas apenas, nem as tinha arrancado dos peixes ainda. Foi um perigo! Pensei que ia me pegar. Por isso peguei o arco e brandi, a onça recuou um pouco e ficou me fitando. Arranquei as flechas dos peixes, matei-os e disse à onça, venha de novo! Pretendia flechá-la, mas foi embora. É muito perigoso! Se fosse em sonho, tudo bem, se a onça me aparecesse dizendo que está brincando comigo, tudo bem. Mas não foi em sonho.”&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre as razões prováveis deste esmorecimento, não se poderia subestimar nem a tragédia demográfica e sociológica provocada pelo ciclo da borracha, nem a incorporação das sociedades indígenas alto-xinguanas em meados do século XX pelo órgão do Estado nacional responsável pela assistência aos indígenas; nem, tampouco, o contexto político e cultural particular do PIX. Os Yudjá procuram os serviços terapêuticos de xamãs Kayabi, e, mais raramente, Kamayurá (quando se trata de desenfeitiçamento).&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
 |Desenho: Karin Yudjá, 1998.&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/239581-1/yudja_9.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir de 1987, algumas pessoas, mulheres e homens, receberam de xamãs Kayabi o poder de curar, e vêm efetuando uma terapia xamânica simplificada. Sem terem passado por qualquer aprendizado mais formal do xamanismo Kayabi, sua prática alia a noção de um poder obtido junto a forças cósmicas estrangeiras a teorias próprias das doenças, das quais a mais importante afirma que elas derivam em última instância da ação humana: as forças despendidas pelas pessoas sobre as coisas são replicadas pelas (almas das) coisas no corpo das pessoas ou de parentes seus. Cabe ao xamã extrair tais doenças. Além de contar com esses curadores constituídos por poderes Kayabi, hoje em dia o xamã mais importante de Tubatuba é um homem Ikpeng.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Três são as coordenadas fundamentais da cosmologia Yudjá:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
a) A oposição entre vida e morte, em primeiro lugar; ela está longe de ser uma dicotomia tão drástica como afirma a nossa cosmologia, pois há algumas transições cruciais engendradas pelo funcionamento dinâmico da máquina cosmológica, desde algo como pequenas mortes passageiras, provocadas pelo sono e cuja expressão mais típica são os sonhos, até mortes antecipadas. A relação entre vida e morte é menos de exclusão recíproca (se está morto, não pode estar vivo) que de inclusão: ele está morto aqui, mas vivo em outro lugar; aqui ainda está vivo mas já morreu no além. Em outras palavras, trata-se de uma relação de disjunção relativa, capaz de dar lugar a conjunções importantes. Os xamãs Yudjá eram os mestres dessas transições.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
b) Em segundo lugar, os eixos do mundo são dados pelas oposições entre Rio e Floresta e Céu e Terra, cada uma articulada à oposição entre presença e ausência de antropofagia. O Rio e o Céu têm uma ligação positiva com a última. Dir-se-ia que todas as coisas que existem poderiam ser duplicadas a partir de tais oposições: os humanos (os povos do rio e os da floresta), os espíritos dos mortos (os dos grandes rochedos da beira do Xingu, que não gostam de carne de gente, e os do céu), os animais mamíferos (as espécies da floresta e seus correspondentes ''isãmï ''do fundo do rio), os Yudjá e seus correspondentes ''ãwã ''do fundo rio, os Abi da floresta e seus correspondentes ''ãwã ''dos locais sujos e sombrios da mata longínqua. Além disso, considera-se que todos os tipos de coisas existentes na terra, existem também no céu (este é uma terra parecida com a nossa). Já o rio, que não é para os Yudjá cópia da floresta, pode ser tido como uma cópia da terra por certos de seus habitantes, exceto que a floresta da terra deles é a nossa floresta de galeria, e as suas roças são terrenos desmoronados da beira do rio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
c) A terceira e última operação cosmológica fundamental repousa sobre a oposição entre o ponto de vista do sujeito humano vivo e desperto e pontos de vista alheios, como o de animais, animais-isãmï, ãwã, e finalmente o dos ''’i’ãnay'' (os mortos). O dinamismo e a complexidade da cosmologia Yudjá dependem estreitamente do confronto, virtualmente perigoso, desses pontos de vista discordantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O xamanismo Yudjá desdobrava-se em dois sistemas relacionados cada um com uma sociedade de mortos. Considera-se rara a possibilidade de um xamã praticar os dois xamanismos: os mortos dos rochedos temem por demais os do céu, cuja sociedade é formada pelas almas dos guerreiros em torno do ''capitão ''e xamã Kumahari. Um pavor talvez ainda maior experimentam hoje os Yudjá por eles, e este xamanismo é incrivelmente mais poderoso, perigoso e difícil de se obter.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada sistema estava relacionado a um grande festival em honra de sua respectiva categoria de mortos. O dos mortos dos rochedos (''’ï’ãna kariay'' ) desenvolvia-se ao som de música de flautas e cantos executados por eles próprios, soprados na boca do xamã. Aquele chamado duru ''karia ''(ou ''’e’ãmï karia'') desenvolvia-se ao som da música de um conjunto de trombetas (duru). Em sua festa, Kumahari e seus associados, à comida oferecida pelos Yudjá, preferiam comer a carne de Índio assada trazida do além; recusando também o cauim, diziam que já estavam bastante bêbados. Já os hóspedes provenientes dos rochedos, após a refeição, bebiam bastante, temperando o cauim das mulheres Yudjá com uma porção de cauim trazido do além. Ambos os festivais duravam em torno de um mês, e seu encerramento motivava a participação de diferentes aldeias. As últimas celebrações foram realizadas nos idos da década de 1970.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nem por isso, contudo, da vida ritual dos Yudjá pode-se dizer que não é bastante intensa. Além de sua rotina ser interrompida por cauinagens a intervalos tão curtos como quatro ou cinco dias, celebram todo ano dois festivais (tendo cada um a duração aproximada de um mês).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo a mitologia, de uma humanidade celeste, imortal (os ''alapa''), provêm os cantos do festival das plantas cultivadas (''koataha de abïa''), controlado pelas mulheres. Aos ''ãwã ''produtores de cauim que vivem em aldeias localizadas no fundo do rio e lagoas, os Yudjá devem dois festivais de clarinetas (''pïri''), bem como os adornos corporais que servem de distintivos étnicos: a penugem de pato colada nos cabelos e o botão vermelho colado no alto da testa feito de almécega e fiapinhos de tecido vermelho picotado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nenhum desses três festivais tem, é certo, a mesma importância cosmológica dos rituais xamânicos, mas são dotados de grande valor social.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Tânia Stolze Lima|Tânia Stolze Lima]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Cauinagem ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
 |Canoa de cauim dubia. Foto: Tânia Stolze Lima. Aldeia de Tubatuba, 2001.&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/239589-1/yudja_10.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dentre as muitas bebidas fermentadas que produzem, destacam-se, por sua importância na dieta e seu simbolismo, dois cauins de mandioca, o ''dubia ''e o ''yakupa''. Por seu poder embriagante, o ''dubia ''não é destituído de mistério, e a fermentação não deixa de ser uma transubstanciação. Objeto de diversas relações simbólicas com a Pessoa, o cauim é simultaneamente um “filho” da&lt;br /&gt;
mulher que o produz e uma “carne de caça” cujos pêlos espetam o coração das pessoas. Sua alma toma o caminho que conduz ao país dos mortos que habitam os rochedos do Xingu; enquanto, com o seu cadáver, representado pelos restos de puba fresca que foram colocados para secar ao sol em cima de um jirau, é produzido o ''yakupa'', um cauim refrescante consumido diariamente no seio da família.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de gostar muito de cauim, os Yudjá realmente sabem beber. Para a festa de encerramento da reclusão de sua filha em maio de 2001, Kushina, auxiliada pelas jovens primas e sobrinhas da menina, produziu cerca de 1500 litros de ''dubia'', enquanto sua prima fez um com cerca de 400 litros. O cauim foi consumido entre a meia-noite e as quatro da tarde!&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas não é só a alegria de viver que é projetada na cauinagem, muito da infelicidade também a isso é concernida, e, assim, as pessoas também enfrentam ali seus antagonismos. Rivalidades entre cônjuges e entre afins podem dar lugar a situações muito dramáticas mas estas raramente provocam uma cisão da aldeia (como foi, porém, o caso da cisão que atingiu Tubatuba em 1996).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sendo verdadeiramente uma pessoa simbólica, parece legítimo considerar o cauim como uma reflexão sobre a condição mortal da humanidade, e a cauinagem, essa antropofagia figurada, como uma reflexão sobre a finitude da sociedade.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Tânia Stolze Lima|Tânia Stolze Lima]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nota sobre as fontes ==&lt;br /&gt;
Estudos antropológicos sobre este povo foram efetuados por Adélia Engrácia de Oliveira em meados dos anos de 1960 e pela autora deste verbete, nos períodos 1984-1985, 1988-1990 e a partir de 1999. A tese de doutorado da primeira acha-se publicada desde 1970, mas permanecem inéditas a dissertação de mestrado e a tese de doutorado da segunda. Os campos etnográficos cobertos por esses estudos são praticamente os mesmos (organização social, parentesco, mitologia e cosmologia) exceto que Tânia Lima, além de basear sua investigação em uma compreensão razoável da língua indígena, oferece uma visada etnográfica mais extensa e profunda. Artigos desta autora versando sobre as noções cosmológicas dos Yudjá têm sido publicados em revistas especializadas. A língua juruna vem sendo estudada pela lingüista Cristina Martins Fargetti. Ela realizou o vídeo Sãluahã sobre a festa da reclusão de duas moças. Sobre o grupo juruna do médio Xingu, foram publicados artigos de Lúcia M. M. de Andrade e Eduardo Viveiros de Castro no volume As Hidrelétricas do Xingu e os Povos Indígenas (Comissão Pró-Índio de São Paulo, 1988).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Tânia Stolze Lima|Tânia Stolze Lima]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
* ANDRADE, Lúcia M. M. de. Os Juruna no Médio Xingu. In: SANTOS, Leinad Ayer O.;&lt;br /&gt;
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* ATHAYDE, Simone Ferreira de (Org.). Arte indígena Parque do Xingu : catálogo de divulgação cultural e comercial. São Paulo : ISA ; Canarana : Atix, 2001.&lt;br /&gt;
* --------. O projeto Kumana e a experiência da Atix na comercialização de artesanato Kaiabi, Yudjá e Suyá em 1998 : Relatório. São Paulo : ISA, 1999. 87 p.&lt;br /&gt;
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* FARGETTI, Cristina Martins. Análise fonológica da língua juruna. Campinas : Unicamp, 1992. 124 p. (Dissertação de Mestrado)&lt;br /&gt;
* --------. Estudo fonológico e morfossintático da língua Juruna. Campinas : Unicamp, 2001. 317 p. (Tese de Doutorado)&lt;br /&gt;
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* OLIVEIRA, Adelia Engracia. Os índios Juruna do Alto Xingu. Rio Claro : Fac. de Filosofia de Rio Claro, 1969. 342 p. (Tese de Doutorado)&lt;br /&gt;
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* SANTOS, Leinad Ayer O.; ANDRADE, Lúcia M. M. de. (Orgs.). As hidrelétricas do Xingu e os povos indígenas. São Paulo : CPI-SP, 1988. 196 p.&lt;br /&gt;
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* --------. Xingu : los indios, sus mitos. Quito : Abya-Yala ; Roma : MLAL, 1991. 237 p. (Colección 500 Años, 33)&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Tânia Stolze Lima|Tânia Stolze Lima]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== VÍDEOS ==&lt;br /&gt;
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[[Categoria:Parque Indígena do Xingu]]&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
Cuidado ao editar esta seção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Yudjá(Juruna)}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Tânia Stolze Lima}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Eric Macedo}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
{{#set:Capa=1507245852563cf24daf8f6.png}}&lt;br /&gt;
{{#set:Counter=77413}}&lt;br /&gt;
{{#set:Crédito capa=Geraldo Silva, 2000}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=2001-11-01}}&lt;br /&gt;
{{#set:Estilo=claro}}&lt;br /&gt;
{{#set:Povo Id=115}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Quantos_s%C3%A3o%3F&amp;diff=8533</id>
		<title>Quantos são?</title>
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		<updated>2025-10-24T14:12:25Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: /* Especiais do IBGE */&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;{{Título |Quantos são?}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#slideshow: slide&lt;br /&gt;
| https://img.socioambiental.org/d/766703-4/TCF0045_edit.jpg&lt;br /&gt;
| https://img.socioambiental.org/d/766697-6/DSC00580_1_edit.jpg&lt;br /&gt;
| https://img.socioambiental.org/d/766701-5/yanomami_pop_edit.jpg&lt;br /&gt;
| https://img.socioambiental.org/d/766706-5/200918dez_casa_de_reza_guyra_roka_0029_edit.jpg&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;small&amp;gt;Foto: diversos autores, veja &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;https://img.socioambiental.org/v/publico/institucional/slideshows/populacaoindigena/&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;aqui&amp;lt;/htmltag&amp;gt;&amp;lt;/small&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Estima-se que existam hoje no mundo pelo menos 5 mil povos indígenas, somando mais de 370 milhões de pessoas (IWGIA, 2015). No Brasil, até meados dos anos 70, acreditava-se que o desaparecimento dos povos indígenas seria algo inevitável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos anos 1980, verificou-se uma tendência de reversão da curva demográfica e, desde então, a população indígena no país tem crescido de forma constante, indicando uma retomada demográfica por parte da maioria desses povos, embora povos específicos tenham diminuído demograficamente e alguns estejam até ameaçados de extinção. Na listagem de povos indígenas no Brasil elaborada pelo ISA, sete deles têm populações entre cinco e 40 indivíduos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dos {{#total_povos:}} povos listados pelo ISA, 48 têm parte de sua população residindo em outros países. Quando há informações demográficas a respeito, essas parcelas são contabilizadas e apresentadas separadamente, segundo a fonte da informação, e não contam na estimativa global para o Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo o Censo do IBGE de 2022, a população indígena atual é de 1.693.535 pessoas, de 391 etnias,  o que corresponde a 0,83% da população total do Brasil. No Censo de 2010, foram identificadas 305 etnias, que somavam 896.917 pessoas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Veja a lista de povos e respectivas populações no [[Quadro Geral dos Povos]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Leia também ==&lt;br /&gt;
* [[Quantos eram? Quantos serão?]]&lt;br /&gt;
* [[O Censo 2010 e os Povos Indígenas]]&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Especiais do IBGE ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;b&amp;gt;Censo Demográfico 2022&amp;lt;/b&amp;gt;&lt;br /&gt;
* [https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&amp;amp;id=2102018 Indígenas: primeiros resultados do universo] (publicação)&lt;br /&gt;
* &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/22827-censo-demografico-2022.html?edicao=37417&amp;amp;t=resultados&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;Indígenas: primeiros resultados do universo&amp;lt;/htmltag&amp;gt; (tabelas)&lt;br /&gt;
*[https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&amp;amp;id=2102223 Etnias e línguas indígenas: principais características sociodemográficas] (publicação)&lt;br /&gt;
*[https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/trabalho/22827-censo-demografico-2022.html?=&amp;amp;t=resultados Etnias e línguas indígenas: principais características sociodemográficas] (tabelas)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;b&amp;gt;Censo Demográfico 2010&amp;lt;/b&amp;gt;&lt;br /&gt;
* [http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=2194&amp;amp;amp;id;_pagina=1 Características Gerais dos Indígenas: Resultados do Universo] (análise)&lt;br /&gt;
* &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2010/caracteristicas_gerais_indigenas/default_caracteristicas_gerais_indigenas.shtm&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;Características Gerais dos Indígenas: Resultados do Universo&amp;lt;/htmltag&amp;gt; (dados)&lt;br /&gt;
* &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://www.censo2010.ibge.gov.br/terrasindigenas/&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;Hotsite sobre população indígena (mapa interativo)&amp;lt;/htmltag&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Categoria:Demografia]]&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
Cuidado ao editar esta seção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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Detalhes em http://www.mediawiki.org/wiki/Transclusion#Semantic_MediaWiki&lt;br /&gt;
--&amp;gt;&lt;br /&gt;
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{{DISPLAYTITLE:Quantos são?}}{{#set:Ativo=t}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data cadastro=2008-07-07}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Xingu&amp;diff=8532</id>
		<title>Povo:Xingu</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Xingu&amp;diff=8532"/>
		<updated>2025-10-24T13:53:24Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: Protegido &amp;quot;Povo:Xingu&amp;quot;: Dados desatualizados ([Editar=Permitir apenas administradores] (indefinidamente) [Mover=Permitir apenas administradores] (indefinidamente))&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;O Território Indígena do Xingu engloba, em sua porção sul, a área cultural conhecida como alto Xingu, formada pelos povos [[Povo:Aweti | Aweti]], [[Povo:Kalapalo | Kalapalo]], [[Povo:Kamaiurá | Kamaiurá]], [[Povo:Kuikuro | Kuikuro]], [[Povo:Matipu | Matipu]], [[Povo:Mehinako | Mehinako]], &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/nahukua&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Nahukuá&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, [[Povo:Naruvotu | Naruvotu]], [[Povo:Trumai | Trumai]],  [[Povo:Waujá | Wauja ]]e [[Povo:Yawalapiti | Yawalapiti ]]. A despeito de sua variedade linguística, esses povos caracterizam-se por uma grande similaridade no seu modo de vida e visão de mundo. Estão ainda articulados em uma rede de trocas especializadas, casamentos e rituais inter-aldeões. Entretanto, cada um desses grupos faz questão de cultivar sua identidade étnica e, se o intercâmbio cerimonial e econômico celebra a sociedade alto-xinguana, promove também a celebração de suas diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img-link&lt;br /&gt;
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|120px&lt;br /&gt;
|right}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os povos [[Povo:Ikpeng | Ikpeng]], [[Povo:Kaiabi | Kaiabi]], [[Povo:Kisêdjê | Kĩsêdjê]], [[Povo:Tapayuna | Tapayuna]] e &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/yudja&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Yudja&amp;lt;/htmltag&amp;gt; não fazem parte do complexo cultural alto-xinguano e são bastante heterogêneos culturalmente. Foram integrados aos limites da área demarcada por razões de ordem administrativa, em alguns casos implicando o deslocamento de suas aldeias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
'''As 16 etnias que habitam o Parque:''' [[Povo:Aweti | Aweti]],[[Povo:Ikpeng | Ikpeng]], [[Povo:Kaiabi | Kaiabi]], [[Povo:Kalapalo | Kalapalo]], [[Povo:Kamaiurá | Kamaiurá]],[[Povo:Kisêdjê | Kĩsêdjê]], [[Povo:Kuikuro | Kuikuro]], [[Povo:Matipu | Matipu]], [[Povo:Mehinako | Mehinako]], &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/nahukua&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Nahukuá&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, [[Povo:Naruvotu | Naruvotu]], [[Povo:Waujá | Wauja]], [[Povo:Tapayuna | Tapayuna]], [[Povo:Trumai | Trumai]], &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/yudja&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Yudja&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, [[Povo:Yawalapiti | Yawalapiti]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
'''Línguas:''' Kamaiurá e Kaiabi (família Tupi-Guarani, tronco Tupí); Yudja (família Juruna, tronco Tupí); Aweti (família Aweti, tronco Tupi); Mehinako, Wauja e Yawalapiti (família Aruák); Kalapalo, Ikpeng, Kuikuro, Matipu, [[Povo:Nahukwá|Nahukwá]] e Naruvotu (família Karíb); Kĩsêdjê e Tapayuna (família Jê, tronco Macro-Jê); Trumai (língua isolada).&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há, contudo, casamentos frequentes entre esses grupos, que acarretam uma maior articulação entre eles.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um movimento recente vem ainda fazendo convergir todos os povos do Parque em nome de interesses comuns. As&amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/xingu/1552&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt; organizações indígenas&amp;lt;/htmltag&amp;gt; (sobretudo a Associação Terra Indígena do Xingu) têm se estabelecido como um importante meio de interlocução com a sociedade nacional e fomento de &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/xingu/1553&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;projetos de educação&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, alternativas econômicas e proteção do território.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este verbete constitui uma introdução geral ao Parque e ao alto Xingu, complementando o conjunto de textos que tratam de cada povo especificamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
=== Contato direto ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Acesse o '''site do povo Ikpeng''' - &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://www.ikpeng.org/&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;http://www.ikpeng.org&amp;lt;/htmltag&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conheça a '''Ahira, Associação do Povo Mehinako''' no Parque Indígena do Xingu - &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://www.ahira.org/&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;http://www.ahira.org/&amp;lt;/htmltag&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Línguas ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar do intenso intercâmbio entre diferentes povos do Parque, cada qual mantém a sua língua. Nele estão representadas as seguintes &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/c/no-brasil-atual/linguas/troncos-e-familias&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;famílias linguísticas&amp;lt;/htmltag&amp;gt;:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* '''Família Tupi-Guarani (do tronco Tupi):''' [[Povo:Kamaiurá | Kamayurá]] e [[Povo:Kaiabi | Kaiabi]]&lt;br /&gt;
* '''Família Juruna (do tronco Tupi): '''&amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/yudja&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Yudja&amp;lt;/htmltag&amp;gt;&lt;br /&gt;
* '''Família Aweti (do tronco Tupi e com uma única língua):''' [[Povo:Aweti | Aweti]]&lt;br /&gt;
* '''Família Aruak:''' [[Povo:Mehinako | Mehinako]], [[Povo:Waujá | Wauja]] e [[Povo:Yawalapiti | Yawalapiti]]&lt;br /&gt;
* '''Família Karib:''' [[Povo:Ikpeng | Ikpeng]], [[Povo:Kalapalo | Kalapalo]], [[Povo:Kuikuro | Kuikuro]], [[Povo:Matipu | Matipu]], &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/nahukua&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Nahukwá&amp;lt;/htmltag&amp;gt; e &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/naruvoto&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Naruvotu&amp;lt;/htmltag&amp;gt;&lt;br /&gt;
* '''Família Jê (do tronco Macro-Jê): '''[[Povo:Kisêdjê | Kĩsêdjê]] e [[Povo:Tapayuna | Tapayuna]]&lt;br /&gt;
* '''Língua não classificada em qualquer família:''' [[Povo:Trumai | Trumai]]&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right &lt;br /&gt;
|Detalhe do disco labial suyá. Foto: Camila Gauditano, 2001.&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/215986-1/kisedje_17.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Português é usado como língua de contato entre as diferentes etnias, sendo falado mais fluentemente pelos homens jovens e adultos. Ultimamente, o número de falantes do Português vem aumentando e muitas mulheres jovens começam a falar e entender a língua.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje em dia, com o grande número de estradas ligando o PIX às cidades e fazendas, muitos índios circulam pelo entorno do Parque, se valendo da língua portuguesa para transações comerciais e demais formas de relacionamento com a população regional. Pela televisão, presente em quase todas as aldeias, também se aprende a língua portuguesa. Ademais, nas escolas os professores indígenas ensinam a falar e escrever em Português, embora todas as aulas sejam dadas nas línguas nativas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Quanto ao domínio de mais de uma língua indígena, entre os povos do Alto Xingu é comum a compreensão das línguas de seus vizinhos, mesmo que não se saiba falar, de modo que índios de diferentes etnias eventualmente dialogam cada um em sua própria língua. Entre os Kaiabi, Kĩsêdjê e Yudja também há uma mútua compreensão das línguas, devido a convivência numa mesma região e aos intercasamentos. Além disso, em todas as aldeias do Parque, crianças e jovens que são fruto de casamentos interétnicos costumam dominar ambas as línguas dos pais. E há jovens que falam quatro ou até cinco línguas.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Parque ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Aldeia Ricoh, dos Suyá, às margens do rio Suyá-Missu, no Parque Indígena do Xingu. Foto: Pedro Martinelli, 1999.&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/215932-1/kisedje_7.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Parque Indígena do Xingu (PIX) localiza-se na região nordeste do Estado do Mato Grosso, na porção sul da Amazônia brasileira. Em seus 2.642.003 hectares, a paisagem local exibe uma grande biodiversidade, em uma região de transição ecológica, das savanas e florestas semideciduais mais secas ao sul para a floresta ombrófila amazônica ao norte, apresentando cerrados, campos, florestas de várzea, florestas de terra firme e florestas em Terras Pretas Arqueológicas. O clima alterna uma estação chuvosa, de novembro a abril, quando os rios enchem e o peixe escasseia, e um período de seca nos meses restantes, época da tartaruga tracajá e das grandes cerimônias inter-aldeias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao sul do Parque estão os formadores do rio Xingu, que compõe uma bacia drenada pelos rios Von den Stein, Jatobá, Ronuro, Batovi, Kurisevo e Kuluene; sendo este o principal formador do Xingu, ao se encontrar com o Batovi-Ronuro. A demarcação administrativa do Parque foi homologada em 1961, com área incidente em parte dos municípios matogrossenses de Canarana, Paranatinga, São Félix do Araguaia, São José do Xingu, Gaúcha do Norte, Feliz Natal, Querência, União do Sul, Nova Ubiratã e Marcelândia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Mapa: Instituto Socioambiental/ISA, 2002&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281987-1/pix_3.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A idéia de criação do Parque tomou forma numa mesa-redonda convocada pela Vice-Presidência da República em 1952, da qual resultou um anteprojeto de um Parque muito maior do que o que veio finalmente a se concretizar. A despeito dos poderes legislativo e executivo do Mato Grosso estarem representados nessa mesa-redonda, inclusive por seu governador, o estado começou a conceder, dentro desse perímetro, terras a companhias colonizadoras. Por isso, quando foi finalmente criado o Parque Nacional do Xingu, pelo Decreto nº 50.455, de 14/04/1961, assinado pelo presidente Jânio Quadros, sua área correspondia a apenas um quarto da superfície inicialmente proposta. O Parque foi regulamentado pelo Decreto nº 51.084, de 31/07/1961; ajustes foram feitos pelos Decretos nº 63.082, de 6/08/1968, e nº 68.909, de 13/07/1971, tendo sido finalmente feita a demarcação de seu perímetro atual em 1978.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Posto Indígena Diauarum, na região norte do Parque. Foto: Camila Gauditano, 2002.&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281990-1/PIX_4.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A categoria híbrida de &amp;quot;Parque Nacional&amp;quot; deveu-se ao duplo propósito de proteção ambiental e das populações indígenas que orientou sua criação, estando a área subordinada tanto ao órgão indigenista oficial quanto ao órgão ambiental. Foi apenas com a criação da &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/c/politicas-indigenistas/orgao-indigenista-oficial/funai&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Funai&amp;lt;/htmltag&amp;gt; (em 1967, substituindo o &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/c/politicas-indigenistas/orgao-indigenista-oficial/o-servico-de-protecao-aos-indios-(spi)&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;SPI - Serviço de Proteção aos Índios&amp;lt;/htmltag&amp;gt;) que o &amp;quot;Parque Nacional&amp;quot; passou a ser designado &amp;quot;Parque Indígena&amp;quot;, voltando-se então primordialmente para a proteção da sociodiversidade nativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tendo em vista os povos que lá habitam, pode-se dividir o Parque Indígena do Xingu em três partes: uma ao norte (conhecida como Baixo Xingu), uma na região central (o chamado Médio Xingu) e outra ao sul (o Alto Xingu). Na parte sul ficam os formadores do rio Xingu; a região central vai do Morená (convergência dos rios Ronuro, Batovi e Kuluene, identificada pelos povos do Alto Xingu como local de criação do mundo e início do Rio Xingu) à Ilha Grande; seguindo o curso do Rio Xingu, encontra-se a parte norte do Parque (o mapa ao lado indica a localização de todas as aldeias e postos).&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Índios kaiabi devolvem avião em ato de protesto. Foto: Luiz Antônio, 1983.&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281993-1/PIX_5.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul ficam os povos muito semelhantes culturalmente, compreendendo a área cultural do Alto Xingu, cujas etnias são atendidas pelo Posto Indígena Leonardo Villas Bôas. No Médio Xingu ficam os [[Povo:Trumai | Trumai]], os [[Povo:Ikpeng | Ikpeng]] e os [[Povo:Kaiabi | Kaiabi]], atendidos pelo Posto Pavuru. Ao norte estão os [[Povo:Kisêdjê | Suyá]], &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/yudja&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Yudjá&amp;lt;/htmltag&amp;gt; e Kaiabi, atendidos pelo Posto Diauarum. Cada Posto apóia a logística de projetos e atividades desenvolvidas no Parque, como educação e saúde, havendo em todos eles uma UBS (Unidade Básica de Saúde), onde trabalham agentes indígenas de saúde e funcionários da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), conveniada com a Funasa. Existem ainda onze Postos de Vigilância nos limites do território, às margens dos principais rios formadores do Xingu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na década de 80, tiveram início as primeiras invasões de pescadores e caçadores no território do PIX. Ao final dos anos 90, as queimadas em fazendas pecuárias localizadas a nordeste do Parque ameaçavam atingi-lo e o avanço das madeireiras instaladas a oeste começou a chegar perto dos limites físicos definidos pela demarcação. Ademais, a ocupação do entorno começava a poluir as nascentes dos rios que abastecem o Parque e que ficaram fora da área demarcada. Nesse processo, fortaleceu-se entre os moradores do PIX a percepção de que está a caminho um incômodo “abraço”: o Parque vem sendo cercado pelo processo de ocupação de seu entorno e já se evidencia como uma “ilha” de florestas em meio ao pasto e a monocultura na região do Xingu.&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dentre os problemas contemporâneos enfrentados pelos moradores do Parque, os maiores talvez decorram desse processo de ocupação predatória de seu entorno. Considera-se “entorno do PIX” a região do estado de Mato Grosso que se estende ao redor dos principais formadores do rio Xingu, desde suas cabeceiras. Correndo paralelas ao rio Xingu, duas grandes rotas rodoviárias funcionam como eixos de ocupação: a oeste do PIX, a Cuiabá-Santarém (BR-163); a leste, a BR-158. Nesse contexto regional adverso, os recursos naturais e a sociodiversidade do Parque são ameaçados de múltiplas formas ao longo de cerca de 900 km de perímetro&lt;br /&gt;
==== Veja também ====&lt;br /&gt;
&amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/caracterizacao.php?uf=UF&amp;amp;amp;id_arp=3908&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;Caracterização socioambiental do Parque Indígena do Xingu&amp;lt;/htmltag&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante os anos 90, a preocupação dos índios com essas ameaças estimulou um conjunto significativo de novos pleitos territoriais. Dois deles, atendidos, resultaram nas &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/caracterizacao.php?id_arp=4103&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;Terras Indígenas Wawi&amp;lt;/htmltag&amp;gt; e &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/caracterizacao.php?uf=UF&amp;amp;amp;id_arp=4102&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;Batovi&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, respectivamente dos Suyá e dos Wauja, homologadas em 1998. Somado a elas, a extensão do Parque chegou a 2.797.491 hectares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dando curso a esse processo, atualmente os Ikpeng vem se articulando para reivindicar parte de seu território tradicional na região do Rio Jatobá, que ficou fora da demarcação. Os [[Povo:Waujá | Wauja]] também estão negociando para que a região demominada Kamukuaká, considerada sagrada e localizada numa fazenda vizinha ao Parque, seja transformada numa área de preservação ambiental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A questão da fiscalização do território é presença certa na agenda dos assuntos políticos do Parque, sendo discutida tanto em encontros de lideranças e assembléias da Atix (Associação Terra Indígena Xingu) como na interlocução com a Funai e os órgãos ambientais federal (Ibama) e estadual (Fundação Estadual do Meio Ambiente - Fema).&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|O desmatamento das fazendas avança em direção aos limites do Parque, afetando as cabeceiras dos formadores do Xingu e comprometendo sua sustentabilidade futura. Foto: Pedro Martineli, 1999. &lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281996-1/PIX_6.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para tanto, foi montada uma infra-estrutura dos citados onze postos de vigilância para proteger as áreas que propiciam um acesso direto ao Parque, como a intersecção dos principais rios com os limites do PIX e o ponto em que a BR-080 margeia esses limites.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, o sistema de postos, por si só, não é suficiente para enfrentar as situações criadas pelo entorno e vem sendo complementado por outras ações, desenvolvidas no âmbito do ''Projeto Fronteiras'', uma parceria da Atix com o &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://socioambiental.org&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;ISA&amp;lt;/htmltag&amp;gt;. O projeto compreende o mapeamento da dinâmica de desmatamentos, através de fotos de satélite, e da identificação ''in loco ''de novos vetores de ocupação no entorno do PIX. Também inclui um trabalho de capacitação dos Chefes de Postos, a restauração e matutenção dos marcos que estabelecem os limites físicos do território e um banco de dados georreferenciados de todos os fazendeiros cujas propriedades fazem fronteira com o PIX. Esse trabalho possibilita que os índios acompanhem de perto o que acontece nas fronteiras do Parque e mobiliza as comunidades acerca das ameaças externas, tanto em discussões inter-aldeias, como junto aos órgãos públicos responsáveis (Funai, Ibama e a governo estadual).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== População ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Gaiteme Suyá amamentando seu filho. Foto: Camila Gauditano, 2001. &lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/215962-1/kisedje_13.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A viabilidade de se ter a população do Parque para todas as etnias em um mesmo ano é recente, graças ao trabalho desenvolvido pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) na área de saúde, em convênio com a Funasa (Fundação Nacional da Saúde). No passado, os censos ou estimativas ficaram ao sabor do itinerário dos pesquisadores. Tendo em vista essas limitações, para se ter uma idéia da evolução demográfica do Alto Xingu foi elaborado o quadro abaixo, dividido em três colunas (sendo as duas primeiras referenciadas em pesquisa de Pedro Agostinho, 1972). Os primeiros dados remontam ao final do século XIX e estão presentes nos textos de Karl von den Steinen, mas dizem respeito a apenas alguns povos. Os números marcados com asteriscos indicam que foram obtidos por cálculo estimativo, supondo que as aldeias tivessem o mesmo número de casas e de moradores por casa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A segunda coluna corresponde a estimativas de diferentes pesquisadores que estiveram na região em meados do século XX. Para o ano de 1954, quando uma epidemia de sarampo devastou a região, os dados indicam a população inicial, o número de mortes ocorridas naquele ano e a população restante. A coluna seguinte apresenta os dados de 2002 (baseada em levantamento da Unifesp), deflagrando a uma significativa recuperação demográfica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;table-responsive&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;table class=&amp;quot;table table-hover&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Etnias'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Final do século XIX'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Meados do século XX'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''2002'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Aweti&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''             '''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''80* '''(1924)&lt;br /&gt;
            '''27''' (1947-8)&lt;br /&gt;
            '''27 '''(1952)&lt;br /&gt;
            '''31-8=23''' (1954)&lt;br /&gt;
            '''36 '''(1963)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;138&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Kalapalo&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt; &amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''180-25=155''' (1946)&lt;br /&gt;
            '''150 '''(1948)&lt;br /&gt;
            '''150-40=110''' (1954)&lt;br /&gt;
            '''100 '''(1963)&lt;br /&gt;
            '''115 '''(1970)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;417&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Kamaiurá&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;&lt;br /&gt;
            &lt;br /&gt;
216/264* (1887)&lt;br /&gt;
            &amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''198/242*''' (1938)&lt;br /&gt;
            '''110 '''(1948)&lt;br /&gt;
            '''112-18=94''' (1954)&lt;br /&gt;
            '''115 '''(1963)&lt;br /&gt;
            '''118 '''(1965)&lt;br /&gt;
            '''119 '''(1969)&lt;br /&gt;
            '''118 '''(1970)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;355&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Kuikuro&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt; &amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;&lt;br /&gt;
            &lt;br /&gt;
'''140 '''(1948)&lt;br /&gt;
            '''148 '''(1952)&lt;br /&gt;
            '''145 '''(1954)&lt;br /&gt;
            '''139-9=130'''                                  (1954)&lt;br /&gt;
            ''' 118 '''(1963)&lt;br /&gt;
            '''150 '''(1970)&lt;br /&gt;
            &amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;415&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Matipu&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;''' '''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''16 '''(1948)&lt;br /&gt;
            '''27-9=18''' (1954)&lt;br /&gt;
            '''51 somados aos Nahukwá'''                                  (1963)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;119&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Mehinako&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;No máximo 308* (1887)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''56 '''(1949)&lt;br /&gt;
            '''68 '''(1962)&lt;br /&gt;
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            '''78 '''(1970)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;199&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Nahukwá&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt; &amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''18 ou 28''' (1948)&lt;br /&gt;
            '''17 '''(1953)&lt;br /&gt;
            '''51 somados aos Matipu'''                                  (1963)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;105&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Trumai&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;&lt;br /&gt;
            &lt;br /&gt;
Mais de 43* (1884)&lt;br /&gt;
            &amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;&lt;br /&gt;
            &lt;br /&gt;
'''43 '''(1938)&lt;br /&gt;
            '''18 ou 25''' (1948)&lt;br /&gt;
            '''21-2=19''' (1954)&lt;br /&gt;
            '''21                                  + dispersos''' (1963)&lt;br /&gt;
            '''26 '''(1966)&lt;br /&gt;
            '''25 '''(1970)&lt;br /&gt;
            &amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;120&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Wauja&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;171/228* (1887)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''95/96''' (1948)&lt;br /&gt;
            '''78 '''(1954)&lt;br /&gt;
            '''86 '''(1963)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;321&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Yawalapiti&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt; &amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;&lt;br /&gt;
            &lt;br /&gt;
'''28 dispersos''' (1948)&lt;br /&gt;
            '''12 + dispersos''' (1951)&lt;br /&gt;
            '''25                                  '''(1954)&lt;br /&gt;
            '''41 '''(1963)&lt;br /&gt;
            '''41 '''(1965)&lt;br /&gt;
            '''65 '''(1970)&lt;br /&gt;
            &amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;208&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/table&amp;gt;&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Quanto às etnias que habitam mais ao norte do Parque, segue os dados populacionais de 2002 (também baseada no levantamento da Unifesp):&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;table-responsive&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;table class=&amp;quot;table table-hover&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Etnias'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''2002'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Ikpeng&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;319&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Kaiabi&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;745&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Yudjá&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;248&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Suyá&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;334&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/table&amp;gt;&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Da primeira expedição à criação do Parque ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Índios kuikuro recebem roupas por ocasião do contato com a expedição Roncador-Xingu, dos irmãos Villas Bôas. Foto: Acervo Museu do Índio, década de 50.&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/282026-1/PIX_8.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os índios que habitam o Parque Indígena do Xingu possuem um histórico do contato com a sociedade não-indígena peculiar em relação à maioria dos outros índios no Brasil, uma vez que tiveram como principal agente mediador do contato um etnólogo (Karl von den Steinen), ao invés de bandeirantes, fazendeiros, garimpeiros ou missionários. Ademais, não foram assistidos diretamente pelo &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/c/politicas-indigenistas/orgao-indigenista-oficial/o-servico-de-protecao-aos-indios-(spi)&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;SPI (Serviço de Proteção aos Índios)&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, mas pela Fundação Brasil Central, representada pelos irmãos Villas Bôas. E, no caso do Alto Xingu, muito antes do contato desenvolveram um complexo interétnico de rituais e trocas especializadas, criando fortes vínculos que dificultaram a inserção do universo cultural dos brancos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foram as duas expedições do etnólogo alemão Karl von den Steinen, de 1884 e 1887, que deram aos brancos o conhecimento da existência dos povos indígenas dessa região. Partindo de Cuiabá e atravessando o rio Paranatinga, no divisor de águas Xingu-Tapajós, a equipe alcançou os [[Povo:Bakairi | Baikairi]] de Paranatinga e manteve breve contato com os Suyá na primeira viagem. Na segunda, subiu o Kurisevo e deteve-se entre os povos do Alto Xingu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Depois de von den Stein, sucederam-se visitantes à região, como Hermann Meyer (que publicou escritos sobre a viagem em 1897, 1898, 1900), Hintermann (1925), Petrillo (1932) e Max Schmidt (1942). Tais expedições estimularam a procura por instrumentos de metal (como facas, tesouras, machados) e a disseminação de doenças contagiosas entre os xinguanos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
De um modo geral, os povos que habitavam a região mais ao sul do atual Parque não alteraram muito a sua posição desde os tempos de Steinen, com exceção dos Bakairi e dos [[Povo:Trumai | Trumai]], sem dizer daqueles que se extinguiram como grupo: Kustenau, Naravute, Tsuva e Aipatsé. Os Bakairi serviram de guias das primeiras expedições etnográficas, sendo por isso responsabilizados pelos alto-xinguanos pela introdução de moléstias e acusados de feitiçaria. Além disso, os Bakairi, que viviam em pelo menos oito aldeias na bacia xinguana, passaram a procurar instrumentos de metal junto a membros de seu povo fora dela, que viviam a sudeste (no Rio Paranatinga). Progressivamente, foram se fixando junto deles, num movimento estimulado pelo SPI com a criação de um posto em 1920, de modo que em 1923 se retiraram totalmente dos formadores do Xingu (Cf. Barros, 2001).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Trumai, por ocuparem o território compreendido entre os formadores do Rio Xingu e a região às margens deste rio, sofreram repetidos ataques de grupos que habitavam tais áreas, como os Suyá e os [[Povo:Ikpeng | Ikpeng]]. O etnógrafo Karl Von den Steinen os encontrou já bastante fragilizados em 1884. Depois de habitarem em diferentes sítios, em uma história acidentada, hoje possuem quatro aldeias principais situadas a meio-caminho entre os postos Leonardo Villas-Bôas e Diauarum.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Aldeia Ikpeng (até então fora dos limites do Parque) visitada pela expedição Rocador-Xingu. Foto: Eduardo Galvão, 1964.&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/282029-1/PIX_9.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A área mais ao norte do Parque, a seu turno, estava no raio de ação dos Suyá, que tinham suas aldeias no rio Suiá-missu, afluente da margem direita do Xingu. Também nela começavam a se instalar os &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/yudja&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Yudjá&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, vindos do norte (Steinen, na sua descida do Xingu em 1884, encontrou-os no Pará, no trecho entre as cachoeiras de von Martius e de Piranhaquara). É provável que os Yudjá estivessem se deslocando havia mais de dois séculos desde as margens do Amazonas, das quais se afastaram pela pressão e perseguição dos colonizadores no final do século XIX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na primeira metade do século XX, os xinguanos continuaram a ser alcançados somente por terra, pelo sul. É também no sul que os índios procuraram os instrumentos de ferro, no posto instalado no Paranatinga. As expedições de pesquisa rareiam, mas é desse período o primeiro estudo voltado para um povo específico do Alto Xingu, os Trumai, que foram visitados pelo etnógrafo Buell Quain em 1938, o qual, entretanto, não completou a pesquisa e cujos dados, depois de sua morte, foram analisados e publicados por Robert Murphy.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse período, os Suyá passaram por reveses que reduzem drasticamente sua população. Os Yudjá, ora aliados, ora adversários, armados por um seringalista, atacaram a aldeia suyá em algum momento após 1915. Tempos depois, durante uma coleta de pequi no local onde hoje está o Posto Diauarum, os Suyá sofreram um ataque dos &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/kayapo&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Menkrãgnoti&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, do qual só escapam alguns homens, que ficaram praticamente sem mulheres. Em busca de parceiras, os Suyá atacaram então os [[Povo:Waujá | Wauja]], mas sofreram a retaliação deste povo, que promoveu uma expedição contra eles, com ajuda dos [[Povo:Mehinako | Mehinako]], Trumai e [[Povo:Kamaiurá | Kamaiurá]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1946, a FBC (Fundação Brasil Central), fruto da “Marcha para Oeste” promovida pelo regime do Estado Novo, começa a se instalar na região, iniciando a era dos irmãos Villas Bôas. Para Cláudio, Leonardo e Orlando Villas Bôas, os povos do Xingu representavam &amp;quot;índios de cultura pura”, que deveriam ser preservados das frentes de expansão econômica que estavam sendo inauguradas na região. Nesse sentido, iniciam, com o apoio de Marechal Rondon, do sanitarista Noel Nutels e do antropólogo Darcy Ribeiro, entre outros, e forte oposição do governo e dos fazendeiros de Mato Grosso, uma campanha para a demarcação das terras indígenas locais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse período, ergue-se uma base da Força Aérea Brasileira em Jacaré, no rio Kuluene, entre a foz do Kurisevo e do Batovi. São abertas as primeiras pistas de pouso nos formadores do Xingu e pesquisadores, funcionários da FBC, médicos, cinegrafistas, entre outros agentes, passam a entrar na área trazidos por aviões do Correio Aéreo Nacional. A via de acesso por terra, com passagem pelo Posto de Paranatinga, perde a importância. Antropólogos do Museu Nacional, como Eduardo Galvão e Pedro Lima, retomam a pesquisa etnológica. Também etnólogos estrangeiros voltam a pesquisar na área, como Robert Carneiro e Gertrude Dole entre os Kuikuro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ironicamente, apesar das facilidades que estavam sendo criadas, ocorre em 1954 um surto de sarampo que afeta todas as aldeias alto-xinguanas, provocando a morte de 114 pessoas. Dos cerca de 3.000 alto-xinguanos que havia no tempo de von den Steinen, a população chega a um de seus pontos mais baixos: 574 pessoas. Apesar dos esforços, as condições de saúde ainda continuavam precárias, tanto que o ponto mínimo da população alto-xinguana ocorre em 1965, quando desce a 542 pessoas (Cf. Heckenberger, 2001).&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Yudjá recebem cuidados médicos. Foto: Jesco Puttkamer/acervo IGPA-UCG, década de 60.&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/282032-1/PIX_10.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se a região tinha sido até então ocupada por índios que migravam, não propriamente de modo espontâneo, mas forçados por condições adversas nas suas regiões de origem, agora passavam a ser buscados nas áreas vizinhas e transferidos para o Parque, caso representassem obstáculo à abertura de estradas e à colonização. Foi o que aconteceu com os [[Povo:Kaiabi | Kaiabi]], Ikpeng, [[Povo:Panará | Panará]] e [[Povo:Tapayuna | Tapayuna]], todos colocados na porção norte do Parque.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Kaiabi viviam na região regada pelos altos cursos dos formadores do Tapajós: o Juruena e o Teles Pires. Na bacia do Juruena, estavam no Alto Arinos e seu afluente, o Rio dos Peixes; na do Teles Pires, estavam no alto desse rio e no seu afluente, o Rio Verde. Fortemente pressionados por diferentes frentes de expansão desde as últimas décadas do século XIX, como a da extração da borracha, a do garimpo e a dos colonos agrícolas, viram-se estranhos em sua própria terra e sua população decresceu. Tendo entrado em contato com o pessoal da FBC, que avançava na direção de seu território pelo Rio Manitsauá-missu e que lhes dispensava bom tratamento, parte dos Kaiabi aceitou o convite para transferir-se para o Xingu. Sua transferência se deu em diferentes levas, em 1955, 1966 e 1970, e sua produção agrícola passou a abastecer os postos de Diauarum e Leonardo. Os missionários católicos de Diamantino, entretanto, se opuseram à migração dos Kaiabi para o Xingu. Assim, uma parte ficou em suas terras de origem, o que possibilitou o reconhecimento de uma [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3984 Terra Indígena Kaiabi].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Ikpeng (também conhecidos como Txikão) teriam feito parte de um conjunto étnico maior com os índios [[Povo:Arara | Arara]]. Tomando a direção do sul, teriam saído na primeira metade do século XIX do Rio Iriri, afluente do Baixo Xingu. Viveram depois na bacia do Teles Pires, nas vizinhanças dos Kaiabi, Panará e [[Povo:Apiaká | Apiaká]]. No final do século XIX, chegaram ao Rio Batovi, atacando os Wauja, &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/nahukua&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot;&amp;gt;Nahukwá&amp;lt;/htmltag&amp;gt; e Mehinako. Alcançaram também os rios Paranatinga e Novo, mantendo-se nas proximidades dos Bakairi.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1960, os Wauja e seus aliados atacaram os Ikpeng com armas de fogo e mataram doze homens. Além disso, metade da população ikpeng morreu em um surto de gripe. Os sobreviventes se refugiaram no alto rio Jatobá, afluente do Ronuro, onde os irmãos Villas Bôas os encontraram em 1964. Defrontados com a penetração garimpeira desse território, aceitaram transferir-se para o Parque em 1967. Levados para o Posto Leonardo, tiveram casamentos com os Wauja, Kamayurá e Mehinako. Em 1979, ergueram sua própria aldeia na parte central do Parque, entre os Trumai e os Kaiabi.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outros dois povos, Tapayuna e Panará (ambos da família lingüística Jê), também foram trazidos pelos sertanistas para dentro do Parque Indígena do Xingu, mas, depois de alguns anos, voltaram a se retirar. Os Panará reconquistaram parte de seu território tradicional, homologado como &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/caracterizacao.php?id_arp=4073&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;TI Paraná&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, e os Tapayuna mudaram-se em 1987 para as aldeias Metyktire e Kremoro, do povo Metyktire, na &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/caracterizacao.php?uf=UF&amp;amp;amp;id_arp=3641&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;TI Capoto/Jarina&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, onde permanecem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Desde a criação do Parque, em 1961, Orlando Villas Bôas ocupou a direção por 17 anos, estabelecendo um programa de assistência médica aos índios por meio de um convênio com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), existente até hoje. Tomou ainda uma série de medidas que procuraram impedir ao máximo o contato dos habitantes do PIX com o exterior, numa atuação controvertida, acusada por alguns de excessivamente paternalista, sobretudo pela transferência dos povos Kayabi, Ikpeng, Tapayuna e Panará para o Parque, como se este representasse a única opção para seu futuro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O estabelecimento do posto indígena como mediador das relações entre as aldeias teve repercussões complexas, impondo um centro fixo ao um sistema descentralizado. Desencorajou as hostilidades entre os povos do Alto Xingu e as etnias ao norte do Parque, convertendo-se em um polo de referência política. Mas também interferiu na estrura de poder interno às aldeias, ao promover uma nova categoria social: aquele que protagoniza a mediação entre o grupo e o posto (e os brancos em geral, uma vez que o posto também se constitui no centro de &amp;quot;redistribuição&amp;quot; dos visitantes). Os que passam a ocupar esse papel não necessariamente coincidiam com o de líder da aldeia. Houve assim uma tendência à duplicação das posições de controle e mediação, sendo que os mediadores aldeia/posto recebiam mais apoio da administração, pois possuíam maior domínio da língua portuguesa e maior facilidade de adaptação às novas condições, entre outros fatores (Cf. Castro, 1977).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
De todo modo, a gestão da FBC possibilitou uma assistência diferente daquela proporcionada aos demais povos indígenas no Brasil, orientada com um forte componente pessoal e apoiada no prestígio que haviam angariado junto à sociedade nacional, ao conseguir manter o Parque relativamente isolado das influências que costumam alterar com rapidez as culturas indígenas e das invasões que os põem numa situação de dependência. Promoveu assim uma postura mais respeitosa do restante da sociedade aos índios do PIX, diferente do que ocorria em outras partes do país e do mundo.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A história anterior à primeira expedição ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como revela a pesquisa de Michael Heckenberger (2001), pode-se recuar à pré-história do Alto Xingu até o final do primeiro milênio de nossa era. No período entre os anos 800 e 1400 uma população aí se estabeleceu, deixando entrever por certos vestígios, tais como uma cerâmica característica e aldeias circulares, que se tratava de ancestrais dos atuais Aruak xinguanos, que teriam migrado a partir do ocidente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre os anos 1400 e 1600, erguem-se grandes aldeias fortificadas, cercadas por valetas escavadas (com as dimensões até de 2,5 km de comprimento, 15 m de largura e 3 m de profundidade), que envolviam uma superfície de 20 a 50 hectares, com aterros ao lado da praça central e dos caminhos radiais, dando a impressão, pela distribuição da terra preta, que a população era mais densa no centro que na periferia. Vale lembrar que trabalhos de terraplanagem são característicos de povos Aruak de outras regiões do continente. No final desse período, torna-se manifesta a presença de uma população de cultura diferente, numa área mais a leste, à margem direita do Kuluene (ou Xingu), que a tradição oral dos atuais Karib xinguanos reconhece como sendo de seus ancestrais. Convergindo com essa hipótese, o etnólogo Robert Carneiro (2001) relata um mito [[Povo:Kuikuro | kuikuro]] referente à origem do lago Tahununu, em cujas margens asseguram ter habitado. Os locais de habitação eram claramente diferentes do modelo atual, constituídos por uma ou duas grandes malocas circulares; assim como era diferente a maneira de fazer cerâmica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O período entre os anos de 1600 e 1750 começa com os efeitos indiretos da presença européia no continente sobre os habitantes indígenas do Alto Xingu, e termina com o enfrentamento face a face destes com os bandeirantes. Conseqüentemente, as fortificações aruak definham. Nessa época, os Tupi ancestrais dos [[Povo:Kamaiurá | Kamayurá]] e [[Povo:Aweti | Aweti]] chegam na área.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O período 1750-1884 começa com as ditas incursões bandeirantes e termina com a primeira visita de Karl von den Steinen. Um depoimento de um chefe kuikuro (Atahulu) dado à lingüista Bruna Franchetto em 2000 (Franchetto, 2001) aborda de maneira muito sugestiva esse período, focalizando os massacres feitos pelas incursões bandeirantes, seguidas de uma fase em que os brancos devolveram os poucos prisioneiros indígenas que haviam levado com eles e ainda lhes deram presentes, e, finalmente a chegada de Kálusi, isto é, Carlos (Karl von den Steinen). Nesse período se aproximam os [[Povo:Trumai | Trumai]] e os [[Povo:Bakairi | Bakairi]], consolidando o sistema multiétnico alto-xinguano, e ainda outros povos que se mantiveram periféricos a esse sistema, como os [[Povo:Kisêdjê | Suyá]] e os [[Povo:Ikpeng | Ikpeng]].&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Aldeia e sociedade ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Alto Xingu, as aldeias são formadas por casas comunais dispostas em perímetro ovalado, em torno de uma praça de chão batido. No centro desta praça fica a chamada casa dos homens. Além de ser um ponto de reunião masculino, a construção oculta as flautas sagradas, interditas ao olhar feminino, e que são por isso tocadas no interior da casa ou à noite no pátio, quando as mulheres estão recolhidas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O centro da praça é também o lugar onde se enterram os mortos, onde se realizam os rituais, onde os pagamentos cerimoniais são feitos, onde o chefe recebe mensageiros de outros grupos e profere seus discursos ao grupo local; é ainda lá que os homens realizam as lutas (''huka huka'', descritas no item &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/xingu/1548&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;O longo ritual do Kwarup&amp;lt;/htmltag&amp;gt;) entre membros de aldeias diferentes durante todos os encontros formais.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Habitação na aldeia Aiha. Foto: Beto Ricardo, 2002. &lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/282035-1/PIX_11.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As casas são cobertas de sapé. O grupo doméstico de cada habitação geralmente é composto por um núcleo de irmãos homens e suas respectivas famílias, ao qual se somam primos paralelos e eventuais ascendentes. O líder desse grupo doméstico é o chamado &amp;quot;dono da casa&amp;quot;, responsável pela coordenação das atividades produtivas e outras tarefas cotidianas que contam com a participação dos residentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Idealmente, as regras de residência prescrevem que, nos primeiros anos de casamento, o marido deve residir na casa dos sogros, pagando em serviços pela cessão da filha destes. Cumprido esse período, em geral o casal vai morar na casa de origem do marido. Essa regra pode não ser aplicada aos &amp;quot;donos de casa&amp;quot;, ao líder da aldeia ou àqueles já casados com outra mulher. Nessas situações, desde o início a mulher passa a residir na casa do marido, e o pagamento é feito através de bens. O casamento preferencial é, idealmente, entre primos cruzados. O vínculo entre as casas se estabelece pelas alianças concretizadas através de casamentos e pelo apoio comum ao líder da aldeia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O espaço interno da casa não comporta divisões, exceto os gabinetes onde ficam os adolescentes em reclusão pubertária, os casais com filhos recém-nascidos e os viúvos no período de luto. A formação da pessoa no Alto Xingu implica tais períodos de reclusão. No caso dos homens, passam a receber sistematicamente ensinamentos sobre as técnicas de trabalho masculino e de luta huka-huka na reclusão pubertária. Quanto mais prolongada é a reclusão, maiores as responsabilidades sociais e liderança que se deva assumir na comunidade. Nesse período, o sexo deve ser evitado para que o jovem venha a ser um bom lutador.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Homens lutando huka-huka. Desenho: Sepé Kuikuro, 1997.&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/282038-1/PIX_12.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao menstruar pela primeira vez, a jovem entra em reclusão, quando aprende a executar tarefas femininas no preparo dos alimentos e na confecção de artesanato. Durante a sua reclusão, que não costuma durar mais do que um ano, ela não corta os cabelos e sua franja cresce por sobre os olhos. Ao final, ela recebe um novo nome e é considerada adulta, pronta para o casamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade política por excelência no Alto Xingu é a aldeia, cujo líder atua como mediador e regulador dos conflitos, devendo ser generoso e manter a harmonia interna do grupo. O poder do chefe, de natureza marcadamente pacífica, depende da anuência do grupo, sobretudo do apoio dos líderes de grupos domésticos. Sua habilidade política se expressa pela palavra, nos discursos e exortações na praça. As regras de sucessão ao status de líder da aldeia são flexíveis e costumam suscitar muita competição pelo cargo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &amp;quot;dono da casa&amp;quot; é, em última instância, aquele que tomou a iniciativa de sua construção. Idealmente, seu primogênito deve sucedê-lo. As principais atribuições do dono da casa são a transmissão das solicitações do líder da aldeia ao seu grupo doméstico com relação às tarefas cotidianas, que também são por ele coordenadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Mulher kalapalo fazendo beiju. Foto: Camila Gauditano, 2002&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/282041-1/PIX_13.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dentro da casa, a unidade mínima, em termos espaciais, é um casal com seus filhos solteiros; as redes desta unidade definem territórios virtuais distintos, centrados em torno de um fogo de cozinha (que se opõe ao fogo comunal para a fabricação de beiju, ao centro), e cada família geralmente utiliza um mesmo poste para pendurar a extremidade interior da rede. O espaço central é destinado à circulação. Há duas portas, que se abrem no centro do eixo maior das casas, uma voltada para a praça, outra para o exterior. É próximo a essas portas que se sentam aqueles que precisam de luz para realizar alguma atividade, pois o interior das casas é muito escuro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada casa forma uma unidade de cooperação econômica relativamente independente das outras, especialmente no caso das atividades femininas (a esse respeito, ver o item &amp;quot;atividades produtivas&amp;quot;). Ao cair da tarde, depois de tais atividades, as famílias costumam ficar nas portas das casas, conversando, manipulando mutuamente os corpos (depilando pêlos, catando piolhos, penteando os cabelos etc.). Os jovens geralmente se pintam e se enfeitam. Os homens mais velhos podem fumar e conversar na casa dos homens. No início da noite, todos começam a se recolher e as famílias nucleares se reúnem em volta de seus respectivos fogos, onde fazem a última refeição e depois dormem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A vida na aldeia e a organização social dos outros povos do Parque, devido às suas especificidades culturais, estão presentes em suas respectivas páginas: &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/backend/pt/povo/ikpeng&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Ikpeng&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/backend/pt/povo/kaiabi&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Kaiabi&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, [[Povo:Kisêdjê | Kisêdjê ]]e &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/yudja&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Yudjá&amp;lt;/htmltag&amp;gt;.'''&lt;br /&gt;
'''&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Homogeneidade e diversidade cultural ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Índios alto-xinguanos no Kwarup na aldeia kalapalo Aiha. Foto: Beto Ricardo, 2002.&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/282044-1/PIX_14.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A similaridade cultural entre os povos do Alto Xingu, cultivada pelas trocas, casamentos e rituais intergrupais, também se faz presente numa série de outros aspectos, como a predominância do uso do peixe sobre o da carne e o mesmo ideal de comportamento, que valoriza a generosidade (a disposição em doar) e a contenção dos humores.&amp;lt;htmltag href=&amp;quot;https://img.socioambiental.org/d/282047-1/PIX_15.jpg&amp;quot; rel=&amp;quot;lightbox[g2image]&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; title=&amp;quot;Casa comunal típica do Alto Xingu, com banco zoomorfo na frente. Desenho: Makaulaka Mehinako, 2002&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/htmltag&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para além das especializações de cada povo, há itens produzidos em todas as aldeias do Alto Xingu, tais como bancos zoomórficos esculpidos em uma só peça de madeira; o propulsor de dardos para uso no &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/xingu/1549&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;rito do Jawari&amp;lt;/htmltag&amp;gt;; o uso do uluri, peça feminina constituída de um pequenino triângulo de líber colocado sobre o púbis e amarrado à cintura com fio de buriti; o corte de cabelo curto e ovalado para os homens e longo com franja para as mulheres; os mesmos adereços e pinturas corporais; a constituição de aldeias circulares, com grandes malocas ovais, tendo a gaiola do gavião-real e casa das flautas sagradas (proibida às mulheres) no pátio central. Entretanto, essa uniformidade não é completa: as línguas são diferentes, há peculiaridades culturais que particularizam cada povo e, sobretudo, a identidade de cada etnia é cultivada de modo a não se diluir na sociedade alto-xinguana.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Casa comunal típica do Alto Xingu, com banco zoomorfo na frente. Desenho: Makaulaka Mehinako, 2002&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/282047-1/PIX_15.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É principalmente quando contrastados com os povos ao norte do Parque que a homogeneidade alto-xinguana ganha contornos mais definidos, uma vez que essas etnias, desde que chegaram na região, mantiveram contato hostil ou amistoso com o Alto Xingu, mas nunca chegaram a integrar com eles o mesmo sistema sócio-político-ritual. Os alto-xinguanos, por sua vez, reservaram a esses grupos um lugar cosmológico apartado, colocando-os na categoria de “índios bravios”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há, contudo, um esforço de articulação entre todos os povos habitantes do Parque para a discussão de problemas comuns, tendo como agente mediador a Atix (Associação Terra Indígena do Xingu), cujas assembléias reúnem as lideranças de todas as etnias (a esse respeito, ver o item associações indígenas).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Atividades produtivas ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Pakairu Wauja plantando ramas de mandioca na aldeia Piyulaga.&lt;br /&gt;
Foto: Camila Gauditano, 2002.&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/282050-1/PIX_16.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O peixe, o beiju e mingaus (estes dois últimos feitos a partir do processamento da mandioca &amp;quot;brava&amp;quot;) constituem os principais itens da alimentação dos povos do sul do Parque. As etnias das regiões norte e central comem carne vermelha e possuem uma agricultura mais variada. De todo modo, a pesca e a agricultura representam o núcleo das atividades produtivas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Alto Xingu, a produção de mandioca é feita em roças cultivadas pelas famílias nucleares, mas que contam com o apoio de todo o grupo doméstico e são coordenadas por seu líder, o chamado “dono da casa”. Os homens preparam a roça e as mulheres retiram a mandioca do solo. Na aldeia, a mandioca é processada pela mulher, que dela extrai a poupa e o polvilho, ambos ingredientes fundamentais para o preparo do beiju. A retirada do suco venenoso da mandioca se faz pela prensagem da massa dentro de uma pequena esteira de talos enrolada. Outro alimento que se obtém da mandioca é o mohete (em kamaiurá), caldo grosso e adocicado que resulta da fervura da água que lavou a polpa.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Índia kalapalo confecciona esteira para mandioca. Foto: Camila Gauditano, 2002.&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/289906-1/PIX_36.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Depois de secos, a polpa de mandioca e o polvilho são armazenados dentro da casa em grandes recipientes arredondados, que são utilizados de modo indiferenciado por todos. O beiju é assado pelas mulheres em chapas de cerâmica. Come-se beiju a toda hora: com peixe assado ou ensopado, apenas com pimenta, puro ou dissolvido na água, ou ainda sob a forma de mingau.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O peixe, a seu turno, representa a principal fonte regular de proteína animal. São várias as técnicas utilizadas, cada qual exigindo diferentes formas de cooperação. A técnica do timbó, que consiste no envenenamento de águas previamente represadas, envolve a participação da maioria dos homens da aldeia. Os peixes mortos, quer pelo efeito do veneno, quer flechados, são moqueados no próprio local da pescaria. Menor número de homens participa da pesca com rede de nylon, cujas operações dispensam cooperação mais ampla. Já as várias formas de pesca com arcos e flecha, pequenas redes nativas, armadilhas e anzol são realizadas por um ou dois indivíduos, ou entre os membros da família nuclear.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Enquanto na seca o peixe faz parte da dieta de todo dia, nas chuvas sua relativa escassez é compensada com alimentação mais variada, como milho, mamão, abóbora, melancia, entre outros. A agricultura ainda inclui o cultivo de outras plantas tanto para fins cerimoniais (como urucum e fumo), como para atender à produção de diversos bens artesanais (como cabaça e algodão).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A caça de algumas aves e pequenos animais, assim como a coleta de frutos silvestres, colaboram também para uma alimentação variada, mas desempenham papel secundário no que diz respeito à produção de alimentos. Com relação à caça, o trabalho masculino é quase sempre individual, sendo os principais objetivos garantir alimento para a harpia, substituir o peixe na dieta de pessoas atingidas por tabus alimentares e obter penas para a produção de artesanato.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Assa de pequi nas mãos de uma índia kalapalo. Foto: Beto Ricardo, 2002.&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/289903-1/PIX_35.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na coleta, o trabalho é usualmente coletivo e envolve a participação de mulheres e crianças. Os principais produtos são mel, pequi, jenipapo, mangaba, formigas, ovos de tracajá e lenha. Dentre eles, a castanha extraída do pequi destaca-se dos demais como alimento cerimonial distribuído por ocasião das cerimônias inter-aldeias. O fruto do pequizeiro abunda o auge das chuvas, em janeiro e fevereiro, e cada aldeia costuma ser circundada por extensas plantações dessa árvore. O pequi é processado na época da coleta e é em parte armazenado sob a água até a época do Kwarup (na estação seca), quando, junto ao peixe moqueado e ao mingau de mandioca e beiju, constitui o alimento cerimonial por excelência. O pequi é comido cru, assado ou diluído no mingau de mandioca.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre os outros povos do Parque, os [[Povo:Kaiabi | Kaiabi]] destacam-se por uma agricultura sofisticada, cultivando diversas espécies de amendoim, macaxeira, cará, batata-doce, mangarito e banana. Além de produzir outros tipos de beiju, os Kaiabi também fazem grande variedade de mingaus com produtos da roça e frutas. Os &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/yudja&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Yudjá&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, a seu turno, são conhecidos pela produção do caxiri (mingau de mandioca fermentada), que atualmente também é consumido pelos Kaiabi, [[Povo:Kisêdjê | Kisêdje]] e [[Povo:Trumai | Trumai]]. Entre estes quatro povos e os [[Povo:Ikpeng | Ikpeng]] há um maior consumo de caça, incluindo animais como o porco e a anta, que não são consumidos pelos alto-xinguanos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em relação à produção de artefatos e indumentária, os artigos de metal, dos quais depende a quase totalidade das atividades produtivas masculinas, não substituíram integralmente o artesanato indígena usado pelas mulheres na produção de alimentos. Assim, panelas e caldeirões de metal competem com as cuias usadas no transporte e armazenamento de água, sem entretanto, ameaçar a posição das panelas de cerâmica, obtidas através da troca com o grupo [[Povo:Waujá | wauja]].&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Cestaria yudjá. Foto: Simone Athaíde, 1999.&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/289912-1/PIX_38.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Grande parte dos materiais empregados na elaboração do artesanato é de origem nativa – madeira, embira, fibra de buriti, algodão etc. Mas usam-se também produtos industrializados, como contas e miçangas de porcelana e vidro, fio de lã e de algodão, lata, prego, corante etc. Dentre esses itens, o fio de lã compete com o de algodão nativo e tende em alguns casos (como para a confecção de redes de dormir) a substituí-lo integralmente. Outros, como as contas e miçangas, altamente valorizadas na elaboração de colares e cintos, não diminuíram a importância dos similares nativos – de contas de caramujo – produzido pelos [[Povo:Kalapalo | Kalapalo]] e [[Povo:Kuikuro | Kuikuro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O artesanato representa ainda uma importante alternativa econômica de comércio para fora do Xingu. Além das iniciativas familiares, a Atix (Associação Terra Indígena do Xingu) assumiu o desafio de intermediar essas transações com as comunidades kaiabi, yudjá e kisêdje, procurando definir estratégias que possam ampliar o relacionamento com o mercado especializado em artesanato indígena no Brasil. A orientação desta iniciativa, que conta com parceira do &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://www.socioambiental.org&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;ISA&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, é conciliar geração de renda com a sustentabilidade ambiental das matérias-primas utilizadas na confecção dos principais produtos comercializados, como a preocupação com o impacto exercido sobre as aves para a confecção da arte plumária.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Rótulo do mel comercializado pela Atix.&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/289919-1/PIX_41.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além do comércio com artesanato, muitas aldeias têm desenvolvido outros projetos de alternativas econômicas voltados para o mercado externo. Dois exemplos são os projetos de apicultura e de produção de óleo de pequi, ambos em parceria com o ISA. No caso da Cooperativa do Mel, participam do projeto as aldeias kisêdje, trumai, ikpeng, yudjá e kaiabi. Cada uma produz e colhe o mel, que é enviado para uma casa &amp;quot;Central do Mel&amp;quot;, no posto Diauarum, onde é embalado e enviado para Canarana, de onde é comercializado para o Rio de Janeiro e São Paulo. Em média, a produção resulta em duas toneladas de mel por ano.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já a produção de óleo de pequi envolve as aldeias ikpeng, trumai, kamaiurá, yawalapiti, kalapalo, wauja, kisêdje, matipu, nahukuá, kuikuro e mehinako. O tipo de pequi produzido no Xingu não é encontrado em outras regiões, sendo ainda um produto diferenciado pelo manejo agrícola que envolve, bem como pelo significado social e cosmológico da espécie para esses povos. A idéia é unir esforços de todas as aldeias para que se possa chegar a uma escala suficiente para venda a uma grande empresa de cosméticos, sem abrir mão da produção artesanal.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Trocas especializadas e o Moitará ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Caramujo que serve de matéria-prima para o colar característico do Alto Xingu, especialidade dos Kalapalo e Kuikuro. Foto: Simone Athaíde, 1999.&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/282056-1/PIX_18.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre os povos do Alto Xingu, cada um é reconhecido por uma certa especialidade produtiva, que lhe permite participar num sistema de trocas com os demais. Assim, as grandes panelas de cerâmica, de fundo chato e espessas bordas voltadas para fora, são uma especialidade dos [[Povo:Waujá | Wauja]]. Os arcos de uma dura madeira preta são feitos exclusivamente pelos [[Povo:Kamaiurá | Kamaiurá]]. Os colares e cintos de garras de onça e de discos de caramujos são confeccionados pelos povos falantes de línguas da família Karib ([[Povo:Kalapalo | Kalapalo]], [[Povo:Kuikuro | Kuikuro]], [[Povo:Matipu | Matipu]] e &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/nahukua&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Nahukuá&amp;lt;/htmltag&amp;gt;). O sal (não o cloreto de sódio, e sim de potássio) é extraído do aguapé e armazenado pelos [[Povo:Aweti | Aweti]], [[Povo:Mehinako | Mehinako]] e [[Povo:Trumai | Trumai]]. Antes da introdução das ferramentas de metal, os machados de pedra eram fornecidos pelos Trumai, que tinham a matéria-prima em seu território, cujo controle lhes foi conquistado pelos [[Povo:Kisêdjê | Kisêdje]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em grande medida, as transações que envolvem a troca desses e outros produtos ocorrem num evento característico do Alto Xingu denominado ''moitará'', que pode ser de dois tipos: realizado entre casas da mesma aldeia ou entre aldeias distintas. No primeiro caso, realiza-se por iniciativa só dos homens ou só das mulheres de uma determinada casa, que comparecem à outra levando os objetos que querem trocar. Cada artigo passa de mão em mão pelos habitantes interessados da casa visitada, até que um deles deposita no chão aquilo que deseja dar em troca. Se a troca for aceita pelo visitante, ele levanta a contra-oferta do chão. Uma vez realizadas as transações, os homens ou mulheres visitantes, que podem ser recebidos com castanha de pequi e mingau de mandioca, se retiram. E então aguardam a retribuição de sua visita, quando novas trocas são efetivadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O ''moitará ''entre aldeias costuma ser realizado na estação seca e conta com a participação conjunta de ambos os sexos. A aldeia que toma a iniciativa parte em expedição, conduzida por seu chefe, para uma outra, carregando os objetos que deseja trocar. Embora os objetos sejam de propriedade individual, as transações são mediadas pelos chefes das duas aldeias. As trocas envolvem cerâmica, colares, cintos, adornos de penas, armas, canoas, flautas, redes de dormir e de pescar, cestas, cabaças, sal, pimenta, alimentos e animais, especialmente cachorros, além de bens dos brancos. Antes da realização das trocas, os homens lutam huka-kuka.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Cosmologias e rituais ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Desenho: Makaulaka Mehinaku, 1998&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/282059-1/PIX_19.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um dos motivos centrais da cosmologia no Alto-Xingu é a diferença entre os modelos originais dos seres, presentes nos mitos, e suas atualizações posteriores. Por exemplo, costuma-se dizer que o pequizeiro original dava frutos muito maiores, com polpa abundante e caroços pequenos; que as primeiras flautas eram espíritos aquáticos, mas seu descobridor as escondeu, fabricando réplicas de madeira, que jamais puderam reproduzir a voz potente do original. Os primeiros seres humanos foram entalhados em madeira pelo demiurgo, que também tentou ressuscitá-los; como fracassou, a morte definitiva passou a ser comemorada na &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/xingu/1548&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;cerimônia do ''Kwarup''&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, onde troncos dessa mesma madeira servem de símbolo do morto. Os gêmeos Sol e Lua, além de modeladores dos índios alto-xinguanos, são também seus modelos, já que a maioria de suas aventuras míticas consiste na realização inaugural de práticas mais tarde adotadas pelos humanos: luta, escarificação, xamanismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Assim, o mito não é apenas uma coleção de eventos originários que se perderam na aurora dos tempos; ele orienta e justifica constantemente o presente. A geografia da região é pontilhada de sítios onde as ações míticas se desenrolaram; as cerimônias se explicam pela iniciativa de seres míticos; o mundo é povoado de seres imortais que remontam à origem do mundo; os criadores da humanidade ainda vivem no Morená. Em síntese, o mito existe como referência temporal, mas, acima de tudo, conceitual.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Índio paramentado para um Kwarup. Desenho: Kanawayuri Kamaiurá, 1998&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/282062-1/PIX_20.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As cerimônias estão estreitamente vinculadas com o universo mítico. No Alto Xingu, há duas espécies principais de rituais. Existem as festas que recebem o nome de um espírito, geralmente aquele identificado como causador da doença que acometeu o promotor da festa, e que se restringem ao âmbito da aldeia. Os participantes ativos desse tipo de ritual - dançarinos, cantores e músicos - representam visual ou musicalmente esse espírito. As cerimônias da outra categoria envolvem várias aldeias do Alto Xingu, como a celebração dos aristocratas mortos (mais conhecida por seu nome kamaiurá, ''Kwarup'') e o &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/xingu/1549&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;duelo de dardos (''Jawari'', em kamaiurá)&amp;lt;/htmltag&amp;gt;. Esta última classe de cerimônias foi instituída pelos gêmeos Sol e Lua. As aldeias participantes, no mito, são compostas de animais que vivem em meios diferentes, como animais terrestres versus pássaros, ou peixes versus animais terrestres.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em geral, o que se faz nesses rituais interaldeias é algo que está descrito em um mito, mas que não é apenas uma simples repetição ou encenação sua. O que o rito celebra, de fato, é a impossibilidade de uma repetição idêntica: &amp;quot;agora só vai ter festa&amp;quot;, disse o demiurgo ao fracassar na tentativa de ressuscitar os primeiros seres humanos que morreram, inaugurando assim a mortalidade (a descrição dessa celebração está no item &amp;quot;o longo ritual do Kwarup&amp;quot;). Em suma, o ritual é um modelo icônico reduzido dos sucessos sobrehumanos descritos no mito.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Troncos de Kwarup. Desenho: Aisanain Paltu Kamaiurá, 1998&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/282065-1/PIX_21.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fabricação primordial dos humanos, de acordo com a mitologia alto-xinguana, foi obra de um demiurgo que deu vida a toras de madeira dispostas em um gabinete de reclusão, ao soprar-lhes fumaça de tabaco. Assim foram criadas as primeiras mulheres, entre elas a mãe dos gêmeos Sol e Lua, arquétipos e autores da humanidade atual. Em homenagem a essa mulher foi celebrada a primeira festa dos mortos, que é a mais importante do Alto Xingu e que consiste, portanto, em uma reencenação da criação primordial, sendo também o momento privilegiado de apresentação pública dos jovens recém-saídos da reclusão pubertária. Assim, é um ritual que enreda a morte e a vida; as moças que saem da reclusão são como as primeiras humanas, mães dos homens.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os primeiros humanos foram portanto fabricados em uma câmara de reclusão. As moças de madeira transformaram-se em gente depois de encerradas em gabinetes de palha semelhantes àqueles que abrigam os adolescentes dentro da casa dos seus pais. Ecoando esse mito de origem, a fabricação da pessoa no Alto-Xingu envolve diversos períodos de reclusão, todos concebidos como momentos de fabricação do corpo: a couvade (restrições impostas aos casais com filhos recém-nascidos), a puberdade, a doença, a iniciação xamanística e do luto. Essa fabricação do corpo é também uma modelagem da personalidade ideal, sobretudo no caso da reclusão pubertária, a mais importante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em contraste a com esses períodos fabricação corporal, marcados pela reclusão e a liminaridade, a exibição do corpo atualiza marcas de status social (sexo, idade, papel ritual) e caracteriza a vida pública, o pátio da aldeia, o confronto com outras aldeias da região e o pátio cerimonial. Tal contraste parece marcar fortemente a vida no Alto Xingu, que se desenrola como oscilação entre esses dois momentos complementares, cuja dinâmica resulta na construção da pessoa nessas comunidades. O pátio, a fala do pátio, a luta corporal, a dança, a exibição (tipicamente masculina) da própria individualidade no centro da aldeia só existem articulados com o gabinete de reclusão, seu silêncio e seu segredo, a fabricação demorada do corpo a regras de contenção alimentar e sexual.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cosmologia e os rituais dos outros povos do Parque são específicos, de modo que sugerimos uma visita aos seus respectivos verbetes: &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/backend/pt/povo/ikpeng&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Ikpeng&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/backend/pt/povo/kaiabi&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Kaiabi&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, [[Povo:Kisêdjê | Kisêdje ]]e &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/yudja&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Yudjá&amp;lt;/htmltag&amp;gt;. Ademais, os verbetes dedicados a cada etnia do Alto Xingu também destacam suas singularidades em meio a esse repertório comum.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
'''[Texto editado do livro de Eduardo Viveiros de Castro,  A Inconstância da Alma Selvagem. São Paulo, Cosac &amp;amp;amp; Naif, 2002''']&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O longo ritual do Kwarup ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Desenho: Kanawajuri Kamajura, 1998&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/282068-1/PIX_22.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O ''Kwarup ''(nome do ritual na língua [[Povo:Kamaiurá | kamaiurá]], como ficou mais conhecido) é considerado o grande emblema do Alto Xingu, tanto por seus membros como pelos de fora, sendo inclusive conhecidos por moradores das grandes cidades do Brasil, através da mídia. Trata-se de uma cerimônia funerária, que envolve mitos de criação da humanidade, a classificação hierárquica nos grupos, a iniciação das jovens e as relações entre as aldeias (a esse respeito, ver o item &amp;quot;cosmologia e rituais&amp;quot;).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tanto o líder ou &amp;quot;dono de aldeia&amp;quot; como os &amp;quot;donos de casas&amp;quot; tem uma forma diferenciada de sepultamento. No caso dos habitantes &amp;quot;comuns&amp;quot;, o corpo é envolvido por uma rede, deitado numa cova, depois coberto por uma esteira, sobre a qual se põe terra. Para os chefes, há pelos menos dois tipos de enterro. Num deles, o corpo é amarrado a uma armação de madeira semelhante a uma escada, e introduzido na cova de modo a ficar de pé, com a face voltada para leste; no outro, cavam-se duas covas, a uma distância de três metros uma da outra, e ligadas por um túnel. Em cada cova se põe um poste. O corpo é colocado numa rede que passa pelo túnel e tem seus punhos amarrados aos postes. Em ambos casos se faz uma câmara funerária, pois as bocas das covas são tapadas com esteiras e panelas de cerâmica emborcadas, em cima das quais se põe a terra.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Tronco de kwarup. Foto: Beto Ricardo, 2002. &lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/282071-1/PIX_23.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Algum tempo após o sepultamento de um líder, aqueles que prepararam o corpo e o depositaram na tumba pedem aos parentes próximos do falecido para erigir uma cerca em torno da sepultura. A aceitação do pedido por um deles é o início do ritual do Kwarup, que compreende um longo período. Seu encerramento ocorre na estação seca, no tempo da desova da tartaruga tracajá, por volta de agosto ou setembro. Para essa cerimônia final, a aldeia que está sediando o Kwarup faz um convite para os outros grupos alto-xinguanos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O parente que deu a permissão para a construção da cerca se torna o “dono” do Kwarup, ou seja, responsável pela organização do rito e pelo fornecimento de alimento e bebida para todos os convidados, devendo para isso dispor de uma boa produção de mandioca. Parentes de outros “homens célebres” falecidos também serão solicitados pelos respectivos coveiros, e, ao aceitarem, se tornarão “donos” secundários do mesmo Kwarup. O “dono” principal e os secundários convidarão, por sua vez, parentes de &amp;quot;homens comuns&amp;quot; falecidos a se juntarem ao mesmo rito. Mas haverá uma só cerca, que marcará a sepultura daquele que foi motivo do primeiro convite. Os coveiros ainda exercerão a importante atividade de ligação dos “donos” com o restante da aldeia e, no final do rito, também com os convidados.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Convidados aguardam o chamado para se aproximarem da aldeia kalapalo Aiha, onde está ocorrendo o Kwarup. Foto: Beto Ricardo, 2002. &lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/282074-1/PIX_24.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pouco tempo depois da ereção da cerca, os parentes dos falecidos são banhados e pintados pelos coveiros. Nessa ocasião, os instrumentos de percussão constituídos por um molho de cápsulas de castanhas de pequi usados no período inicial de luto são substituídos pelos maracás, cujos tocadores, em número de dois, agitam diante da cerca da sepultura, e terão sua atividade mais intensa na última noite do rito, quando tocarão todo o tempo diante dos troncos do Kwarup.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A segunda providência importante é a colheita de grande quantidade de frutos de pequi, que amadurecem em novembro e dezembro. Os frutos colhidos vão sendo depositados no interior da cerca que marca a sepultura, até encher seu espaço interior. Eles são fervidos, sua polpa é armazenada em cestas forradas com folhas, que são guardadas no fundo de uma lagoa. Suas sementes também são guardadas em cestinhas. Já os peixes têm de ser pescados no máximo cinco dias antes do encerramento do rito, dada a dificuldade de conservá-los, mesmo moqueados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao longo dos meses que se seguem até o encerramento ocorrem, não necessariamente todos os dias, dois tipos de danças e o toque de longas flautas (uruá, na língua dos Kamaiurá), sempre retribuídos com oferecimento de alimentos pelos “donos” do Kwarup. O foco de orientação dessas atividades rituais é sempre a cerca sobre a sepultura.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Competidores lutam o huka-huka. Foto: Beto Ricardo, 2002.&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/282077-1/PIX_25.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O ideal de convidar para o rito o maior número de aldeias possível é limitado pela disponibilidade de alimentos e pelo estado das relações entre elas. Um mensageiro, tirado do grupo dos coveiros, com dois acompanhantes, é enviado a cada uma para fazer o convite, pautado por uma etiqueta que lhes é bem conhecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No pátio da aldeia promotora do rito, cada falecido homenageado é representado por uma seção de tronco de cerca de dois metros. São de uma espécie vegetal que tem distintas denominações conforme as diferentes línguas xinguanas. Os Kamaiurá a chamam de Kwarup, a mesma madeira com que o herói mítico fez as mulheres que enviou para se casarem com o jaguar. Os troncos são colocados um ao lado do outro, de pé, embutidos em buracos de 50 cm de fundo. São pintados e ornamentados com adornos plumários e cintos masculinos. A única distinção entre os troncos que representam homens e os que representam mulheres é que os primeiros são guarnecidos com mechas de algodão não fiado. Também os homens comuns falecidos têm direito a ser representados por troncos, porém menos grossos e com ornamentação mais simples. Os espíritos dos mortos homenageados ficam junto aos troncos na última noite do rito e a isto se reduz a sua participação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os troncos do Kwarup se tornam então o foco das evoluções rituais, enquanto a cerca em volta da sepultura é desfeita e transformada em lenha para as fogueiras dos acampamentos das aldeias convidadas, cujos representantes chegam no dia que precede a última noite do rito. Ao chegarem, os mensageiros que fizeram o convite conduzem pela mão os “capitães” dos convidados de cada aldeia, tendo seu na frente o chefe, aos quais se oferece assento e alimento no pátio. Depois de servidos, retiram-se de volta para o acampamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao anoitecer, acendem-se fogueiras diante de cada tronco do Kwarup. Enquanto os moradores da aldeia anfitriã se revezam, velando os troncos e chorando os falecidos homenageados, os visitantes, cada acampamento por sua vez, entram na aldeia, trazendo achas de pindaíba para remanejar as fogueiras, numa cena movimentada e tensa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao amanhecer, os anfitriões e os convidados se preparam para o huka-huka, luta que nessa terminologia kamaiurá lembra os gritos dos lutadores ao se defrontarem imitando o rugido da onça. Os anfitriões enfrentam uma aldeia convidada de cada vez, começando por lutas individuais de campeões reconhecidos. Seguem-se lutas simultâneas de vários pares de rivais, até as lutas dos muito jovens. Os lutadores se defrontam batendo o pé direito no chão, dando voltas no sentido dos ponteiros do relógio, com o braço esquerdo estendido e o direito retraído, enquanto gritam alternadamente: hu! ha! hu! ha! Até que chocam as mãos direitas e enlaçam o pescoço do adversário com a esquerda. A luta, que pode durar poucos segundos, termina quando um dos adversários é derrubado, o que não tem que ocorrer literalmente, bastando que a parte posterior de um de seus joelhos seja agarrada pela mão do outro, o que é considerado condição suficiente para provocar-lhe a queda. As aldeias convidadas não lutam entre si. Os enfeites dos troncos do Kwarup podem ser dados aos lutadores vencedores e também aos dois tocadores de maracá.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a luta, uma das moças que estava em reclusão pubertária, muito clara por não ter apanhado sol durante meses e de cabelos muito compridos, com franja até o queixo, por não lhe terem sido cortados, oferece sementes de pequi aos líderesde uma das aldeias convidadas, enquanto os “comuns” da mesma aldeia lhe retiram as jarreteiras. Isso é repetido com os representantes de cada uma das aldeias convidadas. O ato tem uma conotação sexual bastante clara, pois tanto no mito quanto no cotidiano a mulher tem relações sexuais sem as jarreteiras. Além disso, admitem os xinguanos que o atual cheiro do pequi foi transferido por um herói mítico do sexo das mulheres para essa fruta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É então oferecido alimento aos visitantes. Duplas de tocadores de flautas uruá (em kamaiurá) visitantes e também anfitriões sopram esses instrumentos, acompanhados de moças que saíram da reclusão, e se movimentam pela aldeia, entrando e saindo das casas. O rito termina com a despedida dos convidados.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O ritual do Jawari ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro rito que envolve convite a outras aldeias é o do ''Jawari'', realizado por volta do mês de julho. Trata-se de uma série de disputas, cada qual entre dois indivíduos de etnias diferentes, colocados a cerca de seis metros um do outro. Cada um por sua vez atira dardos no adversário, procurando atingi-lo da cintura para baixo. Os jogadores se protegem escondendo-se, esquivando-se ou pulando atrás de um feixe de varas, que não podem mover do chão. Os dardos têm suas pontas embotadas com bolas de cera e suas hastes são enfiadas num coco de tucum (chamado ''Jawari'' em língua [[Povo:Kamaiurá | kamaiurá]],como o rito ficou mais conhecido), com furos, que os faz sibilar, quando atirados. Os dardos são lançados com ajuda de um propulsor, instrumento amplamente difundido no passado, mas que hoje, no Brasil, só existe no Alto Xingu e cujo uso se limita e esse jogo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para a realização do rito, três emissários, um principal e dois auxiliares, são enviados à aldeia a ser convidada, que comparece no dia combinado, sendo recebida pelos mesmos emissários, que lhes levam cauim e beijus. Os convidados fazem um acampamento fora da aldeia. No dia seguinte, entram para realização da disputa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos dias precedentes ao jogo, os adversários devem ter treinado assiduamente, usando como alvo um boneco feito de folhagem amarrada com embira. Também devem ter evitado as relações sexuais e o consumo de peixe.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma vez terminada a disputa, alimentos são oferecidos aos visitantes. Junto a uma panela de cerâmica, alguns dardos e propulsores de um e de outro grupo são quebrados, sendo em seguida queimados. Terminada a refeição, os convidados partem de volta para sua aldeia.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O ritual feminino do Yamurikumã ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A casa das flautas, no centro da aldeia, esconde instrumentos que as mulheres podem ouvir, mas não podem ver. As flautas ficam penduradas na viga central do teto e podem ser tocadas a qualquer momento, por um grupo de três homens no interior da casa. De noite, quando as mulheres se recolhem, podem sair para o pátio. Também saem ao ar livre por ocasião de tarefas coletivas masculinas, retribuídas com alimentos por aquele a favor de quem são realizadas. Nessas ocasiões, as mulheres têm de se trancar em suas casas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas as mulheres invertem essa situação no rito de ''Yamurikumã ''(na terminologia [[Povo:Kamaiurá | kamaiurá]], mais difundida na região), realizado na estação seca, no qual elas atuam com armas, movimentos tipicamente masculinos e ornamentos de penas e chocalhos nos tornozelos, que normalmente são usados por homens; lutam, inclusive, o ''huka-huka''.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Recebendo convidadas de outras aldeias, que ficam acampadas nas proximidades (como no &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/xingu/1548&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;''Kwarup''&amp;lt;/htmltag&amp;gt;), as participantes entoam canções que se referem à sexualidade masculina. Há vários tipos de canções, algumas mencionam os eventos de origem dessa cerimônia, muitas reproduzem a estrutura das performances masculinas com as flautas, e outras simulam explicitamente a sexualidade agressiva dos homens diante de certas mulheres. Os homens, que podem ser agredidos, se retraem.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Xamanismo ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Xamã kaiabi Prepori. Foto: Luigi Mamprim, década de 70.&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/282080-1/PIX_26.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os povos do Parque reconhecem a interferência de uma multiplicidade de seres espirituais na vida dos humanos. Há uma profusão de espíritos, desde os de plantas, peixes, animais de pêlo, estrelas, objetos, até os mais importantes, associados às flautas proibidas às mulheres e ao &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/xingu/1550&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;ritual feminino do Yamuricumã&amp;lt;/htmltag&amp;gt;. São os espíritos que causam a maioria das doenças, ao aparecerem para os humanos na floresta, e são eles que ajudam os xamãs a curá-las. Os espíritos são invisíveis, só aparecendo para os doentes e os xamãs em transe.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os seres espirituais estão usualmente em toda parte, menos dentro da aldeia, onde surgem apenas em situações extraordinárias de doença, xamanismo e ritual. Sua relação com os humanos ocorre em bases predominantemente individuais, sob a forma básica da doença. Consideram que todas as doenças decorrem de um contato com o mundo sobrenatural, seja pela atuação de um feiticeiro ou pelo encontro acidental com um espírito.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Xamã realizando uma cura. Desenho: Mawakulu Trumai, 1999.&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/282083-1/PIX_27.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para efetuar a cura, o xamã contata o espírito causador da doença por meio de um transe estimulado pelo uso de grandes cigarros de tabaco. Geralmente, a cura se dá pelo sopro de fumaça sobre o doente, ou pela retirada do feitiço, ou ainda pela identificação do espírito que foi induzido pelo feiticeiro a entrar no seu corpo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O xamã, assim, exerce o controle das relações entre a aldeia e o mundo sobrenatural: ele regula as relações entre homens e espíritos que habitam as águas e a floresta; através de seu diagnóstico, os espíritos causadores de doenças são socializados pelo ritual. O feiticeiro, por sua vez, representa o paradigma do ser marginal: é o homem da porta traseira, que invade as casas, que coloca feitiço nas roças, que se transforma em animal no mato. Na maioria dos casos, os principais suspeitos de feitiçaria são habitantes de outras aldeias ou oriundos de outras etnias.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Representação de dois xamãs kuikuro. Desenho: Jaluiké Kuikuro, 2001.&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/282086-1/PIX_28.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Alto Xingu, o indivíduo curado passa a estar em dívida com o espírito que causou/curou a doença. Ele deve então patrocinar uma cerimônia em que homenageia o espírito por meio de cantos, danças e adornos corporais. Essa cerimônia é o momento em que o grupo doméstico distribui comida a toda a aldeia. O espírito é encarnado-representado pela comunidade, e ambos são alimentados pela família do doente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A doença, portanto, não pode ser tomada como um mal absoluto, ou não é apenas isso. Grande parte do sistema ritual alto-xinguano é acionado por idéias vinculadas à doença e o circuito de reciprocidade ativado por essas cerimônias tem uma papel crucial na dinâmica social das aldeias, fazendo a mediação nas relações entre indivíduo e sociedade (Viveiros de Castro 2002:81).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Associações indígenas ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Airawê Kaiabi, presidente da Atix. Foto: Paulo Jares, 1999.&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/282089-1/PIX_29.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A iniciativa de formar associações significa, sobretudo, a tentativa dos índios de conquistar autonomia na gestão dos interesses comunitários que têm interface com o mundo institucional, público e privado, da sociedade nacional. Nos últimos anos, foram criadas no PIX cinco associações e, ao que parece, este número deve aumentar. Das existentes, três estão ligadas a interesses locais de aldeias específicas: Mavutsinim, dos [[Povo:Kamaiurá | Kamaiurá]]; Jacuí, dos [[Povo:Kalapalo | Kalapalo]], bem como a associação dos [[Povo:Waujá | Wauja]]. Em 1994, foi criada a Atix (Associação da Terra Indígena do Xingu), que abrange as 14 etnias do Parque, atendendo a interesses interlocais. Na sua pauta, constam projetos de revitalização cultural, proteção e fiscalização do território, além de programas de educação, saúde e alternativas econômicas. A Atix conta com apoio institucional da Rainforest Foundation da Noruega e assessoria do &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://www.socioambiental.org&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;ISA&amp;lt;/htmltag&amp;gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As associações, de um modo geral, são dotadas de uma estrutura administrativa que não existe nas formas tradicionais de organização política das sociedades indígenas. A assimilação e gestão de um modelo associativista com feições burocráticas colidem com a política tradicional, pois pressupõem o domínio da língua portuguesa, de operações matemáticas, de legislação e de relações interinstitucionais que regem o universo das entidades de direito privado. Conseqüentemente, uma associação indígena nem sempre consegue conciliar a política tradicional da aldeia, geralmente controlada pelos mais velhos, com a gestão política dos assuntos que têm interface com a sociedade nacional, o que via de regra vem sendo monopolizado por indivíduos mais jovens. São eles quem dominam os novos conhecimentos indispensáveis na administração dessa interface.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A sustentabilidade de uma associação com o perfil amplo da Atix, que gerencia um conjunto diversificado de projetos, requer parcerias que apóiem o seu funcionamento, pelo menos parcialmente. Como a Atix incorpora nos seus quadros pessoas de diferentes etnias, sua sede não se localiza em uma aldeia mas no Posto Indígena Diauarum, com uma sub-sede na cidade de Canarana (MT). Este quadro exige, sem dúvida, dedicação exclusiva da maioria dos seus membros, os quais, além do mais, têm de estabelecer residência junto à sede da Associação. Daí a dificuldade de se garantir o funcionamento de uma associação dessa natureza sem um apoio institucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um outro aspecto importante para a sustentação das associações é a questão da capacitação dos seus membros para gerirem adequadamente os aspectos administrativos, financeiros e de relações externas. Nesse sentido, a Atix tem buscado, com a assessoria do ISA, um intenso e contínuo esforço de capacitação de sua equipe. Desde 1995 vem promovendo e participando de diversos cursos, como os de mecânica (em parceria com o Senai-PA), de computação para a diretoria, de auto-escola e elaboração, administração e contabilidade de projetos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No contexto do Parque, onde a administração da &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/c/politicas-indigenistas/orgao-indigenista-oficial/funai&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Funai&amp;lt;/htmltag&amp;gt; está, desde 1985, sob controle dos índios, o crescimento da Atix significa, de certa forma, uma nova alternativa de gestão que vai revelando as contradições de um processo no qual os índios foram alçados à condição de condutores das ações do Estado, sem que lhes tivessem sido dadas as condições adequadas para desempenhar esse papel com autonomia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
'''[André Villas Bôas]'''&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:André Villas-Bôas|André Villas-Bôas]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Saúde e educação ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Atualmente, o Parque conta com 68 professores das 14 etnias, os quais lecionam em 36 escolas localizadas nas aldeias e postos indígenas, atendendo a 1.258 alunos. Os professores redigiram o Projeto Político Pedagógico de suas escolas, de 1o a 4o etapas (equivalente às quatro primeiras séries do ensino fundamental), com currículo específico e diferenciado, com assessoria da equipe de educação do &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://www.socioambiental.org&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;ISA&amp;lt;/htmltag&amp;gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A maioria das escolas está vinculada à Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso, embora existam sete escolas vinculadas a municípios do entorno do Parque. A partir de 1994 foram criadas pelos professores, com assessoria de lingüistas, alfabetos para a escrita de todas as línguas. Os professores produzem os seus próprios livros didáticos nas &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/c/no-brasil-atual/linguas/introducao&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;línguas indígenas&amp;lt;/htmltag&amp;gt; e na língua portuguesa.&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para saber mais a respeito da área de educação no Parque, visite a página do &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://www.socioambiental.org/prg/xng_b.shtm&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;Projeto de Formação de Professores do Programa Xingu&amp;lt;/htmltag&amp;gt;.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em relação à saúde, a discussão sobre a reorganização dos serviços nessa área teve início em 1990, conduzida por profissionais da Unifesp/Escola Paulista de Medicina e envolvendo inicialmente os Agentes Indígenas de Saúde e algumas lideranças locais. A manutenção de um programa regular de formação dos Agentes Indígenas de Saúde, o trabalho desenvolvido pela equipe de saúde e as reuniões do Conselho de Lideranças da ATIX propiciaram a criação de contextos que facilitaram a participação das comunidades na discussão de seus problemas de saúde. Ao mesmo tempo, possibilitaram maior articulação interinstitucional com envolvimento da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/c/politicas-indigenistas/orgao-indigenista-oficial/funai&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Funai&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, Secretaria de Estado da Saúde de Mato Grosso (SES/MT) e Secretarias Municipais de Saúde (SMS) de alguns municípios do entorno do PIX, configurando um quadro mais favorável à organização da atenção à saúde em âmbito regional. Como resultado, o processo de construção do Distrito Sanitário Especial Indígena do Xingu (DSEI/ Xingu) se caracteriza pela mudança das práticas sanitárias, referenciadas num novo paradigma, centrado na vigilância à saúde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O DSEI/Xingu iniciou oficialmente suas atividades em 12 de agosto de 1999, por meio de um convênio estabelecido entre a Funasa e a Unifesp. Pelos termos do convênio, a Unifesp é responsável pela execução das ações de atenção básica desde as aldeias até os serviços de referência do SUS regional. Cabe à Funasa o repasse dos recursos financeiros, o monitoramento e acompanhamento das ações e o controle de doenças endêmicas como malária e dengue.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Distrito busca uma abordagem integral da atenção à saúde, levando em consideração todos os determinantes do processo saúde-doença: socioculturais, políticos, ambientais e biológicos. A organização dos serviços de saúde tem como princípios a eqüidade, acessibilidade, hierarquização e descentralização. O território da saúde foi dividido em três áreas de abrangência, a cada uma correspondendo um pólo-base: Leonardo, Pavuru e Diauarum. A cada pólo-base estão referidas uma série de localidades e uma população adstrita. Cada pólo-base conta com uma equipe multiprofissional de saúde, formada por médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem e agentes indígenas de saúde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O primeiro atendimento se dá no espaço territorial das aldeias, de forma contínua. Consiste em ações assistenciais básicas, de promoção da saúde e de saneamento, de responsabilidade dos agentes de saúde e professores indígenas, com o apoio e participação da equipe da área de abrangência correspondente. Quando não é possível solucionar o problema na própria aldeia, os doentes são encaminhados para Unidades Básicas de Saúde (UBS) localizadas nos pólos-base (sedes das áreas de abrangência).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Notas sobre as fontes ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Cocar Kaiabi. Foto: Camila Gauditano, 2002.&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/282101-1/PIX_34.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Atualmente, há trabalhos sobre os diferentes povos xinguanos, que poderão ser procurados nas bibliografias dos verbetes dedicados a cada um. Aqui se fará referência apenas aos trabalhos que tratam da região do alto Xingu como um todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dos trabalhos dos primeiros etnólogos que estiveram no alto Xingu, há tradução para o português dos dois livros de Karl von den Steinen (o referente à sua segunda viagem, ''Entre os Aborígenes do Brasil Central'', é o que contém mais informações etnográficas) e do livro de Max Schmidt, ''Estudos de Etnologia Brasileira''.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dentre as obras de meados do século 20, temos os artigos de Eduardo Galvão e o volume de Kalervo Oberg (de cuja expedição participaram seus alunos da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, como Fernando Altenfelder da Silva).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A tese de cátedra de Egon Schaden, ''Aculturação Indígena'', defendida na USP em 1965, traz um interessante capítulo que, com base na bibliografia então disponível, discute as relações entre os índios xinguanos desde o final do século 19 até a metade século 20. O livro de Pedro Agostinho, ''Kwarup'', publicado alguns anos depois, embora centrado na realização desse importante rito entre os Kamayurá, oferece um retrato muito vivo de suas relações e atitudes para com os convidados, de outra etnias. Sobre o Kwarup, Heinz Forthmann produziu um filme documentário que pode ilustrar bem a descrição do livro de Agostinho.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
''O Diário do Xingu'', de Berta Ribeiro, faz uma descrição do Parque, à medida que relata a viagem dessa etnóloga de sul para norte. Um retrato visual equivalente é oferecido pelo vídeo de Washington Novaes, mostrado anos atrás numa série da televisão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Orlando Villas-Bôas dedicou-se a descrever sua experiência como sertanista e indigenista em artigos e 12 livros, entre os quais ''A Marcha para o Oeste – A Epópeia da Expedição Roncador -Xingu''. Em 2002, foi lançado ''O Xingu dos Villas Bôas'', com mais de 300 fotos, depoimentos e textos informativos sobre os irmãos Villas Bôas e o Parque Indígena do Xingu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi organizado por Bruna Franchetto e Michael Heckenberger o livro&amp;lt;span style=&amp;quot;font-style: italic;&amp;quot;&amp;gt; &amp;lt;/span&amp;gt;''Os Povos do Alto Xingu: História e Cultura'' (2001), reunindo artigos seus e de outros pesquisadores que se têm dedicado, alguns há muito tempo, ao estudo dos povos alto-xinguanos. O propósito geral do volume é mostrar que o alto Xingu tem um longo passado perscrutável e interpretável, tanto da perspectiva dos pesquisadores como dos diferentes pontos de vista dos distintos povos indígenas.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil e Programa Xingu (ISA)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
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* Kuarup : adeus ao chefe Malakuiawa. Dir.: Washington Novaes. Vídeo cor, NTSC, 1987. Prod.: Intervídeo Com.&lt;br /&gt;
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		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
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		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Quantos_s%C3%A3o%3F&amp;diff=8531</id>
		<title>Quantos são?</title>
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		<updated>2025-10-24T13:47:16Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;{{Título |Quantos são?}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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}}&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
Estima-se que existam hoje no mundo pelo menos 5 mil povos indígenas, somando mais de 370 milhões de pessoas (IWGIA, 2015). No Brasil, até meados dos anos 70, acreditava-se que o desaparecimento dos povos indígenas seria algo inevitável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos anos 1980, verificou-se uma tendência de reversão da curva demográfica e, desde então, a população indígena no país tem crescido de forma constante, indicando uma retomada demográfica por parte da maioria desses povos, embora povos específicos tenham diminuído demograficamente e alguns estejam até ameaçados de extinção. Na listagem de povos indígenas no Brasil elaborada pelo ISA, sete deles têm populações entre cinco e 40 indivíduos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dos {{#total_povos:}} povos listados pelo ISA, 48 têm parte de sua população residindo em outros países. Quando há informações demográficas a respeito, essas parcelas são contabilizadas e apresentadas separadamente, segundo a fonte da informação, e não contam na estimativa global para o Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo o Censo do IBGE de 2022, a população indígena atual é de 1.693.535 pessoas, de 391 etnias,  o que corresponde a 0,83% da população total do Brasil. No Censo de 2010, foram identificadas 305 etnias, que somavam 896.917 pessoas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Veja a lista de povos e respectivas populações no [[Quadro Geral dos Povos]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Leia também ==&lt;br /&gt;
* [[Quantos eram? Quantos serão?]]&lt;br /&gt;
* [[O Censo 2010 e os Povos Indígenas]]&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Especiais do IBGE ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;b&amp;gt;Censo Demográfico 2022&amp;lt;/b&amp;gt;&lt;br /&gt;
* [https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&amp;amp;id=2102018 Indígenas: primeiros resultados do universo] (publicação)&lt;br /&gt;
* &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/22827-censo-demografico-2022.html?edicao=37417&amp;amp;t=resultados&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;Indígenas: primeiros resultados do universo&amp;lt;/htmltag&amp;gt; (tabelas)&lt;br /&gt;
*[https://sidra.ibge.gov.br/pesquisa/censo-demografico/demografico-2022/universo-etnias-e-linguas-indigenas-caracteristicas-sociodemograficas Etnias e línguas indígenas: principais características sociodemográficas]&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;b&amp;gt;Censo Demográfico 2010&amp;lt;/b&amp;gt;&lt;br /&gt;
* [http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=2194&amp;amp;amp;id;_pagina=1 Características Gerais dos Indígenas: Resultados do Universo] (análise)&lt;br /&gt;
* &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2010/caracteristicas_gerais_indigenas/default_caracteristicas_gerais_indigenas.shtm&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;Características Gerais dos Indígenas: Resultados do Universo&amp;lt;/htmltag&amp;gt; (dados)&lt;br /&gt;
* &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://www.censo2010.ibge.gov.br/terrasindigenas/&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;Hotsite sobre população indígena (mapa interativo)&amp;lt;/htmltag&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Categoria:Demografia]]&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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{{#set:Data cadastro=2008-07-07}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8529</id>
		<title>Povo:Zo'é</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8529"/>
		<updated>2025-10-20T18:31:21Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Vivem numa área de densas florestas, entre os rios Cuminapanema e Erepecuru, no Norte do Pará. Os Zo’é convivem com agentes de assistência há quase quatro décadas, mantendo vigorosamente suas formas de organização social e territorial. Este povo em situação de recente contato vem se mobilizando para implementar o PGTA da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3927 TI Zo'é] e seu protocolo de consulta. Através da sua organização representativa, a Tekohara, fortalecem a gestão de um Fundo de Artesanato, um mecanismo original de trocas coletivas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conheça mais sobre esse povo no documentário &amp;lt;em&amp;gt;Zo’é rekoha – modo de vida zo’é&amp;lt;/em&amp;gt;. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;htmltag tagname=&amp;quot;iframe&amp;quot; src=&amp;quot;https://www.youtube.com/embed/ADG2M06cEBQ?si=YF_B7YHBW1aEvTn2&amp;quot; width=&amp;quot;100%&amp;quot; height=&amp;quot;394&amp;quot; allow=&amp;quot;autoplay&amp;quot;&amp;gt; Video Iframe &amp;lt;/htmltag&amp;gt;&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
== Nome e língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Os Zo'é durante uma oficina de Letramento, Dominique Gallois, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/4_f54a65283e04d93/52684scr_8d884e9b4241947.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pronome &amp;lt;em&amp;gt;jo’é&amp;lt;/em&amp;gt; [zo’é], “nós mesmos”, se consolidou como uma autodenominação que diferencia este povo dos não indígenas, chamados &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;. Já outros povos indígenas são chamados de “&amp;lt;em&amp;gt;amõ jo’é&amp;lt;/em&amp;gt;” (outros, como nós). No final dos anos 1980, quando começaram a conviver com missionários e com servidores da Funai, esse termo não era usado para designar a eles mesmos, mas para identificar qualquer pessoa que adquirisse alguma proximidade e que passasse, então, a ser considerada “gente como nós”. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os termos &amp;lt;em&amp;gt;Poturu&amp;lt;/em&amp;gt;, ou &amp;lt;em&amp;gt;Poturujara&amp;lt;/em&amp;gt;, difundidos inicialmente por agentes da Funai como denominação do povo recém-contatado na região do Cuminapanema, designam tão somente a madeira da árvore utilizada para confeccionar os adornos labiais &amp;lt;em&amp;gt;embe’pot&amp;lt;/em&amp;gt;. “&amp;lt;em&amp;gt;Poturu!&amp;lt;/em&amp;gt;” respondiam os Zo’é, quando alguém apontava para seus rostos, buscando saber seu nome.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Zo’é são falantes de uma língua Tupi-Guarani, do tronco Tupi. A maior parte da comunidade é monolíngue, com exceção de alguns chefes e de uma dezena de jovens, que aprenderam a se comunicar em português e estão adquirindo rapidamente maior fluência, no âmbito de suas funções de gestão da &amp;lt;strong&amp;gt;Tekohara – Organização Zo’é&amp;lt;/strong&amp;gt;. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Experiências de contato e de convivência com ''kirahi'' ==&lt;br /&gt;
A área onde vivem os Zo’é situa-se em território histórico de povos de língua Karib, que ocupam as terras firmes do planalto das Guianas. Seus vizinhos mais próximos são os [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Tiriy%C3%B3 Tiriyó], ao Norte; os [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Aparai Aparai] e [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Wayana Wayana], a Leste; os quilombolas e castanheiros não indígenas ao Sul. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As fontes disponíveis sobre a região Norte do Pará não trazem informações suficientes para acompanhar a trajetória da migração dos Zo’é até seu &amp;lt;em&amp;gt;habitat&amp;lt;/em&amp;gt; atual, mas é certo que este povo tem sua origem ao sul. Essa é a direção que eles indicam quando são indagados sobre sua procedência antiga, embora a localização das aldeias de antepassados longínquos não seja assunto de grande interesse.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como ocorre na tradição oral das sociedades indígenas que mantêm contatos antigos com a população regional, a presença de não indígenas acaba sendo integrada ao tempo mítico. Os Zo’é não questionam nem a origem, nem os movimentos dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;, ou dos povos inimigos: todos eles, simplesmente, sempre existiriam. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diz-se, inclusive, que quando &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt; recriou a humanidade, não precisou refazer os não indígenas, que não haviam sido engolidos pelo dilúvio: eles já existiam, mas estavam longe, “na borda da terra”. Elementos históricos são agregados ao mito, associando o evento da recriação a contatos interétnicos. O fogo que destruiu a terra foi provocado por inimigos, habitantes do Leste; para alcançar as ossadas dos humanos destruídos pelo dilúvio, o herói vem do Sul, flutuando em um recipiente típico dos não indígenas: um corote de gasolina. Depois, cada um volta a ocupar seu espaço: os não indígenas ficam no Sul; os Zo’é nas serras, longe dos rios; os inimigos a Leste.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/Jipohan_%C3%A9_gente_como_voc%C3%AA “Jipohan é gente como você”, por Jurusi uhu, Pa'hi e Tatitu Zo'é]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/763735-2/DSC_3332_edit.JPG|Jurusi uhu Zo'é. Foto: Dominique Tilkin Gallois&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Era comum, nos anos 1990, os Zo’é perguntarem aos visitantes: “Vocês viram onde está &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt;, aquele herói que revitalizou seus ancestrais juntando ossos dos flagelados pelo último cataclismo?” Os Zo’é consideravam &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt; como um &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;. Após sua façanha de recriação, ele voltou para sua terra de origem, no Sul. É descrito usando roupas, escrevendo, usando canoa com motor, gravador, injeções e ferramentas diversas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como é comum na elipse temporal que o mito efetua, os Zo’é atualizam suas tradições com ingredientes extraídos de sua experiência do passado e de suas expectativas de futuro. Razão pela qual, na morada celeste dos mortos, os ex-Zo’é têm acesso irrestrito à mercadorias, inclusive espingardas, que lhes são fornecidas por alguns ex-&amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; generosos – como foi um servidor da Funai, Isidoro, que segue lhes trazendo mercadorias desejadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como ocorreu em muitos lugares, os eventos do contato dos Zo’é com missionários e depois com servidores da Funai envolveu diretamente a questão do acesso às mercadorias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Luis Donisete B. Grupioni/1989&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281189-1/zoe_7.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os então chamados “Índios do Cuminapanema” foram apresentados ao mundo em 1989, em reportagens que enfatizavam sua “pureza” e “fragilidade” e os descreviam como um dos últimos povos “intactos” na Amazônia. E justamente por serem um dos raros grupos ainda “não atingidos” nem pela mensagem evangélica, nem pela assistência oficial, os Zo’é atraíram a atenção da Missão Novas Tribos (MNT), que iniciou seu trabalho na região em 1982. Foram necessários cinco anos de sucessivas aproximações e recuos para “pacificar” os Zo’é – até que em 1987 os missionários  instalaram a Base Esperança na porção sul da atual TI Zo’é. Ali, passaram a controlar sozinhos o processo de acomodação dos Zo’é à nova situação, até a Funai assumir a área em 1991.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, os Zo’é já tinham experiências de encontro com não indígenas desde muito tempo. Relatam inclusive a saída de uma mulher que viajou até Santarém, de onde acabou voltando, provavelmente no final do século XIX.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
No final dos anos 1960, o território zo’é passou a ser percorrido por caçadores de felinos, conhecidos como “gateiros”. Nesse período, os Zo’é encontravam em suas trilhas, gaiolas, ferramentas abandonadas, restos de acampamentos. Também encontravam vestígios de coletores de castanha. Eram contatos indiretos, ou, como dizem os Zo’é, “sem carne/sem corpo”, pois não viam os forasteiros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Dominique Gallois, 1991&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281182-1/zoe_4.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1975, eles foram surpreendidos por visitas mais espetaculares, quando um helicóptero do Instituto de Estudos e Pesquisas do Pará despejou embrulhos com roupas e objetos sobre a aldeia Kejã. Foi também com presentes lançados do céu, ou dependurados no caminho das aldeias, que os membros da Missão Novas Tribos se aproximaram. Entre 1982 e 1987, eles estiveram várias vezes em acampamentos ou aldeias, saindo rapidamente. Segundo os Zo’é, muitas pessoas ficavam doentes na sequência dessas visitas e, como demoravam meses para voltar, as pessoas acometidas por doenças pulmonares morriam. Eles também relatam que resolveram se deslocar rumo ao Sul, em busca de uma explicação para esse “sopro” de doenças e para pegar mais objetos, chegando finalmente à Base Esperança em outubro de 1987, data oficial do “contato” com a MNT. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
===Terçados, epidemia e mortes===&lt;br /&gt;
{{Lead |por '''Fábio Ribeiro'''}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As notícias trazidas sobre os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; que davam facões e machados logo se espalharam pelas aldeias e em pouco tempo muitos Zo’é foram atrás dos missionários. Como não havia ferramentas para todos, o clima logo ficou tenso. Os homens que não pegaram facões ficaram bravos, bateram nas paredes entraram e saquearam a casa dos missionários, na localidade de Kuruaty. Esses, com muito medo, foram embora. As doenças, no entanto, ficaram. É nesse período que tem início a epidemia que em poucos dias tirou a vida muitas outras pessoas zo’é. “&amp;lt;em&amp;gt;Kirahi rahy ate juke&amp;lt;/em&amp;gt;. Foi a doença dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; que matou”. O relato de Hun, um atual chefe Zo’é é claro ao afirmar que a epidemia teve início logo após o encontro de Tun e Dubehaj com os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; e que, apenas muito tempo depois, quando encontraram Sera’yt (em 1987), é que os missionários trouxeram injeções com remédios, mas não vacinas. Hun, ainda criança nessa época, foi duramente afetado: seu pai, sua mãe e alguns de seus irmãos morreram na maloca de Pirity. “Naquele tempo os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; foram embora mesmo. Depois os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; pensaram de novo, queriam ver os Zo’é de novo, aí os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; voltaram. Foi então nessa época que encontraram Sera’yt (...) e ficaram alegres. Naquela época os Zo’é tinham mandado embora, então os kirahi pensaram, aí abriram o caminho novamente. Passaram-se muitas luas naquele tempo, e aí os missionários voltaram.” – Adaptado de &amp;lt;em&amp;gt;Kampugerau: crônica de um movimento zo’é &amp;lt;/em&amp;gt;, 2024&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após essa notícia, a Funai criou o PINC Cuminapanema, subordinado à 4ª SUER/Funai em Belém (Portaria nº 1.061, de 22 de maio de 1987). No ano seguinte, o convênio 008/1998 celebrado entre a Funai e a MNT vedava sua atuação em áreas de indígenas isolados. Mas a Missão não se retirou e continuou seu trabalho junto aos Zo’é. Até que, em janeiro de 1989, a Missão alertou a Funai sobre a precária situação de saúde dos Zo’é. O sertanista Sidney Possuelo conseguiu apoio da imprensa e pôde assim realizar uma primeira visita à área. Numa segunda viagem, pouco tempo depois, a equipe da Funai verificou que a situação de saúde estava piorando e começou então a planejar um trabalho mais sistemático. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante mais de um ano, os Zo’é assistiram à convivência tensa entre as equipes da Funai e da Missão Novas Tribos, cada uma com sua base, entre as quais eles continuaram circulando para obter remédios e objetos industrializados. Quando conseguiu recursos e pessoal adequados para assumir um trabalho de assistência que abrangesse a totalidade das quatro aldeias existentes na época, a Funai retirou os missionários da área, em outubro de 1991. A partir desse momento, os sucessivos responsáveis pelo PINC Cuminapanema, orientados pelo então Departamento de Índios Isolados (DII), da Funai, passaram a desempenhar  ações de proteção do povo Zo’é e de sua terra, em formatos que variaram sensivelmente ao longo dos anos. Foi somente a partir de dezembro de 2009, com a reestruturação da Funai, que o órgão indigenista instituiu a  Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC), incluindo a proteção às populações de recente contato como os Zo’é. A Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema (FPEC) foi criada em 2011 (Portaria Nº 1816/PRES, de 30 de dezembro de 2011) e, desde então, segue novas diretrizes para a promoção da integridade cultural e territorial do povo Zo’é.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A regularização da TI Zo’é ==&lt;br /&gt;
Em 1987, a Funai procedeu à interdição da Área Indígena Cuminapanema/Urucuriana, com uma extensão de aproximadamente 2.059.700 hectares, ao sul do [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3885 Parque Indígena de Tumucumaque], nos municípios de Alenquer e Óbidos, Pará ([https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/ZED00005.pdf Portaria nº 4.098 de 30/12/1987]). A interdição visava dar condições de trabalho à equipe da Funai, para o reconhecimento de numerosas referências de indígenas  isolados levantadas pelo então DII. Na época, a Funai já conhecia a presença dos Zo’é, através de informações repassadas pela Missão Novas Tribos, que havia localizado este povo em 1982.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Zo'é trabalhando na construção de novas casas, Leonardo Viana Braga, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/9/0_eedce20393fa4de/52690scr_4bbc991f8b7ca54.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os trabalhos de identificação e delimitação da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3927 Terra Indígena Zo'é] aconteceram entre 1996 e 1998, com a participação ativa dos Zo’é e de vários técnicos e especialistas, em muitas etapas. A primeira, de estudos antropológicos, incluiu a preparação da comunidade para que os Zo’é pudessem acompanhar todos os procedimentos da regularização de seu território. A Portaria nº 309 de 04/04/1997 constituiu o Grupo de Trabalho cujo [https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/ZED00014.pdf relatório de identificação e delimitação] foi submetido à aprovação da Funai em novembro de 1998.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A demarcação física da Terra Indígena, com 668.565 hectares, foi realizada entre 1999 e 2000, por uma empresa contratada pela Funai. Contrariamente ao acordado com os Zo’é durante os trabalhos de identificação, eles não puderam acompanhar os trabalhos demarcatórios e foram mantidos alheios ao processo de regularização de seu território. Após a revisão de erros na delimitação do limite sul, a homologação e o registro no Serviço de Patrimônio da União (SPU), a demarcação da Terra Indígena foi finalmente  consagrada por decreto presidencial (s/n), publicado no Diário Oficial da União (DOU) em 22 de dezembro de 2009.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2008, a pedido do Ministério Público Federal, foi criada uma faixa de amortecimento em volta da Terra Indígena, a Zona Intangível das Florestas Estaduais (FES) [https://uc.socioambiental.org/pt-br/arp/4641 Trombetas] e [https://uc.socioambiental.org/pt-br/arp/4642 Paru]. Essa área não poderia receber nenhum tipo de exploração econômica para evitar a contaminação dos indígenas em situação de recente contato. Com a aprovação do Plano de Manejo da FES do Trombetas pelo Conselho Estadual de Meio Ambiente do Pará, a faixa foi incorporada no zoneamento da Unidade de Conservação. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Iniciativas dos Zo’é consolidam novos rumos ==&lt;br /&gt;
Durante vinte anos, a atuação do órgão indigenista se centrou em manter os Zo’é afastados das relações com os não indígenas e suas tecnologias, evitando também qualquer encontro com povos indígenas vizinhos. Mas em 2010, os Zo’é tomaram a iniciativa de romper a aliança que mantinham com a equipe da Frente de Proteção da Funai e saíram da terra demarcada para buscar mercadorias que lhes eram recusadas em seu território. Um grupo se dirigiu ao Norte, ao encontro dos Tiriyó no Rio Marapi, e outro se dirigiu aos Campos Gerais, além do limite Sul da Terra Indígena, onde trabalharam com coletores de castanha. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Voltaram trazendo espingardas velhas, redes de &amp;lt;em&amp;gt;nylon&amp;lt;/em&amp;gt;, roupas usadas e alguns gêneros alimentícios, além de várias pessoas doentes. A experiência rendeu importantes aprendizados no que toca aos modos de relação com seus vizinhos, indígenas e não indígenas, e resultou na revisão da política de proteção da TI Zo’é – até então fundada na manutenção de um rígido “isolamento” e na contenção de seus pedidos de acesso não só às mercadorias como a conhecimentos sobre o modo de vida dos não indígenas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi nesse contexto que o [https://institutoiepe.org.br/ Instituto Iepé] estabeleceu, em 2016, uma parceria com a nova gestão da Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema (FPEC), visando criar alternativas para que os Zo’é acessassem informações e experiências que lhes permitissem compreender e se posicionar frente aos interesses dos diferentes setores da sociedade brasileira. Buscou-se atender às demandas dos Zo’é, através de um conjunto de ações educativas e de apoio às suas próprias iniciativas de vigilância territorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Planejando o futuro e a proteção do território ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em novembro de 2019, os Zo'é pactuaram seu Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da TI Zo'é, onde definem suas prioridades para o futuro. “&amp;lt;em&amp;gt;Jo’e rekoha bokitute ram&amp;lt;/em&amp;gt; – Planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro” foi o título escolhido pelos Zo’é para esse plano de gestão, onde explicitam as diretrizes para a proteção de seu território e de seu modo de vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Foto: Transporte de canoa recém construída pelos Zo'é, Hugo Prudente, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/6_92ae3e7baf9ad67/52686scr_d2b118ef8ea028d.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas atividades realizadas para a construção do PGTA, entre 2016 e 2019, confirmou-se a mudança de foco nos interesses dos Zo’é. Menos inquietos em garantir abastecimento de objetos dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;, estavam mobilizados para ampliar sua circulação pelo território, não só reconhecendo áreas ocupadas pelos antigos, como abrindo novos percursos para avaliar as reservas de caça e pesca e as possibilidades de abertura de novos assentamentos. No documento, os Zo’é afirmam: “Queremos que nossos filhos sigam ocupando vastamente o nosso território”, colocando o processo de dispersão de aldeias como um dos fundamentos do bem viver. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa mobilidade promoveu novas incursões e a vigilância mais sistemática em áreas fartas em recursos, como os grandes castanhais no Sul e em outras porções do território. Uma das diretrizes do PGTA dedica especial atenção à vigilância dessa região, que foi invadida por castanheiros em 2018 e que, desde então, vem sendo ocupada por aldeias novas e acampamentos. Como escreveram os Zo’é no documento: “Nós, coletando essa castanha, invasores não virão mesmo. Aqui é nossa terra, a castanha está na nossa terra. Tem castanha na terra dos não índios, essa deve ser a castanha deles. Essa aqui é nossa castanha. Estamos falando duramente agora”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
“Fazer saber o nosso território” é uma afirmação e um objetivo a ser buscado, articulando ações de vigilância e de ocupação. Mobiliza concepções importantes da territorialidade zo’e, como o zelo pelos lugares habitados, a articulação entre os diversos grupos familiares na abertura de uma nova aldeia e o caráter regular das idas e vindas implicadas em uma iniciativa de expansão territorial. Nesse movimento, os grupos territoriais se reestruturam, mantendo suas diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
Confira aqui o [https://institutoiepe.org.br/2022/05/plano-de-gestao-territorial-e-ambiental-zoe/ PGTA &amp;lt;em&amp;gt;Jo’e Rekoha Bokituteha Ram&amp;lt;/em&amp;gt; – Planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro]!&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== População e proliferação de aldeias ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Distribuição de bebida ''sepy'' durante uma festa dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/7/4/6_cd584b0ad074849/52746scr_dcd3b057e91c8af.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A população Zo'é praticamente dobrou nos últimos trinta anos: eram 172 em 1998, à época da identificação da TI. Em 2011 eram 261 e hoje são 350 pessoas (Iepé, 2025). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Zo'é subdividem-se em dois grandes grupos, respectivamente situados ao Norte e ao Sul da Base da Funai, em que se distribuem os 19 grupos locais (&amp;lt;em&amp;gt;iwana&amp;lt;/em&amp;gt;), que circulam em determinadas áreas territoriais, onde estão suas aldeias antigas e recentes, além de acampamentos. Os &amp;lt;em&amp;gt;Iwana&amp;lt;/em&amp;gt; agregados de famílias extensas, atualmente em número de 31, que vivem em aldeias próximas, e cuja composição sofre constantes alterações em função das alianças matrimoniais e das parcerias estabelecidas para ocupar novas áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos últimos dez anos, ocorreu um processo de proliferação de aldeias muito significativo. Na época da instalação da Funai em 1991, eram apenas quatro; eram cinco em 1998, 12 em 2011 e hoje existem 62 aldeias. Configuram conjuntos de pequenas aldeias ocupadas de forma intermitente por famílias extensas que vivem em lugares próximos e circulam entre seus vários assentamentos, em função da fartura de recursos e dos cuidados das roças. Essa intensa mobilidade está relacionada ao apoio logístico que recebem tanto da FPE-Funai como do Iepé, com uma rede de radiofonia em praticamente todas as aldeias. Merece destaque o fato de que, nos últimos anos, os Zo’é têm optado por fabricar suas próprias canoas em madeira de aroeira, preferidas – por enquanto – às voadeiras de alumínio, não só difíceis de transportar até a TI, como exigindo manutenção custosa. Aprenderam a fabricar canoas num intercâmbio que levou especialistas do povo [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Waiwai Waiwai] para a TI Zo’é em 2017 e, desde então, cada família procura construir sua própria embarcação, na qual são instalados os motores rabeta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Estações e ritmos da vida ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Indígenas zo'é finalizando uma rede de fibra de castanheira, Flora Dias Cabalzar, 2016.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/5_7ed184682c27e1c/52685scr_a5f3ac836c6e409.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma das principais características do modo de vida dos Zo’é, até hoje, é a intensa mobilidade das famílias pelo território. Todos têm acesso aos recursos florestais sem esgotá-los, uma vez que as atividades de cultivo das roças, de caça, pesca e coleta são feitas em pequena escala, pelas diferentes famílias, em áreas distintas. É também nesses movimentos que os Zo’é atualizam o exímio conhecimento acumulado sobre seu território, constantemente percorrido através de uma intrincada rede de caminhos entre aldeias, capoeiras e locais de coleta de itens necessários no dia a dia, tanto para alimentação como para a fabricação de utensílios.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um modo de vida que garante aos Zo’é uma alimentação exclusivamente composta de sua produção agrícola, da caça, pescado e frutas. Também merece destaque o fato de os Zo’é não utilizarem espingardas, mas sim seus arcos, flechas e arpões, complementados com anzóis e linhas de pesca industrializadas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Homem zo'é cuidando de flechas, Dominique Tilkin Gallois, 2023.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/7_234521b7fa212cf/162427scr_wm_3c5190633e93dd0.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O caráter sazonal de alguns recursos dos quais os Zo’é se utilizam conforma a dinâmica de circulação das famílias pelo território e também repercute nos movimentos de aproximação e distanciamento entre essas famílias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É no tempo das chuvas, de fevereiro a julho, que acontecem os períodos mais prolongados de dispersão das famílias pelo território, quando são realizadas grandes caçadas, principalmente de macaco-aranha e de tucano. No início das chuvas, as famílias também se deslocam para a beira de igarapés e hoje também de rios maiores, aproveitando o volume das águas para caçar urubu-rei, usando peixes podres como iscas. Instalados nos acampamentos, os Zo’é retornam às aldeias para buscar farinha, preparada com antecedência e estocada nas casas; quando ela acaba, permanecem alguns dias para preparar mais farinha, beiju e tapioca.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O período ideal para a caça de ''kwata'' (macaco-aranha, coatá ou coamba) vai de março a maio, período denominado ''kwata ike'', quando estão gordos. Montam-se acampamentos específicos, de onde os homens saem para as serras, em busca dos macacos. No final desse período, em maio, tucanos, araras e papagaios já estão comendo frutas de palmeiras. É a estação chamada de ''token ike'', do “tucano gordo”, que dura cerca de um mês e meio, quando bandos numerosos de aves vêm comer patauá ou açaí, em locais de concentração de frutas. Já é no final da estação chuvosa e início da estação seca que os porcos queixadas e caititus estão gordos, motivando saídas frequentes de grupos de homens às trilhas das varas de porcos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Moça zo'é preparando leite de castanha, Dominique Tilkin Gallois, 2023.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/9_d567041deb9c12a/162429scr_wm_697db62eab28f2f.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre os recursos mais valorizados nesse calendário do tempo das chuvas, a castanha-do-Brasil é um alimento básico na dieta. Os Zo’é colhem os ouriços a partir de janeiro e consomem amêndoas em profusão durante toda a estação chuvosa; durante o verão, colhem ouriços ainda verdes e continuam comendo castanha o ano todo, em preparos diversos com produtos da mandioca ou carnes. Como é também nesse período que muitas frutas amadurecem, é comum interromperem o movimento de dispersão entre acampamentos para fazer festas, quando se distribui grande quantidade de bebida fermentada ''sepy''.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A estação seca, de final de julho até o início de janeiro, é marcada pelo trabalho nas roças. É quando a vida nas aldeias se intensifica, sendo um período de maior aproximação entre grupos familiares. Isso não significa que as famílias não mantenham, no verão, outras atividades que as leve a deixar a aldeia. Saem para buscar frutas da estação, como o açaí que é trazido em grandes cachos. Mas sobretudo saem para pescar com timbó, com anzóis, ou ainda com flecha ou zagaia. No verão, também acontecem expedições de caça, em geral mais curtas e só entre homens, já que as mulheres ficam nas aldeias cuidando das roças. Além disso, como muitas famílias mantêm cultivos em mais de uma aldeia, deslocam-se para dar conta de todas as roças. O corte, queima e limpeza das roças se prolonga até dezembro, meados de janeiro, quando a castanha está de novo madura, e os Zo’é limpam a roça da mandioca que brotou e fazem novo plantio. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Refeição familiar dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017.&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/9_9e70545c4b7fee0/52689scr_5d2f4b741f6cd92.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A mandioca é o principal cultivo, com uma variedade de produtos: farinha, beiju, tapioca, tucupi. As mulheres, inclusive com colaboração dos homens para ralar as raízes, dedicam muito de seu tempo ao processamento da mandioca: descascar, ralar, espremer no tipiti, peneirar, torrar farinha. Os Zo’é também cultivam pimenta, batata-doce, cará, banana, mamão, caju, goiaba, graviola, manga, urucum, algodão, cuia, cabaça, curauá e cana de flecha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade de vida dos Zo’é decorre, portanto, desse grande acervo de saberes e práticas do cotidiano, transmitidos e aperfeiçoados ao longo das gerações. Se, nas últimas décadas, os Zo’é se apropriaram seletivamente de alguns itens industrializados, continuam valorizando suas próprias tecnologias para fabricar os artefatos que utilizam cotidianamente.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Ler e escrever na própria língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Os Zo'e durante uma oficina de Letramento, Dominique Tilkin Gallois, 2023&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/6_07c4c88f97d55fe/162426scr_wm_9578fba3a29bfe7.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre as ações educativas construídas com os Zo’é para promover a discussão e pactuação do PGTA, destacam-se as atividades de letramento, iniciadas pelo Iepé em 2017. Tanto para a formulação adequada das medidas de proteção como, sobretudo, para a apropriação duradoura deste plano, era imprescindível que os próprios Zo’é pudessem redigir e atualizar as diretrizes de gestão de seu território. Trata-se de um programa não escolar de letramento, que é concebido não apenas como um meio de apropriação da leitura e escrita – por enquanto apenas na língua zo’é – e a iniciação à matemática, mas também como aproximação aos conceitos, à linguagem e às práticas relacionadas aos direitos assegurados aos povos indígenas pela [https://pib.socioambiental.org/pt/Constitui%C3%A7%C3%A3o Constituição brasileira de 1988]. É nesse sentido que as ações de letramento viabilizaram a criação da Tekohara, organização representativa do povo Zo’é, na consolidação de seu Fundo de Artesanato, o FAZ, e na construção de um [https://institutoiepe.org.br/2025/08/protocolo-de-consulta-e-consentimento-zoe/ protocolo de consulta e consentimento]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a pandemia de Covid-19, durante a qual todos os trabalhos com os Zo’é foram suspensos, consolidou-se uma turma de cerca de 40 jovens e adultos, depois separada em duas, correspondendo aos grupos do Norte e do Sul. Reúnem-se quatro vezes por ano nos Encontros de Letramento, realizados na “casa grande” da Base da Funai, em Kejã. Destacaram-se rapidamente oito jovens, que passaram a atuar como multiplicadores nas atividades de letramento, como tradutores e mais recentemente assumiram cargos na gestão da organização representativa, Tekohara. Além desses Encontros, oficinas específicas promovem a construção participativa de materiais didáticos, hoje já com mais de 20 títulos versando sobre os mais diversos temas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Todos os materiais produzidos procuram registrar as reflexões dos Zo’é sobre seu modo de vida, sobre as mudanças recentes que interferem nas formas de ocupação do território, sobre experiências novas de gestão advindas da consolidação de sua associação etc. Entre eles, destacam-se os cadernos da série ''Rekoha'', que sempre iniciam com a feitura de um mapa por um líder de grupo local, complementado por pequenos textos extraídos das conversas sobre suas iniciativas de abertura de caminhos, roças, acampamentos de caca e pesca, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra série de materiais traz resultados de uma pesquisa colaborativa sobre cantos, engajando jovens letrados e conhecedores mais idosos, que permitiu também introduzir o uso da informática, para a gestão de um acervo de cantos e de suas transcrições. Além disso, outros cadernos específicos apoiam a formação em gestão tanto da Tekohara como do Fundo de Artesanato Zo’é (FAZ). Mais recentemente, alguns cadernos trazem saberes das mulheres – que praticamente não participam das atividades de letramento – especialmente sobre o ciclo da castanha e sua culinária. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
=== Tekohara – Organização Zo’é ===&lt;br /&gt;
Após a pandemia de Covid-19, os Zo’é reativaram seu movimento de reorganização de relações com os não indígenas, inaugurado com a pactuação do PGTA, e criaram em 2022 uma organização representativa, denominada Tekohara. O nome ''Tekohara'' foi especialmente criado para a associação. Segundo os fundadores, a expressão inexiste na língua zo’é, porém remete à proteção do território, chamado em sua língua de – ''tekoha''. Constitui assim uma síntese do que consideram ser a atuação prioritária da organização, em consonância com todo o trabalho de gestão territorial que os Zo’é vêm conduzindo nos últimos anos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A assembleia de fundação reuniu praticamente toda a população zo’é, incluindo idosos e crianças. Desses, todos os maiores de 17 anos, totalizando 198 pessoas à época, se tornaram associados, que escolheram e aclamaram seus representantes para duas instâncias de gestão:  o Conselho de Chefes e a Diretoria. O primeiro é composto por ''sete iy'', principais líderes zo’é, reconhecidos pelos demais chefes de todos os subgrupos. Em 2025, a assembleia escolheu outros chefes para o conselho, hoje um total de 11, que também constituem o Conselho Fiscal da associação. A diretoria é constituída por cinco jovens letrados, que se consideram “ajudantes dos chefes” e atuam diretamente nas instâncias que exigem a leitura e escrita de documentos, a convocação e mediação de reuniões, a gestão de recursos, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2024, os chefes do conselho e os jovens da diretoria, além de outros adultos interessados, construíram o protocolo de consulta e consentimento, ao longo de cinco oficinas e de várias reuniões de apresentação e aprovação do documento, publicado em duas línguas, em 2025. Afirmam, neste protocolo: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
“Temos nos reunido regularmente para conversar e com isso nossa associação está firme, porque discutimos todos os assuntos importantes. Como consolidamos nosso próprio jeito de fazer reuniões e tomar decisões, temos clareza sobre como devemos nos posicionar sobre quem pode e quem não pode entrar em nosso território (...) É porque mantemos um mesmo entendimento sobre a proteção de nosso território que as decisões não são difíceis. É assim que alcançamos consenso entre nós todos”. – Protocolo de consulta e consentimento Zo’é (2025, pp. 14-21)&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/3_8ec6e605f080da0/162433scr_wm_6306ea1916b3650.jpg| Lideranças zo'é durante uma reunião da Tekohara, Kamikia Kisedje, 2024}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A gestão coletiva de um Fundo de Artesanato ==&lt;br /&gt;
Desde a instalação da Funai na Terra Indígena, em 1991, os Zo’é têm produzido artesanato para troca com visitantes, ainda que de modo episódico, obtendo assim diversos utensílios que foram, desde então, incorporados ao seu modo de vida. Naquele período, o Posto de Atração distribuía uma ou duas vezes por ano ferramentas, material de pesca, lanternas e pilhas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Os Zo'e durante a etiquetagem de peças comercializadas por meio do Fundo de Artesanato, Dominique Gallois, 2023&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/5_22188c531215eb0/162425scr_wm_ee3a42b7ee661ff.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já a partir de 2011, a CGIIRC-Funai passou a rever sua política de proteção, garantindo aos indígenas em situação de recém-contato novas experiências e formas de participação. Foi nesse contexto que o Fundo de Artesanato Zo’é (FAZ), foi criado em 2012, pela Frente Cuminapanema (FPEC). Tratava-se de ampliar as possibilidades de troca e assegurar maior autonomia no abastecimento de itens industrializados demandados pelos Zo’é. Sobretudo se buscou passar de um sistema de doação para um mecanismo coletivo de permutas, assegurando a distribuição de itens industrializados previamente selecionados para todas as famílias, que por sua vez entregam lotes de peças que correspondem aproximadamente ao valor dos objetos adquiridos pelo Fundo. Durante dez anos, o FAZ se consolidou sob gestão da equipe da Funai, mas desde 2022, é gerido diretamente pelos Zo’é, por meio da associação Tekohara, ainda que com algum apoio dos parceiros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O FAZ consiste num sistema de trocas que envolve todas as famílias zo’é, atendendo suas demandas por objetos industrializados. Nos últimos anos, acordou-se com os parceiros que itens como material de pesca, ferramentas, entre outros, são adquiridos através de projetos do Iepé, desonerando assim o FAZ. A lista do que deve ser comprado é aberta, mas inclui cerca de 20 itens, todos eles incorporados ao modo de vida dos Zo’é há várias décadas. A lista envolve itens de uso pessoal, como sandálias, espelhos, linhas para tipoias, sabão, panelas, tigelas, além de alguns itens necessários às atividades produtivas do cotidiano, como isqueiros, sacos para armazenar farinha e eventualmente ferramentas que não podem ser adquiridas através dos projetos dos parceiros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Tebo Zo'é segurando cumaru, Kamikia Kisedje, 2024&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/1_1085df758a31880/162431scr_wm_04d1d66a3aa490a.jpg }}&lt;br /&gt;
  &lt;br /&gt;
As famílias entregam peças de artesanato e recebem itens prévia e cuidadosamente selecionados em reuniões com os chefes de todas as aldeias. Ou seja, a um certo conjunto de artesanato vendido corresponde um certo número de itens industrializados adquiridos com o recurso da comercialização das peças. Seguindo a expressa preferência dos Zo’é, os itens são sempre comprados na quantidade que atenderá rigorosamente todas as famílias. As entregas são realizadas três a quatro vezes por ano, com itens que são escolhidos em reuniões trimestrais, para atender às necessidades do momento. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os artefatos comercializados pelo FAZ são os mesmos utilizados no cotidiano dos Zo’é e incluem trançados, recipientes em cerâmica, colheres, pentes, brincos e pulseiras. Tal seleção, entre os muitos itens da cultura material zo’é, obedece a critérios de sustentabilidade. A legislação vigente não permite a venda de plumária ou de flechas com ponta de osso, ou qualquer objeto fabricado com partes de animais. Arcos de madeira e redes feitas de fibras de castanheira tampouco são vendidos, para garantir aos Zo’é exclusividade no acesso a esses materiais essenciais em seu modo de vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar dessas restrições, os resultados do FAZ são muito promissores, não apenas por incentivar a continuidade dos saberes e práticas artesanais dos Zo’é, como por viabilizar a formação em gestão dos jovens e dos chefes. Ao se apropriar deste Fundo, os Zo’é souberam declarar e garantir critérios próprios na distribuição adequada dos bens adquiridos, em acordo com seus valores e considerações quanto às diferenças de gênero, idade e processos de aprendizagem, bem como à isonomia entre os grupos locais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além da venda de artesanato, a Tekohara também realiza a  venda de sementes de cumaru, coletadas pelas famílias envolvidas no FAZ. Desde 2019, o Fundo se beneficia ainda com a venda exclusiva dos livros da série Saberes Zo’é, atualmente com três títulos: [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Potuwa.pdf ''Potuwa pora kõ'' – O que se guarda no ''potuwa''] (2019); [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2021/07/Eremiu-rupa.-Abrindo-rocas_Trecho.pdf ''Eremi’u rupa'' – Abrindo roças] (2021) e [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Canoa-Zoe.pdf ''Ihara rape rupi'' – Pelo caminho da canoa] (2023).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/4_f91f5d08e62cbad/162424scr_wm_0c86653fd01dc21.jpg| Distribuição de sabão adquirido com recursos do FAZ, Dominique Tilkin Gallois, 2025}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;CABRAL, Ana Suely.Uma escrita para a Língua Zo'é. Brasília: Lalli/Unb/Funai, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin. De arredio a isolado : perspectivas de autonomia para os povos indígenas isolados. In: GRUPIONI, Luís Donisete Benzi (Org.). Índios no Brasil. São Paulo : Secretaria Municipal de Cultura, 1992. p. 121-34.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Essa incansável tradução : entrevista. Sexta Feira: Antropologia, Artes e Humanidades, São Paulo : Pletora, n. 6, p. 103-21, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Tupi do Cuminapanema : eles se chamam Zo'É. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1991/1995. São Paulo : Instituto Socioambiental, 1996. p. 280-7.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Zo'é. In: ASSIS, Rogério. São Paulo: Terceiro Nome, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Sobre alguns modos zo’e de fazer coletivos e lideranças”. In: FAJARDO GRUPIONI, D.; Andrade, L. M. M. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; GRUPIONI, Luís Donisete Benzi. O índio na Missão Novas Tribos. In: WRIGHT, Robin (Org.). Transformando os Deuses : os múltiplos sentidos da conversão entre os povos indígenas no Brasil. Campinas : Unicamp, 1999. p. 77-130.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
GALLOIS, Dominique Tilkin; BRAGA, Leonardo Viana; PEDREIRA, H. P. S. 2020 Construindo o Plano de Gestão Territorial e Ambiental com os Zo’é. In: Luis Donizete Benzi Grupioni (org.). Em busca do bem viver: Experiências de elaboração de Planos de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas. São Paulo: Rede de Cooperação Amazônica, 1. ed., v. 1.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. A redescoberta dos amáveis selvagens. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1987/88/89/90. São Paulo : Cedi, 1991. p. 209-14. (Aconteceu Especial, 18)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; HAVT, Nadja. Relatório de identificação da Terra Indígena Zo'é : Portaria 309/PRES/Funai - 04.04.97. São Paulo : Funai, 1998.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;HAVT, Nadja. De algumas questões sobre a participação de “índios isolados” no processo de regularização fundiária : o exemplo dos Zo’É. In: GRAMKOW, Márcia Maria (Org.). Demarcando terras indígenas II : experiências e desafios de um projeto de parceria. Brasília : Funai/PPTAL/GTZ, 2002. p. 85-94.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Representações do Ambiente e da Territorialidade entre os Zo’é/PA. Dissertação de Mestrado. FFLCH/USP, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;Iepé &amp;amp; FPEC/Funai. Jo’e bokitute ram: planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro. Plano de Gestão Territorial e Ambiental da TI Zo’é. São Paulo: Iepé, 2019.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
BRAGA, Leonardo Viana. Micropeças sobre gênero e caçada junto aos Zo’é. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas:&lt;br /&gt;
índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. ''Pani'em'': um esboço sobre os modos de saber entre os Zo'é. Dissertação de mestrado. FFLCH/USP, 2017.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Eremi'u rupa. Abrindo roças. 1. ed. São Paulo: Série Saberes Zo'é - Iepé, FPEC/Funai &amp;amp; Fundo de Artesanato Zo'é (FAZ), 2021. v. 2. 189p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
BRAGA, Leonardo Viana; PEDREIRA, Hugo Prudente S.; CABALZAR, Flora Dias. 2020. 'Fazer saber a própria terra'. In: Nelson Russo de Moraes; Leila Adriana Baptaglin; Lamounier Erthal Vilella; Alexandre de Castro Campos; Raoni Fernandes Azerêdo. (Org.). Povos Originários e Comunidades Tradicionais: trabalhos de pesquisa e de extensão universitária – volume 4, 1ed.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; &lt;br /&gt;
PEDREIRA, Hugo Prudente da Silva. ''Potuwa pora kõ'' - o que se guarda no ''potuwa. 1''. ed. São Paulo: Instituto de Pesquisa e Formação Indígena - Iepé, 2019. v. 1. 148p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; RIBEIRO, Fabio N. “Os Zo’é e as metamorfoses do fundamentalismo evangélico”. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Encontros Zo’é nas Guianas. Tese de doutorado. FFLCH/USP, 2019.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. ''Ihara Rape Rupi'': pelo caminho da canoa. 1. ed. São Paulo: Iepé - Instituto de Pesquisa e Formação Indígena, 2023. v. 1. 132p .&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
Cuidado ao editar esta seção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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--&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Zo'é}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Dominique T. Gallois}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
{{#set:Capa=162430scr_wm_9d03db1dcc7a9e9.jpg}}&lt;br /&gt;
{{#set:Counter=61505}}&lt;br /&gt;
{{#set:Crédito capa=Kamikia Kisedje, 2024}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=1997-01-01}}&lt;br /&gt;
{{#set:Estilo=claro}}&lt;br /&gt;
{{#set:Povo Id=321}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas no Pará]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8528</id>
		<title>Povo:Zo'é</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8528"/>
		<updated>2025-10-20T18:17:45Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Vivem numa área de densas florestas, entre os rios Cuminapanema e Erepecuru, no Norte do Pará. Os Zo’é convivem com agentes de assistência há quase quatro décadas, mantendo vigorosamente suas formas de organização social e territorial. Este povo em situação de recente contato vem se mobilizando para implementar o PGTA da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3927 TI Zo'é] e seu protocolo de consulta. Através da sua organização representativa, a Tekohara, fortalecem a gestão de um Fundo de Artesanato, um mecanismo original de trocas coletivas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conheça mais sobre esse povo no documentário &amp;lt;em&amp;gt;Zo’é rekoha – modo de vida zo’é&amp;lt;/em&amp;gt;. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;htmltag tagname=&amp;quot;iframe&amp;quot; src=&amp;quot;https://www.youtube.com/watch?v=ADG2M06cEBQ&amp;quot; width=&amp;quot;100%&amp;quot; height=&amp;quot;394&amp;quot; allow=&amp;quot;autoplay&amp;quot;&amp;gt; Video Iframe &amp;lt;/htmltag&amp;gt;&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
== Nome e língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Os Zo'é durante uma oficina de Letramento, Dominique Gallois, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/4_f54a65283e04d93/52684scr_8d884e9b4241947.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pronome &amp;lt;em&amp;gt;jo’é&amp;lt;/em&amp;gt; [zo’é], “nós mesmos”, se consolidou como uma autodenominação que diferencia este povo dos não indígenas, chamados &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;. Já outros povos indígenas são chamados de “&amp;lt;em&amp;gt;amõ jo’é&amp;lt;/em&amp;gt;” (outros, como nós). No final dos anos 1980, quando começaram a conviver com missionários e com servidores da Funai, esse termo não era usado para designar a eles mesmos, mas para identificar qualquer pessoa que adquirisse alguma proximidade e que passasse, então, a ser considerada “gente como nós”. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os termos &amp;lt;em&amp;gt;Poturu&amp;lt;/em&amp;gt;, ou &amp;lt;em&amp;gt;Poturujara&amp;lt;/em&amp;gt;, difundidos inicialmente por agentes da Funai como denominação do povo recém-contatado na região do Cuminapanema, designam tão somente a madeira da árvore utilizada para confeccionar os adornos labiais &amp;lt;em&amp;gt;embe’pot&amp;lt;/em&amp;gt;. “&amp;lt;em&amp;gt;Poturu!&amp;lt;/em&amp;gt;” respondiam os Zo’é, quando alguém apontava para seus rostos, buscando saber seu nome.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Zo’é são falantes de uma língua Tupi-Guarani, do tronco Tupi. A maior parte da comunidade é monolíngue, com exceção de alguns chefes e de uma dezena de jovens, que aprenderam a se comunicar em português e estão adquirindo rapidamente maior fluência, no âmbito de suas funções de gestão da &amp;lt;strong&amp;gt;Tekohara – Organização Zo’é&amp;lt;/strong&amp;gt;. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Experiências de contato e de convivência com ''kirahi'' ==&lt;br /&gt;
A área onde vivem os Zo’é situa-se em território histórico de povos de língua Karib, que ocupam as terras firmes do planalto das Guianas. Seus vizinhos mais próximos são os [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Tiriy%C3%B3 Tiriyó], ao Norte; os [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Aparai Aparai] e [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Wayana Wayana], a Leste; os quilombolas e castanheiros não indígenas ao Sul. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As fontes disponíveis sobre a região Norte do Pará não trazem informações suficientes para acompanhar a trajetória da migração dos Zo’é até seu &amp;lt;em&amp;gt;habitat&amp;lt;/em&amp;gt; atual, mas é certo que este povo tem sua origem ao sul. Essa é a direção que eles indicam quando são indagados sobre sua procedência antiga, embora a localização das aldeias de antepassados longínquos não seja assunto de grande interesse.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como ocorre na tradição oral das sociedades indígenas que mantêm contatos antigos com a população regional, a presença de não indígenas acaba sendo integrada ao tempo mítico. Os Zo’é não questionam nem a origem, nem os movimentos dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;, ou dos povos inimigos: todos eles, simplesmente, sempre existiriam. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diz-se, inclusive, que quando &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt; recriou a humanidade, não precisou refazer os não indígenas, que não haviam sido engolidos pelo dilúvio: eles já existiam, mas estavam longe, “na borda da terra”. Elementos históricos são agregados ao mito, associando o evento da recriação a contatos interétnicos. O fogo que destruiu a terra foi provocado por inimigos, habitantes do Leste; para alcançar as ossadas dos humanos destruídos pelo dilúvio, o herói vem do Sul, flutuando em um recipiente típico dos não indígenas: um corote de gasolina. Depois, cada um volta a ocupar seu espaço: os não indígenas ficam no Sul; os Zo’é nas serras, longe dos rios; os inimigos a Leste.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/Jipohan_%C3%A9_gente_como_voc%C3%AA “Jipohan é gente como você”, por Jurusi uhu, Pa'hi e Tatitu Zo'é]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/763735-2/DSC_3332_edit.JPG|Jurusi uhu Zo'é. Foto: Dominique Tilkin Gallois&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Era comum, nos anos 1990, os Zo’é perguntarem aos visitantes: “Vocês viram onde está &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt;, aquele herói que revitalizou seus ancestrais juntando ossos dos flagelados pelo último cataclismo?” Os Zo’é consideravam &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt; como um &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;. Após sua façanha de recriação, ele voltou para sua terra de origem, no Sul. É descrito usando roupas, escrevendo, usando canoa com motor, gravador, injeções e ferramentas diversas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como é comum na elipse temporal que o mito efetua, os Zo’é atualizam suas tradições com ingredientes extraídos de sua experiência do passado e de suas expectativas de futuro. Razão pela qual, na morada celeste dos mortos, os ex-Zo’é têm acesso irrestrito à mercadorias, inclusive espingardas, que lhes são fornecidas por alguns ex-&amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; generosos – como foi um servidor da Funai, Isidoro, que segue lhes trazendo mercadorias desejadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como ocorreu em muitos lugares, os eventos do contato dos Zo’é com missionários e depois com servidores da Funai envolveu diretamente a questão do acesso às mercadorias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Luis Donisete B. Grupioni/1989&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281189-1/zoe_7.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os então chamados “Índios do Cuminapanema” foram apresentados ao mundo em 1989, em reportagens que enfatizavam sua “pureza” e “fragilidade” e os descreviam como um dos últimos povos “intactos” na Amazônia. E justamente por serem um dos raros grupos ainda “não atingidos” nem pela mensagem evangélica, nem pela assistência oficial, os Zo’é atraíram a atenção da Missão Novas Tribos (MNT), que iniciou seu trabalho na região em 1982. Foram necessários cinco anos de sucessivas aproximações e recuos para “pacificar” os Zo’é – até que em 1987 os missionários  instalaram a Base Esperança na porção sul da atual TI Zo’é. Ali, passaram a controlar sozinhos o processo de acomodação dos Zo’é à nova situação, até a Funai assumir a área em 1991.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, os Zo’é já tinham experiências de encontro com não indígenas desde muito tempo. Relatam inclusive a saída de uma mulher que viajou até Santarém, de onde acabou voltando, provavelmente no final do século XIX.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
No final dos anos 1960, o território zo’é passou a ser percorrido por caçadores de felinos, conhecidos como “gateiros”. Nesse período, os Zo’é encontravam em suas trilhas, gaiolas, ferramentas abandonadas, restos de acampamentos. Também encontravam vestígios de coletores de castanha. Eram contatos indiretos, ou, como dizem os Zo’é, “sem carne/sem corpo”, pois não viam os forasteiros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Dominique Gallois, 1991&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281182-1/zoe_4.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1975, eles foram surpreendidos por visitas mais espetaculares, quando um helicóptero do Instituto de Estudos e Pesquisas do Pará despejou embrulhos com roupas e objetos sobre a aldeia Kejã. Foi também com presentes lançados do céu, ou dependurados no caminho das aldeias, que os membros da Missão Novas Tribos se aproximaram. Entre 1982 e 1987, eles estiveram várias vezes em acampamentos ou aldeias, saindo rapidamente. Segundo os Zo’é, muitas pessoas ficavam doentes na sequência dessas visitas e, como demoravam meses para voltar, as pessoas acometidas por doenças pulmonares morriam. Eles também relatam que resolveram se deslocar rumo ao Sul, em busca de uma explicação para esse “sopro” de doenças e para pegar mais objetos, chegando finalmente à Base Esperança em outubro de 1987, data oficial do “contato” com a MNT. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
===Terçados, epidemia e mortes===&lt;br /&gt;
{{Lead |por '''Fábio Ribeiro'''}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As notícias trazidas sobre os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; que davam facões e machados logo se espalharam pelas aldeias e em pouco tempo muitos Zo’é foram atrás dos missionários. Como não havia ferramentas para todos, o clima logo ficou tenso. Os homens que não pegaram facões ficaram bravos, bateram nas paredes entraram e saquearam a casa dos missionários, na localidade de Kuruaty. Esses, com muito medo, foram embora. As doenças, no entanto, ficaram. É nesse período que tem início a epidemia que em poucos dias tirou a vida muitas outras pessoas zo’é. “&amp;lt;em&amp;gt;Kirahi rahy ate juke&amp;lt;/em&amp;gt;. Foi a doença dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; que matou”. O relato de Hun, um atual chefe Zo’é é claro ao afirmar que a epidemia teve início logo após o encontro de Tun e Dubehaj com os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; e que, apenas muito tempo depois, quando encontraram Sera’yt (em 1987), é que os missionários trouxeram injeções com remédios, mas não vacinas. Hun, ainda criança nessa época, foi duramente afetado: seu pai, sua mãe e alguns de seus irmãos morreram na maloca de Pirity. “Naquele tempo os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; foram embora mesmo. Depois os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; pensaram de novo, queriam ver os Zo’é de novo, aí os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; voltaram. Foi então nessa época que encontraram Sera’yt (...) e ficaram alegres. Naquela época os Zo’é tinham mandado embora, então os kirahi pensaram, aí abriram o caminho novamente. Passaram-se muitas luas naquele tempo, e aí os missionários voltaram.” – Adaptado de &amp;lt;em&amp;gt;Kampugerau: crônica de um movimento zo’é &amp;lt;/em&amp;gt;, 2024&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após essa notícia, a Funai criou o PINC Cuminapanema, subordinado à 4ª SUER/Funai em Belém (Portaria nº 1.061, de 22 de maio de 1987). No ano seguinte, o convênio 008/1998 celebrado entre a Funai e a MNT vedava sua atuação em áreas de indígenas isolados. Mas a Missão não se retirou e continuou seu trabalho junto aos Zo’é. Até que, em janeiro de 1989, a Missão alertou a Funai sobre a precária situação de saúde dos Zo’é. O sertanista Sidney Possuelo conseguiu apoio da imprensa e pôde assim realizar uma primeira visita à área. Numa segunda viagem, pouco tempo depois, a equipe da Funai verificou que a situação de saúde estava piorando e começou então a planejar um trabalho mais sistemático. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante mais de um ano, os Zo’é assistiram à convivência tensa entre as equipes da Funai e da Missão Novas Tribos, cada uma com sua base, entre as quais eles continuaram circulando para obter remédios e objetos industrializados. Quando conseguiu recursos e pessoal adequados para assumir um trabalho de assistência que abrangesse a totalidade das quatro aldeias existentes na época, a Funai retirou os missionários da área, em outubro de 1991. A partir desse momento, os sucessivos responsáveis pelo PINC Cuminapanema, orientados pelo então Departamento de Índios Isolados (DII), da Funai, passaram a desempenhar  ações de proteção do povo Zo’é e de sua terra, em formatos que variaram sensivelmente ao longo dos anos. Foi somente a partir de dezembro de 2009, com a reestruturação da Funai, que o órgão indigenista instituiu a  Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC), incluindo a proteção às populações de recente contato como os Zo’é. A Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema (FPEC) foi criada em 2011 (Portaria Nº 1816/PRES, de 30 de dezembro de 2011) e, desde então, segue novas diretrizes para a promoção da integridade cultural e territorial do povo Zo’é.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A regularização da TI Zo’é ==&lt;br /&gt;
Em 1987, a Funai procedeu à interdição da Área Indígena Cuminapanema/Urucuriana, com uma extensão de aproximadamente 2.059.700 hectares, ao sul do [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3885 Parque Indígena de Tumucumaque], nos municípios de Alenquer e Óbidos, Pará ([https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/ZED00005.pdf Portaria nº 4.098 de 30/12/1987]). A interdição visava dar condições de trabalho à equipe da Funai, para o reconhecimento de numerosas referências de indígenas  isolados levantadas pelo então DII. Na época, a Funai já conhecia a presença dos Zo’é, através de informações repassadas pela Missão Novas Tribos, que havia localizado este povo em 1982.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Zo'é trabalhando na construção de novas casas, Leonardo Viana Braga, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/9/0_eedce20393fa4de/52690scr_4bbc991f8b7ca54.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os trabalhos de identificação e delimitação da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3927 Terra Indígena Zo'é] aconteceram entre 1996 e 1998, com a participação ativa dos Zo’é e de vários técnicos e especialistas, em muitas etapas. A primeira, de estudos antropológicos, incluiu a preparação da comunidade para que os Zo’é pudessem acompanhar todos os procedimentos da regularização de seu território. A Portaria nº 309 de 04/04/1997 constituiu o Grupo de Trabalho cujo [https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/ZED00014.pdf relatório de identificação e delimitação] foi submetido à aprovação da Funai em novembro de 1998.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A demarcação física da Terra Indígena, com 668.565 hectares, foi realizada entre 1999 e 2000, por uma empresa contratada pela Funai. Contrariamente ao acordado com os Zo’é durante os trabalhos de identificação, eles não puderam acompanhar os trabalhos demarcatórios e foram mantidos alheios ao processo de regularização de seu território. Após a revisão de erros na delimitação do limite sul, a homologação e o registro no Serviço de Patrimônio da União (SPU), a demarcação da Terra Indígena foi finalmente  consagrada por decreto presidencial (s/n), publicado no Diário Oficial da União (DOU) em 22 de dezembro de 2009.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2008, a pedido do Ministério Público Federal, foi criada uma faixa de amortecimento em volta da Terra Indígena, a Zona Intangível das Florestas Estaduais (FES) [https://uc.socioambiental.org/pt-br/arp/4641 Trombetas] e [https://uc.socioambiental.org/pt-br/arp/4642 Paru]. Essa área não poderia receber nenhum tipo de exploração econômica para evitar a contaminação dos indígenas em situação de recente contato. Com a aprovação do Plano de Manejo da FES do Trombetas pelo Conselho Estadual de Meio Ambiente do Pará, a faixa foi incorporada no zoneamento da Unidade de Conservação. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Iniciativas dos Zo’é consolidam novos rumos ==&lt;br /&gt;
Durante vinte anos, a atuação do órgão indigenista se centrou em manter os Zo’é afastados das relações com os não indígenas e suas tecnologias, evitando também qualquer encontro com povos indígenas vizinhos. Mas em 2010, os Zo’é tomaram a iniciativa de romper a aliança que mantinham com a equipe da Frente de Proteção da Funai e saíram da terra demarcada para buscar mercadorias que lhes eram recusadas em seu território. Um grupo se dirigiu ao Norte, ao encontro dos Tiriyó no Rio Marapi, e outro se dirigiu aos Campos Gerais, além do limite Sul da Terra Indígena, onde trabalharam com coletores de castanha. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Voltaram trazendo espingardas velhas, redes de &amp;lt;em&amp;gt;nylon&amp;lt;/em&amp;gt;, roupas usadas e alguns gêneros alimentícios, além de várias pessoas doentes. A experiência rendeu importantes aprendizados no que toca aos modos de relação com seus vizinhos, indígenas e não indígenas, e resultou na revisão da política de proteção da TI Zo’é – até então fundada na manutenção de um rígido “isolamento” e na contenção de seus pedidos de acesso não só às mercadorias como a conhecimentos sobre o modo de vida dos não indígenas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi nesse contexto que o [https://institutoiepe.org.br/ Instituto Iepé] estabeleceu, em 2016, uma parceria com a nova gestão da Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema (FPEC), visando criar alternativas para que os Zo’é acessassem informações e experiências que lhes permitissem compreender e se posicionar frente aos interesses dos diferentes setores da sociedade brasileira. Buscou-se atender às demandas dos Zo’é, através de um conjunto de ações educativas e de apoio às suas próprias iniciativas de vigilância territorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Planejando o futuro e a proteção do território ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em novembro de 2019, os Zo'é pactuaram seu Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da TI Zo'é, onde definem suas prioridades para o futuro. “&amp;lt;em&amp;gt;Jo’e rekoha bokitute ram&amp;lt;/em&amp;gt; – Planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro” foi o título escolhido pelos Zo’é para esse plano de gestão, onde explicitam as diretrizes para a proteção de seu território e de seu modo de vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Foto: Transporte de canoa recém construída pelos Zo'é, Hugo Prudente, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/6_92ae3e7baf9ad67/52686scr_d2b118ef8ea028d.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas atividades realizadas para a construção do PGTA, entre 2016 e 2019, confirmou-se a mudança de foco nos interesses dos Zo’é. Menos inquietos em garantir abastecimento de objetos dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;, estavam mobilizados para ampliar sua circulação pelo território, não só reconhecendo áreas ocupadas pelos antigos, como abrindo novos percursos para avaliar as reservas de caça e pesca e as possibilidades de abertura de novos assentamentos. No documento, os Zo’é afirmam: “Queremos que nossos filhos sigam ocupando vastamente o nosso território”, colocando o processo de dispersão de aldeias como um dos fundamentos do bem viver. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa mobilidade promoveu novas incursões e a vigilância mais sistemática em áreas fartas em recursos, como os grandes castanhais no Sul e em outras porções do território. Uma das diretrizes do PGTA dedica especial atenção à vigilância dessa região, que foi invadida por castanheiros em 2018 e que, desde então, vem sendo ocupada por aldeias novas e acampamentos. Como escreveram os Zo’é no documento: “Nós, coletando essa castanha, invasores não virão mesmo. Aqui é nossa terra, a castanha está na nossa terra. Tem castanha na terra dos não índios, essa deve ser a castanha deles. Essa aqui é nossa castanha. Estamos falando duramente agora”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
“Fazer saber o nosso território” é uma afirmação e um objetivo a ser buscado, articulando ações de vigilância e de ocupação. Mobiliza concepções importantes da territorialidade zo’e, como o zelo pelos lugares habitados, a articulação entre os diversos grupos familiares na abertura de uma nova aldeia e o caráter regular das idas e vindas implicadas em uma iniciativa de expansão territorial. Nesse movimento, os grupos territoriais se reestruturam, mantendo suas diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
Confira aqui o [https://institutoiepe.org.br/2022/05/plano-de-gestao-territorial-e-ambiental-zoe/ PGTA &amp;lt;em&amp;gt;Jo’e Rekoha Bokituteha Ram&amp;lt;/em&amp;gt; – Planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro]!&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== População e proliferação de aldeias ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Distribuição de bebida ''sepy'' durante uma festa dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/7/4/6_cd584b0ad074849/52746scr_dcd3b057e91c8af.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A população Zo'é praticamente dobrou nos últimos trinta anos: eram 172 em 1998, à época da identificação da TI. Em 2011 eram 261 e hoje são 350 pessoas (Iepé, 2025). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Zo'é subdividem-se em dois grandes grupos, respectivamente situados ao Norte e ao Sul da Base da Funai, em que se distribuem os 19 grupos locais (&amp;lt;em&amp;gt;iwana&amp;lt;/em&amp;gt;), que circulam em determinadas áreas territoriais, onde estão suas aldeias antigas e recentes, além de acampamentos. Os &amp;lt;em&amp;gt;Iwana&amp;lt;/em&amp;gt; agregados de famílias extensas, atualmente em número de 31, que vivem em aldeias próximas, e cuja composição sofre constantes alterações em função das alianças matrimoniais e das parcerias estabelecidas para ocupar novas áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos últimos dez anos, ocorreu um processo de proliferação de aldeias muito significativo. Na época da instalação da Funai em 1991, eram apenas quatro; eram cinco em 1998, 12 em 2011 e hoje existem 62 aldeias. Configuram conjuntos de pequenas aldeias ocupadas de forma intermitente por famílias extensas que vivem em lugares próximos e circulam entre seus vários assentamentos, em função da fartura de recursos e dos cuidados das roças. Essa intensa mobilidade está relacionada ao apoio logístico que recebem tanto da FPE-Funai como do Iepé, com uma rede de radiofonia em praticamente todas as aldeias. Merece destaque o fato de que, nos últimos anos, os Zo’é têm optado por fabricar suas próprias canoas em madeira de aroeira, preferidas – por enquanto – às voadeiras de alumínio, não só difíceis de transportar até a TI, como exigindo manutenção custosa. Aprenderam a fabricar canoas num intercâmbio que levou especialistas do povo [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Waiwai Waiwai] para a TI Zo’é em 2017 e, desde então, cada família procura construir sua própria embarcação, na qual são instalados os motores rabeta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Estações e ritmos da vida ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Indígenas zo'é finalizando uma rede de fibra de castanheira, Flora Dias Cabalzar, 2016.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/5_7ed184682c27e1c/52685scr_a5f3ac836c6e409.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma das principais características do modo de vida dos Zo’é, até hoje, é a intensa mobilidade das famílias pelo território. Todos têm acesso aos recursos florestais sem esgotá-los, uma vez que as atividades de cultivo das roças, de caça, pesca e coleta são feitas em pequena escala, pelas diferentes famílias, em áreas distintas. É também nesses movimentos que os Zo’é atualizam o exímio conhecimento acumulado sobre seu território, constantemente percorrido através de uma intrincada rede de caminhos entre aldeias, capoeiras e locais de coleta de itens necessários no dia a dia, tanto para alimentação como para a fabricação de utensílios.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um modo de vida que garante aos Zo’é uma alimentação exclusivamente composta de sua produção agrícola, da caça, pescado e frutas. Também merece destaque o fato de os Zo’é não utilizarem espingardas, mas sim seus arcos, flechas e arpões, complementados com anzóis e linhas de pesca industrializadas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Homem zo'é cuidando de flechas, Dominique Tilkin Gallois, 2023.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/7_234521b7fa212cf/162427scr_wm_3c5190633e93dd0.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O caráter sazonal de alguns recursos dos quais os Zo’é se utilizam conforma a dinâmica de circulação das famílias pelo território e também repercute nos movimentos de aproximação e distanciamento entre essas famílias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É no tempo das chuvas, de fevereiro a julho, que acontecem os períodos mais prolongados de dispersão das famílias pelo território, quando são realizadas grandes caçadas, principalmente de macaco-aranha e de tucano. No início das chuvas, as famílias também se deslocam para a beira de igarapés e hoje também de rios maiores, aproveitando o volume das águas para caçar urubu-rei, usando peixes podres como iscas. Instalados nos acampamentos, os Zo’é retornam às aldeias para buscar farinha, preparada com antecedência e estocada nas casas; quando ela acaba, permanecem alguns dias para preparar mais farinha, beiju e tapioca.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O período ideal para a caça de ''kwata'' (macaco-aranha, coatá ou coamba) vai de março a maio, período denominado ''kwata ike'', quando estão gordos. Montam-se acampamentos específicos, de onde os homens saem para as serras, em busca dos macacos. No final desse período, em maio, tucanos, araras e papagaios já estão comendo frutas de palmeiras. É a estação chamada de ''token ike'', do “tucano gordo”, que dura cerca de um mês e meio, quando bandos numerosos de aves vêm comer patauá ou açaí, em locais de concentração de frutas. Já é no final da estação chuvosa e início da estação seca que os porcos queixadas e caititus estão gordos, motivando saídas frequentes de grupos de homens às trilhas das varas de porcos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Moça zo'é preparando leite de castanha, Dominique Tilkin Gallois, 2023.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/9_d567041deb9c12a/162429scr_wm_697db62eab28f2f.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre os recursos mais valorizados nesse calendário do tempo das chuvas, a castanha-do-Brasil é um alimento básico na dieta. Os Zo’é colhem os ouriços a partir de janeiro e consomem amêndoas em profusão durante toda a estação chuvosa; durante o verão, colhem ouriços ainda verdes e continuam comendo castanha o ano todo, em preparos diversos com produtos da mandioca ou carnes. Como é também nesse período que muitas frutas amadurecem, é comum interromperem o movimento de dispersão entre acampamentos para fazer festas, quando se distribui grande quantidade de bebida fermentada ''sepy''.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A estação seca, de final de julho até o início de janeiro, é marcada pelo trabalho nas roças. É quando a vida nas aldeias se intensifica, sendo um período de maior aproximação entre grupos familiares. Isso não significa que as famílias não mantenham, no verão, outras atividades que as leve a deixar a aldeia. Saem para buscar frutas da estação, como o açaí que é trazido em grandes cachos. Mas sobretudo saem para pescar com timbó, com anzóis, ou ainda com flecha ou zagaia. No verão, também acontecem expedições de caça, em geral mais curtas e só entre homens, já que as mulheres ficam nas aldeias cuidando das roças. Além disso, como muitas famílias mantêm cultivos em mais de uma aldeia, deslocam-se para dar conta de todas as roças. O corte, queima e limpeza das roças se prolonga até dezembro, meados de janeiro, quando a castanha está de novo madura, e os Zo’é limpam a roça da mandioca que brotou e fazem novo plantio. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Refeição familiar dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017.&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/9_9e70545c4b7fee0/52689scr_5d2f4b741f6cd92.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A mandioca é o principal cultivo, com uma variedade de produtos: farinha, beiju, tapioca, tucupi. As mulheres, inclusive com colaboração dos homens para ralar as raízes, dedicam muito de seu tempo ao processamento da mandioca: descascar, ralar, espremer no tipiti, peneirar, torrar farinha. Os Zo’é também cultivam pimenta, batata-doce, cará, banana, mamão, caju, goiaba, graviola, manga, urucum, algodão, cuia, cabaça, curauá e cana de flecha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade de vida dos Zo’é decorre, portanto, desse grande acervo de saberes e práticas do cotidiano, transmitidos e aperfeiçoados ao longo das gerações. Se, nas últimas décadas, os Zo’é se apropriaram seletivamente de alguns itens industrializados, continuam valorizando suas próprias tecnologias para fabricar os artefatos que utilizam cotidianamente.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Ler e escrever na própria língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Os Zo'e durante uma oficina de Letramento, Dominique Tilkin Gallois, 2023&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/6_07c4c88f97d55fe/162426scr_wm_9578fba3a29bfe7.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre as ações educativas construídas com os Zo’é para promover a discussão e pactuação do PGTA, destacam-se as atividades de letramento, iniciadas pelo Iepé em 2017. Tanto para a formulação adequada das medidas de proteção como, sobretudo, para a apropriação duradoura deste plano, era imprescindível que os próprios Zo’é pudessem redigir e atualizar as diretrizes de gestão de seu território. Trata-se de um programa não escolar de letramento, que é concebido não apenas como um meio de apropriação da leitura e escrita – por enquanto apenas na língua zo’é – e a iniciação à matemática, mas também como aproximação aos conceitos, à linguagem e às práticas relacionadas aos direitos assegurados aos povos indígenas pela [https://pib.socioambiental.org/pt/Constitui%C3%A7%C3%A3o Constituição brasileira de 1988]. É nesse sentido que as ações de letramento viabilizaram a criação da Tekohara, organização representativa do povo Zo’é, na consolidação de seu Fundo de Artesanato, o FAZ, e na construção de um [https://institutoiepe.org.br/2025/08/protocolo-de-consulta-e-consentimento-zoe/ protocolo de consulta e consentimento]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a pandemia de Covid-19, durante a qual todos os trabalhos com os Zo’é foram suspensos, consolidou-se uma turma de cerca de 40 jovens e adultos, depois separada em duas, correspondendo aos grupos do Norte e do Sul. Reúnem-se quatro vezes por ano nos Encontros de Letramento, realizados na “casa grande” da Base da Funai, em Kejã. Destacaram-se rapidamente oito jovens, que passaram a atuar como multiplicadores nas atividades de letramento, como tradutores e mais recentemente assumiram cargos na gestão da organização representativa, Tekohara. Além desses Encontros, oficinas específicas promovem a construção participativa de materiais didáticos, hoje já com mais de 20 títulos versando sobre os mais diversos temas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Todos os materiais produzidos procuram registrar as reflexões dos Zo’é sobre seu modo de vida, sobre as mudanças recentes que interferem nas formas de ocupação do território, sobre experiências novas de gestão advindas da consolidação de sua associação etc. Entre eles, destacam-se os cadernos da série ''Rekoha'', que sempre iniciam com a feitura de um mapa por um líder de grupo local, complementado por pequenos textos extraídos das conversas sobre suas iniciativas de abertura de caminhos, roças, acampamentos de caca e pesca, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra série de materiais traz resultados de uma pesquisa colaborativa sobre cantos, engajando jovens letrados e conhecedores mais idosos, que permitiu também introduzir o uso da informática, para a gestão de um acervo de cantos e de suas transcrições. Além disso, outros cadernos específicos apoiam a formação em gestão tanto da Tekohara como do Fundo de Artesanato Zo’é (FAZ). Mais recentemente, alguns cadernos trazem saberes das mulheres – que praticamente não participam das atividades de letramento – especialmente sobre o ciclo da castanha e sua culinária. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
=== Tekohara – Organização Zo’é ===&lt;br /&gt;
Após a pandemia de Covid-19, os Zo’é reativaram seu movimento de reorganização de relações com os não indígenas, inaugurado com a pactuação do PGTA, e criaram em 2022 uma organização representativa, denominada Tekohara. O nome ''Tekohara'' foi especialmente criado para a associação. Segundo os fundadores, a expressão inexiste na língua zo’é, porém remete à proteção do território, chamado em sua língua de – ''tekoha''. Constitui assim uma síntese do que consideram ser a atuação prioritária da organização, em consonância com todo o trabalho de gestão territorial que os Zo’é vêm conduzindo nos últimos anos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A assembleia de fundação reuniu praticamente toda a população zo’é, incluindo idosos e crianças. Desses, todos os maiores de 17 anos, totalizando 198 pessoas à época, se tornaram associados, que escolheram e aclamaram seus representantes para duas instâncias de gestão:  o Conselho de Chefes e a Diretoria. O primeiro é composto por ''sete iy'', principais líderes zo’é, reconhecidos pelos demais chefes de todos os subgrupos. Em 2025, a assembleia escolheu outros chefes para o conselho, hoje um total de 11, que também constituem o Conselho Fiscal da associação. A diretoria é constituída por cinco jovens letrados, que se consideram “ajudantes dos chefes” e atuam diretamente nas instâncias que exigem a leitura e escrita de documentos, a convocação e mediação de reuniões, a gestão de recursos, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2024, os chefes do conselho e os jovens da diretoria, além de outros adultos interessados, construíram o protocolo de consulta e consentimento, ao longo de cinco oficinas e de várias reuniões de apresentação e aprovação do documento, publicado em duas línguas, em 2025. Afirmam, neste protocolo: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
“Temos nos reunido regularmente para conversar e com isso nossa associação está firme, porque discutimos todos os assuntos importantes. Como consolidamos nosso próprio jeito de fazer reuniões e tomar decisões, temos clareza sobre como devemos nos posicionar sobre quem pode e quem não pode entrar em nosso território (...) É porque mantemos um mesmo entendimento sobre a proteção de nosso território que as decisões não são difíceis. É assim que alcançamos consenso entre nós todos”. – Protocolo de consulta e consentimento Zo’é (2025, pp. 14-21)&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/3_8ec6e605f080da0/162433scr_wm_6306ea1916b3650.jpg| Lideranças zo'é durante uma reunião da Tekohara, Kamikia Kisedje, 2024}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A gestão coletiva de um Fundo de Artesanato ==&lt;br /&gt;
Desde a instalação da Funai na Terra Indígena, em 1991, os Zo’é têm produzido artesanato para troca com visitantes, ainda que de modo episódico, obtendo assim diversos utensílios que foram, desde então, incorporados ao seu modo de vida. Naquele período, o Posto de Atração distribuía uma ou duas vezes por ano ferramentas, material de pesca, lanternas e pilhas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Os Zo'e durante a etiquetagem de peças comercializadas por meio do Fundo de Artesanato, Dominique Gallois, 2023&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/5_22188c531215eb0/162425scr_wm_ee3a42b7ee661ff.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já a partir de 2011, a CGIIRC-Funai passou a rever sua política de proteção, garantindo aos indígenas em situação de recém-contato novas experiências e formas de participação. Foi nesse contexto que o Fundo de Artesanato Zo’é (FAZ), foi criado em 2012, pela Frente Cuminapanema (FPEC). Tratava-se de ampliar as possibilidades de troca e assegurar maior autonomia no abastecimento de itens industrializados demandados pelos Zo’é. Sobretudo se buscou passar de um sistema de doação para um mecanismo coletivo de permutas, assegurando a distribuição de itens industrializados previamente selecionados para todas as famílias, que por sua vez entregam lotes de peças que correspondem aproximadamente ao valor dos objetos adquiridos pelo Fundo. Durante dez anos, o FAZ se consolidou sob gestão da equipe da Funai, mas desde 2022, é gerido diretamente pelos Zo’é, por meio da associação Tekohara, ainda que com algum apoio dos parceiros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O FAZ consiste num sistema de trocas que envolve todas as famílias zo’é, atendendo suas demandas por objetos industrializados. Nos últimos anos, acordou-se com os parceiros que itens como material de pesca, ferramentas, entre outros, são adquiridos através de projetos do Iepé, desonerando assim o FAZ. A lista do que deve ser comprado é aberta, mas inclui cerca de 20 itens, todos eles incorporados ao modo de vida dos Zo’é há várias décadas. A lista envolve itens de uso pessoal, como sandálias, espelhos, linhas para tipoias, sabão, panelas, tigelas, além de alguns itens necessários às atividades produtivas do cotidiano, como isqueiros, sacos para armazenar farinha e eventualmente ferramentas que não podem ser adquiridas através dos projetos dos parceiros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Tebo Zo'é segurando cumaru, Kamikia Kisedje, 2024&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/1_1085df758a31880/162431scr_wm_04d1d66a3aa490a.jpg }}&lt;br /&gt;
  &lt;br /&gt;
As famílias entregam peças de artesanato e recebem itens prévia e cuidadosamente selecionados em reuniões com os chefes de todas as aldeias. Ou seja, a um certo conjunto de artesanato vendido corresponde um certo número de itens industrializados adquiridos com o recurso da comercialização das peças. Seguindo a expressa preferência dos Zo’é, os itens são sempre comprados na quantidade que atenderá rigorosamente todas as famílias. As entregas são realizadas três a quatro vezes por ano, com itens que são escolhidos em reuniões trimestrais, para atender às necessidades do momento. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os artefatos comercializados pelo FAZ são os mesmos utilizados no cotidiano dos Zo’é e incluem trançados, recipientes em cerâmica, colheres, pentes, brincos e pulseiras. Tal seleção, entre os muitos itens da cultura material zo’é, obedece a critérios de sustentabilidade. A legislação vigente não permite a venda de plumária ou de flechas com ponta de osso, ou qualquer objeto fabricado com partes de animais. Arcos de madeira e redes feitas de fibras de castanheira tampouco são vendidos, para garantir aos Zo’é exclusividade no acesso a esses materiais essenciais em seu modo de vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar dessas restrições, os resultados do FAZ são muito promissores, não apenas por incentivar a continuidade dos saberes e práticas artesanais dos Zo’é, como por viabilizar a formação em gestão dos jovens e dos chefes. Ao se apropriar deste Fundo, os Zo’é souberam declarar e garantir critérios próprios na distribuição adequada dos bens adquiridos, em acordo com seus valores e considerações quanto às diferenças de gênero, idade e processos de aprendizagem, bem como à isonomia entre os grupos locais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além da venda de artesanato, a Tekohara também realiza a  venda de sementes de cumaru, coletadas pelas famílias envolvidas no FAZ. Desde 2019, o Fundo se beneficia ainda com a venda exclusiva dos livros da série Saberes Zo’é, atualmente com três títulos: [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Potuwa.pdf ''Potuwa pora kõ'' – O que se guarda no ''potuwa''] (2019); [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2021/07/Eremiu-rupa.-Abrindo-rocas_Trecho.pdf ''Eremi’u rupa'' – Abrindo roças] (2021) e [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Canoa-Zoe.pdf ''Ihara rape rupi'' – Pelo caminho da canoa] (2023).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/4_f91f5d08e62cbad/162424scr_wm_0c86653fd01dc21.jpg| Distribuição de sabão adquirido com recursos do FAZ, Dominique Tilkin Gallois, 2025}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;CABRAL, Ana Suely.Uma escrita para a Língua Zo'é. Brasília: Lalli/Unb/Funai, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin. De arredio a isolado : perspectivas de autonomia para os povos indígenas isolados. In: GRUPIONI, Luís Donisete Benzi (Org.). Índios no Brasil. São Paulo : Secretaria Municipal de Cultura, 1992. p. 121-34.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Essa incansável tradução : entrevista. Sexta Feira: Antropologia, Artes e Humanidades, São Paulo : Pletora, n. 6, p. 103-21, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Tupi do Cuminapanema : eles se chamam Zo'É. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1991/1995. São Paulo : Instituto Socioambiental, 1996. p. 280-7.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Zo'é. In: ASSIS, Rogério. São Paulo: Terceiro Nome, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Sobre alguns modos zo’e de fazer coletivos e lideranças”. In: FAJARDO GRUPIONI, D.; Andrade, L. M. M. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; GRUPIONI, Luís Donisete Benzi. O índio na Missão Novas Tribos. In: WRIGHT, Robin (Org.). Transformando os Deuses : os múltiplos sentidos da conversão entre os povos indígenas no Brasil. Campinas : Unicamp, 1999. p. 77-130.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
GALLOIS, Dominique Tilkin; BRAGA, Leonardo Viana; PEDREIRA, H. P. S. 2020 Construindo o Plano de Gestão Territorial e Ambiental com os Zo’é. In: Luis Donizete Benzi Grupioni (org.). Em busca do bem viver: Experiências de elaboração de Planos de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas. São Paulo: Rede de Cooperação Amazônica, 1. ed., v. 1.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. A redescoberta dos amáveis selvagens. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1987/88/89/90. São Paulo : Cedi, 1991. p. 209-14. (Aconteceu Especial, 18)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; HAVT, Nadja. Relatório de identificação da Terra Indígena Zo'é : Portaria 309/PRES/Funai - 04.04.97. São Paulo : Funai, 1998.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;HAVT, Nadja. De algumas questões sobre a participação de “índios isolados” no processo de regularização fundiária : o exemplo dos Zo’É. In: GRAMKOW, Márcia Maria (Org.). Demarcando terras indígenas II : experiências e desafios de um projeto de parceria. Brasília : Funai/PPTAL/GTZ, 2002. p. 85-94.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Representações do Ambiente e da Territorialidade entre os Zo’é/PA. Dissertação de Mestrado. FFLCH/USP, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;Iepé &amp;amp; FPEC/Funai. Jo’e bokitute ram: planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro. Plano de Gestão Territorial e Ambiental da TI Zo’é. São Paulo: Iepé, 2019.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
BRAGA, Leonardo Viana. Micropeças sobre gênero e caçada junto aos Zo’é. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas:&lt;br /&gt;
índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. ''Pani'em'': um esboço sobre os modos de saber entre os Zo'é. Dissertação de mestrado. FFLCH/USP, 2017.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Eremi'u rupa. Abrindo roças. 1. ed. São Paulo: Série Saberes Zo'é - Iepé, FPEC/Funai &amp;amp; Fundo de Artesanato Zo'é (FAZ), 2021. v. 2. 189p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
BRAGA, Leonardo Viana; PEDREIRA, Hugo Prudente S.; CABALZAR, Flora Dias. 2020. 'Fazer saber a própria terra'. In: Nelson Russo de Moraes; Leila Adriana Baptaglin; Lamounier Erthal Vilella; Alexandre de Castro Campos; Raoni Fernandes Azerêdo. (Org.). Povos Originários e Comunidades Tradicionais: trabalhos de pesquisa e de extensão universitária – volume 4, 1ed.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; &lt;br /&gt;
PEDREIRA, Hugo Prudente da Silva. ''Potuwa pora kõ'' - o que se guarda no ''potuwa. 1''. ed. São Paulo: Instituto de Pesquisa e Formação Indígena - Iepé, 2019. v. 1. 148p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; RIBEIRO, Fabio N. “Os Zo’é e as metamorfoses do fundamentalismo evangélico”. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Encontros Zo’é nas Guianas. Tese de doutorado. FFLCH/USP, 2019.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. ''Ihara Rape Rupi'': pelo caminho da canoa. 1. ed. São Paulo: Iepé - Instituto de Pesquisa e Formação Indígena, 2023. v. 1. 132p .&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
Cuidado ao editar esta seção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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--&amp;gt;&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Zo'é}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Dominique T. Gallois}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
{{#set:Capa=162430scr_wm_9d03db1dcc7a9e9.jpg}}&lt;br /&gt;
{{#set:Counter=61505}}&lt;br /&gt;
{{#set:Crédito capa=Kamikia Kisedje, 2024}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=1997-01-01}}&lt;br /&gt;
{{#set:Estilo=claro}}&lt;br /&gt;
{{#set:Povo Id=321}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas no Pará]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8527</id>
		<title>Povo:Zo'é</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8527"/>
		<updated>2025-10-20T18:12:34Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: /* A gestão coletiva de um Fundo de Artesanato */&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Vivem numa área de densas florestas, entre os rios Cuminapanema e Erepecuru, no Norte do Pará. Os Zo’é convivem com agentes de assistência há quase quatro décadas, mantendo vigorosamente suas formas de organização social e territorial. Este povo em situação de recente contato vem se mobilizando para implementar o PGTA da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3927 TI Zo'é] e seu protocolo de consulta. Através da sua organização representativa, a Tekohara, fortalecem a gestão de um Fundo de Artesanato, um mecanismo original de trocas coletivas.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
== Nome e língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Os Zo'é durante uma oficina de Letramento, Dominique Gallois, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/4_f54a65283e04d93/52684scr_8d884e9b4241947.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pronome &amp;lt;em&amp;gt;jo’é&amp;lt;/em&amp;gt; [zo’é], “nós mesmos”, se consolidou como uma autodenominação que diferencia este povo dos não indígenas, chamados &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;. Já outros povos indígenas são chamados de “&amp;lt;em&amp;gt;amõ jo’é&amp;lt;/em&amp;gt;” (outros, como nós). No final dos anos 1980, quando começaram a conviver com missionários e com servidores da Funai, esse termo não era usado para designar a eles mesmos, mas para identificar qualquer pessoa que adquirisse alguma proximidade e que passasse, então, a ser considerada “gente como nós”. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os termos &amp;lt;em&amp;gt;Poturu&amp;lt;/em&amp;gt;, ou &amp;lt;em&amp;gt;Poturujara&amp;lt;/em&amp;gt;, difundidos inicialmente por agentes da Funai como denominação do povo recém-contatado na região do Cuminapanema, designam tão somente a madeira da árvore utilizada para confeccionar os adornos labiais &amp;lt;em&amp;gt;embe’pot&amp;lt;/em&amp;gt;. “&amp;lt;em&amp;gt;Poturu!&amp;lt;/em&amp;gt;” respondiam os Zo’é, quando alguém apontava para seus rostos, buscando saber seu nome.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Zo’é são falantes de uma língua Tupi-Guarani, do tronco Tupi. A maior parte da comunidade é monolíngue, com exceção de alguns chefes e de uma dezena de jovens, que aprenderam a se comunicar em português e estão adquirindo rapidamente maior fluência, no âmbito de suas funções de gestão da &amp;lt;strong&amp;gt;Tekohara – Organização Zo’é&amp;lt;/strong&amp;gt;. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Experiências de contato e de convivência com ''kirahi'' ==&lt;br /&gt;
A área onde vivem os Zo’é situa-se em território histórico de povos de língua Karib, que ocupam as terras firmes do planalto das Guianas. Seus vizinhos mais próximos são os [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Tiriy%C3%B3 Tiriyó], ao Norte; os [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Aparai Aparai] e [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Wayana Wayana], a Leste; os quilombolas e castanheiros não indígenas ao Sul. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As fontes disponíveis sobre a região Norte do Pará não trazem informações suficientes para acompanhar a trajetória da migração dos Zo’é até seu &amp;lt;em&amp;gt;habitat&amp;lt;/em&amp;gt; atual, mas é certo que este povo tem sua origem ao sul. Essa é a direção que eles indicam quando são indagados sobre sua procedência antiga, embora a localização das aldeias de antepassados longínquos não seja assunto de grande interesse.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como ocorre na tradição oral das sociedades indígenas que mantêm contatos antigos com a população regional, a presença de não indígenas acaba sendo integrada ao tempo mítico. Os Zo’é não questionam nem a origem, nem os movimentos dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;, ou dos povos inimigos: todos eles, simplesmente, sempre existiriam. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diz-se, inclusive, que quando &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt; recriou a humanidade, não precisou refazer os não indígenas, que não haviam sido engolidos pelo dilúvio: eles já existiam, mas estavam longe, “na borda da terra”. Elementos históricos são agregados ao mito, associando o evento da recriação a contatos interétnicos. O fogo que destruiu a terra foi provocado por inimigos, habitantes do Leste; para alcançar as ossadas dos humanos destruídos pelo dilúvio, o herói vem do Sul, flutuando em um recipiente típico dos não indígenas: um corote de gasolina. Depois, cada um volta a ocupar seu espaço: os não indígenas ficam no Sul; os Zo’é nas serras, longe dos rios; os inimigos a Leste.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/Jipohan_%C3%A9_gente_como_voc%C3%AA “Jipohan é gente como você”, por Jurusi uhu, Pa'hi e Tatitu Zo'é]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/763735-2/DSC_3332_edit.JPG|Jurusi uhu Zo'é. Foto: Dominique Tilkin Gallois&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Era comum, nos anos 1990, os Zo’é perguntarem aos visitantes: “Vocês viram onde está &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt;, aquele herói que revitalizou seus ancestrais juntando ossos dos flagelados pelo último cataclismo?” Os Zo’é consideravam &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt; como um &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;. Após sua façanha de recriação, ele voltou para sua terra de origem, no Sul. É descrito usando roupas, escrevendo, usando canoa com motor, gravador, injeções e ferramentas diversas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como é comum na elipse temporal que o mito efetua, os Zo’é atualizam suas tradições com ingredientes extraídos de sua experiência do passado e de suas expectativas de futuro. Razão pela qual, na morada celeste dos mortos, os ex-Zo’é têm acesso irrestrito à mercadorias, inclusive espingardas, que lhes são fornecidas por alguns ex-&amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; generosos – como foi um servidor da Funai, Isidoro, que segue lhes trazendo mercadorias desejadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como ocorreu em muitos lugares, os eventos do contato dos Zo’é com missionários e depois com servidores da Funai envolveu diretamente a questão do acesso às mercadorias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Luis Donisete B. Grupioni/1989&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281189-1/zoe_7.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os então chamados “Índios do Cuminapanema” foram apresentados ao mundo em 1989, em reportagens que enfatizavam sua “pureza” e “fragilidade” e os descreviam como um dos últimos povos “intactos” na Amazônia. E justamente por serem um dos raros grupos ainda “não atingidos” nem pela mensagem evangélica, nem pela assistência oficial, os Zo’é atraíram a atenção da Missão Novas Tribos (MNT), que iniciou seu trabalho na região em 1982. Foram necessários cinco anos de sucessivas aproximações e recuos para “pacificar” os Zo’é – até que em 1987 os missionários  instalaram a Base Esperança na porção sul da atual TI Zo’é. Ali, passaram a controlar sozinhos o processo de acomodação dos Zo’é à nova situação, até a Funai assumir a área em 1991.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, os Zo’é já tinham experiências de encontro com não indígenas desde muito tempo. Relatam inclusive a saída de uma mulher que viajou até Santarém, de onde acabou voltando, provavelmente no final do século XIX.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
No final dos anos 1960, o território zo’é passou a ser percorrido por caçadores de felinos, conhecidos como “gateiros”. Nesse período, os Zo’é encontravam em suas trilhas, gaiolas, ferramentas abandonadas, restos de acampamentos. Também encontravam vestígios de coletores de castanha. Eram contatos indiretos, ou, como dizem os Zo’é, “sem carne/sem corpo”, pois não viam os forasteiros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Dominique Gallois, 1991&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281182-1/zoe_4.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1975, eles foram surpreendidos por visitas mais espetaculares, quando um helicóptero do Instituto de Estudos e Pesquisas do Pará despejou embrulhos com roupas e objetos sobre a aldeia Kejã. Foi também com presentes lançados do céu, ou dependurados no caminho das aldeias, que os membros da Missão Novas Tribos se aproximaram. Entre 1982 e 1987, eles estiveram várias vezes em acampamentos ou aldeias, saindo rapidamente. Segundo os Zo’é, muitas pessoas ficavam doentes na sequência dessas visitas e, como demoravam meses para voltar, as pessoas acometidas por doenças pulmonares morriam. Eles também relatam que resolveram se deslocar rumo ao Sul, em busca de uma explicação para esse “sopro” de doenças e para pegar mais objetos, chegando finalmente à Base Esperança em outubro de 1987, data oficial do “contato” com a MNT. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
===Terçados, epidemia e mortes===&lt;br /&gt;
{{Lead |por '''Fábio Ribeiro'''}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As notícias trazidas sobre os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; que davam facões e machados logo se espalharam pelas aldeias e em pouco tempo muitos Zo’é foram atrás dos missionários. Como não havia ferramentas para todos, o clima logo ficou tenso. Os homens que não pegaram facões ficaram bravos, bateram nas paredes entraram e saquearam a casa dos missionários, na localidade de Kuruaty. Esses, com muito medo, foram embora. As doenças, no entanto, ficaram. É nesse período que tem início a epidemia que em poucos dias tirou a vida muitas outras pessoas zo’é. “&amp;lt;em&amp;gt;Kirahi rahy ate juke&amp;lt;/em&amp;gt;. Foi a doença dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; que matou”. O relato de Hun, um atual chefe Zo’é é claro ao afirmar que a epidemia teve início logo após o encontro de Tun e Dubehaj com os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; e que, apenas muito tempo depois, quando encontraram Sera’yt (em 1987), é que os missionários trouxeram injeções com remédios, mas não vacinas. Hun, ainda criança nessa época, foi duramente afetado: seu pai, sua mãe e alguns de seus irmãos morreram na maloca de Pirity. “Naquele tempo os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; foram embora mesmo. Depois os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; pensaram de novo, queriam ver os Zo’é de novo, aí os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; voltaram. Foi então nessa época que encontraram Sera’yt (...) e ficaram alegres. Naquela época os Zo’é tinham mandado embora, então os kirahi pensaram, aí abriram o caminho novamente. Passaram-se muitas luas naquele tempo, e aí os missionários voltaram.” – Adaptado de &amp;lt;em&amp;gt;Kampugerau: crônica de um movimento zo’é &amp;lt;/em&amp;gt;, 2024&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após essa notícia, a Funai criou o PINC Cuminapanema, subordinado à 4ª SUER/Funai em Belém (Portaria nº 1.061, de 22 de maio de 1987). No ano seguinte, o convênio 008/1998 celebrado entre a Funai e a MNT vedava sua atuação em áreas de indígenas isolados. Mas a Missão não se retirou e continuou seu trabalho junto aos Zo’é. Até que, em janeiro de 1989, a Missão alertou a Funai sobre a precária situação de saúde dos Zo’é. O sertanista Sidney Possuelo conseguiu apoio da imprensa e pôde assim realizar uma primeira visita à área. Numa segunda viagem, pouco tempo depois, a equipe da Funai verificou que a situação de saúde estava piorando e começou então a planejar um trabalho mais sistemático. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante mais de um ano, os Zo’é assistiram à convivência tensa entre as equipes da Funai e da Missão Novas Tribos, cada uma com sua base, entre as quais eles continuaram circulando para obter remédios e objetos industrializados. Quando conseguiu recursos e pessoal adequados para assumir um trabalho de assistência que abrangesse a totalidade das quatro aldeias existentes na época, a Funai retirou os missionários da área, em outubro de 1991. A partir desse momento, os sucessivos responsáveis pelo PINC Cuminapanema, orientados pelo então Departamento de Índios Isolados (DII), da Funai, passaram a desempenhar  ações de proteção do povo Zo’é e de sua terra, em formatos que variaram sensivelmente ao longo dos anos. Foi somente a partir de dezembro de 2009, com a reestruturação da Funai, que o órgão indigenista instituiu a  Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC), incluindo a proteção às populações de recente contato como os Zo’é. A Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema (FPEC) foi criada em 2011 (Portaria Nº 1816/PRES, de 30 de dezembro de 2011) e, desde então, segue novas diretrizes para a promoção da integridade cultural e territorial do povo Zo’é.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A regularização da TI Zo’é ==&lt;br /&gt;
Em 1987, a Funai procedeu à interdição da Área Indígena Cuminapanema/Urucuriana, com uma extensão de aproximadamente 2.059.700 hectares, ao sul do [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3885 Parque Indígena de Tumucumaque], nos municípios de Alenquer e Óbidos, Pará ([https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/ZED00005.pdf Portaria nº 4.098 de 30/12/1987]). A interdição visava dar condições de trabalho à equipe da Funai, para o reconhecimento de numerosas referências de indígenas  isolados levantadas pelo então DII. Na época, a Funai já conhecia a presença dos Zo’é, através de informações repassadas pela Missão Novas Tribos, que havia localizado este povo em 1982.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Zo'é trabalhando na construção de novas casas, Leonardo Viana Braga, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/9/0_eedce20393fa4de/52690scr_4bbc991f8b7ca54.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os trabalhos de identificação e delimitação da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3927 Terra Indígena Zo'é] aconteceram entre 1996 e 1998, com a participação ativa dos Zo’é e de vários técnicos e especialistas, em muitas etapas. A primeira, de estudos antropológicos, incluiu a preparação da comunidade para que os Zo’é pudessem acompanhar todos os procedimentos da regularização de seu território. A Portaria nº 309 de 04/04/1997 constituiu o Grupo de Trabalho cujo [https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/ZED00014.pdf relatório de identificação e delimitação] foi submetido à aprovação da Funai em novembro de 1998.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A demarcação física da Terra Indígena, com 668.565 hectares, foi realizada entre 1999 e 2000, por uma empresa contratada pela Funai. Contrariamente ao acordado com os Zo’é durante os trabalhos de identificação, eles não puderam acompanhar os trabalhos demarcatórios e foram mantidos alheios ao processo de regularização de seu território. Após a revisão de erros na delimitação do limite sul, a homologação e o registro no Serviço de Patrimônio da União (SPU), a demarcação da Terra Indígena foi finalmente  consagrada por decreto presidencial (s/n), publicado no Diário Oficial da União (DOU) em 22 de dezembro de 2009.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2008, a pedido do Ministério Público Federal, foi criada uma faixa de amortecimento em volta da Terra Indígena, a Zona Intangível das Florestas Estaduais (FES) [https://uc.socioambiental.org/pt-br/arp/4641 Trombetas] e [https://uc.socioambiental.org/pt-br/arp/4642 Paru]. Essa área não poderia receber nenhum tipo de exploração econômica para evitar a contaminação dos indígenas em situação de recente contato. Com a aprovação do Plano de Manejo da FES do Trombetas pelo Conselho Estadual de Meio Ambiente do Pará, a faixa foi incorporada no zoneamento da Unidade de Conservação. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Iniciativas dos Zo’é consolidam novos rumos ==&lt;br /&gt;
Durante vinte anos, a atuação do órgão indigenista se centrou em manter os Zo’é afastados das relações com os não indígenas e suas tecnologias, evitando também qualquer encontro com povos indígenas vizinhos. Mas em 2010, os Zo’é tomaram a iniciativa de romper a aliança que mantinham com a equipe da Frente de Proteção da Funai e saíram da terra demarcada para buscar mercadorias que lhes eram recusadas em seu território. Um grupo se dirigiu ao Norte, ao encontro dos Tiriyó no Rio Marapi, e outro se dirigiu aos Campos Gerais, além do limite Sul da Terra Indígena, onde trabalharam com coletores de castanha. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Voltaram trazendo espingardas velhas, redes de &amp;lt;em&amp;gt;nylon&amp;lt;/em&amp;gt;, roupas usadas e alguns gêneros alimentícios, além de várias pessoas doentes. A experiência rendeu importantes aprendizados no que toca aos modos de relação com seus vizinhos, indígenas e não indígenas, e resultou na revisão da política de proteção da TI Zo’é – até então fundada na manutenção de um rígido “isolamento” e na contenção de seus pedidos de acesso não só às mercadorias como a conhecimentos sobre o modo de vida dos não indígenas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi nesse contexto que o [https://institutoiepe.org.br/ Instituto Iepé] estabeleceu, em 2016, uma parceria com a nova gestão da Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema (FPEC), visando criar alternativas para que os Zo’é acessassem informações e experiências que lhes permitissem compreender e se posicionar frente aos interesses dos diferentes setores da sociedade brasileira. Buscou-se atender às demandas dos Zo’é, através de um conjunto de ações educativas e de apoio às suas próprias iniciativas de vigilância territorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Planejando o futuro e a proteção do território ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em novembro de 2019, os Zo'é pactuaram seu Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da TI Zo'é, onde definem suas prioridades para o futuro. “&amp;lt;em&amp;gt;Jo’e rekoha bokitute ram&amp;lt;/em&amp;gt; – Planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro” foi o título escolhido pelos Zo’é para esse plano de gestão, onde explicitam as diretrizes para a proteção de seu território e de seu modo de vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Foto: Transporte de canoa recém construída pelos Zo'é, Hugo Prudente, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/6_92ae3e7baf9ad67/52686scr_d2b118ef8ea028d.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas atividades realizadas para a construção do PGTA, entre 2016 e 2019, confirmou-se a mudança de foco nos interesses dos Zo’é. Menos inquietos em garantir abastecimento de objetos dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;, estavam mobilizados para ampliar sua circulação pelo território, não só reconhecendo áreas ocupadas pelos antigos, como abrindo novos percursos para avaliar as reservas de caça e pesca e as possibilidades de abertura de novos assentamentos. No documento, os Zo’é afirmam: “Queremos que nossos filhos sigam ocupando vastamente o nosso território”, colocando o processo de dispersão de aldeias como um dos fundamentos do bem viver. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa mobilidade promoveu novas incursões e a vigilância mais sistemática em áreas fartas em recursos, como os grandes castanhais no Sul e em outras porções do território. Uma das diretrizes do PGTA dedica especial atenção à vigilância dessa região, que foi invadida por castanheiros em 2018 e que, desde então, vem sendo ocupada por aldeias novas e acampamentos. Como escreveram os Zo’é no documento: “Nós, coletando essa castanha, invasores não virão mesmo. Aqui é nossa terra, a castanha está na nossa terra. Tem castanha na terra dos não índios, essa deve ser a castanha deles. Essa aqui é nossa castanha. Estamos falando duramente agora”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
“Fazer saber o nosso território” é uma afirmação e um objetivo a ser buscado, articulando ações de vigilância e de ocupação. Mobiliza concepções importantes da territorialidade zo’e, como o zelo pelos lugares habitados, a articulação entre os diversos grupos familiares na abertura de uma nova aldeia e o caráter regular das idas e vindas implicadas em uma iniciativa de expansão territorial. Nesse movimento, os grupos territoriais se reestruturam, mantendo suas diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
Confira aqui o [https://institutoiepe.org.br/2022/05/plano-de-gestao-territorial-e-ambiental-zoe/ PGTA &amp;lt;em&amp;gt;Jo’e Rekoha Bokituteha Ram&amp;lt;/em&amp;gt; – Planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro]!&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== População e proliferação de aldeias ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Distribuição de bebida ''sepy'' durante uma festa dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/7/4/6_cd584b0ad074849/52746scr_dcd3b057e91c8af.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A população Zo'é praticamente dobrou nos últimos trinta anos: eram 172 em 1998, à época da identificação da TI. Em 2011 eram 261 e hoje são 350 pessoas (Iepé, 2025). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Zo'é subdividem-se em dois grandes grupos, respectivamente situados ao Norte e ao Sul da Base da Funai, em que se distribuem os 19 grupos locais (&amp;lt;em&amp;gt;iwana&amp;lt;/em&amp;gt;), que circulam em determinadas áreas territoriais, onde estão suas aldeias antigas e recentes, além de acampamentos. Os &amp;lt;em&amp;gt;Iwana&amp;lt;/em&amp;gt; agregados de famílias extensas, atualmente em número de 31, que vivem em aldeias próximas, e cuja composição sofre constantes alterações em função das alianças matrimoniais e das parcerias estabelecidas para ocupar novas áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos últimos dez anos, ocorreu um processo de proliferação de aldeias muito significativo. Na época da instalação da Funai em 1991, eram apenas quatro; eram cinco em 1998, 12 em 2011 e hoje existem 62 aldeias. Configuram conjuntos de pequenas aldeias ocupadas de forma intermitente por famílias extensas que vivem em lugares próximos e circulam entre seus vários assentamentos, em função da fartura de recursos e dos cuidados das roças. Essa intensa mobilidade está relacionada ao apoio logístico que recebem tanto da FPE-Funai como do Iepé, com uma rede de radiofonia em praticamente todas as aldeias. Merece destaque o fato de que, nos últimos anos, os Zo’é têm optado por fabricar suas próprias canoas em madeira de aroeira, preferidas – por enquanto – às voadeiras de alumínio, não só difíceis de transportar até a TI, como exigindo manutenção custosa. Aprenderam a fabricar canoas num intercâmbio que levou especialistas do povo [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Waiwai Waiwai] para a TI Zo’é em 2017 e, desde então, cada família procura construir sua própria embarcação, na qual são instalados os motores rabeta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Estações e ritmos da vida ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Indígenas zo'é finalizando uma rede de fibra de castanheira, Flora Dias Cabalzar, 2016.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/5_7ed184682c27e1c/52685scr_a5f3ac836c6e409.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma das principais características do modo de vida dos Zo’é, até hoje, é a intensa mobilidade das famílias pelo território. Todos têm acesso aos recursos florestais sem esgotá-los, uma vez que as atividades de cultivo das roças, de caça, pesca e coleta são feitas em pequena escala, pelas diferentes famílias, em áreas distintas. É também nesses movimentos que os Zo’é atualizam o exímio conhecimento acumulado sobre seu território, constantemente percorrido através de uma intrincada rede de caminhos entre aldeias, capoeiras e locais de coleta de itens necessários no dia a dia, tanto para alimentação como para a fabricação de utensílios.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um modo de vida que garante aos Zo’é uma alimentação exclusivamente composta de sua produção agrícola, da caça, pescado e frutas. Também merece destaque o fato de os Zo’é não utilizarem espingardas, mas sim seus arcos, flechas e arpões, complementados com anzóis e linhas de pesca industrializadas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Homem zo'é cuidando de flechas, Dominique Tilkin Gallois, 2023.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/7_234521b7fa212cf/162427scr_wm_3c5190633e93dd0.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O caráter sazonal de alguns recursos dos quais os Zo’é se utilizam conforma a dinâmica de circulação das famílias pelo território e também repercute nos movimentos de aproximação e distanciamento entre essas famílias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É no tempo das chuvas, de fevereiro a julho, que acontecem os períodos mais prolongados de dispersão das famílias pelo território, quando são realizadas grandes caçadas, principalmente de macaco-aranha e de tucano. No início das chuvas, as famílias também se deslocam para a beira de igarapés e hoje também de rios maiores, aproveitando o volume das águas para caçar urubu-rei, usando peixes podres como iscas. Instalados nos acampamentos, os Zo’é retornam às aldeias para buscar farinha, preparada com antecedência e estocada nas casas; quando ela acaba, permanecem alguns dias para preparar mais farinha, beiju e tapioca.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O período ideal para a caça de ''kwata'' (macaco-aranha, coatá ou coamba) vai de março a maio, período denominado ''kwata ike'', quando estão gordos. Montam-se acampamentos específicos, de onde os homens saem para as serras, em busca dos macacos. No final desse período, em maio, tucanos, araras e papagaios já estão comendo frutas de palmeiras. É a estação chamada de ''token ike'', do “tucano gordo”, que dura cerca de um mês e meio, quando bandos numerosos de aves vêm comer patauá ou açaí, em locais de concentração de frutas. Já é no final da estação chuvosa e início da estação seca que os porcos queixadas e caititus estão gordos, motivando saídas frequentes de grupos de homens às trilhas das varas de porcos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Moça zo'é preparando leite de castanha, Dominique Tilkin Gallois, 2023.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/9_d567041deb9c12a/162429scr_wm_697db62eab28f2f.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre os recursos mais valorizados nesse calendário do tempo das chuvas, a castanha-do-Brasil é um alimento básico na dieta. Os Zo’é colhem os ouriços a partir de janeiro e consomem amêndoas em profusão durante toda a estação chuvosa; durante o verão, colhem ouriços ainda verdes e continuam comendo castanha o ano todo, em preparos diversos com produtos da mandioca ou carnes. Como é também nesse período que muitas frutas amadurecem, é comum interromperem o movimento de dispersão entre acampamentos para fazer festas, quando se distribui grande quantidade de bebida fermentada ''sepy''.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A estação seca, de final de julho até o início de janeiro, é marcada pelo trabalho nas roças. É quando a vida nas aldeias se intensifica, sendo um período de maior aproximação entre grupos familiares. Isso não significa que as famílias não mantenham, no verão, outras atividades que as leve a deixar a aldeia. Saem para buscar frutas da estação, como o açaí que é trazido em grandes cachos. Mas sobretudo saem para pescar com timbó, com anzóis, ou ainda com flecha ou zagaia. No verão, também acontecem expedições de caça, em geral mais curtas e só entre homens, já que as mulheres ficam nas aldeias cuidando das roças. Além disso, como muitas famílias mantêm cultivos em mais de uma aldeia, deslocam-se para dar conta de todas as roças. O corte, queima e limpeza das roças se prolonga até dezembro, meados de janeiro, quando a castanha está de novo madura, e os Zo’é limpam a roça da mandioca que brotou e fazem novo plantio. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Refeição familiar dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017.&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/9_9e70545c4b7fee0/52689scr_5d2f4b741f6cd92.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A mandioca é o principal cultivo, com uma variedade de produtos: farinha, beiju, tapioca, tucupi. As mulheres, inclusive com colaboração dos homens para ralar as raízes, dedicam muito de seu tempo ao processamento da mandioca: descascar, ralar, espremer no tipiti, peneirar, torrar farinha. Os Zo’é também cultivam pimenta, batata-doce, cará, banana, mamão, caju, goiaba, graviola, manga, urucum, algodão, cuia, cabaça, curauá e cana de flecha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade de vida dos Zo’é decorre, portanto, desse grande acervo de saberes e práticas do cotidiano, transmitidos e aperfeiçoados ao longo das gerações. Se, nas últimas décadas, os Zo’é se apropriaram seletivamente de alguns itens industrializados, continuam valorizando suas próprias tecnologias para fabricar os artefatos que utilizam cotidianamente.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Ler e escrever na própria língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Os Zo'e durante uma oficina de Letramento, Dominique Tilkin Gallois, 2023&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/6_07c4c88f97d55fe/162426scr_wm_9578fba3a29bfe7.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre as ações educativas construídas com os Zo’é para promover a discussão e pactuação do PGTA, destacam-se as atividades de letramento, iniciadas pelo Iepé em 2017. Tanto para a formulação adequada das medidas de proteção como, sobretudo, para a apropriação duradoura deste plano, era imprescindível que os próprios Zo’é pudessem redigir e atualizar as diretrizes de gestão de seu território. Trata-se de um programa não escolar de letramento, que é concebido não apenas como um meio de apropriação da leitura e escrita – por enquanto apenas na língua zo’é – e a iniciação à matemática, mas também como aproximação aos conceitos, à linguagem e às práticas relacionadas aos direitos assegurados aos povos indígenas pela [https://pib.socioambiental.org/pt/Constitui%C3%A7%C3%A3o Constituição brasileira de 1988]. É nesse sentido que as ações de letramento viabilizaram a criação da Tekohara, organização representativa do povo Zo’é, na consolidação de seu Fundo de Artesanato, o FAZ, e na construção de um [https://institutoiepe.org.br/2025/08/protocolo-de-consulta-e-consentimento-zoe/ protocolo de consulta e consentimento]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a pandemia de Covid-19, durante a qual todos os trabalhos com os Zo’é foram suspensos, consolidou-se uma turma de cerca de 40 jovens e adultos, depois separada em duas, correspondendo aos grupos do Norte e do Sul. Reúnem-se quatro vezes por ano nos Encontros de Letramento, realizados na “casa grande” da Base da Funai, em Kejã. Destacaram-se rapidamente oito jovens, que passaram a atuar como multiplicadores nas atividades de letramento, como tradutores e mais recentemente assumiram cargos na gestão da organização representativa, Tekohara. Além desses Encontros, oficinas específicas promovem a construção participativa de materiais didáticos, hoje já com mais de 20 títulos versando sobre os mais diversos temas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Todos os materiais produzidos procuram registrar as reflexões dos Zo’é sobre seu modo de vida, sobre as mudanças recentes que interferem nas formas de ocupação do território, sobre experiências novas de gestão advindas da consolidação de sua associação etc. Entre eles, destacam-se os cadernos da série ''Rekoha'', que sempre iniciam com a feitura de um mapa por um líder de grupo local, complementado por pequenos textos extraídos das conversas sobre suas iniciativas de abertura de caminhos, roças, acampamentos de caca e pesca, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra série de materiais traz resultados de uma pesquisa colaborativa sobre cantos, engajando jovens letrados e conhecedores mais idosos, que permitiu também introduzir o uso da informática, para a gestão de um acervo de cantos e de suas transcrições. Além disso, outros cadernos específicos apoiam a formação em gestão tanto da Tekohara como do Fundo de Artesanato Zo’é (FAZ). Mais recentemente, alguns cadernos trazem saberes das mulheres – que praticamente não participam das atividades de letramento – especialmente sobre o ciclo da castanha e sua culinária. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
=== Tekohara – Organização Zo’é ===&lt;br /&gt;
Após a pandemia de Covid-19, os Zo’é reativaram seu movimento de reorganização de relações com os não indígenas, inaugurado com a pactuação do PGTA, e criaram em 2022 uma organização representativa, denominada Tekohara. O nome ''Tekohara'' foi especialmente criado para a associação. Segundo os fundadores, a expressão inexiste na língua zo’é, porém remete à proteção do território, chamado em sua língua de – ''tekoha''. Constitui assim uma síntese do que consideram ser a atuação prioritária da organização, em consonância com todo o trabalho de gestão territorial que os Zo’é vêm conduzindo nos últimos anos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A assembleia de fundação reuniu praticamente toda a população zo’é, incluindo idosos e crianças. Desses, todos os maiores de 17 anos, totalizando 198 pessoas à época, se tornaram associados, que escolheram e aclamaram seus representantes para duas instâncias de gestão:  o Conselho de Chefes e a Diretoria. O primeiro é composto por ''sete iy'', principais líderes zo’é, reconhecidos pelos demais chefes de todos os subgrupos. Em 2025, a assembleia escolheu outros chefes para o conselho, hoje um total de 11, que também constituem o Conselho Fiscal da associação. A diretoria é constituída por cinco jovens letrados, que se consideram “ajudantes dos chefes” e atuam diretamente nas instâncias que exigem a leitura e escrita de documentos, a convocação e mediação de reuniões, a gestão de recursos, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2024, os chefes do conselho e os jovens da diretoria, além de outros adultos interessados, construíram o protocolo de consulta e consentimento, ao longo de cinco oficinas e de várias reuniões de apresentação e aprovação do documento, publicado em duas línguas, em 2025. Afirmam, neste protocolo: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
“Temos nos reunido regularmente para conversar e com isso nossa associação está firme, porque discutimos todos os assuntos importantes. Como consolidamos nosso próprio jeito de fazer reuniões e tomar decisões, temos clareza sobre como devemos nos posicionar sobre quem pode e quem não pode entrar em nosso território (...) É porque mantemos um mesmo entendimento sobre a proteção de nosso território que as decisões não são difíceis. É assim que alcançamos consenso entre nós todos”. – Protocolo de consulta e consentimento Zo’é (2025, pp. 14-21)&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/3_8ec6e605f080da0/162433scr_wm_6306ea1916b3650.jpg| Lideranças zo'é durante uma reunião da Tekohara, Kamikia Kisedje, 2024}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A gestão coletiva de um Fundo de Artesanato ==&lt;br /&gt;
Desde a instalação da Funai na Terra Indígena, em 1991, os Zo’é têm produzido artesanato para troca com visitantes, ainda que de modo episódico, obtendo assim diversos utensílios que foram, desde então, incorporados ao seu modo de vida. Naquele período, o Posto de Atração distribuía uma ou duas vezes por ano ferramentas, material de pesca, lanternas e pilhas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Os Zo'e durante a etiquetagem de peças comercializadas por meio do Fundo de Artesanato, Dominique Gallois, 2023&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/5_22188c531215eb0/162425scr_wm_ee3a42b7ee661ff.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já a partir de 2011, a CGIIRC-Funai passou a rever sua política de proteção, garantindo aos indígenas em situação de recém-contato novas experiências e formas de participação. Foi nesse contexto que o Fundo de Artesanato Zo’é (FAZ), foi criado em 2012, pela Frente Cuminapanema (FPEC). Tratava-se de ampliar as possibilidades de troca e assegurar maior autonomia no abastecimento de itens industrializados demandados pelos Zo’é. Sobretudo se buscou passar de um sistema de doação para um mecanismo coletivo de permutas, assegurando a distribuição de itens industrializados previamente selecionados para todas as famílias, que por sua vez entregam lotes de peças que correspondem aproximadamente ao valor dos objetos adquiridos pelo Fundo. Durante dez anos, o FAZ se consolidou sob gestão da equipe da Funai, mas desde 2022, é gerido diretamente pelos Zo’é, por meio da associação Tekohara, ainda que com algum apoio dos parceiros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O FAZ consiste num sistema de trocas que envolve todas as famílias zo’é, atendendo suas demandas por objetos industrializados. Nos últimos anos, acordou-se com os parceiros que itens como material de pesca, ferramentas, entre outros, são adquiridos através de projetos do Iepé, desonerando assim o FAZ. A lista do que deve ser comprado é aberta, mas inclui cerca de 20 itens, todos eles incorporados ao modo de vida dos Zo’é há várias décadas. A lista envolve itens de uso pessoal, como sandálias, espelhos, linhas para tipoias, sabão, panelas, tigelas, além de alguns itens necessários às atividades produtivas do cotidiano, como isqueiros, sacos para armazenar farinha e eventualmente ferramentas que não podem ser adquiridas através dos projetos dos parceiros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Tebo Zo'é segurando cumaru, Kamikia Kisedje, 2024&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/1_1085df758a31880/162431scr_wm_04d1d66a3aa490a.jpg }}&lt;br /&gt;
  &lt;br /&gt;
As famílias entregam peças de artesanato e recebem itens prévia e cuidadosamente selecionados em reuniões com os chefes de todas as aldeias. Ou seja, a um certo conjunto de artesanato vendido corresponde um certo número de itens industrializados adquiridos com o recurso da comercialização das peças. Seguindo a expressa preferência dos Zo’é, os itens são sempre comprados na quantidade que atenderá rigorosamente todas as famílias. As entregas são realizadas três a quatro vezes por ano, com itens que são escolhidos em reuniões trimestrais, para atender às necessidades do momento. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os artefatos comercializados pelo FAZ são os mesmos utilizados no cotidiano dos Zo’é e incluem trançados, recipientes em cerâmica, colheres, pentes, brincos e pulseiras. Tal seleção, entre os muitos itens da cultura material zo’é, obedece a critérios de sustentabilidade. A legislação vigente não permite a venda de plumária ou de flechas com ponta de osso, ou qualquer objeto fabricado com partes de animais. Arcos de madeira e redes feitas de fibras de castanheira tampouco são vendidos, para garantir aos Zo’é exclusividade no acesso a esses materiais essenciais em seu modo de vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar dessas restrições, os resultados do FAZ são muito promissores, não apenas por incentivar a continuidade dos saberes e práticas artesanais dos Zo’é, como por viabilizar a formação em gestão dos jovens e dos chefes. Ao se apropriar deste Fundo, os Zo’é souberam declarar e garantir critérios próprios na distribuição adequada dos bens adquiridos, em acordo com seus valores e considerações quanto às diferenças de gênero, idade e processos de aprendizagem, bem como à isonomia entre os grupos locais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além da venda de artesanato, a Tekohara também realiza a  venda de sementes de cumaru, coletadas pelas famílias envolvidas no FAZ. Desde 2019, o Fundo se beneficia ainda com a venda exclusiva dos livros da série Saberes Zo’é, atualmente com três títulos: [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Potuwa.pdf ''Potuwa pora kõ'' – O que se guarda no ''potuwa''] (2019); [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2021/07/Eremiu-rupa.-Abrindo-rocas_Trecho.pdf ''Eremi’u rupa'' – Abrindo roças] (2021) e [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Canoa-Zoe.pdf ''Ihara rape rupi'' – Pelo caminho da canoa] (2023).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/4_f91f5d08e62cbad/162424scr_wm_0c86653fd01dc21.jpg| Distribuição de sabão adquirido com recursos do FAZ, Dominique Tilkin Gallois, 2025}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;CABRAL, Ana Suely.Uma escrita para a Língua Zo'é. Brasília: Lalli/Unb/Funai, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin. De arredio a isolado : perspectivas de autonomia para os povos indígenas isolados. In: GRUPIONI, Luís Donisete Benzi (Org.). Índios no Brasil. São Paulo : Secretaria Municipal de Cultura, 1992. p. 121-34.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Essa incansável tradução : entrevista. Sexta Feira: Antropologia, Artes e Humanidades, São Paulo : Pletora, n. 6, p. 103-21, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Tupi do Cuminapanema : eles se chamam Zo'É. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1991/1995. São Paulo : Instituto Socioambiental, 1996. p. 280-7.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Zo'é. In: ASSIS, Rogério. São Paulo: Terceiro Nome, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Sobre alguns modos zo’e de fazer coletivos e lideranças”. In: FAJARDO GRUPIONI, D.; Andrade, L. M. M. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; GRUPIONI, Luís Donisete Benzi. O índio na Missão Novas Tribos. In: WRIGHT, Robin (Org.). Transformando os Deuses : os múltiplos sentidos da conversão entre os povos indígenas no Brasil. Campinas : Unicamp, 1999. p. 77-130.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
GALLOIS, Dominique Tilkin; BRAGA, Leonardo Viana; PEDREIRA, H. P. S. 2020 Construindo o Plano de Gestão Territorial e Ambiental com os Zo’é. In: Luis Donizete Benzi Grupioni (org.). Em busca do bem viver: Experiências de elaboração de Planos de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas. São Paulo: Rede de Cooperação Amazônica, 1. ed., v. 1.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. A redescoberta dos amáveis selvagens. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1987/88/89/90. São Paulo : Cedi, 1991. p. 209-14. (Aconteceu Especial, 18)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; HAVT, Nadja. Relatório de identificação da Terra Indígena Zo'é : Portaria 309/PRES/Funai - 04.04.97. São Paulo : Funai, 1998.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;HAVT, Nadja. De algumas questões sobre a participação de “índios isolados” no processo de regularização fundiária : o exemplo dos Zo’É. In: GRAMKOW, Márcia Maria (Org.). Demarcando terras indígenas II : experiências e desafios de um projeto de parceria. Brasília : Funai/PPTAL/GTZ, 2002. p. 85-94.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Representações do Ambiente e da Territorialidade entre os Zo’é/PA. Dissertação de Mestrado. FFLCH/USP, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;Iepé &amp;amp; FPEC/Funai. Jo’e bokitute ram: planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro. Plano de Gestão Territorial e Ambiental da TI Zo’é. São Paulo: Iepé, 2019.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
BRAGA, Leonardo Viana. Micropeças sobre gênero e caçada junto aos Zo’é. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas:&lt;br /&gt;
índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. ''Pani'em'': um esboço sobre os modos de saber entre os Zo'é. Dissertação de mestrado. FFLCH/USP, 2017.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Eremi'u rupa. Abrindo roças. 1. ed. São Paulo: Série Saberes Zo'é - Iepé, FPEC/Funai &amp;amp; Fundo de Artesanato Zo'é (FAZ), 2021. v. 2. 189p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
BRAGA, Leonardo Viana; PEDREIRA, Hugo Prudente S.; CABALZAR, Flora Dias. 2020. 'Fazer saber a própria terra'. In: Nelson Russo de Moraes; Leila Adriana Baptaglin; Lamounier Erthal Vilella; Alexandre de Castro Campos; Raoni Fernandes Azerêdo. (Org.). Povos Originários e Comunidades Tradicionais: trabalhos de pesquisa e de extensão universitária – volume 4, 1ed.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; &lt;br /&gt;
PEDREIRA, Hugo Prudente da Silva. ''Potuwa pora kõ'' - o que se guarda no ''potuwa. 1''. ed. São Paulo: Instituto de Pesquisa e Formação Indígena - Iepé, 2019. v. 1. 148p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; RIBEIRO, Fabio N. “Os Zo’é e as metamorfoses do fundamentalismo evangélico”. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Encontros Zo’é nas Guianas. Tese de doutorado. FFLCH/USP, 2019.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. ''Ihara Rape Rupi'': pelo caminho da canoa. 1. ed. São Paulo: Iepé - Instituto de Pesquisa e Formação Indígena, 2023. v. 1. 132p .&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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Detalhes em http://www.mediawiki.org/wiki/Transclusion#Semantic_MediaWiki&lt;br /&gt;
--&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Zo'é}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Dominique T. Gallois}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
{{#set:Capa=162430scr_wm_9d03db1dcc7a9e9.jpg}}&lt;br /&gt;
{{#set:Counter=61505}}&lt;br /&gt;
{{#set:Crédito capa=Kamikia Kisedje, 2024}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=1997-01-01}}&lt;br /&gt;
{{#set:Estilo=claro}}&lt;br /&gt;
{{#set:Povo Id=321}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas no Pará]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8526</id>
		<title>Povo:Zo'é</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8526"/>
		<updated>2025-10-20T18:11:53Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: /* A gestão coletiva de um Fundo de Artesanato */&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Vivem numa área de densas florestas, entre os rios Cuminapanema e Erepecuru, no Norte do Pará. Os Zo’é convivem com agentes de assistência há quase quatro décadas, mantendo vigorosamente suas formas de organização social e territorial. Este povo em situação de recente contato vem se mobilizando para implementar o PGTA da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3927 TI Zo'é] e seu protocolo de consulta. Através da sua organização representativa, a Tekohara, fortalecem a gestão de um Fundo de Artesanato, um mecanismo original de trocas coletivas.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
== Nome e língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Os Zo'é durante uma oficina de Letramento, Dominique Gallois, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/4_f54a65283e04d93/52684scr_8d884e9b4241947.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pronome &amp;lt;em&amp;gt;jo’é&amp;lt;/em&amp;gt; [zo’é], “nós mesmos”, se consolidou como uma autodenominação que diferencia este povo dos não indígenas, chamados &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;. Já outros povos indígenas são chamados de “&amp;lt;em&amp;gt;amõ jo’é&amp;lt;/em&amp;gt;” (outros, como nós). No final dos anos 1980, quando começaram a conviver com missionários e com servidores da Funai, esse termo não era usado para designar a eles mesmos, mas para identificar qualquer pessoa que adquirisse alguma proximidade e que passasse, então, a ser considerada “gente como nós”. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os termos &amp;lt;em&amp;gt;Poturu&amp;lt;/em&amp;gt;, ou &amp;lt;em&amp;gt;Poturujara&amp;lt;/em&amp;gt;, difundidos inicialmente por agentes da Funai como denominação do povo recém-contatado na região do Cuminapanema, designam tão somente a madeira da árvore utilizada para confeccionar os adornos labiais &amp;lt;em&amp;gt;embe’pot&amp;lt;/em&amp;gt;. “&amp;lt;em&amp;gt;Poturu!&amp;lt;/em&amp;gt;” respondiam os Zo’é, quando alguém apontava para seus rostos, buscando saber seu nome.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Zo’é são falantes de uma língua Tupi-Guarani, do tronco Tupi. A maior parte da comunidade é monolíngue, com exceção de alguns chefes e de uma dezena de jovens, que aprenderam a se comunicar em português e estão adquirindo rapidamente maior fluência, no âmbito de suas funções de gestão da &amp;lt;strong&amp;gt;Tekohara – Organização Zo’é&amp;lt;/strong&amp;gt;. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Experiências de contato e de convivência com ''kirahi'' ==&lt;br /&gt;
A área onde vivem os Zo’é situa-se em território histórico de povos de língua Karib, que ocupam as terras firmes do planalto das Guianas. Seus vizinhos mais próximos são os [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Tiriy%C3%B3 Tiriyó], ao Norte; os [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Aparai Aparai] e [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Wayana Wayana], a Leste; os quilombolas e castanheiros não indígenas ao Sul. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As fontes disponíveis sobre a região Norte do Pará não trazem informações suficientes para acompanhar a trajetória da migração dos Zo’é até seu &amp;lt;em&amp;gt;habitat&amp;lt;/em&amp;gt; atual, mas é certo que este povo tem sua origem ao sul. Essa é a direção que eles indicam quando são indagados sobre sua procedência antiga, embora a localização das aldeias de antepassados longínquos não seja assunto de grande interesse.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como ocorre na tradição oral das sociedades indígenas que mantêm contatos antigos com a população regional, a presença de não indígenas acaba sendo integrada ao tempo mítico. Os Zo’é não questionam nem a origem, nem os movimentos dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;, ou dos povos inimigos: todos eles, simplesmente, sempre existiriam. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diz-se, inclusive, que quando &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt; recriou a humanidade, não precisou refazer os não indígenas, que não haviam sido engolidos pelo dilúvio: eles já existiam, mas estavam longe, “na borda da terra”. Elementos históricos são agregados ao mito, associando o evento da recriação a contatos interétnicos. O fogo que destruiu a terra foi provocado por inimigos, habitantes do Leste; para alcançar as ossadas dos humanos destruídos pelo dilúvio, o herói vem do Sul, flutuando em um recipiente típico dos não indígenas: um corote de gasolina. Depois, cada um volta a ocupar seu espaço: os não indígenas ficam no Sul; os Zo’é nas serras, longe dos rios; os inimigos a Leste.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/Jipohan_%C3%A9_gente_como_voc%C3%AA “Jipohan é gente como você”, por Jurusi uhu, Pa'hi e Tatitu Zo'é]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/763735-2/DSC_3332_edit.JPG|Jurusi uhu Zo'é. Foto: Dominique Tilkin Gallois&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Era comum, nos anos 1990, os Zo’é perguntarem aos visitantes: “Vocês viram onde está &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt;, aquele herói que revitalizou seus ancestrais juntando ossos dos flagelados pelo último cataclismo?” Os Zo’é consideravam &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt; como um &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;. Após sua façanha de recriação, ele voltou para sua terra de origem, no Sul. É descrito usando roupas, escrevendo, usando canoa com motor, gravador, injeções e ferramentas diversas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como é comum na elipse temporal que o mito efetua, os Zo’é atualizam suas tradições com ingredientes extraídos de sua experiência do passado e de suas expectativas de futuro. Razão pela qual, na morada celeste dos mortos, os ex-Zo’é têm acesso irrestrito à mercadorias, inclusive espingardas, que lhes são fornecidas por alguns ex-&amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; generosos – como foi um servidor da Funai, Isidoro, que segue lhes trazendo mercadorias desejadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como ocorreu em muitos lugares, os eventos do contato dos Zo’é com missionários e depois com servidores da Funai envolveu diretamente a questão do acesso às mercadorias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Luis Donisete B. Grupioni/1989&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281189-1/zoe_7.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os então chamados “Índios do Cuminapanema” foram apresentados ao mundo em 1989, em reportagens que enfatizavam sua “pureza” e “fragilidade” e os descreviam como um dos últimos povos “intactos” na Amazônia. E justamente por serem um dos raros grupos ainda “não atingidos” nem pela mensagem evangélica, nem pela assistência oficial, os Zo’é atraíram a atenção da Missão Novas Tribos (MNT), que iniciou seu trabalho na região em 1982. Foram necessários cinco anos de sucessivas aproximações e recuos para “pacificar” os Zo’é – até que em 1987 os missionários  instalaram a Base Esperança na porção sul da atual TI Zo’é. Ali, passaram a controlar sozinhos o processo de acomodação dos Zo’é à nova situação, até a Funai assumir a área em 1991.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, os Zo’é já tinham experiências de encontro com não indígenas desde muito tempo. Relatam inclusive a saída de uma mulher que viajou até Santarém, de onde acabou voltando, provavelmente no final do século XIX.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
No final dos anos 1960, o território zo’é passou a ser percorrido por caçadores de felinos, conhecidos como “gateiros”. Nesse período, os Zo’é encontravam em suas trilhas, gaiolas, ferramentas abandonadas, restos de acampamentos. Também encontravam vestígios de coletores de castanha. Eram contatos indiretos, ou, como dizem os Zo’é, “sem carne/sem corpo”, pois não viam os forasteiros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Dominique Gallois, 1991&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281182-1/zoe_4.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1975, eles foram surpreendidos por visitas mais espetaculares, quando um helicóptero do Instituto de Estudos e Pesquisas do Pará despejou embrulhos com roupas e objetos sobre a aldeia Kejã. Foi também com presentes lançados do céu, ou dependurados no caminho das aldeias, que os membros da Missão Novas Tribos se aproximaram. Entre 1982 e 1987, eles estiveram várias vezes em acampamentos ou aldeias, saindo rapidamente. Segundo os Zo’é, muitas pessoas ficavam doentes na sequência dessas visitas e, como demoravam meses para voltar, as pessoas acometidas por doenças pulmonares morriam. Eles também relatam que resolveram se deslocar rumo ao Sul, em busca de uma explicação para esse “sopro” de doenças e para pegar mais objetos, chegando finalmente à Base Esperança em outubro de 1987, data oficial do “contato” com a MNT. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
===Terçados, epidemia e mortes===&lt;br /&gt;
{{Lead |por '''Fábio Ribeiro'''}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As notícias trazidas sobre os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; que davam facões e machados logo se espalharam pelas aldeias e em pouco tempo muitos Zo’é foram atrás dos missionários. Como não havia ferramentas para todos, o clima logo ficou tenso. Os homens que não pegaram facões ficaram bravos, bateram nas paredes entraram e saquearam a casa dos missionários, na localidade de Kuruaty. Esses, com muito medo, foram embora. As doenças, no entanto, ficaram. É nesse período que tem início a epidemia que em poucos dias tirou a vida muitas outras pessoas zo’é. “&amp;lt;em&amp;gt;Kirahi rahy ate juke&amp;lt;/em&amp;gt;. Foi a doença dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; que matou”. O relato de Hun, um atual chefe Zo’é é claro ao afirmar que a epidemia teve início logo após o encontro de Tun e Dubehaj com os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; e que, apenas muito tempo depois, quando encontraram Sera’yt (em 1987), é que os missionários trouxeram injeções com remédios, mas não vacinas. Hun, ainda criança nessa época, foi duramente afetado: seu pai, sua mãe e alguns de seus irmãos morreram na maloca de Pirity. “Naquele tempo os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; foram embora mesmo. Depois os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; pensaram de novo, queriam ver os Zo’é de novo, aí os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; voltaram. Foi então nessa época que encontraram Sera’yt (...) e ficaram alegres. Naquela época os Zo’é tinham mandado embora, então os kirahi pensaram, aí abriram o caminho novamente. Passaram-se muitas luas naquele tempo, e aí os missionários voltaram.” – Adaptado de &amp;lt;em&amp;gt;Kampugerau: crônica de um movimento zo’é &amp;lt;/em&amp;gt;, 2024&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após essa notícia, a Funai criou o PINC Cuminapanema, subordinado à 4ª SUER/Funai em Belém (Portaria nº 1.061, de 22 de maio de 1987). No ano seguinte, o convênio 008/1998 celebrado entre a Funai e a MNT vedava sua atuação em áreas de indígenas isolados. Mas a Missão não se retirou e continuou seu trabalho junto aos Zo’é. Até que, em janeiro de 1989, a Missão alertou a Funai sobre a precária situação de saúde dos Zo’é. O sertanista Sidney Possuelo conseguiu apoio da imprensa e pôde assim realizar uma primeira visita à área. Numa segunda viagem, pouco tempo depois, a equipe da Funai verificou que a situação de saúde estava piorando e começou então a planejar um trabalho mais sistemático. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante mais de um ano, os Zo’é assistiram à convivência tensa entre as equipes da Funai e da Missão Novas Tribos, cada uma com sua base, entre as quais eles continuaram circulando para obter remédios e objetos industrializados. Quando conseguiu recursos e pessoal adequados para assumir um trabalho de assistência que abrangesse a totalidade das quatro aldeias existentes na época, a Funai retirou os missionários da área, em outubro de 1991. A partir desse momento, os sucessivos responsáveis pelo PINC Cuminapanema, orientados pelo então Departamento de Índios Isolados (DII), da Funai, passaram a desempenhar  ações de proteção do povo Zo’é e de sua terra, em formatos que variaram sensivelmente ao longo dos anos. Foi somente a partir de dezembro de 2009, com a reestruturação da Funai, que o órgão indigenista instituiu a  Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC), incluindo a proteção às populações de recente contato como os Zo’é. A Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema (FPEC) foi criada em 2011 (Portaria Nº 1816/PRES, de 30 de dezembro de 2011) e, desde então, segue novas diretrizes para a promoção da integridade cultural e territorial do povo Zo’é.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A regularização da TI Zo’é ==&lt;br /&gt;
Em 1987, a Funai procedeu à interdição da Área Indígena Cuminapanema/Urucuriana, com uma extensão de aproximadamente 2.059.700 hectares, ao sul do [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3885 Parque Indígena de Tumucumaque], nos municípios de Alenquer e Óbidos, Pará ([https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/ZED00005.pdf Portaria nº 4.098 de 30/12/1987]). A interdição visava dar condições de trabalho à equipe da Funai, para o reconhecimento de numerosas referências de indígenas  isolados levantadas pelo então DII. Na época, a Funai já conhecia a presença dos Zo’é, através de informações repassadas pela Missão Novas Tribos, que havia localizado este povo em 1982.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Zo'é trabalhando na construção de novas casas, Leonardo Viana Braga, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/9/0_eedce20393fa4de/52690scr_4bbc991f8b7ca54.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os trabalhos de identificação e delimitação da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3927 Terra Indígena Zo'é] aconteceram entre 1996 e 1998, com a participação ativa dos Zo’é e de vários técnicos e especialistas, em muitas etapas. A primeira, de estudos antropológicos, incluiu a preparação da comunidade para que os Zo’é pudessem acompanhar todos os procedimentos da regularização de seu território. A Portaria nº 309 de 04/04/1997 constituiu o Grupo de Trabalho cujo [https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/ZED00014.pdf relatório de identificação e delimitação] foi submetido à aprovação da Funai em novembro de 1998.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A demarcação física da Terra Indígena, com 668.565 hectares, foi realizada entre 1999 e 2000, por uma empresa contratada pela Funai. Contrariamente ao acordado com os Zo’é durante os trabalhos de identificação, eles não puderam acompanhar os trabalhos demarcatórios e foram mantidos alheios ao processo de regularização de seu território. Após a revisão de erros na delimitação do limite sul, a homologação e o registro no Serviço de Patrimônio da União (SPU), a demarcação da Terra Indígena foi finalmente  consagrada por decreto presidencial (s/n), publicado no Diário Oficial da União (DOU) em 22 de dezembro de 2009.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2008, a pedido do Ministério Público Federal, foi criada uma faixa de amortecimento em volta da Terra Indígena, a Zona Intangível das Florestas Estaduais (FES) [https://uc.socioambiental.org/pt-br/arp/4641 Trombetas] e [https://uc.socioambiental.org/pt-br/arp/4642 Paru]. Essa área não poderia receber nenhum tipo de exploração econômica para evitar a contaminação dos indígenas em situação de recente contato. Com a aprovação do Plano de Manejo da FES do Trombetas pelo Conselho Estadual de Meio Ambiente do Pará, a faixa foi incorporada no zoneamento da Unidade de Conservação. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Iniciativas dos Zo’é consolidam novos rumos ==&lt;br /&gt;
Durante vinte anos, a atuação do órgão indigenista se centrou em manter os Zo’é afastados das relações com os não indígenas e suas tecnologias, evitando também qualquer encontro com povos indígenas vizinhos. Mas em 2010, os Zo’é tomaram a iniciativa de romper a aliança que mantinham com a equipe da Frente de Proteção da Funai e saíram da terra demarcada para buscar mercadorias que lhes eram recusadas em seu território. Um grupo se dirigiu ao Norte, ao encontro dos Tiriyó no Rio Marapi, e outro se dirigiu aos Campos Gerais, além do limite Sul da Terra Indígena, onde trabalharam com coletores de castanha. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Voltaram trazendo espingardas velhas, redes de &amp;lt;em&amp;gt;nylon&amp;lt;/em&amp;gt;, roupas usadas e alguns gêneros alimentícios, além de várias pessoas doentes. A experiência rendeu importantes aprendizados no que toca aos modos de relação com seus vizinhos, indígenas e não indígenas, e resultou na revisão da política de proteção da TI Zo’é – até então fundada na manutenção de um rígido “isolamento” e na contenção de seus pedidos de acesso não só às mercadorias como a conhecimentos sobre o modo de vida dos não indígenas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi nesse contexto que o [https://institutoiepe.org.br/ Instituto Iepé] estabeleceu, em 2016, uma parceria com a nova gestão da Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema (FPEC), visando criar alternativas para que os Zo’é acessassem informações e experiências que lhes permitissem compreender e se posicionar frente aos interesses dos diferentes setores da sociedade brasileira. Buscou-se atender às demandas dos Zo’é, através de um conjunto de ações educativas e de apoio às suas próprias iniciativas de vigilância territorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Planejando o futuro e a proteção do território ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em novembro de 2019, os Zo'é pactuaram seu Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da TI Zo'é, onde definem suas prioridades para o futuro. “&amp;lt;em&amp;gt;Jo’e rekoha bokitute ram&amp;lt;/em&amp;gt; – Planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro” foi o título escolhido pelos Zo’é para esse plano de gestão, onde explicitam as diretrizes para a proteção de seu território e de seu modo de vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Foto: Transporte de canoa recém construída pelos Zo'é, Hugo Prudente, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/6_92ae3e7baf9ad67/52686scr_d2b118ef8ea028d.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas atividades realizadas para a construção do PGTA, entre 2016 e 2019, confirmou-se a mudança de foco nos interesses dos Zo’é. Menos inquietos em garantir abastecimento de objetos dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;, estavam mobilizados para ampliar sua circulação pelo território, não só reconhecendo áreas ocupadas pelos antigos, como abrindo novos percursos para avaliar as reservas de caça e pesca e as possibilidades de abertura de novos assentamentos. No documento, os Zo’é afirmam: “Queremos que nossos filhos sigam ocupando vastamente o nosso território”, colocando o processo de dispersão de aldeias como um dos fundamentos do bem viver. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa mobilidade promoveu novas incursões e a vigilância mais sistemática em áreas fartas em recursos, como os grandes castanhais no Sul e em outras porções do território. Uma das diretrizes do PGTA dedica especial atenção à vigilância dessa região, que foi invadida por castanheiros em 2018 e que, desde então, vem sendo ocupada por aldeias novas e acampamentos. Como escreveram os Zo’é no documento: “Nós, coletando essa castanha, invasores não virão mesmo. Aqui é nossa terra, a castanha está na nossa terra. Tem castanha na terra dos não índios, essa deve ser a castanha deles. Essa aqui é nossa castanha. Estamos falando duramente agora”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
“Fazer saber o nosso território” é uma afirmação e um objetivo a ser buscado, articulando ações de vigilância e de ocupação. Mobiliza concepções importantes da territorialidade zo’e, como o zelo pelos lugares habitados, a articulação entre os diversos grupos familiares na abertura de uma nova aldeia e o caráter regular das idas e vindas implicadas em uma iniciativa de expansão territorial. Nesse movimento, os grupos territoriais se reestruturam, mantendo suas diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
Confira aqui o [https://institutoiepe.org.br/2022/05/plano-de-gestao-territorial-e-ambiental-zoe/ PGTA &amp;lt;em&amp;gt;Jo’e Rekoha Bokituteha Ram&amp;lt;/em&amp;gt; – Planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro]!&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== População e proliferação de aldeias ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Distribuição de bebida ''sepy'' durante uma festa dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/7/4/6_cd584b0ad074849/52746scr_dcd3b057e91c8af.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A população Zo'é praticamente dobrou nos últimos trinta anos: eram 172 em 1998, à época da identificação da TI. Em 2011 eram 261 e hoje são 350 pessoas (Iepé, 2025). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Zo'é subdividem-se em dois grandes grupos, respectivamente situados ao Norte e ao Sul da Base da Funai, em que se distribuem os 19 grupos locais (&amp;lt;em&amp;gt;iwana&amp;lt;/em&amp;gt;), que circulam em determinadas áreas territoriais, onde estão suas aldeias antigas e recentes, além de acampamentos. Os &amp;lt;em&amp;gt;Iwana&amp;lt;/em&amp;gt; agregados de famílias extensas, atualmente em número de 31, que vivem em aldeias próximas, e cuja composição sofre constantes alterações em função das alianças matrimoniais e das parcerias estabelecidas para ocupar novas áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos últimos dez anos, ocorreu um processo de proliferação de aldeias muito significativo. Na época da instalação da Funai em 1991, eram apenas quatro; eram cinco em 1998, 12 em 2011 e hoje existem 62 aldeias. Configuram conjuntos de pequenas aldeias ocupadas de forma intermitente por famílias extensas que vivem em lugares próximos e circulam entre seus vários assentamentos, em função da fartura de recursos e dos cuidados das roças. Essa intensa mobilidade está relacionada ao apoio logístico que recebem tanto da FPE-Funai como do Iepé, com uma rede de radiofonia em praticamente todas as aldeias. Merece destaque o fato de que, nos últimos anos, os Zo’é têm optado por fabricar suas próprias canoas em madeira de aroeira, preferidas – por enquanto – às voadeiras de alumínio, não só difíceis de transportar até a TI, como exigindo manutenção custosa. Aprenderam a fabricar canoas num intercâmbio que levou especialistas do povo [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Waiwai Waiwai] para a TI Zo’é em 2017 e, desde então, cada família procura construir sua própria embarcação, na qual são instalados os motores rabeta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Estações e ritmos da vida ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Indígenas zo'é finalizando uma rede de fibra de castanheira, Flora Dias Cabalzar, 2016.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/5_7ed184682c27e1c/52685scr_a5f3ac836c6e409.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma das principais características do modo de vida dos Zo’é, até hoje, é a intensa mobilidade das famílias pelo território. Todos têm acesso aos recursos florestais sem esgotá-los, uma vez que as atividades de cultivo das roças, de caça, pesca e coleta são feitas em pequena escala, pelas diferentes famílias, em áreas distintas. É também nesses movimentos que os Zo’é atualizam o exímio conhecimento acumulado sobre seu território, constantemente percorrido através de uma intrincada rede de caminhos entre aldeias, capoeiras e locais de coleta de itens necessários no dia a dia, tanto para alimentação como para a fabricação de utensílios.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um modo de vida que garante aos Zo’é uma alimentação exclusivamente composta de sua produção agrícola, da caça, pescado e frutas. Também merece destaque o fato de os Zo’é não utilizarem espingardas, mas sim seus arcos, flechas e arpões, complementados com anzóis e linhas de pesca industrializadas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Homem zo'é cuidando de flechas, Dominique Tilkin Gallois, 2023.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/7_234521b7fa212cf/162427scr_wm_3c5190633e93dd0.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O caráter sazonal de alguns recursos dos quais os Zo’é se utilizam conforma a dinâmica de circulação das famílias pelo território e também repercute nos movimentos de aproximação e distanciamento entre essas famílias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É no tempo das chuvas, de fevereiro a julho, que acontecem os períodos mais prolongados de dispersão das famílias pelo território, quando são realizadas grandes caçadas, principalmente de macaco-aranha e de tucano. No início das chuvas, as famílias também se deslocam para a beira de igarapés e hoje também de rios maiores, aproveitando o volume das águas para caçar urubu-rei, usando peixes podres como iscas. Instalados nos acampamentos, os Zo’é retornam às aldeias para buscar farinha, preparada com antecedência e estocada nas casas; quando ela acaba, permanecem alguns dias para preparar mais farinha, beiju e tapioca.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O período ideal para a caça de ''kwata'' (macaco-aranha, coatá ou coamba) vai de março a maio, período denominado ''kwata ike'', quando estão gordos. Montam-se acampamentos específicos, de onde os homens saem para as serras, em busca dos macacos. No final desse período, em maio, tucanos, araras e papagaios já estão comendo frutas de palmeiras. É a estação chamada de ''token ike'', do “tucano gordo”, que dura cerca de um mês e meio, quando bandos numerosos de aves vêm comer patauá ou açaí, em locais de concentração de frutas. Já é no final da estação chuvosa e início da estação seca que os porcos queixadas e caititus estão gordos, motivando saídas frequentes de grupos de homens às trilhas das varas de porcos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Moça zo'é preparando leite de castanha, Dominique Tilkin Gallois, 2023.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/9_d567041deb9c12a/162429scr_wm_697db62eab28f2f.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre os recursos mais valorizados nesse calendário do tempo das chuvas, a castanha-do-Brasil é um alimento básico na dieta. Os Zo’é colhem os ouriços a partir de janeiro e consomem amêndoas em profusão durante toda a estação chuvosa; durante o verão, colhem ouriços ainda verdes e continuam comendo castanha o ano todo, em preparos diversos com produtos da mandioca ou carnes. Como é também nesse período que muitas frutas amadurecem, é comum interromperem o movimento de dispersão entre acampamentos para fazer festas, quando se distribui grande quantidade de bebida fermentada ''sepy''.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A estação seca, de final de julho até o início de janeiro, é marcada pelo trabalho nas roças. É quando a vida nas aldeias se intensifica, sendo um período de maior aproximação entre grupos familiares. Isso não significa que as famílias não mantenham, no verão, outras atividades que as leve a deixar a aldeia. Saem para buscar frutas da estação, como o açaí que é trazido em grandes cachos. Mas sobretudo saem para pescar com timbó, com anzóis, ou ainda com flecha ou zagaia. No verão, também acontecem expedições de caça, em geral mais curtas e só entre homens, já que as mulheres ficam nas aldeias cuidando das roças. Além disso, como muitas famílias mantêm cultivos em mais de uma aldeia, deslocam-se para dar conta de todas as roças. O corte, queima e limpeza das roças se prolonga até dezembro, meados de janeiro, quando a castanha está de novo madura, e os Zo’é limpam a roça da mandioca que brotou e fazem novo plantio. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Refeição familiar dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017.&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/9_9e70545c4b7fee0/52689scr_5d2f4b741f6cd92.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A mandioca é o principal cultivo, com uma variedade de produtos: farinha, beiju, tapioca, tucupi. As mulheres, inclusive com colaboração dos homens para ralar as raízes, dedicam muito de seu tempo ao processamento da mandioca: descascar, ralar, espremer no tipiti, peneirar, torrar farinha. Os Zo’é também cultivam pimenta, batata-doce, cará, banana, mamão, caju, goiaba, graviola, manga, urucum, algodão, cuia, cabaça, curauá e cana de flecha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade de vida dos Zo’é decorre, portanto, desse grande acervo de saberes e práticas do cotidiano, transmitidos e aperfeiçoados ao longo das gerações. Se, nas últimas décadas, os Zo’é se apropriaram seletivamente de alguns itens industrializados, continuam valorizando suas próprias tecnologias para fabricar os artefatos que utilizam cotidianamente.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Ler e escrever na própria língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Os Zo'e durante uma oficina de Letramento, Dominique Tilkin Gallois, 2023&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/6_07c4c88f97d55fe/162426scr_wm_9578fba3a29bfe7.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre as ações educativas construídas com os Zo’é para promover a discussão e pactuação do PGTA, destacam-se as atividades de letramento, iniciadas pelo Iepé em 2017. Tanto para a formulação adequada das medidas de proteção como, sobretudo, para a apropriação duradoura deste plano, era imprescindível que os próprios Zo’é pudessem redigir e atualizar as diretrizes de gestão de seu território. Trata-se de um programa não escolar de letramento, que é concebido não apenas como um meio de apropriação da leitura e escrita – por enquanto apenas na língua zo’é – e a iniciação à matemática, mas também como aproximação aos conceitos, à linguagem e às práticas relacionadas aos direitos assegurados aos povos indígenas pela [https://pib.socioambiental.org/pt/Constitui%C3%A7%C3%A3o Constituição brasileira de 1988]. É nesse sentido que as ações de letramento viabilizaram a criação da Tekohara, organização representativa do povo Zo’é, na consolidação de seu Fundo de Artesanato, o FAZ, e na construção de um [https://institutoiepe.org.br/2025/08/protocolo-de-consulta-e-consentimento-zoe/ protocolo de consulta e consentimento]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a pandemia de Covid-19, durante a qual todos os trabalhos com os Zo’é foram suspensos, consolidou-se uma turma de cerca de 40 jovens e adultos, depois separada em duas, correspondendo aos grupos do Norte e do Sul. Reúnem-se quatro vezes por ano nos Encontros de Letramento, realizados na “casa grande” da Base da Funai, em Kejã. Destacaram-se rapidamente oito jovens, que passaram a atuar como multiplicadores nas atividades de letramento, como tradutores e mais recentemente assumiram cargos na gestão da organização representativa, Tekohara. Além desses Encontros, oficinas específicas promovem a construção participativa de materiais didáticos, hoje já com mais de 20 títulos versando sobre os mais diversos temas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Todos os materiais produzidos procuram registrar as reflexões dos Zo’é sobre seu modo de vida, sobre as mudanças recentes que interferem nas formas de ocupação do território, sobre experiências novas de gestão advindas da consolidação de sua associação etc. Entre eles, destacam-se os cadernos da série ''Rekoha'', que sempre iniciam com a feitura de um mapa por um líder de grupo local, complementado por pequenos textos extraídos das conversas sobre suas iniciativas de abertura de caminhos, roças, acampamentos de caca e pesca, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra série de materiais traz resultados de uma pesquisa colaborativa sobre cantos, engajando jovens letrados e conhecedores mais idosos, que permitiu também introduzir o uso da informática, para a gestão de um acervo de cantos e de suas transcrições. Além disso, outros cadernos específicos apoiam a formação em gestão tanto da Tekohara como do Fundo de Artesanato Zo’é (FAZ). Mais recentemente, alguns cadernos trazem saberes das mulheres – que praticamente não participam das atividades de letramento – especialmente sobre o ciclo da castanha e sua culinária. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
=== Tekohara – Organização Zo’é ===&lt;br /&gt;
Após a pandemia de Covid-19, os Zo’é reativaram seu movimento de reorganização de relações com os não indígenas, inaugurado com a pactuação do PGTA, e criaram em 2022 uma organização representativa, denominada Tekohara. O nome ''Tekohara'' foi especialmente criado para a associação. Segundo os fundadores, a expressão inexiste na língua zo’é, porém remete à proteção do território, chamado em sua língua de – ''tekoha''. Constitui assim uma síntese do que consideram ser a atuação prioritária da organização, em consonância com todo o trabalho de gestão territorial que os Zo’é vêm conduzindo nos últimos anos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A assembleia de fundação reuniu praticamente toda a população zo’é, incluindo idosos e crianças. Desses, todos os maiores de 17 anos, totalizando 198 pessoas à época, se tornaram associados, que escolheram e aclamaram seus representantes para duas instâncias de gestão:  o Conselho de Chefes e a Diretoria. O primeiro é composto por ''sete iy'', principais líderes zo’é, reconhecidos pelos demais chefes de todos os subgrupos. Em 2025, a assembleia escolheu outros chefes para o conselho, hoje um total de 11, que também constituem o Conselho Fiscal da associação. A diretoria é constituída por cinco jovens letrados, que se consideram “ajudantes dos chefes” e atuam diretamente nas instâncias que exigem a leitura e escrita de documentos, a convocação e mediação de reuniões, a gestão de recursos, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2024, os chefes do conselho e os jovens da diretoria, além de outros adultos interessados, construíram o protocolo de consulta e consentimento, ao longo de cinco oficinas e de várias reuniões de apresentação e aprovação do documento, publicado em duas línguas, em 2025. Afirmam, neste protocolo: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
“Temos nos reunido regularmente para conversar e com isso nossa associação está firme, porque discutimos todos os assuntos importantes. Como consolidamos nosso próprio jeito de fazer reuniões e tomar decisões, temos clareza sobre como devemos nos posicionar sobre quem pode e quem não pode entrar em nosso território (...) É porque mantemos um mesmo entendimento sobre a proteção de nosso território que as decisões não são difíceis. É assim que alcançamos consenso entre nós todos”. – Protocolo de consulta e consentimento Zo’é (2025, pp. 14-21)&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/3_8ec6e605f080da0/162433scr_wm_6306ea1916b3650.jpg| Lideranças zo'é durante uma reunião da Tekohara, Kamikia Kisedje, 2024}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A gestão coletiva de um Fundo de Artesanato ==&lt;br /&gt;
Desde a instalação da Funai na Terra Indígena, em 1991, os Zo’é têm produzido artesanato para troca com visitantes, ainda que de modo episódico, obtendo assim diversos utensílios que foram, desde então, incorporados ao seu modo de vida. Naquele período, o Posto de Atração distribuía uma ou duas vezes por ano ferramentas, material de pesca, lanternas e pilhas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Os Zo'e durante a etiquetagem de peças comercializadas por meio do Fundo de Artesanato, Leonardo Braga, 2023&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/5_22188c531215eb0/162425scr_wm_ee3a42b7ee661ff.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já a partir de 2011, a CGIIRC-Funai passou a rever sua política de proteção, garantindo aos indígenas em situação de recém-contato novas experiências e formas de participação. Foi nesse contexto que o Fundo de Artesanato Zo’é (FAZ), foi criado em 2012, pela Frente Cuminapanema (FPEC). Tratava-se de ampliar as possibilidades de troca e assegurar maior autonomia no abastecimento de itens industrializados demandados pelos Zo’é. Sobretudo se buscou passar de um sistema de doação para um mecanismo coletivo de permutas, assegurando a distribuição de itens industrializados previamente selecionados para todas as famílias, que por sua vez entregam lotes de peças que correspondem aproximadamente ao valor dos objetos adquiridos pelo Fundo. Durante dez anos, o FAZ se consolidou sob gestão da equipe da Funai, mas desde 2022, é gerido diretamente pelos Zo’é, por meio da associação Tekohara, ainda que com algum apoio dos parceiros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O FAZ consiste num sistema de trocas que envolve todas as famílias zo’é, atendendo suas demandas por objetos industrializados. Nos últimos anos, acordou-se com os parceiros que itens como material de pesca, ferramentas, entre outros, são adquiridos através de projetos do Iepé, desonerando assim o FAZ. A lista do que deve ser comprado é aberta, mas inclui cerca de 20 itens, todos eles incorporados ao modo de vida dos Zo’é há várias décadas. A lista envolve itens de uso pessoal, como sandálias, espelhos, linhas para tipoias, sabão, panelas, tigelas, além de alguns itens necessários às atividades produtivas do cotidiano, como isqueiros, sacos para armazenar farinha e eventualmente ferramentas que não podem ser adquiridas através dos projetos dos parceiros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Tebo Zo'é segurando cumaru, Kamikia Kisedje, 2024&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/1_1085df758a31880/162431scr_wm_04d1d66a3aa490a.jpg }}&lt;br /&gt;
  &lt;br /&gt;
As famílias entregam peças de artesanato e recebem itens prévia e cuidadosamente selecionados em reuniões com os chefes de todas as aldeias. Ou seja, a um certo conjunto de artesanato vendido corresponde um certo número de itens industrializados adquiridos com o recurso da comercialização das peças. Seguindo a expressa preferência dos Zo’é, os itens são sempre comprados na quantidade que atenderá rigorosamente todas as famílias. As entregas são realizadas três a quatro vezes por ano, com itens que são escolhidos em reuniões trimestrais, para atender às necessidades do momento. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os artefatos comercializados pelo FAZ são os mesmos utilizados no cotidiano dos Zo’é e incluem trançados, recipientes em cerâmica, colheres, pentes, brincos e pulseiras. Tal seleção, entre os muitos itens da cultura material zo’é, obedece a critérios de sustentabilidade. A legislação vigente não permite a venda de plumária ou de flechas com ponta de osso, ou qualquer objeto fabricado com partes de animais. Arcos de madeira e redes feitas de fibras de castanheira tampouco são vendidos, para garantir aos Zo’é exclusividade no acesso a esses materiais essenciais em seu modo de vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar dessas restrições, os resultados do FAZ são muito promissores, não apenas por incentivar a continuidade dos saberes e práticas artesanais dos Zo’é, como por viabilizar a formação em gestão dos jovens e dos chefes. Ao se apropriar deste Fundo, os Zo’é souberam declarar e garantir critérios próprios na distribuição adequada dos bens adquiridos, em acordo com seus valores e considerações quanto às diferenças de gênero, idade e processos de aprendizagem, bem como à isonomia entre os grupos locais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além da venda de artesanato, a Tekohara também realiza a  venda de sementes de cumaru, coletadas pelas famílias envolvidas no FAZ. Desde 2019, o Fundo se beneficia ainda com a venda exclusiva dos livros da série Saberes Zo’é, atualmente com três títulos: [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Potuwa.pdf ''Potuwa pora kõ'' – O que se guarda no ''potuwa''] (2019); [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2021/07/Eremiu-rupa.-Abrindo-rocas_Trecho.pdf ''Eremi’u rupa'' – Abrindo roças] (2021) e [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Canoa-Zoe.pdf ''Ihara rape rupi'' – Pelo caminho da canoa] (2023).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/4_f91f5d08e62cbad/162424scr_wm_0c86653fd01dc21.jpg| Distribuição de sabão adquirido com recursos do FAZ, Dominique Tilkin Gallois, 2025}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;CABRAL, Ana Suely.Uma escrita para a Língua Zo'é. Brasília: Lalli/Unb/Funai, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin. De arredio a isolado : perspectivas de autonomia para os povos indígenas isolados. In: GRUPIONI, Luís Donisete Benzi (Org.). Índios no Brasil. São Paulo : Secretaria Municipal de Cultura, 1992. p. 121-34.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Essa incansável tradução : entrevista. Sexta Feira: Antropologia, Artes e Humanidades, São Paulo : Pletora, n. 6, p. 103-21, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Tupi do Cuminapanema : eles se chamam Zo'É. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1991/1995. São Paulo : Instituto Socioambiental, 1996. p. 280-7.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Zo'é. In: ASSIS, Rogério. São Paulo: Terceiro Nome, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Sobre alguns modos zo’e de fazer coletivos e lideranças”. In: FAJARDO GRUPIONI, D.; Andrade, L. M. M. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; GRUPIONI, Luís Donisete Benzi. O índio na Missão Novas Tribos. In: WRIGHT, Robin (Org.). Transformando os Deuses : os múltiplos sentidos da conversão entre os povos indígenas no Brasil. Campinas : Unicamp, 1999. p. 77-130.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
GALLOIS, Dominique Tilkin; BRAGA, Leonardo Viana; PEDREIRA, H. P. S. 2020 Construindo o Plano de Gestão Territorial e Ambiental com os Zo’é. In: Luis Donizete Benzi Grupioni (org.). Em busca do bem viver: Experiências de elaboração de Planos de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas. São Paulo: Rede de Cooperação Amazônica, 1. ed., v. 1.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. A redescoberta dos amáveis selvagens. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1987/88/89/90. São Paulo : Cedi, 1991. p. 209-14. (Aconteceu Especial, 18)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; HAVT, Nadja. Relatório de identificação da Terra Indígena Zo'é : Portaria 309/PRES/Funai - 04.04.97. São Paulo : Funai, 1998.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;HAVT, Nadja. De algumas questões sobre a participação de “índios isolados” no processo de regularização fundiária : o exemplo dos Zo’É. In: GRAMKOW, Márcia Maria (Org.). Demarcando terras indígenas II : experiências e desafios de um projeto de parceria. Brasília : Funai/PPTAL/GTZ, 2002. p. 85-94.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Representações do Ambiente e da Territorialidade entre os Zo’é/PA. Dissertação de Mestrado. FFLCH/USP, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;Iepé &amp;amp; FPEC/Funai. Jo’e bokitute ram: planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro. Plano de Gestão Territorial e Ambiental da TI Zo’é. São Paulo: Iepé, 2019.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
BRAGA, Leonardo Viana. Micropeças sobre gênero e caçada junto aos Zo’é. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas:&lt;br /&gt;
índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. ''Pani'em'': um esboço sobre os modos de saber entre os Zo'é. Dissertação de mestrado. FFLCH/USP, 2017.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Eremi'u rupa. Abrindo roças. 1. ed. São Paulo: Série Saberes Zo'é - Iepé, FPEC/Funai &amp;amp; Fundo de Artesanato Zo'é (FAZ), 2021. v. 2. 189p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
BRAGA, Leonardo Viana; PEDREIRA, Hugo Prudente S.; CABALZAR, Flora Dias. 2020. 'Fazer saber a própria terra'. In: Nelson Russo de Moraes; Leila Adriana Baptaglin; Lamounier Erthal Vilella; Alexandre de Castro Campos; Raoni Fernandes Azerêdo. (Org.). Povos Originários e Comunidades Tradicionais: trabalhos de pesquisa e de extensão universitária – volume 4, 1ed.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; &lt;br /&gt;
PEDREIRA, Hugo Prudente da Silva. ''Potuwa pora kõ'' - o que se guarda no ''potuwa. 1''. ed. São Paulo: Instituto de Pesquisa e Formação Indígena - Iepé, 2019. v. 1. 148p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; RIBEIRO, Fabio N. “Os Zo’é e as metamorfoses do fundamentalismo evangélico”. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Encontros Zo’é nas Guianas. Tese de doutorado. FFLCH/USP, 2019.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. ''Ihara Rape Rupi'': pelo caminho da canoa. 1. ed. São Paulo: Iepé - Instituto de Pesquisa e Formação Indígena, 2023. v. 1. 132p .&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
Cuidado ao editar esta seção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bloco &amp;quot;&amp;lt;noinclude&amp;gt;&amp;quot; usado para evitar que propriedades sejam propagadas em páginas transcluídas:&lt;br /&gt;
Detalhes em http://www.mediawiki.org/wiki/Transclusion#Semantic_MediaWiki&lt;br /&gt;
--&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Zo'é}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Dominique T. Gallois}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
{{#set:Capa=162430scr_wm_9d03db1dcc7a9e9.jpg}}&lt;br /&gt;
{{#set:Counter=61505}}&lt;br /&gt;
{{#set:Crédito capa=Kamikia Kisedje, 2024}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=1997-01-01}}&lt;br /&gt;
{{#set:Estilo=claro}}&lt;br /&gt;
{{#set:Povo Id=321}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas no Pará]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8525</id>
		<title>Povo:Zo'é</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8525"/>
		<updated>2025-10-20T18:10:34Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: /* Planejando o futuro e a proteção do território */&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Vivem numa área de densas florestas, entre os rios Cuminapanema e Erepecuru, no Norte do Pará. Os Zo’é convivem com agentes de assistência há quase quatro décadas, mantendo vigorosamente suas formas de organização social e territorial. Este povo em situação de recente contato vem se mobilizando para implementar o PGTA da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3927 TI Zo'é] e seu protocolo de consulta. Através da sua organização representativa, a Tekohara, fortalecem a gestão de um Fundo de Artesanato, um mecanismo original de trocas coletivas.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
== Nome e língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Os Zo'é durante uma oficina de Letramento, Dominique Gallois, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/4_f54a65283e04d93/52684scr_8d884e9b4241947.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pronome &amp;lt;em&amp;gt;jo’é&amp;lt;/em&amp;gt; [zo’é], “nós mesmos”, se consolidou como uma autodenominação que diferencia este povo dos não indígenas, chamados &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;. Já outros povos indígenas são chamados de “&amp;lt;em&amp;gt;amõ jo’é&amp;lt;/em&amp;gt;” (outros, como nós). No final dos anos 1980, quando começaram a conviver com missionários e com servidores da Funai, esse termo não era usado para designar a eles mesmos, mas para identificar qualquer pessoa que adquirisse alguma proximidade e que passasse, então, a ser considerada “gente como nós”. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os termos &amp;lt;em&amp;gt;Poturu&amp;lt;/em&amp;gt;, ou &amp;lt;em&amp;gt;Poturujara&amp;lt;/em&amp;gt;, difundidos inicialmente por agentes da Funai como denominação do povo recém-contatado na região do Cuminapanema, designam tão somente a madeira da árvore utilizada para confeccionar os adornos labiais &amp;lt;em&amp;gt;embe’pot&amp;lt;/em&amp;gt;. “&amp;lt;em&amp;gt;Poturu!&amp;lt;/em&amp;gt;” respondiam os Zo’é, quando alguém apontava para seus rostos, buscando saber seu nome.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Zo’é são falantes de uma língua Tupi-Guarani, do tronco Tupi. A maior parte da comunidade é monolíngue, com exceção de alguns chefes e de uma dezena de jovens, que aprenderam a se comunicar em português e estão adquirindo rapidamente maior fluência, no âmbito de suas funções de gestão da &amp;lt;strong&amp;gt;Tekohara – Organização Zo’é&amp;lt;/strong&amp;gt;. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Experiências de contato e de convivência com ''kirahi'' ==&lt;br /&gt;
A área onde vivem os Zo’é situa-se em território histórico de povos de língua Karib, que ocupam as terras firmes do planalto das Guianas. Seus vizinhos mais próximos são os [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Tiriy%C3%B3 Tiriyó], ao Norte; os [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Aparai Aparai] e [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Wayana Wayana], a Leste; os quilombolas e castanheiros não indígenas ao Sul. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As fontes disponíveis sobre a região Norte do Pará não trazem informações suficientes para acompanhar a trajetória da migração dos Zo’é até seu &amp;lt;em&amp;gt;habitat&amp;lt;/em&amp;gt; atual, mas é certo que este povo tem sua origem ao sul. Essa é a direção que eles indicam quando são indagados sobre sua procedência antiga, embora a localização das aldeias de antepassados longínquos não seja assunto de grande interesse.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como ocorre na tradição oral das sociedades indígenas que mantêm contatos antigos com a população regional, a presença de não indígenas acaba sendo integrada ao tempo mítico. Os Zo’é não questionam nem a origem, nem os movimentos dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;, ou dos povos inimigos: todos eles, simplesmente, sempre existiriam. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diz-se, inclusive, que quando &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt; recriou a humanidade, não precisou refazer os não indígenas, que não haviam sido engolidos pelo dilúvio: eles já existiam, mas estavam longe, “na borda da terra”. Elementos históricos são agregados ao mito, associando o evento da recriação a contatos interétnicos. O fogo que destruiu a terra foi provocado por inimigos, habitantes do Leste; para alcançar as ossadas dos humanos destruídos pelo dilúvio, o herói vem do Sul, flutuando em um recipiente típico dos não indígenas: um corote de gasolina. Depois, cada um volta a ocupar seu espaço: os não indígenas ficam no Sul; os Zo’é nas serras, longe dos rios; os inimigos a Leste.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/Jipohan_%C3%A9_gente_como_voc%C3%AA “Jipohan é gente como você”, por Jurusi uhu, Pa'hi e Tatitu Zo'é]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/763735-2/DSC_3332_edit.JPG|Jurusi uhu Zo'é. Foto: Dominique Tilkin Gallois&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Era comum, nos anos 1990, os Zo’é perguntarem aos visitantes: “Vocês viram onde está &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt;, aquele herói que revitalizou seus ancestrais juntando ossos dos flagelados pelo último cataclismo?” Os Zo’é consideravam &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt; como um &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;. Após sua façanha de recriação, ele voltou para sua terra de origem, no Sul. É descrito usando roupas, escrevendo, usando canoa com motor, gravador, injeções e ferramentas diversas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como é comum na elipse temporal que o mito efetua, os Zo’é atualizam suas tradições com ingredientes extraídos de sua experiência do passado e de suas expectativas de futuro. Razão pela qual, na morada celeste dos mortos, os ex-Zo’é têm acesso irrestrito à mercadorias, inclusive espingardas, que lhes são fornecidas por alguns ex-&amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; generosos – como foi um servidor da Funai, Isidoro, que segue lhes trazendo mercadorias desejadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como ocorreu em muitos lugares, os eventos do contato dos Zo’é com missionários e depois com servidores da Funai envolveu diretamente a questão do acesso às mercadorias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Luis Donisete B. Grupioni/1989&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281189-1/zoe_7.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os então chamados “Índios do Cuminapanema” foram apresentados ao mundo em 1989, em reportagens que enfatizavam sua “pureza” e “fragilidade” e os descreviam como um dos últimos povos “intactos” na Amazônia. E justamente por serem um dos raros grupos ainda “não atingidos” nem pela mensagem evangélica, nem pela assistência oficial, os Zo’é atraíram a atenção da Missão Novas Tribos (MNT), que iniciou seu trabalho na região em 1982. Foram necessários cinco anos de sucessivas aproximações e recuos para “pacificar” os Zo’é – até que em 1987 os missionários  instalaram a Base Esperança na porção sul da atual TI Zo’é. Ali, passaram a controlar sozinhos o processo de acomodação dos Zo’é à nova situação, até a Funai assumir a área em 1991.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, os Zo’é já tinham experiências de encontro com não indígenas desde muito tempo. Relatam inclusive a saída de uma mulher que viajou até Santarém, de onde acabou voltando, provavelmente no final do século XIX.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
No final dos anos 1960, o território zo’é passou a ser percorrido por caçadores de felinos, conhecidos como “gateiros”. Nesse período, os Zo’é encontravam em suas trilhas, gaiolas, ferramentas abandonadas, restos de acampamentos. Também encontravam vestígios de coletores de castanha. Eram contatos indiretos, ou, como dizem os Zo’é, “sem carne/sem corpo”, pois não viam os forasteiros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Dominique Gallois, 1991&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281182-1/zoe_4.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1975, eles foram surpreendidos por visitas mais espetaculares, quando um helicóptero do Instituto de Estudos e Pesquisas do Pará despejou embrulhos com roupas e objetos sobre a aldeia Kejã. Foi também com presentes lançados do céu, ou dependurados no caminho das aldeias, que os membros da Missão Novas Tribos se aproximaram. Entre 1982 e 1987, eles estiveram várias vezes em acampamentos ou aldeias, saindo rapidamente. Segundo os Zo’é, muitas pessoas ficavam doentes na sequência dessas visitas e, como demoravam meses para voltar, as pessoas acometidas por doenças pulmonares morriam. Eles também relatam que resolveram se deslocar rumo ao Sul, em busca de uma explicação para esse “sopro” de doenças e para pegar mais objetos, chegando finalmente à Base Esperança em outubro de 1987, data oficial do “contato” com a MNT. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
===Terçados, epidemia e mortes===&lt;br /&gt;
{{Lead |por '''Fábio Ribeiro'''}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As notícias trazidas sobre os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; que davam facões e machados logo se espalharam pelas aldeias e em pouco tempo muitos Zo’é foram atrás dos missionários. Como não havia ferramentas para todos, o clima logo ficou tenso. Os homens que não pegaram facões ficaram bravos, bateram nas paredes entraram e saquearam a casa dos missionários, na localidade de Kuruaty. Esses, com muito medo, foram embora. As doenças, no entanto, ficaram. É nesse período que tem início a epidemia que em poucos dias tirou a vida muitas outras pessoas zo’é. “&amp;lt;em&amp;gt;Kirahi rahy ate juke&amp;lt;/em&amp;gt;. Foi a doença dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; que matou”. O relato de Hun, um atual chefe Zo’é é claro ao afirmar que a epidemia teve início logo após o encontro de Tun e Dubehaj com os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; e que, apenas muito tempo depois, quando encontraram Sera’yt (em 1987), é que os missionários trouxeram injeções com remédios, mas não vacinas. Hun, ainda criança nessa época, foi duramente afetado: seu pai, sua mãe e alguns de seus irmãos morreram na maloca de Pirity. “Naquele tempo os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; foram embora mesmo. Depois os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; pensaram de novo, queriam ver os Zo’é de novo, aí os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; voltaram. Foi então nessa época que encontraram Sera’yt (...) e ficaram alegres. Naquela época os Zo’é tinham mandado embora, então os kirahi pensaram, aí abriram o caminho novamente. Passaram-se muitas luas naquele tempo, e aí os missionários voltaram.” – Adaptado de &amp;lt;em&amp;gt;Kampugerau: crônica de um movimento zo’é &amp;lt;/em&amp;gt;, 2024&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após essa notícia, a Funai criou o PINC Cuminapanema, subordinado à 4ª SUER/Funai em Belém (Portaria nº 1.061, de 22 de maio de 1987). No ano seguinte, o convênio 008/1998 celebrado entre a Funai e a MNT vedava sua atuação em áreas de indígenas isolados. Mas a Missão não se retirou e continuou seu trabalho junto aos Zo’é. Até que, em janeiro de 1989, a Missão alertou a Funai sobre a precária situação de saúde dos Zo’é. O sertanista Sidney Possuelo conseguiu apoio da imprensa e pôde assim realizar uma primeira visita à área. Numa segunda viagem, pouco tempo depois, a equipe da Funai verificou que a situação de saúde estava piorando e começou então a planejar um trabalho mais sistemático. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante mais de um ano, os Zo’é assistiram à convivência tensa entre as equipes da Funai e da Missão Novas Tribos, cada uma com sua base, entre as quais eles continuaram circulando para obter remédios e objetos industrializados. Quando conseguiu recursos e pessoal adequados para assumir um trabalho de assistência que abrangesse a totalidade das quatro aldeias existentes na época, a Funai retirou os missionários da área, em outubro de 1991. A partir desse momento, os sucessivos responsáveis pelo PINC Cuminapanema, orientados pelo então Departamento de Índios Isolados (DII), da Funai, passaram a desempenhar  ações de proteção do povo Zo’é e de sua terra, em formatos que variaram sensivelmente ao longo dos anos. Foi somente a partir de dezembro de 2009, com a reestruturação da Funai, que o órgão indigenista instituiu a  Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC), incluindo a proteção às populações de recente contato como os Zo’é. A Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema (FPEC) foi criada em 2011 (Portaria Nº 1816/PRES, de 30 de dezembro de 2011) e, desde então, segue novas diretrizes para a promoção da integridade cultural e territorial do povo Zo’é.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A regularização da TI Zo’é ==&lt;br /&gt;
Em 1987, a Funai procedeu à interdição da Área Indígena Cuminapanema/Urucuriana, com uma extensão de aproximadamente 2.059.700 hectares, ao sul do [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3885 Parque Indígena de Tumucumaque], nos municípios de Alenquer e Óbidos, Pará ([https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/ZED00005.pdf Portaria nº 4.098 de 30/12/1987]). A interdição visava dar condições de trabalho à equipe da Funai, para o reconhecimento de numerosas referências de indígenas  isolados levantadas pelo então DII. Na época, a Funai já conhecia a presença dos Zo’é, através de informações repassadas pela Missão Novas Tribos, que havia localizado este povo em 1982.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Zo'é trabalhando na construção de novas casas, Leonardo Viana Braga, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/9/0_eedce20393fa4de/52690scr_4bbc991f8b7ca54.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os trabalhos de identificação e delimitação da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3927 Terra Indígena Zo'é] aconteceram entre 1996 e 1998, com a participação ativa dos Zo’é e de vários técnicos e especialistas, em muitas etapas. A primeira, de estudos antropológicos, incluiu a preparação da comunidade para que os Zo’é pudessem acompanhar todos os procedimentos da regularização de seu território. A Portaria nº 309 de 04/04/1997 constituiu o Grupo de Trabalho cujo [https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/ZED00014.pdf relatório de identificação e delimitação] foi submetido à aprovação da Funai em novembro de 1998.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A demarcação física da Terra Indígena, com 668.565 hectares, foi realizada entre 1999 e 2000, por uma empresa contratada pela Funai. Contrariamente ao acordado com os Zo’é durante os trabalhos de identificação, eles não puderam acompanhar os trabalhos demarcatórios e foram mantidos alheios ao processo de regularização de seu território. Após a revisão de erros na delimitação do limite sul, a homologação e o registro no Serviço de Patrimônio da União (SPU), a demarcação da Terra Indígena foi finalmente  consagrada por decreto presidencial (s/n), publicado no Diário Oficial da União (DOU) em 22 de dezembro de 2009.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2008, a pedido do Ministério Público Federal, foi criada uma faixa de amortecimento em volta da Terra Indígena, a Zona Intangível das Florestas Estaduais (FES) [https://uc.socioambiental.org/pt-br/arp/4641 Trombetas] e [https://uc.socioambiental.org/pt-br/arp/4642 Paru]. Essa área não poderia receber nenhum tipo de exploração econômica para evitar a contaminação dos indígenas em situação de recente contato. Com a aprovação do Plano de Manejo da FES do Trombetas pelo Conselho Estadual de Meio Ambiente do Pará, a faixa foi incorporada no zoneamento da Unidade de Conservação. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Iniciativas dos Zo’é consolidam novos rumos ==&lt;br /&gt;
Durante vinte anos, a atuação do órgão indigenista se centrou em manter os Zo’é afastados das relações com os não indígenas e suas tecnologias, evitando também qualquer encontro com povos indígenas vizinhos. Mas em 2010, os Zo’é tomaram a iniciativa de romper a aliança que mantinham com a equipe da Frente de Proteção da Funai e saíram da terra demarcada para buscar mercadorias que lhes eram recusadas em seu território. Um grupo se dirigiu ao Norte, ao encontro dos Tiriyó no Rio Marapi, e outro se dirigiu aos Campos Gerais, além do limite Sul da Terra Indígena, onde trabalharam com coletores de castanha. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Voltaram trazendo espingardas velhas, redes de &amp;lt;em&amp;gt;nylon&amp;lt;/em&amp;gt;, roupas usadas e alguns gêneros alimentícios, além de várias pessoas doentes. A experiência rendeu importantes aprendizados no que toca aos modos de relação com seus vizinhos, indígenas e não indígenas, e resultou na revisão da política de proteção da TI Zo’é – até então fundada na manutenção de um rígido “isolamento” e na contenção de seus pedidos de acesso não só às mercadorias como a conhecimentos sobre o modo de vida dos não indígenas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi nesse contexto que o [https://institutoiepe.org.br/ Instituto Iepé] estabeleceu, em 2016, uma parceria com a nova gestão da Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema (FPEC), visando criar alternativas para que os Zo’é acessassem informações e experiências que lhes permitissem compreender e se posicionar frente aos interesses dos diferentes setores da sociedade brasileira. Buscou-se atender às demandas dos Zo’é, através de um conjunto de ações educativas e de apoio às suas próprias iniciativas de vigilância territorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Planejando o futuro e a proteção do território ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em novembro de 2019, os Zo'é pactuaram seu Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da TI Zo'é, onde definem suas prioridades para o futuro. “&amp;lt;em&amp;gt;Jo’e rekoha bokitute ram&amp;lt;/em&amp;gt; – Planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro” foi o título escolhido pelos Zo’é para esse plano de gestão, onde explicitam as diretrizes para a proteção de seu território e de seu modo de vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Foto: Transporte de canoa recém construída pelos Zo'é, Hugo Prudente, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/6_92ae3e7baf9ad67/52686scr_d2b118ef8ea028d.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas atividades realizadas para a construção do PGTA, entre 2016 e 2019, confirmou-se a mudança de foco nos interesses dos Zo’é. Menos inquietos em garantir abastecimento de objetos dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;, estavam mobilizados para ampliar sua circulação pelo território, não só reconhecendo áreas ocupadas pelos antigos, como abrindo novos percursos para avaliar as reservas de caça e pesca e as possibilidades de abertura de novos assentamentos. No documento, os Zo’é afirmam: “Queremos que nossos filhos sigam ocupando vastamente o nosso território”, colocando o processo de dispersão de aldeias como um dos fundamentos do bem viver. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa mobilidade promoveu novas incursões e a vigilância mais sistemática em áreas fartas em recursos, como os grandes castanhais no Sul e em outras porções do território. Uma das diretrizes do PGTA dedica especial atenção à vigilância dessa região, que foi invadida por castanheiros em 2018 e que, desde então, vem sendo ocupada por aldeias novas e acampamentos. Como escreveram os Zo’é no documento: “Nós, coletando essa castanha, invasores não virão mesmo. Aqui é nossa terra, a castanha está na nossa terra. Tem castanha na terra dos não índios, essa deve ser a castanha deles. Essa aqui é nossa castanha. Estamos falando duramente agora”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
“Fazer saber o nosso território” é uma afirmação e um objetivo a ser buscado, articulando ações de vigilância e de ocupação. Mobiliza concepções importantes da territorialidade zo’e, como o zelo pelos lugares habitados, a articulação entre os diversos grupos familiares na abertura de uma nova aldeia e o caráter regular das idas e vindas implicadas em uma iniciativa de expansão territorial. Nesse movimento, os grupos territoriais se reestruturam, mantendo suas diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
Confira aqui o [https://institutoiepe.org.br/2022/05/plano-de-gestao-territorial-e-ambiental-zoe/ PGTA &amp;lt;em&amp;gt;Jo’e Rekoha Bokituteha Ram&amp;lt;/em&amp;gt; – Planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro]!&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== População e proliferação de aldeias ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Distribuição de bebida ''sepy'' durante uma festa dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/7/4/6_cd584b0ad074849/52746scr_dcd3b057e91c8af.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A população Zo'é praticamente dobrou nos últimos trinta anos: eram 172 em 1998, à época da identificação da TI. Em 2011 eram 261 e hoje são 350 pessoas (Iepé, 2025). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Zo'é subdividem-se em dois grandes grupos, respectivamente situados ao Norte e ao Sul da Base da Funai, em que se distribuem os 19 grupos locais (&amp;lt;em&amp;gt;iwana&amp;lt;/em&amp;gt;), que circulam em determinadas áreas territoriais, onde estão suas aldeias antigas e recentes, além de acampamentos. Os &amp;lt;em&amp;gt;Iwana&amp;lt;/em&amp;gt; agregados de famílias extensas, atualmente em número de 31, que vivem em aldeias próximas, e cuja composição sofre constantes alterações em função das alianças matrimoniais e das parcerias estabelecidas para ocupar novas áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos últimos dez anos, ocorreu um processo de proliferação de aldeias muito significativo. Na época da instalação da Funai em 1991, eram apenas quatro; eram cinco em 1998, 12 em 2011 e hoje existem 62 aldeias. Configuram conjuntos de pequenas aldeias ocupadas de forma intermitente por famílias extensas que vivem em lugares próximos e circulam entre seus vários assentamentos, em função da fartura de recursos e dos cuidados das roças. Essa intensa mobilidade está relacionada ao apoio logístico que recebem tanto da FPE-Funai como do Iepé, com uma rede de radiofonia em praticamente todas as aldeias. Merece destaque o fato de que, nos últimos anos, os Zo’é têm optado por fabricar suas próprias canoas em madeira de aroeira, preferidas – por enquanto – às voadeiras de alumínio, não só difíceis de transportar até a TI, como exigindo manutenção custosa. Aprenderam a fabricar canoas num intercâmbio que levou especialistas do povo [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Waiwai Waiwai] para a TI Zo’é em 2017 e, desde então, cada família procura construir sua própria embarcação, na qual são instalados os motores rabeta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Estações e ritmos da vida ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Indígenas zo'é finalizando uma rede de fibra de castanheira, Flora Dias Cabalzar, 2016.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/5_7ed184682c27e1c/52685scr_a5f3ac836c6e409.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma das principais características do modo de vida dos Zo’é, até hoje, é a intensa mobilidade das famílias pelo território. Todos têm acesso aos recursos florestais sem esgotá-los, uma vez que as atividades de cultivo das roças, de caça, pesca e coleta são feitas em pequena escala, pelas diferentes famílias, em áreas distintas. É também nesses movimentos que os Zo’é atualizam o exímio conhecimento acumulado sobre seu território, constantemente percorrido através de uma intrincada rede de caminhos entre aldeias, capoeiras e locais de coleta de itens necessários no dia a dia, tanto para alimentação como para a fabricação de utensílios.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um modo de vida que garante aos Zo’é uma alimentação exclusivamente composta de sua produção agrícola, da caça, pescado e frutas. Também merece destaque o fato de os Zo’é não utilizarem espingardas, mas sim seus arcos, flechas e arpões, complementados com anzóis e linhas de pesca industrializadas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Homem zo'é cuidando de flechas, Dominique Tilkin Gallois, 2023.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/7_234521b7fa212cf/162427scr_wm_3c5190633e93dd0.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O caráter sazonal de alguns recursos dos quais os Zo’é se utilizam conforma a dinâmica de circulação das famílias pelo território e também repercute nos movimentos de aproximação e distanciamento entre essas famílias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É no tempo das chuvas, de fevereiro a julho, que acontecem os períodos mais prolongados de dispersão das famílias pelo território, quando são realizadas grandes caçadas, principalmente de macaco-aranha e de tucano. No início das chuvas, as famílias também se deslocam para a beira de igarapés e hoje também de rios maiores, aproveitando o volume das águas para caçar urubu-rei, usando peixes podres como iscas. Instalados nos acampamentos, os Zo’é retornam às aldeias para buscar farinha, preparada com antecedência e estocada nas casas; quando ela acaba, permanecem alguns dias para preparar mais farinha, beiju e tapioca.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O período ideal para a caça de ''kwata'' (macaco-aranha, coatá ou coamba) vai de março a maio, período denominado ''kwata ike'', quando estão gordos. Montam-se acampamentos específicos, de onde os homens saem para as serras, em busca dos macacos. No final desse período, em maio, tucanos, araras e papagaios já estão comendo frutas de palmeiras. É a estação chamada de ''token ike'', do “tucano gordo”, que dura cerca de um mês e meio, quando bandos numerosos de aves vêm comer patauá ou açaí, em locais de concentração de frutas. Já é no final da estação chuvosa e início da estação seca que os porcos queixadas e caititus estão gordos, motivando saídas frequentes de grupos de homens às trilhas das varas de porcos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Moça zo'é preparando leite de castanha, Dominique Tilkin Gallois, 2023.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/9_d567041deb9c12a/162429scr_wm_697db62eab28f2f.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre os recursos mais valorizados nesse calendário do tempo das chuvas, a castanha-do-Brasil é um alimento básico na dieta. Os Zo’é colhem os ouriços a partir de janeiro e consomem amêndoas em profusão durante toda a estação chuvosa; durante o verão, colhem ouriços ainda verdes e continuam comendo castanha o ano todo, em preparos diversos com produtos da mandioca ou carnes. Como é também nesse período que muitas frutas amadurecem, é comum interromperem o movimento de dispersão entre acampamentos para fazer festas, quando se distribui grande quantidade de bebida fermentada ''sepy''.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A estação seca, de final de julho até o início de janeiro, é marcada pelo trabalho nas roças. É quando a vida nas aldeias se intensifica, sendo um período de maior aproximação entre grupos familiares. Isso não significa que as famílias não mantenham, no verão, outras atividades que as leve a deixar a aldeia. Saem para buscar frutas da estação, como o açaí que é trazido em grandes cachos. Mas sobretudo saem para pescar com timbó, com anzóis, ou ainda com flecha ou zagaia. No verão, também acontecem expedições de caça, em geral mais curtas e só entre homens, já que as mulheres ficam nas aldeias cuidando das roças. Além disso, como muitas famílias mantêm cultivos em mais de uma aldeia, deslocam-se para dar conta de todas as roças. O corte, queima e limpeza das roças se prolonga até dezembro, meados de janeiro, quando a castanha está de novo madura, e os Zo’é limpam a roça da mandioca que brotou e fazem novo plantio. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Refeição familiar dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017.&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/9_9e70545c4b7fee0/52689scr_5d2f4b741f6cd92.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A mandioca é o principal cultivo, com uma variedade de produtos: farinha, beiju, tapioca, tucupi. As mulheres, inclusive com colaboração dos homens para ralar as raízes, dedicam muito de seu tempo ao processamento da mandioca: descascar, ralar, espremer no tipiti, peneirar, torrar farinha. Os Zo’é também cultivam pimenta, batata-doce, cará, banana, mamão, caju, goiaba, graviola, manga, urucum, algodão, cuia, cabaça, curauá e cana de flecha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade de vida dos Zo’é decorre, portanto, desse grande acervo de saberes e práticas do cotidiano, transmitidos e aperfeiçoados ao longo das gerações. Se, nas últimas décadas, os Zo’é se apropriaram seletivamente de alguns itens industrializados, continuam valorizando suas próprias tecnologias para fabricar os artefatos que utilizam cotidianamente.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Ler e escrever na própria língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Os Zo'e durante uma oficina de Letramento, Dominique Tilkin Gallois, 2023&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/6_07c4c88f97d55fe/162426scr_wm_9578fba3a29bfe7.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre as ações educativas construídas com os Zo’é para promover a discussão e pactuação do PGTA, destacam-se as atividades de letramento, iniciadas pelo Iepé em 2017. Tanto para a formulação adequada das medidas de proteção como, sobretudo, para a apropriação duradoura deste plano, era imprescindível que os próprios Zo’é pudessem redigir e atualizar as diretrizes de gestão de seu território. Trata-se de um programa não escolar de letramento, que é concebido não apenas como um meio de apropriação da leitura e escrita – por enquanto apenas na língua zo’é – e a iniciação à matemática, mas também como aproximação aos conceitos, à linguagem e às práticas relacionadas aos direitos assegurados aos povos indígenas pela [https://pib.socioambiental.org/pt/Constitui%C3%A7%C3%A3o Constituição brasileira de 1988]. É nesse sentido que as ações de letramento viabilizaram a criação da Tekohara, organização representativa do povo Zo’é, na consolidação de seu Fundo de Artesanato, o FAZ, e na construção de um [https://institutoiepe.org.br/2025/08/protocolo-de-consulta-e-consentimento-zoe/ protocolo de consulta e consentimento]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a pandemia de Covid-19, durante a qual todos os trabalhos com os Zo’é foram suspensos, consolidou-se uma turma de cerca de 40 jovens e adultos, depois separada em duas, correspondendo aos grupos do Norte e do Sul. Reúnem-se quatro vezes por ano nos Encontros de Letramento, realizados na “casa grande” da Base da Funai, em Kejã. Destacaram-se rapidamente oito jovens, que passaram a atuar como multiplicadores nas atividades de letramento, como tradutores e mais recentemente assumiram cargos na gestão da organização representativa, Tekohara. Além desses Encontros, oficinas específicas promovem a construção participativa de materiais didáticos, hoje já com mais de 20 títulos versando sobre os mais diversos temas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Todos os materiais produzidos procuram registrar as reflexões dos Zo’é sobre seu modo de vida, sobre as mudanças recentes que interferem nas formas de ocupação do território, sobre experiências novas de gestão advindas da consolidação de sua associação etc. Entre eles, destacam-se os cadernos da série ''Rekoha'', que sempre iniciam com a feitura de um mapa por um líder de grupo local, complementado por pequenos textos extraídos das conversas sobre suas iniciativas de abertura de caminhos, roças, acampamentos de caca e pesca, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra série de materiais traz resultados de uma pesquisa colaborativa sobre cantos, engajando jovens letrados e conhecedores mais idosos, que permitiu também introduzir o uso da informática, para a gestão de um acervo de cantos e de suas transcrições. Além disso, outros cadernos específicos apoiam a formação em gestão tanto da Tekohara como do Fundo de Artesanato Zo’é (FAZ). Mais recentemente, alguns cadernos trazem saberes das mulheres – que praticamente não participam das atividades de letramento – especialmente sobre o ciclo da castanha e sua culinária. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
=== Tekohara – Organização Zo’é ===&lt;br /&gt;
Após a pandemia de Covid-19, os Zo’é reativaram seu movimento de reorganização de relações com os não indígenas, inaugurado com a pactuação do PGTA, e criaram em 2022 uma organização representativa, denominada Tekohara. O nome ''Tekohara'' foi especialmente criado para a associação. Segundo os fundadores, a expressão inexiste na língua zo’é, porém remete à proteção do território, chamado em sua língua de – ''tekoha''. Constitui assim uma síntese do que consideram ser a atuação prioritária da organização, em consonância com todo o trabalho de gestão territorial que os Zo’é vêm conduzindo nos últimos anos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A assembleia de fundação reuniu praticamente toda a população zo’é, incluindo idosos e crianças. Desses, todos os maiores de 17 anos, totalizando 198 pessoas à época, se tornaram associados, que escolheram e aclamaram seus representantes para duas instâncias de gestão:  o Conselho de Chefes e a Diretoria. O primeiro é composto por ''sete iy'', principais líderes zo’é, reconhecidos pelos demais chefes de todos os subgrupos. Em 2025, a assembleia escolheu outros chefes para o conselho, hoje um total de 11, que também constituem o Conselho Fiscal da associação. A diretoria é constituída por cinco jovens letrados, que se consideram “ajudantes dos chefes” e atuam diretamente nas instâncias que exigem a leitura e escrita de documentos, a convocação e mediação de reuniões, a gestão de recursos, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2024, os chefes do conselho e os jovens da diretoria, além de outros adultos interessados, construíram o protocolo de consulta e consentimento, ao longo de cinco oficinas e de várias reuniões de apresentação e aprovação do documento, publicado em duas línguas, em 2025. Afirmam, neste protocolo: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
“Temos nos reunido regularmente para conversar e com isso nossa associação está firme, porque discutimos todos os assuntos importantes. Como consolidamos nosso próprio jeito de fazer reuniões e tomar decisões, temos clareza sobre como devemos nos posicionar sobre quem pode e quem não pode entrar em nosso território (...) É porque mantemos um mesmo entendimento sobre a proteção de nosso território que as decisões não são difíceis. É assim que alcançamos consenso entre nós todos”. – Protocolo de consulta e consentimento Zo’é (2025, pp. 14-21)&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/3_8ec6e605f080da0/162433scr_wm_6306ea1916b3650.jpg| Lideranças zo'é durante uma reunião da Tekohara, Kamikia Kisedje, 2024}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A gestão coletiva de um Fundo de Artesanato ==&lt;br /&gt;
Desde a instalação da Funai na Terra Indígena, em 1991, os Zo’é têm produzido artesanato para troca com visitantes, ainda que de modo episódico, obtendo assim diversos utensílios que foram, desde então, incorporados ao seu modo de vida. Naquele período, o Posto de Atração distribuía uma ou duas vezes por ano ferramentas, material de pesca, lanternas e pilhas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Os Zo'e durante a etiquetagem de peças comercializadas por meio do Fundo de Artesanato, Dominique Gallois, 2023&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/5_22188c531215eb0/162425scr_wm_ee3a42b7ee661ff.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já a partir de 2011, a CGIIRC-Funai passou a rever sua política de proteção, garantindo aos indígenas em situação de recém-contato novas experiências e formas de participação. Foi nesse contexto que o Fundo de Artesanato Zo’é (FAZ), foi criado em 2012, pela Frente Cuminapanema (FPEC). Tratava-se de ampliar as possibilidades de troca e assegurar maior autonomia no abastecimento de itens industrializados demandados pelos Zo’é. Sobretudo se buscou passar de um sistema de doação para um mecanismo coletivo de permutas, assegurando a distribuição de itens industrializados previamente selecionados para todas as famílias, que por sua vez entregam lotes de peças que correspondem aproximadamente ao valor dos objetos adquiridos pelo Fundo. Durante dez anos, o FAZ se consolidou sob gestão da equipe da Funai, mas desde 2022, é gerido diretamente pelos Zo’é, por meio da associação Tekohara, ainda que com algum apoio dos parceiros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O FAZ consiste num sistema de trocas que envolve todas as famílias zo’é, atendendo suas demandas por objetos industrializados. Nos últimos anos, acordou-se com os parceiros que itens como material de pesca, ferramentas, entre outros, são adquiridos através de projetos do Iepé, desonerando assim o FAZ. A lista do que deve ser comprado é aberta, mas inclui cerca de 20 itens, todos eles incorporados ao modo de vida dos Zo’é há várias décadas. A lista envolve itens de uso pessoal, como sandálias, espelhos, linhas para tipoias, sabão, panelas, tigelas, além de alguns itens necessários às atividades produtivas do cotidiano, como isqueiros, sacos para armazenar farinha e eventualmente ferramentas que não podem ser adquiridas através dos projetos dos parceiros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Tebo Zo'é segurando cumaru, Kamikia Kisedje, 2024&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/1_1085df758a31880/162431scr_wm_04d1d66a3aa490a.jpg }}&lt;br /&gt;
  &lt;br /&gt;
As famílias entregam peças de artesanato e recebem itens prévia e cuidadosamente selecionados em reuniões com os chefes de todas as aldeias. Ou seja, a um certo conjunto de artesanato vendido corresponde um certo número de itens industrializados adquiridos com o recurso da comercialização das peças. Seguindo a expressa preferência dos Zo’é, os itens são sempre comprados na quantidade que atenderá rigorosamente todas as famílias. As entregas são realizadas três a quatro vezes por ano, com itens que são escolhidos em reuniões trimestrais, para atender às necessidades do momento. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os artefatos comercializados pelo FAZ são os mesmos utilizados no cotidiano dos Zo’é e incluem trançados, recipientes em cerâmica, colheres, pentes, brincos e pulseiras. Tal seleção, entre os muitos itens da cultura material zo’é, obedece a critérios de sustentabilidade. A legislação vigente não permite a venda de plumária ou de flechas com ponta de osso, ou qualquer objeto fabricado com partes de animais. Arcos de madeira e redes feitas de fibras de castanheira tampouco são vendidos, para garantir aos Zo’é exclusividade no acesso a esses materiais essenciais em seu modo de vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar dessas restrições, os resultados do FAZ são muito promissores, não apenas por incentivar a continuidade dos saberes e práticas artesanais dos Zo’é, como por viabilizar a formação em gestão dos jovens e dos chefes. Ao se apropriar deste Fundo, os Zo’é souberam declarar e garantir critérios próprios na distribuição adequada dos bens adquiridos, em acordo com seus valores e considerações quanto às diferenças de gênero, idade e processos de aprendizagem, bem como à isonomia entre os grupos locais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além da venda de artesanato, a Tekohara também realiza a  venda de sementes de cumaru, coletadas pelas famílias envolvidas no FAZ. Desde 2019, o Fundo se beneficia ainda com a venda exclusiva dos livros da série Saberes Zo’é, atualmente com três títulos: [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Potuwa.pdf ''Potuwa pora kõ'' – O que se guarda no ''potuwa''] (2019); [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2021/07/Eremiu-rupa.-Abrindo-rocas_Trecho.pdf ''Eremi’u rupa'' – Abrindo roças] (2021) e [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Canoa-Zoe.pdf ''Ihara rape rupi'' – Pelo caminho da canoa] (2023).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/4_f91f5d08e62cbad/162424scr_wm_0c86653fd01dc21.jpg| Distribuição de sabão adquirido com recursos do FAZ, Dominique Tilkin Gallois, 2025}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;CABRAL, Ana Suely.Uma escrita para a Língua Zo'é. Brasília: Lalli/Unb/Funai, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin. De arredio a isolado : perspectivas de autonomia para os povos indígenas isolados. In: GRUPIONI, Luís Donisete Benzi (Org.). Índios no Brasil. São Paulo : Secretaria Municipal de Cultura, 1992. p. 121-34.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Essa incansável tradução : entrevista. Sexta Feira: Antropologia, Artes e Humanidades, São Paulo : Pletora, n. 6, p. 103-21, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Tupi do Cuminapanema : eles se chamam Zo'É. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1991/1995. São Paulo : Instituto Socioambiental, 1996. p. 280-7.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Zo'é. In: ASSIS, Rogério. São Paulo: Terceiro Nome, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Sobre alguns modos zo’e de fazer coletivos e lideranças”. In: FAJARDO GRUPIONI, D.; Andrade, L. M. M. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; GRUPIONI, Luís Donisete Benzi. O índio na Missão Novas Tribos. In: WRIGHT, Robin (Org.). Transformando os Deuses : os múltiplos sentidos da conversão entre os povos indígenas no Brasil. Campinas : Unicamp, 1999. p. 77-130.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
GALLOIS, Dominique Tilkin; BRAGA, Leonardo Viana; PEDREIRA, H. P. S. 2020 Construindo o Plano de Gestão Territorial e Ambiental com os Zo’é. In: Luis Donizete Benzi Grupioni (org.). Em busca do bem viver: Experiências de elaboração de Planos de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas. São Paulo: Rede de Cooperação Amazônica, 1. ed., v. 1.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. A redescoberta dos amáveis selvagens. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1987/88/89/90. São Paulo : Cedi, 1991. p. 209-14. (Aconteceu Especial, 18)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; HAVT, Nadja. Relatório de identificação da Terra Indígena Zo'é : Portaria 309/PRES/Funai - 04.04.97. São Paulo : Funai, 1998.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;HAVT, Nadja. De algumas questões sobre a participação de “índios isolados” no processo de regularização fundiária : o exemplo dos Zo’É. In: GRAMKOW, Márcia Maria (Org.). Demarcando terras indígenas II : experiências e desafios de um projeto de parceria. Brasília : Funai/PPTAL/GTZ, 2002. p. 85-94.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Representações do Ambiente e da Territorialidade entre os Zo’é/PA. Dissertação de Mestrado. FFLCH/USP, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;Iepé &amp;amp; FPEC/Funai. Jo’e bokitute ram: planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro. Plano de Gestão Territorial e Ambiental da TI Zo’é. São Paulo: Iepé, 2019.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
BRAGA, Leonardo Viana. Micropeças sobre gênero e caçada junto aos Zo’é. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas:&lt;br /&gt;
índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. ''Pani'em'': um esboço sobre os modos de saber entre os Zo'é. Dissertação de mestrado. FFLCH/USP, 2017.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Eremi'u rupa. Abrindo roças. 1. ed. São Paulo: Série Saberes Zo'é - Iepé, FPEC/Funai &amp;amp; Fundo de Artesanato Zo'é (FAZ), 2021. v. 2. 189p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
BRAGA, Leonardo Viana; PEDREIRA, Hugo Prudente S.; CABALZAR, Flora Dias. 2020. 'Fazer saber a própria terra'. In: Nelson Russo de Moraes; Leila Adriana Baptaglin; Lamounier Erthal Vilella; Alexandre de Castro Campos; Raoni Fernandes Azerêdo. (Org.). Povos Originários e Comunidades Tradicionais: trabalhos de pesquisa e de extensão universitária – volume 4, 1ed.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; &lt;br /&gt;
PEDREIRA, Hugo Prudente da Silva. ''Potuwa pora kõ'' - o que se guarda no ''potuwa. 1''. ed. São Paulo: Instituto de Pesquisa e Formação Indígena - Iepé, 2019. v. 1. 148p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; RIBEIRO, Fabio N. “Os Zo’é e as metamorfoses do fundamentalismo evangélico”. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Encontros Zo’é nas Guianas. Tese de doutorado. FFLCH/USP, 2019.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. ''Ihara Rape Rupi'': pelo caminho da canoa. 1. ed. São Paulo: Iepé - Instituto de Pesquisa e Formação Indígena, 2023. v. 1. 132p .&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
Cuidado ao editar esta seção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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--&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Zo'é}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Dominique T. Gallois}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
{{#set:Capa=162430scr_wm_9d03db1dcc7a9e9.jpg}}&lt;br /&gt;
{{#set:Counter=61505}}&lt;br /&gt;
{{#set:Crédito capa=Kamikia Kisedje, 2024}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=1997-01-01}}&lt;br /&gt;
{{#set:Estilo=claro}}&lt;br /&gt;
{{#set:Povo Id=321}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas no Pará]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8524</id>
		<title>Povo:Zo'é</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8524"/>
		<updated>2025-10-20T18:06:50Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: /* População e proliferação de aldeias */&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Vivem numa área de densas florestas, entre os rios Cuminapanema e Erepecuru, no Norte do Pará. Os Zo’é convivem com agentes de assistência há quase quatro décadas, mantendo vigorosamente suas formas de organização social e territorial. Este povo em situação de recente contato vem se mobilizando para implementar o PGTA da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3927 TI Zo'é] e seu protocolo de consulta. Através da sua organização representativa, a Tekohara, fortalecem a gestão de um Fundo de Artesanato, um mecanismo original de trocas coletivas.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
== Nome e língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Os Zo'é durante uma oficina de Letramento, Dominique Gallois, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/4_f54a65283e04d93/52684scr_8d884e9b4241947.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pronome &amp;lt;em&amp;gt;jo’é&amp;lt;/em&amp;gt; [zo’é], “nós mesmos”, se consolidou como uma autodenominação que diferencia este povo dos não indígenas, chamados &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;. Já outros povos indígenas são chamados de “&amp;lt;em&amp;gt;amõ jo’é&amp;lt;/em&amp;gt;” (outros, como nós). No final dos anos 1980, quando começaram a conviver com missionários e com servidores da Funai, esse termo não era usado para designar a eles mesmos, mas para identificar qualquer pessoa que adquirisse alguma proximidade e que passasse, então, a ser considerada “gente como nós”. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os termos &amp;lt;em&amp;gt;Poturu&amp;lt;/em&amp;gt;, ou &amp;lt;em&amp;gt;Poturujara&amp;lt;/em&amp;gt;, difundidos inicialmente por agentes da Funai como denominação do povo recém-contatado na região do Cuminapanema, designam tão somente a madeira da árvore utilizada para confeccionar os adornos labiais &amp;lt;em&amp;gt;embe’pot&amp;lt;/em&amp;gt;. “&amp;lt;em&amp;gt;Poturu!&amp;lt;/em&amp;gt;” respondiam os Zo’é, quando alguém apontava para seus rostos, buscando saber seu nome.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Zo’é são falantes de uma língua Tupi-Guarani, do tronco Tupi. A maior parte da comunidade é monolíngue, com exceção de alguns chefes e de uma dezena de jovens, que aprenderam a se comunicar em português e estão adquirindo rapidamente maior fluência, no âmbito de suas funções de gestão da &amp;lt;strong&amp;gt;Tekohara – Organização Zo’é&amp;lt;/strong&amp;gt;. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Experiências de contato e de convivência com ''kirahi'' ==&lt;br /&gt;
A área onde vivem os Zo’é situa-se em território histórico de povos de língua Karib, que ocupam as terras firmes do planalto das Guianas. Seus vizinhos mais próximos são os [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Tiriy%C3%B3 Tiriyó], ao Norte; os [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Aparai Aparai] e [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Wayana Wayana], a Leste; os quilombolas e castanheiros não indígenas ao Sul. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As fontes disponíveis sobre a região Norte do Pará não trazem informações suficientes para acompanhar a trajetória da migração dos Zo’é até seu &amp;lt;em&amp;gt;habitat&amp;lt;/em&amp;gt; atual, mas é certo que este povo tem sua origem ao sul. Essa é a direção que eles indicam quando são indagados sobre sua procedência antiga, embora a localização das aldeias de antepassados longínquos não seja assunto de grande interesse.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como ocorre na tradição oral das sociedades indígenas que mantêm contatos antigos com a população regional, a presença de não indígenas acaba sendo integrada ao tempo mítico. Os Zo’é não questionam nem a origem, nem os movimentos dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;, ou dos povos inimigos: todos eles, simplesmente, sempre existiriam. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diz-se, inclusive, que quando &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt; recriou a humanidade, não precisou refazer os não indígenas, que não haviam sido engolidos pelo dilúvio: eles já existiam, mas estavam longe, “na borda da terra”. Elementos históricos são agregados ao mito, associando o evento da recriação a contatos interétnicos. O fogo que destruiu a terra foi provocado por inimigos, habitantes do Leste; para alcançar as ossadas dos humanos destruídos pelo dilúvio, o herói vem do Sul, flutuando em um recipiente típico dos não indígenas: um corote de gasolina. Depois, cada um volta a ocupar seu espaço: os não indígenas ficam no Sul; os Zo’é nas serras, longe dos rios; os inimigos a Leste.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/Jipohan_%C3%A9_gente_como_voc%C3%AA “Jipohan é gente como você”, por Jurusi uhu, Pa'hi e Tatitu Zo'é]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/763735-2/DSC_3332_edit.JPG|Jurusi uhu Zo'é. Foto: Dominique Tilkin Gallois&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Era comum, nos anos 1990, os Zo’é perguntarem aos visitantes: “Vocês viram onde está &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt;, aquele herói que revitalizou seus ancestrais juntando ossos dos flagelados pelo último cataclismo?” Os Zo’é consideravam &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt; como um &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;. Após sua façanha de recriação, ele voltou para sua terra de origem, no Sul. É descrito usando roupas, escrevendo, usando canoa com motor, gravador, injeções e ferramentas diversas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como é comum na elipse temporal que o mito efetua, os Zo’é atualizam suas tradições com ingredientes extraídos de sua experiência do passado e de suas expectativas de futuro. Razão pela qual, na morada celeste dos mortos, os ex-Zo’é têm acesso irrestrito à mercadorias, inclusive espingardas, que lhes são fornecidas por alguns ex-&amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; generosos – como foi um servidor da Funai, Isidoro, que segue lhes trazendo mercadorias desejadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como ocorreu em muitos lugares, os eventos do contato dos Zo’é com missionários e depois com servidores da Funai envolveu diretamente a questão do acesso às mercadorias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Luis Donisete B. Grupioni/1989&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281189-1/zoe_7.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os então chamados “Índios do Cuminapanema” foram apresentados ao mundo em 1989, em reportagens que enfatizavam sua “pureza” e “fragilidade” e os descreviam como um dos últimos povos “intactos” na Amazônia. E justamente por serem um dos raros grupos ainda “não atingidos” nem pela mensagem evangélica, nem pela assistência oficial, os Zo’é atraíram a atenção da Missão Novas Tribos (MNT), que iniciou seu trabalho na região em 1982. Foram necessários cinco anos de sucessivas aproximações e recuos para “pacificar” os Zo’é – até que em 1987 os missionários  instalaram a Base Esperança na porção sul da atual TI Zo’é. Ali, passaram a controlar sozinhos o processo de acomodação dos Zo’é à nova situação, até a Funai assumir a área em 1991.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, os Zo’é já tinham experiências de encontro com não indígenas desde muito tempo. Relatam inclusive a saída de uma mulher que viajou até Santarém, de onde acabou voltando, provavelmente no final do século XIX.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
No final dos anos 1960, o território zo’é passou a ser percorrido por caçadores de felinos, conhecidos como “gateiros”. Nesse período, os Zo’é encontravam em suas trilhas, gaiolas, ferramentas abandonadas, restos de acampamentos. Também encontravam vestígios de coletores de castanha. Eram contatos indiretos, ou, como dizem os Zo’é, “sem carne/sem corpo”, pois não viam os forasteiros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Dominique Gallois, 1991&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281182-1/zoe_4.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1975, eles foram surpreendidos por visitas mais espetaculares, quando um helicóptero do Instituto de Estudos e Pesquisas do Pará despejou embrulhos com roupas e objetos sobre a aldeia Kejã. Foi também com presentes lançados do céu, ou dependurados no caminho das aldeias, que os membros da Missão Novas Tribos se aproximaram. Entre 1982 e 1987, eles estiveram várias vezes em acampamentos ou aldeias, saindo rapidamente. Segundo os Zo’é, muitas pessoas ficavam doentes na sequência dessas visitas e, como demoravam meses para voltar, as pessoas acometidas por doenças pulmonares morriam. Eles também relatam que resolveram se deslocar rumo ao Sul, em busca de uma explicação para esse “sopro” de doenças e para pegar mais objetos, chegando finalmente à Base Esperança em outubro de 1987, data oficial do “contato” com a MNT. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
===Terçados, epidemia e mortes===&lt;br /&gt;
{{Lead |por '''Fábio Ribeiro'''}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As notícias trazidas sobre os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; que davam facões e machados logo se espalharam pelas aldeias e em pouco tempo muitos Zo’é foram atrás dos missionários. Como não havia ferramentas para todos, o clima logo ficou tenso. Os homens que não pegaram facões ficaram bravos, bateram nas paredes entraram e saquearam a casa dos missionários, na localidade de Kuruaty. Esses, com muito medo, foram embora. As doenças, no entanto, ficaram. É nesse período que tem início a epidemia que em poucos dias tirou a vida muitas outras pessoas zo’é. “&amp;lt;em&amp;gt;Kirahi rahy ate juke&amp;lt;/em&amp;gt;. Foi a doença dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; que matou”. O relato de Hun, um atual chefe Zo’é é claro ao afirmar que a epidemia teve início logo após o encontro de Tun e Dubehaj com os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; e que, apenas muito tempo depois, quando encontraram Sera’yt (em 1987), é que os missionários trouxeram injeções com remédios, mas não vacinas. Hun, ainda criança nessa época, foi duramente afetado: seu pai, sua mãe e alguns de seus irmãos morreram na maloca de Pirity. “Naquele tempo os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; foram embora mesmo. Depois os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; pensaram de novo, queriam ver os Zo’é de novo, aí os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; voltaram. Foi então nessa época que encontraram Sera’yt (...) e ficaram alegres. Naquela época os Zo’é tinham mandado embora, então os kirahi pensaram, aí abriram o caminho novamente. Passaram-se muitas luas naquele tempo, e aí os missionários voltaram.” – Adaptado de &amp;lt;em&amp;gt;Kampugerau: crônica de um movimento zo’é &amp;lt;/em&amp;gt;, 2024&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após essa notícia, a Funai criou o PINC Cuminapanema, subordinado à 4ª SUER/Funai em Belém (Portaria nº 1.061, de 22 de maio de 1987). No ano seguinte, o convênio 008/1998 celebrado entre a Funai e a MNT vedava sua atuação em áreas de indígenas isolados. Mas a Missão não se retirou e continuou seu trabalho junto aos Zo’é. Até que, em janeiro de 1989, a Missão alertou a Funai sobre a precária situação de saúde dos Zo’é. O sertanista Sidney Possuelo conseguiu apoio da imprensa e pôde assim realizar uma primeira visita à área. Numa segunda viagem, pouco tempo depois, a equipe da Funai verificou que a situação de saúde estava piorando e começou então a planejar um trabalho mais sistemático. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante mais de um ano, os Zo’é assistiram à convivência tensa entre as equipes da Funai e da Missão Novas Tribos, cada uma com sua base, entre as quais eles continuaram circulando para obter remédios e objetos industrializados. Quando conseguiu recursos e pessoal adequados para assumir um trabalho de assistência que abrangesse a totalidade das quatro aldeias existentes na época, a Funai retirou os missionários da área, em outubro de 1991. A partir desse momento, os sucessivos responsáveis pelo PINC Cuminapanema, orientados pelo então Departamento de Índios Isolados (DII), da Funai, passaram a desempenhar  ações de proteção do povo Zo’é e de sua terra, em formatos que variaram sensivelmente ao longo dos anos. Foi somente a partir de dezembro de 2009, com a reestruturação da Funai, que o órgão indigenista instituiu a  Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC), incluindo a proteção às populações de recente contato como os Zo’é. A Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema (FPEC) foi criada em 2011 (Portaria Nº 1816/PRES, de 30 de dezembro de 2011) e, desde então, segue novas diretrizes para a promoção da integridade cultural e territorial do povo Zo’é.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A regularização da TI Zo’é ==&lt;br /&gt;
Em 1987, a Funai procedeu à interdição da Área Indígena Cuminapanema/Urucuriana, com uma extensão de aproximadamente 2.059.700 hectares, ao sul do [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3885 Parque Indígena de Tumucumaque], nos municípios de Alenquer e Óbidos, Pará ([https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/ZED00005.pdf Portaria nº 4.098 de 30/12/1987]). A interdição visava dar condições de trabalho à equipe da Funai, para o reconhecimento de numerosas referências de indígenas  isolados levantadas pelo então DII. Na época, a Funai já conhecia a presença dos Zo’é, através de informações repassadas pela Missão Novas Tribos, que havia localizado este povo em 1982.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Zo'é trabalhando na construção de novas casas, Leonardo Viana Braga, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/9/0_eedce20393fa4de/52690scr_4bbc991f8b7ca54.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os trabalhos de identificação e delimitação da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3927 Terra Indígena Zo'é] aconteceram entre 1996 e 1998, com a participação ativa dos Zo’é e de vários técnicos e especialistas, em muitas etapas. A primeira, de estudos antropológicos, incluiu a preparação da comunidade para que os Zo’é pudessem acompanhar todos os procedimentos da regularização de seu território. A Portaria nº 309 de 04/04/1997 constituiu o Grupo de Trabalho cujo [https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/ZED00014.pdf relatório de identificação e delimitação] foi submetido à aprovação da Funai em novembro de 1998.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A demarcação física da Terra Indígena, com 668.565 hectares, foi realizada entre 1999 e 2000, por uma empresa contratada pela Funai. Contrariamente ao acordado com os Zo’é durante os trabalhos de identificação, eles não puderam acompanhar os trabalhos demarcatórios e foram mantidos alheios ao processo de regularização de seu território. Após a revisão de erros na delimitação do limite sul, a homologação e o registro no Serviço de Patrimônio da União (SPU), a demarcação da Terra Indígena foi finalmente  consagrada por decreto presidencial (s/n), publicado no Diário Oficial da União (DOU) em 22 de dezembro de 2009.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2008, a pedido do Ministério Público Federal, foi criada uma faixa de amortecimento em volta da Terra Indígena, a Zona Intangível das Florestas Estaduais (FES) [https://uc.socioambiental.org/pt-br/arp/4641 Trombetas] e [https://uc.socioambiental.org/pt-br/arp/4642 Paru]. Essa área não poderia receber nenhum tipo de exploração econômica para evitar a contaminação dos indígenas em situação de recente contato. Com a aprovação do Plano de Manejo da FES do Trombetas pelo Conselho Estadual de Meio Ambiente do Pará, a faixa foi incorporada no zoneamento da Unidade de Conservação. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Iniciativas dos Zo’é consolidam novos rumos ==&lt;br /&gt;
Durante vinte anos, a atuação do órgão indigenista se centrou em manter os Zo’é afastados das relações com os não indígenas e suas tecnologias, evitando também qualquer encontro com povos indígenas vizinhos. Mas em 2010, os Zo’é tomaram a iniciativa de romper a aliança que mantinham com a equipe da Frente de Proteção da Funai e saíram da terra demarcada para buscar mercadorias que lhes eram recusadas em seu território. Um grupo se dirigiu ao Norte, ao encontro dos Tiriyó no Rio Marapi, e outro se dirigiu aos Campos Gerais, além do limite Sul da Terra Indígena, onde trabalharam com coletores de castanha. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Voltaram trazendo espingardas velhas, redes de &amp;lt;em&amp;gt;nylon&amp;lt;/em&amp;gt;, roupas usadas e alguns gêneros alimentícios, além de várias pessoas doentes. A experiência rendeu importantes aprendizados no que toca aos modos de relação com seus vizinhos, indígenas e não indígenas, e resultou na revisão da política de proteção da TI Zo’é – até então fundada na manutenção de um rígido “isolamento” e na contenção de seus pedidos de acesso não só às mercadorias como a conhecimentos sobre o modo de vida dos não indígenas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi nesse contexto que o [https://institutoiepe.org.br/ Instituto Iepé] estabeleceu, em 2016, uma parceria com a nova gestão da Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema (FPEC), visando criar alternativas para que os Zo’é acessassem informações e experiências que lhes permitissem compreender e se posicionar frente aos interesses dos diferentes setores da sociedade brasileira. Buscou-se atender às demandas dos Zo’é, através de um conjunto de ações educativas e de apoio às suas próprias iniciativas de vigilância territorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Planejando o futuro e a proteção do território ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em novembro de 2019, os Zo'é pactuaram seu Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da TI Zo'é, onde definem suas prioridades para o futuro. “&amp;lt;em&amp;gt;Jo’e rekoha bokitute ram&amp;lt;/em&amp;gt; – Planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro” foi o título escolhido pelos Zo’é para esse plano de gestão, onde explicitam as diretrizes para a proteção de seu território e de seu modo de vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas atividades realizadas para a construção do PGTA, entre 2016 e 2019, confirmou-se a mudança de foco nos interesses dos Zo’é. Menos inquietos em garantir abastecimento de objetos dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;, estavam mobilizados para ampliar sua circulação pelo território, não só reconhecendo áreas ocupadas pelos antigos, como abrindo novos percursos para avaliar as reservas de caça e pesca e as possibilidades de abertura de novos assentamentos. No documento, os Zo’é afirmam: “Queremos que nossos filhos sigam ocupando vastamente o nosso território”, colocando o processo de dispersão de aldeias como um dos fundamentos do bem viver. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Foto: Transporte de canoa recém construída pelos Zo'é, Hugo Prudente, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/6_92ae3e7baf9ad67/52686scr_d2b118ef8ea028d.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa mobilidade promoveu novas incursões e a vigilância mais sistemática em áreas fartas em recursos, como os grandes castanhais no Sul e em outras porções do território. Uma das diretrizes do PGTA dedica especial atenção à vigilância dessa região, que foi invadida por castanheiros em 2018 e que, desde então, vem sendo ocupada por aldeias novas e acampamentos. Como escreveram os Zo’é no documento: “Nós, coletando essa castanha, invasores não virão mesmo. Aqui é nossa terra, a castanha está na nossa terra. Tem castanha na terra dos não índios, essa deve ser a castanha deles. Essa aqui é nossa castanha. Estamos falando duramente agora”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
“Fazer saber o nosso território” é uma afirmação e um objetivo a ser buscado, articulando ações de vigilância e de ocupação. Mobiliza concepções importantes da territorialidade zo’e, como o zelo pelos lugares habitados, a articulação entre os diversos grupos familiares na abertura de uma nova aldeia e o caráter regular das idas e vindas implicadas em uma iniciativa de expansão territorial. Nesse movimento, os grupos territoriais se reestruturam, mantendo suas diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
Confira aqui o [https://institutoiepe.org.br/2022/05/plano-de-gestao-territorial-e-ambiental-zoe/ PGTA &amp;lt;em&amp;gt;Jo’e Rekoha Bokituteha Ram&amp;lt;/em&amp;gt; – Planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro]!&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== População e proliferação de aldeias ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Distribuição de bebida ''sepy'' durante uma festa dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/7/4/6_cd584b0ad074849/52746scr_dcd3b057e91c8af.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A população Zo'é praticamente dobrou nos últimos trinta anos: eram 172 em 1998, à época da identificação da TI. Em 2011 eram 261 e hoje são 350 pessoas (Iepé, 2025). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Zo'é subdividem-se em dois grandes grupos, respectivamente situados ao Norte e ao Sul da Base da Funai, em que se distribuem os 19 grupos locais (&amp;lt;em&amp;gt;iwana&amp;lt;/em&amp;gt;), que circulam em determinadas áreas territoriais, onde estão suas aldeias antigas e recentes, além de acampamentos. Os &amp;lt;em&amp;gt;Iwana&amp;lt;/em&amp;gt; agregados de famílias extensas, atualmente em número de 31, que vivem em aldeias próximas, e cuja composição sofre constantes alterações em função das alianças matrimoniais e das parcerias estabelecidas para ocupar novas áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos últimos dez anos, ocorreu um processo de proliferação de aldeias muito significativo. Na época da instalação da Funai em 1991, eram apenas quatro; eram cinco em 1998, 12 em 2011 e hoje existem 62 aldeias. Configuram conjuntos de pequenas aldeias ocupadas de forma intermitente por famílias extensas que vivem em lugares próximos e circulam entre seus vários assentamentos, em função da fartura de recursos e dos cuidados das roças. Essa intensa mobilidade está relacionada ao apoio logístico que recebem tanto da FPE-Funai como do Iepé, com uma rede de radiofonia em praticamente todas as aldeias. Merece destaque o fato de que, nos últimos anos, os Zo’é têm optado por fabricar suas próprias canoas em madeira de aroeira, preferidas – por enquanto – às voadeiras de alumínio, não só difíceis de transportar até a TI, como exigindo manutenção custosa. Aprenderam a fabricar canoas num intercâmbio que levou especialistas do povo [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Waiwai Waiwai] para a TI Zo’é em 2017 e, desde então, cada família procura construir sua própria embarcação, na qual são instalados os motores rabeta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Estações e ritmos da vida ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Indígenas zo'é finalizando uma rede de fibra de castanheira, Flora Dias Cabalzar, 2016.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/5_7ed184682c27e1c/52685scr_a5f3ac836c6e409.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma das principais características do modo de vida dos Zo’é, até hoje, é a intensa mobilidade das famílias pelo território. Todos têm acesso aos recursos florestais sem esgotá-los, uma vez que as atividades de cultivo das roças, de caça, pesca e coleta são feitas em pequena escala, pelas diferentes famílias, em áreas distintas. É também nesses movimentos que os Zo’é atualizam o exímio conhecimento acumulado sobre seu território, constantemente percorrido através de uma intrincada rede de caminhos entre aldeias, capoeiras e locais de coleta de itens necessários no dia a dia, tanto para alimentação como para a fabricação de utensílios.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um modo de vida que garante aos Zo’é uma alimentação exclusivamente composta de sua produção agrícola, da caça, pescado e frutas. Também merece destaque o fato de os Zo’é não utilizarem espingardas, mas sim seus arcos, flechas e arpões, complementados com anzóis e linhas de pesca industrializadas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Homem zo'é cuidando de flechas, Dominique Tilkin Gallois, 2023.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/7_234521b7fa212cf/162427scr_wm_3c5190633e93dd0.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O caráter sazonal de alguns recursos dos quais os Zo’é se utilizam conforma a dinâmica de circulação das famílias pelo território e também repercute nos movimentos de aproximação e distanciamento entre essas famílias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É no tempo das chuvas, de fevereiro a julho, que acontecem os períodos mais prolongados de dispersão das famílias pelo território, quando são realizadas grandes caçadas, principalmente de macaco-aranha e de tucano. No início das chuvas, as famílias também se deslocam para a beira de igarapés e hoje também de rios maiores, aproveitando o volume das águas para caçar urubu-rei, usando peixes podres como iscas. Instalados nos acampamentos, os Zo’é retornam às aldeias para buscar farinha, preparada com antecedência e estocada nas casas; quando ela acaba, permanecem alguns dias para preparar mais farinha, beiju e tapioca.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O período ideal para a caça de ''kwata'' (macaco-aranha, coatá ou coamba) vai de março a maio, período denominado ''kwata ike'', quando estão gordos. Montam-se acampamentos específicos, de onde os homens saem para as serras, em busca dos macacos. No final desse período, em maio, tucanos, araras e papagaios já estão comendo frutas de palmeiras. É a estação chamada de ''token ike'', do “tucano gordo”, que dura cerca de um mês e meio, quando bandos numerosos de aves vêm comer patauá ou açaí, em locais de concentração de frutas. Já é no final da estação chuvosa e início da estação seca que os porcos queixadas e caititus estão gordos, motivando saídas frequentes de grupos de homens às trilhas das varas de porcos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Moça zo'é preparando leite de castanha, Dominique Tilkin Gallois, 2023.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/9_d567041deb9c12a/162429scr_wm_697db62eab28f2f.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre os recursos mais valorizados nesse calendário do tempo das chuvas, a castanha-do-Brasil é um alimento básico na dieta. Os Zo’é colhem os ouriços a partir de janeiro e consomem amêndoas em profusão durante toda a estação chuvosa; durante o verão, colhem ouriços ainda verdes e continuam comendo castanha o ano todo, em preparos diversos com produtos da mandioca ou carnes. Como é também nesse período que muitas frutas amadurecem, é comum interromperem o movimento de dispersão entre acampamentos para fazer festas, quando se distribui grande quantidade de bebida fermentada ''sepy''.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A estação seca, de final de julho até o início de janeiro, é marcada pelo trabalho nas roças. É quando a vida nas aldeias se intensifica, sendo um período de maior aproximação entre grupos familiares. Isso não significa que as famílias não mantenham, no verão, outras atividades que as leve a deixar a aldeia. Saem para buscar frutas da estação, como o açaí que é trazido em grandes cachos. Mas sobretudo saem para pescar com timbó, com anzóis, ou ainda com flecha ou zagaia. No verão, também acontecem expedições de caça, em geral mais curtas e só entre homens, já que as mulheres ficam nas aldeias cuidando das roças. Além disso, como muitas famílias mantêm cultivos em mais de uma aldeia, deslocam-se para dar conta de todas as roças. O corte, queima e limpeza das roças se prolonga até dezembro, meados de janeiro, quando a castanha está de novo madura, e os Zo’é limpam a roça da mandioca que brotou e fazem novo plantio. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Refeição familiar dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017.&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/9_9e70545c4b7fee0/52689scr_5d2f4b741f6cd92.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A mandioca é o principal cultivo, com uma variedade de produtos: farinha, beiju, tapioca, tucupi. As mulheres, inclusive com colaboração dos homens para ralar as raízes, dedicam muito de seu tempo ao processamento da mandioca: descascar, ralar, espremer no tipiti, peneirar, torrar farinha. Os Zo’é também cultivam pimenta, batata-doce, cará, banana, mamão, caju, goiaba, graviola, manga, urucum, algodão, cuia, cabaça, curauá e cana de flecha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade de vida dos Zo’é decorre, portanto, desse grande acervo de saberes e práticas do cotidiano, transmitidos e aperfeiçoados ao longo das gerações. Se, nas últimas décadas, os Zo’é se apropriaram seletivamente de alguns itens industrializados, continuam valorizando suas próprias tecnologias para fabricar os artefatos que utilizam cotidianamente.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Ler e escrever na própria língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Os Zo'e durante uma oficina de Letramento, Dominique Tilkin Gallois, 2023&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/6_07c4c88f97d55fe/162426scr_wm_9578fba3a29bfe7.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre as ações educativas construídas com os Zo’é para promover a discussão e pactuação do PGTA, destacam-se as atividades de letramento, iniciadas pelo Iepé em 2017. Tanto para a formulação adequada das medidas de proteção como, sobretudo, para a apropriação duradoura deste plano, era imprescindível que os próprios Zo’é pudessem redigir e atualizar as diretrizes de gestão de seu território. Trata-se de um programa não escolar de letramento, que é concebido não apenas como um meio de apropriação da leitura e escrita – por enquanto apenas na língua zo’é – e a iniciação à matemática, mas também como aproximação aos conceitos, à linguagem e às práticas relacionadas aos direitos assegurados aos povos indígenas pela [https://pib.socioambiental.org/pt/Constitui%C3%A7%C3%A3o Constituição brasileira de 1988]. É nesse sentido que as ações de letramento viabilizaram a criação da Tekohara, organização representativa do povo Zo’é, na consolidação de seu Fundo de Artesanato, o FAZ, e na construção de um [https://institutoiepe.org.br/2025/08/protocolo-de-consulta-e-consentimento-zoe/ protocolo de consulta e consentimento]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a pandemia de Covid-19, durante a qual todos os trabalhos com os Zo’é foram suspensos, consolidou-se uma turma de cerca de 40 jovens e adultos, depois separada em duas, correspondendo aos grupos do Norte e do Sul. Reúnem-se quatro vezes por ano nos Encontros de Letramento, realizados na “casa grande” da Base da Funai, em Kejã. Destacaram-se rapidamente oito jovens, que passaram a atuar como multiplicadores nas atividades de letramento, como tradutores e mais recentemente assumiram cargos na gestão da organização representativa, Tekohara. Além desses Encontros, oficinas específicas promovem a construção participativa de materiais didáticos, hoje já com mais de 20 títulos versando sobre os mais diversos temas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Todos os materiais produzidos procuram registrar as reflexões dos Zo’é sobre seu modo de vida, sobre as mudanças recentes que interferem nas formas de ocupação do território, sobre experiências novas de gestão advindas da consolidação de sua associação etc. Entre eles, destacam-se os cadernos da série ''Rekoha'', que sempre iniciam com a feitura de um mapa por um líder de grupo local, complementado por pequenos textos extraídos das conversas sobre suas iniciativas de abertura de caminhos, roças, acampamentos de caca e pesca, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra série de materiais traz resultados de uma pesquisa colaborativa sobre cantos, engajando jovens letrados e conhecedores mais idosos, que permitiu também introduzir o uso da informática, para a gestão de um acervo de cantos e de suas transcrições. Além disso, outros cadernos específicos apoiam a formação em gestão tanto da Tekohara como do Fundo de Artesanato Zo’é (FAZ). Mais recentemente, alguns cadernos trazem saberes das mulheres – que praticamente não participam das atividades de letramento – especialmente sobre o ciclo da castanha e sua culinária. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
=== Tekohara – Organização Zo’é ===&lt;br /&gt;
Após a pandemia de Covid-19, os Zo’é reativaram seu movimento de reorganização de relações com os não indígenas, inaugurado com a pactuação do PGTA, e criaram em 2022 uma organização representativa, denominada Tekohara. O nome ''Tekohara'' foi especialmente criado para a associação. Segundo os fundadores, a expressão inexiste na língua zo’é, porém remete à proteção do território, chamado em sua língua de – ''tekoha''. Constitui assim uma síntese do que consideram ser a atuação prioritária da organização, em consonância com todo o trabalho de gestão territorial que os Zo’é vêm conduzindo nos últimos anos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A assembleia de fundação reuniu praticamente toda a população zo’é, incluindo idosos e crianças. Desses, todos os maiores de 17 anos, totalizando 198 pessoas à época, se tornaram associados, que escolheram e aclamaram seus representantes para duas instâncias de gestão:  o Conselho de Chefes e a Diretoria. O primeiro é composto por ''sete iy'', principais líderes zo’é, reconhecidos pelos demais chefes de todos os subgrupos. Em 2025, a assembleia escolheu outros chefes para o conselho, hoje um total de 11, que também constituem o Conselho Fiscal da associação. A diretoria é constituída por cinco jovens letrados, que se consideram “ajudantes dos chefes” e atuam diretamente nas instâncias que exigem a leitura e escrita de documentos, a convocação e mediação de reuniões, a gestão de recursos, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2024, os chefes do conselho e os jovens da diretoria, além de outros adultos interessados, construíram o protocolo de consulta e consentimento, ao longo de cinco oficinas e de várias reuniões de apresentação e aprovação do documento, publicado em duas línguas, em 2025. Afirmam, neste protocolo: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
“Temos nos reunido regularmente para conversar e com isso nossa associação está firme, porque discutimos todos os assuntos importantes. Como consolidamos nosso próprio jeito de fazer reuniões e tomar decisões, temos clareza sobre como devemos nos posicionar sobre quem pode e quem não pode entrar em nosso território (...) É porque mantemos um mesmo entendimento sobre a proteção de nosso território que as decisões não são difíceis. É assim que alcançamos consenso entre nós todos”. – Protocolo de consulta e consentimento Zo’é (2025, pp. 14-21)&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/3_8ec6e605f080da0/162433scr_wm_6306ea1916b3650.jpg| Lideranças zo'é durante uma reunião da Tekohara, Kamikia Kisedje, 2024}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A gestão coletiva de um Fundo de Artesanato ==&lt;br /&gt;
Desde a instalação da Funai na Terra Indígena, em 1991, os Zo’é têm produzido artesanato para troca com visitantes, ainda que de modo episódico, obtendo assim diversos utensílios que foram, desde então, incorporados ao seu modo de vida. Naquele período, o Posto de Atração distribuía uma ou duas vezes por ano ferramentas, material de pesca, lanternas e pilhas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Os Zo'e durante a etiquetagem de peças comercializadas por meio do Fundo de Artesanato, Dominique Gallois, 2023&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/5_22188c531215eb0/162425scr_wm_ee3a42b7ee661ff.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já a partir de 2011, a CGIIRC-Funai passou a rever sua política de proteção, garantindo aos indígenas em situação de recém-contato novas experiências e formas de participação. Foi nesse contexto que o Fundo de Artesanato Zo’é (FAZ), foi criado em 2012, pela Frente Cuminapanema (FPEC). Tratava-se de ampliar as possibilidades de troca e assegurar maior autonomia no abastecimento de itens industrializados demandados pelos Zo’é. Sobretudo se buscou passar de um sistema de doação para um mecanismo coletivo de permutas, assegurando a distribuição de itens industrializados previamente selecionados para todas as famílias, que por sua vez entregam lotes de peças que correspondem aproximadamente ao valor dos objetos adquiridos pelo Fundo. Durante dez anos, o FAZ se consolidou sob gestão da equipe da Funai, mas desde 2022, é gerido diretamente pelos Zo’é, por meio da associação Tekohara, ainda que com algum apoio dos parceiros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O FAZ consiste num sistema de trocas que envolve todas as famílias zo’é, atendendo suas demandas por objetos industrializados. Nos últimos anos, acordou-se com os parceiros que itens como material de pesca, ferramentas, entre outros, são adquiridos através de projetos do Iepé, desonerando assim o FAZ. A lista do que deve ser comprado é aberta, mas inclui cerca de 20 itens, todos eles incorporados ao modo de vida dos Zo’é há várias décadas. A lista envolve itens de uso pessoal, como sandálias, espelhos, linhas para tipoias, sabão, panelas, tigelas, além de alguns itens necessários às atividades produtivas do cotidiano, como isqueiros, sacos para armazenar farinha e eventualmente ferramentas que não podem ser adquiridas através dos projetos dos parceiros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Tebo Zo'é segurando cumaru, Kamikia Kisedje, 2024&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/1_1085df758a31880/162431scr_wm_04d1d66a3aa490a.jpg }}&lt;br /&gt;
  &lt;br /&gt;
As famílias entregam peças de artesanato e recebem itens prévia e cuidadosamente selecionados em reuniões com os chefes de todas as aldeias. Ou seja, a um certo conjunto de artesanato vendido corresponde um certo número de itens industrializados adquiridos com o recurso da comercialização das peças. Seguindo a expressa preferência dos Zo’é, os itens são sempre comprados na quantidade que atenderá rigorosamente todas as famílias. As entregas são realizadas três a quatro vezes por ano, com itens que são escolhidos em reuniões trimestrais, para atender às necessidades do momento. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os artefatos comercializados pelo FAZ são os mesmos utilizados no cotidiano dos Zo’é e incluem trançados, recipientes em cerâmica, colheres, pentes, brincos e pulseiras. Tal seleção, entre os muitos itens da cultura material zo’é, obedece a critérios de sustentabilidade. A legislação vigente não permite a venda de plumária ou de flechas com ponta de osso, ou qualquer objeto fabricado com partes de animais. Arcos de madeira e redes feitas de fibras de castanheira tampouco são vendidos, para garantir aos Zo’é exclusividade no acesso a esses materiais essenciais em seu modo de vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar dessas restrições, os resultados do FAZ são muito promissores, não apenas por incentivar a continuidade dos saberes e práticas artesanais dos Zo’é, como por viabilizar a formação em gestão dos jovens e dos chefes. Ao se apropriar deste Fundo, os Zo’é souberam declarar e garantir critérios próprios na distribuição adequada dos bens adquiridos, em acordo com seus valores e considerações quanto às diferenças de gênero, idade e processos de aprendizagem, bem como à isonomia entre os grupos locais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além da venda de artesanato, a Tekohara também realiza a  venda de sementes de cumaru, coletadas pelas famílias envolvidas no FAZ. Desde 2019, o Fundo se beneficia ainda com a venda exclusiva dos livros da série Saberes Zo’é, atualmente com três títulos: [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Potuwa.pdf ''Potuwa pora kõ'' – O que se guarda no ''potuwa''] (2019); [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2021/07/Eremiu-rupa.-Abrindo-rocas_Trecho.pdf ''Eremi’u rupa'' – Abrindo roças] (2021) e [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Canoa-Zoe.pdf ''Ihara rape rupi'' – Pelo caminho da canoa] (2023).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/4_f91f5d08e62cbad/162424scr_wm_0c86653fd01dc21.jpg| Distribuição de sabão adquirido com recursos do FAZ, Dominique Tilkin Gallois, 2025}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;CABRAL, Ana Suely.Uma escrita para a Língua Zo'é. Brasília: Lalli/Unb/Funai, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin. De arredio a isolado : perspectivas de autonomia para os povos indígenas isolados. In: GRUPIONI, Luís Donisete Benzi (Org.). Índios no Brasil. São Paulo : Secretaria Municipal de Cultura, 1992. p. 121-34.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Essa incansável tradução : entrevista. Sexta Feira: Antropologia, Artes e Humanidades, São Paulo : Pletora, n. 6, p. 103-21, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Tupi do Cuminapanema : eles se chamam Zo'É. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1991/1995. São Paulo : Instituto Socioambiental, 1996. p. 280-7.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Zo'é. In: ASSIS, Rogério. São Paulo: Terceiro Nome, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Sobre alguns modos zo’e de fazer coletivos e lideranças”. In: FAJARDO GRUPIONI, D.; Andrade, L. M. M. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; GRUPIONI, Luís Donisete Benzi. O índio na Missão Novas Tribos. In: WRIGHT, Robin (Org.). Transformando os Deuses : os múltiplos sentidos da conversão entre os povos indígenas no Brasil. Campinas : Unicamp, 1999. p. 77-130.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
GALLOIS, Dominique Tilkin; BRAGA, Leonardo Viana; PEDREIRA, H. P. S. 2020 Construindo o Plano de Gestão Territorial e Ambiental com os Zo’é. In: Luis Donizete Benzi Grupioni (org.). Em busca do bem viver: Experiências de elaboração de Planos de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas. São Paulo: Rede de Cooperação Amazônica, 1. ed., v. 1.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. A redescoberta dos amáveis selvagens. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1987/88/89/90. São Paulo : Cedi, 1991. p. 209-14. (Aconteceu Especial, 18)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; HAVT, Nadja. Relatório de identificação da Terra Indígena Zo'é : Portaria 309/PRES/Funai - 04.04.97. São Paulo : Funai, 1998.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;HAVT, Nadja. De algumas questões sobre a participação de “índios isolados” no processo de regularização fundiária : o exemplo dos Zo’É. In: GRAMKOW, Márcia Maria (Org.). Demarcando terras indígenas II : experiências e desafios de um projeto de parceria. Brasília : Funai/PPTAL/GTZ, 2002. p. 85-94.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Representações do Ambiente e da Territorialidade entre os Zo’é/PA. Dissertação de Mestrado. FFLCH/USP, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;Iepé &amp;amp; FPEC/Funai. Jo’e bokitute ram: planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro. Plano de Gestão Territorial e Ambiental da TI Zo’é. São Paulo: Iepé, 2019.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
BRAGA, Leonardo Viana. Micropeças sobre gênero e caçada junto aos Zo’é. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas:&lt;br /&gt;
índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. ''Pani'em'': um esboço sobre os modos de saber entre os Zo'é. Dissertação de mestrado. FFLCH/USP, 2017.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Eremi'u rupa. Abrindo roças. 1. ed. São Paulo: Série Saberes Zo'é - Iepé, FPEC/Funai &amp;amp; Fundo de Artesanato Zo'é (FAZ), 2021. v. 2. 189p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
BRAGA, Leonardo Viana; PEDREIRA, Hugo Prudente S.; CABALZAR, Flora Dias. 2020. 'Fazer saber a própria terra'. In: Nelson Russo de Moraes; Leila Adriana Baptaglin; Lamounier Erthal Vilella; Alexandre de Castro Campos; Raoni Fernandes Azerêdo. (Org.). Povos Originários e Comunidades Tradicionais: trabalhos de pesquisa e de extensão universitária – volume 4, 1ed.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; &lt;br /&gt;
PEDREIRA, Hugo Prudente da Silva. ''Potuwa pora kõ'' - o que se guarda no ''potuwa. 1''. ed. São Paulo: Instituto de Pesquisa e Formação Indígena - Iepé, 2019. v. 1. 148p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; RIBEIRO, Fabio N. “Os Zo’é e as metamorfoses do fundamentalismo evangélico”. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Encontros Zo’é nas Guianas. Tese de doutorado. FFLCH/USP, 2019.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. ''Ihara Rape Rupi'': pelo caminho da canoa. 1. ed. São Paulo: Iepé - Instituto de Pesquisa e Formação Indígena, 2023. v. 1. 132p .&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
Cuidado ao editar esta seção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Zo'é}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Dominique T. Gallois}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
{{#set:Capa=162430scr_wm_9d03db1dcc7a9e9.jpg}}&lt;br /&gt;
{{#set:Counter=61505}}&lt;br /&gt;
{{#set:Crédito capa=Kamikia Kisedje, 2024}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=1997-01-01}}&lt;br /&gt;
{{#set:Estilo=claro}}&lt;br /&gt;
{{#set:Povo Id=321}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas no Pará]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8523</id>
		<title>Povo:Zo'é</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8523"/>
		<updated>2025-10-20T18:06:24Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: /* A gestão coletiva de um Fundo de Artesanato */&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Vivem numa área de densas florestas, entre os rios Cuminapanema e Erepecuru, no Norte do Pará. Os Zo’é convivem com agentes de assistência há quase quatro décadas, mantendo vigorosamente suas formas de organização social e territorial. Este povo em situação de recente contato vem se mobilizando para implementar o PGTA da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3927 TI Zo'é] e seu protocolo de consulta. Através da sua organização representativa, a Tekohara, fortalecem a gestão de um Fundo de Artesanato, um mecanismo original de trocas coletivas.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
== Nome e língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Os Zo'é durante uma oficina de Letramento, Dominique Gallois, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/4_f54a65283e04d93/52684scr_8d884e9b4241947.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pronome &amp;lt;em&amp;gt;jo’é&amp;lt;/em&amp;gt; [zo’é], “nós mesmos”, se consolidou como uma autodenominação que diferencia este povo dos não indígenas, chamados &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;. Já outros povos indígenas são chamados de “&amp;lt;em&amp;gt;amõ jo’é&amp;lt;/em&amp;gt;” (outros, como nós). No final dos anos 1980, quando começaram a conviver com missionários e com servidores da Funai, esse termo não era usado para designar a eles mesmos, mas para identificar qualquer pessoa que adquirisse alguma proximidade e que passasse, então, a ser considerada “gente como nós”. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os termos &amp;lt;em&amp;gt;Poturu&amp;lt;/em&amp;gt;, ou &amp;lt;em&amp;gt;Poturujara&amp;lt;/em&amp;gt;, difundidos inicialmente por agentes da Funai como denominação do povo recém-contatado na região do Cuminapanema, designam tão somente a madeira da árvore utilizada para confeccionar os adornos labiais &amp;lt;em&amp;gt;embe’pot&amp;lt;/em&amp;gt;. “&amp;lt;em&amp;gt;Poturu!&amp;lt;/em&amp;gt;” respondiam os Zo’é, quando alguém apontava para seus rostos, buscando saber seu nome.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Zo’é são falantes de uma língua Tupi-Guarani, do tronco Tupi. A maior parte da comunidade é monolíngue, com exceção de alguns chefes e de uma dezena de jovens, que aprenderam a se comunicar em português e estão adquirindo rapidamente maior fluência, no âmbito de suas funções de gestão da &amp;lt;strong&amp;gt;Tekohara – Organização Zo’é&amp;lt;/strong&amp;gt;. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Experiências de contato e de convivência com ''kirahi'' ==&lt;br /&gt;
A área onde vivem os Zo’é situa-se em território histórico de povos de língua Karib, que ocupam as terras firmes do planalto das Guianas. Seus vizinhos mais próximos são os [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Tiriy%C3%B3 Tiriyó], ao Norte; os [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Aparai Aparai] e [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Wayana Wayana], a Leste; os quilombolas e castanheiros não indígenas ao Sul. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As fontes disponíveis sobre a região Norte do Pará não trazem informações suficientes para acompanhar a trajetória da migração dos Zo’é até seu &amp;lt;em&amp;gt;habitat&amp;lt;/em&amp;gt; atual, mas é certo que este povo tem sua origem ao sul. Essa é a direção que eles indicam quando são indagados sobre sua procedência antiga, embora a localização das aldeias de antepassados longínquos não seja assunto de grande interesse.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como ocorre na tradição oral das sociedades indígenas que mantêm contatos antigos com a população regional, a presença de não indígenas acaba sendo integrada ao tempo mítico. Os Zo’é não questionam nem a origem, nem os movimentos dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;, ou dos povos inimigos: todos eles, simplesmente, sempre existiriam. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diz-se, inclusive, que quando &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt; recriou a humanidade, não precisou refazer os não indígenas, que não haviam sido engolidos pelo dilúvio: eles já existiam, mas estavam longe, “na borda da terra”. Elementos históricos são agregados ao mito, associando o evento da recriação a contatos interétnicos. O fogo que destruiu a terra foi provocado por inimigos, habitantes do Leste; para alcançar as ossadas dos humanos destruídos pelo dilúvio, o herói vem do Sul, flutuando em um recipiente típico dos não indígenas: um corote de gasolina. Depois, cada um volta a ocupar seu espaço: os não indígenas ficam no Sul; os Zo’é nas serras, longe dos rios; os inimigos a Leste.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/Jipohan_%C3%A9_gente_como_voc%C3%AA “Jipohan é gente como você”, por Jurusi uhu, Pa'hi e Tatitu Zo'é]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/763735-2/DSC_3332_edit.JPG|Jurusi uhu Zo'é. Foto: Dominique Tilkin Gallois&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Era comum, nos anos 1990, os Zo’é perguntarem aos visitantes: “Vocês viram onde está &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt;, aquele herói que revitalizou seus ancestrais juntando ossos dos flagelados pelo último cataclismo?” Os Zo’é consideravam &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt; como um &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;. Após sua façanha de recriação, ele voltou para sua terra de origem, no Sul. É descrito usando roupas, escrevendo, usando canoa com motor, gravador, injeções e ferramentas diversas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como é comum na elipse temporal que o mito efetua, os Zo’é atualizam suas tradições com ingredientes extraídos de sua experiência do passado e de suas expectativas de futuro. Razão pela qual, na morada celeste dos mortos, os ex-Zo’é têm acesso irrestrito à mercadorias, inclusive espingardas, que lhes são fornecidas por alguns ex-&amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; generosos – como foi um servidor da Funai, Isidoro, que segue lhes trazendo mercadorias desejadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como ocorreu em muitos lugares, os eventos do contato dos Zo’é com missionários e depois com servidores da Funai envolveu diretamente a questão do acesso às mercadorias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Luis Donisete B. Grupioni/1989&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281189-1/zoe_7.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os então chamados “Índios do Cuminapanema” foram apresentados ao mundo em 1989, em reportagens que enfatizavam sua “pureza” e “fragilidade” e os descreviam como um dos últimos povos “intactos” na Amazônia. E justamente por serem um dos raros grupos ainda “não atingidos” nem pela mensagem evangélica, nem pela assistência oficial, os Zo’é atraíram a atenção da Missão Novas Tribos (MNT), que iniciou seu trabalho na região em 1982. Foram necessários cinco anos de sucessivas aproximações e recuos para “pacificar” os Zo’é – até que em 1987 os missionários  instalaram a Base Esperança na porção sul da atual TI Zo’é. Ali, passaram a controlar sozinhos o processo de acomodação dos Zo’é à nova situação, até a Funai assumir a área em 1991.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, os Zo’é já tinham experiências de encontro com não indígenas desde muito tempo. Relatam inclusive a saída de uma mulher que viajou até Santarém, de onde acabou voltando, provavelmente no final do século XIX.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
No final dos anos 1960, o território zo’é passou a ser percorrido por caçadores de felinos, conhecidos como “gateiros”. Nesse período, os Zo’é encontravam em suas trilhas, gaiolas, ferramentas abandonadas, restos de acampamentos. Também encontravam vestígios de coletores de castanha. Eram contatos indiretos, ou, como dizem os Zo’é, “sem carne/sem corpo”, pois não viam os forasteiros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Dominique Gallois, 1991&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281182-1/zoe_4.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1975, eles foram surpreendidos por visitas mais espetaculares, quando um helicóptero do Instituto de Estudos e Pesquisas do Pará despejou embrulhos com roupas e objetos sobre a aldeia Kejã. Foi também com presentes lançados do céu, ou dependurados no caminho das aldeias, que os membros da Missão Novas Tribos se aproximaram. Entre 1982 e 1987, eles estiveram várias vezes em acampamentos ou aldeias, saindo rapidamente. Segundo os Zo’é, muitas pessoas ficavam doentes na sequência dessas visitas e, como demoravam meses para voltar, as pessoas acometidas por doenças pulmonares morriam. Eles também relatam que resolveram se deslocar rumo ao Sul, em busca de uma explicação para esse “sopro” de doenças e para pegar mais objetos, chegando finalmente à Base Esperança em outubro de 1987, data oficial do “contato” com a MNT. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
===Terçados, epidemia e mortes===&lt;br /&gt;
{{Lead |por '''Fábio Ribeiro'''}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As notícias trazidas sobre os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; que davam facões e machados logo se espalharam pelas aldeias e em pouco tempo muitos Zo’é foram atrás dos missionários. Como não havia ferramentas para todos, o clima logo ficou tenso. Os homens que não pegaram facões ficaram bravos, bateram nas paredes entraram e saquearam a casa dos missionários, na localidade de Kuruaty. Esses, com muito medo, foram embora. As doenças, no entanto, ficaram. É nesse período que tem início a epidemia que em poucos dias tirou a vida muitas outras pessoas zo’é. “&amp;lt;em&amp;gt;Kirahi rahy ate juke&amp;lt;/em&amp;gt;. Foi a doença dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; que matou”. O relato de Hun, um atual chefe Zo’é é claro ao afirmar que a epidemia teve início logo após o encontro de Tun e Dubehaj com os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; e que, apenas muito tempo depois, quando encontraram Sera’yt (em 1987), é que os missionários trouxeram injeções com remédios, mas não vacinas. Hun, ainda criança nessa época, foi duramente afetado: seu pai, sua mãe e alguns de seus irmãos morreram na maloca de Pirity. “Naquele tempo os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; foram embora mesmo. Depois os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; pensaram de novo, queriam ver os Zo’é de novo, aí os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; voltaram. Foi então nessa época que encontraram Sera’yt (...) e ficaram alegres. Naquela época os Zo’é tinham mandado embora, então os kirahi pensaram, aí abriram o caminho novamente. Passaram-se muitas luas naquele tempo, e aí os missionários voltaram.” – Adaptado de &amp;lt;em&amp;gt;Kampugerau: crônica de um movimento zo’é &amp;lt;/em&amp;gt;, 2024&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após essa notícia, a Funai criou o PINC Cuminapanema, subordinado à 4ª SUER/Funai em Belém (Portaria nº 1.061, de 22 de maio de 1987). No ano seguinte, o convênio 008/1998 celebrado entre a Funai e a MNT vedava sua atuação em áreas de indígenas isolados. Mas a Missão não se retirou e continuou seu trabalho junto aos Zo’é. Até que, em janeiro de 1989, a Missão alertou a Funai sobre a precária situação de saúde dos Zo’é. O sertanista Sidney Possuelo conseguiu apoio da imprensa e pôde assim realizar uma primeira visita à área. Numa segunda viagem, pouco tempo depois, a equipe da Funai verificou que a situação de saúde estava piorando e começou então a planejar um trabalho mais sistemático. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante mais de um ano, os Zo’é assistiram à convivência tensa entre as equipes da Funai e da Missão Novas Tribos, cada uma com sua base, entre as quais eles continuaram circulando para obter remédios e objetos industrializados. Quando conseguiu recursos e pessoal adequados para assumir um trabalho de assistência que abrangesse a totalidade das quatro aldeias existentes na época, a Funai retirou os missionários da área, em outubro de 1991. A partir desse momento, os sucessivos responsáveis pelo PINC Cuminapanema, orientados pelo então Departamento de Índios Isolados (DII), da Funai, passaram a desempenhar  ações de proteção do povo Zo’é e de sua terra, em formatos que variaram sensivelmente ao longo dos anos. Foi somente a partir de dezembro de 2009, com a reestruturação da Funai, que o órgão indigenista instituiu a  Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC), incluindo a proteção às populações de recente contato como os Zo’é. A Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema (FPEC) foi criada em 2011 (Portaria Nº 1816/PRES, de 30 de dezembro de 2011) e, desde então, segue novas diretrizes para a promoção da integridade cultural e territorial do povo Zo’é.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A regularização da TI Zo’é ==&lt;br /&gt;
Em 1987, a Funai procedeu à interdição da Área Indígena Cuminapanema/Urucuriana, com uma extensão de aproximadamente 2.059.700 hectares, ao sul do [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3885 Parque Indígena de Tumucumaque], nos municípios de Alenquer e Óbidos, Pará ([https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/ZED00005.pdf Portaria nº 4.098 de 30/12/1987]). A interdição visava dar condições de trabalho à equipe da Funai, para o reconhecimento de numerosas referências de indígenas  isolados levantadas pelo então DII. Na época, a Funai já conhecia a presença dos Zo’é, através de informações repassadas pela Missão Novas Tribos, que havia localizado este povo em 1982.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Zo'é trabalhando na construção de novas casas, Leonardo Viana Braga, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/9/0_eedce20393fa4de/52690scr_4bbc991f8b7ca54.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os trabalhos de identificação e delimitação da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3927 Terra Indígena Zo'é] aconteceram entre 1996 e 1998, com a participação ativa dos Zo’é e de vários técnicos e especialistas, em muitas etapas. A primeira, de estudos antropológicos, incluiu a preparação da comunidade para que os Zo’é pudessem acompanhar todos os procedimentos da regularização de seu território. A Portaria nº 309 de 04/04/1997 constituiu o Grupo de Trabalho cujo [https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/ZED00014.pdf relatório de identificação e delimitação] foi submetido à aprovação da Funai em novembro de 1998.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A demarcação física da Terra Indígena, com 668.565 hectares, foi realizada entre 1999 e 2000, por uma empresa contratada pela Funai. Contrariamente ao acordado com os Zo’é durante os trabalhos de identificação, eles não puderam acompanhar os trabalhos demarcatórios e foram mantidos alheios ao processo de regularização de seu território. Após a revisão de erros na delimitação do limite sul, a homologação e o registro no Serviço de Patrimônio da União (SPU), a demarcação da Terra Indígena foi finalmente  consagrada por decreto presidencial (s/n), publicado no Diário Oficial da União (DOU) em 22 de dezembro de 2009.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2008, a pedido do Ministério Público Federal, foi criada uma faixa de amortecimento em volta da Terra Indígena, a Zona Intangível das Florestas Estaduais (FES) [https://uc.socioambiental.org/pt-br/arp/4641 Trombetas] e [https://uc.socioambiental.org/pt-br/arp/4642 Paru]. Essa área não poderia receber nenhum tipo de exploração econômica para evitar a contaminação dos indígenas em situação de recente contato. Com a aprovação do Plano de Manejo da FES do Trombetas pelo Conselho Estadual de Meio Ambiente do Pará, a faixa foi incorporada no zoneamento da Unidade de Conservação. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Iniciativas dos Zo’é consolidam novos rumos ==&lt;br /&gt;
Durante vinte anos, a atuação do órgão indigenista se centrou em manter os Zo’é afastados das relações com os não indígenas e suas tecnologias, evitando também qualquer encontro com povos indígenas vizinhos. Mas em 2010, os Zo’é tomaram a iniciativa de romper a aliança que mantinham com a equipe da Frente de Proteção da Funai e saíram da terra demarcada para buscar mercadorias que lhes eram recusadas em seu território. Um grupo se dirigiu ao Norte, ao encontro dos Tiriyó no Rio Marapi, e outro se dirigiu aos Campos Gerais, além do limite Sul da Terra Indígena, onde trabalharam com coletores de castanha. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Voltaram trazendo espingardas velhas, redes de &amp;lt;em&amp;gt;nylon&amp;lt;/em&amp;gt;, roupas usadas e alguns gêneros alimentícios, além de várias pessoas doentes. A experiência rendeu importantes aprendizados no que toca aos modos de relação com seus vizinhos, indígenas e não indígenas, e resultou na revisão da política de proteção da TI Zo’é – até então fundada na manutenção de um rígido “isolamento” e na contenção de seus pedidos de acesso não só às mercadorias como a conhecimentos sobre o modo de vida dos não indígenas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi nesse contexto que o [https://institutoiepe.org.br/ Instituto Iepé] estabeleceu, em 2016, uma parceria com a nova gestão da Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema (FPEC), visando criar alternativas para que os Zo’é acessassem informações e experiências que lhes permitissem compreender e se posicionar frente aos interesses dos diferentes setores da sociedade brasileira. Buscou-se atender às demandas dos Zo’é, através de um conjunto de ações educativas e de apoio às suas próprias iniciativas de vigilância territorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Planejando o futuro e a proteção do território ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em novembro de 2019, os Zo'é pactuaram seu Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da TI Zo'é, onde definem suas prioridades para o futuro. “&amp;lt;em&amp;gt;Jo’e rekoha bokitute ram&amp;lt;/em&amp;gt; – Planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro” foi o título escolhido pelos Zo’é para esse plano de gestão, onde explicitam as diretrizes para a proteção de seu território e de seu modo de vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas atividades realizadas para a construção do PGTA, entre 2016 e 2019, confirmou-se a mudança de foco nos interesses dos Zo’é. Menos inquietos em garantir abastecimento de objetos dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;, estavam mobilizados para ampliar sua circulação pelo território, não só reconhecendo áreas ocupadas pelos antigos, como abrindo novos percursos para avaliar as reservas de caça e pesca e as possibilidades de abertura de novos assentamentos. No documento, os Zo’é afirmam: “Queremos que nossos filhos sigam ocupando vastamente o nosso território”, colocando o processo de dispersão de aldeias como um dos fundamentos do bem viver. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Foto: Transporte de canoa recém construída pelos Zo'é, Hugo Prudente, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/6_92ae3e7baf9ad67/52686scr_d2b118ef8ea028d.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa mobilidade promoveu novas incursões e a vigilância mais sistemática em áreas fartas em recursos, como os grandes castanhais no Sul e em outras porções do território. Uma das diretrizes do PGTA dedica especial atenção à vigilância dessa região, que foi invadida por castanheiros em 2018 e que, desde então, vem sendo ocupada por aldeias novas e acampamentos. Como escreveram os Zo’é no documento: “Nós, coletando essa castanha, invasores não virão mesmo. Aqui é nossa terra, a castanha está na nossa terra. Tem castanha na terra dos não índios, essa deve ser a castanha deles. Essa aqui é nossa castanha. Estamos falando duramente agora”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
“Fazer saber o nosso território” é uma afirmação e um objetivo a ser buscado, articulando ações de vigilância e de ocupação. Mobiliza concepções importantes da territorialidade zo’e, como o zelo pelos lugares habitados, a articulação entre os diversos grupos familiares na abertura de uma nova aldeia e o caráter regular das idas e vindas implicadas em uma iniciativa de expansão territorial. Nesse movimento, os grupos territoriais se reestruturam, mantendo suas diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
Confira aqui o [https://institutoiepe.org.br/2022/05/plano-de-gestao-territorial-e-ambiental-zoe/ PGTA &amp;lt;em&amp;gt;Jo’e Rekoha Bokituteha Ram&amp;lt;/em&amp;gt; – Planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro]!&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== População e proliferação de aldeias ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Distribuição de bebida ''sepy'' durante uma festa dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/7/4/6_cd584b0ad074849/52746scr_dcd3b057e91c8af.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A população Zo'é praticamente dobrou nos últimos trinta anos: eram 172 em 1998, à época da identificação da TI. Em 2011 eram 261 e hoje são 349 pessoas (Iepé, 2025). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Zo'é subdividem-se em dois grandes grupos, respectivamente situados ao Norte e ao Sul da Base da Funai, em que se distribuem os 19 grupos locais (&amp;lt;em&amp;gt;iwana&amp;lt;/em&amp;gt;), que circulam em determinadas áreas territoriais, onde estão suas aldeias antigas e recentes, além de acampamentos. Os &amp;lt;em&amp;gt;Iwana&amp;lt;/em&amp;gt; agregados de famílias extensas, atualmente em número de 31, que vivem em aldeias próximas, e cuja composição sofre constantes alterações em função das alianças matrimoniais e das parcerias estabelecidas para ocupar novas áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos últimos dez anos, ocorreu um processo de proliferação de aldeias muito significativo. Na época da instalação da Funai em 1991, eram apenas quatro; eram cinco em 1998, 12 em 2011 e hoje existem 62 aldeias. Configuram conjuntos de pequenas aldeias ocupadas de forma intermitente por famílias extensas que vivem em lugares próximos e circulam entre seus vários assentamentos, em função da fartura de recursos e dos cuidados das roças. Essa intensa mobilidade está relacionada ao apoio logístico que recebem tanto da FPE-Funai como do Iepé, com uma rede de radiofonia em praticamente todas as aldeias. Merece destaque o fato de que, nos últimos anos, os Zo’é têm optado por fabricar suas próprias canoas em madeira de aroeira, preferidas – por enquanto – às voadeiras de alumínio, não só difíceis de transportar até a TI, como exigindo manutenção custosa. Aprenderam a fabricar canoas num intercâmbio que levou especialistas do povo [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Waiwai Waiwai] para a TI Zo’é em 2017 e, desde então, cada família procura construir sua própria embarcação, na qual são instalados os motores rabeta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Estações e ritmos da vida ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Indígenas zo'é finalizando uma rede de fibra de castanheira, Flora Dias Cabalzar, 2016.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/5_7ed184682c27e1c/52685scr_a5f3ac836c6e409.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma das principais características do modo de vida dos Zo’é, até hoje, é a intensa mobilidade das famílias pelo território. Todos têm acesso aos recursos florestais sem esgotá-los, uma vez que as atividades de cultivo das roças, de caça, pesca e coleta são feitas em pequena escala, pelas diferentes famílias, em áreas distintas. É também nesses movimentos que os Zo’é atualizam o exímio conhecimento acumulado sobre seu território, constantemente percorrido através de uma intrincada rede de caminhos entre aldeias, capoeiras e locais de coleta de itens necessários no dia a dia, tanto para alimentação como para a fabricação de utensílios.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um modo de vida que garante aos Zo’é uma alimentação exclusivamente composta de sua produção agrícola, da caça, pescado e frutas. Também merece destaque o fato de os Zo’é não utilizarem espingardas, mas sim seus arcos, flechas e arpões, complementados com anzóis e linhas de pesca industrializadas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Homem zo'é cuidando de flechas, Dominique Tilkin Gallois, 2023.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/7_234521b7fa212cf/162427scr_wm_3c5190633e93dd0.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O caráter sazonal de alguns recursos dos quais os Zo’é se utilizam conforma a dinâmica de circulação das famílias pelo território e também repercute nos movimentos de aproximação e distanciamento entre essas famílias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É no tempo das chuvas, de fevereiro a julho, que acontecem os períodos mais prolongados de dispersão das famílias pelo território, quando são realizadas grandes caçadas, principalmente de macaco-aranha e de tucano. No início das chuvas, as famílias também se deslocam para a beira de igarapés e hoje também de rios maiores, aproveitando o volume das águas para caçar urubu-rei, usando peixes podres como iscas. Instalados nos acampamentos, os Zo’é retornam às aldeias para buscar farinha, preparada com antecedência e estocada nas casas; quando ela acaba, permanecem alguns dias para preparar mais farinha, beiju e tapioca.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O período ideal para a caça de ''kwata'' (macaco-aranha, coatá ou coamba) vai de março a maio, período denominado ''kwata ike'', quando estão gordos. Montam-se acampamentos específicos, de onde os homens saem para as serras, em busca dos macacos. No final desse período, em maio, tucanos, araras e papagaios já estão comendo frutas de palmeiras. É a estação chamada de ''token ike'', do “tucano gordo”, que dura cerca de um mês e meio, quando bandos numerosos de aves vêm comer patauá ou açaí, em locais de concentração de frutas. Já é no final da estação chuvosa e início da estação seca que os porcos queixadas e caititus estão gordos, motivando saídas frequentes de grupos de homens às trilhas das varas de porcos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Moça zo'é preparando leite de castanha, Dominique Tilkin Gallois, 2023.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/9_d567041deb9c12a/162429scr_wm_697db62eab28f2f.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre os recursos mais valorizados nesse calendário do tempo das chuvas, a castanha-do-Brasil é um alimento básico na dieta. Os Zo’é colhem os ouriços a partir de janeiro e consomem amêndoas em profusão durante toda a estação chuvosa; durante o verão, colhem ouriços ainda verdes e continuam comendo castanha o ano todo, em preparos diversos com produtos da mandioca ou carnes. Como é também nesse período que muitas frutas amadurecem, é comum interromperem o movimento de dispersão entre acampamentos para fazer festas, quando se distribui grande quantidade de bebida fermentada ''sepy''.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A estação seca, de final de julho até o início de janeiro, é marcada pelo trabalho nas roças. É quando a vida nas aldeias se intensifica, sendo um período de maior aproximação entre grupos familiares. Isso não significa que as famílias não mantenham, no verão, outras atividades que as leve a deixar a aldeia. Saem para buscar frutas da estação, como o açaí que é trazido em grandes cachos. Mas sobretudo saem para pescar com timbó, com anzóis, ou ainda com flecha ou zagaia. No verão, também acontecem expedições de caça, em geral mais curtas e só entre homens, já que as mulheres ficam nas aldeias cuidando das roças. Além disso, como muitas famílias mantêm cultivos em mais de uma aldeia, deslocam-se para dar conta de todas as roças. O corte, queima e limpeza das roças se prolonga até dezembro, meados de janeiro, quando a castanha está de novo madura, e os Zo’é limpam a roça da mandioca que brotou e fazem novo plantio. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Refeição familiar dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017.&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/9_9e70545c4b7fee0/52689scr_5d2f4b741f6cd92.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A mandioca é o principal cultivo, com uma variedade de produtos: farinha, beiju, tapioca, tucupi. As mulheres, inclusive com colaboração dos homens para ralar as raízes, dedicam muito de seu tempo ao processamento da mandioca: descascar, ralar, espremer no tipiti, peneirar, torrar farinha. Os Zo’é também cultivam pimenta, batata-doce, cará, banana, mamão, caju, goiaba, graviola, manga, urucum, algodão, cuia, cabaça, curauá e cana de flecha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade de vida dos Zo’é decorre, portanto, desse grande acervo de saberes e práticas do cotidiano, transmitidos e aperfeiçoados ao longo das gerações. Se, nas últimas décadas, os Zo’é se apropriaram seletivamente de alguns itens industrializados, continuam valorizando suas próprias tecnologias para fabricar os artefatos que utilizam cotidianamente.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Ler e escrever na própria língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Os Zo'e durante uma oficina de Letramento, Dominique Tilkin Gallois, 2023&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/6_07c4c88f97d55fe/162426scr_wm_9578fba3a29bfe7.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre as ações educativas construídas com os Zo’é para promover a discussão e pactuação do PGTA, destacam-se as atividades de letramento, iniciadas pelo Iepé em 2017. Tanto para a formulação adequada das medidas de proteção como, sobretudo, para a apropriação duradoura deste plano, era imprescindível que os próprios Zo’é pudessem redigir e atualizar as diretrizes de gestão de seu território. Trata-se de um programa não escolar de letramento, que é concebido não apenas como um meio de apropriação da leitura e escrita – por enquanto apenas na língua zo’é – e a iniciação à matemática, mas também como aproximação aos conceitos, à linguagem e às práticas relacionadas aos direitos assegurados aos povos indígenas pela [https://pib.socioambiental.org/pt/Constitui%C3%A7%C3%A3o Constituição brasileira de 1988]. É nesse sentido que as ações de letramento viabilizaram a criação da Tekohara, organização representativa do povo Zo’é, na consolidação de seu Fundo de Artesanato, o FAZ, e na construção de um [https://institutoiepe.org.br/2025/08/protocolo-de-consulta-e-consentimento-zoe/ protocolo de consulta e consentimento]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a pandemia de Covid-19, durante a qual todos os trabalhos com os Zo’é foram suspensos, consolidou-se uma turma de cerca de 40 jovens e adultos, depois separada em duas, correspondendo aos grupos do Norte e do Sul. Reúnem-se quatro vezes por ano nos Encontros de Letramento, realizados na “casa grande” da Base da Funai, em Kejã. Destacaram-se rapidamente oito jovens, que passaram a atuar como multiplicadores nas atividades de letramento, como tradutores e mais recentemente assumiram cargos na gestão da organização representativa, Tekohara. Além desses Encontros, oficinas específicas promovem a construção participativa de materiais didáticos, hoje já com mais de 20 títulos versando sobre os mais diversos temas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Todos os materiais produzidos procuram registrar as reflexões dos Zo’é sobre seu modo de vida, sobre as mudanças recentes que interferem nas formas de ocupação do território, sobre experiências novas de gestão advindas da consolidação de sua associação etc. Entre eles, destacam-se os cadernos da série ''Rekoha'', que sempre iniciam com a feitura de um mapa por um líder de grupo local, complementado por pequenos textos extraídos das conversas sobre suas iniciativas de abertura de caminhos, roças, acampamentos de caca e pesca, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra série de materiais traz resultados de uma pesquisa colaborativa sobre cantos, engajando jovens letrados e conhecedores mais idosos, que permitiu também introduzir o uso da informática, para a gestão de um acervo de cantos e de suas transcrições. Além disso, outros cadernos específicos apoiam a formação em gestão tanto da Tekohara como do Fundo de Artesanato Zo’é (FAZ). Mais recentemente, alguns cadernos trazem saberes das mulheres – que praticamente não participam das atividades de letramento – especialmente sobre o ciclo da castanha e sua culinária. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
=== Tekohara – Organização Zo’é ===&lt;br /&gt;
Após a pandemia de Covid-19, os Zo’é reativaram seu movimento de reorganização de relações com os não indígenas, inaugurado com a pactuação do PGTA, e criaram em 2022 uma organização representativa, denominada Tekohara. O nome ''Tekohara'' foi especialmente criado para a associação. Segundo os fundadores, a expressão inexiste na língua zo’é, porém remete à proteção do território, chamado em sua língua de – ''tekoha''. Constitui assim uma síntese do que consideram ser a atuação prioritária da organização, em consonância com todo o trabalho de gestão territorial que os Zo’é vêm conduzindo nos últimos anos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A assembleia de fundação reuniu praticamente toda a população zo’é, incluindo idosos e crianças. Desses, todos os maiores de 17 anos, totalizando 198 pessoas à época, se tornaram associados, que escolheram e aclamaram seus representantes para duas instâncias de gestão:  o Conselho de Chefes e a Diretoria. O primeiro é composto por ''sete iy'', principais líderes zo’é, reconhecidos pelos demais chefes de todos os subgrupos. Em 2025, a assembleia escolheu outros chefes para o conselho, hoje um total de 11, que também constituem o Conselho Fiscal da associação. A diretoria é constituída por cinco jovens letrados, que se consideram “ajudantes dos chefes” e atuam diretamente nas instâncias que exigem a leitura e escrita de documentos, a convocação e mediação de reuniões, a gestão de recursos, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2024, os chefes do conselho e os jovens da diretoria, além de outros adultos interessados, construíram o protocolo de consulta e consentimento, ao longo de cinco oficinas e de várias reuniões de apresentação e aprovação do documento, publicado em duas línguas, em 2025. Afirmam, neste protocolo: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
“Temos nos reunido regularmente para conversar e com isso nossa associação está firme, porque discutimos todos os assuntos importantes. Como consolidamos nosso próprio jeito de fazer reuniões e tomar decisões, temos clareza sobre como devemos nos posicionar sobre quem pode e quem não pode entrar em nosso território (...) É porque mantemos um mesmo entendimento sobre a proteção de nosso território que as decisões não são difíceis. É assim que alcançamos consenso entre nós todos”. – Protocolo de consulta e consentimento Zo’é (2025, pp. 14-21)&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/3_8ec6e605f080da0/162433scr_wm_6306ea1916b3650.jpg| Lideranças zo'é durante uma reunião da Tekohara, Kamikia Kisedje, 2024}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A gestão coletiva de um Fundo de Artesanato ==&lt;br /&gt;
Desde a instalação da Funai na Terra Indígena, em 1991, os Zo’é têm produzido artesanato para troca com visitantes, ainda que de modo episódico, obtendo assim diversos utensílios que foram, desde então, incorporados ao seu modo de vida. Naquele período, o Posto de Atração distribuía uma ou duas vezes por ano ferramentas, material de pesca, lanternas e pilhas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Os Zo'e durante a etiquetagem de peças comercializadas por meio do Fundo de Artesanato, Dominique Gallois, 2023&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/5_22188c531215eb0/162425scr_wm_ee3a42b7ee661ff.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já a partir de 2011, a CGIIRC-Funai passou a rever sua política de proteção, garantindo aos indígenas em situação de recém-contato novas experiências e formas de participação. Foi nesse contexto que o Fundo de Artesanato Zo’é (FAZ), foi criado em 2012, pela Frente Cuminapanema (FPEC). Tratava-se de ampliar as possibilidades de troca e assegurar maior autonomia no abastecimento de itens industrializados demandados pelos Zo’é. Sobretudo se buscou passar de um sistema de doação para um mecanismo coletivo de permutas, assegurando a distribuição de itens industrializados previamente selecionados para todas as famílias, que por sua vez entregam lotes de peças que correspondem aproximadamente ao valor dos objetos adquiridos pelo Fundo. Durante dez anos, o FAZ se consolidou sob gestão da equipe da Funai, mas desde 2022, é gerido diretamente pelos Zo’é, por meio da associação Tekohara, ainda que com algum apoio dos parceiros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O FAZ consiste num sistema de trocas que envolve todas as famílias zo’é, atendendo suas demandas por objetos industrializados. Nos últimos anos, acordou-se com os parceiros que itens como material de pesca, ferramentas, entre outros, são adquiridos através de projetos do Iepé, desonerando assim o FAZ. A lista do que deve ser comprado é aberta, mas inclui cerca de 20 itens, todos eles incorporados ao modo de vida dos Zo’é há várias décadas. A lista envolve itens de uso pessoal, como sandálias, espelhos, linhas para tipoias, sabão, panelas, tigelas, além de alguns itens necessários às atividades produtivas do cotidiano, como isqueiros, sacos para armazenar farinha e eventualmente ferramentas que não podem ser adquiridas através dos projetos dos parceiros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Tebo Zo'é segurando cumaru, Kamikia Kisedje, 2024&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/1_1085df758a31880/162431scr_wm_04d1d66a3aa490a.jpg }}&lt;br /&gt;
  &lt;br /&gt;
As famílias entregam peças de artesanato e recebem itens prévia e cuidadosamente selecionados em reuniões com os chefes de todas as aldeias. Ou seja, a um certo conjunto de artesanato vendido corresponde um certo número de itens industrializados adquiridos com o recurso da comercialização das peças. Seguindo a expressa preferência dos Zo’é, os itens são sempre comprados na quantidade que atenderá rigorosamente todas as famílias. As entregas são realizadas três a quatro vezes por ano, com itens que são escolhidos em reuniões trimestrais, para atender às necessidades do momento. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os artefatos comercializados pelo FAZ são os mesmos utilizados no cotidiano dos Zo’é e incluem trançados, recipientes em cerâmica, colheres, pentes, brincos e pulseiras. Tal seleção, entre os muitos itens da cultura material zo’é, obedece a critérios de sustentabilidade. A legislação vigente não permite a venda de plumária ou de flechas com ponta de osso, ou qualquer objeto fabricado com partes de animais. Arcos de madeira e redes feitas de fibras de castanheira tampouco são vendidos, para garantir aos Zo’é exclusividade no acesso a esses materiais essenciais em seu modo de vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar dessas restrições, os resultados do FAZ são muito promissores, não apenas por incentivar a continuidade dos saberes e práticas artesanais dos Zo’é, como por viabilizar a formação em gestão dos jovens e dos chefes. Ao se apropriar deste Fundo, os Zo’é souberam declarar e garantir critérios próprios na distribuição adequada dos bens adquiridos, em acordo com seus valores e considerações quanto às diferenças de gênero, idade e processos de aprendizagem, bem como à isonomia entre os grupos locais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além da venda de artesanato, a Tekohara também realiza a  venda de sementes de cumaru, coletadas pelas famílias envolvidas no FAZ. Desde 2019, o Fundo se beneficia ainda com a venda exclusiva dos livros da série Saberes Zo’é, atualmente com três títulos: [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Potuwa.pdf ''Potuwa pora kõ'' – O que se guarda no ''potuwa''] (2019); [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2021/07/Eremiu-rupa.-Abrindo-rocas_Trecho.pdf ''Eremi’u rupa'' – Abrindo roças] (2021) e [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Canoa-Zoe.pdf ''Ihara rape rupi'' – Pelo caminho da canoa] (2023).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/4_f91f5d08e62cbad/162424scr_wm_0c86653fd01dc21.jpg| Distribuição de sabão adquirido com recursos do FAZ, Dominique Tilkin Gallois, 2025}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;CABRAL, Ana Suely.Uma escrita para a Língua Zo'é. Brasília: Lalli/Unb/Funai, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin. De arredio a isolado : perspectivas de autonomia para os povos indígenas isolados. In: GRUPIONI, Luís Donisete Benzi (Org.). Índios no Brasil. São Paulo : Secretaria Municipal de Cultura, 1992. p. 121-34.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Essa incansável tradução : entrevista. Sexta Feira: Antropologia, Artes e Humanidades, São Paulo : Pletora, n. 6, p. 103-21, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Tupi do Cuminapanema : eles se chamam Zo'É. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1991/1995. São Paulo : Instituto Socioambiental, 1996. p. 280-7.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Zo'é. In: ASSIS, Rogério. São Paulo: Terceiro Nome, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Sobre alguns modos zo’e de fazer coletivos e lideranças”. In: FAJARDO GRUPIONI, D.; Andrade, L. M. M. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; GRUPIONI, Luís Donisete Benzi. O índio na Missão Novas Tribos. In: WRIGHT, Robin (Org.). Transformando os Deuses : os múltiplos sentidos da conversão entre os povos indígenas no Brasil. Campinas : Unicamp, 1999. p. 77-130.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
GALLOIS, Dominique Tilkin; BRAGA, Leonardo Viana; PEDREIRA, H. P. S. 2020 Construindo o Plano de Gestão Territorial e Ambiental com os Zo’é. In: Luis Donizete Benzi Grupioni (org.). Em busca do bem viver: Experiências de elaboração de Planos de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas. São Paulo: Rede de Cooperação Amazônica, 1. ed., v. 1.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. A redescoberta dos amáveis selvagens. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1987/88/89/90. São Paulo : Cedi, 1991. p. 209-14. (Aconteceu Especial, 18)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; HAVT, Nadja. Relatório de identificação da Terra Indígena Zo'é : Portaria 309/PRES/Funai - 04.04.97. São Paulo : Funai, 1998.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;HAVT, Nadja. De algumas questões sobre a participação de “índios isolados” no processo de regularização fundiária : o exemplo dos Zo’É. In: GRAMKOW, Márcia Maria (Org.). Demarcando terras indígenas II : experiências e desafios de um projeto de parceria. Brasília : Funai/PPTAL/GTZ, 2002. p. 85-94.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Representações do Ambiente e da Territorialidade entre os Zo’é/PA. Dissertação de Mestrado. FFLCH/USP, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;Iepé &amp;amp; FPEC/Funai. Jo’e bokitute ram: planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro. Plano de Gestão Territorial e Ambiental da TI Zo’é. São Paulo: Iepé, 2019.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
BRAGA, Leonardo Viana. Micropeças sobre gênero e caçada junto aos Zo’é. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas:&lt;br /&gt;
índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. ''Pani'em'': um esboço sobre os modos de saber entre os Zo'é. Dissertação de mestrado. FFLCH/USP, 2017.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Eremi'u rupa. Abrindo roças. 1. ed. São Paulo: Série Saberes Zo'é - Iepé, FPEC/Funai &amp;amp; Fundo de Artesanato Zo'é (FAZ), 2021. v. 2. 189p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
BRAGA, Leonardo Viana; PEDREIRA, Hugo Prudente S.; CABALZAR, Flora Dias. 2020. 'Fazer saber a própria terra'. In: Nelson Russo de Moraes; Leila Adriana Baptaglin; Lamounier Erthal Vilella; Alexandre de Castro Campos; Raoni Fernandes Azerêdo. (Org.). Povos Originários e Comunidades Tradicionais: trabalhos de pesquisa e de extensão universitária – volume 4, 1ed.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; &lt;br /&gt;
PEDREIRA, Hugo Prudente da Silva. ''Potuwa pora kõ'' - o que se guarda no ''potuwa. 1''. ed. São Paulo: Instituto de Pesquisa e Formação Indígena - Iepé, 2019. v. 1. 148p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; RIBEIRO, Fabio N. “Os Zo’é e as metamorfoses do fundamentalismo evangélico”. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Encontros Zo’é nas Guianas. Tese de doutorado. FFLCH/USP, 2019.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. ''Ihara Rape Rupi'': pelo caminho da canoa. 1. ed. São Paulo: Iepé - Instituto de Pesquisa e Formação Indígena, 2023. v. 1. 132p .&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
Cuidado ao editar esta seção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Zo'é}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Dominique T. Gallois}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
{{#set:Capa=162430scr_wm_9d03db1dcc7a9e9.jpg}}&lt;br /&gt;
{{#set:Counter=61505}}&lt;br /&gt;
{{#set:Crédito capa=Kamikia Kisedje, 2024}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=1997-01-01}}&lt;br /&gt;
{{#set:Estilo=claro}}&lt;br /&gt;
{{#set:Povo Id=321}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas no Pará]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8522</id>
		<title>Povo:Zo'é</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8522"/>
		<updated>2025-10-20T17:53:50Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: /* A regularização da TI Zo’é */&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Vivem numa área de densas florestas, entre os rios Cuminapanema e Erepecuru, no Norte do Pará. Os Zo’é convivem com agentes de assistência há quase quatro décadas, mantendo vigorosamente suas formas de organização social e territorial. Este povo em situação de recente contato vem se mobilizando para implementar o PGTA da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3927 TI Zo'é] e seu protocolo de consulta. Através da sua organização representativa, a Tekohara, fortalecem a gestão de um Fundo de Artesanato, um mecanismo original de trocas coletivas.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
== Nome e língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Os Zo'é durante uma oficina de Letramento, Dominique Gallois, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/4_f54a65283e04d93/52684scr_8d884e9b4241947.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pronome &amp;lt;em&amp;gt;jo’é&amp;lt;/em&amp;gt; [zo’é], “nós mesmos”, se consolidou como uma autodenominação que diferencia este povo dos não indígenas, chamados &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;. Já outros povos indígenas são chamados de “&amp;lt;em&amp;gt;amõ jo’é&amp;lt;/em&amp;gt;” (outros, como nós). No final dos anos 1980, quando começaram a conviver com missionários e com servidores da Funai, esse termo não era usado para designar a eles mesmos, mas para identificar qualquer pessoa que adquirisse alguma proximidade e que passasse, então, a ser considerada “gente como nós”. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os termos &amp;lt;em&amp;gt;Poturu&amp;lt;/em&amp;gt;, ou &amp;lt;em&amp;gt;Poturujara&amp;lt;/em&amp;gt;, difundidos inicialmente por agentes da Funai como denominação do povo recém-contatado na região do Cuminapanema, designam tão somente a madeira da árvore utilizada para confeccionar os adornos labiais &amp;lt;em&amp;gt;embe’pot&amp;lt;/em&amp;gt;. “&amp;lt;em&amp;gt;Poturu!&amp;lt;/em&amp;gt;” respondiam os Zo’é, quando alguém apontava para seus rostos, buscando saber seu nome.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Zo’é são falantes de uma língua Tupi-Guarani, do tronco Tupi. A maior parte da comunidade é monolíngue, com exceção de alguns chefes e de uma dezena de jovens, que aprenderam a se comunicar em português e estão adquirindo rapidamente maior fluência, no âmbito de suas funções de gestão da &amp;lt;strong&amp;gt;Tekohara – Organização Zo’é&amp;lt;/strong&amp;gt;. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Experiências de contato e de convivência com ''kirahi'' ==&lt;br /&gt;
A área onde vivem os Zo’é situa-se em território histórico de povos de língua Karib, que ocupam as terras firmes do planalto das Guianas. Seus vizinhos mais próximos são os [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Tiriy%C3%B3 Tiriyó], ao Norte; os [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Aparai Aparai] e [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Wayana Wayana], a Leste; os quilombolas e castanheiros não indígenas ao Sul. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As fontes disponíveis sobre a região Norte do Pará não trazem informações suficientes para acompanhar a trajetória da migração dos Zo’é até seu &amp;lt;em&amp;gt;habitat&amp;lt;/em&amp;gt; atual, mas é certo que este povo tem sua origem ao sul. Essa é a direção que eles indicam quando são indagados sobre sua procedência antiga, embora a localização das aldeias de antepassados longínquos não seja assunto de grande interesse.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como ocorre na tradição oral das sociedades indígenas que mantêm contatos antigos com a população regional, a presença de não indígenas acaba sendo integrada ao tempo mítico. Os Zo’é não questionam nem a origem, nem os movimentos dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;, ou dos povos inimigos: todos eles, simplesmente, sempre existiriam. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diz-se, inclusive, que quando &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt; recriou a humanidade, não precisou refazer os não indígenas, que não haviam sido engolidos pelo dilúvio: eles já existiam, mas estavam longe, “na borda da terra”. Elementos históricos são agregados ao mito, associando o evento da recriação a contatos interétnicos. O fogo que destruiu a terra foi provocado por inimigos, habitantes do Leste; para alcançar as ossadas dos humanos destruídos pelo dilúvio, o herói vem do Sul, flutuando em um recipiente típico dos não indígenas: um corote de gasolina. Depois, cada um volta a ocupar seu espaço: os não indígenas ficam no Sul; os Zo’é nas serras, longe dos rios; os inimigos a Leste.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/Jipohan_%C3%A9_gente_como_voc%C3%AA “Jipohan é gente como você”, por Jurusi uhu, Pa'hi e Tatitu Zo'é]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/763735-2/DSC_3332_edit.JPG|Jurusi uhu Zo'é. Foto: Dominique Tilkin Gallois&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Era comum, nos anos 1990, os Zo’é perguntarem aos visitantes: “Vocês viram onde está &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt;, aquele herói que revitalizou seus ancestrais juntando ossos dos flagelados pelo último cataclismo?” Os Zo’é consideravam &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt; como um &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;. Após sua façanha de recriação, ele voltou para sua terra de origem, no Sul. É descrito usando roupas, escrevendo, usando canoa com motor, gravador, injeções e ferramentas diversas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como é comum na elipse temporal que o mito efetua, os Zo’é atualizam suas tradições com ingredientes extraídos de sua experiência do passado e de suas expectativas de futuro. Razão pela qual, na morada celeste dos mortos, os ex-Zo’é têm acesso irrestrito à mercadorias, inclusive espingardas, que lhes são fornecidas por alguns ex-&amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; generosos – como foi um servidor da Funai, Isidoro, que segue lhes trazendo mercadorias desejadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como ocorreu em muitos lugares, os eventos do contato dos Zo’é com missionários e depois com servidores da Funai envolveu diretamente a questão do acesso às mercadorias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Luis Donisete B. Grupioni/1989&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281189-1/zoe_7.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os então chamados “Índios do Cuminapanema” foram apresentados ao mundo em 1989, em reportagens que enfatizavam sua “pureza” e “fragilidade” e os descreviam como um dos últimos povos “intactos” na Amazônia. E justamente por serem um dos raros grupos ainda “não atingidos” nem pela mensagem evangélica, nem pela assistência oficial, os Zo’é atraíram a atenção da Missão Novas Tribos (MNT), que iniciou seu trabalho na região em 1982. Foram necessários cinco anos de sucessivas aproximações e recuos para “pacificar” os Zo’é – até que em 1987 os missionários  instalaram a Base Esperança na porção sul da atual TI Zo’é. Ali, passaram a controlar sozinhos o processo de acomodação dos Zo’é à nova situação, até a Funai assumir a área em 1991.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, os Zo’é já tinham experiências de encontro com não indígenas desde muito tempo. Relatam inclusive a saída de uma mulher que viajou até Santarém, de onde acabou voltando, provavelmente no final do século XIX.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
No final dos anos 1960, o território zo’é passou a ser percorrido por caçadores de felinos, conhecidos como “gateiros”. Nesse período, os Zo’é encontravam em suas trilhas, gaiolas, ferramentas abandonadas, restos de acampamentos. Também encontravam vestígios de coletores de castanha. Eram contatos indiretos, ou, como dizem os Zo’é, “sem carne/sem corpo”, pois não viam os forasteiros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Dominique Gallois, 1991&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281182-1/zoe_4.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1975, eles foram surpreendidos por visitas mais espetaculares, quando um helicóptero do Instituto de Estudos e Pesquisas do Pará despejou embrulhos com roupas e objetos sobre a aldeia Kejã. Foi também com presentes lançados do céu, ou dependurados no caminho das aldeias, que os membros da Missão Novas Tribos se aproximaram. Entre 1982 e 1987, eles estiveram várias vezes em acampamentos ou aldeias, saindo rapidamente. Segundo os Zo’é, muitas pessoas ficavam doentes na sequência dessas visitas e, como demoravam meses para voltar, as pessoas acometidas por doenças pulmonares morriam. Eles também relatam que resolveram se deslocar rumo ao Sul, em busca de uma explicação para esse “sopro” de doenças e para pegar mais objetos, chegando finalmente à Base Esperança em outubro de 1987, data oficial do “contato” com a MNT. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
===Terçados, epidemia e mortes===&lt;br /&gt;
{{Lead |por '''Fábio Ribeiro'''}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As notícias trazidas sobre os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; que davam facões e machados logo se espalharam pelas aldeias e em pouco tempo muitos Zo’é foram atrás dos missionários. Como não havia ferramentas para todos, o clima logo ficou tenso. Os homens que não pegaram facões ficaram bravos, bateram nas paredes entraram e saquearam a casa dos missionários, na localidade de Kuruaty. Esses, com muito medo, foram embora. As doenças, no entanto, ficaram. É nesse período que tem início a epidemia que em poucos dias tirou a vida muitas outras pessoas zo’é. “&amp;lt;em&amp;gt;Kirahi rahy ate juke&amp;lt;/em&amp;gt;. Foi a doença dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; que matou”. O relato de Hun, um atual chefe Zo’é é claro ao afirmar que a epidemia teve início logo após o encontro de Tun e Dubehaj com os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; e que, apenas muito tempo depois, quando encontraram Sera’yt (em 1987), é que os missionários trouxeram injeções com remédios, mas não vacinas. Hun, ainda criança nessa época, foi duramente afetado: seu pai, sua mãe e alguns de seus irmãos morreram na maloca de Pirity. “Naquele tempo os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; foram embora mesmo. Depois os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; pensaram de novo, queriam ver os Zo’é de novo, aí os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; voltaram. Foi então nessa época que encontraram Sera’yt (...) e ficaram alegres. Naquela época os Zo’é tinham mandado embora, então os kirahi pensaram, aí abriram o caminho novamente. Passaram-se muitas luas naquele tempo, e aí os missionários voltaram.” – Adaptado de &amp;lt;em&amp;gt;Kampugerau: crônica de um movimento zo’é &amp;lt;/em&amp;gt;, 2024&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após essa notícia, a Funai criou o PINC Cuminapanema, subordinado à 4ª SUER/Funai em Belém (Portaria nº 1.061, de 22 de maio de 1987). No ano seguinte, o convênio 008/1998 celebrado entre a Funai e a MNT vedava sua atuação em áreas de indígenas isolados. Mas a Missão não se retirou e continuou seu trabalho junto aos Zo’é. Até que, em janeiro de 1989, a Missão alertou a Funai sobre a precária situação de saúde dos Zo’é. O sertanista Sidney Possuelo conseguiu apoio da imprensa e pôde assim realizar uma primeira visita à área. Numa segunda viagem, pouco tempo depois, a equipe da Funai verificou que a situação de saúde estava piorando e começou então a planejar um trabalho mais sistemático. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante mais de um ano, os Zo’é assistiram à convivência tensa entre as equipes da Funai e da Missão Novas Tribos, cada uma com sua base, entre as quais eles continuaram circulando para obter remédios e objetos industrializados. Quando conseguiu recursos e pessoal adequados para assumir um trabalho de assistência que abrangesse a totalidade das quatro aldeias existentes na época, a Funai retirou os missionários da área, em outubro de 1991. A partir desse momento, os sucessivos responsáveis pelo PINC Cuminapanema, orientados pelo então Departamento de Índios Isolados (DII), da Funai, passaram a desempenhar  ações de proteção do povo Zo’é e de sua terra, em formatos que variaram sensivelmente ao longo dos anos. Foi somente a partir de dezembro de 2009, com a reestruturação da Funai, que o órgão indigenista instituiu a  Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC), incluindo a proteção às populações de recente contato como os Zo’é. A Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema (FPEC) foi criada em 2011 (Portaria Nº 1816/PRES, de 30 de dezembro de 2011) e, desde então, segue novas diretrizes para a promoção da integridade cultural e territorial do povo Zo’é.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A regularização da TI Zo’é ==&lt;br /&gt;
Em 1987, a Funai procedeu à interdição da Área Indígena Cuminapanema/Urucuriana, com uma extensão de aproximadamente 2.059.700 hectares, ao sul do [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3885 Parque Indígena de Tumucumaque], nos municípios de Alenquer e Óbidos, Pará ([https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/ZED00005.pdf Portaria nº 4.098 de 30/12/1987]). A interdição visava dar condições de trabalho à equipe da Funai, para o reconhecimento de numerosas referências de indígenas  isolados levantadas pelo então DII. Na época, a Funai já conhecia a presença dos Zo’é, através de informações repassadas pela Missão Novas Tribos, que havia localizado este povo em 1982.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Zo'é trabalhando na construção de novas casas, Leonardo Viana Braga, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/9/0_eedce20393fa4de/52690scr_4bbc991f8b7ca54.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os trabalhos de identificação e delimitação da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3927 Terra Indígena Zo'é] aconteceram entre 1996 e 1998, com a participação ativa dos Zo’é e de vários técnicos e especialistas, em muitas etapas. A primeira, de estudos antropológicos, incluiu a preparação da comunidade para que os Zo’é pudessem acompanhar todos os procedimentos da regularização de seu território. A Portaria nº 309 de 04/04/1997 constituiu o Grupo de Trabalho cujo [https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/ZED00014.pdf relatório de identificação e delimitação] foi submetido à aprovação da Funai em novembro de 1998.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A demarcação física da Terra Indígena, com 668.565 hectares, foi realizada entre 1999 e 2000, por uma empresa contratada pela Funai. Contrariamente ao acordado com os Zo’é durante os trabalhos de identificação, eles não puderam acompanhar os trabalhos demarcatórios e foram mantidos alheios ao processo de regularização de seu território. Após a revisão de erros na delimitação do limite sul, a homologação e o registro no Serviço de Patrimônio da União (SPU), a demarcação da Terra Indígena foi finalmente  consagrada por decreto presidencial (s/n), publicado no Diário Oficial da União (DOU) em 22 de dezembro de 2009.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2008, a pedido do Ministério Público Federal, foi criada uma faixa de amortecimento em volta da Terra Indígena, a Zona Intangível das Florestas Estaduais (FES) [https://uc.socioambiental.org/pt-br/arp/4641 Trombetas] e [https://uc.socioambiental.org/pt-br/arp/4642 Paru]. Essa área não poderia receber nenhum tipo de exploração econômica para evitar a contaminação dos indígenas em situação de recente contato. Com a aprovação do Plano de Manejo da FES do Trombetas pelo Conselho Estadual de Meio Ambiente do Pará, a faixa foi incorporada no zoneamento da Unidade de Conservação. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Iniciativas dos Zo’é consolidam novos rumos ==&lt;br /&gt;
Durante vinte anos, a atuação do órgão indigenista se centrou em manter os Zo’é afastados das relações com os não indígenas e suas tecnologias, evitando também qualquer encontro com povos indígenas vizinhos. Mas em 2010, os Zo’é tomaram a iniciativa de romper a aliança que mantinham com a equipe da Frente de Proteção da Funai e saíram da terra demarcada para buscar mercadorias que lhes eram recusadas em seu território. Um grupo se dirigiu ao Norte, ao encontro dos Tiriyó no Rio Marapi, e outro se dirigiu aos Campos Gerais, além do limite Sul da Terra Indígena, onde trabalharam com coletores de castanha. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Voltaram trazendo espingardas velhas, redes de &amp;lt;em&amp;gt;nylon&amp;lt;/em&amp;gt;, roupas usadas e alguns gêneros alimentícios, além de várias pessoas doentes. A experiência rendeu importantes aprendizados no que toca aos modos de relação com seus vizinhos, indígenas e não indígenas, e resultou na revisão da política de proteção da TI Zo’é – até então fundada na manutenção de um rígido “isolamento” e na contenção de seus pedidos de acesso não só às mercadorias como a conhecimentos sobre o modo de vida dos não indígenas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi nesse contexto que o [https://institutoiepe.org.br/ Instituto Iepé] estabeleceu, em 2016, uma parceria com a nova gestão da Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema (FPEC), visando criar alternativas para que os Zo’é acessassem informações e experiências que lhes permitissem compreender e se posicionar frente aos interesses dos diferentes setores da sociedade brasileira. Buscou-se atender às demandas dos Zo’é, através de um conjunto de ações educativas e de apoio às suas próprias iniciativas de vigilância territorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Planejando o futuro e a proteção do território ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em novembro de 2019, os Zo'é pactuaram seu Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da TI Zo'é, onde definem suas prioridades para o futuro. “&amp;lt;em&amp;gt;Jo’e rekoha bokitute ram&amp;lt;/em&amp;gt; – Planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro” foi o título escolhido pelos Zo’é para esse plano de gestão, onde explicitam as diretrizes para a proteção de seu território e de seu modo de vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas atividades realizadas para a construção do PGTA, entre 2016 e 2019, confirmou-se a mudança de foco nos interesses dos Zo’é. Menos inquietos em garantir abastecimento de objetos dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;, estavam mobilizados para ampliar sua circulação pelo território, não só reconhecendo áreas ocupadas pelos antigos, como abrindo novos percursos para avaliar as reservas de caça e pesca e as possibilidades de abertura de novos assentamentos. No documento, os Zo’é afirmam: “Queremos que nossos filhos sigam ocupando vastamente o nosso território”, colocando o processo de dispersão de aldeias como um dos fundamentos do bem viver. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Foto: Transporte de canoa recém construída pelos Zo'é, Hugo Prudente, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/6_92ae3e7baf9ad67/52686scr_d2b118ef8ea028d.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa mobilidade promoveu novas incursões e a vigilância mais sistemática em áreas fartas em recursos, como os grandes castanhais no Sul e em outras porções do território. Uma das diretrizes do PGTA dedica especial atenção à vigilância dessa região, que foi invadida por castanheiros em 2018 e que, desde então, vem sendo ocupada por aldeias novas e acampamentos. Como escreveram os Zo’é no documento: “Nós, coletando essa castanha, invasores não virão mesmo. Aqui é nossa terra, a castanha está na nossa terra. Tem castanha na terra dos não índios, essa deve ser a castanha deles. Essa aqui é nossa castanha. Estamos falando duramente agora”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
“Fazer saber o nosso território” é uma afirmação e um objetivo a ser buscado, articulando ações de vigilância e de ocupação. Mobiliza concepções importantes da territorialidade zo’e, como o zelo pelos lugares habitados, a articulação entre os diversos grupos familiares na abertura de uma nova aldeia e o caráter regular das idas e vindas implicadas em uma iniciativa de expansão territorial. Nesse movimento, os grupos territoriais se reestruturam, mantendo suas diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
Confira aqui o [https://institutoiepe.org.br/2022/05/plano-de-gestao-territorial-e-ambiental-zoe/ PGTA &amp;lt;em&amp;gt;Jo’e Rekoha Bokituteha Ram&amp;lt;/em&amp;gt; – Planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro]!&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== População e proliferação de aldeias ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Distribuição de bebida ''sepy'' durante uma festa dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/7/4/6_cd584b0ad074849/52746scr_dcd3b057e91c8af.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A população Zo'é praticamente dobrou nos últimos trinta anos: eram 172 em 1998, à época da identificação da TI. Em 2011 eram 261 e hoje são 349 pessoas (Iepé, 2025). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Zo'é subdividem-se em dois grandes grupos, respectivamente situados ao Norte e ao Sul da Base da Funai, em que se distribuem os 19 grupos locais (&amp;lt;em&amp;gt;iwana&amp;lt;/em&amp;gt;), que circulam em determinadas áreas territoriais, onde estão suas aldeias antigas e recentes, além de acampamentos. Os &amp;lt;em&amp;gt;Iwana&amp;lt;/em&amp;gt; agregados de famílias extensas, atualmente em número de 31, que vivem em aldeias próximas, e cuja composição sofre constantes alterações em função das alianças matrimoniais e das parcerias estabelecidas para ocupar novas áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos últimos dez anos, ocorreu um processo de proliferação de aldeias muito significativo. Na época da instalação da Funai em 1991, eram apenas quatro; eram cinco em 1998, 12 em 2011 e hoje existem 62 aldeias. Configuram conjuntos de pequenas aldeias ocupadas de forma intermitente por famílias extensas que vivem em lugares próximos e circulam entre seus vários assentamentos, em função da fartura de recursos e dos cuidados das roças. Essa intensa mobilidade está relacionada ao apoio logístico que recebem tanto da FPE-Funai como do Iepé, com uma rede de radiofonia em praticamente todas as aldeias. Merece destaque o fato de que, nos últimos anos, os Zo’é têm optado por fabricar suas próprias canoas em madeira de aroeira, preferidas – por enquanto – às voadeiras de alumínio, não só difíceis de transportar até a TI, como exigindo manutenção custosa. Aprenderam a fabricar canoas num intercâmbio que levou especialistas do povo [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Waiwai Waiwai] para a TI Zo’é em 2017 e, desde então, cada família procura construir sua própria embarcação, na qual são instalados os motores rabeta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Estações e ritmos da vida ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Indígenas zo'é finalizando uma rede de fibra de castanheira, Flora Dias Cabalzar, 2016.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/5_7ed184682c27e1c/52685scr_a5f3ac836c6e409.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma das principais características do modo de vida dos Zo’é, até hoje, é a intensa mobilidade das famílias pelo território. Todos têm acesso aos recursos florestais sem esgotá-los, uma vez que as atividades de cultivo das roças, de caça, pesca e coleta são feitas em pequena escala, pelas diferentes famílias, em áreas distintas. É também nesses movimentos que os Zo’é atualizam o exímio conhecimento acumulado sobre seu território, constantemente percorrido através de uma intrincada rede de caminhos entre aldeias, capoeiras e locais de coleta de itens necessários no dia a dia, tanto para alimentação como para a fabricação de utensílios.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um modo de vida que garante aos Zo’é uma alimentação exclusivamente composta de sua produção agrícola, da caça, pescado e frutas. Também merece destaque o fato de os Zo’é não utilizarem espingardas, mas sim seus arcos, flechas e arpões, complementados com anzóis e linhas de pesca industrializadas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Homem zo'é cuidando de flechas, Dominique Tilkin Gallois, 2023.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/7_234521b7fa212cf/162427scr_wm_3c5190633e93dd0.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O caráter sazonal de alguns recursos dos quais os Zo’é se utilizam conforma a dinâmica de circulação das famílias pelo território e também repercute nos movimentos de aproximação e distanciamento entre essas famílias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É no tempo das chuvas, de fevereiro a julho, que acontecem os períodos mais prolongados de dispersão das famílias pelo território, quando são realizadas grandes caçadas, principalmente de macaco-aranha e de tucano. No início das chuvas, as famílias também se deslocam para a beira de igarapés e hoje também de rios maiores, aproveitando o volume das águas para caçar urubu-rei, usando peixes podres como iscas. Instalados nos acampamentos, os Zo’é retornam às aldeias para buscar farinha, preparada com antecedência e estocada nas casas; quando ela acaba, permanecem alguns dias para preparar mais farinha, beiju e tapioca.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O período ideal para a caça de ''kwata'' (macaco-aranha, coatá ou coamba) vai de março a maio, período denominado ''kwata ike'', quando estão gordos. Montam-se acampamentos específicos, de onde os homens saem para as serras, em busca dos macacos. No final desse período, em maio, tucanos, araras e papagaios já estão comendo frutas de palmeiras. É a estação chamada de ''token ike'', do “tucano gordo”, que dura cerca de um mês e meio, quando bandos numerosos de aves vêm comer patauá ou açaí, em locais de concentração de frutas. Já é no final da estação chuvosa e início da estação seca que os porcos queixadas e caititus estão gordos, motivando saídas frequentes de grupos de homens às trilhas das varas de porcos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Moça zo'é preparando leite de castanha, Dominique Tilkin Gallois, 2023.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/9_d567041deb9c12a/162429scr_wm_697db62eab28f2f.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre os recursos mais valorizados nesse calendário do tempo das chuvas, a castanha-do-Brasil é um alimento básico na dieta. Os Zo’é colhem os ouriços a partir de janeiro e consomem amêndoas em profusão durante toda a estação chuvosa; durante o verão, colhem ouriços ainda verdes e continuam comendo castanha o ano todo, em preparos diversos com produtos da mandioca ou carnes. Como é também nesse período que muitas frutas amadurecem, é comum interromperem o movimento de dispersão entre acampamentos para fazer festas, quando se distribui grande quantidade de bebida fermentada ''sepy''.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A estação seca, de final de julho até o início de janeiro, é marcada pelo trabalho nas roças. É quando a vida nas aldeias se intensifica, sendo um período de maior aproximação entre grupos familiares. Isso não significa que as famílias não mantenham, no verão, outras atividades que as leve a deixar a aldeia. Saem para buscar frutas da estação, como o açaí que é trazido em grandes cachos. Mas sobretudo saem para pescar com timbó, com anzóis, ou ainda com flecha ou zagaia. No verão, também acontecem expedições de caça, em geral mais curtas e só entre homens, já que as mulheres ficam nas aldeias cuidando das roças. Além disso, como muitas famílias mantêm cultivos em mais de uma aldeia, deslocam-se para dar conta de todas as roças. O corte, queima e limpeza das roças se prolonga até dezembro, meados de janeiro, quando a castanha está de novo madura, e os Zo’é limpam a roça da mandioca que brotou e fazem novo plantio. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Refeição familiar dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017.&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/9_9e70545c4b7fee0/52689scr_5d2f4b741f6cd92.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A mandioca é o principal cultivo, com uma variedade de produtos: farinha, beiju, tapioca, tucupi. As mulheres, inclusive com colaboração dos homens para ralar as raízes, dedicam muito de seu tempo ao processamento da mandioca: descascar, ralar, espremer no tipiti, peneirar, torrar farinha. Os Zo’é também cultivam pimenta, batata-doce, cará, banana, mamão, caju, goiaba, graviola, manga, urucum, algodão, cuia, cabaça, curauá e cana de flecha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade de vida dos Zo’é decorre, portanto, desse grande acervo de saberes e práticas do cotidiano, transmitidos e aperfeiçoados ao longo das gerações. Se, nas últimas décadas, os Zo’é se apropriaram seletivamente de alguns itens industrializados, continuam valorizando suas próprias tecnologias para fabricar os artefatos que utilizam cotidianamente.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Ler e escrever na própria língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Os Zo'e durante uma oficina de Letramento, Dominique Tilkin Gallois, 2023&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/6_07c4c88f97d55fe/162426scr_wm_9578fba3a29bfe7.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre as ações educativas construídas com os Zo’é para promover a discussão e pactuação do PGTA, destacam-se as atividades de letramento, iniciadas pelo Iepé em 2017. Tanto para a formulação adequada das medidas de proteção como, sobretudo, para a apropriação duradoura deste plano, era imprescindível que os próprios Zo’é pudessem redigir e atualizar as diretrizes de gestão de seu território. Trata-se de um programa não escolar de letramento, que é concebido não apenas como um meio de apropriação da leitura e escrita – por enquanto apenas na língua zo’é – e a iniciação à matemática, mas também como aproximação aos conceitos, à linguagem e às práticas relacionadas aos direitos assegurados aos povos indígenas pela [https://pib.socioambiental.org/pt/Constitui%C3%A7%C3%A3o Constituição brasileira de 1988]. É nesse sentido que as ações de letramento viabilizaram a criação da Tekohara, organização representativa do povo Zo’é, na consolidação de seu Fundo de Artesanato, o FAZ, e na construção de um [https://institutoiepe.org.br/2025/08/protocolo-de-consulta-e-consentimento-zoe/ protocolo de consulta e consentimento]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a pandemia de Covid-19, durante a qual todos os trabalhos com os Zo’é foram suspensos, consolidou-se uma turma de cerca de 40 jovens e adultos, depois separada em duas, correspondendo aos grupos do Norte e do Sul. Reúnem-se quatro vezes por ano nos Encontros de Letramento, realizados na “casa grande” da Base da Funai, em Kejã. Destacaram-se rapidamente oito jovens, que passaram a atuar como multiplicadores nas atividades de letramento, como tradutores e mais recentemente assumiram cargos na gestão da organização representativa, Tekohara. Além desses Encontros, oficinas específicas promovem a construção participativa de materiais didáticos, hoje já com mais de 20 títulos versando sobre os mais diversos temas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Todos os materiais produzidos procuram registrar as reflexões dos Zo’é sobre seu modo de vida, sobre as mudanças recentes que interferem nas formas de ocupação do território, sobre experiências novas de gestão advindas da consolidação de sua associação etc. Entre eles, destacam-se os cadernos da série ''Rekoha'', que sempre iniciam com a feitura de um mapa por um líder de grupo local, complementado por pequenos textos extraídos das conversas sobre suas iniciativas de abertura de caminhos, roças, acampamentos de caca e pesca, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra série de materiais traz resultados de uma pesquisa colaborativa sobre cantos, engajando jovens letrados e conhecedores mais idosos, que permitiu também introduzir o uso da informática, para a gestão de um acervo de cantos e de suas transcrições. Além disso, outros cadernos específicos apoiam a formação em gestão tanto da Tekohara como do Fundo de Artesanato Zo’é (FAZ). Mais recentemente, alguns cadernos trazem saberes das mulheres – que praticamente não participam das atividades de letramento – especialmente sobre o ciclo da castanha e sua culinária. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
=== Tekohara – Organização Zo’é ===&lt;br /&gt;
Após a pandemia de Covid-19, os Zo’é reativaram seu movimento de reorganização de relações com os não indígenas, inaugurado com a pactuação do PGTA, e criaram em 2022 uma organização representativa, denominada Tekohara. O nome ''Tekohara'' foi especialmente criado para a associação. Segundo os fundadores, a expressão inexiste na língua zo’é, porém remete à proteção do território, chamado em sua língua de – ''tekoha''. Constitui assim uma síntese do que consideram ser a atuação prioritária da organização, em consonância com todo o trabalho de gestão territorial que os Zo’é vêm conduzindo nos últimos anos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A assembleia de fundação reuniu praticamente toda a população zo’é, incluindo idosos e crianças. Desses, todos os maiores de 17 anos, totalizando 198 pessoas à época, se tornaram associados, que escolheram e aclamaram seus representantes para duas instâncias de gestão:  o Conselho de Chefes e a Diretoria. O primeiro é composto por ''sete iy'', principais líderes zo’é, reconhecidos pelos demais chefes de todos os subgrupos. Em 2025, a assembleia escolheu outros chefes para o conselho, hoje um total de 11, que também constituem o Conselho Fiscal da associação. A diretoria é constituída por cinco jovens letrados, que se consideram “ajudantes dos chefes” e atuam diretamente nas instâncias que exigem a leitura e escrita de documentos, a convocação e mediação de reuniões, a gestão de recursos, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2024, os chefes do conselho e os jovens da diretoria, além de outros adultos interessados, construíram o protocolo de consulta e consentimento, ao longo de cinco oficinas e de várias reuniões de apresentação e aprovação do documento, publicado em duas línguas, em 2025. Afirmam, neste protocolo: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
“Temos nos reunido regularmente para conversar e com isso nossa associação está firme, porque discutimos todos os assuntos importantes. Como consolidamos nosso próprio jeito de fazer reuniões e tomar decisões, temos clareza sobre como devemos nos posicionar sobre quem pode e quem não pode entrar em nosso território (...) É porque mantemos um mesmo entendimento sobre a proteção de nosso território que as decisões não são difíceis. É assim que alcançamos consenso entre nós todos”. – Protocolo de consulta e consentimento Zo’é (2025, pp. 14-21)&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/3_8ec6e605f080da0/162433scr_wm_6306ea1916b3650.jpg| Lideranças zo'é durante uma reunião da Tekohara, Kamikia Kisedje, 2024}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A gestão coletiva de um Fundo de Artesanato ==&lt;br /&gt;
Desde a instalação da Funai na Terra Indígena, em 1991, os Zo’é têm produzido artesanato para troca com visitantes, ainda que de modo episódico, obtendo assim diversos utensílios que foram, desde então, incorporados ao seu modo de vida. Naquele período, o Posto de Atração distribuía uma ou duas vezes por ano ferramentas, material de pesca, lanternas e pilhas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Os Zo'e durante a etiquetagem de peças comercializadas por meio do Fundo de Artesanato, Kamikia Kisedje, 2024&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/5_22188c531215eb0/162425scr_wm_ee3a42b7ee661ff.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já a partir de 2011, a CGIIRC-Funai passou a rever sua política de proteção, garantindo aos indígenas em situação de recém-contato novas experiências e formas de participação. Foi nesse contexto que o Fundo de Artesanato Zo’é (FAZ), foi criado em 2012, pela Frente Cuminapanema (FPEC). Tratava-se de ampliar as possibilidades de troca e assegurar maior autonomia no abastecimento de itens industrializados demandados pelos Zo’é. Sobretudo se buscou passar de um sistema de doação para um mecanismo coletivo de permutas, assegurando a distribuição de itens industrializados previamente selecionados para todas as famílias, que por sua vez entregam lotes de peças que correspondem aproximadamente ao valor dos objetos adquiridos pelo Fundo. Durante dez anos, o FAZ se consolidou sob gestão da equipe da Funai, mas desde 2022, é gerido diretamente pelos Zo’é, por meio da associação Tekohara, ainda que com algum apoio dos parceiros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O FAZ consiste num sistema de trocas que envolve todas as famílias zo’é, atendendo suas demandas por objetos industrializados. Nos últimos anos, acordou-se com os parceiros que itens como material de pesca, ferramentas, entre outros, são adquiridos através de projetos do Iepé, desonerando assim o FAZ. A lista do que deve ser comprado é aberta, mas inclui cerca de 20 itens, todos eles incorporados ao modo de vida dos Zo’é há várias décadas. A lista envolve itens de uso pessoal, como sandálias, espelhos, linhas para tipoias, sabão, panelas, tigelas, além de alguns itens necessários às atividades produtivas do cotidiano, como isqueiros, sacos para armazenar farinha e eventualmente ferramentas que não podem ser adquiridas através dos projetos dos parceiros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Tebo Zo'é segurando cumaru, Kamikia Kisedje, 2024&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/1_1085df758a31880/162431scr_wm_04d1d66a3aa490a.jpg }}&lt;br /&gt;
  &lt;br /&gt;
As famílias entregam peças de artesanato e recebem itens prévia e cuidadosamente selecionados em reuniões com os chefes de todas as aldeias. Ou seja, a um certo conjunto de artesanato vendido corresponde um certo número de itens industrializados adquiridos com o recurso da comercialização das peças. Seguindo a expressa preferência dos Zo’é, os itens são sempre comprados na quantidade que atenderá rigorosamente todas as famílias. As entregas são realizadas três a quatro vezes por ano, com itens que são escolhidos em reuniões trimestrais, para atender às necessidades do momento. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os artefatos comercializados pelo FAZ são os mesmos utilizados no cotidiano dos Zo’é e incluem trançados, recipientes em cerâmica, colheres, pentes, brincos e pulseiras. Tal seleção, entre os muitos itens da cultura material zo’é, obedece a critérios de sustentabilidade. A legislação vigente não permite a venda de plumária ou de flechas com ponta de osso, ou qualquer objeto fabricado com partes de animais. Arcos de madeira e redes feitas de fibras de castanheira tampouco são vendidos, para garantir aos Zo’é exclusividade no acesso a esses materiais essenciais em seu modo de vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar dessas restrições, os resultados do FAZ são muito promissores, não apenas por incentivar a continuidade dos saberes e práticas artesanais dos Zo’é, como por viabilizar a formação em gestão dos jovens e dos chefes. Ao se apropriar deste Fundo, os Zo’é souberam declarar e garantir critérios próprios na distribuição adequada dos bens adquiridos, em acordo com seus valores e considerações quanto às diferenças de gênero, idade e processos de aprendizagem, bem como à isonomia entre os grupos locais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além da venda de artesanato, a Tekohara também realiza a  venda de sementes de cumaru, coletadas pelas famílias envolvidas no FAZ. Desde 2019, o Fundo se beneficia ainda com a venda exclusiva dos livros da série Saberes Zo’é, atualmente com três títulos: [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Potuwa.pdf ''Potuwa pora kõ'' – O que se guarda no ''potuwa''] (2019); [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2021/07/Eremiu-rupa.-Abrindo-rocas_Trecho.pdf ''Eremi’u rupa'' – Abrindo roças] (2021) e [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Canoa-Zoe.pdf ''Ihara rape rupi'' – Pelo caminho da canoa] (2023).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/4_f91f5d08e62cbad/162424scr_wm_0c86653fd01dc21.jpg| Distribuição de sabão adquirido com recursos do FAZ, Dominique Tilkin Gallois, 2025}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;CABRAL, Ana Suely.Uma escrita para a Língua Zo'é. Brasília: Lalli/Unb/Funai, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin. De arredio a isolado : perspectivas de autonomia para os povos indígenas isolados. In: GRUPIONI, Luís Donisete Benzi (Org.). Índios no Brasil. São Paulo : Secretaria Municipal de Cultura, 1992. p. 121-34.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Essa incansável tradução : entrevista. Sexta Feira: Antropologia, Artes e Humanidades, São Paulo : Pletora, n. 6, p. 103-21, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Tupi do Cuminapanema : eles se chamam Zo'É. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1991/1995. São Paulo : Instituto Socioambiental, 1996. p. 280-7.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Zo'é. In: ASSIS, Rogério. São Paulo: Terceiro Nome, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Sobre alguns modos zo’e de fazer coletivos e lideranças”. In: FAJARDO GRUPIONI, D.; Andrade, L. M. M. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; GRUPIONI, Luís Donisete Benzi. O índio na Missão Novas Tribos. In: WRIGHT, Robin (Org.). Transformando os Deuses : os múltiplos sentidos da conversão entre os povos indígenas no Brasil. Campinas : Unicamp, 1999. p. 77-130.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
GALLOIS, Dominique Tilkin; BRAGA, Leonardo Viana; PEDREIRA, H. P. S. 2020 Construindo o Plano de Gestão Territorial e Ambiental com os Zo’é. In: Luis Donizete Benzi Grupioni (org.). Em busca do bem viver: Experiências de elaboração de Planos de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas. São Paulo: Rede de Cooperação Amazônica, 1. ed., v. 1.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. A redescoberta dos amáveis selvagens. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1987/88/89/90. São Paulo : Cedi, 1991. p. 209-14. (Aconteceu Especial, 18)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; HAVT, Nadja. Relatório de identificação da Terra Indígena Zo'é : Portaria 309/PRES/Funai - 04.04.97. São Paulo : Funai, 1998.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;HAVT, Nadja. De algumas questões sobre a participação de “índios isolados” no processo de regularização fundiária : o exemplo dos Zo’É. In: GRAMKOW, Márcia Maria (Org.). Demarcando terras indígenas II : experiências e desafios de um projeto de parceria. Brasília : Funai/PPTAL/GTZ, 2002. p. 85-94.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Representações do Ambiente e da Territorialidade entre os Zo’é/PA. Dissertação de Mestrado. FFLCH/USP, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;Iepé &amp;amp; FPEC/Funai. Jo’e bokitute ram: planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro. Plano de Gestão Territorial e Ambiental da TI Zo’é. São Paulo: Iepé, 2019.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
BRAGA, Leonardo Viana. Micropeças sobre gênero e caçada junto aos Zo’é. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas:&lt;br /&gt;
índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. ''Pani'em'': um esboço sobre os modos de saber entre os Zo'é. Dissertação de mestrado. FFLCH/USP, 2017.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Eremi'u rupa. Abrindo roças. 1. ed. São Paulo: Série Saberes Zo'é - Iepé, FPEC/Funai &amp;amp; Fundo de Artesanato Zo'é (FAZ), 2021. v. 2. 189p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
BRAGA, Leonardo Viana; PEDREIRA, Hugo Prudente S.; CABALZAR, Flora Dias. 2020. 'Fazer saber a própria terra'. In: Nelson Russo de Moraes; Leila Adriana Baptaglin; Lamounier Erthal Vilella; Alexandre de Castro Campos; Raoni Fernandes Azerêdo. (Org.). Povos Originários e Comunidades Tradicionais: trabalhos de pesquisa e de extensão universitária – volume 4, 1ed.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; &lt;br /&gt;
PEDREIRA, Hugo Prudente da Silva. ''Potuwa pora kõ'' - o que se guarda no ''potuwa. 1''. ed. São Paulo: Instituto de Pesquisa e Formação Indígena - Iepé, 2019. v. 1. 148p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; RIBEIRO, Fabio N. “Os Zo’é e as metamorfoses do fundamentalismo evangélico”. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Encontros Zo’é nas Guianas. Tese de doutorado. FFLCH/USP, 2019.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. ''Ihara Rape Rupi'': pelo caminho da canoa. 1. ed. São Paulo: Iepé - Instituto de Pesquisa e Formação Indígena, 2023. v. 1. 132p .&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Zo'é}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Dominique T. Gallois}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
{{#set:Capa=162430scr_wm_9d03db1dcc7a9e9.jpg}}&lt;br /&gt;
{{#set:Counter=61505}}&lt;br /&gt;
{{#set:Crédito capa=Kamikia Kisedje, 2024}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=1997-01-01}}&lt;br /&gt;
{{#set:Estilo=claro}}&lt;br /&gt;
{{#set:Povo Id=321}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas no Pará]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8521</id>
		<title>Povo:Zo'é</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8521"/>
		<updated>2025-10-20T17:49:55Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: /* A regularização da TI Zo’é */&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Vivem numa área de densas florestas, entre os rios Cuminapanema e Erepecuru, no Norte do Pará. Os Zo’é convivem com agentes de assistência há quase quatro décadas, mantendo vigorosamente suas formas de organização social e territorial. Este povo em situação de recente contato vem se mobilizando para implementar o PGTA da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3927 TI Zo'é] e seu protocolo de consulta. Através da sua organização representativa, a Tekohara, fortalecem a gestão de um Fundo de Artesanato, um mecanismo original de trocas coletivas.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
== Nome e língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Os Zo'é durante uma oficina de Letramento, Dominique Gallois, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/4_f54a65283e04d93/52684scr_8d884e9b4241947.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pronome &amp;lt;em&amp;gt;jo’é&amp;lt;/em&amp;gt; [zo’é], “nós mesmos”, se consolidou como uma autodenominação que diferencia este povo dos não indígenas, chamados &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;. Já outros povos indígenas são chamados de “&amp;lt;em&amp;gt;amõ jo’é&amp;lt;/em&amp;gt;” (outros, como nós). No final dos anos 1980, quando começaram a conviver com missionários e com servidores da Funai, esse termo não era usado para designar a eles mesmos, mas para identificar qualquer pessoa que adquirisse alguma proximidade e que passasse, então, a ser considerada “gente como nós”. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os termos &amp;lt;em&amp;gt;Poturu&amp;lt;/em&amp;gt;, ou &amp;lt;em&amp;gt;Poturujara&amp;lt;/em&amp;gt;, difundidos inicialmente por agentes da Funai como denominação do povo recém-contatado na região do Cuminapanema, designam tão somente a madeira da árvore utilizada para confeccionar os adornos labiais &amp;lt;em&amp;gt;embe’pot&amp;lt;/em&amp;gt;. “&amp;lt;em&amp;gt;Poturu!&amp;lt;/em&amp;gt;” respondiam os Zo’é, quando alguém apontava para seus rostos, buscando saber seu nome.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Zo’é são falantes de uma língua Tupi-Guarani, do tronco Tupi. A maior parte da comunidade é monolíngue, com exceção de alguns chefes e de uma dezena de jovens, que aprenderam a se comunicar em português e estão adquirindo rapidamente maior fluência, no âmbito de suas funções de gestão da &amp;lt;strong&amp;gt;Tekohara – Organização Zo’é&amp;lt;/strong&amp;gt;. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Experiências de contato e de convivência com ''kirahi'' ==&lt;br /&gt;
A área onde vivem os Zo’é situa-se em território histórico de povos de língua Karib, que ocupam as terras firmes do planalto das Guianas. Seus vizinhos mais próximos são os [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Tiriy%C3%B3 Tiriyó], ao Norte; os [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Aparai Aparai] e [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Wayana Wayana], a Leste; os quilombolas e castanheiros não indígenas ao Sul. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As fontes disponíveis sobre a região Norte do Pará não trazem informações suficientes para acompanhar a trajetória da migração dos Zo’é até seu &amp;lt;em&amp;gt;habitat&amp;lt;/em&amp;gt; atual, mas é certo que este povo tem sua origem ao sul. Essa é a direção que eles indicam quando são indagados sobre sua procedência antiga, embora a localização das aldeias de antepassados longínquos não seja assunto de grande interesse.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como ocorre na tradição oral das sociedades indígenas que mantêm contatos antigos com a população regional, a presença de não indígenas acaba sendo integrada ao tempo mítico. Os Zo’é não questionam nem a origem, nem os movimentos dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;, ou dos povos inimigos: todos eles, simplesmente, sempre existiriam. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diz-se, inclusive, que quando &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt; recriou a humanidade, não precisou refazer os não indígenas, que não haviam sido engolidos pelo dilúvio: eles já existiam, mas estavam longe, “na borda da terra”. Elementos históricos são agregados ao mito, associando o evento da recriação a contatos interétnicos. O fogo que destruiu a terra foi provocado por inimigos, habitantes do Leste; para alcançar as ossadas dos humanos destruídos pelo dilúvio, o herói vem do Sul, flutuando em um recipiente típico dos não indígenas: um corote de gasolina. Depois, cada um volta a ocupar seu espaço: os não indígenas ficam no Sul; os Zo’é nas serras, longe dos rios; os inimigos a Leste.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/Jipohan_%C3%A9_gente_como_voc%C3%AA “Jipohan é gente como você”, por Jurusi uhu, Pa'hi e Tatitu Zo'é]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/763735-2/DSC_3332_edit.JPG|Jurusi uhu Zo'é. Foto: Dominique Tilkin Gallois&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Era comum, nos anos 1990, os Zo’é perguntarem aos visitantes: “Vocês viram onde está &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt;, aquele herói que revitalizou seus ancestrais juntando ossos dos flagelados pelo último cataclismo?” Os Zo’é consideravam &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt; como um &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;. Após sua façanha de recriação, ele voltou para sua terra de origem, no Sul. É descrito usando roupas, escrevendo, usando canoa com motor, gravador, injeções e ferramentas diversas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como é comum na elipse temporal que o mito efetua, os Zo’é atualizam suas tradições com ingredientes extraídos de sua experiência do passado e de suas expectativas de futuro. Razão pela qual, na morada celeste dos mortos, os ex-Zo’é têm acesso irrestrito à mercadorias, inclusive espingardas, que lhes são fornecidas por alguns ex-&amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; generosos – como foi um servidor da Funai, Isidoro, que segue lhes trazendo mercadorias desejadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como ocorreu em muitos lugares, os eventos do contato dos Zo’é com missionários e depois com servidores da Funai envolveu diretamente a questão do acesso às mercadorias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Luis Donisete B. Grupioni/1989&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281189-1/zoe_7.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os então chamados “Índios do Cuminapanema” foram apresentados ao mundo em 1989, em reportagens que enfatizavam sua “pureza” e “fragilidade” e os descreviam como um dos últimos povos “intactos” na Amazônia. E justamente por serem um dos raros grupos ainda “não atingidos” nem pela mensagem evangélica, nem pela assistência oficial, os Zo’é atraíram a atenção da Missão Novas Tribos (MNT), que iniciou seu trabalho na região em 1982. Foram necessários cinco anos de sucessivas aproximações e recuos para “pacificar” os Zo’é – até que em 1987 os missionários  instalaram a Base Esperança na porção sul da atual TI Zo’é. Ali, passaram a controlar sozinhos o processo de acomodação dos Zo’é à nova situação, até a Funai assumir a área em 1991.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, os Zo’é já tinham experiências de encontro com não indígenas desde muito tempo. Relatam inclusive a saída de uma mulher que viajou até Santarém, de onde acabou voltando, provavelmente no final do século XIX.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
No final dos anos 1960, o território zo’é passou a ser percorrido por caçadores de felinos, conhecidos como “gateiros”. Nesse período, os Zo’é encontravam em suas trilhas, gaiolas, ferramentas abandonadas, restos de acampamentos. Também encontravam vestígios de coletores de castanha. Eram contatos indiretos, ou, como dizem os Zo’é, “sem carne/sem corpo”, pois não viam os forasteiros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Dominique Gallois, 1991&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281182-1/zoe_4.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1975, eles foram surpreendidos por visitas mais espetaculares, quando um helicóptero do Instituto de Estudos e Pesquisas do Pará despejou embrulhos com roupas e objetos sobre a aldeia Kejã. Foi também com presentes lançados do céu, ou dependurados no caminho das aldeias, que os membros da Missão Novas Tribos se aproximaram. Entre 1982 e 1987, eles estiveram várias vezes em acampamentos ou aldeias, saindo rapidamente. Segundo os Zo’é, muitas pessoas ficavam doentes na sequência dessas visitas e, como demoravam meses para voltar, as pessoas acometidas por doenças pulmonares morriam. Eles também relatam que resolveram se deslocar rumo ao Sul, em busca de uma explicação para esse “sopro” de doenças e para pegar mais objetos, chegando finalmente à Base Esperança em outubro de 1987, data oficial do “contato” com a MNT. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
===Terçados, epidemia e mortes===&lt;br /&gt;
{{Lead |por '''Fábio Ribeiro'''}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As notícias trazidas sobre os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; que davam facões e machados logo se espalharam pelas aldeias e em pouco tempo muitos Zo’é foram atrás dos missionários. Como não havia ferramentas para todos, o clima logo ficou tenso. Os homens que não pegaram facões ficaram bravos, bateram nas paredes entraram e saquearam a casa dos missionários, na localidade de Kuruaty. Esses, com muito medo, foram embora. As doenças, no entanto, ficaram. É nesse período que tem início a epidemia que em poucos dias tirou a vida muitas outras pessoas zo’é. “&amp;lt;em&amp;gt;Kirahi rahy ate juke&amp;lt;/em&amp;gt;. Foi a doença dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; que matou”. O relato de Hun, um atual chefe Zo’é é claro ao afirmar que a epidemia teve início logo após o encontro de Tun e Dubehaj com os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; e que, apenas muito tempo depois, quando encontraram Sera’yt (em 1987), é que os missionários trouxeram injeções com remédios, mas não vacinas. Hun, ainda criança nessa época, foi duramente afetado: seu pai, sua mãe e alguns de seus irmãos morreram na maloca de Pirity. “Naquele tempo os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; foram embora mesmo. Depois os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; pensaram de novo, queriam ver os Zo’é de novo, aí os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; voltaram. Foi então nessa época que encontraram Sera’yt (...) e ficaram alegres. Naquela época os Zo’é tinham mandado embora, então os kirahi pensaram, aí abriram o caminho novamente. Passaram-se muitas luas naquele tempo, e aí os missionários voltaram.” – Adaptado de &amp;lt;em&amp;gt;Kampugerau: crônica de um movimento zo’é &amp;lt;/em&amp;gt;, 2024&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após essa notícia, a Funai criou o PINC Cuminapanema, subordinado à 4ª SUER/Funai em Belém (Portaria nº 1.061, de 22 de maio de 1987). No ano seguinte, o convênio 008/1998 celebrado entre a Funai e a MNT vedava sua atuação em áreas de indígenas isolados. Mas a Missão não se retirou e continuou seu trabalho junto aos Zo’é. Até que, em janeiro de 1989, a Missão alertou a Funai sobre a precária situação de saúde dos Zo’é. O sertanista Sidney Possuelo conseguiu apoio da imprensa e pôde assim realizar uma primeira visita à área. Numa segunda viagem, pouco tempo depois, a equipe da Funai verificou que a situação de saúde estava piorando e começou então a planejar um trabalho mais sistemático. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante mais de um ano, os Zo’é assistiram à convivência tensa entre as equipes da Funai e da Missão Novas Tribos, cada uma com sua base, entre as quais eles continuaram circulando para obter remédios e objetos industrializados. Quando conseguiu recursos e pessoal adequados para assumir um trabalho de assistência que abrangesse a totalidade das quatro aldeias existentes na época, a Funai retirou os missionários da área, em outubro de 1991. A partir desse momento, os sucessivos responsáveis pelo PINC Cuminapanema, orientados pelo então Departamento de Índios Isolados (DII), da Funai, passaram a desempenhar  ações de proteção do povo Zo’é e de sua terra, em formatos que variaram sensivelmente ao longo dos anos. Foi somente a partir de dezembro de 2009, com a reestruturação da Funai, que o órgão indigenista instituiu a  Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC), incluindo a proteção às populações de recente contato como os Zo’é. A Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema (FPEC) foi criada em 2011 (Portaria Nº 1816/PRES, de 30 de dezembro de 2011) e, desde então, segue novas diretrizes para a promoção da integridade cultural e territorial do povo Zo’é.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A regularização da TI Zo’é ==&lt;br /&gt;
Em 1987, a Funai procedeu à interdição da Área Indígena Cuminapanema/Urucuriana, com uma extensão de aproximadamente 2.059.700 hectares, ao sul do [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3885 Parque Indígena de Tumucumaque], nos municípios de Alenquer e Óbidos, Pará ([https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/ZED00005.pdf Portaria nº 4.098 de 30/12/1987]). A interdição visava dar condições de trabalho à equipe da Funai, para o reconhecimento de numerosas referências de indígenas  isolados levantadas pelo então DII. Na época, a Funai já conhecia a presença dos Zo’é, através de informações repassadas pela Missão Novas Tribos, que havia localizado este povo em 1982.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os trabalhos de identificação e delimitação da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3927 Terra Indígena Zo'é] aconteceram entre 1996 e 1998, com a participação ativa dos Zo’é e de vários técnicos e especialistas, em muitas etapas. A primeira, de estudos antropológicos, incluiu a preparação da comunidade para que os Zo’é pudessem acompanhar todos os procedimentos da regularização de seu território. A Portaria nº 309 de 04/04/1997 constituiu o Grupo de Trabalho cujo [https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/ZED00014.pdf relatório de identificação e delimitação] foi submetido à aprovação da Funai em novembro de 1998.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Zo'é trabalhando na construção de novas casas, Leonardo Viana Braga, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/9/0_eedce20393fa4de/52690scr_4bbc991f8b7ca54.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A demarcação física da Terra Indígena, com 668.565 hectares, foi realizada entre 1999 e 2000, por uma empresa contratada pela Funai. Contrariamente ao acordado com os Zo’é durante os trabalhos de identificação, eles não puderam acompanhar os trabalhos demarcatórios e foram mantidos alheios ao processo de regularização de seu território. Após a revisão de erros na delimitação do limite sul, a homologação e o registro no Serviço de Patrimônio da União (SPU), a demarcação da Terra Indígena foi finalmente  consagrada por decreto presidencial (s/n), publicado no Diário Oficial da União (DOU) em 22 de dezembro de 2009.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2008, a pedido do Ministério Público Federal, foi criada uma faixa de amortecimento em volta da Terra Indígena, a Zona Intangível das Florestas Estaduais (FES) [https://uc.socioambiental.org/pt-br/arp/4641 Trombetas] e [https://uc.socioambiental.org/pt-br/arp/4642 Paru]. Essa área não poderia receber nenhum tipo de exploração econômica para evitar a contaminação dos indígenas em situação de recente contato. Com a aprovação do Plano de Manejo da FES do Trombetas pelo Conselho Estadual de Meio Ambiente do Pará, a faixa foi incorporada no zoneamento da Unidade de Conservação. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Iniciativas dos Zo’é consolidam novos rumos ==&lt;br /&gt;
Durante vinte anos, a atuação do órgão indigenista se centrou em manter os Zo’é afastados das relações com os não indígenas e suas tecnologias, evitando também qualquer encontro com povos indígenas vizinhos. Mas em 2010, os Zo’é tomaram a iniciativa de romper a aliança que mantinham com a equipe da Frente de Proteção da Funai e saíram da terra demarcada para buscar mercadorias que lhes eram recusadas em seu território. Um grupo se dirigiu ao Norte, ao encontro dos Tiriyó no Rio Marapi, e outro se dirigiu aos Campos Gerais, além do limite Sul da Terra Indígena, onde trabalharam com coletores de castanha. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Voltaram trazendo espingardas velhas, redes de &amp;lt;em&amp;gt;nylon&amp;lt;/em&amp;gt;, roupas usadas e alguns gêneros alimentícios, além de várias pessoas doentes. A experiência rendeu importantes aprendizados no que toca aos modos de relação com seus vizinhos, indígenas e não indígenas, e resultou na revisão da política de proteção da TI Zo’é – até então fundada na manutenção de um rígido “isolamento” e na contenção de seus pedidos de acesso não só às mercadorias como a conhecimentos sobre o modo de vida dos não indígenas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi nesse contexto que o [https://institutoiepe.org.br/ Instituto Iepé] estabeleceu, em 2016, uma parceria com a nova gestão da Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema (FPEC), visando criar alternativas para que os Zo’é acessassem informações e experiências que lhes permitissem compreender e se posicionar frente aos interesses dos diferentes setores da sociedade brasileira. Buscou-se atender às demandas dos Zo’é, através de um conjunto de ações educativas e de apoio às suas próprias iniciativas de vigilância territorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Planejando o futuro e a proteção do território ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em novembro de 2019, os Zo'é pactuaram seu Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da TI Zo'é, onde definem suas prioridades para o futuro. “&amp;lt;em&amp;gt;Jo’e rekoha bokitute ram&amp;lt;/em&amp;gt; – Planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro” foi o título escolhido pelos Zo’é para esse plano de gestão, onde explicitam as diretrizes para a proteção de seu território e de seu modo de vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas atividades realizadas para a construção do PGTA, entre 2016 e 2019, confirmou-se a mudança de foco nos interesses dos Zo’é. Menos inquietos em garantir abastecimento de objetos dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;, estavam mobilizados para ampliar sua circulação pelo território, não só reconhecendo áreas ocupadas pelos antigos, como abrindo novos percursos para avaliar as reservas de caça e pesca e as possibilidades de abertura de novos assentamentos. No documento, os Zo’é afirmam: “Queremos que nossos filhos sigam ocupando vastamente o nosso território”, colocando o processo de dispersão de aldeias como um dos fundamentos do bem viver. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Foto: Transporte de canoa recém construída pelos Zo'é, Hugo Prudente, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/6_92ae3e7baf9ad67/52686scr_d2b118ef8ea028d.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa mobilidade promoveu novas incursões e a vigilância mais sistemática em áreas fartas em recursos, como os grandes castanhais no Sul e em outras porções do território. Uma das diretrizes do PGTA dedica especial atenção à vigilância dessa região, que foi invadida por castanheiros em 2018 e que, desde então, vem sendo ocupada por aldeias novas e acampamentos. Como escreveram os Zo’é no documento: “Nós, coletando essa castanha, invasores não virão mesmo. Aqui é nossa terra, a castanha está na nossa terra. Tem castanha na terra dos não índios, essa deve ser a castanha deles. Essa aqui é nossa castanha. Estamos falando duramente agora”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
“Fazer saber o nosso território” é uma afirmação e um objetivo a ser buscado, articulando ações de vigilância e de ocupação. Mobiliza concepções importantes da territorialidade zo’e, como o zelo pelos lugares habitados, a articulação entre os diversos grupos familiares na abertura de uma nova aldeia e o caráter regular das idas e vindas implicadas em uma iniciativa de expansão territorial. Nesse movimento, os grupos territoriais se reestruturam, mantendo suas diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
Confira aqui o [https://institutoiepe.org.br/2022/05/plano-de-gestao-territorial-e-ambiental-zoe/ PGTA &amp;lt;em&amp;gt;Jo’e Rekoha Bokituteha Ram&amp;lt;/em&amp;gt; – Planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro]!&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== População e proliferação de aldeias ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Distribuição de bebida ''sepy'' durante uma festa dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/7/4/6_cd584b0ad074849/52746scr_dcd3b057e91c8af.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A população Zo'é praticamente dobrou nos últimos trinta anos: eram 172 em 1998, à época da identificação da TI. Em 2011 eram 261 e hoje são 349 pessoas (Iepé, 2025). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Zo'é subdividem-se em dois grandes grupos, respectivamente situados ao Norte e ao Sul da Base da Funai, em que se distribuem os 19 grupos locais (&amp;lt;em&amp;gt;iwana&amp;lt;/em&amp;gt;), que circulam em determinadas áreas territoriais, onde estão suas aldeias antigas e recentes, além de acampamentos. Os &amp;lt;em&amp;gt;Iwana&amp;lt;/em&amp;gt; agregados de famílias extensas, atualmente em número de 31, que vivem em aldeias próximas, e cuja composição sofre constantes alterações em função das alianças matrimoniais e das parcerias estabelecidas para ocupar novas áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos últimos dez anos, ocorreu um processo de proliferação de aldeias muito significativo. Na época da instalação da Funai em 1991, eram apenas quatro; eram cinco em 1998, 12 em 2011 e hoje existem 62 aldeias. Configuram conjuntos de pequenas aldeias ocupadas de forma intermitente por famílias extensas que vivem em lugares próximos e circulam entre seus vários assentamentos, em função da fartura de recursos e dos cuidados das roças. Essa intensa mobilidade está relacionada ao apoio logístico que recebem tanto da FPE-Funai como do Iepé, com uma rede de radiofonia em praticamente todas as aldeias. Merece destaque o fato de que, nos últimos anos, os Zo’é têm optado por fabricar suas próprias canoas em madeira de aroeira, preferidas – por enquanto – às voadeiras de alumínio, não só difíceis de transportar até a TI, como exigindo manutenção custosa. Aprenderam a fabricar canoas num intercâmbio que levou especialistas do povo [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Waiwai Waiwai] para a TI Zo’é em 2017 e, desde então, cada família procura construir sua própria embarcação, na qual são instalados os motores rabeta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Estações e ritmos da vida ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Indígenas zo'é finalizando uma rede de fibra de castanheira, Flora Dias Cabalzar, 2016.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/5_7ed184682c27e1c/52685scr_a5f3ac836c6e409.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma das principais características do modo de vida dos Zo’é, até hoje, é a intensa mobilidade das famílias pelo território. Todos têm acesso aos recursos florestais sem esgotá-los, uma vez que as atividades de cultivo das roças, de caça, pesca e coleta são feitas em pequena escala, pelas diferentes famílias, em áreas distintas. É também nesses movimentos que os Zo’é atualizam o exímio conhecimento acumulado sobre seu território, constantemente percorrido através de uma intrincada rede de caminhos entre aldeias, capoeiras e locais de coleta de itens necessários no dia a dia, tanto para alimentação como para a fabricação de utensílios.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um modo de vida que garante aos Zo’é uma alimentação exclusivamente composta de sua produção agrícola, da caça, pescado e frutas. Também merece destaque o fato de os Zo’é não utilizarem espingardas, mas sim seus arcos, flechas e arpões, complementados com anzóis e linhas de pesca industrializadas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Homem zo'é cuidando de flechas, Dominique Tilkin Gallois, 2023.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/7_234521b7fa212cf/162427scr_wm_3c5190633e93dd0.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O caráter sazonal de alguns recursos dos quais os Zo’é se utilizam conforma a dinâmica de circulação das famílias pelo território e também repercute nos movimentos de aproximação e distanciamento entre essas famílias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É no tempo das chuvas, de fevereiro a julho, que acontecem os períodos mais prolongados de dispersão das famílias pelo território, quando são realizadas grandes caçadas, principalmente de macaco-aranha e de tucano. No início das chuvas, as famílias também se deslocam para a beira de igarapés e hoje também de rios maiores, aproveitando o volume das águas para caçar urubu-rei, usando peixes podres como iscas. Instalados nos acampamentos, os Zo’é retornam às aldeias para buscar farinha, preparada com antecedência e estocada nas casas; quando ela acaba, permanecem alguns dias para preparar mais farinha, beiju e tapioca.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O período ideal para a caça de ''kwata'' (macaco-aranha, coatá ou coamba) vai de março a maio, período denominado ''kwata ike'', quando estão gordos. Montam-se acampamentos específicos, de onde os homens saem para as serras, em busca dos macacos. No final desse período, em maio, tucanos, araras e papagaios já estão comendo frutas de palmeiras. É a estação chamada de ''token ike'', do “tucano gordo”, que dura cerca de um mês e meio, quando bandos numerosos de aves vêm comer patauá ou açaí, em locais de concentração de frutas. Já é no final da estação chuvosa e início da estação seca que os porcos queixadas e caititus estão gordos, motivando saídas frequentes de grupos de homens às trilhas das varas de porcos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Moça zo'é preparando leite de castanha, Dominique Tilkin Gallois, 2023.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/9_d567041deb9c12a/162429scr_wm_697db62eab28f2f.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre os recursos mais valorizados nesse calendário do tempo das chuvas, a castanha-do-Brasil é um alimento básico na dieta. Os Zo’é colhem os ouriços a partir de janeiro e consomem amêndoas em profusão durante toda a estação chuvosa; durante o verão, colhem ouriços ainda verdes e continuam comendo castanha o ano todo, em preparos diversos com produtos da mandioca ou carnes. Como é também nesse período que muitas frutas amadurecem, é comum interromperem o movimento de dispersão entre acampamentos para fazer festas, quando se distribui grande quantidade de bebida fermentada ''sepy''.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A estação seca, de final de julho até o início de janeiro, é marcada pelo trabalho nas roças. É quando a vida nas aldeias se intensifica, sendo um período de maior aproximação entre grupos familiares. Isso não significa que as famílias não mantenham, no verão, outras atividades que as leve a deixar a aldeia. Saem para buscar frutas da estação, como o açaí que é trazido em grandes cachos. Mas sobretudo saem para pescar com timbó, com anzóis, ou ainda com flecha ou zagaia. No verão, também acontecem expedições de caça, em geral mais curtas e só entre homens, já que as mulheres ficam nas aldeias cuidando das roças. Além disso, como muitas famílias mantêm cultivos em mais de uma aldeia, deslocam-se para dar conta de todas as roças. O corte, queima e limpeza das roças se prolonga até dezembro, meados de janeiro, quando a castanha está de novo madura, e os Zo’é limpam a roça da mandioca que brotou e fazem novo plantio. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Refeição familiar dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017.&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/9_9e70545c4b7fee0/52689scr_5d2f4b741f6cd92.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A mandioca é o principal cultivo, com uma variedade de produtos: farinha, beiju, tapioca, tucupi. As mulheres, inclusive com colaboração dos homens para ralar as raízes, dedicam muito de seu tempo ao processamento da mandioca: descascar, ralar, espremer no tipiti, peneirar, torrar farinha. Os Zo’é também cultivam pimenta, batata-doce, cará, banana, mamão, caju, goiaba, graviola, manga, urucum, algodão, cuia, cabaça, curauá e cana de flecha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade de vida dos Zo’é decorre, portanto, desse grande acervo de saberes e práticas do cotidiano, transmitidos e aperfeiçoados ao longo das gerações. Se, nas últimas décadas, os Zo’é se apropriaram seletivamente de alguns itens industrializados, continuam valorizando suas próprias tecnologias para fabricar os artefatos que utilizam cotidianamente.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Ler e escrever na própria língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Os Zo'e durante uma oficina de Letramento, Dominique Tilkin Gallois, 2023&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/6_07c4c88f97d55fe/162426scr_wm_9578fba3a29bfe7.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre as ações educativas construídas com os Zo’é para promover a discussão e pactuação do PGTA, destacam-se as atividades de letramento, iniciadas pelo Iepé em 2017. Tanto para a formulação adequada das medidas de proteção como, sobretudo, para a apropriação duradoura deste plano, era imprescindível que os próprios Zo’é pudessem redigir e atualizar as diretrizes de gestão de seu território. Trata-se de um programa não escolar de letramento, que é concebido não apenas como um meio de apropriação da leitura e escrita – por enquanto apenas na língua zo’é – e a iniciação à matemática, mas também como aproximação aos conceitos, à linguagem e às práticas relacionadas aos direitos assegurados aos povos indígenas pela [https://pib.socioambiental.org/pt/Constitui%C3%A7%C3%A3o Constituição brasileira de 1988]. É nesse sentido que as ações de letramento viabilizaram a criação da Tekohara, organização representativa do povo Zo’é, na consolidação de seu Fundo de Artesanato, o FAZ, e na construção de um [https://institutoiepe.org.br/2025/08/protocolo-de-consulta-e-consentimento-zoe/ protocolo de consulta e consentimento]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a pandemia de Covid-19, durante a qual todos os trabalhos com os Zo’é foram suspensos, consolidou-se uma turma de cerca de 40 jovens e adultos, depois separada em duas, correspondendo aos grupos do Norte e do Sul. Reúnem-se quatro vezes por ano nos Encontros de Letramento, realizados na “casa grande” da Base da Funai, em Kejã. Destacaram-se rapidamente oito jovens, que passaram a atuar como multiplicadores nas atividades de letramento, como tradutores e mais recentemente assumiram cargos na gestão da organização representativa, Tekohara. Além desses Encontros, oficinas específicas promovem a construção participativa de materiais didáticos, hoje já com mais de 20 títulos versando sobre os mais diversos temas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Todos os materiais produzidos procuram registrar as reflexões dos Zo’é sobre seu modo de vida, sobre as mudanças recentes que interferem nas formas de ocupação do território, sobre experiências novas de gestão advindas da consolidação de sua associação etc. Entre eles, destacam-se os cadernos da série ''Rekoha'', que sempre iniciam com a feitura de um mapa por um líder de grupo local, complementado por pequenos textos extraídos das conversas sobre suas iniciativas de abertura de caminhos, roças, acampamentos de caca e pesca, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra série de materiais traz resultados de uma pesquisa colaborativa sobre cantos, engajando jovens letrados e conhecedores mais idosos, que permitiu também introduzir o uso da informática, para a gestão de um acervo de cantos e de suas transcrições. Além disso, outros cadernos específicos apoiam a formação em gestão tanto da Tekohara como do Fundo de Artesanato Zo’é (FAZ). Mais recentemente, alguns cadernos trazem saberes das mulheres – que praticamente não participam das atividades de letramento – especialmente sobre o ciclo da castanha e sua culinária. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
=== Tekohara – Organização Zo’é ===&lt;br /&gt;
Após a pandemia de Covid-19, os Zo’é reativaram seu movimento de reorganização de relações com os não indígenas, inaugurado com a pactuação do PGTA, e criaram em 2022 uma organização representativa, denominada Tekohara. O nome ''Tekohara'' foi especialmente criado para a associação. Segundo os fundadores, a expressão inexiste na língua zo’é, porém remete à proteção do território, chamado em sua língua de – ''tekoha''. Constitui assim uma síntese do que consideram ser a atuação prioritária da organização, em consonância com todo o trabalho de gestão territorial que os Zo’é vêm conduzindo nos últimos anos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A assembleia de fundação reuniu praticamente toda a população zo’é, incluindo idosos e crianças. Desses, todos os maiores de 17 anos, totalizando 198 pessoas à época, se tornaram associados, que escolheram e aclamaram seus representantes para duas instâncias de gestão:  o Conselho de Chefes e a Diretoria. O primeiro é composto por ''sete iy'', principais líderes zo’é, reconhecidos pelos demais chefes de todos os subgrupos. Em 2025, a assembleia escolheu outros chefes para o conselho, hoje um total de 11, que também constituem o Conselho Fiscal da associação. A diretoria é constituída por cinco jovens letrados, que se consideram “ajudantes dos chefes” e atuam diretamente nas instâncias que exigem a leitura e escrita de documentos, a convocação e mediação de reuniões, a gestão de recursos, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2024, os chefes do conselho e os jovens da diretoria, além de outros adultos interessados, construíram o protocolo de consulta e consentimento, ao longo de cinco oficinas e de várias reuniões de apresentação e aprovação do documento, publicado em duas línguas, em 2025. Afirmam, neste protocolo: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
“Temos nos reunido regularmente para conversar e com isso nossa associação está firme, porque discutimos todos os assuntos importantes. Como consolidamos nosso próprio jeito de fazer reuniões e tomar decisões, temos clareza sobre como devemos nos posicionar sobre quem pode e quem não pode entrar em nosso território (...) É porque mantemos um mesmo entendimento sobre a proteção de nosso território que as decisões não são difíceis. É assim que alcançamos consenso entre nós todos”. – Protocolo de consulta e consentimento Zo’é (2025, pp. 14-21)&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/3_8ec6e605f080da0/162433scr_wm_6306ea1916b3650.jpg| Lideranças zo'é durante uma reunião da Tekohara, Kamikia Kisedje, 2024}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A gestão coletiva de um Fundo de Artesanato ==&lt;br /&gt;
Desde a instalação da Funai na Terra Indígena, em 1991, os Zo’é têm produzido artesanato para troca com visitantes, ainda que de modo episódico, obtendo assim diversos utensílios que foram, desde então, incorporados ao seu modo de vida. Naquele período, o Posto de Atração distribuía uma ou duas vezes por ano ferramentas, material de pesca, lanternas e pilhas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Os Zo'e durante a etiquetagem de peças comercializadas por meio do Fundo de Artesanato, Kamikia Kisedje, 2024&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/5_22188c531215eb0/162425scr_wm_ee3a42b7ee661ff.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já a partir de 2011, a CGIIRC-Funai passou a rever sua política de proteção, garantindo aos indígenas em situação de recém-contato novas experiências e formas de participação. Foi nesse contexto que o Fundo de Artesanato Zo’é (FAZ), foi criado em 2012, pela Frente Cuminapanema (FPEC). Tratava-se de ampliar as possibilidades de troca e assegurar maior autonomia no abastecimento de itens industrializados demandados pelos Zo’é. Sobretudo se buscou passar de um sistema de doação para um mecanismo coletivo de permutas, assegurando a distribuição de itens industrializados previamente selecionados para todas as famílias, que por sua vez entregam lotes de peças que correspondem aproximadamente ao valor dos objetos adquiridos pelo Fundo. Durante dez anos, o FAZ se consolidou sob gestão da equipe da Funai, mas desde 2022, é gerido diretamente pelos Zo’é, por meio da associação Tekohara, ainda que com algum apoio dos parceiros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O FAZ consiste num sistema de trocas que envolve todas as famílias zo’é, atendendo suas demandas por objetos industrializados. Nos últimos anos, acordou-se com os parceiros que itens como material de pesca, ferramentas, entre outros, são adquiridos através de projetos do Iepé, desonerando assim o FAZ. A lista do que deve ser comprado é aberta, mas inclui cerca de 20 itens, todos eles incorporados ao modo de vida dos Zo’é há várias décadas. A lista envolve itens de uso pessoal, como sandálias, espelhos, linhas para tipoias, sabão, panelas, tigelas, além de alguns itens necessários às atividades produtivas do cotidiano, como isqueiros, sacos para armazenar farinha e eventualmente ferramentas que não podem ser adquiridas através dos projetos dos parceiros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Tebo Zo'é segurando cumaru, Kamikia Kisedje, 2024&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/1_1085df758a31880/162431scr_wm_04d1d66a3aa490a.jpg }}&lt;br /&gt;
  &lt;br /&gt;
As famílias entregam peças de artesanato e recebem itens prévia e cuidadosamente selecionados em reuniões com os chefes de todas as aldeias. Ou seja, a um certo conjunto de artesanato vendido corresponde um certo número de itens industrializados adquiridos com o recurso da comercialização das peças. Seguindo a expressa preferência dos Zo’é, os itens são sempre comprados na quantidade que atenderá rigorosamente todas as famílias. As entregas são realizadas três a quatro vezes por ano, com itens que são escolhidos em reuniões trimestrais, para atender às necessidades do momento. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os artefatos comercializados pelo FAZ são os mesmos utilizados no cotidiano dos Zo’é e incluem trançados, recipientes em cerâmica, colheres, pentes, brincos e pulseiras. Tal seleção, entre os muitos itens da cultura material zo’é, obedece a critérios de sustentabilidade. A legislação vigente não permite a venda de plumária ou de flechas com ponta de osso, ou qualquer objeto fabricado com partes de animais. Arcos de madeira e redes feitas de fibras de castanheira tampouco são vendidos, para garantir aos Zo’é exclusividade no acesso a esses materiais essenciais em seu modo de vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar dessas restrições, os resultados do FAZ são muito promissores, não apenas por incentivar a continuidade dos saberes e práticas artesanais dos Zo’é, como por viabilizar a formação em gestão dos jovens e dos chefes. Ao se apropriar deste Fundo, os Zo’é souberam declarar e garantir critérios próprios na distribuição adequada dos bens adquiridos, em acordo com seus valores e considerações quanto às diferenças de gênero, idade e processos de aprendizagem, bem como à isonomia entre os grupos locais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além da venda de artesanato, a Tekohara também realiza a  venda de sementes de cumaru, coletadas pelas famílias envolvidas no FAZ. Desde 2019, o Fundo se beneficia ainda com a venda exclusiva dos livros da série Saberes Zo’é, atualmente com três títulos: [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Potuwa.pdf ''Potuwa pora kõ'' – O que se guarda no ''potuwa''] (2019); [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2021/07/Eremiu-rupa.-Abrindo-rocas_Trecho.pdf ''Eremi’u rupa'' – Abrindo roças] (2021) e [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Canoa-Zoe.pdf ''Ihara rape rupi'' – Pelo caminho da canoa] (2023).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/4_f91f5d08e62cbad/162424scr_wm_0c86653fd01dc21.jpg| Distribuição de sabão adquirido com recursos do FAZ, Dominique Tilkin Gallois, 2025}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;CABRAL, Ana Suely.Uma escrita para a Língua Zo'é. Brasília: Lalli/Unb/Funai, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin. De arredio a isolado : perspectivas de autonomia para os povos indígenas isolados. In: GRUPIONI, Luís Donisete Benzi (Org.). Índios no Brasil. São Paulo : Secretaria Municipal de Cultura, 1992. p. 121-34.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Essa incansável tradução : entrevista. Sexta Feira: Antropologia, Artes e Humanidades, São Paulo : Pletora, n. 6, p. 103-21, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Tupi do Cuminapanema : eles se chamam Zo'É. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1991/1995. São Paulo : Instituto Socioambiental, 1996. p. 280-7.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Zo'é. In: ASSIS, Rogério. São Paulo: Terceiro Nome, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Sobre alguns modos zo’e de fazer coletivos e lideranças”. In: FAJARDO GRUPIONI, D.; Andrade, L. M. M. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; GRUPIONI, Luís Donisete Benzi. O índio na Missão Novas Tribos. In: WRIGHT, Robin (Org.). Transformando os Deuses : os múltiplos sentidos da conversão entre os povos indígenas no Brasil. Campinas : Unicamp, 1999. p. 77-130.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
GALLOIS, Dominique Tilkin; BRAGA, Leonardo Viana; PEDREIRA, H. P. S. 2020 Construindo o Plano de Gestão Territorial e Ambiental com os Zo’é. In: Luis Donizete Benzi Grupioni (org.). Em busca do bem viver: Experiências de elaboração de Planos de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas. São Paulo: Rede de Cooperação Amazônica, 1. ed., v. 1.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. A redescoberta dos amáveis selvagens. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1987/88/89/90. São Paulo : Cedi, 1991. p. 209-14. (Aconteceu Especial, 18)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; HAVT, Nadja. Relatório de identificação da Terra Indígena Zo'é : Portaria 309/PRES/Funai - 04.04.97. São Paulo : Funai, 1998.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;HAVT, Nadja. De algumas questões sobre a participação de “índios isolados” no processo de regularização fundiária : o exemplo dos Zo’É. In: GRAMKOW, Márcia Maria (Org.). Demarcando terras indígenas II : experiências e desafios de um projeto de parceria. Brasília : Funai/PPTAL/GTZ, 2002. p. 85-94.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Representações do Ambiente e da Territorialidade entre os Zo’é/PA. Dissertação de Mestrado. FFLCH/USP, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;Iepé &amp;amp; FPEC/Funai. Jo’e bokitute ram: planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro. Plano de Gestão Territorial e Ambiental da TI Zo’é. São Paulo: Iepé, 2019.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
BRAGA, Leonardo Viana. Micropeças sobre gênero e caçada junto aos Zo’é. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas:&lt;br /&gt;
índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. ''Pani'em'': um esboço sobre os modos de saber entre os Zo'é. Dissertação de mestrado. FFLCH/USP, 2017.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Eremi'u rupa. Abrindo roças. 1. ed. São Paulo: Série Saberes Zo'é - Iepé, FPEC/Funai &amp;amp; Fundo de Artesanato Zo'é (FAZ), 2021. v. 2. 189p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
BRAGA, Leonardo Viana; PEDREIRA, Hugo Prudente S.; CABALZAR, Flora Dias. 2020. 'Fazer saber a própria terra'. In: Nelson Russo de Moraes; Leila Adriana Baptaglin; Lamounier Erthal Vilella; Alexandre de Castro Campos; Raoni Fernandes Azerêdo. (Org.). Povos Originários e Comunidades Tradicionais: trabalhos de pesquisa e de extensão universitária – volume 4, 1ed.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; &lt;br /&gt;
PEDREIRA, Hugo Prudente da Silva. ''Potuwa pora kõ'' - o que se guarda no ''potuwa. 1''. ed. São Paulo: Instituto de Pesquisa e Formação Indígena - Iepé, 2019. v. 1. 148p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; RIBEIRO, Fabio N. “Os Zo’é e as metamorfoses do fundamentalismo evangélico”. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Encontros Zo’é nas Guianas. Tese de doutorado. FFLCH/USP, 2019.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. ''Ihara Rape Rupi'': pelo caminho da canoa. 1. ed. São Paulo: Iepé - Instituto de Pesquisa e Formação Indígena, 2023. v. 1. 132p .&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
Cuidado ao editar esta seção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Zo'é}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Dominique T. Gallois}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
{{#set:Capa=162430scr_wm_9d03db1dcc7a9e9.jpg}}&lt;br /&gt;
{{#set:Counter=61505}}&lt;br /&gt;
{{#set:Crédito capa=Kamikia Kisedje, 2024}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=1997-01-01}}&lt;br /&gt;
{{#set:Estilo=claro}}&lt;br /&gt;
{{#set:Povo Id=321}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas no Pará]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8520</id>
		<title>Povo:Zo'é</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8520"/>
		<updated>2025-10-20T17:38:44Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: /* Experiências de contato e de convivência com kirahi */&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Vivem numa área de densas florestas, entre os rios Cuminapanema e Erepecuru, no Norte do Pará. Os Zo’é convivem com agentes de assistência há quase quatro décadas, mantendo vigorosamente suas formas de organização social e territorial. Este povo em situação de recente contato vem se mobilizando para implementar o PGTA da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3927 TI Zo'é] e seu protocolo de consulta. Através da sua organização representativa, a Tekohara, fortalecem a gestão de um Fundo de Artesanato, um mecanismo original de trocas coletivas.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
== Nome e língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Os Zo'é durante uma oficina de Letramento, Dominique Gallois, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/4_f54a65283e04d93/52684scr_8d884e9b4241947.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pronome &amp;lt;em&amp;gt;jo’é&amp;lt;/em&amp;gt; [zo’é], “nós mesmos”, se consolidou como uma autodenominação que diferencia este povo dos não indígenas, chamados &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;. Já outros povos indígenas são chamados de “&amp;lt;em&amp;gt;amõ jo’é&amp;lt;/em&amp;gt;” (outros, como nós). No final dos anos 1980, quando começaram a conviver com missionários e com servidores da Funai, esse termo não era usado para designar a eles mesmos, mas para identificar qualquer pessoa que adquirisse alguma proximidade e que passasse, então, a ser considerada “gente como nós”. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os termos &amp;lt;em&amp;gt;Poturu&amp;lt;/em&amp;gt;, ou &amp;lt;em&amp;gt;Poturujara&amp;lt;/em&amp;gt;, difundidos inicialmente por agentes da Funai como denominação do povo recém-contatado na região do Cuminapanema, designam tão somente a madeira da árvore utilizada para confeccionar os adornos labiais &amp;lt;em&amp;gt;embe’pot&amp;lt;/em&amp;gt;. “&amp;lt;em&amp;gt;Poturu!&amp;lt;/em&amp;gt;” respondiam os Zo’é, quando alguém apontava para seus rostos, buscando saber seu nome.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Zo’é são falantes de uma língua Tupi-Guarani, do tronco Tupi. A maior parte da comunidade é monolíngue, com exceção de alguns chefes e de uma dezena de jovens, que aprenderam a se comunicar em português e estão adquirindo rapidamente maior fluência, no âmbito de suas funções de gestão da &amp;lt;strong&amp;gt;Tekohara – Organização Zo’é&amp;lt;/strong&amp;gt;. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Experiências de contato e de convivência com ''kirahi'' ==&lt;br /&gt;
A área onde vivem os Zo’é situa-se em território histórico de povos de língua Karib, que ocupam as terras firmes do planalto das Guianas. Seus vizinhos mais próximos são os [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Tiriy%C3%B3 Tiriyó], ao Norte; os [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Aparai Aparai] e [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Wayana Wayana], a Leste; os quilombolas e castanheiros não indígenas ao Sul. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As fontes disponíveis sobre a região Norte do Pará não trazem informações suficientes para acompanhar a trajetória da migração dos Zo’é até seu &amp;lt;em&amp;gt;habitat&amp;lt;/em&amp;gt; atual, mas é certo que este povo tem sua origem ao sul. Essa é a direção que eles indicam quando são indagados sobre sua procedência antiga, embora a localização das aldeias de antepassados longínquos não seja assunto de grande interesse.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como ocorre na tradição oral das sociedades indígenas que mantêm contatos antigos com a população regional, a presença de não indígenas acaba sendo integrada ao tempo mítico. Os Zo’é não questionam nem a origem, nem os movimentos dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;, ou dos povos inimigos: todos eles, simplesmente, sempre existiriam. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diz-se, inclusive, que quando &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt; recriou a humanidade, não precisou refazer os não indígenas, que não haviam sido engolidos pelo dilúvio: eles já existiam, mas estavam longe, “na borda da terra”. Elementos históricos são agregados ao mito, associando o evento da recriação a contatos interétnicos. O fogo que destruiu a terra foi provocado por inimigos, habitantes do Leste; para alcançar as ossadas dos humanos destruídos pelo dilúvio, o herói vem do Sul, flutuando em um recipiente típico dos não indígenas: um corote de gasolina. Depois, cada um volta a ocupar seu espaço: os não indígenas ficam no Sul; os Zo’é nas serras, longe dos rios; os inimigos a Leste.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/Jipohan_%C3%A9_gente_como_voc%C3%AA “Jipohan é gente como você”, por Jurusi uhu, Pa'hi e Tatitu Zo'é]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/763735-2/DSC_3332_edit.JPG|Jurusi uhu Zo'é. Foto: Dominique Tilkin Gallois&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Era comum, nos anos 1990, os Zo’é perguntarem aos visitantes: “Vocês viram onde está &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt;, aquele herói que revitalizou seus ancestrais juntando ossos dos flagelados pelo último cataclismo?” Os Zo’é consideravam &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt; como um &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;. Após sua façanha de recriação, ele voltou para sua terra de origem, no Sul. É descrito usando roupas, escrevendo, usando canoa com motor, gravador, injeções e ferramentas diversas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como é comum na elipse temporal que o mito efetua, os Zo’é atualizam suas tradições com ingredientes extraídos de sua experiência do passado e de suas expectativas de futuro. Razão pela qual, na morada celeste dos mortos, os ex-Zo’é têm acesso irrestrito à mercadorias, inclusive espingardas, que lhes são fornecidas por alguns ex-&amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; generosos – como foi um servidor da Funai, Isidoro, que segue lhes trazendo mercadorias desejadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como ocorreu em muitos lugares, os eventos do contato dos Zo’é com missionários e depois com servidores da Funai envolveu diretamente a questão do acesso às mercadorias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Luis Donisete B. Grupioni/1989&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281189-1/zoe_7.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os então chamados “Índios do Cuminapanema” foram apresentados ao mundo em 1989, em reportagens que enfatizavam sua “pureza” e “fragilidade” e os descreviam como um dos últimos povos “intactos” na Amazônia. E justamente por serem um dos raros grupos ainda “não atingidos” nem pela mensagem evangélica, nem pela assistência oficial, os Zo’é atraíram a atenção da Missão Novas Tribos (MNT), que iniciou seu trabalho na região em 1982. Foram necessários cinco anos de sucessivas aproximações e recuos para “pacificar” os Zo’é – até que em 1987 os missionários  instalaram a Base Esperança na porção sul da atual TI Zo’é. Ali, passaram a controlar sozinhos o processo de acomodação dos Zo’é à nova situação, até a Funai assumir a área em 1991.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, os Zo’é já tinham experiências de encontro com não indígenas desde muito tempo. Relatam inclusive a saída de uma mulher que viajou até Santarém, de onde acabou voltando, provavelmente no final do século XIX.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
No final dos anos 1960, o território zo’é passou a ser percorrido por caçadores de felinos, conhecidos como “gateiros”. Nesse período, os Zo’é encontravam em suas trilhas, gaiolas, ferramentas abandonadas, restos de acampamentos. Também encontravam vestígios de coletores de castanha. Eram contatos indiretos, ou, como dizem os Zo’é, “sem carne/sem corpo”, pois não viam os forasteiros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Dominique Gallois, 1991&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281182-1/zoe_4.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1975, eles foram surpreendidos por visitas mais espetaculares, quando um helicóptero do Instituto de Estudos e Pesquisas do Pará despejou embrulhos com roupas e objetos sobre a aldeia Kejã. Foi também com presentes lançados do céu, ou dependurados no caminho das aldeias, que os membros da Missão Novas Tribos se aproximaram. Entre 1982 e 1987, eles estiveram várias vezes em acampamentos ou aldeias, saindo rapidamente. Segundo os Zo’é, muitas pessoas ficavam doentes na sequência dessas visitas e, como demoravam meses para voltar, as pessoas acometidas por doenças pulmonares morriam. Eles também relatam que resolveram se deslocar rumo ao Sul, em busca de uma explicação para esse “sopro” de doenças e para pegar mais objetos, chegando finalmente à Base Esperança em outubro de 1987, data oficial do “contato” com a MNT. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
===Terçados, epidemia e mortes===&lt;br /&gt;
{{Lead |por '''Fábio Ribeiro'''}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As notícias trazidas sobre os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; que davam facões e machados logo se espalharam pelas aldeias e em pouco tempo muitos Zo’é foram atrás dos missionários. Como não havia ferramentas para todos, o clima logo ficou tenso. Os homens que não pegaram facões ficaram bravos, bateram nas paredes entraram e saquearam a casa dos missionários, na localidade de Kuruaty. Esses, com muito medo, foram embora. As doenças, no entanto, ficaram. É nesse período que tem início a epidemia que em poucos dias tirou a vida muitas outras pessoas zo’é. “&amp;lt;em&amp;gt;Kirahi rahy ate juke&amp;lt;/em&amp;gt;. Foi a doença dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; que matou”. O relato de Hun, um atual chefe Zo’é é claro ao afirmar que a epidemia teve início logo após o encontro de Tun e Dubehaj com os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; e que, apenas muito tempo depois, quando encontraram Sera’yt (em 1987), é que os missionários trouxeram injeções com remédios, mas não vacinas. Hun, ainda criança nessa época, foi duramente afetado: seu pai, sua mãe e alguns de seus irmãos morreram na maloca de Pirity. “Naquele tempo os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; foram embora mesmo. Depois os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; pensaram de novo, queriam ver os Zo’é de novo, aí os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; voltaram. Foi então nessa época que encontraram Sera’yt (...) e ficaram alegres. Naquela época os Zo’é tinham mandado embora, então os kirahi pensaram, aí abriram o caminho novamente. Passaram-se muitas luas naquele tempo, e aí os missionários voltaram.” – Adaptado de &amp;lt;em&amp;gt;Kampugerau: crônica de um movimento zo’é &amp;lt;/em&amp;gt;, 2024&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após essa notícia, a Funai criou o PINC Cuminapanema, subordinado à 4ª SUER/Funai em Belém (Portaria nº 1.061, de 22 de maio de 1987). No ano seguinte, o convênio 008/1998 celebrado entre a Funai e a MNT vedava sua atuação em áreas de indígenas isolados. Mas a Missão não se retirou e continuou seu trabalho junto aos Zo’é. Até que, em janeiro de 1989, a Missão alertou a Funai sobre a precária situação de saúde dos Zo’é. O sertanista Sidney Possuelo conseguiu apoio da imprensa e pôde assim realizar uma primeira visita à área. Numa segunda viagem, pouco tempo depois, a equipe da Funai verificou que a situação de saúde estava piorando e começou então a planejar um trabalho mais sistemático. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante mais de um ano, os Zo’é assistiram à convivência tensa entre as equipes da Funai e da Missão Novas Tribos, cada uma com sua base, entre as quais eles continuaram circulando para obter remédios e objetos industrializados. Quando conseguiu recursos e pessoal adequados para assumir um trabalho de assistência que abrangesse a totalidade das quatro aldeias existentes na época, a Funai retirou os missionários da área, em outubro de 1991. A partir desse momento, os sucessivos responsáveis pelo PINC Cuminapanema, orientados pelo então Departamento de Índios Isolados (DII), da Funai, passaram a desempenhar  ações de proteção do povo Zo’é e de sua terra, em formatos que variaram sensivelmente ao longo dos anos. Foi somente a partir de dezembro de 2009, com a reestruturação da Funai, que o órgão indigenista instituiu a  Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC), incluindo a proteção às populações de recente contato como os Zo’é. A Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema (FPEC) foi criada em 2011 (Portaria Nº 1816/PRES, de 30 de dezembro de 2011) e, desde então, segue novas diretrizes para a promoção da integridade cultural e territorial do povo Zo’é.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A regularização da TI Zo’é ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Reunião de chefes Zo’é, Leonardo Viana Braga, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/9/1_c969ffb8ac0685f/52691scr_f6158b8f1a3b002.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1987, a Funai procedeu à interdição da Área Indígena Cuminapanema/Urucuriana, com uma extensão de aproximadamente 2.059.700 hectares, ao sul do [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3885 Parque Indígena de Tumucumaque], nos municípios de Alenquer e Óbidos, Pará ([https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/ZED00005.pdf Portaria nº 4.098 de 30/12/1987]). A interdição visava dar condições de trabalho à equipe da Funai, para o reconhecimento de numerosas referências de indígenas  isolados levantadas pelo então DII. Na época, a Funai já conhecia a presença dos Zo’é, através de informações repassadas pela Missão Novas Tribos, que havia localizado este povo em 1982.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os trabalhos de identificação e delimitação da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3927 Terra Indígena Zo'é] aconteceram entre 1996 e 1998, com a participação ativa dos Zo’é e de vários técnicos e especialistas, em muitas etapas. A primeira, de estudos antropológicos, incluiu a preparação da comunidade para que os Zo’é pudessem acompanhar todos os procedimentos da regularização de seu território. A Portaria nº 309 de 04/04/1997 constituiu o Grupo de Trabalho cujo [https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/ZED00014.pdf relatório de identificação e delimitação] foi submetido à aprovação da Funai em novembro de 1998.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Zo'é trabalhando na construção de novas casas, Leonardo Viana Braga, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/9/0_eedce20393fa4de/52690scr_4bbc991f8b7ca54.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A demarcação física da Terra Indígena, com 668.565 hectares, foi realizada entre 1999 e 2000, por uma empresa contratada pela Funai. Contrariamente ao acordado com os Zo’é durante os trabalhos de identificação, eles não puderam acompanhar os trabalhos demarcatórios e foram mantidos alheios ao processo de regularização de seu território. Após a revisão de erros na delimitação do limite sul, a homologação e o registro no Serviço de Patrimônio da União (SPU), a demarcação da Terra Indígena foi finalmente  consagrada por decreto presidencial (s/n), publicado no Diário Oficial da União (DOU) em 22 de dezembro de 2009.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2008, a pedido do Ministério Público Federal, foi criada uma faixa de amortecimento em volta da Terra Indígena, a Zona Intangível das Florestas Estaduais (FES) [https://uc.socioambiental.org/pt-br/arp/4641 Trombetas] e [https://uc.socioambiental.org/pt-br/arp/4642 Paru]. Essa área não poderia receber nenhum tipo de exploração econômica para evitar a contaminação dos indígenas em situação de recente contato. Com a aprovação do Plano de Manejo da FES do Trombetas pelo Conselho Estadual de Meio Ambiente do Pará, a faixa foi incorporada no zoneamento da Unidade de Conservação. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Iniciativas dos Zo’é consolidam novos rumos ==&lt;br /&gt;
Durante vinte anos, a atuação do órgão indigenista se centrou em manter os Zo’é afastados das relações com os não indígenas e suas tecnologias, evitando também qualquer encontro com povos indígenas vizinhos. Mas em 2010, os Zo’é tomaram a iniciativa de romper a aliança que mantinham com a equipe da Frente de Proteção da Funai e saíram da terra demarcada para buscar mercadorias que lhes eram recusadas em seu território. Um grupo se dirigiu ao Norte, ao encontro dos Tiriyó no Rio Marapi, e outro se dirigiu aos Campos Gerais, além do limite Sul da Terra Indígena, onde trabalharam com coletores de castanha. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Voltaram trazendo espingardas velhas, redes de &amp;lt;em&amp;gt;nylon&amp;lt;/em&amp;gt;, roupas usadas e alguns gêneros alimentícios, além de várias pessoas doentes. A experiência rendeu importantes aprendizados no que toca aos modos de relação com seus vizinhos, indígenas e não indígenas, e resultou na revisão da política de proteção da TI Zo’é – até então fundada na manutenção de um rígido “isolamento” e na contenção de seus pedidos de acesso não só às mercadorias como a conhecimentos sobre o modo de vida dos não indígenas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi nesse contexto que o [https://institutoiepe.org.br/ Instituto Iepé] estabeleceu, em 2016, uma parceria com a nova gestão da Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema (FPEC), visando criar alternativas para que os Zo’é acessassem informações e experiências que lhes permitissem compreender e se posicionar frente aos interesses dos diferentes setores da sociedade brasileira. Buscou-se atender às demandas dos Zo’é, através de um conjunto de ações educativas e de apoio às suas próprias iniciativas de vigilância territorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Planejando o futuro e a proteção do território ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em novembro de 2019, os Zo'é pactuaram seu Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da TI Zo'é, onde definem suas prioridades para o futuro. “&amp;lt;em&amp;gt;Jo’e rekoha bokitute ram&amp;lt;/em&amp;gt; – Planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro” foi o título escolhido pelos Zo’é para esse plano de gestão, onde explicitam as diretrizes para a proteção de seu território e de seu modo de vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas atividades realizadas para a construção do PGTA, entre 2016 e 2019, confirmou-se a mudança de foco nos interesses dos Zo’é. Menos inquietos em garantir abastecimento de objetos dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;, estavam mobilizados para ampliar sua circulação pelo território, não só reconhecendo áreas ocupadas pelos antigos, como abrindo novos percursos para avaliar as reservas de caça e pesca e as possibilidades de abertura de novos assentamentos. No documento, os Zo’é afirmam: “Queremos que nossos filhos sigam ocupando vastamente o nosso território”, colocando o processo de dispersão de aldeias como um dos fundamentos do bem viver. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Foto: Transporte de canoa recém construída pelos Zo'é, Hugo Prudente, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/6_92ae3e7baf9ad67/52686scr_d2b118ef8ea028d.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa mobilidade promoveu novas incursões e a vigilância mais sistemática em áreas fartas em recursos, como os grandes castanhais no Sul e em outras porções do território. Uma das diretrizes do PGTA dedica especial atenção à vigilância dessa região, que foi invadida por castanheiros em 2018 e que, desde então, vem sendo ocupada por aldeias novas e acampamentos. Como escreveram os Zo’é no documento: “Nós, coletando essa castanha, invasores não virão mesmo. Aqui é nossa terra, a castanha está na nossa terra. Tem castanha na terra dos não índios, essa deve ser a castanha deles. Essa aqui é nossa castanha. Estamos falando duramente agora”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
“Fazer saber o nosso território” é uma afirmação e um objetivo a ser buscado, articulando ações de vigilância e de ocupação. Mobiliza concepções importantes da territorialidade zo’e, como o zelo pelos lugares habitados, a articulação entre os diversos grupos familiares na abertura de uma nova aldeia e o caráter regular das idas e vindas implicadas em uma iniciativa de expansão territorial. Nesse movimento, os grupos territoriais se reestruturam, mantendo suas diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
Confira aqui o [https://institutoiepe.org.br/2022/05/plano-de-gestao-territorial-e-ambiental-zoe/ PGTA &amp;lt;em&amp;gt;Jo’e Rekoha Bokituteha Ram&amp;lt;/em&amp;gt; – Planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro]!&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== População e proliferação de aldeias ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Distribuição de bebida ''sepy'' durante uma festa dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/7/4/6_cd584b0ad074849/52746scr_dcd3b057e91c8af.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A população Zo'é praticamente dobrou nos últimos trinta anos: eram 172 em 1998, à época da identificação da TI. Em 2011 eram 261 e hoje são 349 pessoas (Iepé, 2025). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Zo'é subdividem-se em dois grandes grupos, respectivamente situados ao Norte e ao Sul da Base da Funai, em que se distribuem os 19 grupos locais (&amp;lt;em&amp;gt;iwana&amp;lt;/em&amp;gt;), que circulam em determinadas áreas territoriais, onde estão suas aldeias antigas e recentes, além de acampamentos. Os &amp;lt;em&amp;gt;Iwana&amp;lt;/em&amp;gt; agregados de famílias extensas, atualmente em número de 31, que vivem em aldeias próximas, e cuja composição sofre constantes alterações em função das alianças matrimoniais e das parcerias estabelecidas para ocupar novas áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos últimos dez anos, ocorreu um processo de proliferação de aldeias muito significativo. Na época da instalação da Funai em 1991, eram apenas quatro; eram cinco em 1998, 12 em 2011 e hoje existem 62 aldeias. Configuram conjuntos de pequenas aldeias ocupadas de forma intermitente por famílias extensas que vivem em lugares próximos e circulam entre seus vários assentamentos, em função da fartura de recursos e dos cuidados das roças. Essa intensa mobilidade está relacionada ao apoio logístico que recebem tanto da FPE-Funai como do Iepé, com uma rede de radiofonia em praticamente todas as aldeias. Merece destaque o fato de que, nos últimos anos, os Zo’é têm optado por fabricar suas próprias canoas em madeira de aroeira, preferidas – por enquanto – às voadeiras de alumínio, não só difíceis de transportar até a TI, como exigindo manutenção custosa. Aprenderam a fabricar canoas num intercâmbio que levou especialistas do povo [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Waiwai Waiwai] para a TI Zo’é em 2017 e, desde então, cada família procura construir sua própria embarcação, na qual são instalados os motores rabeta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Estações e ritmos da vida ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Indígenas zo'é finalizando uma rede de fibra de castanheira, Flora Dias Cabalzar, 2016.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/5_7ed184682c27e1c/52685scr_a5f3ac836c6e409.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma das principais características do modo de vida dos Zo’é, até hoje, é a intensa mobilidade das famílias pelo território. Todos têm acesso aos recursos florestais sem esgotá-los, uma vez que as atividades de cultivo das roças, de caça, pesca e coleta são feitas em pequena escala, pelas diferentes famílias, em áreas distintas. É também nesses movimentos que os Zo’é atualizam o exímio conhecimento acumulado sobre seu território, constantemente percorrido através de uma intrincada rede de caminhos entre aldeias, capoeiras e locais de coleta de itens necessários no dia a dia, tanto para alimentação como para a fabricação de utensílios.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um modo de vida que garante aos Zo’é uma alimentação exclusivamente composta de sua produção agrícola, da caça, pescado e frutas. Também merece destaque o fato de os Zo’é não utilizarem espingardas, mas sim seus arcos, flechas e arpões, complementados com anzóis e linhas de pesca industrializadas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Homem zo'é cuidando de flechas, Dominique Tilkin Gallois, 2023.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/7_234521b7fa212cf/162427scr_wm_3c5190633e93dd0.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O caráter sazonal de alguns recursos dos quais os Zo’é se utilizam conforma a dinâmica de circulação das famílias pelo território e também repercute nos movimentos de aproximação e distanciamento entre essas famílias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É no tempo das chuvas, de fevereiro a julho, que acontecem os períodos mais prolongados de dispersão das famílias pelo território, quando são realizadas grandes caçadas, principalmente de macaco-aranha e de tucano. No início das chuvas, as famílias também se deslocam para a beira de igarapés e hoje também de rios maiores, aproveitando o volume das águas para caçar urubu-rei, usando peixes podres como iscas. Instalados nos acampamentos, os Zo’é retornam às aldeias para buscar farinha, preparada com antecedência e estocada nas casas; quando ela acaba, permanecem alguns dias para preparar mais farinha, beiju e tapioca.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O período ideal para a caça de ''kwata'' (macaco-aranha, coatá ou coamba) vai de março a maio, período denominado ''kwata ike'', quando estão gordos. Montam-se acampamentos específicos, de onde os homens saem para as serras, em busca dos macacos. No final desse período, em maio, tucanos, araras e papagaios já estão comendo frutas de palmeiras. É a estação chamada de ''token ike'', do “tucano gordo”, que dura cerca de um mês e meio, quando bandos numerosos de aves vêm comer patauá ou açaí, em locais de concentração de frutas. Já é no final da estação chuvosa e início da estação seca que os porcos queixadas e caititus estão gordos, motivando saídas frequentes de grupos de homens às trilhas das varas de porcos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Moça zo'é preparando leite de castanha, Dominique Tilkin Gallois, 2023.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/9_d567041deb9c12a/162429scr_wm_697db62eab28f2f.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre os recursos mais valorizados nesse calendário do tempo das chuvas, a castanha-do-Brasil é um alimento básico na dieta. Os Zo’é colhem os ouriços a partir de janeiro e consomem amêndoas em profusão durante toda a estação chuvosa; durante o verão, colhem ouriços ainda verdes e continuam comendo castanha o ano todo, em preparos diversos com produtos da mandioca ou carnes. Como é também nesse período que muitas frutas amadurecem, é comum interromperem o movimento de dispersão entre acampamentos para fazer festas, quando se distribui grande quantidade de bebida fermentada ''sepy''.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A estação seca, de final de julho até o início de janeiro, é marcada pelo trabalho nas roças. É quando a vida nas aldeias se intensifica, sendo um período de maior aproximação entre grupos familiares. Isso não significa que as famílias não mantenham, no verão, outras atividades que as leve a deixar a aldeia. Saem para buscar frutas da estação, como o açaí que é trazido em grandes cachos. Mas sobretudo saem para pescar com timbó, com anzóis, ou ainda com flecha ou zagaia. No verão, também acontecem expedições de caça, em geral mais curtas e só entre homens, já que as mulheres ficam nas aldeias cuidando das roças. Além disso, como muitas famílias mantêm cultivos em mais de uma aldeia, deslocam-se para dar conta de todas as roças. O corte, queima e limpeza das roças se prolonga até dezembro, meados de janeiro, quando a castanha está de novo madura, e os Zo’é limpam a roça da mandioca que brotou e fazem novo plantio. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Refeição familiar dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017.&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/9_9e70545c4b7fee0/52689scr_5d2f4b741f6cd92.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A mandioca é o principal cultivo, com uma variedade de produtos: farinha, beiju, tapioca, tucupi. As mulheres, inclusive com colaboração dos homens para ralar as raízes, dedicam muito de seu tempo ao processamento da mandioca: descascar, ralar, espremer no tipiti, peneirar, torrar farinha. Os Zo’é também cultivam pimenta, batata-doce, cará, banana, mamão, caju, goiaba, graviola, manga, urucum, algodão, cuia, cabaça, curauá e cana de flecha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade de vida dos Zo’é decorre, portanto, desse grande acervo de saberes e práticas do cotidiano, transmitidos e aperfeiçoados ao longo das gerações. Se, nas últimas décadas, os Zo’é se apropriaram seletivamente de alguns itens industrializados, continuam valorizando suas próprias tecnologias para fabricar os artefatos que utilizam cotidianamente.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Ler e escrever na própria língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Os Zo'e durante uma oficina de Letramento, Dominique Tilkin Gallois, 2023&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/6_07c4c88f97d55fe/162426scr_wm_9578fba3a29bfe7.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre as ações educativas construídas com os Zo’é para promover a discussão e pactuação do PGTA, destacam-se as atividades de letramento, iniciadas pelo Iepé em 2017. Tanto para a formulação adequada das medidas de proteção como, sobretudo, para a apropriação duradoura deste plano, era imprescindível que os próprios Zo’é pudessem redigir e atualizar as diretrizes de gestão de seu território. Trata-se de um programa não escolar de letramento, que é concebido não apenas como um meio de apropriação da leitura e escrita – por enquanto apenas na língua zo’é – e a iniciação à matemática, mas também como aproximação aos conceitos, à linguagem e às práticas relacionadas aos direitos assegurados aos povos indígenas pela [https://pib.socioambiental.org/pt/Constitui%C3%A7%C3%A3o Constituição brasileira de 1988]. É nesse sentido que as ações de letramento viabilizaram a criação da Tekohara, organização representativa do povo Zo’é, na consolidação de seu Fundo de Artesanato, o FAZ, e na construção de um [https://institutoiepe.org.br/2025/08/protocolo-de-consulta-e-consentimento-zoe/ protocolo de consulta e consentimento]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a pandemia de Covid-19, durante a qual todos os trabalhos com os Zo’é foram suspensos, consolidou-se uma turma de cerca de 40 jovens e adultos, depois separada em duas, correspondendo aos grupos do Norte e do Sul. Reúnem-se quatro vezes por ano nos Encontros de Letramento, realizados na “casa grande” da Base da Funai, em Kejã. Destacaram-se rapidamente oito jovens, que passaram a atuar como multiplicadores nas atividades de letramento, como tradutores e mais recentemente assumiram cargos na gestão da organização representativa, Tekohara. Além desses Encontros, oficinas específicas promovem a construção participativa de materiais didáticos, hoje já com mais de 20 títulos versando sobre os mais diversos temas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Todos os materiais produzidos procuram registrar as reflexões dos Zo’é sobre seu modo de vida, sobre as mudanças recentes que interferem nas formas de ocupação do território, sobre experiências novas de gestão advindas da consolidação de sua associação etc. Entre eles, destacam-se os cadernos da série ''Rekoha'', que sempre iniciam com a feitura de um mapa por um líder de grupo local, complementado por pequenos textos extraídos das conversas sobre suas iniciativas de abertura de caminhos, roças, acampamentos de caca e pesca, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra série de materiais traz resultados de uma pesquisa colaborativa sobre cantos, engajando jovens letrados e conhecedores mais idosos, que permitiu também introduzir o uso da informática, para a gestão de um acervo de cantos e de suas transcrições. Além disso, outros cadernos específicos apoiam a formação em gestão tanto da Tekohara como do Fundo de Artesanato Zo’é (FAZ). Mais recentemente, alguns cadernos trazem saberes das mulheres – que praticamente não participam das atividades de letramento – especialmente sobre o ciclo da castanha e sua culinária. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
=== Tekohara – Organização Zo’é ===&lt;br /&gt;
Após a pandemia de Covid-19, os Zo’é reativaram seu movimento de reorganização de relações com os não indígenas, inaugurado com a pactuação do PGTA, e criaram em 2022 uma organização representativa, denominada Tekohara. O nome ''Tekohara'' foi especialmente criado para a associação. Segundo os fundadores, a expressão inexiste na língua zo’é, porém remete à proteção do território, chamado em sua língua de – ''tekoha''. Constitui assim uma síntese do que consideram ser a atuação prioritária da organização, em consonância com todo o trabalho de gestão territorial que os Zo’é vêm conduzindo nos últimos anos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A assembleia de fundação reuniu praticamente toda a população zo’é, incluindo idosos e crianças. Desses, todos os maiores de 17 anos, totalizando 198 pessoas à época, se tornaram associados, que escolheram e aclamaram seus representantes para duas instâncias de gestão:  o Conselho de Chefes e a Diretoria. O primeiro é composto por ''sete iy'', principais líderes zo’é, reconhecidos pelos demais chefes de todos os subgrupos. Em 2025, a assembleia escolheu outros chefes para o conselho, hoje um total de 11, que também constituem o Conselho Fiscal da associação. A diretoria é constituída por cinco jovens letrados, que se consideram “ajudantes dos chefes” e atuam diretamente nas instâncias que exigem a leitura e escrita de documentos, a convocação e mediação de reuniões, a gestão de recursos, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2024, os chefes do conselho e os jovens da diretoria, além de outros adultos interessados, construíram o protocolo de consulta e consentimento, ao longo de cinco oficinas e de várias reuniões de apresentação e aprovação do documento, publicado em duas línguas, em 2025. Afirmam, neste protocolo: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
“Temos nos reunido regularmente para conversar e com isso nossa associação está firme, porque discutimos todos os assuntos importantes. Como consolidamos nosso próprio jeito de fazer reuniões e tomar decisões, temos clareza sobre como devemos nos posicionar sobre quem pode e quem não pode entrar em nosso território (...) É porque mantemos um mesmo entendimento sobre a proteção de nosso território que as decisões não são difíceis. É assim que alcançamos consenso entre nós todos”. – Protocolo de consulta e consentimento Zo’é (2025, pp. 14-21)&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/3_8ec6e605f080da0/162433scr_wm_6306ea1916b3650.jpg| Lideranças zo'é durante uma reunião da Tekohara, Kamikia Kisedje, 2024}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A gestão coletiva de um Fundo de Artesanato ==&lt;br /&gt;
Desde a instalação da Funai na Terra Indígena, em 1991, os Zo’é têm produzido artesanato para troca com visitantes, ainda que de modo episódico, obtendo assim diversos utensílios que foram, desde então, incorporados ao seu modo de vida. Naquele período, o Posto de Atração distribuía uma ou duas vezes por ano ferramentas, material de pesca, lanternas e pilhas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Os Zo'e durante a etiquetagem de peças comercializadas por meio do Fundo de Artesanato, Kamikia Kisedje, 2024&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/5_22188c531215eb0/162425scr_wm_ee3a42b7ee661ff.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já a partir de 2011, a CGIIRC-Funai passou a rever sua política de proteção, garantindo aos indígenas em situação de recém-contato novas experiências e formas de participação. Foi nesse contexto que o Fundo de Artesanato Zo’é (FAZ), foi criado em 2012, pela Frente Cuminapanema (FPEC). Tratava-se de ampliar as possibilidades de troca e assegurar maior autonomia no abastecimento de itens industrializados demandados pelos Zo’é. Sobretudo se buscou passar de um sistema de doação para um mecanismo coletivo de permutas, assegurando a distribuição de itens industrializados previamente selecionados para todas as famílias, que por sua vez entregam lotes de peças que correspondem aproximadamente ao valor dos objetos adquiridos pelo Fundo. Durante dez anos, o FAZ se consolidou sob gestão da equipe da Funai, mas desde 2022, é gerido diretamente pelos Zo’é, por meio da associação Tekohara, ainda que com algum apoio dos parceiros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O FAZ consiste num sistema de trocas que envolve todas as famílias zo’é, atendendo suas demandas por objetos industrializados. Nos últimos anos, acordou-se com os parceiros que itens como material de pesca, ferramentas, entre outros, são adquiridos através de projetos do Iepé, desonerando assim o FAZ. A lista do que deve ser comprado é aberta, mas inclui cerca de 20 itens, todos eles incorporados ao modo de vida dos Zo’é há várias décadas. A lista envolve itens de uso pessoal, como sandálias, espelhos, linhas para tipoias, sabão, panelas, tigelas, além de alguns itens necessários às atividades produtivas do cotidiano, como isqueiros, sacos para armazenar farinha e eventualmente ferramentas que não podem ser adquiridas através dos projetos dos parceiros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Tebo Zo'é segurando cumaru, Kamikia Kisedje, 2024&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/1_1085df758a31880/162431scr_wm_04d1d66a3aa490a.jpg }}&lt;br /&gt;
  &lt;br /&gt;
As famílias entregam peças de artesanato e recebem itens prévia e cuidadosamente selecionados em reuniões com os chefes de todas as aldeias. Ou seja, a um certo conjunto de artesanato vendido corresponde um certo número de itens industrializados adquiridos com o recurso da comercialização das peças. Seguindo a expressa preferência dos Zo’é, os itens são sempre comprados na quantidade que atenderá rigorosamente todas as famílias. As entregas são realizadas três a quatro vezes por ano, com itens que são escolhidos em reuniões trimestrais, para atender às necessidades do momento. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os artefatos comercializados pelo FAZ são os mesmos utilizados no cotidiano dos Zo’é e incluem trançados, recipientes em cerâmica, colheres, pentes, brincos e pulseiras. Tal seleção, entre os muitos itens da cultura material zo’é, obedece a critérios de sustentabilidade. A legislação vigente não permite a venda de plumária ou de flechas com ponta de osso, ou qualquer objeto fabricado com partes de animais. Arcos de madeira e redes feitas de fibras de castanheira tampouco são vendidos, para garantir aos Zo’é exclusividade no acesso a esses materiais essenciais em seu modo de vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar dessas restrições, os resultados do FAZ são muito promissores, não apenas por incentivar a continuidade dos saberes e práticas artesanais dos Zo’é, como por viabilizar a formação em gestão dos jovens e dos chefes. Ao se apropriar deste Fundo, os Zo’é souberam declarar e garantir critérios próprios na distribuição adequada dos bens adquiridos, em acordo com seus valores e considerações quanto às diferenças de gênero, idade e processos de aprendizagem, bem como à isonomia entre os grupos locais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além da venda de artesanato, a Tekohara também realiza a  venda de sementes de cumaru, coletadas pelas famílias envolvidas no FAZ. Desde 2019, o Fundo se beneficia ainda com a venda exclusiva dos livros da série Saberes Zo’é, atualmente com três títulos: [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Potuwa.pdf ''Potuwa pora kõ'' – O que se guarda no ''potuwa''] (2019); [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2021/07/Eremiu-rupa.-Abrindo-rocas_Trecho.pdf ''Eremi’u rupa'' – Abrindo roças] (2021) e [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Canoa-Zoe.pdf ''Ihara rape rupi'' – Pelo caminho da canoa] (2023).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/4_f91f5d08e62cbad/162424scr_wm_0c86653fd01dc21.jpg| Distribuição de sabão adquirido com recursos do FAZ, Dominique Tilkin Gallois, 2025}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;CABRAL, Ana Suely.Uma escrita para a Língua Zo'é. Brasília: Lalli/Unb/Funai, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin. De arredio a isolado : perspectivas de autonomia para os povos indígenas isolados. In: GRUPIONI, Luís Donisete Benzi (Org.). Índios no Brasil. São Paulo : Secretaria Municipal de Cultura, 1992. p. 121-34.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Essa incansável tradução : entrevista. Sexta Feira: Antropologia, Artes e Humanidades, São Paulo : Pletora, n. 6, p. 103-21, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Tupi do Cuminapanema : eles se chamam Zo'É. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1991/1995. São Paulo : Instituto Socioambiental, 1996. p. 280-7.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Zo'é. In: ASSIS, Rogério. São Paulo: Terceiro Nome, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Sobre alguns modos zo’e de fazer coletivos e lideranças”. In: FAJARDO GRUPIONI, D.; Andrade, L. M. M. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; GRUPIONI, Luís Donisete Benzi. O índio na Missão Novas Tribos. In: WRIGHT, Robin (Org.). Transformando os Deuses : os múltiplos sentidos da conversão entre os povos indígenas no Brasil. Campinas : Unicamp, 1999. p. 77-130.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
GALLOIS, Dominique Tilkin; BRAGA, Leonardo Viana; PEDREIRA, H. P. S. 2020 Construindo o Plano de Gestão Territorial e Ambiental com os Zo’é. In: Luis Donizete Benzi Grupioni (org.). Em busca do bem viver: Experiências de elaboração de Planos de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas. São Paulo: Rede de Cooperação Amazônica, 1. ed., v. 1.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. A redescoberta dos amáveis selvagens. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1987/88/89/90. São Paulo : Cedi, 1991. p. 209-14. (Aconteceu Especial, 18)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; HAVT, Nadja. Relatório de identificação da Terra Indígena Zo'é : Portaria 309/PRES/Funai - 04.04.97. São Paulo : Funai, 1998.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;HAVT, Nadja. De algumas questões sobre a participação de “índios isolados” no processo de regularização fundiária : o exemplo dos Zo’É. In: GRAMKOW, Márcia Maria (Org.). Demarcando terras indígenas II : experiências e desafios de um projeto de parceria. Brasília : Funai/PPTAL/GTZ, 2002. p. 85-94.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Representações do Ambiente e da Territorialidade entre os Zo’é/PA. Dissertação de Mestrado. FFLCH/USP, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;Iepé &amp;amp; FPEC/Funai. Jo’e bokitute ram: planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro. Plano de Gestão Territorial e Ambiental da TI Zo’é. São Paulo: Iepé, 2019.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
BRAGA, Leonardo Viana. Micropeças sobre gênero e caçada junto aos Zo’é. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas:&lt;br /&gt;
índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. ''Pani'em'': um esboço sobre os modos de saber entre os Zo'é. Dissertação de mestrado. FFLCH/USP, 2017.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Eremi'u rupa. Abrindo roças. 1. ed. São Paulo: Série Saberes Zo'é - Iepé, FPEC/Funai &amp;amp; Fundo de Artesanato Zo'é (FAZ), 2021. v. 2. 189p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
BRAGA, Leonardo Viana; PEDREIRA, Hugo Prudente S.; CABALZAR, Flora Dias. 2020. 'Fazer saber a própria terra'. In: Nelson Russo de Moraes; Leila Adriana Baptaglin; Lamounier Erthal Vilella; Alexandre de Castro Campos; Raoni Fernandes Azerêdo. (Org.). Povos Originários e Comunidades Tradicionais: trabalhos de pesquisa e de extensão universitária – volume 4, 1ed.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; &lt;br /&gt;
PEDREIRA, Hugo Prudente da Silva. ''Potuwa pora kõ'' - o que se guarda no ''potuwa. 1''. ed. São Paulo: Instituto de Pesquisa e Formação Indígena - Iepé, 2019. v. 1. 148p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; RIBEIRO, Fabio N. “Os Zo’é e as metamorfoses do fundamentalismo evangélico”. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Encontros Zo’é nas Guianas. Tese de doutorado. FFLCH/USP, 2019.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. ''Ihara Rape Rupi'': pelo caminho da canoa. 1. ed. São Paulo: Iepé - Instituto de Pesquisa e Formação Indígena, 2023. v. 1. 132p .&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
Cuidado ao editar esta seção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Zo'é}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Dominique T. Gallois}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
{{#set:Capa=162430scr_wm_9d03db1dcc7a9e9.jpg}}&lt;br /&gt;
{{#set:Counter=61505}}&lt;br /&gt;
{{#set:Crédito capa=Kamikia Kisedje, 2024}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=1997-01-01}}&lt;br /&gt;
{{#set:Estilo=claro}}&lt;br /&gt;
{{#set:Povo Id=321}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas no Pará]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8519</id>
		<title>Povo:Zo'é</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8519"/>
		<updated>2025-10-20T17:32:58Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Vivem numa área de densas florestas, entre os rios Cuminapanema e Erepecuru, no Norte do Pará. Os Zo’é convivem com agentes de assistência há quase quatro décadas, mantendo vigorosamente suas formas de organização social e territorial. Este povo em situação de recente contato vem se mobilizando para implementar o PGTA da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3927 TI Zo'é] e seu protocolo de consulta. Através da sua organização representativa, a Tekohara, fortalecem a gestão de um Fundo de Artesanato, um mecanismo original de trocas coletivas.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
== Nome e língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Os Zo'é durante uma oficina de Letramento, Dominique Gallois, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/4_f54a65283e04d93/52684scr_8d884e9b4241947.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pronome &amp;lt;em&amp;gt;jo’é&amp;lt;/em&amp;gt; [zo’é], “nós mesmos”, se consolidou como uma autodenominação que diferencia este povo dos não indígenas, chamados &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;. Já outros povos indígenas são chamados de “&amp;lt;em&amp;gt;amõ jo’é&amp;lt;/em&amp;gt;” (outros, como nós). No final dos anos 1980, quando começaram a conviver com missionários e com servidores da Funai, esse termo não era usado para designar a eles mesmos, mas para identificar qualquer pessoa que adquirisse alguma proximidade e que passasse, então, a ser considerada “gente como nós”. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os termos &amp;lt;em&amp;gt;Poturu&amp;lt;/em&amp;gt;, ou &amp;lt;em&amp;gt;Poturujara&amp;lt;/em&amp;gt;, difundidos inicialmente por agentes da Funai como denominação do povo recém-contatado na região do Cuminapanema, designam tão somente a madeira da árvore utilizada para confeccionar os adornos labiais &amp;lt;em&amp;gt;embe’pot&amp;lt;/em&amp;gt;. “&amp;lt;em&amp;gt;Poturu!&amp;lt;/em&amp;gt;” respondiam os Zo’é, quando alguém apontava para seus rostos, buscando saber seu nome.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Zo’é são falantes de uma língua Tupi-Guarani, do tronco Tupi. A maior parte da comunidade é monolíngue, com exceção de alguns chefes e de uma dezena de jovens, que aprenderam a se comunicar em português e estão adquirindo rapidamente maior fluência, no âmbito de suas funções de gestão da &amp;lt;strong&amp;gt;Tekohara – Organização Zo’é&amp;lt;/strong&amp;gt;. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Experiências de contato e de convivência com ''kirahi'' ==&lt;br /&gt;
A área onde vivem os Zo’é situa-se em território histórico de povos de língua Karib, que ocupam as terras firmes do planalto das Guianas. Seus vizinhos mais próximos são os [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Tiriy%C3%B3 Tiriyó], ao Norte; os [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Aparai Aparai] e [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Wayana Wayana], a Leste; os quilombolas e castanheiros não indígenas ao Sul. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As fontes disponíveis sobre a região Norte do Pará não trazem informações suficientes para acompanhar a trajetória da migração dos Zo’é até seu &amp;lt;em&amp;gt;habitat&amp;lt;/em&amp;gt; atual, mas é certo que este povo tem sua origem ao sul. Essa é a direção que eles indicam quando são indagados sobre sua procedência antiga, embora a localização das aldeias de antepassados longínquos não seja assunto de grande interesse.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/0_2410c1af65bd0e1/162430scr_wm_9d03db1dcc7a9e9.jpg|Terra Indígena Zo'é, Kamikia Kisedje, 2024}}&lt;br /&gt;
Como ocorre na tradição oral das sociedades indígenas que mantêm contatos antigos com a população regional, a presença de não indígenas acaba sendo integrada ao tempo mítico. Os Zo’é não questionam nem a origem, nem os movimentos dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;, ou dos povos inimigos: todos eles, simplesmente, sempre existiriam. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diz-se, inclusive, que quando &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt; recriou a humanidade, não precisou refazer os não indígenas, que não haviam sido engolidos pelo dilúvio: eles já existiam, mas estavam longe, “na borda da terra”. Elementos históricos são agregados ao mito, associando o evento da recriação a contatos interétnicos. O fogo que destruiu a terra foi provocado por inimigos, habitantes do Leste; para alcançar as ossadas dos humanos destruídos pelo dilúvio, o herói vem do Sul, flutuando em um recipiente típico dos não indígenas: um corote de gasolina. Depois, cada um volta a ocupar seu espaço: os não indígenas ficam no Sul; os Zo’é nas serras, longe dos rios; os inimigos a Leste.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/Jipohan_%C3%A9_gente_como_voc%C3%AA “Jipohan é gente como você”, por Jurusi uhu, Pa'hi e Tatitu Zo'é]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/763735-2/DSC_3332_edit.JPG|Jurusi uhu Zo'é. Foto: Dominique Tilkin Gallois&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Era comum, nos anos 1990, os Zo’é perguntarem aos visitantes: “Vocês viram onde está &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt;, aquele herói que revitalizou seus ancestrais juntando ossos dos flagelados pelo último cataclismo?” Os Zo’é consideravam &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt; como um &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;. Após sua façanha de recriação, ele voltou para sua terra de origem, no Sul. É descrito usando roupas, escrevendo, usando canoa com motor, gravador, injeções e ferramentas diversas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como é comum na elipse temporal que o mito efetua, os Zo’é atualizam suas tradições com ingredientes extraídos de sua experiência do passado e de suas expectativas de futuro. Razão pela qual, na morada celeste dos mortos, os ex-Zo’é têm acesso irrestrito à mercadorias, inclusive espingardas, que lhes são fornecidas por alguns ex-&amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; generosos – como foi um servidor da Funai, Isidoro, que segue lhes trazendo mercadorias desejadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como ocorreu em muitos lugares, os eventos do contato dos Zo’é com missionários e depois com servidores da Funai envolveu diretamente a questão do acesso às mercadorias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Luis Donisete B. Grupioni/1989&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281189-1/zoe_7.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os então chamados “Índios do Cuminapanema” foram apresentados ao mundo em 1989, em reportagens que enfatizavam sua “pureza” e “fragilidade” e os descreviam como um dos últimos povos “intactos” na Amazônia. E justamente por serem um dos raros grupos ainda “não atingidos” nem pela mensagem evangélica, nem pela assistência oficial, os Zo’é atraíram a atenção da Missão Novas Tribos (MNT), que iniciou seu trabalho na região em 1982. Foram necessários cinco anos de sucessivas aproximações e recuos para “pacificar” os Zo’é – até que em 1987 os missionários  instalaram a Base Esperança na porção sul da atual TI Zo’é. Ali, passaram a controlar sozinhos o processo de acomodação dos Zo’é à nova situação, até a Funai assumir a área em 1991.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, os Zo’é já tinham experiências de encontro com não indígenas desde muito tempo. Relatam inclusive a saída de uma mulher que viajou até Santarém, de onde acabou voltando, provavelmente no final do século XIX.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
No final dos anos 1960, o território zo’é passou a ser percorrido por caçadores de felinos, conhecidos como “gateiros”. Nesse período, os Zo’é encontravam em suas trilhas, gaiolas, ferramentas abandonadas, restos de acampamentos. Também encontravam vestígios de coletores de castanha. Eram contatos indiretos, ou, como dizem os Zo’é, “sem carne/sem corpo”, pois não viam os forasteiros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Dominique Gallois, 1991&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281182-1/zoe_4.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1975, eles foram surpreendidos por visitas mais espetaculares, quando um helicóptero do Instituto de Estudos e Pesquisas do Pará despejou embrulhos com roupas e objetos sobre a aldeia Kejã. Foi também com presentes lançados do céu, ou dependurados no caminho das aldeias, que os membros da Missão Novas Tribos se aproximaram. Entre 1982 e 1987, eles estiveram várias vezes em acampamentos ou aldeias, saindo rapidamente. Segundo os Zo’é, muitas pessoas ficavam doentes na sequência dessas visitas e, como demoravam meses para voltar, as pessoas acometidas por doenças pulmonares morriam. Eles também relatam que resolveram se deslocar rumo ao Sul, em busca de uma explicação para esse “sopro” de doenças e para pegar mais objetos, chegando finalmente à Base Esperança em outubro de 1987, data oficial do “contato” com a MNT. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
===Terçados, epidemia e mortes===&lt;br /&gt;
{{Lead |por '''Fábio Ribeiro'''}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As notícias trazidas sobre os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; que davam facões e machados logo se espalharam pelas aldeias e em pouco tempo muitos Zo’é foram atrás dos missionários. Como não havia ferramentas para todos, o clima logo ficou tenso. Os homens que não pegaram facões ficaram bravos, bateram nas paredes entraram e saquearam a casa dos missionários, na localidade de Kuruaty. Esses, com muito medo, foram embora. As doenças, no entanto, ficaram. É nesse período que tem início a epidemia que em poucos dias tirou a vida muitas outras pessoas zo’é. “&amp;lt;em&amp;gt;Kirahi rahy ate juke&amp;lt;/em&amp;gt;. Foi a doença dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; que matou”. O relato de Hun, um atual chefe Zo’é é claro ao afirmar que a epidemia teve início logo após o encontro de Tun e Dubehaj com os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; e que, apenas muito tempo depois, quando encontraram Sera’yt (em 1987), é que os missionários trouxeram injeções com remédios, mas não vacinas. Hun, ainda criança nessa época, foi duramente afetado: seu pai, sua mãe e alguns de seus irmãos morreram na maloca de Pirity. “Naquele tempo os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; foram embora mesmo. Depois os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; pensaram de novo, queriam ver os Zo’é de novo, aí os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; voltaram. Foi então nessa época que encontraram Sera’yt (...) e ficaram alegres. Naquela época os Zo’é tinham mandado embora, então os kirahi pensaram, aí abriram o caminho novamente. Passaram-se muitas luas naquele tempo, e aí os missionários voltaram.” – Adaptado de &amp;lt;em&amp;gt;Kampugerau: crônica de um movimento zo’é &amp;lt;/em&amp;gt;, 2024&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após essa notícia, a Funai criou o PINC Cuminapanema, subordinado à 4ª SUER/Funai em Belém (Portaria nº 1.061, de 22 de maio de 1987). No ano seguinte, o convênio 008/1998 celebrado entre a Funai e a MNT vedava sua atuação em áreas de indígenas isolados. Mas a Missão não se retirou e continuou seu trabalho junto aos Zo’é. Até que, em janeiro de 1989, a Missão alertou a Funai sobre a precária situação de saúde dos Zo’é. O sertanista Sidney Possuelo conseguiu apoio da imprensa e pôde assim realizar uma primeira visita à área. Numa segunda viagem, pouco tempo depois, a equipe da Funai verificou que a situação de saúde estava piorando e começou então a planejar um trabalho mais sistemático. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante mais de um ano, os Zo’é assistiram à convivência tensa entre as equipes da Funai e da Missão Novas Tribos, cada uma com sua base, entre as quais eles continuaram circulando para obter remédios e objetos industrializados. Quando conseguiu recursos e pessoal adequados para assumir um trabalho de assistência que abrangesse a totalidade das quatro aldeias existentes na época, a Funai retirou os missionários da área, em outubro de 1991. A partir desse momento, os sucessivos responsáveis pelo PINC Cuminapanema, orientados pelo então Departamento de Índios Isolados (DII), da Funai, passaram a desempenhar  ações de proteção do povo Zo’é e de sua terra, em formatos que variaram sensivelmente ao longo dos anos. Foi somente a partir de dezembro de 2009, com a reestruturação da Funai, que o órgão indigenista instituiu a  Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC), incluindo a proteção às populações de recente contato como os Zo’é. A Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema (FPEC) foi criada em 2011 (Portaria Nº 1816/PRES, de 30 de dezembro de 2011) e, desde então, segue novas diretrizes para a promoção da integridade cultural e territorial do povo Zo’é.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A regularização da TI Zo’é ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Reunião de chefes Zo’é, Leonardo Viana Braga, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/9/1_c969ffb8ac0685f/52691scr_f6158b8f1a3b002.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1987, a Funai procedeu à interdição da Área Indígena Cuminapanema/Urucuriana, com uma extensão de aproximadamente 2.059.700 hectares, ao sul do [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3885 Parque Indígena de Tumucumaque], nos municípios de Alenquer e Óbidos, Pará ([https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/ZED00005.pdf Portaria nº 4.098 de 30/12/1987]). A interdição visava dar condições de trabalho à equipe da Funai, para o reconhecimento de numerosas referências de indígenas  isolados levantadas pelo então DII. Na época, a Funai já conhecia a presença dos Zo’é, através de informações repassadas pela Missão Novas Tribos, que havia localizado este povo em 1982.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os trabalhos de identificação e delimitação da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3927 Terra Indígena Zo'é] aconteceram entre 1996 e 1998, com a participação ativa dos Zo’é e de vários técnicos e especialistas, em muitas etapas. A primeira, de estudos antropológicos, incluiu a preparação da comunidade para que os Zo’é pudessem acompanhar todos os procedimentos da regularização de seu território. A Portaria nº 309 de 04/04/1997 constituiu o Grupo de Trabalho cujo [https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/ZED00014.pdf relatório de identificação e delimitação] foi submetido à aprovação da Funai em novembro de 1998.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Zo'é trabalhando na construção de novas casas, Leonardo Viana Braga, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/9/0_eedce20393fa4de/52690scr_4bbc991f8b7ca54.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A demarcação física da Terra Indígena, com 668.565 hectares, foi realizada entre 1999 e 2000, por uma empresa contratada pela Funai. Contrariamente ao acordado com os Zo’é durante os trabalhos de identificação, eles não puderam acompanhar os trabalhos demarcatórios e foram mantidos alheios ao processo de regularização de seu território. Após a revisão de erros na delimitação do limite sul, a homologação e o registro no Serviço de Patrimônio da União (SPU), a demarcação da Terra Indígena foi finalmente  consagrada por decreto presidencial (s/n), publicado no Diário Oficial da União (DOU) em 22 de dezembro de 2009.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2008, a pedido do Ministério Público Federal, foi criada uma faixa de amortecimento em volta da Terra Indígena, a Zona Intangível das Florestas Estaduais (FES) [https://uc.socioambiental.org/pt-br/arp/4641 Trombetas] e [https://uc.socioambiental.org/pt-br/arp/4642 Paru]. Essa área não poderia receber nenhum tipo de exploração econômica para evitar a contaminação dos indígenas em situação de recente contato. Com a aprovação do Plano de Manejo da FES do Trombetas pelo Conselho Estadual de Meio Ambiente do Pará, a faixa foi incorporada no zoneamento da Unidade de Conservação. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Iniciativas dos Zo’é consolidam novos rumos ==&lt;br /&gt;
Durante vinte anos, a atuação do órgão indigenista se centrou em manter os Zo’é afastados das relações com os não indígenas e suas tecnologias, evitando também qualquer encontro com povos indígenas vizinhos. Mas em 2010, os Zo’é tomaram a iniciativa de romper a aliança que mantinham com a equipe da Frente de Proteção da Funai e saíram da terra demarcada para buscar mercadorias que lhes eram recusadas em seu território. Um grupo se dirigiu ao Norte, ao encontro dos Tiriyó no Rio Marapi, e outro se dirigiu aos Campos Gerais, além do limite Sul da Terra Indígena, onde trabalharam com coletores de castanha. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Voltaram trazendo espingardas velhas, redes de &amp;lt;em&amp;gt;nylon&amp;lt;/em&amp;gt;, roupas usadas e alguns gêneros alimentícios, além de várias pessoas doentes. A experiência rendeu importantes aprendizados no que toca aos modos de relação com seus vizinhos, indígenas e não indígenas, e resultou na revisão da política de proteção da TI Zo’é – até então fundada na manutenção de um rígido “isolamento” e na contenção de seus pedidos de acesso não só às mercadorias como a conhecimentos sobre o modo de vida dos não indígenas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi nesse contexto que o [https://institutoiepe.org.br/ Instituto Iepé] estabeleceu, em 2016, uma parceria com a nova gestão da Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema (FPEC), visando criar alternativas para que os Zo’é acessassem informações e experiências que lhes permitissem compreender e se posicionar frente aos interesses dos diferentes setores da sociedade brasileira. Buscou-se atender às demandas dos Zo’é, através de um conjunto de ações educativas e de apoio às suas próprias iniciativas de vigilância territorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Planejando o futuro e a proteção do território ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em novembro de 2019, os Zo'é pactuaram seu Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da TI Zo'é, onde definem suas prioridades para o futuro. “&amp;lt;em&amp;gt;Jo’e rekoha bokitute ram&amp;lt;/em&amp;gt; – Planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro” foi o título escolhido pelos Zo’é para esse plano de gestão, onde explicitam as diretrizes para a proteção de seu território e de seu modo de vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas atividades realizadas para a construção do PGTA, entre 2016 e 2019, confirmou-se a mudança de foco nos interesses dos Zo’é. Menos inquietos em garantir abastecimento de objetos dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;, estavam mobilizados para ampliar sua circulação pelo território, não só reconhecendo áreas ocupadas pelos antigos, como abrindo novos percursos para avaliar as reservas de caça e pesca e as possibilidades de abertura de novos assentamentos. No documento, os Zo’é afirmam: “Queremos que nossos filhos sigam ocupando vastamente o nosso território”, colocando o processo de dispersão de aldeias como um dos fundamentos do bem viver. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Foto: Transporte de canoa recém construída pelos Zo'é, Hugo Prudente, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/6_92ae3e7baf9ad67/52686scr_d2b118ef8ea028d.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa mobilidade promoveu novas incursões e a vigilância mais sistemática em áreas fartas em recursos, como os grandes castanhais no Sul e em outras porções do território. Uma das diretrizes do PGTA dedica especial atenção à vigilância dessa região, que foi invadida por castanheiros em 2018 e que, desde então, vem sendo ocupada por aldeias novas e acampamentos. Como escreveram os Zo’é no documento: “Nós, coletando essa castanha, invasores não virão mesmo. Aqui é nossa terra, a castanha está na nossa terra. Tem castanha na terra dos não índios, essa deve ser a castanha deles. Essa aqui é nossa castanha. Estamos falando duramente agora”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
“Fazer saber o nosso território” é uma afirmação e um objetivo a ser buscado, articulando ações de vigilância e de ocupação. Mobiliza concepções importantes da territorialidade zo’e, como o zelo pelos lugares habitados, a articulação entre os diversos grupos familiares na abertura de uma nova aldeia e o caráter regular das idas e vindas implicadas em uma iniciativa de expansão territorial. Nesse movimento, os grupos territoriais se reestruturam, mantendo suas diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
Confira aqui o [https://institutoiepe.org.br/2022/05/plano-de-gestao-territorial-e-ambiental-zoe/ PGTA &amp;lt;em&amp;gt;Jo’e Rekoha Bokituteha Ram&amp;lt;/em&amp;gt; – Planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro]!&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== População e proliferação de aldeias ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Distribuição de bebida ''sepy'' durante uma festa dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/7/4/6_cd584b0ad074849/52746scr_dcd3b057e91c8af.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A população Zo'é praticamente dobrou nos últimos trinta anos: eram 172 em 1998, à época da identificação da TI. Em 2011 eram 261 e hoje são 349 pessoas (Iepé, 2025). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Zo'é subdividem-se em dois grandes grupos, respectivamente situados ao Norte e ao Sul da Base da Funai, em que se distribuem os 19 grupos locais (&amp;lt;em&amp;gt;iwana&amp;lt;/em&amp;gt;), que circulam em determinadas áreas territoriais, onde estão suas aldeias antigas e recentes, além de acampamentos. Os &amp;lt;em&amp;gt;Iwana&amp;lt;/em&amp;gt; agregados de famílias extensas, atualmente em número de 31, que vivem em aldeias próximas, e cuja composição sofre constantes alterações em função das alianças matrimoniais e das parcerias estabelecidas para ocupar novas áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos últimos dez anos, ocorreu um processo de proliferação de aldeias muito significativo. Na época da instalação da Funai em 1991, eram apenas quatro; eram cinco em 1998, 12 em 2011 e hoje existem 62 aldeias. Configuram conjuntos de pequenas aldeias ocupadas de forma intermitente por famílias extensas que vivem em lugares próximos e circulam entre seus vários assentamentos, em função da fartura de recursos e dos cuidados das roças. Essa intensa mobilidade está relacionada ao apoio logístico que recebem tanto da FPE-Funai como do Iepé, com uma rede de radiofonia em praticamente todas as aldeias. Merece destaque o fato de que, nos últimos anos, os Zo’é têm optado por fabricar suas próprias canoas em madeira de aroeira, preferidas – por enquanto – às voadeiras de alumínio, não só difíceis de transportar até a TI, como exigindo manutenção custosa. Aprenderam a fabricar canoas num intercâmbio que levou especialistas do povo [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Waiwai Waiwai] para a TI Zo’é em 2017 e, desde então, cada família procura construir sua própria embarcação, na qual são instalados os motores rabeta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Estações e ritmos da vida ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Indígenas zo'é finalizando uma rede de fibra de castanheira, Flora Dias Cabalzar, 2016.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/5_7ed184682c27e1c/52685scr_a5f3ac836c6e409.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma das principais características do modo de vida dos Zo’é, até hoje, é a intensa mobilidade das famílias pelo território. Todos têm acesso aos recursos florestais sem esgotá-los, uma vez que as atividades de cultivo das roças, de caça, pesca e coleta são feitas em pequena escala, pelas diferentes famílias, em áreas distintas. É também nesses movimentos que os Zo’é atualizam o exímio conhecimento acumulado sobre seu território, constantemente percorrido através de uma intrincada rede de caminhos entre aldeias, capoeiras e locais de coleta de itens necessários no dia a dia, tanto para alimentação como para a fabricação de utensílios.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um modo de vida que garante aos Zo’é uma alimentação exclusivamente composta de sua produção agrícola, da caça, pescado e frutas. Também merece destaque o fato de os Zo’é não utilizarem espingardas, mas sim seus arcos, flechas e arpões, complementados com anzóis e linhas de pesca industrializadas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Homem zo'é cuidando de flechas, Dominique Tilkin Gallois, 2023.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/7_234521b7fa212cf/162427scr_wm_3c5190633e93dd0.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O caráter sazonal de alguns recursos dos quais os Zo’é se utilizam conforma a dinâmica de circulação das famílias pelo território e também repercute nos movimentos de aproximação e distanciamento entre essas famílias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É no tempo das chuvas, de fevereiro a julho, que acontecem os períodos mais prolongados de dispersão das famílias pelo território, quando são realizadas grandes caçadas, principalmente de macaco-aranha e de tucano. No início das chuvas, as famílias também se deslocam para a beira de igarapés e hoje também de rios maiores, aproveitando o volume das águas para caçar urubu-rei, usando peixes podres como iscas. Instalados nos acampamentos, os Zo’é retornam às aldeias para buscar farinha, preparada com antecedência e estocada nas casas; quando ela acaba, permanecem alguns dias para preparar mais farinha, beiju e tapioca.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O período ideal para a caça de ''kwata'' (macaco-aranha, coatá ou coamba) vai de março a maio, período denominado ''kwata ike'', quando estão gordos. Montam-se acampamentos específicos, de onde os homens saem para as serras, em busca dos macacos. No final desse período, em maio, tucanos, araras e papagaios já estão comendo frutas de palmeiras. É a estação chamada de ''token ike'', do “tucano gordo”, que dura cerca de um mês e meio, quando bandos numerosos de aves vêm comer patauá ou açaí, em locais de concentração de frutas. Já é no final da estação chuvosa e início da estação seca que os porcos queixadas e caititus estão gordos, motivando saídas frequentes de grupos de homens às trilhas das varas de porcos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Moça zo'é preparando leite de castanha, Dominique Tilkin Gallois, 2023.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/9_d567041deb9c12a/162429scr_wm_697db62eab28f2f.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre os recursos mais valorizados nesse calendário do tempo das chuvas, a castanha-do-Brasil é um alimento básico na dieta. Os Zo’é colhem os ouriços a partir de janeiro e consomem amêndoas em profusão durante toda a estação chuvosa; durante o verão, colhem ouriços ainda verdes e continuam comendo castanha o ano todo, em preparos diversos com produtos da mandioca ou carnes. Como é também nesse período que muitas frutas amadurecem, é comum interromperem o movimento de dispersão entre acampamentos para fazer festas, quando se distribui grande quantidade de bebida fermentada ''sepy''.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A estação seca, de final de julho até o início de janeiro, é marcada pelo trabalho nas roças. É quando a vida nas aldeias se intensifica, sendo um período de maior aproximação entre grupos familiares. Isso não significa que as famílias não mantenham, no verão, outras atividades que as leve a deixar a aldeia. Saem para buscar frutas da estação, como o açaí que é trazido em grandes cachos. Mas sobretudo saem para pescar com timbó, com anzóis, ou ainda com flecha ou zagaia. No verão, também acontecem expedições de caça, em geral mais curtas e só entre homens, já que as mulheres ficam nas aldeias cuidando das roças. Além disso, como muitas famílias mantêm cultivos em mais de uma aldeia, deslocam-se para dar conta de todas as roças. O corte, queima e limpeza das roças se prolonga até dezembro, meados de janeiro, quando a castanha está de novo madura, e os Zo’é limpam a roça da mandioca que brotou e fazem novo plantio. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Refeição familiar dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017.&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/9_9e70545c4b7fee0/52689scr_5d2f4b741f6cd92.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A mandioca é o principal cultivo, com uma variedade de produtos: farinha, beiju, tapioca, tucupi. As mulheres, inclusive com colaboração dos homens para ralar as raízes, dedicam muito de seu tempo ao processamento da mandioca: descascar, ralar, espremer no tipiti, peneirar, torrar farinha. Os Zo’é também cultivam pimenta, batata-doce, cará, banana, mamão, caju, goiaba, graviola, manga, urucum, algodão, cuia, cabaça, curauá e cana de flecha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade de vida dos Zo’é decorre, portanto, desse grande acervo de saberes e práticas do cotidiano, transmitidos e aperfeiçoados ao longo das gerações. Se, nas últimas décadas, os Zo’é se apropriaram seletivamente de alguns itens industrializados, continuam valorizando suas próprias tecnologias para fabricar os artefatos que utilizam cotidianamente.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Ler e escrever na própria língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Os Zo'e durante uma oficina de Letramento, Dominique Tilkin Gallois, 2023&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/6_07c4c88f97d55fe/162426scr_wm_9578fba3a29bfe7.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre as ações educativas construídas com os Zo’é para promover a discussão e pactuação do PGTA, destacam-se as atividades de letramento, iniciadas pelo Iepé em 2017. Tanto para a formulação adequada das medidas de proteção como, sobretudo, para a apropriação duradoura deste plano, era imprescindível que os próprios Zo’é pudessem redigir e atualizar as diretrizes de gestão de seu território. Trata-se de um programa não escolar de letramento, que é concebido não apenas como um meio de apropriação da leitura e escrita – por enquanto apenas na língua zo’é – e a iniciação à matemática, mas também como aproximação aos conceitos, à linguagem e às práticas relacionadas aos direitos assegurados aos povos indígenas pela [https://pib.socioambiental.org/pt/Constitui%C3%A7%C3%A3o Constituição brasileira de 1988]. É nesse sentido que as ações de letramento viabilizaram a criação da Tekohara, organização representativa do povo Zo’é, na consolidação de seu Fundo de Artesanato, o FAZ, e na construção de um [https://institutoiepe.org.br/2025/08/protocolo-de-consulta-e-consentimento-zoe/ protocolo de consulta e consentimento]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a pandemia de Covid-19, durante a qual todos os trabalhos com os Zo’é foram suspensos, consolidou-se uma turma de cerca de 40 jovens e adultos, depois separada em duas, correspondendo aos grupos do Norte e do Sul. Reúnem-se quatro vezes por ano nos Encontros de Letramento, realizados na “casa grande” da Base da Funai, em Kejã. Destacaram-se rapidamente oito jovens, que passaram a atuar como multiplicadores nas atividades de letramento, como tradutores e mais recentemente assumiram cargos na gestão da organização representativa, Tekohara. Além desses Encontros, oficinas específicas promovem a construção participativa de materiais didáticos, hoje já com mais de 20 títulos versando sobre os mais diversos temas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Todos os materiais produzidos procuram registrar as reflexões dos Zo’é sobre seu modo de vida, sobre as mudanças recentes que interferem nas formas de ocupação do território, sobre experiências novas de gestão advindas da consolidação de sua associação etc. Entre eles, destacam-se os cadernos da série ''Rekoha'', que sempre iniciam com a feitura de um mapa por um líder de grupo local, complementado por pequenos textos extraídos das conversas sobre suas iniciativas de abertura de caminhos, roças, acampamentos de caca e pesca, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra série de materiais traz resultados de uma pesquisa colaborativa sobre cantos, engajando jovens letrados e conhecedores mais idosos, que permitiu também introduzir o uso da informática, para a gestão de um acervo de cantos e de suas transcrições. Além disso, outros cadernos específicos apoiam a formação em gestão tanto da Tekohara como do Fundo de Artesanato Zo’é (FAZ). Mais recentemente, alguns cadernos trazem saberes das mulheres – que praticamente não participam das atividades de letramento – especialmente sobre o ciclo da castanha e sua culinária. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
=== Tekohara – Organização Zo’é ===&lt;br /&gt;
Após a pandemia de Covid-19, os Zo’é reativaram seu movimento de reorganização de relações com os não indígenas, inaugurado com a pactuação do PGTA, e criaram em 2022 uma organização representativa, denominada Tekohara. O nome ''Tekohara'' foi especialmente criado para a associação. Segundo os fundadores, a expressão inexiste na língua zo’é, porém remete à proteção do território, chamado em sua língua de – ''tekoha''. Constitui assim uma síntese do que consideram ser a atuação prioritária da organização, em consonância com todo o trabalho de gestão territorial que os Zo’é vêm conduzindo nos últimos anos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A assembleia de fundação reuniu praticamente toda a população zo’é, incluindo idosos e crianças. Desses, todos os maiores de 17 anos, totalizando 198 pessoas à época, se tornaram associados, que escolheram e aclamaram seus representantes para duas instâncias de gestão:  o Conselho de Chefes e a Diretoria. O primeiro é composto por ''sete iy'', principais líderes zo’é, reconhecidos pelos demais chefes de todos os subgrupos. Em 2025, a assembleia escolheu outros chefes para o conselho, hoje um total de 11, que também constituem o Conselho Fiscal da associação. A diretoria é constituída por cinco jovens letrados, que se consideram “ajudantes dos chefes” e atuam diretamente nas instâncias que exigem a leitura e escrita de documentos, a convocação e mediação de reuniões, a gestão de recursos, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2024, os chefes do conselho e os jovens da diretoria, além de outros adultos interessados, construíram o protocolo de consulta e consentimento, ao longo de cinco oficinas e de várias reuniões de apresentação e aprovação do documento, publicado em duas línguas, em 2025. Afirmam, neste protocolo: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
“Temos nos reunido regularmente para conversar e com isso nossa associação está firme, porque discutimos todos os assuntos importantes. Como consolidamos nosso próprio jeito de fazer reuniões e tomar decisões, temos clareza sobre como devemos nos posicionar sobre quem pode e quem não pode entrar em nosso território (...) É porque mantemos um mesmo entendimento sobre a proteção de nosso território que as decisões não são difíceis. É assim que alcançamos consenso entre nós todos”. – Protocolo de consulta e consentimento Zo’é (2025, pp. 14-21)&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/3_8ec6e605f080da0/162433scr_wm_6306ea1916b3650.jpg| Lideranças zo'é durante uma reunião da Tekohara, Kamikia Kisedje, 2024}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A gestão coletiva de um Fundo de Artesanato ==&lt;br /&gt;
Desde a instalação da Funai na Terra Indígena, em 1991, os Zo’é têm produzido artesanato para troca com visitantes, ainda que de modo episódico, obtendo assim diversos utensílios que foram, desde então, incorporados ao seu modo de vida. Naquele período, o Posto de Atração distribuía uma ou duas vezes por ano ferramentas, material de pesca, lanternas e pilhas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Os Zo'e durante a etiquetagem de peças comercializadas por meio do Fundo de Artesanato, Kamikia Kisedje, 2024&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/5_22188c531215eb0/162425scr_wm_ee3a42b7ee661ff.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já a partir de 2011, a CGIIRC-Funai passou a rever sua política de proteção, garantindo aos indígenas em situação de recém-contato novas experiências e formas de participação. Foi nesse contexto que o Fundo de Artesanato Zo’é (FAZ), foi criado em 2012, pela Frente Cuminapanema (FPEC). Tratava-se de ampliar as possibilidades de troca e assegurar maior autonomia no abastecimento de itens industrializados demandados pelos Zo’é. Sobretudo se buscou passar de um sistema de doação para um mecanismo coletivo de permutas, assegurando a distribuição de itens industrializados previamente selecionados para todas as famílias, que por sua vez entregam lotes de peças que correspondem aproximadamente ao valor dos objetos adquiridos pelo Fundo. Durante dez anos, o FAZ se consolidou sob gestão da equipe da Funai, mas desde 2022, é gerido diretamente pelos Zo’é, por meio da associação Tekohara, ainda que com algum apoio dos parceiros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O FAZ consiste num sistema de trocas que envolve todas as famílias zo’é, atendendo suas demandas por objetos industrializados. Nos últimos anos, acordou-se com os parceiros que itens como material de pesca, ferramentas, entre outros, são adquiridos através de projetos do Iepé, desonerando assim o FAZ. A lista do que deve ser comprado é aberta, mas inclui cerca de 20 itens, todos eles incorporados ao modo de vida dos Zo’é há várias décadas. A lista envolve itens de uso pessoal, como sandálias, espelhos, linhas para tipoias, sabão, panelas, tigelas, além de alguns itens necessários às atividades produtivas do cotidiano, como isqueiros, sacos para armazenar farinha e eventualmente ferramentas que não podem ser adquiridas através dos projetos dos parceiros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Tebo Zo'é segurando cumaru, Kamikia Kisedje, 2024&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/1_1085df758a31880/162431scr_wm_04d1d66a3aa490a.jpg }}&lt;br /&gt;
  &lt;br /&gt;
As famílias entregam peças de artesanato e recebem itens prévia e cuidadosamente selecionados em reuniões com os chefes de todas as aldeias. Ou seja, a um certo conjunto de artesanato vendido corresponde um certo número de itens industrializados adquiridos com o recurso da comercialização das peças. Seguindo a expressa preferência dos Zo’é, os itens são sempre comprados na quantidade que atenderá rigorosamente todas as famílias. As entregas são realizadas três a quatro vezes por ano, com itens que são escolhidos em reuniões trimestrais, para atender às necessidades do momento. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os artefatos comercializados pelo FAZ são os mesmos utilizados no cotidiano dos Zo’é e incluem trançados, recipientes em cerâmica, colheres, pentes, brincos e pulseiras. Tal seleção, entre os muitos itens da cultura material zo’é, obedece a critérios de sustentabilidade. A legislação vigente não permite a venda de plumária ou de flechas com ponta de osso, ou qualquer objeto fabricado com partes de animais. Arcos de madeira e redes feitas de fibras de castanheira tampouco são vendidos, para garantir aos Zo’é exclusividade no acesso a esses materiais essenciais em seu modo de vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar dessas restrições, os resultados do FAZ são muito promissores, não apenas por incentivar a continuidade dos saberes e práticas artesanais dos Zo’é, como por viabilizar a formação em gestão dos jovens e dos chefes. Ao se apropriar deste Fundo, os Zo’é souberam declarar e garantir critérios próprios na distribuição adequada dos bens adquiridos, em acordo com seus valores e considerações quanto às diferenças de gênero, idade e processos de aprendizagem, bem como à isonomia entre os grupos locais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além da venda de artesanato, a Tekohara também realiza a  venda de sementes de cumaru, coletadas pelas famílias envolvidas no FAZ. Desde 2019, o Fundo se beneficia ainda com a venda exclusiva dos livros da série Saberes Zo’é, atualmente com três títulos: [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Potuwa.pdf ''Potuwa pora kõ'' – O que se guarda no ''potuwa''] (2019); [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2021/07/Eremiu-rupa.-Abrindo-rocas_Trecho.pdf ''Eremi’u rupa'' – Abrindo roças] (2021) e [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Canoa-Zoe.pdf ''Ihara rape rupi'' – Pelo caminho da canoa] (2023).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/4_f91f5d08e62cbad/162424scr_wm_0c86653fd01dc21.jpg| Distribuição de sabão adquirido com recursos do FAZ, Dominique Tilkin Gallois, 2025}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;CABRAL, Ana Suely.Uma escrita para a Língua Zo'é. Brasília: Lalli/Unb/Funai, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin. De arredio a isolado : perspectivas de autonomia para os povos indígenas isolados. In: GRUPIONI, Luís Donisete Benzi (Org.). Índios no Brasil. São Paulo : Secretaria Municipal de Cultura, 1992. p. 121-34.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Essa incansável tradução : entrevista. Sexta Feira: Antropologia, Artes e Humanidades, São Paulo : Pletora, n. 6, p. 103-21, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Tupi do Cuminapanema : eles se chamam Zo'É. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1991/1995. São Paulo : Instituto Socioambiental, 1996. p. 280-7.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Zo'é. In: ASSIS, Rogério. São Paulo: Terceiro Nome, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Sobre alguns modos zo’e de fazer coletivos e lideranças”. In: FAJARDO GRUPIONI, D.; Andrade, L. M. M. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; GRUPIONI, Luís Donisete Benzi. O índio na Missão Novas Tribos. In: WRIGHT, Robin (Org.). Transformando os Deuses : os múltiplos sentidos da conversão entre os povos indígenas no Brasil. Campinas : Unicamp, 1999. p. 77-130.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
GALLOIS, Dominique Tilkin; BRAGA, Leonardo Viana; PEDREIRA, H. P. S. 2020 Construindo o Plano de Gestão Territorial e Ambiental com os Zo’é. In: Luis Donizete Benzi Grupioni (org.). Em busca do bem viver: Experiências de elaboração de Planos de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas. São Paulo: Rede de Cooperação Amazônica, 1. ed., v. 1.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. A redescoberta dos amáveis selvagens. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1987/88/89/90. São Paulo : Cedi, 1991. p. 209-14. (Aconteceu Especial, 18)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; HAVT, Nadja. Relatório de identificação da Terra Indígena Zo'é : Portaria 309/PRES/Funai - 04.04.97. São Paulo : Funai, 1998.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;HAVT, Nadja. De algumas questões sobre a participação de “índios isolados” no processo de regularização fundiária : o exemplo dos Zo’É. In: GRAMKOW, Márcia Maria (Org.). Demarcando terras indígenas II : experiências e desafios de um projeto de parceria. Brasília : Funai/PPTAL/GTZ, 2002. p. 85-94.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Representações do Ambiente e da Territorialidade entre os Zo’é/PA. Dissertação de Mestrado. FFLCH/USP, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;Iepé &amp;amp; FPEC/Funai. Jo’e bokitute ram: planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro. Plano de Gestão Territorial e Ambiental da TI Zo’é. São Paulo: Iepé, 2019.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
BRAGA, Leonardo Viana. Micropeças sobre gênero e caçada junto aos Zo’é. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas:&lt;br /&gt;
índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. ''Pani'em'': um esboço sobre os modos de saber entre os Zo'é. Dissertação de mestrado. FFLCH/USP, 2017.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Eremi'u rupa. Abrindo roças. 1. ed. São Paulo: Série Saberes Zo'é - Iepé, FPEC/Funai &amp;amp; Fundo de Artesanato Zo'é (FAZ), 2021. v. 2. 189p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
BRAGA, Leonardo Viana; PEDREIRA, Hugo Prudente S.; CABALZAR, Flora Dias. 2020. 'Fazer saber a própria terra'. In: Nelson Russo de Moraes; Leila Adriana Baptaglin; Lamounier Erthal Vilella; Alexandre de Castro Campos; Raoni Fernandes Azerêdo. (Org.). Povos Originários e Comunidades Tradicionais: trabalhos de pesquisa e de extensão universitária – volume 4, 1ed.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; &lt;br /&gt;
PEDREIRA, Hugo Prudente da Silva. ''Potuwa pora kõ'' - o que se guarda no ''potuwa. 1''. ed. São Paulo: Instituto de Pesquisa e Formação Indígena - Iepé, 2019. v. 1. 148p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; RIBEIRO, Fabio N. “Os Zo’é e as metamorfoses do fundamentalismo evangélico”. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Encontros Zo’é nas Guianas. Tese de doutorado. FFLCH/USP, 2019.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. ''Ihara Rape Rupi'': pelo caminho da canoa. 1. ed. São Paulo: Iepé - Instituto de Pesquisa e Formação Indígena, 2023. v. 1. 132p .&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Zo'é}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Dominique T. Gallois}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
{{#set:Capa=162430scr_wm_9d03db1dcc7a9e9.jpg}}&lt;br /&gt;
{{#set:Counter=61505}}&lt;br /&gt;
{{#set:Crédito capa=Kamikia Kisedje, 2024}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=1997-01-01}}&lt;br /&gt;
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{{#set:Povo Id=321}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas no Pará]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8518</id>
		<title>Povo:Zo'é</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8518"/>
		<updated>2025-10-20T17:32:43Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Vivem numa área de densas florestas, entre os rios Cuminapanema e Erepecuru, no Norte do Pará. Os Zo’é convivem com agentes de assistência há quase quatro décadas, mantendo vigorosamente suas formas de organização social e territorial. Este povo em situação de recente contato vem se mobilizando para implementar o PGTA da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3927 TI Zo'é] e seu protocolo de consulta. Através da sua organização representativa, a Tekohara, fortalecem a gestão de um Fundo de Artesanato, um mecanismo original de trocas coletivas.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
Conheça mais sobre esse povo no documentário &amp;lt;em&amp;gt;Zo’é rekoha – modo de vida zo’é&amp;lt;/em&amp;gt;. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;htmltag tagname=&amp;quot;iframe&amp;quot; src=&amp;quot;https://www.youtube.com/watch?v=ADG2M06cEBQ&amp;quot; width=&amp;quot;100%&amp;quot; height=&amp;quot;394&amp;quot; allow=&amp;quot;autoplay&amp;quot;&amp;gt; Video Iframe &amp;lt;/htmltag&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nome e língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Os Zo'é durante uma oficina de Letramento, Dominique Gallois, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/4_f54a65283e04d93/52684scr_8d884e9b4241947.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pronome &amp;lt;em&amp;gt;jo’é&amp;lt;/em&amp;gt; [zo’é], “nós mesmos”, se consolidou como uma autodenominação que diferencia este povo dos não indígenas, chamados &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;. Já outros povos indígenas são chamados de “&amp;lt;em&amp;gt;amõ jo’é&amp;lt;/em&amp;gt;” (outros, como nós). No final dos anos 1980, quando começaram a conviver com missionários e com servidores da Funai, esse termo não era usado para designar a eles mesmos, mas para identificar qualquer pessoa que adquirisse alguma proximidade e que passasse, então, a ser considerada “gente como nós”. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os termos &amp;lt;em&amp;gt;Poturu&amp;lt;/em&amp;gt;, ou &amp;lt;em&amp;gt;Poturujara&amp;lt;/em&amp;gt;, difundidos inicialmente por agentes da Funai como denominação do povo recém-contatado na região do Cuminapanema, designam tão somente a madeira da árvore utilizada para confeccionar os adornos labiais &amp;lt;em&amp;gt;embe’pot&amp;lt;/em&amp;gt;. “&amp;lt;em&amp;gt;Poturu!&amp;lt;/em&amp;gt;” respondiam os Zo’é, quando alguém apontava para seus rostos, buscando saber seu nome.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Zo’é são falantes de uma língua Tupi-Guarani, do tronco Tupi. A maior parte da comunidade é monolíngue, com exceção de alguns chefes e de uma dezena de jovens, que aprenderam a se comunicar em português e estão adquirindo rapidamente maior fluência, no âmbito de suas funções de gestão da &amp;lt;strong&amp;gt;Tekohara – Organização Zo’é&amp;lt;/strong&amp;gt;. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Experiências de contato e de convivência com ''kirahi'' ==&lt;br /&gt;
A área onde vivem os Zo’é situa-se em território histórico de povos de língua Karib, que ocupam as terras firmes do planalto das Guianas. Seus vizinhos mais próximos são os [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Tiriy%C3%B3 Tiriyó], ao Norte; os [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Aparai Aparai] e [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Wayana Wayana], a Leste; os quilombolas e castanheiros não indígenas ao Sul. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As fontes disponíveis sobre a região Norte do Pará não trazem informações suficientes para acompanhar a trajetória da migração dos Zo’é até seu &amp;lt;em&amp;gt;habitat&amp;lt;/em&amp;gt; atual, mas é certo que este povo tem sua origem ao sul. Essa é a direção que eles indicam quando são indagados sobre sua procedência antiga, embora a localização das aldeias de antepassados longínquos não seja assunto de grande interesse.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/0_2410c1af65bd0e1/162430scr_wm_9d03db1dcc7a9e9.jpg|Terra Indígena Zo'é, Kamikia Kisedje, 2024}}&lt;br /&gt;
Como ocorre na tradição oral das sociedades indígenas que mantêm contatos antigos com a população regional, a presença de não indígenas acaba sendo integrada ao tempo mítico. Os Zo’é não questionam nem a origem, nem os movimentos dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;, ou dos povos inimigos: todos eles, simplesmente, sempre existiriam. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diz-se, inclusive, que quando &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt; recriou a humanidade, não precisou refazer os não indígenas, que não haviam sido engolidos pelo dilúvio: eles já existiam, mas estavam longe, “na borda da terra”. Elementos históricos são agregados ao mito, associando o evento da recriação a contatos interétnicos. O fogo que destruiu a terra foi provocado por inimigos, habitantes do Leste; para alcançar as ossadas dos humanos destruídos pelo dilúvio, o herói vem do Sul, flutuando em um recipiente típico dos não indígenas: um corote de gasolina. Depois, cada um volta a ocupar seu espaço: os não indígenas ficam no Sul; os Zo’é nas serras, longe dos rios; os inimigos a Leste.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/Jipohan_%C3%A9_gente_como_voc%C3%AA “Jipohan é gente como você”, por Jurusi uhu, Pa'hi e Tatitu Zo'é]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/763735-2/DSC_3332_edit.JPG|Jurusi uhu Zo'é. Foto: Dominique Tilkin Gallois&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Era comum, nos anos 1990, os Zo’é perguntarem aos visitantes: “Vocês viram onde está &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt;, aquele herói que revitalizou seus ancestrais juntando ossos dos flagelados pelo último cataclismo?” Os Zo’é consideravam &amp;lt;em&amp;gt;Jipohan&amp;lt;/em&amp;gt; como um &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;. Após sua façanha de recriação, ele voltou para sua terra de origem, no Sul. É descrito usando roupas, escrevendo, usando canoa com motor, gravador, injeções e ferramentas diversas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como é comum na elipse temporal que o mito efetua, os Zo’é atualizam suas tradições com ingredientes extraídos de sua experiência do passado e de suas expectativas de futuro. Razão pela qual, na morada celeste dos mortos, os ex-Zo’é têm acesso irrestrito à mercadorias, inclusive espingardas, que lhes são fornecidas por alguns ex-&amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; generosos – como foi um servidor da Funai, Isidoro, que segue lhes trazendo mercadorias desejadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como ocorreu em muitos lugares, os eventos do contato dos Zo’é com missionários e depois com servidores da Funai envolveu diretamente a questão do acesso às mercadorias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Luis Donisete B. Grupioni/1989&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281189-1/zoe_7.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os então chamados “Índios do Cuminapanema” foram apresentados ao mundo em 1989, em reportagens que enfatizavam sua “pureza” e “fragilidade” e os descreviam como um dos últimos povos “intactos” na Amazônia. E justamente por serem um dos raros grupos ainda “não atingidos” nem pela mensagem evangélica, nem pela assistência oficial, os Zo’é atraíram a atenção da Missão Novas Tribos (MNT), que iniciou seu trabalho na região em 1982. Foram necessários cinco anos de sucessivas aproximações e recuos para “pacificar” os Zo’é – até que em 1987 os missionários  instalaram a Base Esperança na porção sul da atual TI Zo’é. Ali, passaram a controlar sozinhos o processo de acomodação dos Zo’é à nova situação, até a Funai assumir a área em 1991.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, os Zo’é já tinham experiências de encontro com não indígenas desde muito tempo. Relatam inclusive a saída de uma mulher que viajou até Santarém, de onde acabou voltando, provavelmente no final do século XIX.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
No final dos anos 1960, o território zo’é passou a ser percorrido por caçadores de felinos, conhecidos como “gateiros”. Nesse período, os Zo’é encontravam em suas trilhas, gaiolas, ferramentas abandonadas, restos de acampamentos. Também encontravam vestígios de coletores de castanha. Eram contatos indiretos, ou, como dizem os Zo’é, “sem carne/sem corpo”, pois não viam os forasteiros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Dominique Gallois, 1991&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281182-1/zoe_4.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1975, eles foram surpreendidos por visitas mais espetaculares, quando um helicóptero do Instituto de Estudos e Pesquisas do Pará despejou embrulhos com roupas e objetos sobre a aldeia Kejã. Foi também com presentes lançados do céu, ou dependurados no caminho das aldeias, que os membros da Missão Novas Tribos se aproximaram. Entre 1982 e 1987, eles estiveram várias vezes em acampamentos ou aldeias, saindo rapidamente. Segundo os Zo’é, muitas pessoas ficavam doentes na sequência dessas visitas e, como demoravam meses para voltar, as pessoas acometidas por doenças pulmonares morriam. Eles também relatam que resolveram se deslocar rumo ao Sul, em busca de uma explicação para esse “sopro” de doenças e para pegar mais objetos, chegando finalmente à Base Esperança em outubro de 1987, data oficial do “contato” com a MNT. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
===Terçados, epidemia e mortes===&lt;br /&gt;
{{Lead |por '''Fábio Ribeiro'''}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As notícias trazidas sobre os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; que davam facões e machados logo se espalharam pelas aldeias e em pouco tempo muitos Zo’é foram atrás dos missionários. Como não havia ferramentas para todos, o clima logo ficou tenso. Os homens que não pegaram facões ficaram bravos, bateram nas paredes entraram e saquearam a casa dos missionários, na localidade de Kuruaty. Esses, com muito medo, foram embora. As doenças, no entanto, ficaram. É nesse período que tem início a epidemia que em poucos dias tirou a vida muitas outras pessoas zo’é. “&amp;lt;em&amp;gt;Kirahi rahy ate juke&amp;lt;/em&amp;gt;. Foi a doença dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; que matou”. O relato de Hun, um atual chefe Zo’é é claro ao afirmar que a epidemia teve início logo após o encontro de Tun e Dubehaj com os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; e que, apenas muito tempo depois, quando encontraram Sera’yt (em 1987), é que os missionários trouxeram injeções com remédios, mas não vacinas. Hun, ainda criança nessa época, foi duramente afetado: seu pai, sua mãe e alguns de seus irmãos morreram na maloca de Pirity. “Naquele tempo os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; foram embora mesmo. Depois os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; pensaram de novo, queriam ver os Zo’é de novo, aí os &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt; voltaram. Foi então nessa época que encontraram Sera’yt (...) e ficaram alegres. Naquela época os Zo’é tinham mandado embora, então os kirahi pensaram, aí abriram o caminho novamente. Passaram-se muitas luas naquele tempo, e aí os missionários voltaram.” – Adaptado de &amp;lt;em&amp;gt;Kampugerau: crônica de um movimento zo’é &amp;lt;/em&amp;gt;, 2024&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após essa notícia, a Funai criou o PINC Cuminapanema, subordinado à 4ª SUER/Funai em Belém (Portaria nº 1.061, de 22 de maio de 1987). No ano seguinte, o convênio 008/1998 celebrado entre a Funai e a MNT vedava sua atuação em áreas de indígenas isolados. Mas a Missão não se retirou e continuou seu trabalho junto aos Zo’é. Até que, em janeiro de 1989, a Missão alertou a Funai sobre a precária situação de saúde dos Zo’é. O sertanista Sidney Possuelo conseguiu apoio da imprensa e pôde assim realizar uma primeira visita à área. Numa segunda viagem, pouco tempo depois, a equipe da Funai verificou que a situação de saúde estava piorando e começou então a planejar um trabalho mais sistemático. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante mais de um ano, os Zo’é assistiram à convivência tensa entre as equipes da Funai e da Missão Novas Tribos, cada uma com sua base, entre as quais eles continuaram circulando para obter remédios e objetos industrializados. Quando conseguiu recursos e pessoal adequados para assumir um trabalho de assistência que abrangesse a totalidade das quatro aldeias existentes na época, a Funai retirou os missionários da área, em outubro de 1991. A partir desse momento, os sucessivos responsáveis pelo PINC Cuminapanema, orientados pelo então Departamento de Índios Isolados (DII), da Funai, passaram a desempenhar  ações de proteção do povo Zo’é e de sua terra, em formatos que variaram sensivelmente ao longo dos anos. Foi somente a partir de dezembro de 2009, com a reestruturação da Funai, que o órgão indigenista instituiu a  Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC), incluindo a proteção às populações de recente contato como os Zo’é. A Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema (FPEC) foi criada em 2011 (Portaria Nº 1816/PRES, de 30 de dezembro de 2011) e, desde então, segue novas diretrizes para a promoção da integridade cultural e territorial do povo Zo’é.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A regularização da TI Zo’é ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Reunião de chefes Zo’é, Leonardo Viana Braga, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/9/1_c969ffb8ac0685f/52691scr_f6158b8f1a3b002.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1987, a Funai procedeu à interdição da Área Indígena Cuminapanema/Urucuriana, com uma extensão de aproximadamente 2.059.700 hectares, ao sul do [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3885 Parque Indígena de Tumucumaque], nos municípios de Alenquer e Óbidos, Pará ([https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/ZED00005.pdf Portaria nº 4.098 de 30/12/1987]). A interdição visava dar condições de trabalho à equipe da Funai, para o reconhecimento de numerosas referências de indígenas  isolados levantadas pelo então DII. Na época, a Funai já conhecia a presença dos Zo’é, através de informações repassadas pela Missão Novas Tribos, que havia localizado este povo em 1982.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os trabalhos de identificação e delimitação da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3927 Terra Indígena Zo'é] aconteceram entre 1996 e 1998, com a participação ativa dos Zo’é e de vários técnicos e especialistas, em muitas etapas. A primeira, de estudos antropológicos, incluiu a preparação da comunidade para que os Zo’é pudessem acompanhar todos os procedimentos da regularização de seu território. A Portaria nº 309 de 04/04/1997 constituiu o Grupo de Trabalho cujo [https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/ZED00014.pdf relatório de identificação e delimitação] foi submetido à aprovação da Funai em novembro de 1998.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Zo'é trabalhando na construção de novas casas, Leonardo Viana Braga, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/9/0_eedce20393fa4de/52690scr_4bbc991f8b7ca54.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A demarcação física da Terra Indígena, com 668.565 hectares, foi realizada entre 1999 e 2000, por uma empresa contratada pela Funai. Contrariamente ao acordado com os Zo’é durante os trabalhos de identificação, eles não puderam acompanhar os trabalhos demarcatórios e foram mantidos alheios ao processo de regularização de seu território. Após a revisão de erros na delimitação do limite sul, a homologação e o registro no Serviço de Patrimônio da União (SPU), a demarcação da Terra Indígena foi finalmente  consagrada por decreto presidencial (s/n), publicado no Diário Oficial da União (DOU) em 22 de dezembro de 2009.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2008, a pedido do Ministério Público Federal, foi criada uma faixa de amortecimento em volta da Terra Indígena, a Zona Intangível das Florestas Estaduais (FES) [https://uc.socioambiental.org/pt-br/arp/4641 Trombetas] e [https://uc.socioambiental.org/pt-br/arp/4642 Paru]. Essa área não poderia receber nenhum tipo de exploração econômica para evitar a contaminação dos indígenas em situação de recente contato. Com a aprovação do Plano de Manejo da FES do Trombetas pelo Conselho Estadual de Meio Ambiente do Pará, a faixa foi incorporada no zoneamento da Unidade de Conservação. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Iniciativas dos Zo’é consolidam novos rumos ==&lt;br /&gt;
Durante vinte anos, a atuação do órgão indigenista se centrou em manter os Zo’é afastados das relações com os não indígenas e suas tecnologias, evitando também qualquer encontro com povos indígenas vizinhos. Mas em 2010, os Zo’é tomaram a iniciativa de romper a aliança que mantinham com a equipe da Frente de Proteção da Funai e saíram da terra demarcada para buscar mercadorias que lhes eram recusadas em seu território. Um grupo se dirigiu ao Norte, ao encontro dos Tiriyó no Rio Marapi, e outro se dirigiu aos Campos Gerais, além do limite Sul da Terra Indígena, onde trabalharam com coletores de castanha. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Voltaram trazendo espingardas velhas, redes de &amp;lt;em&amp;gt;nylon&amp;lt;/em&amp;gt;, roupas usadas e alguns gêneros alimentícios, além de várias pessoas doentes. A experiência rendeu importantes aprendizados no que toca aos modos de relação com seus vizinhos, indígenas e não indígenas, e resultou na revisão da política de proteção da TI Zo’é – até então fundada na manutenção de um rígido “isolamento” e na contenção de seus pedidos de acesso não só às mercadorias como a conhecimentos sobre o modo de vida dos não indígenas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi nesse contexto que o [https://institutoiepe.org.br/ Instituto Iepé] estabeleceu, em 2016, uma parceria com a nova gestão da Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema (FPEC), visando criar alternativas para que os Zo’é acessassem informações e experiências que lhes permitissem compreender e se posicionar frente aos interesses dos diferentes setores da sociedade brasileira. Buscou-se atender às demandas dos Zo’é, através de um conjunto de ações educativas e de apoio às suas próprias iniciativas de vigilância territorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Planejando o futuro e a proteção do território ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em novembro de 2019, os Zo'é pactuaram seu Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da TI Zo'é, onde definem suas prioridades para o futuro. “&amp;lt;em&amp;gt;Jo’e rekoha bokitute ram&amp;lt;/em&amp;gt; – Planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro” foi o título escolhido pelos Zo’é para esse plano de gestão, onde explicitam as diretrizes para a proteção de seu território e de seu modo de vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas atividades realizadas para a construção do PGTA, entre 2016 e 2019, confirmou-se a mudança de foco nos interesses dos Zo’é. Menos inquietos em garantir abastecimento de objetos dos &amp;lt;em&amp;gt;kirahi&amp;lt;/em&amp;gt;, estavam mobilizados para ampliar sua circulação pelo território, não só reconhecendo áreas ocupadas pelos antigos, como abrindo novos percursos para avaliar as reservas de caça e pesca e as possibilidades de abertura de novos assentamentos. No documento, os Zo’é afirmam: “Queremos que nossos filhos sigam ocupando vastamente o nosso território”, colocando o processo de dispersão de aldeias como um dos fundamentos do bem viver. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Foto: Transporte de canoa recém construída pelos Zo'é, Hugo Prudente, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/6_92ae3e7baf9ad67/52686scr_d2b118ef8ea028d.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa mobilidade promoveu novas incursões e a vigilância mais sistemática em áreas fartas em recursos, como os grandes castanhais no Sul e em outras porções do território. Uma das diretrizes do PGTA dedica especial atenção à vigilância dessa região, que foi invadida por castanheiros em 2018 e que, desde então, vem sendo ocupada por aldeias novas e acampamentos. Como escreveram os Zo’é no documento: “Nós, coletando essa castanha, invasores não virão mesmo. Aqui é nossa terra, a castanha está na nossa terra. Tem castanha na terra dos não índios, essa deve ser a castanha deles. Essa aqui é nossa castanha. Estamos falando duramente agora”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
“Fazer saber o nosso território” é uma afirmação e um objetivo a ser buscado, articulando ações de vigilância e de ocupação. Mobiliza concepções importantes da territorialidade zo’e, como o zelo pelos lugares habitados, a articulação entre os diversos grupos familiares na abertura de uma nova aldeia e o caráter regular das idas e vindas implicadas em uma iniciativa de expansão territorial. Nesse movimento, os grupos territoriais se reestruturam, mantendo suas diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
Confira aqui o [https://institutoiepe.org.br/2022/05/plano-de-gestao-territorial-e-ambiental-zoe/ PGTA &amp;lt;em&amp;gt;Jo’e Rekoha Bokituteha Ram&amp;lt;/em&amp;gt; – Planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro]!&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== População e proliferação de aldeias ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Distribuição de bebida ''sepy'' durante uma festa dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/7/4/6_cd584b0ad074849/52746scr_dcd3b057e91c8af.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A população Zo'é praticamente dobrou nos últimos trinta anos: eram 172 em 1998, à época da identificação da TI. Em 2011 eram 261 e hoje são 349 pessoas (Iepé, 2025). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Zo'é subdividem-se em dois grandes grupos, respectivamente situados ao Norte e ao Sul da Base da Funai, em que se distribuem os 19 grupos locais (&amp;lt;em&amp;gt;iwana&amp;lt;/em&amp;gt;), que circulam em determinadas áreas territoriais, onde estão suas aldeias antigas e recentes, além de acampamentos. Os &amp;lt;em&amp;gt;Iwana&amp;lt;/em&amp;gt; agregados de famílias extensas, atualmente em número de 31, que vivem em aldeias próximas, e cuja composição sofre constantes alterações em função das alianças matrimoniais e das parcerias estabelecidas para ocupar novas áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos últimos dez anos, ocorreu um processo de proliferação de aldeias muito significativo. Na época da instalação da Funai em 1991, eram apenas quatro; eram cinco em 1998, 12 em 2011 e hoje existem 62 aldeias. Configuram conjuntos de pequenas aldeias ocupadas de forma intermitente por famílias extensas que vivem em lugares próximos e circulam entre seus vários assentamentos, em função da fartura de recursos e dos cuidados das roças. Essa intensa mobilidade está relacionada ao apoio logístico que recebem tanto da FPE-Funai como do Iepé, com uma rede de radiofonia em praticamente todas as aldeias. Merece destaque o fato de que, nos últimos anos, os Zo’é têm optado por fabricar suas próprias canoas em madeira de aroeira, preferidas – por enquanto – às voadeiras de alumínio, não só difíceis de transportar até a TI, como exigindo manutenção custosa. Aprenderam a fabricar canoas num intercâmbio que levou especialistas do povo [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Waiwai Waiwai] para a TI Zo’é em 2017 e, desde então, cada família procura construir sua própria embarcação, na qual são instalados os motores rabeta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Estações e ritmos da vida ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Indígenas zo'é finalizando uma rede de fibra de castanheira, Flora Dias Cabalzar, 2016.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/5_7ed184682c27e1c/52685scr_a5f3ac836c6e409.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma das principais características do modo de vida dos Zo’é, até hoje, é a intensa mobilidade das famílias pelo território. Todos têm acesso aos recursos florestais sem esgotá-los, uma vez que as atividades de cultivo das roças, de caça, pesca e coleta são feitas em pequena escala, pelas diferentes famílias, em áreas distintas. É também nesses movimentos que os Zo’é atualizam o exímio conhecimento acumulado sobre seu território, constantemente percorrido através de uma intrincada rede de caminhos entre aldeias, capoeiras e locais de coleta de itens necessários no dia a dia, tanto para alimentação como para a fabricação de utensílios.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um modo de vida que garante aos Zo’é uma alimentação exclusivamente composta de sua produção agrícola, da caça, pescado e frutas. Também merece destaque o fato de os Zo’é não utilizarem espingardas, mas sim seus arcos, flechas e arpões, complementados com anzóis e linhas de pesca industrializadas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Homem zo'é cuidando de flechas, Dominique Tilkin Gallois, 2023.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/7_234521b7fa212cf/162427scr_wm_3c5190633e93dd0.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O caráter sazonal de alguns recursos dos quais os Zo’é se utilizam conforma a dinâmica de circulação das famílias pelo território e também repercute nos movimentos de aproximação e distanciamento entre essas famílias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É no tempo das chuvas, de fevereiro a julho, que acontecem os períodos mais prolongados de dispersão das famílias pelo território, quando são realizadas grandes caçadas, principalmente de macaco-aranha e de tucano. No início das chuvas, as famílias também se deslocam para a beira de igarapés e hoje também de rios maiores, aproveitando o volume das águas para caçar urubu-rei, usando peixes podres como iscas. Instalados nos acampamentos, os Zo’é retornam às aldeias para buscar farinha, preparada com antecedência e estocada nas casas; quando ela acaba, permanecem alguns dias para preparar mais farinha, beiju e tapioca.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O período ideal para a caça de ''kwata'' (macaco-aranha, coatá ou coamba) vai de março a maio, período denominado ''kwata ike'', quando estão gordos. Montam-se acampamentos específicos, de onde os homens saem para as serras, em busca dos macacos. No final desse período, em maio, tucanos, araras e papagaios já estão comendo frutas de palmeiras. É a estação chamada de ''token ike'', do “tucano gordo”, que dura cerca de um mês e meio, quando bandos numerosos de aves vêm comer patauá ou açaí, em locais de concentração de frutas. Já é no final da estação chuvosa e início da estação seca que os porcos queixadas e caititus estão gordos, motivando saídas frequentes de grupos de homens às trilhas das varas de porcos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Moça zo'é preparando leite de castanha, Dominique Tilkin Gallois, 2023.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/9_d567041deb9c12a/162429scr_wm_697db62eab28f2f.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre os recursos mais valorizados nesse calendário do tempo das chuvas, a castanha-do-Brasil é um alimento básico na dieta. Os Zo’é colhem os ouriços a partir de janeiro e consomem amêndoas em profusão durante toda a estação chuvosa; durante o verão, colhem ouriços ainda verdes e continuam comendo castanha o ano todo, em preparos diversos com produtos da mandioca ou carnes. Como é também nesse período que muitas frutas amadurecem, é comum interromperem o movimento de dispersão entre acampamentos para fazer festas, quando se distribui grande quantidade de bebida fermentada ''sepy''.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A estação seca, de final de julho até o início de janeiro, é marcada pelo trabalho nas roças. É quando a vida nas aldeias se intensifica, sendo um período de maior aproximação entre grupos familiares. Isso não significa que as famílias não mantenham, no verão, outras atividades que as leve a deixar a aldeia. Saem para buscar frutas da estação, como o açaí que é trazido em grandes cachos. Mas sobretudo saem para pescar com timbó, com anzóis, ou ainda com flecha ou zagaia. No verão, também acontecem expedições de caça, em geral mais curtas e só entre homens, já que as mulheres ficam nas aldeias cuidando das roças. Além disso, como muitas famílias mantêm cultivos em mais de uma aldeia, deslocam-se para dar conta de todas as roças. O corte, queima e limpeza das roças se prolonga até dezembro, meados de janeiro, quando a castanha está de novo madura, e os Zo’é limpam a roça da mandioca que brotou e fazem novo plantio. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Refeição familiar dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017.&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/9_9e70545c4b7fee0/52689scr_5d2f4b741f6cd92.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A mandioca é o principal cultivo, com uma variedade de produtos: farinha, beiju, tapioca, tucupi. As mulheres, inclusive com colaboração dos homens para ralar as raízes, dedicam muito de seu tempo ao processamento da mandioca: descascar, ralar, espremer no tipiti, peneirar, torrar farinha. Os Zo’é também cultivam pimenta, batata-doce, cará, banana, mamão, caju, goiaba, graviola, manga, urucum, algodão, cuia, cabaça, curauá e cana de flecha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade de vida dos Zo’é decorre, portanto, desse grande acervo de saberes e práticas do cotidiano, transmitidos e aperfeiçoados ao longo das gerações. Se, nas últimas décadas, os Zo’é se apropriaram seletivamente de alguns itens industrializados, continuam valorizando suas próprias tecnologias para fabricar os artefatos que utilizam cotidianamente.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Ler e escrever na própria língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Os Zo'e durante uma oficina de Letramento, Dominique Tilkin Gallois, 2023&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/6_07c4c88f97d55fe/162426scr_wm_9578fba3a29bfe7.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre as ações educativas construídas com os Zo’é para promover a discussão e pactuação do PGTA, destacam-se as atividades de letramento, iniciadas pelo Iepé em 2017. Tanto para a formulação adequada das medidas de proteção como, sobretudo, para a apropriação duradoura deste plano, era imprescindível que os próprios Zo’é pudessem redigir e atualizar as diretrizes de gestão de seu território. Trata-se de um programa não escolar de letramento, que é concebido não apenas como um meio de apropriação da leitura e escrita – por enquanto apenas na língua zo’é – e a iniciação à matemática, mas também como aproximação aos conceitos, à linguagem e às práticas relacionadas aos direitos assegurados aos povos indígenas pela [https://pib.socioambiental.org/pt/Constitui%C3%A7%C3%A3o Constituição brasileira de 1988]. É nesse sentido que as ações de letramento viabilizaram a criação da Tekohara, organização representativa do povo Zo’é, na consolidação de seu Fundo de Artesanato, o FAZ, e na construção de um [https://institutoiepe.org.br/2025/08/protocolo-de-consulta-e-consentimento-zoe/ protocolo de consulta e consentimento]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a pandemia de Covid-19, durante a qual todos os trabalhos com os Zo’é foram suspensos, consolidou-se uma turma de cerca de 40 jovens e adultos, depois separada em duas, correspondendo aos grupos do Norte e do Sul. Reúnem-se quatro vezes por ano nos Encontros de Letramento, realizados na “casa grande” da Base da Funai, em Kejã. Destacaram-se rapidamente oito jovens, que passaram a atuar como multiplicadores nas atividades de letramento, como tradutores e mais recentemente assumiram cargos na gestão da organização representativa, Tekohara. Além desses Encontros, oficinas específicas promovem a construção participativa de materiais didáticos, hoje já com mais de 20 títulos versando sobre os mais diversos temas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Todos os materiais produzidos procuram registrar as reflexões dos Zo’é sobre seu modo de vida, sobre as mudanças recentes que interferem nas formas de ocupação do território, sobre experiências novas de gestão advindas da consolidação de sua associação etc. Entre eles, destacam-se os cadernos da série ''Rekoha'', que sempre iniciam com a feitura de um mapa por um líder de grupo local, complementado por pequenos textos extraídos das conversas sobre suas iniciativas de abertura de caminhos, roças, acampamentos de caca e pesca, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra série de materiais traz resultados de uma pesquisa colaborativa sobre cantos, engajando jovens letrados e conhecedores mais idosos, que permitiu também introduzir o uso da informática, para a gestão de um acervo de cantos e de suas transcrições. Além disso, outros cadernos específicos apoiam a formação em gestão tanto da Tekohara como do Fundo de Artesanato Zo’é (FAZ). Mais recentemente, alguns cadernos trazem saberes das mulheres – que praticamente não participam das atividades de letramento – especialmente sobre o ciclo da castanha e sua culinária. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
=== Tekohara – Organização Zo’é ===&lt;br /&gt;
Após a pandemia de Covid-19, os Zo’é reativaram seu movimento de reorganização de relações com os não indígenas, inaugurado com a pactuação do PGTA, e criaram em 2022 uma organização representativa, denominada Tekohara. O nome ''Tekohara'' foi especialmente criado para a associação. Segundo os fundadores, a expressão inexiste na língua zo’é, porém remete à proteção do território, chamado em sua língua de – ''tekoha''. Constitui assim uma síntese do que consideram ser a atuação prioritária da organização, em consonância com todo o trabalho de gestão territorial que os Zo’é vêm conduzindo nos últimos anos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A assembleia de fundação reuniu praticamente toda a população zo’é, incluindo idosos e crianças. Desses, todos os maiores de 17 anos, totalizando 198 pessoas à época, se tornaram associados, que escolheram e aclamaram seus representantes para duas instâncias de gestão:  o Conselho de Chefes e a Diretoria. O primeiro é composto por ''sete iy'', principais líderes zo’é, reconhecidos pelos demais chefes de todos os subgrupos. Em 2025, a assembleia escolheu outros chefes para o conselho, hoje um total de 11, que também constituem o Conselho Fiscal da associação. A diretoria é constituída por cinco jovens letrados, que se consideram “ajudantes dos chefes” e atuam diretamente nas instâncias que exigem a leitura e escrita de documentos, a convocação e mediação de reuniões, a gestão de recursos, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2024, os chefes do conselho e os jovens da diretoria, além de outros adultos interessados, construíram o protocolo de consulta e consentimento, ao longo de cinco oficinas e de várias reuniões de apresentação e aprovação do documento, publicado em duas línguas, em 2025. Afirmam, neste protocolo: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
“Temos nos reunido regularmente para conversar e com isso nossa associação está firme, porque discutimos todos os assuntos importantes. Como consolidamos nosso próprio jeito de fazer reuniões e tomar decisões, temos clareza sobre como devemos nos posicionar sobre quem pode e quem não pode entrar em nosso território (...) É porque mantemos um mesmo entendimento sobre a proteção de nosso território que as decisões não são difíceis. É assim que alcançamos consenso entre nós todos”. – Protocolo de consulta e consentimento Zo’é (2025, pp. 14-21)&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/3_8ec6e605f080da0/162433scr_wm_6306ea1916b3650.jpg| Lideranças zo'é durante uma reunião da Tekohara, Kamikia Kisedje, 2024}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A gestão coletiva de um Fundo de Artesanato ==&lt;br /&gt;
Desde a instalação da Funai na Terra Indígena, em 1991, os Zo’é têm produzido artesanato para troca com visitantes, ainda que de modo episódico, obtendo assim diversos utensílios que foram, desde então, incorporados ao seu modo de vida. Naquele período, o Posto de Atração distribuía uma ou duas vezes por ano ferramentas, material de pesca, lanternas e pilhas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Os Zo'e durante a etiquetagem de peças comercializadas por meio do Fundo de Artesanato, Kamikia Kisedje, 2024&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/5_22188c531215eb0/162425scr_wm_ee3a42b7ee661ff.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já a partir de 2011, a CGIIRC-Funai passou a rever sua política de proteção, garantindo aos indígenas em situação de recém-contato novas experiências e formas de participação. Foi nesse contexto que o Fundo de Artesanato Zo’é (FAZ), foi criado em 2012, pela Frente Cuminapanema (FPEC). Tratava-se de ampliar as possibilidades de troca e assegurar maior autonomia no abastecimento de itens industrializados demandados pelos Zo’é. Sobretudo se buscou passar de um sistema de doação para um mecanismo coletivo de permutas, assegurando a distribuição de itens industrializados previamente selecionados para todas as famílias, que por sua vez entregam lotes de peças que correspondem aproximadamente ao valor dos objetos adquiridos pelo Fundo. Durante dez anos, o FAZ se consolidou sob gestão da equipe da Funai, mas desde 2022, é gerido diretamente pelos Zo’é, por meio da associação Tekohara, ainda que com algum apoio dos parceiros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O FAZ consiste num sistema de trocas que envolve todas as famílias zo’é, atendendo suas demandas por objetos industrializados. Nos últimos anos, acordou-se com os parceiros que itens como material de pesca, ferramentas, entre outros, são adquiridos através de projetos do Iepé, desonerando assim o FAZ. A lista do que deve ser comprado é aberta, mas inclui cerca de 20 itens, todos eles incorporados ao modo de vida dos Zo’é há várias décadas. A lista envolve itens de uso pessoal, como sandálias, espelhos, linhas para tipoias, sabão, panelas, tigelas, além de alguns itens necessários às atividades produtivas do cotidiano, como isqueiros, sacos para armazenar farinha e eventualmente ferramentas que não podem ser adquiridas através dos projetos dos parceiros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Tebo Zo'é segurando cumaru, Kamikia Kisedje, 2024&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/3/1_1085df758a31880/162431scr_wm_04d1d66a3aa490a.jpg }}&lt;br /&gt;
  &lt;br /&gt;
As famílias entregam peças de artesanato e recebem itens prévia e cuidadosamente selecionados em reuniões com os chefes de todas as aldeias. Ou seja, a um certo conjunto de artesanato vendido corresponde um certo número de itens industrializados adquiridos com o recurso da comercialização das peças. Seguindo a expressa preferência dos Zo’é, os itens são sempre comprados na quantidade que atenderá rigorosamente todas as famílias. As entregas são realizadas três a quatro vezes por ano, com itens que são escolhidos em reuniões trimestrais, para atender às necessidades do momento. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os artefatos comercializados pelo FAZ são os mesmos utilizados no cotidiano dos Zo’é e incluem trançados, recipientes em cerâmica, colheres, pentes, brincos e pulseiras. Tal seleção, entre os muitos itens da cultura material zo’é, obedece a critérios de sustentabilidade. A legislação vigente não permite a venda de plumária ou de flechas com ponta de osso, ou qualquer objeto fabricado com partes de animais. Arcos de madeira e redes feitas de fibras de castanheira tampouco são vendidos, para garantir aos Zo’é exclusividade no acesso a esses materiais essenciais em seu modo de vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar dessas restrições, os resultados do FAZ são muito promissores, não apenas por incentivar a continuidade dos saberes e práticas artesanais dos Zo’é, como por viabilizar a formação em gestão dos jovens e dos chefes. Ao se apropriar deste Fundo, os Zo’é souberam declarar e garantir critérios próprios na distribuição adequada dos bens adquiridos, em acordo com seus valores e considerações quanto às diferenças de gênero, idade e processos de aprendizagem, bem como à isonomia entre os grupos locais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além da venda de artesanato, a Tekohara também realiza a  venda de sementes de cumaru, coletadas pelas famílias envolvidas no FAZ. Desde 2019, o Fundo se beneficia ainda com a venda exclusiva dos livros da série Saberes Zo’é, atualmente com três títulos: [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Potuwa.pdf ''Potuwa pora kõ'' – O que se guarda no ''potuwa''] (2019); [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2021/07/Eremiu-rupa.-Abrindo-rocas_Trecho.pdf ''Eremi’u rupa'' – Abrindo roças] (2021) e [https://institutoiepe.org.br/wp-content/uploads/2025/05/Canoa-Zoe.pdf ''Ihara rape rupi'' – Pelo caminho da canoa] (2023).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Img&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/6/2/4/2/4_f91f5d08e62cbad/162424scr_wm_0c86653fd01dc21.jpg| Distribuição de sabão adquirido com recursos do FAZ, Dominique Tilkin Gallois, 2025}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;CABRAL, Ana Suely.Uma escrita para a Língua Zo'é. Brasília: Lalli/Unb/Funai, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin. De arredio a isolado : perspectivas de autonomia para os povos indígenas isolados. In: GRUPIONI, Luís Donisete Benzi (Org.). Índios no Brasil. São Paulo : Secretaria Municipal de Cultura, 1992. p. 121-34.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Essa incansável tradução : entrevista. Sexta Feira: Antropologia, Artes e Humanidades, São Paulo : Pletora, n. 6, p. 103-21, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Tupi do Cuminapanema : eles se chamam Zo'É. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1991/1995. São Paulo : Instituto Socioambiental, 1996. p. 280-7.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Zo'é. In: ASSIS, Rogério. São Paulo: Terceiro Nome, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Sobre alguns modos zo’e de fazer coletivos e lideranças”. In: FAJARDO GRUPIONI, D.; Andrade, L. M. M. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; GRUPIONI, Luís Donisete Benzi. O índio na Missão Novas Tribos. In: WRIGHT, Robin (Org.). Transformando os Deuses : os múltiplos sentidos da conversão entre os povos indígenas no Brasil. Campinas : Unicamp, 1999. p. 77-130.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
GALLOIS, Dominique Tilkin; BRAGA, Leonardo Viana; PEDREIRA, H. P. S. 2020 Construindo o Plano de Gestão Territorial e Ambiental com os Zo’é. In: Luis Donizete Benzi Grupioni (org.). Em busca do bem viver: Experiências de elaboração de Planos de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas. São Paulo: Rede de Cooperação Amazônica, 1. ed., v. 1.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. A redescoberta dos amáveis selvagens. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1987/88/89/90. São Paulo : Cedi, 1991. p. 209-14. (Aconteceu Especial, 18)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; HAVT, Nadja. Relatório de identificação da Terra Indígena Zo'é : Portaria 309/PRES/Funai - 04.04.97. São Paulo : Funai, 1998.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;HAVT, Nadja. De algumas questões sobre a participação de “índios isolados” no processo de regularização fundiária : o exemplo dos Zo’É. In: GRAMKOW, Márcia Maria (Org.). Demarcando terras indígenas II : experiências e desafios de um projeto de parceria. Brasília : Funai/PPTAL/GTZ, 2002. p. 85-94.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Representações do Ambiente e da Territorialidade entre os Zo’é/PA. Dissertação de Mestrado. FFLCH/USP, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;Iepé &amp;amp; FPEC/Funai. Jo’e bokitute ram: planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro. Plano de Gestão Territorial e Ambiental da TI Zo’é. São Paulo: Iepé, 2019.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
BRAGA, Leonardo Viana. Micropeças sobre gênero e caçada junto aos Zo’é. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas:&lt;br /&gt;
índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. ''Pani'em'': um esboço sobre os modos de saber entre os Zo'é. Dissertação de mestrado. FFLCH/USP, 2017.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Eremi'u rupa. Abrindo roças. 1. ed. São Paulo: Série Saberes Zo'é - Iepé, FPEC/Funai &amp;amp; Fundo de Artesanato Zo'é (FAZ), 2021. v. 2. 189p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
BRAGA, Leonardo Viana; PEDREIRA, Hugo Prudente S.; CABALZAR, Flora Dias. 2020. 'Fazer saber a própria terra'. In: Nelson Russo de Moraes; Leila Adriana Baptaglin; Lamounier Erthal Vilella; Alexandre de Castro Campos; Raoni Fernandes Azerêdo. (Org.). Povos Originários e Comunidades Tradicionais: trabalhos de pesquisa e de extensão universitária – volume 4, 1ed.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; &lt;br /&gt;
PEDREIRA, Hugo Prudente da Silva. ''Potuwa pora kõ'' - o que se guarda no ''potuwa. 1''. ed. São Paulo: Instituto de Pesquisa e Formação Indígena - Iepé, 2019. v. 1. 148p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; RIBEIRO, Fabio N. “Os Zo’é e as metamorfoses do fundamentalismo evangélico”. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Encontros Zo’é nas Guianas. Tese de doutorado. FFLCH/USP, 2019.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. ''Ihara Rape Rupi'': pelo caminho da canoa. 1. ed. São Paulo: Iepé - Instituto de Pesquisa e Formação Indígena, 2023. v. 1. 132p .&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Zo'é}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Dominique T. Gallois}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
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{{#set:Data verbete=1997-01-01}}&lt;br /&gt;
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&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas no Pará]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8517</id>
		<title>Povo:Zo'é</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Zo%27%C3%A9&amp;diff=8517"/>
		<updated>2025-10-20T14:36:32Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Localizados numa área de densas florestas, entre os rios Cuminapanema e Erepecuru, norte do Pará. Em situação de recente contato, os Zo'é convivem com agentes de assistência há apenas três décadas, mantendo vigorosamente suas formas de organização social e territorial. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nome e língua ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Foto: Os Zo'e durante uma oficina de Letramento, Dominique Gallois, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/4_f54a65283e04d93/52684scr_8d884e9b4241947.jpg }}&lt;br /&gt;
'''Nome'''&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pronome ''jo’é'' [zo’é], “nós mesmos”, se consolidou aos poucos como a autodenominação, que diferencia este povo dos não-índios, chamados ''kirahi''. No final dos anos 1980, quando começaram a conviver com missionários e com servidores da Funai, esse termo não era usado para designar a si mesmos, mas para identificar qualquer pessoa que adquirisse alguma proximidade e que passava, então, a ser considerada “gente como nós”. O pronome se transforma em etnônimo quando os Zo’é aprendem a se pensar como “índios”, uma categoria antes desconhecida por eles e que só poderia surgir da trajetória de convivência com diferentes grupos de não-indígenas.&lt;br /&gt;
O termo ''Poturu'', ou ''Poturujara'', difundido inicialmente como nome dos índios do Cuminapanema, designa tão somente a madeira da árvore utilizada para confeccionar os adornos labiais ''embe’pot''. “''Poturu!''” respondiam os Zo’é, quando alguém apontava para seus rostos, buscando saber seu nome.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
'''Língua'''&lt;br /&gt;
Os Zo’é são falantes de uma língua Tupi-Guarani, do tronco Tupi. Nos últimos quatro anos, um número significativo de jovens e todos os chefes de aldeia aprenderam a se comunicar em português. Cerca de 20 jovens estão escrevendo e lendo em sua língua, apropriando-se da grafia proposta em estudos linguísticos (Cabral, 2013).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Histórico do contato ==&lt;br /&gt;
'''Experiências de contato e de convivência com ''Kirahi'''''&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os então chamados “Índios do Cuminapanema” foram apresentados ao mundo em 1989, em reportagens que enfatizavam sua “pureza” e “fragilidade” e os descrevendo como um dos últimos grupos “intactos” na Amazônia. E justamente por serem um dos raros grupos ainda “não atingidos” nem pela mensagem evangélica, nem pela assistência oficial, os Zo’é atraíram a atenção da Missão Novas Tribos - MNT, que inicia seu trabalho na região em 1982. Foram cinco anos de sucessivas entradas e saídas das aldeias, para “pacificar” os Zo’é, até que em 1987 eles instalaram sua base “Esperança” na porção sul da atual TI Zo’é. Ali, passaram a controlar sozinhos o processo de acomodação dos Zo’é à nova situação, até a Funai assumir a área em 1991.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Foto: Dominique Gallois, 1991&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281182-1/zoe_4.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, os Zo’é já tinham experiências de encontro com não-índios desde muito tempo. Relatam inclusive a saída de uma mulher, que viajou até Santarém de onde acabou voltando, provavelmente no final do século XIX. No final dos anos 1960, seu território passou a ser percorrido por caçadores de felinos, conhecidos como “gateiros”. Os Zo’é encontravam em suas trilhas, gaiolas, ferramentas abandonadas, restos de acampamentos. Também encontravam vestígios de coletores de castanha. Eram contatos indiretos, ou, como dizem os Zo’é, “sem carne/sem corpo”, pois não viam os forasteiros. Em 1975, eles foram surpreendidos por visitas mais espetaculares, quando um helicóptero do Instituto de Estudos e Pesquisas do Pará despejou embrulhos com roupas e objetos sobre a aldeia Kejã. &lt;br /&gt;
Foi também com presentes lançados por avião ou dependurados no caminho das aldeias que os membros da Missão Novas Tribos se aproximaram. Entre 1982 e 1987, eles estiveram várias vezes em acampamentos ou aldeias, saindo rapidamente. Segundo os Zo’é, muitas pessoas ficavam doentes na sequência dessas visitas e, como os missionários demoravam meses para voltar, as pessoas acometidas por doenças pulmonares morriam. Eles também relatam que resolveram se deslocar rumo ao sul, em busca de uma explicação para esse “sopro” de doenças e para pegar mais objetos, chegando finalmente à Base “Esperança” em outubro de 1987, data oficial do “contato” com a MNT. &lt;br /&gt;
Após essa notícia, a Funai cria o PINC Cuminapanema, subordinado à 4ª SUER/Funai em Belém (Port.1.061 de 22 de maio de 1987). No ano seguinte, o convênio 008/1998 celebrado entre a Funai e a MNT veda sua atuação em áreas de índios isolados. Mas a missão não se retira e continua seu trabalho junto aos Zo’é.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Foto: Luis Donisete B. Grupioni/1989&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/281189-1/zoe_7.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em janeiro de 1989, a missão alerta a Funai sobre a precária situação de saúde dos índios. O sertanista Sidney Possuelo consegue apoio da imprensa e pode assim realizar uma primeira visita à área. Numa segunda viagem, pouco tempo depois, a equipe da Funai verifica que a situação de saúde estava piorando e começa a planejar um trabalho mais sistemático. Durante mais de um ano, os Zo’é assistiram à convivência tensa entre as equipes da Funai e da Missão Novas Tribos, cada uma com sua base, entre as quais eles continuaram circulando para obter remédios e objetos industrializados. Quando conseguiu recursos e pessoal adequados para assumir um trabalho de assistência que abrangeria a totalidade das quatro aldeias existentes na época, a Funai retirou os missionários da área, em outubro de 1991. &lt;br /&gt;
A partir desse momento, os sucessivos responsáveis pelo PINC Cuminapanema, orientados pelo Departamento de Índios Isolados -DII/Funai, desempenham ações de proteção do povo Zo’é e de sua terra, em formatos que irão variar sensivelmente ao longo dos anos. Foi somente a partir de dezembro de 2009, com a reestruturação da Funai que o órgão indigenista amplia a atuação da então Coordenação Geral de Índios Isolados - CGII, incluindo a proteção às populações de recente contato, entre eles os Zo’é.  A Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema – FPEC, é criada em 2011 (Portaria Nº 1816/PRES, de 30 de dezembro de 2011) e desde então segue novas diretrizes para a promoção da integridade cultural e territorial do povo Zo’é.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O processo de demarcação da TI Zo'é ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Foto: Reunião de chefes Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/9/1_c969ffb8ac0685f/52691scr_f6158b8f1a3b002.jpg}}&lt;br /&gt;
Em 1987, a Funai procedeu à interdição da Área Indígena Cuminapanema/Urucuriana, com uma extensão de aproximadamente 2.059.700 hectares, ao sul do [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3885 Parque Indígena de Tumucumaque], nos municípios de Alenquer e Óbidos, Pará (Port. n.4.098 de 30.12.1987). A interdição visava dar condições de trabalho às equipes de localização e contato, na identificação de numerosas referências de índios isolados na região, levantadas pelo então Departamento de Índios Isolados – DII. Na época, a Funai já conhecia a presença dos Zo'é nesta área através de informações repassadas pela Missão Novas Tribos, que já tinha localizado este povo em 1982. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os trabalhos de identificação e delimitação da Terra Indígena Zo'é aconteceram entre 1996 e 1998, com a participação ativa dos Zo'é e de vários técnicos e especialistas, em muitas etapas. A primeira, de estudos antropológicos, incluiu a preparação da comunidade indígena para que os Zo'é pudessem acompanhar todos os procedimentos da regularização de seu território. A Portaria 309 de 04.04.1997 constituiu o Grupo de Trabalho cujo relatório de identificação e delimitação foi submetido ao Departamento de Identificação e Delimitação – DID/Funai em novembro de 1998. &lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Foto: Zo'é trabalhando na construção de novas casas, Leonardo Viana Braga, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/9/0_eedce20393fa4de/52690scr_4bbc991f8b7ca54.jpg}}&lt;br /&gt;
A demarcação física da Terra Indígena, com 668.565 hectares, foi realizada entre 1999 e 2000, por uma empresa contratada pela Funai. A homologação e o registro da Terra Indígena demarcada no Serviço de Patrimônio da União - SPU, foram consagrados por Decreto presidencial (s/n) publicado no Diário Oficial da União em 22 de dezembro de 2009.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2008, a pedido do Ministério Público Federal, foi criada uma faixa de amortecimento em volta da Terra Indígena. Esta Zona Intangível das Florestas Estaduais Trombetas e Paru não poderia receber nenhum tipo de exploração econômica para evitar a contaminação dos índios em situação de recente contato. Com a aprovação do Plano de Manejo da FLOTA do Trombetas pelo Conselho Estadual de Meio Ambiente do Pará, a faixa foi incorporada no zoneamento da Unidade, conforme plano de manejo. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Estações e ritmos das atividades produtivas ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Foto:Índios Zo'é finalizando uma rede de fibra de castanheira, Flora Dias Cabalzar, 2016.&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/5_7ed184682c27e1c/52685scr_a5f3ac836c6e409.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O caráter sazonal de alguns recursos dos quais os Zo'é se utilizam conforma a dinâmica de circulação das famílias pelo território e também repercute nos movimentos de aproximação e distanciamento entre essas famílias. &lt;br /&gt;
No tempo das chuvas, de fevereiro a julho, que acontecem os períodos mais prolongados de dispersão das famílias pelo território, quando são realizadas grandes caçadas, principalmente de coatá gordo e de tucano. No início das chuvas, as famílias também se deslocam para a beira de igarapés, aproveitando o volume das águas para caçar urubu-rei, usando peixes podres como iscas. Instalados nos acampamentos, retornam às aldeias para buscar farinha, preparada com antecedência e estocada nas casas; quando ela acaba, permanecem alguns dias para preparar mais farinha, beiju e tapioca. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O período ideal para a caça de ''kwata'' (macaco-aranha ou coamba) vai de março a maio, período denominado ''kwata ike'', quando estão gordos. Montam-se acampamentos específicos, de onde os homens saem para as serras, em busca dos macacos. No final desse período, em maio, tucanos, araras e papagaios já estão comendo frutas de palmeiras. É a estação chamada de ''token ike'', do “tucano gordo”, que dura cerca de um mês e meio, quando bandos numerosos de aves vêm comer patauá ou açaí, em locais de concentração de frutas. Já é no final da estação chuvosa e início da estação seca que porcos queixadas e caititus estão gordos, motivando saídas frequentes de grupos de homens nas trilhas das varas de porcos. &lt;br /&gt;
Entre os recursos mais valorizados nesse calendário do tempo das chuvas, a castanha-do-Brasil é um alimento básico na dieta. Os Zo´é colhem os ouriços a partir de janeiro e consomem amêndoas em profusão durante toda a estação chuvosa; durante o verão, colhem ouriços ainda verdes e continuam comendo castanha o ano todo, em preparos diversos com produtos da mandioca ou carnes.  Como é também nesse período que muitas frutas amadurecem, é comum interromper o movimento de dispersão entre acampamentos para realizar uma festa, quando se distribui grande quantidade de bebida fermentada ''sepy''. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Foto: Refeição familiar dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017.&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/9_9e70545c4b7fee0/52689scr_5d2f4b741f6cd92.jpg}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A estação seca, de final de julho até o início de janeiro, é marcada pelo trabalho nas roças. É quando a vida nas aldeias se intensifica, sendo um período de maior aproximação entre grupos familiares. Isso não significa que as famílias não mantenham, no verão, outras atividades que as leve a deixar a aldeia. Saem para buscar frutas da estação, como o açaí que é trazido em grandes cachos. Mas sobretudo saem para pescar com timbó, com anzóis, ou ainda com flecha ou zagaia.&lt;br /&gt;
No verão, também acontecem expedições de caça, em geral mais curtas e só entre homens, já que as mulheres ficam nas aldeias cuidando das roças. Além disso, como muitas famílias mantêm cultivos em mais de uma aldeia, deslocam-se para dar conta de todas as roças. O corte, queima e limpeza das roças se prolonga até dezembro, meados de janeiro, quando a castanha está de novo madura, e os Zo'é limpam a roça da mandioca que brotou e fazem novo plantio.&lt;br /&gt;
A mandioca é o principal cultivo, com uma variedade de produtos: farinha, beiju, tapioca, tucupi. As mulheres, inclusive com colaboração dos homens para ralar as raízes, dedicam muito de seu tempo ao processamento da mandioca: descascar, ralar, espremer no tipiti, peneirar, torrar farinha. Os Zo'é também cultivam pimenta, batata doce, cará, banana, mamão, caju, goiaba, graviola, manga, urucum, algodão, cuia, cabaça, curauá e cana de flecha. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== População ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Foto: Distribuição de bebida sepy durante uma festa dos Zo'é, Leonardo Viana Braga, 2017&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/7/4/6_cd584b0ad074849/52746scr_dcd3b057e91c8af.jpg}}&lt;br /&gt;
A população Zo'é praticamente dobrou nos últimos vinte anos: eram 172 em 1998, à época da identificação da TI, e são hoje 315 pessoas (FPEC-Funai, 2019). &lt;br /&gt;
Os Zo'é subdividem-se em quatro grupos locais (iwan), distribuídos em determinadas áreas territoriais, onde estão suas aldeias antigas e recentes e seus acampamentos. Constituem agregados de famílias extensas que ocupam aldeias próximas cuja composição sofre constantes alterações em função das alianças matrimoniais e das parcerias estabelecidas para ocupar novas áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos últimos anos, ocorreu um processo significativo de abertura de aldeias, que hoje totalizam 47. Na época da instalação da Funai, eram apenas 4. Essas pequenas aldeias são ocupadas por poucas famílias, que circulam entre distintos assentamentos. Esse notável processo de dispersão recente está relacionado a vários fatores, entre eles o apoio logístico que receberam tanto da Funai como de outros parceiros. Dispor de equipamentos de transporte e comunicação trouxe maior segurança às famílias que se deslocam e permanecem em aldeias distantes da Base da FPEC-Funai. Além disso, atividades de formação e informação realizadas nesse período mobilizaram os Zo'é a percorrer áreas onde antes temiam a possível presença de inimigos. Agora confiantes em avançar em relação aos percursos conhecidos pelos antigos, abriram novos caminhos e acampamentos, alguns deles logo transformados em aldeias. A dispersão redunda em vigilância e essa promove incursões em áreas onde há fartura de recursos, como nas margens de rios maiores que os antigos Zo'é não ocupavam tão intensamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro: Jo'e rekoha bokitute ram ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Foto: Os Zo'e durante uma oficina de Letramento, Hugo Prudente, 2018&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/2/6/8/6_92ae3e7baf9ad67/52686scr_d2b118ef8ea028d.jpg }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em novembro de 2019, os Zo'é pactuaram seu Plano de Gestão Territorial e Ambiental – PGTA, onde definem suas prioridades para o futuro e definem as diretrizes para defender a integridade de sua terra e portanto, de sua qualidade de vida. Nesse documento, afirmam: “queremos que nossos filhos sigam ocupando vastamente o nosso território”, colocando o processo de dispersão de aldeias como um dos fundamentos do bem-viver. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No PGTA também dedicam especial atenção à fiscalização e vigilância da porção sul da Terra Indígena, onde a Funai constatou a presença de invasores interessados em explorar os castanhais. Para os Zo'é, que fazem uso intensivo da castanha, especialmente mas não apenas em sua alimentação, é prioritária a fiscalização dessa região, impedindo o retorno dos invasores.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;CABRAL, Ana Suely.Uma escrita para a Língua Zo'é. Brasília: Lalli/Unb/Funai, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin. De arredio a isolado : perspectivas de autonomia para os povos indígenas isolados. In: GRUPIONI, Luís Donisete Benzi (Org.). Índios no Brasil. São Paulo : Secretaria Municipal de Cultura, 1992. p. 121-34.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Essa incansável tradução : entrevista. Sexta Feira: Antropologia, Artes e Humanidades, São Paulo : Pletora, n. 6, p. 103-21, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Tupi do Cuminapanema : eles se chamam Zo'É. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1991/1995. São Paulo : Instituto Socioambiental, 1996. p. 280-7.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Zo'É. In: ASSIS, Rogério. São Paulo: Terceiro Nome, 2013.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Sobre alguns modos zo’e de fazer coletivos e lideranças”. In: FAJARDO GRUPIONI, D.; Andrade, L. M. M. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; GRUPIONI, Luís Donisete Benzi. O índio na Missão Novas Tribos. In: WRIGHT, Robin (Org.). Transformando os Deuses : os múltiplos sentidos da conversão entre os povos indígenas no Brasil. Campinas : Unicamp, 1999. p. 77-130.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. A redescoberta dos amáveis selvagens. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1987/88/89/90. São Paulo : Cedi, 1991. p. 209-14. (Aconteceu Especial, 18)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;GALLOIS, Dominique Tilkin; HAVT, Nadja. Relatório de identificação da Terra Indígena Zo'é : Portaria 309/PRES/Funai - 04.04.97. São Paulo : Funai, 1998.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;HAVT, Nadja. De algumas questões sobre a participação de “índios isolados” no processo de regularização fundiária : o exemplo dos Zo’É. In: GRAMKOW, Márcia Maria (Org.). Demarcando terras indígenas II : experiências e desafios de um projeto de parceria. Brasília : Funai/PPTAL/GTZ, 2002. p. 85-94.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Representações do Ambiente e da Territorialidade entre os Zo’é/PA. Dissertação de Mestrado. FFLCH/USP, 2001.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;Iepé &amp;amp; FPEC/Funai. Jo’e bokitute ram: planejando como vamos continuar vivendo bem no futuro. Plano de Gestão Territorial e Ambiental da TI Zo’é. São Paulo: Iepé, 2019.&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; Braga, Leonardo Viana. Micropeças sobre gênero e caçada junto aos Zo’é. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas:&lt;br /&gt;
índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Pani'em: um esboço sobre os modos de saber entre os Zo'é. Dissertação de mestrado. FFLCH/USP, 2017.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt; Ribeiro, Fabio N. “Os Zo’é e as metamorfoses do fundamentalismo evangélico”. In: Fajardo Grupioni, D.; Andrade, L. M. 2015. Entre águas bravas e mansas: índios e quilombolas em Oriximiná. São Paulo: CPI-SP/Iepé, 2015.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;---------. Encontros Zo’é nas Guianas. Tese de doutorado. FFLCH/USP, 2019.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Dominique T. Gallois|Dominique T. Gallois]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
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{{#set:Tem autor=Usuário:Dominique T. Gallois}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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{{#set:Capa=162430scr_wm_9d03db1dcc7a9e9.jpg}}&lt;br /&gt;
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&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas no Pará]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Xikrin_Mebeng%C3%B4kre&amp;diff=8515</id>
		<title>Povo:Xikrin Mebengôkre</title>
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		<updated>2025-09-15T21:08:59Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Os Xikrin, grupo de língua Mẽbêngôkre, enfatizam a audição e a palavra. A fim de aguçar estas qualidades, os Xikrin perfuram, logo na infância, os órgãos correspondentes (orelhas e lábios). Ouvir está diretamente relacionado ao saber, à aquisição do conhecimento. A oratória, por sua vez, é uma prática social muito valorizada, como para os grupos mẽbêngôkre em geral, que se definem como aqueles que falam bem e bonito – ''Kaben mei'' – em oposição a todos os outros povos que não falam sua língua. O dom da oratória é atributo dos homens e envolve discursos inflamados, realizados no centro da aldeia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nome ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Foto: Vincent Carelli-ISA&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/239051-1/xikrin_2.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A autodenominação mẽbêngôkre, ou seja, “gente do buraco d´água” ou “gente da água grande”, referindo-se aos rios Tocantins e Araguaia, cuja travessia foi supostamente a separação do grupo ancestral. As tradições orais mẽbêngôkre remetem à diferenciação dos povos Jê como tendo ocorrido na área entre os rios Araguaia e Tocantins, no atual estado do Tocantins. Segundo o mito, os ancestrais dos Jê viviam juntos como um só grupo nessa área até descobrirem uma grande árvore de milho, mas, à medida que recolhiam as sementes, começaram a falar línguas diferentes e se separaram nos diversos grupos jê atuais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além da autodenominação mẽbêngôkre, cada grupo possui um nome próprio de algum líder ou localização de aldeia.  Os Xikrin costumavam denominar-se Put Karôt, tendo o nome Xikrin surgido do modo como outro grupo mẽbêngôkre, os Irã-ã-mray-re, hoje extintos, os chamavam. É interessante notar que os Xikrin que vivem na região do rio Bacajá reconhecem o grupo que vive na região do rio Catete como Put Karôt, mas não a si mesmos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os demais Mẽbêngôkre se referiam aos Xikrin como Djore, nome de um outro grupo extinto que vivia às margens do Rio vermelho, afluente do Itacaiúnas. Na literatura mais antiga os Xikrin são referidos como UXikring, Chicri e Purucarus ou Purukarôt.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Isabelle Vidal Giannini|Isabelle Vidal Giannini]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Língua ==&lt;br /&gt;
Os Xikrin falam a língua Mẽbêngôkre, da família linguística Macro-Jê. Reconhecem a semelhança de sua língua com  a dos outros grupos e podem também listar as diferenças. Isso é interessante, pois reconhecem, por um lado, uma unidade e identidade linguística, e, por outro, as diferenças internas a esse grupo maior. Assim, todos os membros de um grupo mẽbêngôkre se entendem com facilidade, o que não se repete na comunicação dos Xikrin com os outros grupos de língua Jê.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na aldeia, entre si, os Xikrin usam apenas a própria língua. Homens jovens e que possuem maior oportunidade de contato com a sociedade envolvente falam melhor o português do que os homens velhos, mulheres e crianças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apenas recentemente, linguistas têm se dedicado a estudar essa língua, atentando para as particularidades da fala Xikrin. O Mẽbêngôkre tem uma grafia formulada pela Sociedade Internacional de Linguística (SIL), órgão missionário que atua há décadas entre esses grupos.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Isabelle Vidal Giannini|Isabelle Vidal Giannini]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Localização ==&lt;br /&gt;
Os Xikrin vivem nas Terras Indígenas Cateté e [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3881 Trincheira] Bacajá no estado do Pará.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A área dos Xikrin do Cateté é banhada pelos rios Itacaiúnas e Cateté e se situa em terras firmes de mata tropical chamada nesta região de mata de cipó, no interior da jurisdição do município de Parauapebas, mas mais próxima do núcleo urbano de Carajás. É rica em mogno e castanheiras. Nas clareiras, há grande concentração de babaçu e nas regiões pantanosas, ao sul, incidência de buriti. A maior aldeia bem como o posto da Funai, situa-se à margem esquerda do rio Cateté, no lugar denominado pelos indígenas de Pukatingró, onde o rio faz uma curva ampla, com praia e cachoeira rasa. A partir de 1993, iniciou-se a formação de uma nova aldeia, em local denominado pelos índios Djudjê-Kô, com solo fértil para as roças e rico em caça e peixe.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Xikrin do Bacajá vivem à margem esquerda do médio rio Bacajá, afluente da margem direita do Xingu, município José Porfírio. A região é coberta de mata densa. Em 1985, houve cisão e uma parte do grupo estabeleceu-se a montante, na aldeia do Trincheira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Xikrin constroem as suas aldeias perto de um rio ou igarapé, mas em terreno seco e bem drenado. O espaço social constitui-se de uma praça central, com um círculo de casas ao redor, e da mata circundante, com pequenas roças circulares. As casas possuem uma localização física certa e obedecem a uma ordem estável, que é mantida quando constroem uma nova aldeia ou acampamento na floresta. No centro da aldeia, está situada a Casa dos Homens, espaço masculino, político, jurídico e ritual.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Isabelle Vidal Giannini|Isabelle Vidal Giannini]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Cosmologia ==&lt;br /&gt;
O centro do mundo é representado pelo centro do pátio da aldeia circular, onde se desenvolvem os rituais e a vida pública em geral. O símbolo do centro do mundo e do universo é o maracá, instrumento musical, redondo e em forma de cabeça, ao som do qual os índios cantam e dançam seguindo um traçado circular que acompanha a trajetória solar. Dançando, os índios dizem que remontam ao tempo das origens míticas, recriando assim a energia necessária à continuidade e estabilidade do meio ambiente e dos recursos necessários à sobrevivência, à reprodução continua da vida e das diferentes instituições sociais que garantem o equilíbrio indispensável à vida em comunidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Xikrin definem espaços naturais distintos: a terra, dividida em clareira e floresta, o céu, o mundo aquático e o mundo subterrâneo. Estes são concebidos com atributos e habitantes distintos e se relacionam entre si de maneira diferenciada. Os espaços naturais são os diferentes domínios que compõem o cosmo. A floresta é a morada de diferentes categorias étnicas inimigas, dos animais terrestres e também das plantas. Ela é o espaço da caça prestigiada, como no caso da anta, jabuti, tatu, queixada. Mas a apropriação indevida, sem regras, do mundo animal, causa a fúria de uma entidade sobrenatural, o dono-controlador dos animais que, por meio do feitiço, regula a ação predatória dos homens. Por outro lado, é da floresta que provêm atributos importantes da sociabilidade Xikrin. Foi neste domínio que, no tempo das origens, os índios se apoderaram do fogo e da linguagem cerimonial. A floresta é vista como um espaço físico compartilhado por animais e inimigos: é um espaço competitivo, agressivo. Nas situações de doenças, é o domínio com o qual não se deve ter contato.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Mulheres preparando o alimento ritual no forno de pedra ki. Foto: Isabelle Vidal Giannini-ISA, 1996&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/main.php?g2_view=core.DownloadItem&amp;amp;amp;g2_itemId=239053&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A neutralização da agressividade é realizada na clareira, lugar da aldeia e das roças, por meio de espécies animais domesticadas e das plantas cultivadas. A clareira é o lugar das relações de parentesco e aliança, da socialização do indivíduo, enfim, da definição da humanidade Xikrin. No domínio aquático, encontra-se a possibilidade do fortalecimento dos aspectos físicos e psicológicos do indivíduo. A água faz amadurecer rapidamente através de rituais de imersão, sem, porém, alterar a substância do ser. A água é um elemento da criação, contrariamente ao fogo, elemento da transformação. Neste domínio, existe também um dono-controlador. Sua relação com os homens é de solidariedade e, no tempo mítico, marca o início das relações entre os homens e os outros domínios. Foi o dono-controlador do mundo aquático que ensinou aos homens a cura das doenças. As plantas medicinais são do domínio terrestre, mas seu conhecimento e as regras de sua manipulação para o benefício dos homens foram adquiridos no mundo aquático pela mediação de um xamã e de sua relação com o dono-controlador deste domínio. O mundo subterrâneo está relacionado ao sangue, ao comer cru, ao canibalismo, representando a condição verdadeiramente anti-social, em que os homens são presas e não predadores. Ele representa aquilo que os homens não querem ser. No domínio do céu, o Leste é o lugar da humanidade por excelência, o lugar de origem dos Xikrin. Os Xikrin possuem dois mitos que os consagram como habitantes da terra, em oposição ao céu (''Koikwa''), de onde provêm, e em oposição aos habitantes subterrâneos, que eles conseguiram eliminar para sempre (''kuben kamrik'').&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Do ponto de vista geográfico, reconhecem dois pontos cardeais: Leste (''Koikwa-krai'') e o Oeste (''Koikwa-enhôt''). O Leste é uma região bem definida, localizada geograficamente. Trata-se do lugar de origem dos Mëbengôkré, como indica a mitologia. O Oeste é simplesmente um ponto de referência convencional de delimitação do espaço, em oposição ao Leste, mas, por não ser definido, ninguém poderia situá-lo. Segundo os índios, representa o fim do mundo. A região a leste dos rios Araguaia e Tocantins é apresentada como um espaço mítico, limitado por uma imensa teia de aranha que desce do céu até a terra. Do outro lado desta teia de aranha encontra-se a moradia do gavião-real, ''ok-kaikrit, ''iniciador do xamã.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Isabelle Vidal Giannini|Isabelle Vidal Giannini]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Xamanismo ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Desenho Xikrin&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/239057-1/xikrin_4.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na sociedade Xikrin, um indivíduo se torna xamã quando vivencia uma situação-limite, durante a qual transpõe uma grande teia de aranha, atinge o espaço celeste, da luz eterna, e tem sua nuca simbolicamente perfurada por um gavião-real, a maior ave deste ecossistema. O xamã, ser sobre-humano, e cujos poderes são adquiridos “extra-socialmente”, é o mediador entre a sociedade Xikrin e a natureza e entre a sociedade Xikrin e o sobrenatural. O xamã tem o poder de transitar tanto no mundo dos homens como no mundo da natureza. Os humanos, ao longo de suas vidas, acumulam atributos de diferentes domínios cósmicos e se constroem por meio deles. O xamã vivencia, compartilha e se comunica continuamente com estes domínios. Ele detém o papel de intermediador por excelência. O xamã é um ser pleno: vive na sociedade dos homens, compartilha da sociedade dos animais, do sobrenatural e tem a capacidade de manipular os diferentes domínios. Ele pode, entre tantos outros atributos, negociar com os donos-controladores do mundo animal, uma boa caçada ou uma farta pescaria. Ele é iniciado pelo gavião-real, habitante do mundo celeste, adquirindo assim, a capacidade de voar e, voando, possui uma visão cósmica do universo. Diz-se, entre os Xikrin, que o xamã, indivíduo que também manipula doenças e resgata a alma que se perdeu do corpo, consegue “ver” no sentido amplo: enxerga o que é invisível aos homens. O xamã, acreditam os Xikrin, vê excepcionalmente bem e somente ele e as aves possuem esta faculdade desenvolvida.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Isabelle Vidal Giannini|Isabelle Vidal Giannini]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Vida cerimonial ==&lt;br /&gt;
Quando uma comunidade conta com um número suficiente de pessoas, recursos humanos, o ciclo de rituais é contínuo. Durante os rituais, os indivíduos tomam conhecimento das relações de parentesco, das relações de amizade formal, das propriedades de cada indivíduo, isto é, de aspectos da organização e reprodução social. O canto, a coreografia e os ornamentos, dos quais os homens se apropriaram no tempo das origens, são reproduzidos no ritual como manifestações da situação atual da humanidade no cosmo.  Durante os preparativos, os homens saem por quinze dias ou mais em busca de carne suficiente para realizar um ritual. Na mata, constroem abrigos simples, onde serão atadas as redes. Isto ocorre perto de um rio, para a pesca, e de uma roça antiga, para a caça e coleta de frutas. Vários fornos de pedra assam, diariamente, as carnes nobres e que serão, depois de prontas, envoltas em folhas de bananeira selvagem e, enterradas, aguardarão o dia de levantar acampamento e retornar à aldeia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Enquanto os homens caçam, as mulheres ficam na aldeia, preparando a farinha de mandioca, colhendo batata doce e coletando inúmeros cachos de bananas que serão consumidos durante o ritual. As bananas, enterradas para maturar, funcionam, de certa forma, como um relógio natural que indicará o dia do ritual. Os mais importantes são os de nominação masculinas (Bep, Takak) e femininas (Bekwe, Ire, Nhiok, Payn, Koko) e os de iniciação masculina, constituído por cinco fases, cada uma delas relacionadas simbolicamente a um domínio cósmico específico. Estes rituais são por vezes inseridos em outros, como a festa do milho novo ou o ''merêrêmei'', “festa bonita”, que se realiza na época de transição entre a seca e a estação chuvosa; as festas que incorporam novos membros em uma sociedade cerimonial, como a dos tatus – ''Apieti ''–; o ritual de casamento ou festa da esteira; os rituais funerários e a pesca ritualizada do timbó.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
=== Outras leituras ===&lt;br /&gt;
Texto de Isabelle Vidal Giannini sobre a &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;/files/file/PIB_institucional/O_ritual_sete_de_setembro.pdf&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;Festa de sete de setembro&amp;lt;/htmltag&amp;gt; na aldeia Cateté&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há ainda rituais introduzidos recentemente, o ''Kworo-kango'', ou a festa da mandioca, de origem Juruna. Homens e mulheres desenvolvem suas festas separada ou conjuntamente. Os rapazes são submetidos a uma grande variedade de provas iniciatórias: a briga contra um ninho de marimbondos, que simboliza uma aldeia inimiga, corridas e escarificações nas pernas para aumentar a agilidade, duelos com espadas pesadas ou jogos competitivos.  Em certas épocas, o ciclo ritual atinge seu clímax e se desenvolve, durante alguns dias, com grande intensidade e em grande estilo. Na vida cerimonial, encontra-se também um local privilegiado de expressão dos modos como eles refletem sobre relações que vêm mantendo com o mundo dos brancos&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Isabelle Vidal Giannini|Isabelle Vidal Giannini]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Organização social ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Mulheres Xikrin pintando com espátula e jenipapo.&lt;br /&gt;
Fotos: Vincent Carelli-ISA e Michel Pellanders-ISA&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/239061-1/xikrin_5.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O grupo doméstico, constituído por pessoas que vivem sob o mesmo teto, é uma instituição básica. Uma mulher nasce, vive e morre na mesma casa. As casas, assim como as roças, pertencem às mulheres. Após o casamento, o homem vai viver na casa de sua esposa. As mulheres de uma casa desenvolvem atividades em conjunto. Cabe-lhes o trabalho na época do plantio, a colheita diária de tubérculos para a alimentação, o abastecimento de lenha e água, assim como parte da coleta da floresta. São responsáveis pelas tarefas domésticas como processar e cozinhar os alimentos e cuidar dos filhos. Dedicam também grande tempo à pintura corporal, atividade extremamente desenvolvida, fiam o algodão e desempenham papel importante durante os rituais. Ainda que não participem formalmente do Conselho, opinam sobre as discussões coletivas e decidem sobre os assuntos relacionados à nominação e casamentos.&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
=== Outras leituras ===&lt;br /&gt;
&amp;lt;htmltag href=&amp;quot;/files/file/PIB_verbetes/xirkin/A_pintura_corporal_xikrin.pdf&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;A Pintura Corporal e a Arte Gráfica&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, texto de Lux Vidal .&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As questões de ordem política são propostas e resolvidas no conselho dos homens, no centro da aldeia, do qual participam todos os homens, desde os mais jovens, testemunhas silenciosas, até os mais idosos, testemunhas mais distantes. A incorporação de um jovem na casa dos homens se dá por volta dos dez anos de idade, por meio de laços de amizade que não têm nada a ver com os laços de parentesco. Desde o momento de sua introdução na casa dos homens até o nascimento de seu primeiro filho um jovem passa por diferentes categorias de idade. O nascimento de um filho marca o momento em que o jovem passa a ser um adulto. A casa dos homens está associada aos grupos masculinos e as atividades tipicamente reservadas aos homens. Nela, diferentes grupos, divididos por categoria de idade, se reúnem, ocupando espaços distintos. Cada categoria conta com um chefe que atende e expressa os anseios de seu grupo. É muito difícil ter um chefe que administre a aldeia inteira sozinho.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Foto: Michel Pellanders-ISA&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/284749-1/xikrin_16.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A sucessão à chefia da aldeia, entre os Xikrin, se dá dentro de uma mesma família, transmitindo-se de pai para filho e de filho mais velho a filho mais moço. Os homens geralmente trabalham sob a direção de um chefe, divididos em categorias de idade. Mas para ser um chefe, é necessário um aprendizado que leve ao pleno conhecimento dos rituais, cantos, atividade cotidianas, práticas de guerra, mitos e história do grupo. Um chefe não dispõe de meios coercitivos para impor uma decisão às diferentes categorias de idade. É por meio do discurso, da exaltação dos valores morais e dos interesses destes grupos que um chefe consegue propor e ter aceitas as suas idéias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um chefe nunca toma uma decisão sozinho, ele não tem o poder para isso. Ele deve estar atento às necessidades, vontades e idéias que circulam no interior de cada grupo de categoria de idade, e logo que ele enxergar um possível consenso, o chefe deve formulá-lo de forma que todos o apoiem, como se a ideia fosse sua. No caso de discórdia, a categoria de idade dos mais velhos é consultada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A caça e a pesca podem ser atividades individuais ou coletivas. Cabe a eles a confecção da maior parte dos ornamentos corporais, cestaria esteiras, instrumentos musicais, bordunas, arcos e flechas. Em certas ocasiões, os grupos de idade se definem de modo mais visível, como durante a vida nômade, quando cada categoria se dedica a atividades específicas, ou durante certos rituais ou competições esportivas. Muitas vezes eles se dividem em metades (jovens versus casados) e desempenham várias atividades econômicas, políticas e cerimoniais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Todo indivíduo sabe se relacionar com os outros indivíduos da aldeia por meio da terminologia de parentesco. Os membros de uma mesma família ou de um segmento residencial, incluindo parentes afins, formam unidades de apoio mútuo, no convívio cotidiano e em caso de doença.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As relações de nominação são importantíssimas. Receber um nome faz parte de um longo processo de socialização do indivíduo. No decorrer de sua vida, uma pessoa chega a acumular trinta e cinco nomes, transmitidos pela categoria de nominadores e que inclui várias posições genealógicas. Um nome só pode ser transmitido cerimonialmente para um indivíduo considerado “duro”, com seu corpo formado e sadio. Os nomes, além de relacionarem os homens entre si através dos ancestrais, os relacionam com os diferentes domínios da natureza. A nominação pode ser perigosa para uma criança que ainda não sabe andar ou para uma pessoa doente.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Isabelle Vidal Giannini|Isabelle Vidal Giannini]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Histórias de cisões e ocupação territorial ==&lt;br /&gt;
A configuração atual dos grupos Mẽbêngôkre resulta de um longo processo de mobilidade social e espacial, marcado pela constante formação de facções e cisões políticas. As histórias dessas trajetórias cheias de tensões, conflitos, acusações de feitiçaria e epopeias de líderes, povoam a memória dos Mẽbêngôkre atuais, sempre contadas e recontadas dramaticamente e detalhadamente pelos mais velhos.  Após sua cisão do grupo ancestral Apinayé,  ocorrida aproximadamente no começo do século XVIII e após ter atravessado o rio Araguaia, os Mẽbêngôkre cindiram-se no final daquele século. O grupo original permaneceu ocupando a região do Pau d´Arco, afluente do Araguaia e o grupo denominado Pore-kru, ancestral dos atuais Xikrin, rumou em direção ao norte, para a região do rio Parauapebas e Itacaiúnas. Mais tarde, esse grupo cindiu-se em dois: os Kokorekré que ficaram na região do rio Parauapebas e os Put-Karôt, que se deslocaram para a região do rio Cateté, no Alto Itacaiúnas. Os Kokorekre (Kokorekré), que começaram a estabelecer relações de troca com os regionais que subiam o Parauapebas, também foram vitimados por doenças, além de sofrer por volta de 1910, uma pesada matança por parte de uma expedição punitiva de regionais. Com a exploração da borracha, as relações dos Put-Karôt com os regionais deterioraram-se e os índios retiraram-se do Cateté para as cabeceiras do Itacaiúnas. Foi nesta aldeia que um grupo debilitado do Kokorekré se juntou aos Put-Karôt. Por volta de 1926, com medo dos Kayapó-Gorotire, com quem tiveram um longo período de hostilidade, eles migraram para o norte e se instalaram na região do rio Bacajá. Pouco depois, entre 1930 e 1940, um grupo que não se agradara com o lugar, separou-se e voltou para o rio Cateté.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Calcula-se a chegada dos Xikrin na região do Bacajá como tendo ocorrido em 1926 ou 1927. Quando chegaram ao Bacajá, perambularam bastante pelas duas margens do rio, erguendo diversas aldeias e enfrentando, em alguns momentos, os [[Povo:Araweté|Araweté]], os Asurini e os [[Povo:Parakanã|Parakanã]]. Os confrontos com esses últimos são mais recentes e todos os adultos se lembram deles.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Isabelle Vidal Giannini|Isabelle Vidal Giannini]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Contato com não-índios e população ==&lt;br /&gt;
O primeiro contato formal dos Xikrin do Cateté com não-índios foi em agosto de 1952, no Posto Las Casas, do SPI, próximo à vila de Conceição do Araguaia. O contato dos sertanistas do SPI com os Xikrin do Bacajá deu-se no dia 13 de novembro de 1959, quase na foz do Igarapé Golosa com o rio Bacajá. Foram vitimados por epidemias que ocasionaram muitas mortes, e os índios embrenharam-se novamente nas matas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1961, outra frente do SPI os contatou no Igarapé Carapanã na margem direita do Bacajá, onde possuíam uma grande aldeia. Tempos depois os Xikrin estabeleceram-se junto ao antigo posto do SPI, chamado Francisco Meirelles, abaixo do igarapé dois irmãos. Em 1965, finalmente, foram transferidos para o local da atual aldeia, chamado Flor do Caucho. Não existem dados populacionais confiáveis para esta época. Sabe-se, entretanto, que houve uma grande mortandade. Gripe, bronco-pneumonia e outras doenças atingiram ambos os grupos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas últimas duas décadas, porém, os dados demográficos demonstram que os Xikrin têm tido crescimento populacional constante, devido ao grande número de nascimentos, ao lado do número reduzido de morte de adultos e da redução considerável da mortalidade infantil. Isto se deve ao abandono de certos tabus de controle de natalidade e à assistência do órgão oficial indigenista. Para se ter uma ideia, a população Xikrin que, em 1985, era de 472 indivíduos, 304 na área Cateté e 172 na área Bacajá, contava em 2001 com 1052 indivíduos, 690 no Cateté e 362 no Bacajá.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Isabelle Vidal Giannini|Isabelle Vidal Giannini]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Uso dos recursos naturais ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Festa por ocasião de saída da primeira safra de madeira da Terra Indígena Xikrin do Cateté. Foto: Pedro Martinelli-2000, ISA&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/239089-1/xikrin_11.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O uso dos recursos naturais é extremamente diversificado. Os Xikrin conhecem e distinguem, em detalhes, a fauna e a flora. Eles reconhecem não somente a diversidade biológica (variedade de espécies da fauna e da flora) como também a diversidade ecológica (variedade de ecossistemas). A conservação pela sociedade Xikrin da diversidade biológica e ecológica é de extrema importância para a perpetuação social dos conhecimentos classificatórios e simbólicos e da utilização pragmática do meio ambiente. Os Xikrin definem-se como essencialmente caçadores, apesar de sua dependência dos produtos da roça. As caças mais apreciadas são a anta, a queixada, o veado, o caititu, a paca e a cotia. Pegam jabutis em grandes quantidades e desentocam tatu. Ultimamente, algumas aves entraram no cardápio, o que representa uma novidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias espécies de peixes fazem parte da alimentação. Pescam no inverno com linha de nylon e anzol. No verão, prevalece a pesca comunitária com timbó. Atualmente percebe-se uma diminuição significativa dos recursos pesqueiros. Os problemas são causados pelo fato de todas as cabeceiras de rios que banham a Terra Xikrin do Cateté estarem fora da área demarcada. Esses rios passam por área de garimpo, grandes extensões de fazenda onde a proteção da mata ciliar não é respeitada, causando seu assoreamento gradativo. Por outro lado, os índios que antigamente eram possuidores de imensos territórios (dimensionado por infinita continuidade), exploravam apenas parte dos seus recursos naturais disponíveis. Hoje, estes recursos não se apresentam mais como inesgotáveis.   &lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Nilto Tatto em reunião no centro da aldeia com a comunidade Xikrin. Foto: Pedro Martinelli, 2000.&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/284514-1/xikrin_13.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hábito de perambulação pela área, além de diversificar a dieta, permite um manejo muito bem planejado de diversos ecossistemas. Muitos rituais dependem destas perambulações, essenciais para o aprovisionamento de alimento para promover as cerimônias e de outros produtos não encontrados no entorno da aldeia. Por exemplo, as coités para confecção de maracás cerimoniais, somente encontradas nos campos da cabeceira do rio Itacaiúnas, plantas medicinais, fibras, cera de abelha, almécega, penas de aves. Da floresta, coletam para o consumo o palmito, a castanha-do-pará, o coco babaçu e cocos menores, diferentes qualidades de mel, frutas silvestres (açaí, bacaba, frutão, cupuaçu, cacau bravo, etc...) e larva de coco.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Coletam também toda a matéria-prima necessária para a sua cultura material, especialmente madeiras, cipós, palhas, além de conchas, caramujos e sementes diversas. Mas, o que se percebe é que existe uma diminuição quantitativa da matéria-prima utilizada pelos Xikrin no seu cotidiano ou para confecção dos ornamentos e, sendo assim, assistimos à substituição de conchas de itã por botões, sementes diversas por miçangas, unhas de veado e anta por sinos de metal. As mulheres Xikrin passaram a produzir uma maior quantidade de óleo de babaçu, produto trocado por penas de aves com outros Mẽbêngôkre.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar das mudanças drásticas e rápidas às quais são submetidos, os Xikrin continuam realizando a agricultura de coivara e plantando várias qualidades de batata-doce, inhame, macaxeira, milho, abóbora, mamão, bananas e algodão. O preparo do terreno para o cultivo divide-se em três fases sucessivas: a broca e a derrubada (maio e junho), a queimada e o plantio (outubro). As roças, mesmo após serem abandonadas para o cultivo são fontes de aprovisionamento, durante um longo período de tempo, de diversos produtos, como lenha, batata doce, frutos, jenipapo e urucum (utilizado na pintura corporal), babaçu (para óleo) e plantas medicinais, espécies plantadas ao redor das casas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante estas últimas décadas, mesmo com suas terras demarcadas, as áreas Xikrin têm sido alvo constante de invasões por parte de castanheiros, garimpeiros, fazendeiros ou madeireiros. O contato, as mudanças e adaptações formam uma espiral que, de dentro para fora, se amplia rapidamente causando mais impactos e onde as soluções somente podem ser vistas através de uma nova forma de manejo.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Visita dos ministros da justiça e do meio ambiente na ocasião da primeira safra de madeira. Foto: Pedro Martinelli, 2000.&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/284516-1/xikrin_14.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1991, os Xikrin do Cateté, deixaram de ser seduzidos e cooptados por regionais e retomaram o controle de seu território. Por meio de um apoio externo contínuo, eles articularam e ganharam uma ação civil pública contra empresas madeireiras, que atuavam ilegalmente em seu território, e desenvolveram um plano de manejo florestal, cuja função principal é de concatenar atividades tradicionais de subsistência e o uso tradicional dos recursos naturais, com atividades de exploração comercial de produtos florestais, tais como castanha-do-pará e madeira.  Para a defesa dos direitos de seu povo e para facilitar as articulações e parcerias institucionais, os Xikrin do Cateté criaram, em 1995, a Associação Bep-Nói. O seu estatuto, amplamente discutido pela comunidade, respeita a sua complexa organização social (Leia mais sobre o Projeto de Exploração Madeireira na [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3646 TI Xikrin do Cateté]).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Xikrin do Bacajá fazem anualmente uma coleta de castanha-do-pará, que vendem a comerciantes em Altamira. Geralmente, essa atividade é auxiliada pela Funai, que fornece novos facões (para a quebra do resistente ouriço onde se encontram as castanhas), munição, redes, mosquiteiros e roupas, e cuida do transporte e da venda, retornando aos índios o lucro. Essa atividade, no entanto, não tem se mostrado muito rentável, apesar da grande extensão de castanhais na reserva Trincheira-Bacajá; o preço da castanha é baixo, e a Funai debita dos lucros os materiais que fornecera para a coleta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
=== Outras leituras ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Artigo &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;/files/file/PIB_verbetes/xirkin/projeto_exploracao_madeireira_xikrin.pdf&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;Para entender o projeto de exploração madeireira na TI Xikrin&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, por Isabelle Vidal Giannini publicado no livro ''Povos Indígenas no Brasil 1996-2000''&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
Mais rentável, embora ilegal, é a extração de madeira, especialmente mogno, mas também cedro. A cada verão, quando se torna possível, pela ausência de chuvas, a retirada das toras, os Xikrin são assediados por madeireiros para explorar o mogno. Esses madeireiros costumam ser sediados em Tucumã, e têm como intermediários pessoas com grande experiência anterior de negociação com comunidades Kayapó. Há alguns anos, madeireiros abriram uma estrada que parte da margem do Bacajá oposta à da aldeia e vai a Tucumã, tendo diversos ramais. A exploração de madeira está cada vez mais próxima da aldeia, e tem causado um grande estrago à floresta. Discutir com os índios, porém, é uma tarefa difícil, já que eles se mostram cientes dos riscos à floresta e à caça, mas são seduzidos pela renda. A madeira é paga em mantimentos, e há indícios de que alguns homens monopolizam a renda monetária, depositando-a em contas bancárias. A Funai e a Polícia Federal têm organizado vários flagrantes a essa atividade, não conseguindo, porém, dar um fim a ela.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Isabelle Vidal Giannini|Isabelle Vidal Giannini]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Educação tradicional ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Foto: Vincent Carelli-ISA, 1973.&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/284523-1/xikrin_15.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O ensino tradicional dá-se por meio da convivência e da observação participante. Os adultos orientam, corrigem e às vezes ensinam de modo mais sistemático, cantos, coreografias e seqüências rituais a turmas de meninos e meninas. Nota-se a importância pedagógica da repetição e da participação nos diferentes acontecimentos. Um indivíduo, com marcada inclinação para desempenhar uma atividade específica, aprende de modo mais contínuo com aquele que é um especialista reconhecido naquela atividade. As meninas aprendem a pintura corporal em casa, com parentes adultas.  Os mitos são contados pelos velhos, sob forma de conto, de drama ou de discurso político. Existem punições, ou melhor, algum tipo de pressão por parte de parentes e da comunidade com relação a comportamentos desviantes, especialmente através do ridículo ou de um ligeiro ostracismo. O trabalho bem feito ou o comportamento considerado adequado é publicamente louvado e admirado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
=== Outras leituras ===&lt;br /&gt;
&amp;lt;htmltag href=&amp;quot;/files/file/PIB_verbetes/xirkin/ser_crianca.pdf&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;Ser criança, crescer e aprender como um Xikrin&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, texto escrito pela antropóloga Clarice Cohn&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A educação procede por etapas que, grosso modo, correspondem às categorias de idade e à divisão sexual de atividades. Devido a aptidões pessoais, alguns indivíduos são especialistas para atividades como a de  xamã, cantador ou artesão. Aceitar tal função é ter a reconhecida capacidade de desempenhá-la. O pretendente a xamã precisa passar por uma doença grave, sonhar bastante e ser instruído por outro xamã mais velho. Os cantadores herdam sua função de seus nominadores. Aqueles que possuem alguma habilidade artesanal mais pronunciada procuram a companhia dos velhos e bons artesãos para aprender com eles.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Isabelle Vidal Giannini|Isabelle Vidal Giannini]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nota sobre as fontes ==&lt;br /&gt;
O texto acima é uma tentativa de síntese das fontes de informações existentes sobre os Xikrin. Na bibliografia etnológica, a monografia ''Morte e Vida de uma Sociedade Indígena Brasileira'', de Lux Vidal, publicada em 1977, é referência obrigatória para quem quer estudar a sociedade Xikrin. Ela descreve de forma detalhada esta sociedade enfatizando a organização social, o sistema de categorias de idade, as relações de parentesco, de amizade formal, papéis cerimoniais, as oposições entre centro/periferia, homem/mulher, natureza/cultura. Realiza uma análise sobre as relações entre nominadores e nominados, transmissão de prerrogativas, assim como a organização social por meio de um estudo de rituais de imposição de nomes. Entre os anos de 1978-1986, Vidal escreveu artigos importantes sobre o significado da ornamentação corporal. Dentre eles, “Pintura e adornos corporais”, publicado na  ''SUMA Etnológica Brasileira'', organizado por Berta Ribeiro, e  “A pintura corporal e a arte gráfica entre os Kayapó-Xikrin do Cateté”,  publicado na coletânea ''Grafismo Indígena'', organizada pela própria autora. A autora também escreveu um artigo sobre as categorias de idade como sistema de classificação e controle demográfico de grupos entre os Xikrin do Cateté e de como são manipulados em diferentes contextos. Este artigo pode ser encontrado na ''Revista do Museu Paulista'', vol. XXIII. O assunto da morte e da saudade, sentimento tão presente entre os Xikrin, foi abordado pela autora em um artigo denominado “A morte entre os índios Kayapó”,  publicado no livro ''A Morte e os Mortos na Sociedade Brasileira'', organizado por José de Souza Martins.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como referência das décadas de 1960 e 1970, temos ainda a obra de padre Caron (1971) sobre os índios Xikrin, escrita sob forma de diário, registro de sua atuação missionária, no período de 1964 a 1970. Além das notas de Protásio Frikel contendo plantas e detalhes da construção da casa Xikrin, na época do contato, assim como descrições dos equipamentos e as técnicas de subsistência utilizados pelos mesmos. Horace Barnner, em seu artigo publicado em 1961, no ''Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi'', aborda a vida dos Xikrin em seu acampamento e suas relações com os regionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1991, Isabelle Giannini escreveu sua dissertação de mestrado intitulada ''A ave resgatada: a impossibilidade da leveza do ser'', cujo foco centrou-se no estudo da etnoclassificação da avifauna pelos Xikrin do Cateté e do simbolismo das aves nos vários campos da vida social em que são significativas. Em 2000, Fabíola Andéas da Silva defendeu uma tese de doutorado intitulada'' As tecnologias e seus significados: um estudo da cerâmica Assurini do Xingu e da cestaria dos [[Povo:Kayapó Xikrin|Kayapó Xikrin]] sob uma perspectiva etno-arqueológica''. A autora busca demonstrar que os processos produtivos da cultura material não são, exclusivamente, um indicador da adaptabilidade ou da eficiência do homem na resolução dos problemas originados da sua relação com o mundo material, mas sim uma construção social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em artigos publicados em ''Povos Indígenas no Brasil'' (1991/1995 e 1996/2000), Giannini aborda questões mais atuais sobre o modelo predatório e ilegal de exploração de madeira e a defesa do manejo sustentável pelos Xikrin do Cateté. Estas mesmas publicações contêm artigos sobre a exploração de madeira e o garimpo na área indígena Xikrin do Bacajá, assinados pelo antropólogo William Fisher. Este autor escreveu, em 1991, a dissertação ''Dualism and its discontents: social organization na village fissioning among the Xikrin Kayapó of Central-Brazil,'' e, em 2000, publicou o livro ''Rainforest exchanges: industry and community on amazonian frontier''. Este último aborda as relações entre a sociedade Xikrin do Bacajá e o seu meio ambiente. Clarice Cohn em sua recente dissertação de mestrado ''A criança indígena: a concepção Xikrin de infância e aprendizado'' investiga o modo como os Xikrin do Bacajá concebem a infância e o aprendizado. Para tanto, parte de uma descrição da experiência das crianças, na vida cotidiana e nos rituais, e das ocasiões e modos de ensino e aprendizado, de maneira a perceber o que neles há de específico.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Isabelle Vidal Giannini|Isabelle Vidal Giannini]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
* ARAWETÉ/Parakanã/Xikrin do Bacajá/Assurini/Kararaô : Ação civil pública de responsabilidade por danos ambientais causados pelas empresas madeireiras que exploravam ilegalmente as AIs Araweté.Igarapé Ipixuna, Apyterewa e Trincheira Bacajá. In: ARAÚJO LEITÃO, Ana Valéria Araújo (Org.). A defesa dos direitos indígenas no judiciário : ações propostas pelo Núcleo de Direitos Indígenas. São Paulo : Instituto Socioambiental, 1995. p. 335-442.&lt;br /&gt;
* BASTOS, Rafael José de Menezes. Música nas terras baixas da América do Sul : ensaio a partir da escuta de um disco de música Xikrin. Anuário Antropológico, Rio de Janeiro : Tempo Brasileiro, n. 95, p. 261-63, 1996.&lt;br /&gt;
* BIDOIA, Beatriz Gulli. Identificação dos haplótipos do gene globina beta em uma população indígena brasileira miscigenada (Kayapó Xikrin-PA). São Paulo : Unifesp/EPM, 1998. (Dissertacao de Mestrado)&lt;br /&gt;
* COHN, Clarice. Crescendo como um Xikrin : uma analise da infância e do desenvolvimento infantil entre os Kayapó-Xikrin do Bacajá. Rev. de Antropologia, São Paulo : USP, v. 43, n. 2, p. 195-233, 2000.&lt;br /&gt;
* --------. A criança indígena : a concepção Xikrin de infância e aprendizado. São Paulo : USP, 2000. 185 p. (Dissertação de Mestrado)&lt;br /&gt;
* --------. A experiência da infância e o aprendizado entre os Xikrin. In: SILVA, Aracy Lopes da; MACEDO, Ana Vera Lopes da Silva; NUNES, Ângela (Orgs.). Crianças indígenas : ensaios antropológicos. São Paulo : Global ; Mari-USP, 2002. p. 117-49. (Antropologia e Educacao)&lt;br /&gt;
* FISHER, Bill. Xikrin do Bacajá : no centro da predação. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1991/1995. São Paulo : Instituto Socioambiental, 1996. p. 399-401.&lt;br /&gt;
* FISHER, William H. Dualism and its discontents : social process and village fissioning among the Xikrin-Kayapó of central Brazil. Cornell : Cornell University, 1991. 509 p. (Tese de Doutorado)&lt;br /&gt;
* --------. Perfil do ambiente no cotidiano dos Xikrin. In: SANTOS, Leinad Ayer O.; ANDRADE, Lúcia M. M. de. As hidrelétricas do Xingu e os povos indígenas. São Paulo : CPI, 1988. p. 166-71.&lt;br /&gt;
* --------. Rain forest exchanges : industry and community on an Amazonian frontier. Washington : Smithsonian Institution Press, 2000. 234 p. (Smithsonian Séries in Ethnographic Inquiry)&lt;br /&gt;
* FRIKEL, Protásio. Notas sobre a situação atual dos índios Xikrín do rio Cateté. In: SCHADEN, Egon. Leituras de etnologia brasileira. São Paulo : Companhia Editôra Nacional, 1976. p. 435-47.&lt;br /&gt;
* --------. Notas sobre os Xikrin do Cateté. Rev. do Museu Paulista, São Paulo : Museu Paulista, n.14, n.s., 1968.&lt;br /&gt;
* GIANNINI, Isabelle Vidal. A ave resgatada : &amp;quot;A impossibilidade da leveza do ser&amp;quot;. São Paulo : USP, 1991. 205 p. (Dissertação de Mestrado)&lt;br /&gt;
* --------. A construção do novo com os índios Xikrin. In: LIMA, Antônio Carlos de Souza; BARROSO-HOFFMANN, Maria (Orgs.). Etnodesenvolvimento e políticas públicas : bases para uma nova política indigenista. Rio de Janeiro : Contra Capa Livraria, 2002. p. 107-26.&lt;br /&gt;
* --------. A dimensão educativa do projeto de manejo socioambiental na área indígena Xikrin do Cateté. In: SILVA, Aracy Lopes da; FERREIRA, Mariana Kawall Leal (Orgs.). Antropologia, história e educação : a questão indígena e a escola. São Paulo : Global, 2001. p.223-37.&lt;br /&gt;
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* Kaben Djuoi : Manejo florestal na Terra Indígena Xikrin do Cateté. Dir.: Isabelle Vidal Giannini. Vídeo Cor, VHS, 15 min., 2001. Prod.: Instituto Socioambiental; Associação Bep-Noi&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
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{{DISPLAYTITLE:Mẽbengôkre Xikrin}}&lt;br /&gt;
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[[Categoria:Povos indígenas no Pará]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
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		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Kajkwakratxi_(Tapayuna)&amp;diff=8514</id>
		<title>Povo:Kajkwakratxi (Tapayuna)</title>
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		<updated>2025-09-15T19:52:45Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
Precisamos amansar os brancos, que são muito selvagens.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esta era uma frase bastante ouvida pelos missionários jesuítas durante contatos com os Tapayuna (1).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
 |Meninas tapayuna na aldeia Kawêretxikô (TI Capoto-Jarina). Foto: Beatriz de Almeida Matos, 2010.&lt;br /&gt;
 |http://img.socioambiental.org/d/691860-3/Eventos+-+0117e.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Tapayuna viviam originariamente na região do rio Arinos, próxima ao município de Diamantino, no Mato Grosso. Havia em seu território tradicional uma diversidade de recursos naturais, como seringueiras, minérios e madeiras, e por este motivo foi usurpado inúmeras vezes por seringueiros, garimpeiros e madeireiros, entre outros invasores não indígenas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na década de 1970, o grupo foi vítima de um envenenamento com a carne de uma anta, oferecida aos índios por invasores. Os 41 sobreviventes foram transferidos para o [[Povo:Xingu | Parque Indígena do Xingu]], vivendo primeiramente na aldeia dos [[Povo:Kisêdjê | Kĩsêdjê]] (mais conhecidos como Suyá), que também falam uma língua da família Jê.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos anos 1980, com a morte de um importante líder e pajé, uma parte do povo Tapayuna foi morar com os Mebengôkrê (&amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/kayapo&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Kayapó&amp;lt;/htmltag&amp;gt;), na &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/caracterizacao.php?id_arp=3641&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;Terra Indígena Capoto-Jarina&amp;lt;/htmltag&amp;gt;. O fato dos Tapayuna morarem em aldeias kĩsêdjê e mebengôkrê provocou o enfraquecimento da sua língua e cultura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2010, a população foi estimada em cerca de 160 pessoas que estavam distribuídas em aldeias na &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/caracterizacao.php?id_arp=4103&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;Terra Indígena Wawi&amp;lt;/htmltag&amp;gt; e na Terra Indígena Capoto-Jarina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
=== Notas ===&lt;br /&gt;
(1) &amp;quot;Beiço-de-Pau não atira para matar&amp;quot; (Gontran da Veiga Jardim). In: ''Correio da Manhã'', 05/10/1967.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nomes ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
 |Transportando mel. Foto: João Américo Peret, 1969.&lt;br /&gt;
 |http://img.socioambiental.org/d/691779-3/TPF0012r.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
São chamados de Tapayuna os índios que habitavam os afluentes da margem esquerda do alto curso do rio Arinos. O nome foi mencionado por Bartolomé Bossi, viajante do rio Arinos, no século 19; e por Nicoláo Badariotti, explorador do norte do Mato Grosso, no fim do mesmo século.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
“Una tribu feroz que se llama Tapañuna, domina el desierto desde el rio de los Patos hasta las inmediaciones del salto augusto, y esos Indios atacan com frecuencia las canoas” (Bartolomé Bossi, 1863).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
“Zozoiaça explicou-me, como poucas luas antes os Parecis haviam alli travado renhido combate contra a tribu los Tapanhunas, e que haviam sido derrotados... Zozoiaça que tomara parte no combate, descrevendo os Tapanhunas, diziam que são negros, de aspecto horrível e que urram como feras” (Nicaláo Badariotti, 1898).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como os homens tapayuna sempre apareceram com uma roda de madeira no lábio inferior, foram chamados pela frente pioneira de Beiço-de-Pau, o único nome pelo qual eram conhecidos na região do rio Arinos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Tapayuna se autodenominam ''Kajkwakratxi'' que significa “tronco do céu”, pois este povo vivia na direção onde fica o sol nascente.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Localização e População ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
 |Gravações de atividades do Projeto História Tapayuna. Aldeia Kawêretxikô (TI Capoto-Jarina). Foto: Beatriz Matos, 2010.&lt;br /&gt;
 |http://img.socioambiental.org/d/692684-2/Eventos+-+0148_corte.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Tapayuna vivem desde meados da década de 1980 no [[Povo:Xingu | Parque Indígena do Xingu]] e nas terras indígenas &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://ti.socioambiental.org/pt-br/#!/pt-br/terras-indigenas/4103&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;Wawi&amp;lt;/htmltag&amp;gt; e &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://ti.socioambiental.org/pt-br/#!/pt-br/terras-indigenas/3641&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;Capoto-Jarina&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, esta última território dos &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/kayapo&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Mebengôkrê&amp;lt;/htmltag&amp;gt; (mais conhecidos como Kayapó).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo a reportagem do ''Jornal do Brasil'' de 20 de novembro de 1967, o Padre Odílio Pedro Lunkes estimou em 700 o número de Tapayuna na região do rio Arinos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
De acordo com notícias veiculadas no ''O Globo'' (15/04/1969) e no ''O Cruzeiro'' (19/06/1969), o sertanista da Funai, José Américo Peret, durante um reconhecimento aéreo da região do rio Arinos, revelou a existência de pelo menos 11 malocas, cada uma com aproximadamente 150 pessoas, totalizando uma população com mais de mil indivíduos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O antropólogo Anthony Seeger (1974), por outro lado, estimou, por meio de genealogias, uma população de cerca de 400 indivíduos à época dos primeiros contatos com expedicionários da Funai.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1995, a população tapayuna no Parque Indígena do Xingu era de 58 pessoas (Escola Paulista de Medicina). Em 2006, segundo o levantamento demográfico realizado nas aldeias Ngojhwêrê e Ngosôkô (TI Wawi) por Kamani Kĩsêdjê havia 57 indivíduos tapayuna ou com ascendência mista, de Tapayuna e [[Povo:Kisêdjê | Kisêdjê]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já na aldeia Kawêretxikô (TI Capoto-Jarina), na margem esquerda do rio Xingu, havia 98 pessoas em 2010.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
De acordo com a estimativa feita por Ropkrãse Suiá e Teptanti Suiá, em 2010, os Tapayuna somavam cerca de 160 indivíduos, incluindo as populações das duas terras, Wawi e Capoto-Jarina.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
 |Atividades do Projeto História Tapayuna. Aldeia Kawêretxikô (TI Capoto-Jarina). Foto: Beatriz de Almeida Matos, 2010.&lt;br /&gt;
 |http://img.socioambiental.org/d/691914-4/Eventos+-+0121e.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A língua tapajúna pertence à família Jê, a qual faz parte do tronco linguístico Macro-Jê.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conforme Seeger (1980), os Tapayuna, também conhecidos como Suyá Ocidentais, falam uma língua virtualmente idêntica à dos [[Povo:Kisêdjê | Kĩsêdjê]], Suyá Orientais. No entanto existem evidências de que essas duas línguas são próximas, porém apresentam diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Algumas análises apontam que o Tapayuna é uma variante dialetal do Suyá. Porém devido à ausência de estudos sobre a primeira, não são totalmente conhecidas as semelhanças e diferenças entre as duas línguas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Tapayuna tiveram um contato considerável com os Kĩsêjdê e com os &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/kayapo&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Mebengôkrê&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, e assim sua língua sofreu grande influência das línguas faladas por estes povos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2008, era falada por apenas 40 Tapayuna residentes na &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://ti.socioambiental.org/pt-br/#!/pt-br/terras-indigenas/3641&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;TI Capoto-Jarina&amp;lt;/htmltag&amp;gt;. Em 2010, havia 97 falantes na aldeia Kawêrêtxikô (na mesma TI). Além desses, a língua é falada por pessoas que vivem na aldeia Ngosôkô, no [[Povo:Xingu | Parque Indígena do Xingu]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo Maria Cristina Cabral Troncarelli (2011), na aldeia kĩsêdjê (&amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://ti.socioambiental.org/pt-br/#!/pt-br/terras-indigenas/4103&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;TI Wawi&amp;lt;/htmltag&amp;gt;) - com exceção de algumas pessoas mais velhas - os jovens e crianças tapayuna falam somente o Suyá, que é a língua corrente na aldeia, pois seus pais e parentes se casaram com pessoas kĩsêdjê. Os jovens têm mostrado interesse em aprender o Tapayuna e desenvolver projetos voltados para sua revitalização.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Situação na TI Capoto-Jarina ===&lt;br /&gt;
A língua tapayuna encontra-se em uma situação de atrito linguístico, ou seja, é falada- em um espaço onde já existe uma língua majoritária, o Mebengôkrê (Kayapó). Como essas são línguas semelhantes geneticamente e estruturalmente parecidas (pois são da mesma família linguística), o Mebengôkrê influencia diretamente os falantes da língua tapayuna. Esses, por sua vez, ou sabem falar as duas línguas ou apenas compreendem o Mebengôkrê. Além disso, observa-se também a presença da língua portuguesa, pois os professores indígenas saem para estudar fora e têm o contato direto com um ambiente em que o Português é falado prioritariamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em trabalho de campo realizado na aldeia Metyktire, em 1988, Seki registrou a troca de alguns dados lexicais do Tapayuna por dados lexicais da língua Suyá. Esta troca é também constatada por Santos, em 1991-1992. Com base nestes fatos, Seki (em comunicação pessoal) levantou a hipótese de que, mesmo após a mudança para o Metyktire, nos primeiros anos ainda predominava entre os Tapayuna a influência da língua Suyá (falada pelos Kĩsêdjê).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É oportuno lembrar que os Kĩsêdjê sofreram influência dos povos do alto Xingu, particularmente dos [[Povo:Kamaiurá | Kamayurá]], mas não há evidências de que o mesmo tenha ocorrido com os Tapayuna. Por outro lado, é de se supor que os Tapayuna desconheciam o mingau, e assim emprestaram o termo usado pelos Kĩsêdjê.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o passar do tempo a influência da língua Suyá foi sendo cada vez menor, porém sem deixar de existir, mesmo porque há índios tapayuna vivendo em aldeias kĩsêdjê.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A proximidade entre as línguas, agravada pelo contato e pelo fato de os Tapayuna constituírem um povo minoritário sob forte influência de outros mais fortes, configura uma situação de grande pressão sobre a língua.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi possível verificar que os próprios falantes não tinham consciência da interferência das outras duas línguas. A constatação desse fato deixou evidente a necessidade de um trabalho de conscientização dos Tapayuna com relação à sua língua. Esta consciência foi despertada em decorrência do trabalho feito nas últimas etapas do “Curso de Formação de Professores”, que teve início em 1997.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Estudos sobre a Língua ===&lt;br /&gt;
Os trabalhos relacionados à língua tapayuna são escassos e fragmentários e nenhum deles apresenta uma análise fonológica ou gramatical mais detalhada. Seki (1989) fez uma comparação preliminar de itens lexicais desta língua com os da língua Suyá e com os do Proto-Jê. O trabalho de Santos (1997) contém um breve estudo de aspectos da fonologia tapayuna em comparação com os da língua suyá. O trabalho de C. Rodrigues e Ferreira (2007) apresenta algumas considerações sobre a reconstrução da língua, e Camargo (2004 e 2008) trata questões relacionadas à elaboração de um banco de dados lexicográficos com a utilização do programa computacional ''Toolbox'', e inclui um anexo com uma amostra contendo termos de fauna e flora da língua.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além do material reunido por Nayara da Silva Camargo, há conjuntos de dados, ainda inéditos, coletados por Seki (1989), por Santos (1991-1992), por Ferreira (2003, 2004, 2005 e 2006) foram disponibilizados para o trabalho dessa linguista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Existem alguns materiais esparsos sobre o Tapayuna, sendo a grande maioria de cunho antropológico ou histórico. Dentre os trabalhos feitos por missionários e antropólogos incluem-se: relatos históricos realizados por missionários em meados de 1967; o artigo de Pereira (1967-1968), publicado na Revista de Antropologia; estudos realizados por Bossi (1863) sobre grupos indígenas no Mato Grosso. Informações importantes sobre os Tapayuna são encontradas no trabalho de Seeger (1981).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Revitalização linguística ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
 |Atividades de registro do Projeto História Tapayuna. Aldeia Kawêretxikô (TI Capoto-Jarina). Foto: Beatriz de Almeida Matos, 2010.&lt;br /&gt;
 |http://img.socioambiental.org/d/691866-3/Eventos+-+0201e.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi a partir de sua participação no “Curso de Formação de Professores” que os Tapayuna demonstraram um grande interesse em conservar sua língua. No entanto, não se trata de uma tarefa fácil depois de tantos anos de convivência com povos mais populosos ([[Povo:Kisêdjê | Kĩsêdjê]] e &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/kayapo&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Mebengôkrê&amp;lt;/htmltag&amp;gt;) e que falam línguas próximas entre si.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É interessante observar que a interferência das línguas Suyá e Mebengôkrê manifesta-se mais frequentemente na fala de informantes adultos com idade aproximada de 40 anos. Os mais velhos, embora falem com interferência, conhecem também os termos tapayuna, aos quais se referem como “palavras dos antigos”. Assim, interferem firmemente no esclarecimento de dados, corrigindo os mais novos. São momentos em que se desenvolvem discussões a respeito de qual termo é realmente da língua tapayuna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A proximidade dessas três línguas e a grande influência que o Mebengôkrê e o Suyá exercem sobre os falantes da língua tapayuna representam dificuldades para a análise da língua, especialmente porque não há registros desta língua feitos em período anterior à transferência dos Tapayuna para o Xingu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até 2000, jovens e crianças tapayuna e mebengôkrê da escola da aldeia Mebengôkrê estudavam o Mebengôkrê e o Português, além de outras disciplinas. Havia o empenho para que os alunos tapayuna estudassem a própria língua, mas não se mostraram interessados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1997 foi iniciado o “Curso de Formação de Professores Mebengôkrê, Panará e Tapayuna”, promovido pela &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/c/politicas-indigenistas/orgao-indigenista-oficial/funai&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Funai&amp;lt;/htmltag&amp;gt; e sob responsabilidade de Maria Eliza Leite. Entre os objetivos do curso estava o estímulo ao trabalho com as línguas indígenas, contando com a assessoria de linguistas, e a valorização da cultura tradicional. Para isso, contou-se com a participação dos mais velhos e de lideranças de cada grupo. Contaram mitos, falaram sobre a história do povo, suas tradições, e a importância de manterem sua língua e sua cultura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Convidados a participar no “Curso de Formação de Professores”, os Tapayuna se recusaram, pois não queriam se identificar como tais, e assim rejeitavam o trabalho com sua língua, manifestando o desejo de aprenderem o Português e outras matérias relacionadas ao mundo dos não índios.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por outro lado, ainda não havia estudos linguísticos que subsidiassem a elaboração de materiais didáticos para o trabalho com a língua tapayuna na escola e no curso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esta situação começou a mudar a partir de 2000, quando os Tapayuna manifestaram o desejo de ter um linguista para assessorá-los no trabalho com a língua. Foi a partir deste ano que o grupo passou a integrar o curso junto com os Mebengôkrê e os [[Povo:Panará | Panará]]. Nos dois anos seguintes, os linguistas Ludoviko dos Santos e Marcelo Cazeta de Oliveira (Universidade Estadual de Londrina) participaram como assessores dos Tapayuna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No período de 2003 a 2006, Marília Ferreira (Universidade Federal do Pará) atuou como assessora linguística dos Tapayuna. Grande parte do trabalho então desenvolvido esteve voltada para a coleta de dados linguísticos que possibilitassem a elaboração de um sistema de escrita e de materiais didáticos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na etapa do curso realizada em 2007, os Tapayuna foram auxiliados por Lucy Seki (assessora linguística dos Mebengôkrê). Neste trabalho foi feito o esboço de um primeiro material didático na língua tapayuna. Houve um grande esforço de conscientizar os participantes quanto à importância de diferenciar sua língua do Mebengôkrê e do Suyá. O material resultou no primeiro livro de alfabetização na língua, o que deixou os Tapayuna muito orgulhosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2008, por solicitação dos Tapayuna, a assessoria linguística ao grupo passou a ser feita por Nayara da Silva Camargo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2010, 45 jovens e crianças tapayuna estavam estudando sua própria língua.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Primeiros contatos ==&lt;br /&gt;
O contato dos Tapayuna (ou Beiço de Pau, como eram conhecidos na época) com os não indígenas foi, sem dúvida, trágico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a década de 1940, as notícias sobre esse povo vinham de outros grupos: [[Povo:Paresí | Paresí]], [[Povo:Iranxe Manoki | Iranxe]], [[Povo:Rikbaktsá | Rikbaktsa]], [[Povo:Kaiabi | Kaiabi]] e [[Povo:Apiaká | Apiaká]]. Os Tapayuna viviam nas margens do rio Arinos e do rio do Sangue, norte do Mato Grosso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante décadas combateram a invasão de suas terras e foram, por sua vez, agredidos: tiveram suas aldeias queimadas e sua população assassinada. Com a intensificação da exploração da borracha na região do rio Arinos, desencadeou-se uma série de conflitos com seringueiros e seringalistas que adentravam seus domínios.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1953, houve um envenenamento com açúcar misturado com arsênico, deixado na beira de um córrego, a mando de um seringalista de Diamantino (MT). Mas a dizimação não aconteceu apenas ao longo do rio Arinos. Com a avanço sobre as terras dos Tapayuna, através da abertura de estradas, as lutas se intensificaram.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1964, com o apoio de índios Iranxe e Paresí, o padre Adalberto Pereira, da Prelazia de Diamantino, deu início aos trabalhos de contato com os Tapayuna. Naquele mesmo ano, sobre o espigão que atravessa a região dos rios Sangue e Arinos, teve início a abertura de uma estrada particular que ligaria uma fazenda a BR-29. Mais de 30 homens faziam parte do grupo de trabalhadores. Ao chegarem na região dos Tapayuna, começaram os conflitos. Até o fim de 1964, os índios haviam flechado seis homens, sem matar nenhum deles. Ninguém sabe, porém, quantos indígenas morreram, já que os brancos estavam armados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tendo notícia desses acontecimentos, o padre Adalberto entrou em contato com os responsáveis pela obra e se ofereceu como mediador. Iria tentar “pacificar” os índios, com a condição de que o pessoal da estrada não atirasse mais. No mês de julho de 1964, começou uma série de tentativas de contato.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Frentes de contato da Prelazia de Diamantino ==&lt;br /&gt;
Segue um resumo do relato de Padre Adalberto Pereira, da Prelazia de Diamantino, no qual descreve os trabalhos de “pacificação” empreendidos na região do rio Arinos entre 1958 e 1968.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A frente pioneira nacional foi se intensificando no rio Arinos, a partir sobretudo de 1951. Como em todo o norte do Mato Grosso, o paulista era o maior latifundiário das margens do Arinos. O único móvel [interesse] era econômico: o Tapayuna atrapalhava e causava prejuízo, e tinha que ser removido logo após a pacificação. O pessoal (peões) de contato mais prolongado e imediato com a situação de conflito não admitia solução do problema que não fosse pelo gatilho do revólver.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tal situação motivou a Prelazia de Diamantino a pacificar os Tapayuna. Seu interesse era, além de neutralizar o choque por meio da pacificação, fazer ver à frente expansionista também as necessidades, ou interesses dos índios.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O núcleo pacificador, tendo que agir, infelizmente, em concomitância com o avanço da frente pioneira, com interesses e atitudes opostas, necessitava criar perante o índio uma nota de diferenciação, para se destacar e se contrapor à frente pioneira, por sinais. Para distinguir de algum modo a sua nota característica, os componentes da turma de pacificação ostentavam na roupa e deixavam juntamente com os brindes, sempre, uma bandeira de plástico, que ressaltava em fundo branco, um monograma azul.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
=== Cronologia dos primeiros conflitos com os não indígenas ===&lt;br /&gt;
A linha telegráfica de Rondon, a abertura de estradas e fazendas nas proximidades do alto curso do rio Arinos e a navegação do mesmo rio, intensificada a partir de 1951, criaram nos índios Tapayuna um sentimento de cerco e de aproximação por parte do branco, de onde se originaram conflitos, dos quais destacamos as principais ocorrências.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
'''1931''' – Os Tapayuna atacaram e destruíram o Posto Telegráfico de Parecis, a 80 quilômetros de Diamantino.&lt;br /&gt;
'''1936''' – Ataques a não indígenas que estavam próximos da linha que atravessa o rio do Sangue e de outra, entre Parecis e Barão de Capanema&lt;br /&gt;
'''1937''' – Guardas da linha de Rondon foram atacados na cabeceira do córrego Canta Galo e revidaram, vitimando um Tapayuna.&lt;br /&gt;
'''1945''' – Um guarda da linha Rondon atacado pelos Tapayuna enquanto trabalhava na roça, atirou e matou dois índios.&lt;br /&gt;
'''1948''' – Em maio o Padre Roberto Bannwarth S. J., da Prelazia de Diamantino, esteve nas aldeias dos [[Povo:Iranxe Manoki | Iranxe]], os quais informaram ao padre que foram atacados por índios bravos. Essas investidas tapayuna contra os Iranxe constituem uma das causas da diminuição do já pequeno grupo iranxe.&lt;br /&gt;
'''1951''' – Benedito Bruno Ferreira Lemes, seringalista e duas vezes prefeito de Diamantino, construiu o barracão “Boa Esperança”, na confluência do rio Alegre com o Arinos, para explorar a borracha de ambos. Os Tapayuna, encontrando ocasionalmente o barracão desabitado, queimaram-no. Bruno não persistiu. Propôs-se explorar o látex do baixo curso do rio Arinos, onde se deparou com os índios [[Povo:Rikbaktsá | Rikbaktsa]].&lt;br /&gt;
'''1953''' – A tripulação de um barco de Benedito Bruno, sob a responsabilidade de Marcelo da Cruz, deixou açúcar com arsênico para os índios, no córrego da Barrinha, entre o Miguel de Castro e o Tomé de França.&lt;br /&gt;
'''1955''' – Entrou definitivamente no rio Arinos a Colonizadora Noroeste Matogrossense Ltda. (Conomali), da firma Irmãos Mayer Ltda.,com sede em Santa Rosa (RS) e se fixou a aproximadamente 100 quilômetros abaixo do Tomé de França. A lancha da Conomali tornou-se alvo frequente dos Tapayuna e os peões e até mesmo autoridades policiais, de viagem na lancha, responderam muitas vezes à bala.&lt;br /&gt;
'''1956''' – Em fevereiro o proeiro da lancha de Benedito Bruno foi atingido na perna por uma flecha. Em novembro, engenheiro da Conomali foi alvejado por outra flecha tapayuna. Desde então, a Conomali determinou que nos lugares mais perigosos a lancha transitasse à noite.&lt;br /&gt;
'''1958''' - Um seringueiro foi morto pelos índios e o Padre João Evangelista Dornstauder foi alvejado quando subia ode barco o rio Arinos.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Primeiras tentativas de contato pacífico ===&lt;br /&gt;
A primeira tentativa de pacificação iniciou-se provisoriamente, em fins de 1958 e princípios de 1959, numa ação conjunta da Prelazia de Diamantino, do &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/c/politicas-indigenistas/orgao-indigenista-oficial/o-servico-de-protecao-aos-indios-(spi)&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Serviço de Proteção aos Índios (SPI)&amp;lt;/htmltag&amp;gt; e alguns voluntários.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A turma de pacificação seria mantida até maio pelas empresas interessadas, quando o SPI entraria para um trabalho definitivo. O chefe e orientador desta primeira tentativa era o Padre João Evangelista Dornstauder, que fez base de ação a barra do córrego Miguel de Castro, onde se encontrava a turma de engenharia que media o mesmo córrego. O padre deu ao local o nome de “Acampamento do Caaró”. Viam-se ali os vestígios de um rancho da Conomali (Colonizadora Noroeste Matogrossense Ltda.) destruído pelos índios e de uma feitoria de Benedito Bruno, três vezes queimada por eles.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foram deixados presentes nas roças, caminhos e acampamentos dos Tapayuna, como uma senha de pacificação. Sem contatos diretos com os índios, esta equipe se desfez e a turma do SPI, prometida para maio de 1959, não apareceu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre a primeira e a segunda tentativa, novos conflitos surgiram na região habitada pelos Tapayuna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Germaine Lucie Burchard, em setembro de 1962, iniciou uma estrada pioneira no espigão entre o rio Arinos e o rio do Sangue. No quilômetro 139 a estrada cortou uma trilha dos Tapayuna que ligava, provavelmente, os dois referidos rios. Os índios reagiram e flecharam quatro trabalhadores em datas diferentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1964, ante tal situação, Renzo Michelotto e João Galvão de Almeida, engenheiro e empreiteiro respectivamente da estrada, dirigiram-se ao senhor José Batista, chefe da Inspetoria Regional (Inind) de Cuiabá, solicitando-lhe alguma providência para o caso. Renzo recorreu ao exército, indo ao 16o B. C. de Cuiabá, e recebeu armas pesadas com a recomendação de que se defendesse.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A estrada continuou sob o regime de guarda. Os patrulhadores dos machadeiros [responsáveis pela abertura da estrada] se postavam a alguns metros do local de serviço, com tábuas dependuradas à altura do peito [para se protegerem das flechadas].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Outras tentativas ===&lt;br /&gt;
Ciente da situação, o padre Adalberto Holanda Pereira, da Prelazia de Diamantino, apresentou-se, em 1964, ao chefe da Inspetoria Regional de Cuiabá e pediu permissão para ir no lugar de seus funcionários e continuar o serviço de pacificação começado em 1958.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O método do Padre Adalberto era acompanhar os trabalhadores da estrada e ir deixando presentes juntamente com a senha de pacificação nos lugares estratégicos. Os trabalhadores não tinham a menor compreensão do problema. O assunto era matar os índios e ficar com as mulheres e crianças. Depois de um tempo, o padre se desligaria do serviço da estrada para tomar atitudes mais convenientes à pacificação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Houve encontros rápidos com Tapayuna e foram encontradas várias roças. Em julho de 1964, foi constatado que os presentes deixados em local estratégico haviam sido retirados. A equipe avançou mais um pouco, supondo que a aldeia não estaria longe. Dali a um quilômetro viram a aldeia fumegando. Depois de a queimarem, afastaram-se de lá. Pelo pátio, espalhados, muitos canecos de seringueiros, panelas de ferro, uma borduna velha e mais alguns objetos. Não avançaram mais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Passados dois meses, Padre Adalberto retornou à aldeia e à roça dos Tapayuna, acompanhado de dois índios Iranxe (Maurício Tupsi e Lino Adaxi) e o jesuíta Cláudio Hentz. Os índios haviam voltado para fazer farinha de mandioca e andavam pela estrada. Dias depois encontraram um grupo tapayuna e depois do Padre Adalberto ficar oito minutos com uma flecha apontada para ele, a equipe resolveu voltar para o acampamento da estrada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Quase um ano depois, em setembro de 1965, Adalberto voltou à mesma roça dos Tapayuna. As aldeias haviam desaparecido e as roças já eram capoeiras. Esperou um mês inteiro no acampamento do quilômetro 139, mas os índios não apareceram. O padre decidiu deixar o espigão e operar no rio Arinos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A quarta tentativa se deu ainda em 1965. O Padre começou sobrevoando a margem esquerda do rio Arinos. Localizou uma aldeia nas vertentes do córrego do Barrinha e outra maior nas cabeceiras do córrego Tomé de França, distantes dezenas de quilômetros do rio Arinos. A aldeia do Tomé de França tinha dezessete roças grandes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em fins de dezembro de 1965, o Padre Adalberto entrou pelo rio Arinos, acompanhado do jesuíta Luiz Carballo, João Pereira, Maurício Tupsi (Iranxe) e João Takumã ([[Povo:Kaiabi | Kaiabi]]).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um funcionário que estava trabalhando na medição de uma propriedade entregou ao Padre Adalberto uma carta do Padre Henrique Froehlich datada de 06 janeiro de 1966. O conteúdo era: “Esta apenas tem por finalidade de comunicar que ontem recebi um telegrama veemente do SPI contra a pacificação exigindo que a suspendesse imediatamente. Por enquanto continua até segunda ordem. Saudações”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Houve contatos rápidos com os Tapayuna, trocas de presentes e uma flechas em direção do grupo de pacificação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em Brasília, o Padre Froehlich se entendeu com o chefe geral do SPI no sentido de que a Prelazia de Diamantino continuasse o serviço de pacificação. Em julho de 1966, o chefe da 6a. Inspetoria Regional, Hélio Bucher, mandou expor no Cartório de Diamantino um edital interditando as terras tapayuna, entre os córregos Miguel de Castro e Tomé de França, à penetração de elementos estranhos ao SPI.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em maio de 1967 novas ações de pacificação se iniciaram. Padre Adalberto estava acompanhado agora pelos indígenas Pedro ([[Povo:Paresí | Paresí]]), Inocêncio (Iranxe) e Lino Adaxi (Iranxe) e pelo Padre Antonio Iasi. Nesta ocasião Adalberto foi flechado em sua coxa direita durante sucessivos ataques de flecha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em março de 1968, a &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/c/politicas-indigenistas/orgao-indigenista-oficial/funai&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Funai&amp;lt;/htmltag&amp;gt; autorizou Padre Iasi, então responsável dos Tapayuna por parte da Prelazia de Diamantino, a interferir na área do Arinos, com plenos poderes para promover a aproximação e proteção daqueles índios, com a ressalva de que a 6a IR de Cuiabá estabelecesse um posto sob sua própria jurisdição.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Contatos no fim da década de 1960 ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
 |Guerreiro Beiço-de-Pau sem o disco de madeira - (Hetô). Foto: João Américo Peret, 1969&lt;br /&gt;
 |http://img.socioambiental.org/d/691788-2/TPF0015r.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Quando estavam ensaiando os primeiros contatos pacíficos com não indígenas da região, os Tapayuna receberam dos “civilizados” carne de anta envenenada. Grande parte do grupo morreu. O antropólogo Anthony Seeger gravou, em 1973, o depoimento do Tapayuna Bentugaruru sobre a chacina. A narrativa foi contada por solicitação dos [[Povo:Kisêdjê | Kĩsêdjê]] do Xingu, quando os Tapayuna já se encontravam no [[Povo:Xingu | Parque Indígena do Xingu]]:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
“Eu contei para você como os maus brancos ''kupen'' colocaram algum remédio na anta e todos meus companheiros morreram. Quase todos nós morremos. Os brancos fizeram isso conosco”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os dados levantados pelo Padre Antonio Iasi revelaram aproximadamente 140 índios na época destes primeiros contatos e embora os Tapayuna se mostrassem amigáveis com as frentes de penetração, nunca permitiram que alguém alcançasse suas aldeias mais afastadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1967, finalmente, os Tapayuna, cansados de se defender e doentes, se aproximaram amistosamente de dois barqueiros no rio Arinos, o índio [[Povo:Apiaká | apiaká]] Candido Morimã e Carlos Ferreira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1968, a &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/c/politicas-indigenistas/orgao-indigenista-oficial/funai&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Funai&amp;lt;/htmltag&amp;gt; assumiu o trabalho de assistência aos Tapayuna, que foi coordenado por João Américo Peret.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1969, a direção da Funai autorizou a entrada de um grupo de jornalistas na área tapayuna. Um dos repórteres estava gripado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
ele pegou resfriado fortíssimo. Se ele não for isolado imediatamente, nossa matéria se transformará em: 'Como exterminamos os Beiço-de-Pau'. Uma epidemia de gripe entre eles seria um verdadeiro massacre” (O Cruzeiro, 19/06/1969).&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
 |Imagens dos Tapayuna durante contatos com tripulantes de um barco, na região do rio Arinos. Foto: João Américo Peret, 1969.&lt;br /&gt;
 |http://img.socioambiental.org/d/691782-3/TPF0013r.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A presença do repórter de fato provocou uma epidemia que vitimou mais de 100 pessoas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segue um pequeno trecho de uma reportagem do ''Jornal da Tarde - O Estado de SP'' (14/02/1970) sobre a situação dos Tapayuna logo depois da epidemia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;span style=&amp;quot;background: transparent&amp;quot;&amp;gt;“Poucos dias depois, Padre Iasi pode chegar, não havia ninguém para resistir. Contou 73 cadáveres insepultos e calculou em mais de 100 o número de mortos, porque a tribo tinha quase 200 pessoas. Ele e o irmão Vicente Cañas só conseguiram reunir 40 dos que haviam se espalhado; muitos morreram no mato. Em sinal de luto, os sobreviventes queimaram a aldeia, jogaram fora as armas e partiram com os dois missionários para um novo lugar. Escolheram o pequeno rio Parecis, 200 quilômetros ao sul. Desanimados, só olhavam Iasi e Vicente construírem duas cabanas de pau-a-pique, duas choças de folhas de palmeira e plantarem uma roça de milho”.&amp;lt;/span&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1969, porém, a própria Funai chamou o grupo de missionários jesuítas da Prelazia de Diamantino para trabalhar na recuperação dos sobreviventes. Restaram à época 41 indivíduos em condições lastimáveis, sem roças e sem força para se levantar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No início do ano de 1970, os Tapayuna, fortalecidos, foram transferidos para o &amp;lt;span class=&amp;quot;Object&amp;quot; id=&amp;quot;OBJ_PREFIX_DWT141&amp;quot;&amp;gt;Parque Indígena do Xingu&amp;lt;/span&amp;gt;. Alguns escaparam da transferência e morreram antes que qualquer expedição pudesse recontatá-los.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Parque, os remanescentes foram acolhidos na aldeia dos Kĩsêdjê (também conhecidos como Suyá), mas as consequências das doenças e da transferência reduziram ainda mais o contingente tapayuna, que chegou a 31 indivíduos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em agosto de 1971, teve início a “Operação Tapaiuna ou Beiço de Pau”, realizada pelo sertanista da Funai Antônio de Souza Campinas. O objetivo da “operação” era descobrir a existência de sobreviventes tapayuna na região dos rios Arinos e Sangue e avaliar a necessidade da interdição da área como “reserva indígena”. Nenhum sobrevivente foi encontrado. Havia somente vestígios de uma ocupação recente: aldeias queimadas, objetos quebrados, ossos humanos...&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No dia 9 de junho de 1976, o decreto de número 77.790 extinguiu a “Reserva Indígena Tapayuna”, no município de Diamantino (MT), criada em 8 de outubro de 1968 (Decreto n. 63.368).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segue alguns trechos extraídos do relatório do sertanista Antônio de Souza Campinas (1971).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;quot;Índio Tapaiuna ou Beiço-de-pau não existe mais dentro da Reserva criada para eles. (…) Dentro da reserva já nas águas do rio do Sangue, até mesmo nas águas do rio Arinos, índios por mim desconhecidos fizeram colheitas na época de veraneio.”&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
“O índio Tariri [que acompanhou o sertanista na expedição] pôs as duas mãos na cabeça, depois bateu com a mão direita em cima do coração e nesta altura já estava chorando olhando para os ossos todos fuçados pelos porcos da mata, lembrando que no meio daqueles ossos estavam os ossos da moça que ia ser sua esposa e falou: ''Karái-tán-aiti-nẽnvaine Kẽre, kêtt Kue n'', 'vocês civilizados mataram todos, tudo acabado' ”.&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A ''pacificação'' dos Tapayuna e a imprensa ==&lt;br /&gt;
As primeiras notícias publicadas sobre os Tapayuna são reportagens de jornal que falam de invasões de não indígenas em sua área de ocupação tradicional (rio Arinos). A primeira notícia sobre os Tapayuna é de 1951 e menciona o abandono do seringal no médio rio Arinos por parte dos empregados do seringalista Benedito Bruno por causa dos ataques desse povo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As notícias datadas de 1966 abordam inúmeras ações violentas realizadas na tentativa de usurpar as terras dos Tapayuna. Boa parte baseia-se nos relatos de missionários da Prelazia de Diamantino (veja &amp;quot;&amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/tapayuna/2254&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Frentes de contato da Prelazia de Diamantino&amp;lt;/htmltag&amp;gt;&amp;quot;) que procuram denunciar os massacres e o avanço violento das frentes econômicas, especialmente de caçadores, seringueiros, fazendeiros e de obras de colonização aprovadas pelo governo do Mato Grosso. A situação de cerco vivida pelos Tapayuna foi bastante mencionada. Destaca-se os seguintes acontecimentos no fim da década de 1960: a construção da estrada da Companhia Paulista, por causa das glebas compradas por fazendeiros paulistas no norte do Mato Grosso, causou inúmeros conflitos na região; o avanço dos seringais e a ocupação desenfreada na região apoiada por projetos aprovados pelo Governo do Mato Grosso; o cercamento dos Tapayuna - ao norte estava a Empresa Colonizadora Gaúcha, que explorava os seringais; ao sul, estava a frente de expansão vinda de Cuiabá; a leste, os fazendeiros paulistas; e a oeste, perto do rio do Sangue, a área de ocupação dos [[Povo:Rikbaktsá | Rikbaktsa]], também conhecidos como Canoeiros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1969, foram veiculadas inúmeras notícias sobre a expedição de “pacificação” dos Tapayuna levada a cabo pela &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/c/politicas-indigenistas/orgao-indigenista-oficial/funai&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Funai&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, pois junto com a equipe havia um grupo de jornalistas, enviados especialmente para cobrir os trabalhos de contato.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo reportagem de ''O Cruzeiro'' (19/06/1969), o Ministério do Interior foi obrigado a expropriar em 1968 mais de mil hectares e transformá-los em reserva indígena - em terras destinadas pela União para usufruto dos índios. O objetivo da Funai com esta expedição era verificar o número exato de índios e calcular a área que precisavam para sobreviver, além disso o órgão tinha a intenção de ensinar aos indígenas o cultivo de cereais e a criação de animais. Com isso, sua necessidade de terras ficaria reduzida e permitiria a liberação de áreas para a venda. Com os incentivos fiscais concedidos pelo governo aos proprietários de terra na Amazônia Legal, os investidores foram atraídos para a região onde viviam os Tapayuna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre as reportagens feitas no decorrer da expedição da Funai, destaca-se aquela publicada na revista ''O Cruzeiro'' (19/06/1969), que traz inúmeras fotografias e relatos do cotidiano dos jornalistas no acampamento, além de considerações bastantes equivocadas com relação aos recém contatos. A revista usava frequentemente uma oposição entre a conquista da lua e o contato com os Tapayuna, como se estes estivessem na contramão da “evolução humana”. Segundo a matéria, os Tapayuna estariam em &amp;quot;um estágio de civilização anterior à Pedra Polida&amp;quot; e seriam &amp;quot;antropófagos na Era Espacial&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A seguir, na íntegra, as principais reportagens produzidas pela imprensa brasileira sobre a expedição de “pacificação” dos Tapayuna realizada pela Funai em 1969.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
'''''Jornal do Brasil '''''&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
'''&amp;lt;htmltag href=&amp;quot;/files/file/PIB_verbetes/tapayuna/JB%20pacificacao%20I.pdf&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot;&amp;gt;“A pacificação do beiços-de-pau I: Canibais que gostam de conversar” (03/06/1969).&amp;lt;/htmltag&amp;gt;'''&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
'''&amp;lt;htmltag href=&amp;quot;/files/file/PIB_verbetes/tapayuna/JB%20pacificacao%20II.pdf&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot;&amp;gt;“A pacificação dos Beiços-de-pau II: A difícil comunicação com o civilizado” (04/06/1969).&amp;lt;/htmltag&amp;gt; '''&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
'''&amp;lt;htmltag href=&amp;quot;/files/file/PIB_verbetes/tapayuna/JB%20pacificacao%20III.pdf&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot;&amp;gt;“A pacificação dos Beiços-de-pau III: A boa vizinhança de um rápido contato” (05/06/1969).&amp;lt;/htmltag&amp;gt;'''&amp;lt;span class=&amp;quot;Apple-tab-span&amp;quot; style=&amp;quot;white-space:pre&amp;quot;&amp;gt; &amp;lt;/span&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
'''''Fatos e Fotos'''''&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
'''&amp;lt;htmltag href=&amp;quot;/files/file/PIB_verbetes/tapayuna/Fatos%20e%20Fotos%20na%20terra%20I.pdf&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot;&amp;gt;“Na Terra dos Beiços-de-pau” (26/06/1969). &amp;lt;/htmltag&amp;gt;'''&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
'''&amp;lt;htmltag href=&amp;quot;/files/file/PIB_verbetes/tapayuna/Fatos%20e%20Fotos%20na%20terra%20II.pdf&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot;&amp;gt;&amp;quot;Na Terra dos Beiços-de-pau 2: a longa espera no rio Arinos” (20/07/1969).&amp;lt;/htmltag&amp;gt;'''&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
'''''O Cruzeiro'''''&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
'''&amp;lt;htmltag href=&amp;quot;/files/file/PIB_verbetes/tapayuna/O%20Cruzeiro%201969.pdf&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot;&amp;gt;&amp;quot;Viagem do homem branco ao encontro dos Beiços-de-Pau - os antropófagos dos confins de Mato Grosso. Na terra onde o tempo não passa&amp;quot; (19/06/1969).&amp;lt;/htmltag&amp;gt;'''&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A chegada no Parque do Xingu ==&lt;br /&gt;
Em 1969, em razão de um contato desastroso com os &amp;quot;pacificadores brancos&amp;quot;, 41 sobreviventes tapayuna (mais conhecidos como Beiços-de-Pau) foram removidos de suas terras, entre os rios Arinos e Sangue, para juntarem-se aos [[Povo:Kisêdjê | Kĩsêdjê]] (que na época eram cerca de 65) no [[Povo:Xingu | Parque Indígena do Xingu]]. Mais dez Tapayuna morreram logo depois da transferência, em razão de doenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na perspectiva dos Kĩsêdjê (também chamados de Suyá), contudo, as semelhanças culturais de ambos os grupos mudaram consideravelmente a ênfase de sua cultura. Os Tapayuna olhavam, falavam e agiam como os ancestrais kĩsêdjê. Consequentemente, os Kĩsêdjê sentiram-se mais fortes, mais numerosos e com mais vida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No espaço de um ano, uma nova aldeia foi construída no padrão jê, com um círculo de casas em torno de uma grande praça, na qual encontrava-se a &amp;quot;casa dos homens&amp;quot;, e cerimônias jê foram realizadas. Os Kĩsêdjê e os &amp;quot;Suyá Novos&amp;quot;, como os Tapayuna eram denominados, contaram uns aos outros seus mitos e os comparavam; narravam as cerimônias e descobriram em seus relatos inúmeros pontos em comum.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A atitude kĩsêdjê em relação aos recém-chegados era ambígua. Ao mesmo tempo em que eles eram “os autênticos suyá”, eram considerados &amp;quot;incivilizados&amp;quot; por desconhecerem os costumes e tecnologias dos outros povos do Xingu. Por exemplo, eles não sabiam processar a mandioca no estilo xinguano, nem fazer ou remar em canoas, e falavam de maneira considerada estranha e arcaica, apesar de falarem línguas semelhantes. Por essa razão, eram tratados com considerável humor e lhes eram ensinadas as novas tecnologias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1980, finalmente, os Tapayuna se sentiram suficientemente fortes para construir uma aldeia própria no Parque, localizada acima da confluência do rio Suyá-Missu com o rio Xingu, na margem direita deste. Ficaram entre os Kĩsêdjê apenas alguns órfãos e adultos que tinham se casado com membros do grupo. Boa parte dos Tapayuna foram morar com os Metyktire (subgrupo &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/kayapo&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;kayapó&amp;lt;/htmltag&amp;gt;), na &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://ti.socioambiental.org/pt-br/#!/pt-br/terras-indigenas/3641&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;TI Capoto-Jarina&amp;lt;/htmltag&amp;gt;.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Casamento ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;p class=&amp;quot;MsoNormal&amp;quot;&amp;gt;O pajé mais velho é casado com duas mulheres, sendo que a mais velha é Tapayuna e a mais jovem é Mebengôkrê (conhecidos como &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/kayapo&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Kayapó&amp;lt;/htmltag&amp;gt;). Isto permite levantar a hipótese de que os Tapayuna se casavam com mais de uma esposa, como ocorre com outras etnias. Atualmente, exceção feita ao caso mencionado, os Tapayuna são monogâmicos, assim como os Mebengôkrê.&lt;br /&gt;
&amp;lt;p class=&amp;quot;MsoNormal&amp;quot;&amp;gt;Há vários casos de intercasamento envolvendo Tapayuna e Mebengôkrê.&lt;br /&gt;
&amp;lt;p class=&amp;quot;MsoNormal&amp;quot;&amp;gt;Como mencionado, em acordo com as regras de casamento vigentes entre os Tapayuna, o homem passa a residir na casa do sogro. Devido a esse fator, muitos índios tapayuna moram em casas de família mebengôkrê. São casos como estes que fazem com que a língua tapayuna perca espaço, pois os filhos do casal falam a língua falada pela mãe, o Mebengôkrê. O mesmo ocorre com homens mebengôkrê que se casam com mulheres tapayuna, porém a língua aprendida pelas crianças será o Tapayuna.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Relações com outros povos ==&lt;br /&gt;
Os Tapayuna e os [[Povo:Kisêdjê | Kĩsêdjê]] reconhecem que no passado constituíam um único povo que habitava uma região situada no norte de Goiás ou no Maranhão (ao norte do Mato Grosso). De lá foram para o oeste, estabelecendo-se na região do rio Arinos e rio Sangue.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em um momento não identificado, um subgrupo (Kĩsêdjê) seguiu para o leste, descendo o rio Ronuro até o território do atual [[Povo:Xingu | Parque Indígena do Xingu]], passou pela região dos formadores do Xingu e se estabeleceu posteriormente no rio Suyá Missu. O outro subgrupo (Tapayuna) permaneceu na região do rio Arinos e rio Sangue.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conforme estimativas de Seeger (1977), esses grupos ficaram separados por cerca de 150-200 anos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No contato com os Tapayuna, os Kĩsêdjê logo reconheceram que a língua tapayuna era como a de seus ancestrais. Há muito tempo tinham assimilado vários traços culturais de povos xinguanos, como o uso de redes para dormir, de canoas, técnicas de processamento de mandioca, entre outros, e tratavam os Tapayuna com uma certa superioridade, pois os consideravam “atrasados” por manterem seus antigos costumes. Ao mesmo tempo, a chegada dos Tapayuna despertou nos Kĩsêdjê uma tendência de volta às tradições originais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Tapayuna relatam que no início de 1988, com a morte de um importante chefe e pajé, muitos abandonaram a aldeia kĩsêdjê e buscaram refúgio ao norte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para essa mudança, pediram ajuda ao Megaron, que na época era administrador do Parque Indígena do Xingu. Foi-lhes oferecida uma aldeia na região do rio Jarina, em território mebengôkrê (&amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/kayapo&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;kayapó&amp;lt;/htmltag&amp;gt;), aldeia esta que estava desocupada, mas tinha casas e roças produtivas. Os Tapayuna ficaram pouco tempo ali, pois preferiram se estabelecer na aldeia Metyktire, junto aos Mebengôkrê. Ali ocupavam umas três casas, próximas entre si, situadas atrás da casa de Raoni, líder da aldeia. Durante um bom tempo permaneceram amedrontados e retraídos. Deixaram de praticar suas danças e festas e passaram a participar de danças, festas, caças e atividades típicas dos Mebengôkrê. De fato, os Tapayuna rejeitavam a sua língua e identidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Tapayuna viveram na aldeia Metyktire até o início de 2009. Já em 2004 falavam em construir uma aldeia própria. Seguiu-se a busca, o preparo do local e o plantio de roças. Após a mudança de umas poucas famílias, todos os Tapayuna se transferiram para a nova aldeia. Esta aldeia é denominada ''Kawêrêtxikô'' e está situada à margem esquerda do rio Xingu, dentro da &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/caracterizacao.php?id_arp=3641&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Terra Indígena Capoto-Jarina&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, não muito distante da aldeia Piaraçu, dos Mebengôkrê.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pelas regras de residência vigentes entre os Tapayuna, ao casar-se o homem passa a residir na casa do sogro. Isto acarretou um certo transtorno para homens mebengôkrê casados com mulheres tapayuna que não desejavam deixar sua aldeia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a saída dos Tapayuna da aldeia Metyktire, os Mebengôkrê que lá habitavam resolveram também deixar o local e construíram uma nova aldeia que recebeu o mesmo nome da anterior.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;BADARIOTTI, Nicolas. ''Exploração no norte do Mato Grosso, região do Alto Paraguay e planalto dos Parecis. Apontamentos de História Natural. Ethnographia e impressões pelo padre... salesiano.'' SP. 1898.&lt;br /&gt;
     &amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;BOSSI, Bartolomé. ''Viaje pintoresco por los rios Paraná, Paraguay, Sn. Lorenzo, Cuyabá y el Arino tributário Del grande Amazonas, con la description de la província de Mato Grosso bajo su aspecto físico, geográfico, mineralojico y sus producciones naturales.'' Paris. 1863.&lt;br /&gt;
     &amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;CAMARGO, Nayara da Silva. ''Língua Tapayúna: aspectos sociolinguísticos e uma análise fonológica preliminar.'' Campinas: Unicamp, 2010. (Dissertação de mestrado).&lt;br /&gt;
     &amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;__________. “Elaboração de um Dicionário Bilíngue Tapajúna – Português”. In: ''Estudos Linguísticos.'' São Paulo, 37 (1): 73-82, jan.-abr. 2008.&lt;br /&gt;
     &amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;CAMPINAS, Antonio de Souza. ''Relatório da Operação Tapaiuna ou Beiço de Pau.'' 1971 (ms.)&lt;br /&gt;
     &amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;LEA, Vanessa R. ''Parque Indígena do Xingu : Laudo antropológico: Parque Indígena do Xingu.'' Campinas : Unicamp, 1997. 220 p.&lt;br /&gt;
     &amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;DAVIS I. “Comparative Jê Phonology”. In: Estudos Linguísticos. ''Revista Brasileira de Linguística Teórica e Aplicada.'' São Paulo, 1966, vol. I, n. 2. pp. 10-24.&lt;br /&gt;
     &amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;FRANCHETTO, Bruna. ''Os Tapaiuna (Suyá Ocidentais).'' In: ''Laudo antropológico: a ocupação indígena da região dos formadores e do alto curso do rio Xingu (Parque Indígena do Xingu).'' Abril de 1987, pp. 111-120.&lt;br /&gt;
     &amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MELLO, Octaviano. ''Dicionário Tupi-Português Português-Tupi.'' São Paulo, 1967.&lt;br /&gt;
     &amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;PEREIRA, Adalberto Holanda. “A pacificação dos Tapayunas”. In: ''Revista de Antropologia'', São Paulo, vol. 15-16, 1967-196, pp. 216-227.&lt;br /&gt;
     &amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;Programa de formação de professores mẽbêngôkre, panará e tapajúna e Associação IPHEN-RE de Defesa do Povo Mebengokre. ''Atlas dos territórios mẽbêngôkre, panará e tapajúna.'' 2007.&lt;br /&gt;
     &amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;SEEGER, Anthony. ''Nature and Culture and Their Transformations in the Cosmology and Social Organization of the Suyá, a Ge-Speaking Tribe of Central Brazil.'' Chicago: University of Chicago, 1974. 420 p.&lt;br /&gt;
     &amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;SEEGER, Anthony. ''Bentugaruru tells how members of his village were treacherously poisoned by Whites.'' 03 de janeiro de 1983 (ms.)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== VÍDEOS ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;huzzazWrapper&amp;quot; style=&amp;quot;width:100%; height: 1700px; margin: 0 auto;&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;htmltag allowfullscreen=&amp;quot;&amp;quot; allowtransparency=&amp;quot;true&amp;quot; frameborder=&amp;quot;0&amp;quot; height=&amp;quot;100%&amp;quot; mozallowfullscreen=&amp;quot;&amp;quot; src=&amp;quot;https://huzzaz.com/embed/tapayuna?vpp=12&amp;quot; tagname=&amp;quot;iframe&amp;quot; webkitallowfullscreen=&amp;quot;&amp;quot; width=&amp;quot;100%&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;/htmltag&amp;gt;&amp;lt;/div&amp;gt;&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Categoria:Parque Indígena do Xingu]]&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
Cuidado ao editar esta seção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bloco &amp;quot;&amp;lt;noinclude&amp;gt;&amp;quot; usado para evitar que propriedades sejam propagadas em páginas transcluídas:&lt;br /&gt;
Detalhes em http://www.mediawiki.org/wiki/Transclusion#Semantic_MediaWiki&lt;br /&gt;
--&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Kajkwakratxi (Tapayuna)}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Sobre =Editado a partir dos textos: “A pacificação dos Tapayunas” (1967-1968) de Adalberto Holanda Pereira, dissertação de mestrado &amp;quot;Língua Tapayúna: aspectos sociolinguísticos e uma análise fonológica preliminar&amp;quot; (2010) de Nayara da Silva Camargo, &amp;quot;Os Tapayuna (Suyá Ocidentais)&amp;quot; (1987) de Bruna Franchetto,  &amp;quot;Relatório da Operação Tapaiuna ou Beiço de Pau&amp;quot; (1971) de Antônio de Souza Campinas, verbete Kisêdje (2003), de Anthony Seeger e dados etnográficos coletados por Marcos Wesley de Oliveira.}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
{{#set:Capa=21466782274db85fb6d93dd.jpg}}&lt;br /&gt;
{{#set:Counter=61767}}&lt;br /&gt;
{{#set:Crédito capa=Beatriz de Almeida Matos, 2010}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=2011-03-01}}&lt;br /&gt;
{{#set:Estilo=claro}}&lt;br /&gt;
{{#set:Povo Id=272}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&amp;lt;/p&amp;gt;&amp;lt;/p&amp;gt;&amp;lt;/p&amp;gt;&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas no Mato Grosso]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Canela_Memortumr%C3%A9&amp;diff=8491</id>
		<title>Povo:Canela Memortumré</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Canela_Memortumr%C3%A9&amp;diff=8491"/>
		<updated>2025-09-09T14:23:51Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Canela é o nome pelo qual ficaram conhecidos dois grupos [[Povo:Timbira|Timbira]]: os Memortumré (Ramkokamekrá) e os Apanyekrá. Há diferenças significativas entre esses grupos vizinhos, mas ambos falam a mesma língua e são pautados pelo mesmo repertório cultural. Até a década de 1940, os Ramkokamekrá tinham menor contato com a sociedade nacional e com outros grupos indígenas do que os Apanyekrá. Depois disso, a situação inverteu-se. Não obstante, atualmente ambos grupos têm sofrido uma forte interferência por parte de algumas agências de contato, como Funai, fazendeiros e missionários. Em contrapartida, têm procurado reaver a autonomia de suas atividades produtivas e manter sua vitalidade cultural, expressa por uma complexa vida ritual, práticas xamânicas e intrincada organização social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nome ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Mulher Canela Ramkokamekrá colocando massa de mandioca brava sobre folhas de bananeira. Foto: William Crocker, 1964.&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/282891-1/canela_1.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Canela são compostos das cinco nações remanescentes dos Timbira Orientais, sendo a maior a dos Ramkokamekrá, descendentes dos Kapiekran (como eram conhecidos até 1820). O nome Canela também era utilizado pelos sertanejos para os Apanyekráe os Kenkateye, que foram massacrados e dispersos em 1913. Os Kenkateye separaram-se dos Apanyekrá por volta de 1860.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O grupo Ramkokamekrá atualmente se auto-denomina com o nome português Canela. Ramkokamekrá significa &amp;quot;índios do arvoredo de almécega&amp;quot;. Usam o termo'' Me(n)hi(n) ''para se referir aos &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/etnias-timbira&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot;&amp;gt;Timbira&amp;lt;/htmltag&amp;gt; Orientais. É provável que o nome Canela seja uma referência ao fato desses índios serem visivelmente mais altos - com suas longas pernas -, quando comparados pela população regional a seus vizinhos [[Povo:Guajajara | Guajajara]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O grupo Apanyekrá se auto-denomina como tal. São conhecidos pela bibliografia apenas por esse nome e suas variações ortográficas, ou ainda por Apanyekrá-Canela. Apanyekrá significa &amp;quot;o povo indígena da piranha&amp;quot;. Nimuendajú supõe que eram chamados por esse nome porque pintavam o maxilar inferior de vermelho, remetendo à imagem desse peixe carnívoro.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:William H. Crocker|William H. Crocker]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Língua ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Rapaz Ramkokamekrá da aldeia Escalvado. Ele canta ao redor da aldeia com cocar com penas de arara. Foto: Willian Crocker, 1969.&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/282904-1/canela_3.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Canela e os [[Povo:Krahô|Krahô]] falam uma mesma língua da família Jê, no tronco Macro-Jê, com pequenas variações. Os Canela entendem o Krikati/Pukobyé com facilidade e, certamente, o Gavião do Tocantins. Essas são as principais línguas Timbira orientais que sobreviveram. Já o Apinayé (Timbira Ocidental) é tão diferente do Canela como o espanhol é do português. Um Canela não compreende o [[Povo:Xavante | Xavante]] (Jê Central) ou o [[Povo:Xokleng | Xokleng]] (Jê Meridional), e apresenta muita dificuldade para compreender o Xikrin (Jê setentrional).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Muitos Canela conseguem se expressar em português, mesmo que não o falem corretamente. Os Ramkokamekrá têm maior domínio dessa língua do que os Apanyekrá. Entre aqueles, os homens falam melhor o português do que as mulheres, por contarem com mais experiências urbanas e por praticarem o comércio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
São explícitos os aspectos de dualismo em língua Canela, na medida em que quase todos os verbos possuem duas formas básicas alternadas. Além disso, uma pessoa, quando fala com seu grupo, usa um pronome exclusivo em primeira pessoa do plural, ''me(n)pa'' (nós-nosso grupo); mas quando fala com outro grupo, usa um pronome inclusivo em primeira pessoa do plural wa me(n) (nós, todos nós), como em português. Pronomes, adjetivos e substantivos não são diferenciados por gênero, como em português, mas um sufixo feminino (-''kahãy'') ou masculino (-''tsu(n)m-re'') pode ser adicionado a qualquer substantivo. Existem duas formas de pronome em segunda e terceira pessoas. A forma ka é usada para parentes, cônjuges, amigos informais e a maioria dos outros indivíduos, inclusive membros de outros grupos timbira. O outro pronome, ''yê'', é empregado para estabelecer distância social e respeito com a maioria dos afins e todos os amigos formais. Essa última forma é também usada na segunda e terceira pessoas do plural. Dos 30 fonemas Canela, 17 são vogais, dois são semi-vogais e onze são consoantes. Isso resulta numa quantidade incomum de sons vocálicos transmissores de significados. A língua dos Canela não possui ditongos, mas faz distinção fonêmica entre vogais longas e breves.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:William H. Crocker|William H. Crocker]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Localização ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Vista aérea da aldeia de Escalvado. Foto: Ray Roberts Brown, 1970.&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/282906-1/canela_4.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A principal aldeia ramkokamekrá, Escalvado, é conhecida pelos sertanejos e moradores de Barra do Corda como Aldeia do Ponto e localiza-se em torno de 70 km a sul-sudeste dessa cidade, no estado do Maranhão. A  Terra Indígena Canela hoje está homologada e registrada. Até recentemente, essas terras de cerrado, florestas-galeria e pequenas chapadas ficavam no município de Barra do Corda, mas agora localizam-se no novo município de Fernando Falcão, que se estruturou a partir do crescimento da antiga vila Jenipapo dos Resplandes. O limite sul da Terra Indígena fica em grande parte delimitado pela serra das Alpercatas. O rio Corda corre fora da TI, afastado 20 Km, ao longo do limite noroeste.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Aldeia de Porquinhos. Foto: Jaime Siqueira Jr./CTI, 1993&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/282908-1/canela_5.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No que diz respeito aos Apanyekrá, a regularização da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3829 Terra Indígena Porquinhos] aconteceu no começo da década de 1980. A aldeia principal encontra-se a cerca de 80 Km a sudoeste do município de Barra do Corda e 45 Km a oeste da aldeia ramkokamekrá de Escalvado. Está a leste do município de Grajaú, separada por 75 Km de área de cerrado facilmente transponível.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Enquanto os Ramkokamekrá vivem basicamente em áreas de cerrado com pequenos igarapés, os Apanyekrá têm essa mesma ecologia a leste e sul, contando, no entanto, com extensas florestas a norte e oeste. Possuem também o rio Corda, que em alguns pontos tem oito metros de largura. Os Apanyekrá têm, assim, a vantagem de dispor de melhor solo para a agricultura de coivara e maior abundância de peixes, além da caça na floresta e no cerrado.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:William H. Crocker|William H. Crocker]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Demografia ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Canela Apanyekrá na Aldeia Porquinhos. Foto: Jaime Siqueira Jr./CTI, 1993&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/282911-1/canela_6.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Estima-se que, antes do contato com os &amp;quot;brancos&amp;quot;, as nações timbira viviam em grupos que somavam de mil a 1.500 pessoas. Os grupos menores encontravam problemas para se defender durante as guerras sazonais (junho-agosto).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já os grupos maiores cindiam-se provavelmente devido a conflitos de lideranças. Por volta de 1817, os Kapiekran (ancestrais dos Ramkokamekrá) reduziram-se drasticamente devido a guerras intertribais e varíola. Remanescentes refugiaram-se nos vales de serras, mas se reinstalaram nas terras atuais durante a década de 1840, não havendo registro de sua população nessa época.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nimuendajú contou em torno de 300 indivíduos ramkokamekrá em 1936 e William Crocker, por volta de 412, em 1960. Censos sucessivos registram 437 (1970), 508 (1975), 600 (1979) e 836 (1988). Em 1998, a Funai registrou 1.262 pessoas e, em 2000, 1.387. Em 2001, Crocker e Pareschi computaram 1337.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Quanto aos Apanyekrá, Nimuendajú estimou 130 indivíduos para os em 1929. Crocker contou 205 em 1970, 213 em 1971, e 225 em 1975. Um relatório da Funai lista 458 em 2000.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:William H. Crocker|William H. Crocker]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Histórico do contato ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Rito do Tepjarkwa na aldeia do Escalvado. Foto: Curt Nimuendaju, 1931.&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/282927-1/canela_8.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Kapiekran, ancestrais dos Canela, foram indiretamente contatados por forças militares no fim do século XVII, mas apenas durante a última década do século XVIII efetivamente ocorreram incursões contra sua população e seu modo de vida. Ataques periódicos partiam das milícias locais ou bandeiras, organizadas para tomar e assegurar as terras dos Kapiekran, empregadas na agricultura e criação de gado ao longo dos rios Itapicuru e Alpercatas, a nordeste e oeste de Picos. Dizimados por essas guerras, em 1814, os Kapiekran renderam-se às forças brasileiras da região, em Pastos Bons, em troca de proteção. Seus remanescentes, bem como os de outras várias nações timbira, foram autorizados a se estabelecerem no canto noroeste das terras ancestrais dos Kapiekran. No final de 1830, eles ocupavam por volta de 5% das antigas áreas de coleta desse povo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seguiram-se cem anos de relativa paz e limitados contatos com sertanejos, até que, em 1938, o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) enviou um agente para morar com sua família próximo à aldeia Ramkokramekrá. Esse relacionamento causou-lhes acelerada mudança cultural. O trabalho de campo de Nimuendajú para seu grande estudo sobre os Canela,'' The Eastern Timbira'', foi realizado, felizmente, antes do início desse processo, durante seis visitas entre 1929 e 1936.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O SPI se impôs de tal modo às autoridades indígenas que tornou inoperante a liderança por classe de idade, essencial para garantir a realização anual do trabalho nas roças familiares. Esse enfraquecimento de lideranças contribuiu significativamente para a perda da auto-suficiência da produção agrícola, até os tempos atuais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As tradições culturais também não passaram incólumes ao contato. Em 1951, morreu um importante chefe ramkokramekrá, Hàk-too-kot, grande conhecedor e promotor das tradições Canela. Concomitantemente, nessa época iniciou-se o ensino da escrita. Já na década de 1970, a incipiente assistência de saúde proporcionada pela Funai fez crescer a confiança nos medicamentos farmacêuticos, favorecendo o crescimento populacional. Paralelamente, missionários da Wycliffe Bible Translators traduziram o Novo Testamento para a língua dos Canela e propagaram novos valores entre os Ramkokamekrá.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O movimento milenarista ocorrido entre os Ramkokamekrá em 1963 também contribuiu para o descrédito nas antigas tradições. O fracasso do movimento só fez acentuar esse descrédito, além de os obrigar a se transferirem temporariamente para uma área Guajajara perto de Barra do Corda, de modo a escaparem da vingança dos fazendeiros. Essa mudança forçada para uma zona ecológica diferente os expôs a tipos adversos de agricultura e caça, assim como à convivência com os Guajajara, grupo de língua Tupi, e com a cultura urbana brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A ponte construída sobre o rio Alpercatas em 1956 possibilitou que fossem introduzidos bens comercializáveis relativamente baratos entre os Ramkokamekrá. Tais mercadorias também foram um fator importante na mudança de valores, estimulando um maior investimento no trabalho agrícola direcionado para a obtenção desses bens e favorecendo a riqueza material individual. Nos anos 1990, um projeto destinado a fazer os Ramkokamekrá superarem o período de fome que precedia a colheita promoveu a abertura de grandes roças comunitárias e os convenceu que, trabalhando juntos, poderiam aumentar a produção. Esta, por sua vez, seria vendida na cidade em troca de bens industrializados, seu novo foco cultural.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Moças associadas aos Me Kén, pássaros de água, entre dois homens. Foto: Curt Nimuendaju, 1931.&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/282929-1/canela_9.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira menção aos Apanyekrá data do final da década de 1810, quando são citados pelo militar Francisco de Paula Ribeiro. Parece que eles habitavam a área montanhosa a oeste dos Kapiekran, localizada muito ao norte dos caminhos dos vales de rios utilizados pelos colonos brasileiros (pelo Itapicuru e baixo Alpercatas, e pelos rios Parnaíba e Balsas). Sofriam, assim, menos ataques de jagunços, já que estavam menos expostos que os Kapiekran, que habitavam as terras mais planas a leste e a sul ao longo do Itapicuru e do baixo Alpercatas. No início dos anos 1830, as terras férteis das nascentes do rio Corda e seus arredores foram ocupadas por uma família que criava gado. Os Apanyekrá passaram então a conviver com sertanejos que viviam imediatamente ao sul, o que não aconteceu com os Ramkokamekrá.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Apanyekrá têm histórias muito antigas, provavelmente do século XIX, que relatam uma época na qual estiveram sujeitos ao forte controle de um fazendeiro local. Ele os empregava em sua fazenda e em tarefas de sua casa. Seus jagunços dormiam com suas mulheres. O fazendeiro costumava fornecer gado para festas, nas quais todos dançavam à moda sertaneja (abraçados).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por volta de 1950, o SPI começou a pagar um sertanejo para viver com os Apanyekrá e ali estabelecer um posto. Em contraste com os encarregados do posto Ramkokamekrá daquele tempo, o encarregado dos Apanyekrá era mais respeitoso e discreto em relação aos índios, e os protegia dos fazendeiros. Os Apanyekrá continuaram mudando periodicamente sua aldeia para diferentes locais em suas terras, levando consigo o &amp;quot;posto elementar&amp;quot; e o encarregado. Encontrei sua aldeia na área de Águas Claras em 1958, Porquinhos em 1960, Rancharia em 1966 e 1971, e em outro lugar da área de Porquinhos em 1974 e 1975. Eles não mudaram deste último local desde então, permanecendo próximos ao novo posto da Funai e do prédio da escola com sua enfermaria, ambos construídos em alvenaria e telha no início da década de 1970.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1963, quando os fazendeiros atacaram os Ramkokamekrá, que então se alçavam num movimento messiânico, ameaçaram também tomar as terras dos Apanyekrá. As ameaças continuaram e algumas terras periféricas foram ocupadas por um fazendeiro, o que levou a guarnição militar de engenharia sediada em Barra do Corda a estabelecer uma pista de pouso na área de Porquinhos por volta de 1965, para proteger os índios.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Apanyekrá eram mais isolados do que os Ramkokamekrá não apenas porque aqueles estavam mais distantes de Barra do Corda, mas também porque as florestas ao longo do rio Corda se estendem quase continuamente entre a cidade e Porquinhos, dificultando a construção de uma estrada direta entre as duas. A estrada de Barra do Corda para os Ramkokamekrá, ao contrário, atravessa quase somente florestas de arbustos e cerrados e necessitava de apenas uma ponte, que foi construída em 1971. Por volta de 1978, caminhões que saíam de Barra do Corda para Porquinhos dirigiam-se primeiro para o sul até a aldeia Ramkokamekrá de Escalvado/Ponto, de modo a cruzar o cerrado perto das cabeceiras dos diversos cursos d'água da área em pontes recém-construídas para alcançar Porquinhos.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:William H. Crocker|William H. Crocker]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Organização política ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Em uma festa, líder Canela Ramkokamekrá divide carne de boi entre as famílias na aldeia do Escalvado. Foto: William Crocker, 1959.&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/282931-1/canela_11.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os sistemas de metades e sociedades cerimoniais existentes entre os Canela não apresenta caráter exogâmico, embora o mesmo não possa ser dito com segurança em relação aos Canela do século XVIII. As classes de idade - de afiliação vitalícia - são formadas e iniciadas através de quatro cerimônias. Cada classe de idade consiste em homens nascidos num período em torno de dez anos. Classes de idade formadas consecutivamente sentam-se em lados opostos na praça, leste ou oeste. Assim, classes de idade de homens por volta de seus 10, 30, 50 e 70 anos sentam-se de um lado; enquanto homens em torno de seus 20, 40 e 60 anos sentam-se do outro lado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Quase todas as atividades são executadas por essas metades, ou por classes de idade opostas, competindo entre si: danças e cânticos cerimoniais ou cotidianos, corridas rasas ou com toras, assim como a abertura de roças, caçadas para cerimônias, abertura de estradas ou de picadas sobre a linha divisória da Terra Indígena. A cada 20 anos (dez anos entre os Apanyekrá), a classe ocidental - cujos membros estão se aproximando dos 50 anos de idade - tradicionalmente transfere-se para o centro do pátio, na qualidade de mais velhos, os ''pro-khãm-mã'' (''mikhà'' para os Apanyekrá). Por sua vez, a classe oriental - cujos membros acabaram de passar dos 50 anos de idade - junta-se àquela, formando o conselho dos mais idosos. Os homens da metade oriental aconselham, mas não governam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O conselho dos velhos selecionava o chefe, que costumava governar pela vida inteira. Atualmente ele se mantém no cargo de seis meses a dois anos. O chefe encarrega-se das relações externas e assume a maior parte das iniciativas internas. O conselho dos velhos geralmente o apóia, mas pode exercer sutil oposição e bloquear ou alterar decisões impopulares. A atribuição especial dos mais velhos é planejar e conduzir as extensas festividades.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Cantador apanyekrá. Foto: Jaime Siqueira Jr./CTI, 1993&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/282936-1/canela_13.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Canela são notáveis pelo valor que dão à paz interna no grupo. Palavras de raiva não devem ser expressas no pátio central da aldeia, onde os homens mais velhos se reúnem duas vezes ao dia para resolver problemas e fruir da sociabilidade. Se ali as desavenças internas às famílias extensas não são colocadas, elas serão debatidas e resolvidas em alguma das grandes casas dispostas no círculo da aldeia, onde os tios do queixoso e do acusado agem como representantes de seus sobrinhos ou sobrinhas. Líderes da aldeia e a maior parte dos indivíduos evitam tornar públicas questões contenciosas. Os cilindros auriculares usados pelos homens eram tidos com realçadores da audição e, por conseguinte, de obediência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferentemente dos Ramkokamekrá, que tinham um chefe principal (exceto durante a cisão entre 1957 e 1963), os Apanyekrá tinham três chefes durante os anos 1950 e 1960. Um comandava as situações cotidianas com muita eficiência, mas não poderia ser o chefe principal porque, diziam, era de descendência Kenketeye. Menos eficiente como coordenador de atividades, porém mais prestigiado, era o diretor dos rituais, um grande líder de canto e dança de maracá e um prodigioso contador de histórias. Já o chefe mais velho era o principal interlocutor com o SPI em Barra do Corda e fazia viagens mensais para lá para obter um insignificante salário.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:William H. Crocker|William H. Crocker]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Estrutura familiar ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Three generations of Ramkokamekrá Canela women begin to process manioc. photo: Jean Crocker, 1990.&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/312935-1/canela_ultima.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Canela moram em casas de palha de palmeira ou pau-a-pique, ao estilo sertanejo, construídas em torno de um grande caminho circular com aproximadamente 300 metros de diâmetro, incluídos os pequenos quintais atrás de cada casa. Uma praça com aproximadamente 75 metros de diâmetro fica no centro, e, como raios da circunferência, saem caminhos do pátio central para cada casa. Atrás da maioria das casas localizam-se outras, da mesma família, formando uma segunda fileira e, às vezes, casas mais distantes iniciam uma terceira fileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma mulher - com suas irmãs, mãe, avó e filhas - mora no círculo da aldeia em uma área definida em relação ao nascer do sol, sempre na mesma posição nas sucessivas localidades para as quais se transfere a aldeia. Suas primas, que descendem da mesma mulher ancestral por linha feminina (primas paralelas), moram em casas adjacentes ao longo do círculo da aldeia. Se forem da mesma geração, ela as trata por &amp;quot;irmãs&amp;quot;. Essa mulher chama as mães de suas &amp;quot;irmãs&amp;quot; de &amp;quot;mãe&amp;quot;, e as filhas e filhos de suas &amp;quot;irmãs&amp;quot;, de &amp;quot;filhas&amp;quot; e &amp;quot;filhos&amp;quot;. O arco de casas contíguas em que essas mulheres vivem é chamado de &amp;quot;casa comprida&amp;quot; (''ikhre lùù'').&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Filhos e irmãos de uma mulher casam-se fora de sua própria &amp;quot;casa comprida&amp;quot; e fora daquela de onde vieram seus pais, os pais de suas mães e os pais de seus pais, de modo a evitarem o incesto. Os filhos e filhas desses homens são primos dos filhos e filhas das suas irmãs, que permanecem na casa em que nasceram; mais precisamente, são primos cruzados, uma vez que seus pais são irmãos de sexos opostos. Nesse sistema de relações, um homem ou uma mulher trata o filho da irmã do pai (que vive fora de sua &amp;quot;casa comprida&amp;quot;) por &amp;quot;pai&amp;quot;. Da mesma forma, um homem chama o filho do irmão da mãe de &amp;quot;filho&amp;quot;. Por sua vez, uma mulher chama o filho do irmão da mãe de &amp;quot;sobrinho&amp;quot;, e a irmã deste último, de &amp;quot;sobrinha&amp;quot;. Avós e avôs são igualados terminologicamente às irmãs do pai (tias) e irmãos da mãe (tios), respectivamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Embora os Apanyekrá e os Ramkokamekrá tivessem seguido até então o mesmo padrão de terminologia de parentesco, nos fins da década de 1950 os primeiros abandonaram o uso do termo &amp;quot;pai&amp;quot; para o filho da irmã do pai e para o filho da filha da irmã do pai. Em cada caso, ele se tornou &amp;quot;tio&amp;quot; ou &amp;quot;sobrinho&amp;quot;, conforme um novo princípio determinante, o de idade relativa. Além disso, o parentesco apanyekrá era menos determinado por relações de &amp;quot;sangue&amp;quot; (''kaprôô'') e tendia mais a ser baseado em conveniência ou preferência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O parentesco é reconhecido bilateralmente, apesar da ênfase matrilateral. Não existem clãs, mas apenas um certo número de linhagens isoladas e cerimônias para transmitir o direito de desempenhar certos papéis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No caso dos Apanyekrá, foram registradas várias exceções ao padrão de residência matrilocal. Em contraste, quaisquer exceções entre os Canela me eram explicadas como temporárias.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:William H. Crocker|William H. Crocker]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Relações entre os sexos ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Sogra e cunhada Ramkokamekrá colocando o cinturão ao redor do quadril da esposa nova na aldeia do Escalvado. Foto: William Crocker, 1975.&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/283030-1/canela_14.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um primeiro casamento acontece quando a menina tem em torno de 11 a 13 anos e entrega sua virgindade ao homem de quem ela gosta. No entanto, ela não está definitivamente casada enquanto não engravidar e dar à luz uma criança. Antes de 1975, o casamento era praticamente indissolúvel, mas agora, quando um homem deixa a casa, o que é freqüente, isto é chamado de &amp;quot;divórcio das crianças&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o resguardo, que dura uns 40 dias depois do parto, a mulher convoca seus &amp;quot;outros maridos&amp;quot; para compartilhar do ritual com o marido efetivo. Como ela pode ter praticado sexo cerimonial em série com várias dúzias de homens durante a gravidez, ela identifica de um a quatro desses &amp;quot;outros maridos&amp;quot; como aqueles que contribuíram com uma quantidade suficiente de sêmen para a formação do feto. Esses homens devem cumprir restrições alimentares e sexuais de modo a favorecer o crescimento e saúde da criança. Caso contrário, a criança corre risco de vida. Atualmente, não há mais a identificação desses outros maridos, mas a crença permanece. Conseqüentemente, visando garantir a saúde do bebê, um &amp;quot;outro marido&amp;quot; principal é secretamente avisado sobre a necessidade de observar as restrições alimentares e sexuais, sem que sua esposa tome conhecimento das transgressões dele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As crianças são criadas no ambiente da casa da mãe e irmãs da mulher e todos seus filhos. Antes do contato mais intenso com os padrões ocidentais de sociabilidade, era comum que a mulher deixasse seus filhos com a mãe ou uma das irmãs enquanto ela se ausentava para um caso amoroso.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Criança Canela Ramkokamekrá no interior de uma habitação na aldeia do Escalvado. A cama elevada é de uma moça recém-casada sem filhos, para que apenas seu marido possa vê-la.&lt;br /&gt;
Foto: Willian Crocker, 1969.&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/283032-1/canela_15.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Amigos informais, dessa maneira, podem ter relações sexuais. Essa atividade era praticada tão extensivamente que constituía uma forma muito comum de recreação. Sexo extraconjugal era permitido a todos - exceto entre consangüíneos, amigos formais e certos afins - durante sua prática em série, como requeriam as inúmeras festas anuais. Assim, dependendo da ocasião, um grupo de dez a 80 homens podia praticar sexo - um de cada vez - com um grupo de duas a oito mulheres. Entre os indivíduos, pública ou privadamente, recusar o desejo sexual de outro era difícil, pois tal atitude era tida como avara e anti-social, até mesmo maligna. Homens e mulheres tinham de ser, então, generosos tanto com seus corpos, como com seus simples bens, como cestos, arcos, flechas e comidas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já pessoas aparentadas (como tios e sobrinhas, ou tias e sobrinhos) que não habitavam a mesma casa, não tinham vínculos de nome ou tratamentos prescritos, brincavam quando se encontravam. Porém, parentes muito distantes podiam quebrar o tabu do incesto e então tratar-se como &amp;quot;esposos&amp;quot;. No entanto, essa incomum generosidade sexual foi totalmente perdida em meados dos anos 1980, quando houve um estreitamento do contato com não-índios e que bens industrializados passaram a ser mais facilmente adquiridos e fortemente desejados. Os velhos tempos de prazer foram então se perdendo devido ao aparecimento do ciúmes sexual dos maridos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No âmbito social, os Canela possuem cinco sistemas de metades e, restritos à esfera masculina, seis grupos do pátio central, cinco associações rituais, duas ordens hierarquizadas e cinco agrupamentos de homens que demonstram origens inter-tribais. As mulheres não possuem associações, mas quase todos os grupos masculinos têm duas meninas indicadas como integrantes dessas agremiações masculinas. As mulheres tiram sua própria força em relação aos homens no controle de suas famílias e das redes extensas de parentesco.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Embora o poder entre os sexos estivesse equilibrado a favor dos homens, a situação das mulheres aumentou durante a última metade do século XX. Agora as mulheres também podem ser pintadas no pátio central como chefes cerimoniais. O poder dos homens é melhor considerado quando as ordens e iniciativas partem dos chefes e dos mais velhos. O poder masculino tem origem nas reuniões no pátio e alcança todos os membros da aldeia. Em contrapartida, o poder das mulheres ocorre exclusivamente no interior da casa, através do controle sobre a distribuição de comida para todos os moradores.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:William H. Crocker|William H. Crocker]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Amigos formais e nominação ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Encontro de dois amigos formais apanyekrá. Foto: William Crocker, 1975&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/283034-1/canela_16.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Canela comparam os amigos formais aos compadres e comadres ou padrinhos no sertão. Há um respeito especial entre esses homens e mulheres, que se devem reciprocamente servir, honrar e proteger. Por exemplo, se um bebê cai acidentalmente dentro do fogo, seu principal amigo formal deve encenar o acidente perante os pais, com a possibilidade de se queimar da mesma maneira. Esse ato dramático constrange os pais ante a multidão reunida, de forma que pai e mãe tentarão impedir que o acidente ocorra novamente com seu bebê.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Amigos formais, quase sempre homens, brincam ao se encontrar. Cada um escolhe seu amigo formal no período de iniciação de sua classe de idade. Antigamente eram inseparáveis. Guerreavam juntos, protegiam-se mutuamente e trocavam eventualmente de esposas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em relação à nominação, um homem dá o seu conjunto de nomes ao filho da irmã ou irmã classificatória, enquanto a mulher dá o seu para a filha do irmão uterino ou classificatório. Assim, um irmão e uma irmã, uterinos ou classificatórios, nomeiam os sobrinhos do mesmo sexo. Durante os anos 1970 houve maior troca de nomes entre irmãos classificatórios de sexo oposto do que entre irmãos uterinos. Faz mais sentido aos irmãos classificatórios assim proceder, já que essa instituição estreita as relações entre duas pessoas. Os irmãos uterinos já possuem um relacionamento forte, portanto a troca de nomes não serve para reforçá-lo. Uma conduta alternativa para primos afastados de sexo oposto que se chamam de &amp;quot;irmãos&amp;quot; é manter relações sexuais, o que os torna cônjuges classificatórios, quebrando, conseqüentemente, aquela relação. Mas se, ao invés de o fazerem, eles trocarem nomes, se tornarão quase tão próximos quanto irmãos uterinos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a transmissão de nomes dá-se os ritos cerimoniais e o acesso a papéis. Entre outros Timbira e os Jê Setentrionais, a transmissão de nomes é cerimonialmente muito importante, quando o doador transmite sua persona cerimonial ao receptor. Entre os Canela, entretanto, a transmissão de nomes é menos evidente e significativa, tanto nas práticas cerimoniais como na vida cotidiana do indivíduo. Isso acontece porque a atuação do sistema de metades de classes de idade é muito mais marcante do que os sistemas constituídos de unidades baseadas na transmissão de nomes. Há papéis que nada têm a ver com transmissão de nomes; por exemplo: líderes relacionados a classes de idade e moças associadas a ritos de iniciação, moças ''wè tè'', chefe-visitante intertribal ou membro do grupo dos palhaços.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Apanyekrá tinham mais amigos formais relacionados ao nome pessoal do que os Ramkokamekrá, mas não tinham, como estes, o ritual (''intêê'') para fazer novos amigos formais. Uma pessoa Apanyekrá é enterrada por seus afins. Entre os Ramkokamekrá, são os amigos formais que o fazem.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:William H. Crocker|William H. Crocker]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Atividades produtivas ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Eduarda Canela fazendo berubu (beiju) para um ritual de iniciação masculina na aldeia de Porquinhos. Foto: Jaime Siqueira Jr./CTI, 1993&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/283036-1/canela_17.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As colheitas tradicionais canela incluíam amendoim, milho, batata-doce, inhame, abóbora, feijão-de-corda (''Phaselous sp''.), mandioca-brava (''wayput-re''), macaxeira, algodão, cabaças e outros produtos. Os gêneros mais comuns hoje - a mandioca, arroz e feijão - foram adotados depois do contato com a sociedade nacional, bem como banana, laranja, manga, melancia, abacaxi, mamão, tabaco, cana-de-açúcar e outros itens. Entre os Ramkokamekrá, nas pequenas florestas-galeria de sua terra, roças ribeirinhas eram abertas com machados de pedra e queimadas. Essas roças tradicionais produziam menos de 25% do alimento, enquanto coleta, pesca e caça supriam o resto. No final dos anos 1830, o reassentamento em áreas que representavam por volta de 5% das terras que ocupavam obrigou os Ramkokamekrá a praticar mais extensivamente o sistema de roças de coivara, de acordo com o modelo regional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final dos anos 1940, a economia de ambos os grupos tornou-se deficiente, dependendo de apoio externo para se manter. Passaram a depender significativamente dos alimentos fornecidos pela agência indigenista e praticar o sistema de &amp;quot;meia&amp;quot; com os moradores, trabalhando em suas terras para ficar com metade da produção. No início de 1990, no entanto, entre os ramkokamekrá as roças voltaram produzir alimento suficiente para sua sobrevivência. Eles continuam, no entanto, a ter uma produção insuficiente nos magros meses que vão de setembro a dezembro. As roças começam a produzir em janeiro e o ápice da produção se dá com a colheita de arroz no mês de maio. Já os Apanyekrá não alcançaram esse retorno à auto-suficiência, entretanto mantiveram mais plantas nativas que os Ramkokamekrá e cultivavam suas roças de modo menos influenciado por métodos sertanejos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O desafio enfrentado atualmente pelos Canela Ramkokamekrá consiste em garantir uma produção suficiente de alimentos de forma que os gêneros disponíveis não terminem em setembro. Assim, eles não teriam que consumir as primeiras raízes de mandioca, com apenas um ano de crescimento, e portanto pouco desenvolvidas. Com a produção suficiente de mandioca, poderiam consumir apenas as raízes cultivadas há dois ou três anos. Algumas famílias vêm procurando produzir um excedente que possa ser comercializado com os sertanejos ou nos mercados das cidades.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Canela Ramkokamekrá espalham pedras quentes com varas compridas antes de jogar berabas de mandioca sobre elas.&lt;br /&gt;
Foto: William Crocker, 1960.&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/283039-1/canela_18.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Felizmente, por enquanto as matas ribeirinhas existentes na Terra Indígena apresentam-se como possibilidade de sustento para a população ramkokamekrá em expansão, por meio da prática da agricultura de coivara. Uma fonte adicional de renda são as pensões dos aposentados pelo Funrural, que se tornaram uma ajuda econômica significativa a partir da década de 1980. Além disto, há vários aposentados por razões de saúde, mães que recebem ajuda e estudantes bolsistas. Até o final dos anos 1990, existiam em torno de 60 a 70 pensionistas na aldeia Escalvado. Adicionalmente, em 2001 existiam oito índios ramkokamekrá empregados na Funai (Fundação Nacional do Índio), três na Funasa (Fundação Nacional de Saúde) e quatro professores índios no município.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tradicionalmente, há uma tendência de irmãs colocarem suas roças na mesma área, seguindo o padrão da &amp;quot;casa comprida&amp;quot; na aldeia. Todavia, homens motivados politicamente tentam atrair adeptos masculinos para suas áreas de roças. Formam-se assim as facções, ainda que os Canela sejam discretos quanto às rivalidades políticas. O poder de chefes potenciais emerge, no entanto, a partir da &amp;quot;direção&amp;quot; de um local de roça.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Atualmente, existem duas grandes &amp;quot;comunidades de roça&amp;quot; no grupo ramkokamekrá, cada uma com um círculo de casas, que assentam 80% da população. Há ainda pelo menos quatro agrupamentos menores. Mesmo assim, cada família mantém uma casa na aldeia principal, Escalvado, e para lá retorna para as festas anuais. Ultimamente, contudo, tem havido um movimento de volta à aldeia por parte das famílias que têm filhos freqüentando regularmente a escola do Escalvado. Estas passam mais tempo na aldeia principal, indo apenas de vez em quando às roças em busca de legumes.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:William H. Crocker|William H. Crocker]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Artes ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Brincos auriculares (Kyi). Foto: Curt Nimuendaju, 1931.&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/283041-1/canela_19.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As maiores expressões da arte canela são as formas musicais e as danças acompanhadas de cantos. O ciclo diário dos Canela inclui três períodos de danças cantadas, que vão das 2:30 às 5:30 da manhã, aproximadamente; das cinco às seis da tarde e das sete às dez horas da noite. O tempo gasto nas danças e cantos, de mais de um quarto do dia, demonstra a ênfase dada a essa manifestação de arte, embora raramente a mesma pessoa complete a rodada inteira de sete horas. Esse ciclo ocorre unicamente quando os Canela estão reunidos e vivendo na aldeia principal, e não dispersos pelas aldeias de roça ou exercendo as parcerias com moradores vizinhos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O canto e dança apanyekrá no ritmo do mestre do maracá é quase idêntico, em forma e em seu horário diário, à versão ramkokamekrá. Apenas o estilo musical das canções soa um pouco diferente aos ouvidos. As canções ramkokamekrá enfatizam a seqüência harmônica, enquanto as apanyekrá realçam a linha melódica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os homens vagueiam, exibindo-se e pulando diante de uma longa fileira de mulheres, todos guiados por um homem que canta e dança com um maracá. Hoje em dia, tal dança ocorre somente nos períodos das grandes festas.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Iniciandos sendo preparados na Aldeia Porquinhos. Foto: Jaime Siqueira Jr./CTI, 1993&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/283043-1/canela_20.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As artes visuais são relativamente simples, especialmente se comparadas com seus &amp;quot;primos culturais&amp;quot;, os Kayapó-Xikrin, entre os quais a pintura corporal é muito desenvolvida e aprimorada. Entre os Canela, o urucum é passado no corpo em situações familiares. O carvão, quando fixado pelo látex extraído do &amp;quot;pau de leite&amp;quot; e aplicado de maneira ordenada no corpo é uma manifestação familiar; quando aplicado sem cuidado ou ordem, é um indício de que a pessoa esteve recentemente envolvida em um caso extraconjugal. A tintura azul-escura do jenipapo é usada unicamente em uma determinada situação cerimonial, jamais no dia-a-dia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por ocasião de cerimônias solenes, o grupo Ramkokamekrá se ornamenta com penugem de gavião (agora substituída por penas de pato doméstico) colada no corpo com a resina de almécega e usada com urucum em padrões precisos. No caso dos Apanyekrá, há a aplicação adicional de penas verdes de periquito Os artefatos materiais Apanyekrá são basicamente os mesmos dos Ramkokamekrá, embora os estilos sejam um pouco diferentes.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Homens Canela Ramkokamekrá em uma corrida de toras. Foto: William Crocker, 1975.&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/283048-1/canela_22.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Canela costumavam fazer aproximadamente 150 tipos de artefatos, a maioria adornos corporais masculinos, muitos deles feitos especialmente para serem usados em determinados papéis cerimoniais. Os materiais usados provinham principalmente das folhas das palmeiras buriti e inajá, assim como da minúscula palmeira tucum. Os homens esculpiam cuidadosamente as pontas de bastões e lanças feitos de pau-brasil, usados antigamente para a guerra, geralmente enfeitados com penas de papagaio, arara e outras aves. Vários tipos de cabaças eram usadas como utensílios; a maioria, porém, têm sido substituída por mercadorias da cidade. Eles faziam diversos tipos de esteiras e cestos, mas não tinham cerâmica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Canela praticam freqüentemente, com atitude competitiva moderada, uma corrida com pesadas toras de até 120 quilos, a distâncias de até 10 quilômetros. Eles também praticam curtas corridas rasas e outras mais longas de até mil metros.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:William H. Crocker|William H. Crocker]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Religiosidade e xamanismo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo a tradição canela, depois da morte a alma vai para uma aldeia de almas em algum local a oeste, onde vive em ondições similares à vida em uma aldeia, exceto porque as coisas são amenas e menos agradáveis. Por exemplo, a comida tem menos sabor, a água é morna mas não fria e o sexo menos prazeroso. Depois de certo tempo, os espíritos tornam-se animais de caça, em seguida animais menores e, mais tarde, algo como um mosquito ou um toco de árvore. Finalmente, a entidade deixa de existir.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Almas que ainda estão sob a forma humana podem ser contatadas por xamãs. Mas se porventura alguém mantiver contato com elas ficará seriamente doente ou mesmo morrerá. Os Canela acreditam que se violarem determinadas regras, tais como ir ao mato durante a noite ou apanhar água do riacho depois do anoitecer, as almas podem pegá-los. De qualquer forma, as almas trazem prejuízos aos homens, e apenas os xamãs podem descobri-las.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Acredita-se que, tempos atrás, poderosos xamãs tinham extraordinário poder sobrenatural, essencialmente os de omnisciência - o conhecimento e a antevisão de tudo. Isso, no entanto, só era possível mediante a ajuda das almas (os recém-mortos), que em sua maioria foram grandes xamãs enquanto vivos. Os bons xamãs convocam uma alma que lhes diz tudo o que precisam saber. Por exemplo, se falece o recém-nascido de uma mulher, o xamã é capaz de dizer porque isto aconteceu, o que costuma ser atribuído à ingestão de alimentos &amp;quot;carregados&amp;quot; e, conseqüentemente, poluídos. Algumas almas teriam visto e contado a outros, que, por sua vez, reportariam o fato ao xamã interessado. O diagnóstico do xamã é definitivo, mesmo que a mãe tenha uma outra versão. A decisão dele jamais é contestada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os xamãs não competem por poder com os chefes políticos. Muitos chefes já tiveram algum poder xamânico, porém nunca à altura de um bom xamã. Raras vezes mulheres tornam-se xamãs, mas, nos anos 1970, havia várias mulheres xamã e duas, no mínimo, estão entronizadas na mitologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os xamãs curam os pacientes através da extração da doença ou poluição, e são remunerados apenas quando bem sucedidos. Há também xamãs anti-sociais, os quais podem jogar feitiços ruins, que entram no corpo como doenças. Outros xamãs lutam para tirar os feitiços, procurando devolvê-los ao emissor. Antigamente, um xamã anti-social, acusado de homicídio por feitiço pelo conselho da aldeia, era golpeado com bastões até a morte. A última vez que isso aconteceu foi por volta de 1903.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Submeter-se a restrições alimentares e sexuais é um instrumento para que o indivíduo se torne forte em caráter e habilidade, e para que possa desenvolver, através de esforço pessoal, as habilidades para as carreiras principais - caçador, corredor ou xamã -, mas não para dançar e cantar com o maracá.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Canela acreditam que a poluição penetra pelo corpo através da ingestão de caldos de carne e por meio do contato dos fluídos sexuais. Tais poluições não afetam uma pessoa saudável, porém enfraquece os poderes de um guerreiro, caçador, corredor ou xamã. No entanto, se um indivíduo está doente, ou fraco, como é caso de um bebê, poluições comuns podem torná-lo mais doente, ou até mesmo matá-lo. Os Canela acreditam que o sangue dos pais, irmãos uterinos e filhos de um indivíduo é muito parecido com o seu próprio. Assim, essa família nuclear está tão inter-conectada que a poluição de um de seus membros poder afetar os outros. Se eles já estão em situação mais vulnerável, essas poluições suplementares podem adoecer ou matar o indivíduo. Quando, então, uma pessoa tem um dos integrantes de sua família nuclear adoecida, ela precisa submeter-se a restrições alimentares e sexuais para ajudar na recuperação do doente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um indivíduo torna-se xamã depois de receber a visita de uma ou várias almas, por ocasião de uma doença grave, quando as almas vêm para curar o moribundo. Um jovem que quer se tornar xamã deve submeter-se a um intensivo processo de restrições alimentares e sexuais, para impedir a entrada de elementos contaminadores em seu corpo. Ele pode, também, ingerir determinadas infusões de ervas para eliminar a poluição. As almas são atraídas pelo indivíduo mais livre de poluição. Quando o acham, fazem-lhe uma visita e dão-lhe os poderes para ser um xamã. Geralmente os poderes são específicos para curar certas intrusões corporais, como a picada de cobra, mas, para os grandes xamãs, tais poderes têm aplicações mais gerais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em resumo, os Canela possuíam, tradicionalmente, diversas formas - sobrenaturais, naturais e humanas - para fortalecer suas condições de vida. Primeiro, os xamãs podem comunicar-se com almas quando necessitam de informações e poderes. Segundo, uma fonte de força em geral provém do canto de determinada canção mediante festivais particulares. Terceiro, um Canela pode manter restrições alimentares e sexuais para manter a poluição afastada do seu corpo e, assim, alcançar determinadas capacidades. Quarto, também é possível cheirar certas infusões para aumentar as habilidades de caçador e melhorar as condições de saúde em geral.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Ramkokamekrá acreditam que os xamãs Apanyekrá são mais poderosos como curadores, tanto que freqüentemente os procuram. Em meados dos anos 1970, o universo dos espíritos e dos perigos das poluições tinha mais crédito entre os Apanyekrá que entre os Ramkokamekrá, e aqueles também respeitavam mais seriamente as restrições.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Desde 1830, os Canela vêm partilhando de crenças e práticas do catolicismo popular. A partir de 1970, veio crescendo o número de Ramkokamekrá que se dizem &amp;quot;crentes&amp;quot; (protestantes), em 1993 chegou a 25% da população, mas em 2001 foi reduzido a 15%. Diferentemente, os Apanyekrá sempre tiveram menos contato com protestantes&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:William H. Crocker|William H. Crocker]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Mitologia ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Furação de orelha entre os Ramkokamekrá. Foto: Curt Nimuendaju, 1931.&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/283050-1/canela_23.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Canela já tiveram mais de cem mitos, mas hoje eles não acreditam plenamente neles. Uma das principais figuras mitológicas entre ambos os grupos é Awkhêê, que tinha poderes sobrenaturais e, quando desejava, transformava-se em animais ou outras formas, assustando seus tios, os quais, então, tiveram de matá-lo. Embora esses acreditassem tê-lo queimado em uma fogueira, ele sobreviveu na forma de cinza. De volta à forma de ser humano, seja como Awkhêê ou como Dom Pedro II, o Imperador do Brasil, ele intimou os Canela a escolher entre seu mundo, representado pelo arco e a flecha, e o mundo dos brancos civilizados, representado por uma arma de fogo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Canela escolheram o arco e a flecha e, por conseguinte, uma posição subordinada no mundo dos brancos. Assim, os sertanejos passaram a ter de ajudar os Canela e lhes dar tudo de graça. Em troca, os Canela devem respeito, deferência e obediência aos brancos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um mito de origem conta que Sol e Lua andaram pela terra, criando as normas para a vida social. Sol criou os homens e mulheres ideais e Lua criou aqueles deformados. Sol permitiu que facões e machados trabalhassem nas roças por conta própria, enquanto Lua os fez parar. Conseqüentemente, os homens necessitam trabalhar arduamente para fazer suas roças. Há pelo menos uma dúzia de episódios desse mito que relatam a origem da morte, enchentes, incêndios da floresta e o porquê das palmeiras de buriti serem altas e a lua possuir suas manchas, entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há mitos canela que explicam a origem do fogo e do milho: um menino trouxe o fogo para seu povo depois de tê-lo roubado da fogueira de uma onça fêmea. A Mulher Estrela apaixonou-se por um Canela e então desceu para morar por um tempo entre os seus familiares. Durante essa estadia, ela indicou que o milho crescia no mato e os ensinou que aquilo era bom de se comer. Tal foi a origem das roças. Ela então voltou para o céu com seu companheiro e ambos se transformaram nas estrelas gêmeas, conhecidas entre os não indígenas como Castor e Pólux.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Paralelamente a um amplo conjunto de mitos sobre como acreditam terem vivido seus ancestrais, os Canela têm um grande número de histórias de guerra, algumas das quais descrevem como lutaram e foram derrotados pelos brancos durante a primeira metade do século XIX. Outras histórias relatam como seus chefes então os conduziam. Mitos e histórias de guerra costumavam ser narradas no centro da aldeia, para divertir a população, aos finais de tarde e nas madrugadas, mas essa prática foi perdida por volta dos anos 50. Hoje, quando contadas, essas histórias fazem referência a &amp;quot;índios brabos&amp;quot;, seus ancestrais, quase como se fossem um povo diferente. Os grandes guerreiros, bem como os líderes fortes, utilizavam-se de poderes xamânicos para fazerem valer os seus propósitos. Por exemplo, o guerreiro ''Pèp'' lançou flechas contra inimigos cujos olhos ele era capaz de atingir diretamente, matando-os. Da mesma forma, chefes importantes usavam seus limitados poderes para alcançarem seus objetivos, fosse exercendo-os, fosse pelo temor da população de que pudessem vir a fazê-lo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Embora os mitos de origem dos Apanyekrá e Ramkokramekrá sejam muito semelhantes, há algumas diferenças surpreendentes. Por exemplo, a Mulher-Estrela retorna aos céus com o homem Apanyekrá apenas depois de ter cometido um ato hostil de vingança, entornando o conteúdo de uma cabaça no pátio, o que não ocorre em sua partida mais amigável na versão ramkokamekrá. Para os Apanyekrá, Awkhêê tem um nome alternativo, Plùùkupê, mas a ordem para se submeter aos civilizados e depender deles, que resultou do fato de terem recebido o arco e a flecha ao invés da arma de fogo, é a mesma. Ademais, os Apanyekrá têm um certo número de mitos que os Ramkokamekrá não têm e vice-versa.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:William H. Crocker|William H. Crocker]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Rituais ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Os iniciandos Ramkokamekrá, Pepyê, cantam no pátio com talos de buriti. Foto: William Crocker, 1957.&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/283060-1/canela_24.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Canela possuem um conjunto de ciclos rituais baseados na família extensa, nos quais participam a parentela matri e patrilateral, embora a primeira tenha papel dominante. Os principais ritos para ambos os sexos são o nascimento, puberdade e casamento (várias etapas), o resguardo pós-parto (couvade) e o luto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os ritos de passagem para adolescentes consistem na perfuração de orelha para os meninos e reclusão para as meninas, por ocasião da primeira menstruação. Ambos os sexos têm práticas pós-pubertárias. A nomeação dos bebês, logo após o nascimento, é restrita aos doadores de nomes; o nascimento de um homem era anunciado pelo nomeador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro conjunto de ciclos rituais ocorre durante as festas e está baseado no apoio e participação de quase toda a sociedade. Meninos são introduzidos na classe de idade por quatro ou cinco festas de iniciação. Como passo principal para o casamento definitivo, a maioria das meninas entra como associada nos rituais masculinos, de modo a receber seus cintos de maturidade, os quais são necessários para serem aceitas por seus parentes afins. A divisão por classes de idade está relacionada ao treinamento dos meninos para se tornarem guerreiros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A realização dos rituais de iniciação masculina Apanyekrá (''Khêêtúwayê e Pepyê'') se tornou irregular desde os anos 1970 e, a partir de então, esses rituais foram realizados apenas duas vezes para formar uma classe de idade, ao invés de quatro ou cinco, como acontece entre os Ramkokamekrá. Nos anos 1990, também entre estes a performance desses rituais havia se tornado irregular. O ritual dos Apanyekrá que fecha o verão (''Wè tè'') não estava sendo realizado com regularidade, e o ritual que abre a mesma estação (também chamado ''Wè tè'') parece nunca ter sido praticado por eles. O equivalente Apanyekrá (''Krokrok'') do ritual ramkokamekrá dos gaviões (''Pepkahàk'') foi perdido, e o ritual das máscaras nunca foi adquirido pelos Apanyekrá.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Meninos apanyekrá durante ritual de iniciação masculina. Foto: Jaime Siqueira Jr./CTI, 1993&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/283098-1/canela_27.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por outro lado, as práticas sazonais da estação chuvosa das metades Vermelha e Preta eram de certo modo mais efetivas entre os Apanyekrá do que entre os Ramkokamekrá, e as versões Apanyekrá dos rituais Laranja e Pàlrà eram semelhantes às dos Ramkokamekrá. O ritual do Peixe Apanyekrá (''Tepiakwá'') não foi realizado vários anos por volta da década de 1970, mas é ainda muito popular entre os Ramkokamekrá nos anos 1990. A descendência matrilinear de propriedade (''haakhat'') de algumas cerimônias ramkokamekrá e de direitos para atuar em certos papéis, especialmente no ritual do Peixe, não foi encontrada entre os Apanyekrá.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma diferença notável nos rituais para introduzir meninos e adolescentes em uma classe de idade entre os dois grupos é que, entre os Apanyekrá, os adolescentes pegos abandonando sua reclusão para encontros conjugais ou extraconjugais eram enfileirados juntamente com suas parceiras sexuais, mantidos ajoelhados frente a frente no pátio, de modo que todos vivessem publicamente sua vergonha. A severidade de tal punição para a mesma transgressão não era característica dos Ramkokamekrá, que não puniam os adolescentes que nela incorriam.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:William H. Crocker|William H. Crocker]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Notas sobre as fontes ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Canela Ramkokamekrá. Foto: René Fuerst, 1975.&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/283478-1/canela_31.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dos autores antigos, é Francisco de Paula Ribeiro, militar português cujos textos estão publicados na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, que dá as informações mais ricas e seguras sobre a situação dos Canela e demais Timbira e da conquista de suas terras pelo avanço dos criadores de gado no início do século XIX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Quanto aos estudos etnológicos, o primeiro trabalho de fôlego é ''The Eastern Timbira'', de Curt Nimuendajú, que visitou os Canela seis vezes entre os anos 1928 e 1936.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
William Crocker começou sua pesquisa etnológica com os Canela Ramkokamekrá em 1957 e tem retornado assiduamente a suas aldeias até os dias de hoje, de modo que suas visitas somam mais de 72 meses de campo. Conta como auxiliares vários Canela, que escrevem ou gravam diários. Além do primeiro volume de seu livro'' The Canela (Eastern Timbira)'', publicou vários artigos sobre diferentes aspectos da vida desse povo. Junto com sua esposa, Jean Crocker, publicou um livro mais leve, ''The Canela: Bonding through Kinship, Ritual, and Sex'', destinado a despertar o interesse de estudantes universitários para os temas etnológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O autor coletou menos material entre os Apanyekrá que entre os Ramkokamekrá. Não montou nenhuma coleção de artefatos específicos dos Apanyekrá, embora muitos itens Apanyekrá se encontrem nas coleções. Nenhuma gravação de músicas Apanyekrá foi realizada com equipamento de alta qualidade, como foi feito entre os Ramkokamekrá. Nem foram coletados diários escritos pelos índios.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A análise do movimento messiânico ocorrido entre os Canela Ramkokamekrá em 1963, realizada por Manuela Carneiro da Cunha, utiliza como fonte os textos publicados de William Crocker.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A dissertação de mestrado de Maria Elisa Ladeira, ''A Troca de Nomes e a Troca de Cônjuges: Uma contribuição ao estudo do parentesco Timbira'', trata mais dos Apanyekrá que dos Ramkokamekrá, comparando os primeiros aos Krahô e aos [[Povo:Apinajé|Apinajé]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Jack e Jô Popies, do Instituto Lingüístico Wyeliffe Bible Translators passaram 22 anos (de1968 a 1990) entre os Canela Ramkokamekrá traduzindo o Novo Testamento para a língua nativa. Tornaram-se queridos entre a população e ensinaram dezenas de jovens a ler e escrever em Canela.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O National Museum of Natural History, da Smithsonian Institution, em Washington, DC, onde trabalhou William Crocker (agora aposentado), guarda uma vasta coleção sobre os Canela: muitas fotografias, filmes de 16 mm e em super 8mm de 1970 nunca editados. Em 1997 começou a ser feito um vídeo, lançado em 1999. O autor também deixou na instituição diários escritos e falados em canela e português, gravações de cantos (também na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos) e mitos em Canela.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas instituições brasileiras, há coleções de artefatos canela no Museu Goeldi (Belém), no Museu Nacional (Rio de Janeiro) e no Museu Paulista (São Paulo).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:William H. Crocker|William H. Crocker]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
* ADAMS, Kathlen; PRICE JUNIOR, David (Eds.). The demography of small-scale societies : case studies from lowland South America. Bennington : Bennington College, 1994. 86 p. (South American Indian Studies, 4)&lt;br /&gt;
* ALHO, Getúlio Geraldo R. Três Casas Indígenas : pesquisa arquitetônica sobre a casa em três grupos - Tukano, Tapirapé e Ramkokamekra. São Carlos : USP, 1985. 91 p. (Dissertação de Mestrado)&lt;br /&gt;
* CROCKER, William H. Canela (Central Brazil). In: WILBERT, Johannes (Org.). Encyclopedia of World Cultures. v.7. New York : G. K. Hall &amp;amp;amp; Co., 1994, p.94-8.&lt;br /&gt;
* --------. Canela marrigage : factors in change. In: KENSINGER, K. (Org.). Marriage practices in lowland South America. Urbana e Chicago : Univer. of Illinois Press, 1984. p.63-8. (Illinois Studies in Anthropology, 14)&lt;br /&gt;
* --------. Canela relationships with ghosts : this worldly or otherworldly empowerment. Lat. Am. Anthropol. Rev., s.l. : s.ed., v. 5, n. 2, p. 71-8, 1993.&lt;br /&gt;
* --------. The Canela (Eastern Timbira), I : an ethnographic introduction. Washington : Smithsonian Intitution Press, 1990. 506 p. (Smithsonian Contributions to Anthropology, 33)&lt;br /&gt;
* --------. Estórias das épocas de pré e pós-pacificação dos Rankokanmekra e Apaniekra-Canela. Boletim do MPEG: Série Antropologia, Belém : MPEG, n.68, 1978. 30 p.&lt;br /&gt;
* --------. Extramarital sexual practices of the Rankokamekra-Canela indians : an analysis of socio-cultural factors. In: LYON, Patricia L. (Org.). Native South Americans : ethnology of the least known continent. Boston : Little, Brown ans Co., 1974. p.184-94.&lt;br /&gt;
* --------. A method for deriving themes as applied to Canela indian festival materials. Ann Arbor : Univ. of Wisconsin, 1962. 299 p. (Ph.D. Dissertation)&lt;br /&gt;
* --------. O movimento messiânico dos Canelas : uma introdução. In: SCHADEN, Egon (Org.). Leituras de etnologia brasileira. São Paulo : Cia. Editora Nacional, 1974. p.515-28. [Tradução do original em inglês publicado nas Atas do Simpósio sobre a Biota Amazônica, v.2 (Antropologia), p. 69-83, 1967].&lt;br /&gt;
* --------. Myths. In: WILBERT, J.; SIMONEAU, K. (Orgs.). Folk literature of the Gê indians. v.2. Los Angeles : Ucla Publications, 1984. p. 17-32; 50-2; 97-106; 195-203; 354-8.&lt;br /&gt;
* --------. The non-adaptation of a savanna indian tribe (Canela, Brazil) to forced forest relocation : an analysis of ecological factors. In: SEMINÁRIO DE ESTUDOS BRASILEIROS (1o.: 1971). Anais. v.1. São Paulo : Instituto de Estudos Brasileiros, 1972. p. 213-81.&lt;br /&gt;
* --------; CROCKER, Jean (Eds.). The Canela : bonding through kinship, ritual, and sex. Forth Worth : Harcourt Brace College Publishers, 1994. 202 p. (Case Studies in Cultural Anthropology)&lt;br /&gt;
* CUNHA, Manuela Carneiro da. Logique du mythe et de l’action : le movement messianic Canela de 1963. L'Homme, Paris : Ecóle des Hautes Études en Sciences Soc., v.13, n.4, p. 5-37, 1973.&lt;br /&gt;
* LADEIRA, Maria Elisa. Uma aldeia Timbira. In: NOVAES, Sylvia Caiuby (Org.). Habitações indígenas. São Paulo : Nobel ; Edusp, 1983. p. 11-32.&lt;br /&gt;
* --------. A troca de cônjuges : uma contribução ao estudo do parentesco Timbira. São Paulo : USP, 1982. (Disertação de Mestrado)&lt;br /&gt;
* --------; AZANHA, Gilberto. Os &amp;quot;Timbira atuais&amp;quot; e a disputa territorial. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1991/1995. São Paulo : Instituto Socioambiental, 1996. p. 637-41.&lt;br /&gt;
* NINUENDAJÚ, Curt. The Eastern Timbira. Berkeley : Univer. of California Press, 1946. 357 p.&lt;br /&gt;
* --------. A habitação dos Timbíra. In: SCHADEN, Egon. Leituras de etnologia brasileira. São Paulo : Companhia Editôra Nacional, 1976. p. 44-62.&lt;br /&gt;
* OLIVEIRA, Adalberto Luiz Rizzo de. Ramkokamekra-Canela : dominação e resistência de um povo Timbira no Centroeste Maranhense. Campinas : Unicamp, 2002. (Dissertação de Mestrado) &lt;br /&gt;
* QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. Organização social e mitologia entre os Timbira de Leste. Rev. do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo : USP, n.9, p. 101-2, 1970.&lt;br /&gt;
* RIBEIRO, Francisco de Paula. Memórias sobre as nações gentias que presentemente habitam o continente do Maranhão. Rev. do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro : IHGB, v.3, p. 184-97; 297-322; 442-56, 1841.&lt;br /&gt;
* VAZ, Leopoldo Gil Dulcio. A corrida entre os índios Canela. In: SILVA, José Eduardo Fernandes de Souza e (Org.). Esporte com identidade cultural : coletânea. Brasília : Indesp, 1996. p. 106-11. (Esportes de Criação Nacional, 2)&lt;br /&gt;
* Mending vilay : the Canela indiansof Brazil. Dir.: Stephen Schecter; William Crocker. Vídeo cor, 49 min., 1999.&lt;br /&gt;
* CROCKER, William; WATANABE, Barbara. 2002 The Canela : a website. Washington : Smithsonian Instituition’s.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:William H. Crocker|William H. Crocker]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas no Maranhão]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos Timbira]]&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Canela Memortumré}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:William H. Crocker}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
{{#set:Capa=67688252450576fddb4645.JPG}}&lt;br /&gt;
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{{#set:Crédito capa=Ivan Canela, 2012.}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=2002-06-01}}&lt;br /&gt;
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{{#set:Povo Id=54}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
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		<title>Povo:Timbira</title>
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		<updated>2025-09-09T14:13:28Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: /* Nome */&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
 |Foto: Michel Pellanders, 1989&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/281948-1/timbira.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O conhecido poema &amp;quot;Os Timbiras&amp;quot;, de Antônio Gonçalves Dias, não pode servir como uma introdução à cultura dos povos assim denominados. O poeta, que nasceu na então vila de Caxias, no Maranhão, em 1823, ao norte das terras desses povos, que tinham acabado de ser conquistados, não chegou a tê-los na sua experiência cotidiana, pois deixou a região muito moço. Por isso atribuiu aos Timbira costumes dos Tupi do litoral, que leu nos livros dos viajantes, combinados com projeções de normas, sentimentos e aspirações próprias do meio urbano em que ele próprio viveu. Até os nomes dos seus personagens são inspirados na língua tupi.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nome ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Timbira é o nome que designa um conjunto de povos: &amp;lt;htmltag href=&amp;quot;http://pib.socioambiental.org/pt/povo/apinaye&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; target=&amp;quot;_self&amp;quot;&amp;gt;Apinayé&amp;lt;/htmltag&amp;gt;, [[Povo:Canela Apanyekrá | Canela Apanyekrá]], [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Canela_Memortumr%C3%A9 Canela Memortumré], [[Povo:Gavião Parkatêjê | Gavião Parkatejê]], [[Povo:Gavião Pykopjê | Gavião Pykopjê, ]][[Povo:Krahô | Krahô]] e [[Povo:Krikatí | Krinkatí]]. Outras etnias timbira já não se apresentam como grupos autônomos: os [[Povo:Krenyê|Krenyê]] e Kukoikateyê vivem entre os [[Povo:Tembé | Tembé ]]e [[Povo:Guajajara | Guajajara]], que falam uma língua tupi-guarani (Tenetehara); os Kenkateyê, Krepumkateyê, Krorekamekhrá, Põrekamekrá, Txokamekrá, recolheram-se e se dissolveram entre alguns dos sete povos timbira inicialmente enumerados.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
 |Foto: Curt Nimuendaju, 1964&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/281952-1/timbira_1.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Alguns desses povos, apesar de distintos, são conhecidos pelas mesmas denominações. A três deles é aplicado o termo Canela: Ramkokamekrá (atualmente Memortumré), Apanyekrá e Kenkateyê. Desses três grupos vizinhos, do sul do Maranhão, o último desapareceu devido à destruição de sua aldeia e aniquilamento de seus habitantes por um fazendeiro, em 1913. Cada vez mais o termo Canela tem sido usado para designar principalmente o primeiro, que está abandonando o nome Ramkokamekrá. Na verdade, Canela vem a ser a abreviação de Canela Fina, termo que no início do século XIX era aplicado aos &amp;quot;Capiecrans&amp;quot;. Esse último termo, hoje não mais usado, referia-se aos Ramkokamekrá.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pelo nome Gavião, por sua vez, costuma-se designar três outros grupos timbira, Krinkati, Gavião Pykopjê e Gaviões do Oeste, com mais freqüência o terceiro e com menos o primeiro. Eles também mantêm uma certa proximidade espacial, os dois primeiros no oeste do Maranhão, na borda da floresta amazônica, e o último no leste do Pará, dentro dela. Esse tipo de vegetação permitiu aos grupos maranhenses resistir por bastante tempo às expedições que contra eles marchavam. O grupo paraense, por sua vez, recusou o contato com os brancos por muito mais tempo ainda, só o aceitando no início da segunda metade do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O nome Krenyê também se aplica a dois povos. O primeiro vivia na proximidades da localidade maranhense de Bacabal, no baixo Mearim, não havendo notícias de pessoas que hoje se identifiquem como a ele pertencentes. O outro vivia no médio Tocantins e transferiu-se para o rio Gurupi, tendo vivido algum tempo junto a um afluente deste, o Cajuapara.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O significado de seus nomes indígenas é indicado nos seus respectivos verbetes. Quanto ao nome mais geral, Timbira, Curt Nimuendaju, o etnólogo pioneiro no estudo desses povos, admite que, se for de origem tupi, então pode significar &amp;quot;os amarrados&amp;quot; (''tin ''= amarrar, ''pi'ra'' = passivo), uma referência às inúmeras fitas de palha ou faixas trançadas em algodão que usam sobre o corpo: na testa, no pescoço, nos braços, nos pulsos, abaixo dos joelhos, nos tornozelos. Mas vários desses grupos chamam a si mesmos de ''Mehím''.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Julio Cezar Melatti|Julio Cezar Melatti]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Língua ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses diferentes grupos étnicos falam uma só língua, a timbira, que pertence à família jê, certamente com algumas diferenças dialetais entre si. O dialeto mais divergente é o dos Apinayé, que talvez possa até ser considerado outra língua, embora os outros Timbira não pareçam ter dificuldade em entendê-lo. Também são os Apinayé os que mais divergem quanto à cultura. Como os únicos que ficam a oeste do Tocantins, são chamados de Timbira Ocidentais, em contraposição aos demais, os Timbira Orientais. Em qualquer dos povos timbira da atualidade, os homens, além da língua indígena, falam fluentemente o português; as mulheres, mesmo quando não o falam, entendem. É bem provável que os Krenyê e os Kukoikateyê não mais façam uso da língua timbira&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Julio Cezar Melatti|Julio Cezar Melatti]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Localização ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os grupos timbira se localizam no sul do Maranhão, leste do Pará e norte do Tocantins. Os que estão mais para sudeste, habitam uma área relativamente plana, interrompida por morros de paredes verticais e cimos chatos, muitas vezes escalonados, coberta pelo cerrado, cortada por cursos d'água ao longo dos quais se estendem matas-ciliares. Os situados mais para noroeste, ficam na transição do cerrado para a floresta amazônica, como os Apinayé, Pukobyê, Krinkatí, Kukoikateyê, ou já dentro desta, como os Gaviões do Oeste e os Krenyê.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Julio Cezar Melatti|Julio Cezar Melatti]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Histórico do contato ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O contato com os civilizados data do século XVIII. Em 1728 registra-se uma grande invasão timbira na localidade de Oeiras, então capital da capitania do Piauí. Porém, já na segunda metade do mesmo século não há mais notícia de presença timbira a leste do rio Parnaíba. Foram as fazendas de gado em expansão da Bahia para o Piauí e daí para o Maranhão que entraram em choque com eles, empurrando-os para oeste.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
 |Foto: Curt Nimuendaju&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/281954-1/timbira_2.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No norte do Maranhão, área florestal, desenvolviam-se então as grandes plantações de arroz e algodão. Essa atividade também fazia pressão sobre os Timbira, porque necessitava de escravos para as plantações e para os descaroçadouros de algodão. Um outro mercado de escravos era Belém, que se comunicava com a região timbira por meio do rio Tocantins. Favorecia a escravização dos Timbira uma Carta Régia de 5 de setembro de 1811, que permitia a escravidão temporária dos índios do Tocantins e Araguaia que resistissem aos colonizadores. Os índios eram combatidos por tropas constituídas de civis e militares e ainda por índios cooptados, como os Krahó. O conhecimento desse período nos é dado principalmente pelas memórias escritas pelo comandante militar Francisco de Paula Ribeiro, que combatia os índios, mas não aprovava as ciladas, promessas não cumpridas e escravidão imposta àqueles que se mostravam propensos a estabelecer relações pacíficas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A conquista das terras timbira pelos brancos se efetivou em sua maior extensão no primeiro quartel do século XIX, dentro de um grande vácuo jurídico, ou seja, entre a extinção do Diretório dos Índios pombalino na última década do século precedente e a primeira disposição legal referente a índios do Brasil independente, que somente ocorreu no Ato Adicional que emendou a Constituição do Império em 1834. Entre esses dois limites, apenas a retrógrada Carta Régia de 1811, que permitia a escravidão de índios hostis do Araguaia e Tocantins por dez anos ou mais enquanto durasse sua &amp;quot;atrocidade&amp;quot;. Nada de concessões de léguas em quadra pela Coroa Portuguesa; nada de aldeamentos criados pelo governo, como se fazia no século XVIII.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As disposições levadas a efeito no tempo do segundo imperador alcançaram de modo muito diluído os Timbira e não impediram que ficassem à mercê dos interesses dos criadores de gado e comerciantes regionais: a retomada das missões, sobretudo com capuchinhos italianos, a partir de 1845; as diretorias provinciais dos índios; as colônias militares. Na área florestal, as exportações de algodão e arroz do norte maranhense caíram, dando lugar a uma época de estagnação, depois que os Estados Unidos voltaram a produzi-los, ultrapassado o período bélico que prejudicara o comércio norte-americano (a guerra da independência, o bloqueio continental napoleônico e a chamada segunda guerra da independência).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Talvez não seja exagero dizer que, após os grandes choques armados do começo do século XIX, a história dos povos timbira é um contínuo definhar que dura até meados do século seguinte. Os remanescentes das diferentes etnias que sobravam após massacres, epidemias, expulsão da terra, iam engrossar a população daquelas que não estavam, temporariamente, enfrentando tais problemas, dando-lhes um reforço na manutenção da cultura timbira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É possível distinguir três situações de contato com base na principal atividade econômica regional: a) os que tiveram contato com as fazendas que fazem criação extensiva de gado, que dispensam a contribuição de muitos trabalhadores, ficaram à margem da atividade pecuária e não raro têm sido os mais hostilizados por ocuparem terras necessárias à expansão desses estabelecimentos e por transformarem em alvo o gado que ocupou suas áreas de caça. Mas, por outro lado, são os que mais guardaram do modo de vida tradicional. Sem trabalho que lhes produza um rendimento monetário que lhes permita comprar artigos industrializados, tentam consegui-los por meio das longas viagens às grandes cidades. É o caso dos Apanyekrá, Krahó, Pukobyê e Krinkati; b) aqueles que, habitando a floresta, se viram diante de uma frente extrativa de um produto de alto valor comercial, ao inserirem-se nesta atividade, modificaram rapidamente sua cultura. É o caso dos Parkatêjê, que, estabelecendo contato pacífico com os brancos, coletores de castanha-do-pará, somente por volta de 1955, têm hoje sua cultura indígena muito mais modificada do que os Timbira que estão há quase dois séculos em contato com as fazendas de gado; c) aqueles que puderam participar da extração de um produto de valor comercial mediano, garantindo-lhes um suprimento de artigos industrializados não muito grande, mas constante, mantiveram boa parte de suas tradições, mas não tanto como os que estão ao lado da atividade pecuária; é o caso dos Apinayé, que extraem o coco babaçu, embora os Timbira das vizinhanças do rio Gurupi que participam da extração do óleo da copaíba estejam numa situação diferente, e pouco conhecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Obviamente, esse é um modo de ver pautado nas perspectivas etnológicas de meados do século XX, quando se consideravam as mudanças nas culturas indígenas de acordo com a frente econômica que com elas fazia contato. Hoje é preciso levar em conta outras formas de contato, como as grandes obras de infra-estrutura que, no caso dos Timbira, afetaram direta ou marginalmente sobretudo o noroeste florestal da região em que vivem: a rodovia Belém-Brasília, a ferrovia Serra de Carajás-Itaqui; a hidrelétrica de Tucuruí; as linhas de transmissão de energia; as grandes empresas agro-pecuárias.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Julio Cezar Melatti|Julio Cezar Melatti]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Dispersão e coalescência dos povos Timbira ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já se disse da distinção entre os Timbiras Orientais e Ocidentais. Curt Nimuendajú, com base em diferenças dialetais, que correspondem também a uma distribuição geográfica, classificou os primeiros em dois conjuntos, um ao norte e outro ao sul.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Timbira Orientais do norte são aqueles que viviam nos cursos inferiores dos rios Mearim e Pindaré, no Maranhão. No Mearim eram os Krenyê de Bacabal (núcleo urbano junto ao qual estavam), os Kukoikateyê e, possivelmente, os &amp;quot;Pobzé&amp;quot;. Quanto aos do baixo Pindaré, as fontes não lhes deixaram os nomes. Os Krenyê de Bacabal e os &amp;quot;Pobzé&amp;quot; começaram a apresentar-se pacificamente diante dos moradores dessa localidade em meados do século XIX, de modo que o governo criou a colônia de Leopoldina (no médio Grajaú) para eles e para os Kukoikakateyê. Aí, em 1855, foram afligidos por uma febre epidêmica, que matou muitos e fez outros fugirem.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
 |Foto: William Crocker, 1975&lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/281956-1/timbira_3.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1862 ainda havia em Leopoldina 336 Timbira do Mearim, dos quais 87 eram Krenyê, 158 eram Kukoikateyê e 91 eram &amp;quot;Pobzé&amp;quot;. Em 1919 os Krenyê moravam em Cajueiro, em número de 43, enquanto os Kukoikateyê, em número de 30, moravam no local chamado Santo Antônio. Quando o etnólogo Curt Nimuendaju escrevia seu livro The Eastern Timbira, publicado em 1946, os Krenyê e os Kukoikateyê ainda moravam em localidades próximas, na floresta, a certa distância da margem direita do baixo Grajaú; quanto aos &amp;quot;Pobzé&amp;quot;, ele os dava por extintos. Destes três povos há atualmente apenas representantes dos Kukoikateyê, que vivem na [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3671 Terra Indígena Geralda/Toco Preto], cortada pelo rio Grajaú, no município de mesmo nome, junto com índios Guajajara. Os dados sobre a população dessa terra indígena dão 72 habitantes para o ano de 1990, sem distinguir uma etnia da outra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por sua vez, os grupos timbira do baixo Pindaré, a partir de meados do século XIX, começaram a migrar para oeste. Em 1862 havia de 100 a 150 desses migrantes no rio Gurupi, que separa o Maranhão do Pará. Explorados por um civilizado, afastaram-se deste rio, mas a ele retornaram em 1889, reincidindo na situação de viver sob a influência de um outro civilizado. Em 1900, receberam mais migrantes timbira do Pindaré, que tinham sobrevivido a um ataque dos Guajajára ajudados por seringueiros. Sofreram um ataque dos Kaapór em 1903, depois um surto de sarampo, até se fixarem no Araparitíua, um afluente da margem paraense do rio Gurupi. Curt Nimuendajú aí os visitou em 1914-1915, contando 41 indivíduos. Ainda chegou a ver restos das máscaras que haviam usado num rito realizado antes de sua visita, no qual também fizeram corridas de toras. Entretanto, tinham abandonado o cultivo da terra para dedicarem-se à extração do óleo de copaíba, trabalhar para seringueiros ou prestar serviços de remadores. Em 1919 eram 43. Esses Timbira do Araparitíua, como Nimuendajú os denominou, foram transferidos posteriormente para Posto Felipe Camarão, junto à foz do rio Jararaca, afluente da margem maranhense do mesmo Gurupi, mais ao norte, destinado aos índios Tembé, ficando reduzidos a uns poucos sobreviventes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O conjunto dos Timbira Orientais do sul, inclui os Krenyê do Cajuapara, os Krinkati, os Pukobyê, os Gaviões Ocidentais, os Krepumkateyê, os Krorekamekrá, os Põrekamekrá, que no início do século XIX ficavam entre o Mearim e o Tocantins, e os Krahó, Kenkateyê, Apanyekrá, Canela e Txokamekrá, que na mesma época ficavam entre o Mearim e o Itapicuru.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Krenyê do Cajuapara viviam anteriormente na faixa entre o Mearim e o Tocantins; em meados do século XIX, tinham duas aldeias próximo à colônia militar Santa Tereza, hoje Imperatriz, com uma população acima de duzentas pessoas, e entre eles atuava um missionário carmelita. Em 1872, já estavam nas cabeceiras do rio Cajuapara, um formador maranhense do Gurupi, numa aldeia de 400 a 500 habitantes. Contavam que tinham emigrado das vizinhanças de Imperatriz porque, na ausência dos homens, sua aldeia fora atacada por moradores do sertão, que raptaram muitas crianças indígenas. Em represália, eles queimaram uma fazenda vizinha, matando sete pessoas, e daí saíram, temendo a vingança dos sertanejos. Nimuendajú visitou-os no Cajuapara em 1914-1915, onde tinham uma aldeia de cerca de cem habitantes. Em 1919, a população tinha caído para 65. Pouco depois o SPI os transferiu mais para o norte, para o Posto Felipe Camarão, na foz do rio Jararaca, um outro afluente da margem maranhense do rio Gurupi. Reduziram-se, então, a uns poucos sobreviventes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por conseguinte, tanto os Krenyê de Cajuapara (oriundos do médio Tocantins) quanto os Timbira do Araparitíua (oriundos do baixo Pindaré) convergiram para o mesmo local, o Posto Felipe Camarão. Darcy Ribeiro, que subiu o rio Gurupi nos anos 1949-1950, dá notícia, nos seus Diários Índios (1996, pp. 84-85, 87, 93, 166-168, 196-200) da presença desses Timbira, sem mais distinguir suas diferentes origens. Eram ao todo 23 indivíduos, que moravam no Posto Felipe Camarão, na aldeia de Sordado (ao que parece de uma só casa) acima desse posto, e, mais abaixo, no Posto Pedro Dantas, o local onde se fez o primeiro contato com os Kaapor. Alguns eram casados com não-Timbira, índios ou não. Ribeiro reuniu todos num mesma esquema genealógico, e colheu de seu líder a terminologia de parentesco e alguns mitos (um deles, o dos gêmeos, dos Tembé). Esse líder, que sabia falar as línguas portuguesa, tembé e kaapor, e era o que mais conhecia a língua timbira, não tinha muita segurança na pronúncia das palavras desta última. Em suma, os índios atualmente conhecidos como Krenyê, que vivem na Terra Indígena do Alto Guamá, no município paraense de Paragominas, descendem dos Timbira do Gurupi que Darcy Ribeiro conheceu. Dados relativos ao ano de 1990 indicam uma população de 813 indivíduos para essa terra indígena, habitada por Tembé, Kaapor, [[Povo:Guajá|Guajá]], [[Povo:Munduruku|Munduruku]] e Krenyê, mas não especificam os números por etnia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Põrekamekrá, no início do século XIX, tinham duas aldeias entre o alto Grajaú e o rio Farinha, um pequeno afluente do rio Tocantins ao norte de Carolina. Uma delas fez a paz com os brancos e compareceu a Carolina (então São Pedro de Alcântara), conduzida por seu chefe &amp;quot;Cocrît&amp;quot;, trazendo galhos verdes em sinal de paz. Meses mais tarde a aldeia transferiu-se para perto desta vila, mas seu chefe foi aprisionado e seus seguidores sofreram nas mãos dos brancos tantos abusos que parte deles se refugiou junto aos Krahó (migrados da bacia do rio Balsas, afluente do Parnaíba, para o rio Farinha). A outra aldeia foi assaltada por um expedição de São Pedro de Alcântara, ajudada pelos Krahó. Os assediados, persuadidos por falsas promessas transmitidas pelo referido chefe &amp;quot;Cocrît&amp;quot;, apresentaram-se diante da expedição em número de 364, sendo ali mesmo atacados, uns mortos, outros aprisionados, enquanto alguns fugiam. Dos 164 aprisionados, 130 foram embarcados para serem vendidos no Pará. Junto com esta segunda aldeia dos Põrekamekhrá foram atacados também os Põkateyê. Retirando-se os segmentos finais dos dois nomes, kamekrá e kateyê, comuns nos etnônimos timbira, e considerando-se o re como diminutivo, todos os dois nomes são constituídos por põ. Mas Curt Nimuendajú lhes dá traduções diferentes: enquanto põre, do primeiro etnônimo, seria o nome da coruja caburé, põ, do segundo, significaria campo (cerrado). De qualquer modo, faltam outras informações sobre os Põkateyê.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Krorekamekrá (krore = caititu) também viviam na região de Carolina e eram inimigos dos Krahó. Curt Nimuendajú ainda viu uns poucos descendentes deles na aldeia dos Canelas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Krepumkateyê (Krepum = nome próprio de um lago; seria referência a um lugar onde as emas põem, pum, ovos, kre) viviam próximo ao local anteriormente ocupado pelos &amp;quot;Caracategé&amp;quot;, no rio Grajaú, sendo provavelmente descendentes deles. Ajudaram a perseguir os Guajajara após o episódio de Alto Alegre, em que morreram missionários capuchinhos, em 1901. Em 1919, Nimuendajú os encontrou em decadência, sem terra e na dependência de um fazendeiro. Esse etnólogo conjectura que os poucos Karenkateyê (karen = lodo) que encontrou na aldeia dos Canelas poderiam ser &amp;quot;Caracategé&amp;quot;, com base na semelhança dos nomes e na posição, segundo a rosa-dos-ventos, que eles ocupavam na praça central da aldeia. Faz, com menos convicção, uma suposição alternativa: a de que seriam &amp;quot;Canacategé&amp;quot;, que moravam no rio Farinha, afluente do Tocantins. Estes, no começo do século XIX, apesar de pedirem paz, foram atacados por uma expedição de Carolina apoiada pelos Krahó, sendo parte escravizados para serem vendidos no Pará e os outros dispersados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por conseguinte, todos os Timbira da faixa entre o Mearim e o Tocantins daí de deslocaram ou foram dispersados ou aniquilados, com exceção dos Pukobyê e dos Krinkati. Mesmo esses dois se viram em dificuldades. É bastante provável que os Gaviões do Oeste, que habitam a floresta junto ao rio Tocantins, no Pará, seriam uma facção dos Pukobyê que deles se separou no século passado, recusando-se ao contato com os colonizadores. Os Krinkati, por sua vez, viram-se de tal modo reduzidos em sua terras, que chegaram a dispersar no início do século XX, e durante alguns anos não tiveram aldeias; entretanto, conseguiram novamente erigi-las.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dos Timbira que ficavam a leste do Mearim, os Krahó foram os que sofreram maior deslocamento. No início do século XIX viviam próximo ao rio Balsas, afluente do Parnaíba. Afastados daí pelo avanço da frente pecuarista, deslocaram-se para junto do rio Farinha, um afluente do Tocantins, onde, cooptados por fazendeiros e por um comerciante que tinha base em Carolina, ajudaram-nos a combater os Timbira da faixa entre o Mearim e o Tocantins. Em meados do mesmo século, foram transferidos mais para o sul por um missionário capuchinho para terras hoje no Estado do Tocantins.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dois povos Timbira da faixa entre o Mearim e o Itapicuru desapareceram como grupos autônomos. Um deles foi os Txokamekrá (txó = raposa), também conhecidos como Mateiros, que viviam entre a margem direita do Mearim e a esquerda do rio Itapicuru, de Caxias para o sul, nucleados ao longo do rio das Flores, afluente do primeiro. Sofreram uma derrota dos brancos no fim do século XVIII. Foram surpreendidos por uma outra expedição em 1815. Refugiaram-se no alto de uma serra. Os que daí desceram desarmados, enganados por propostas de paz, aliança contra seus inimigos e promessas de ferramentas, foram aprisionados e vendidos em leilão na praça de Caxias. Em 1818 revidaram, aceitando os presentes de uma expedição, mas depois matando os expedicionários que desciam com eles para Caxias, a fim de estabelecer um acordo. Em 1847 ainda se registrava a existência de duas aldeias suas. Passaram por uma epidemia em 1855. Inimigos dos Ramkokamekrá, que chegaram a ajudar os brancos contra eles, acabaram por fundir-se com eles ainda no século XIX. Doenças os levaram a separar-se deles. Porém, cada vez mais acossados pelos sertanejos, voltaram a se juntar aos Ramkokamekhrá por volta do início do século XX. Nimuendaju, que pesquisou entre estes últimos em 1929-1936, foi aí adotado por uma família Txokamekrá. O mesmo aconteceu com etnólogo William Crocker, que iniciou suas pesquisas com os Canela nos anos 1950.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Também desapareceram os Kenkateyê em 1913, num massacre traiçoeiro promovido por um fazendeiro. Viviam nas cabeceiras do Alpercatas, afluente do Itapicuru. Os poucos que escaparam ao massacre procuraram refúgio sobretudo entre os povos que parecem ter-lhes dado origem, em meados do século XIX: os Apanyekrá e os Krahó.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Desta faixa, portanto, restaram os Krahó, os Canelas e os Apanyekrá, em cujas aldeias foram abrigados descendentes de outros Timbira que se dispersaram.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Julio Cezar Melatti|Julio Cezar Melatti]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A cultura Timbira ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cultura de cada povo timbira atual é tema de seus respectivos verbetes. Aqui se apontará simplesmente aquilo que têm em comum. As semelhanças começam pela própria aparência que dão ao corpo. O corte de cabelo é o mesmo para ambos os sexos, longos, com um sulco em torno da cabeça à altura da franja, interrompido, menos para os Apinayé, na parte posterior. Os homens trazem grandes batoques auriculares; os Gaviões do Oeste furavam também o lábio inferior. As jovens, sem filhos, tinham um cinto de vários cordéis de tucum. Entre a maneira de se apresentar do período pré-contato e as tendências atuais de cada vez mais adotarem o vestuário dos civilizados, os Timbira do cerrado mantiveram uma indumentária feita com artigos dos civilizados, mas com características próprias: os homens escondiam o sexo com um retângulo de tecido preso a um cinto de couro ou um cordel; às vezes, ao viajar, faziam a tanga com a parte superior das calças, que eram amarradas às cintura com as pernas; vestiam-nas normalmente só quando se aproximavam de locais habitados por civilizados. As mulheres se cobriam da cintura aos joelhos com uma peça de pano, que tinham o cuidado de embainhar com agulha e linha; no pescoço, várias voltas (podiam chegar a trinta) de miçangas, guarnecidas com um feixe de medalhas católicas (chamadas de &amp;quot;verônicas&amp;quot;). Esses vestuário era usado sem prejuízo da pintura de corpo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Também assemelham-se na cultura material. Usam cabaças como recipientes para água e alimentos, em lugar de cerâmica. Dormem em estrados forrados com esteiras, em lugar de redes de dormir. Fazem uma profusão de artefatos feitos de palha trançada: cestos, esteiras, faixas. Assam bolos de mandioca e carne, envolvidos em folhas de bananeira brava, sob pedras previamente aquecidas. Água ou caldos também podem ser posto a ferver quando colocados em cabaças ou capembas, mergulhando-se no líquido pedras aquecidas. Hoje, o uso de pedras aquecidas é mais freqüente no preparo de bolos para os ritos; para a alimentação cotidiana se usam panelas de ferro. Não há vestígios de como seriam as casas antes do contato com os brancos. As de hoje, de origem sertaneja, são retangulares, com teto de duas águas coberto de folhas de palmeira. As paredes, de troncos verticais entremeados com palha, tendem casa vez mais a serem substituídas por barrote. Geralmente faltam as divisões internas da casa sertaneja, assim como as janelas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas aldeias timbira, as casas se dispõem uma ao lado da outra, ao longo de um largo caminho, de modo a formar um grande círculo. De cada casa sai um caminho, mais estreito, em direção ao centro, onde está o pátio. Este, ao contrário do que acontece com aldeias de outros povos jê, não tem casa-dos-homens ou qualquer outra construção. Isso não impede os rapazes de dormirem nele ao relento quando não chove. O pátio é o local das reuniões masculinas, ao amanhecer e ao anoitecer. Nele as mulheres cantam dispostas em fila, ombro a ombro, conduzidas por um cantor que agita o maracá.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O casamento, monogâmico, implica na transferência do marido para casa onde vive a mulher. A união se torna estável depois do nascimento do primeiro filho. Mas há ampla liberdade sexual para solteiros e casados. Casas contíguas oriundas do desdobramento de uma casa anterior são, por força da regra de residência pós-marital, relacionadas entre si por linha feminina e formam uma unidade social. As pessoas nascidas num mesmo segmento de casas desse tipo não casam entre si. Tais segmentos são, pois, exogâmicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dentro do espaço da aldeia, as direções têm significado. É preciso estar atento para oposições como centro/periferia, leste/oeste, alto/baixo e outras para se chegar a ter algum entendimento dos vários ritos que aí se realizam. Há ritos relacionados ao ciclo de vida dos indivíduos, os relativos ao ciclo anual e ainda os associados a um ciclo mais longo, de iniciação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Desses ritos fazem parte as corridas de revezamento, em que cada uma das duas equipes que as disputam carrega uma seção de tronco de buriti (ou de outro vegetal). O formato das toras (longas ou curtas, maciças ou ocas, cavadas ou com cabos), seu tamanho e seus ornamentos variam conforme o rito em realização.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para essas disputas, mas não somente para elas, cada povo timbira se divide em duas partes, ditas metades. O mesmo povo pode dividir-se em distintos pares de metades, cada qual com seu critério de afiliação: nome pessoal, faixa de idade, livre escolha, mas, ao que parece, em nenhum caso descendência unilinear.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O nome pessoal, além de critério importante para afiliação a metades, também está associado a certos papéis rituais, que são herdados com ele. O nome masculino é transmitido por parentes de uma categoria que inclui o tio materno, o avô materno e o avô paterno entre outros; o nome feminino, pela categoria de parentas que inclui a tia paterna, a avó paterna e a avó materna, entre outras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa identificação pelo nome, de caráter mais ritual, se contrapõe a uma outra que associa parentes geralmente integrantes da mesma família elementar. Trata-se das evitações alimentares, sexuais ou de outros tipos de comportamento que devem ser respeitadas quando um filho ou filha, pai ou mãe, irmão ou irmã de um indivíduo passam por um período de crise, como os primeiros dias de vida, uma enfermidade, a picada de um animal peçonhento, baseadas na crença de que o que afeta a um também afetará o outro. Esses laços costumam ser chamados &amp;quot;de substância&amp;quot; nos livros de etnologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os termos de parentesco classificam filhos dos tios de sexos opostos aos dos pais com parentes de outras gerações. A aplicação dos termos aos parentes distantes pode afastar-se do padrão quando envolve portadores do mesmo nome pessoal, parentes para com os quais se mudou de atitude, amigos formais. Quanto a esses últimos, vale esclarecer podem ser de dois tipos: aqueles unidos por uma amizade mais espontânea, que os faz iguais, como se fossem irmãos; e os ligados por um laço mais rígido, marcado simultaneamente por uma solidariedade exagerada e pela evitação, que os faz como contrários.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seus grupos locais se relacionam pela chefia honorária, constituída pela aclamação de um morador de uma aldeia pelos de outra, da mesma ou de outra etnia, estabelecendo uma relação de paz e amizade, e proporcionando hospedagem de uns na aldeia dos outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seus mitos, que estão referidos nos verbetes específicos de cada etnia timbira, são na grande maioria os mesmos, com pequenas variações: Sol e Lua e a criação dos seres humanos, do trabalho, da morte, da menstruação, dos animais importunos e peçonhentos; a Mulher-Estrela, que ensina o uso dos vegetais cultiváveis; a luta contra o grande gavião e a grande coruja e a origem do rito de iniciação Pembyê; a assunção de um homem aos céus pelos urubus, de onde traz o conhecimento do xamanismo e do rito de iniciação Pembkahëk; o conhecimento do uso do fogo, que foi tomado das onças; a transformação de alguns seres humanos em monstros, como o Perna-de-Lança; o surgimento do homem branco pela exclusão de um membro anômalo do seio da sociedade indígena. É constante, pois, nessa mitologia a passagem de conhecimentos de fora para dentro da sociedade e de certos seres no sentido contrário. Além dos mitos, os diferentes povos timbira fazem narrativas de caráter mais histórico, geralmente episódios de conflito e guerra.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Julio Cezar Melatti|Julio Cezar Melatti]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nota sobre as fontes ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Aqui se fará referência a fontes que tratem de todo o conjunto dos povos Timbira ou que façam comparações entre os mesmos. Não existe um trabalho geral sobre os Timbira, mas Curt Nimuendajú, em seu livro sobre os Canela, The Eastern Timbira, faz um breve histórico de cada povo timbira, inclusive os extintos sobre os quais há alguma informação. Dentre as fontes históricas, destacam-se as memórias de Francisco de Paula Ribeiro, militar português que comandava as tropas do sul do Maranhão no começo do século XIX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
São poucos os trabalhos que comparam diferentes povos timbira. Roberto DaMatta, pela comparação das versões krahó e canela do mito de origem dos civilizados, discute a complementaridade do avô materno e tio materno no que tange à autoridade doméstica. Maria Elisa Ladeira, mediante o estudo dos Krahó, Apanyekrá e Apinayé, relaciona demografia, transmissão de nomes pessoais e sistema matrimonial. Julio Cezar Melatti toma os grupos da praça entre os Krahó, Canela e Krinkatí, como transfiguração simbólica das diferentes possibilidades do indivíduo se relacionar com o grupo. Dolores Newton encontra distinção entre os Krinkatí e Pukobyê no exame da técnica de torcer os fios de algodão e de trançá-los na confecção de redes de dormir. Maria Elisa Ladeira e Gilberto Azanha, no artigo &amp;quot;Os 'Timbira atuais' e a disputa territorial&amp;quot;, dão notícia da situação das terras de cada povo timbira. Vincent Carelli, num vídeo, mostra como os Gaviões do Oeste e os Krahó numa troca de visitas, se estudam e se comparam.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Julio Cezar Melatti|Julio Cezar Melatti]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;DA MATTA, Roberto. Mito e autoridade doméstica. In: --------. Ensaios de Antropologia Estrutural. Petrópolis : Vozes, 1973. p. 19-61.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;LADEIRA, Maria Elisa. De bilhetes e diários : oralidade e escrita entre os Timbira. In: SILVA, Aracy Lopes da; FERREIRA, Mariana Kawall Leal (Orgs.). Antropologia, história e educação : a questão indígena e a escola. São Paulo : Global, 2001. p. 303-30.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
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&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. A troca de nomes e a troca de cônjuges : uma contribuição ao estudo do parentesco timbira. São Paulo : USP, 1982. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
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&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MELATTI, Julio Cezar. Indivíduo e grupo : à procura de uma classificação dos personagens mítico-rituais Timbiras. Anuário Antropológico, Rio de Janeiro : Tempo Brasileiro, n. 79, p. 99-130, 1981. Publicado preliminarmente como &amp;quot;À procura de uma classificação dos personagens mítico-rituais Timbiras&amp;quot; na Série Antropologia. Brasília : UnB, 1979.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&amp;lt;li&amp;gt;NEWTON, Dolores. The Timbira hammock as a cultural indicator of social boundaries. In: THE HUMAN mirror : material and espatial images of man. Baton Rouge : Louisiana State University Press, 1974. p. 231-51.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
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&amp;lt;li&amp;gt;NIMUENDAJU, Curt. The Eastern Timbira. Berkeley e Los Angeles : University of California Press, 1946.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
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&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;RIBEIRO, Francisco de Paula. Descripção do Territorio de Pastos Bons, nos sertões do Maranhão; propriedades dos seus terrenos, caracter dos seus habitantes colonos, e estado actual dos seus estabelecimentos. Rev. do Instituto Historico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro : IHGB, v. 12, p. 41-86, 1874&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Memória sobre as Nações Gentias que presentemente habitam o continente do Maranhão : analyse de algumas tribus mais conhecidas - processo de suas hostilidades sobre os habitantes; causas que lhes tem dificultado a reducção, e único methodo que seriamente poderá reduzilas. Rev. do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro : IHGB, v. 3, p. 184-97, 297-322 e 422-56, 1841.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Roteiro da viagem que fez o Capitão Francisco de Paula Ribeiro às fronteiras da Capitania do Maranhão e da de Goyaz no anno de 1815 em serviço de S. M. Fidelissima. Rev. do Instituto Historico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro : IHGB, v. 10, p. 5-80, 1870&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;Eu já fui seu irmão. Dir: Vincent Carelli. Vídeo Cor, NTSC e Betacam SP, 32 min., 1993. Prod.: CTI-SP.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Julio Cezar Melatti|Julio Cezar Melatti]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos Timbira]]&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
Cuidado ao editar esta seção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bloco &amp;quot;&amp;lt;noinclude&amp;gt;&amp;quot; usado para evitar que propriedades sejam propagadas em páginas transcluídas:&lt;br /&gt;
Detalhes em http://www.mediawiki.org/wiki/Transclusion#Semantic_MediaWiki&lt;br /&gt;
--&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Timbira}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Julio Cezar Melatti}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
{{#set:Capa=98559846648c92acff03cd.jpg}}&lt;br /&gt;
{{#set:Counter=58413}}&lt;br /&gt;
{{#set:Crédito capa=William Crocker, 1975}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=1999-12-01}}&lt;br /&gt;
{{#set:Estilo=escuro}}&lt;br /&gt;
{{#set:Povo Id=380}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
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		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Apy%C3%A3wa&amp;diff=8476</id>
		<title>Povo:Apyãwa</title>
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		<updated>2025-09-02T13:13:49Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Os Tapirapé constituem um povo Tupi-Guarani habitante da região da serra do Urubu Branco, no Mato Grosso. Em decorrência do contato com as frentes de expansão, a partir de meados do século XX, sofreram intensa depopulação, período em que estreitaram suas relações com grupos [[Povo:Karajá|Karajá]], até então seus inimigos. Depois de terem seu território tradicional ocupado por fazendas de agropecuária, na década de 1990 conseguiram reconhecimento oficial de duas TIs, sendo uma delas coabitada pelos Karajá. Mas na [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/4033 TI Urubu Branco] ainda enfrentam problemas fundiários, em razão de invasões de fazendeiros e garimpeiros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Localização e população ==&lt;br /&gt;
Os Tapirapé vivem numa região de floresta tropical, com flora e fauna tipicamente amazônicas, entremeada de campos limpos e cerrados. Agricultores, suas aldeias tradicionalmente se localizam nas proximidades de densas florestas em terrenos altos não inundáveis, onde mantém suas roças. ''Tapi’itawa'', a aldeia mais conhecida do grupo, reproduz as condições ideais para a localização de uma aldeia: terreno não-inundável próximo a florestas altas para agricultura, também com proximidade a campos abertos marginais aos afluentes do Araguaia e a um córrego de existência perene mesmo durante a estação seca. Os Tapirapé exploram alternadamente esse ambiente, segundo a época do ano e atividade a que se dedicam: agricultura, caça, coleta e pesca.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:André Toral|André Toral]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Histórico da ocupação ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
 |Meninos Tapirapé. Foto: Antônio Carlos Moura, s/d.&lt;br /&gt;
 |http://img.socioambiental.org/d/231414-1/tapirape_2.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Tapirapé são um grupo indígena originário do baixo curso dos rios Tocantins e Xingu, onde viviam até o século XVII. Chegaram à região marginal ao médio curso do Araguaia por volta da segunda metade do século XVIII. Sua presença é anotada ao norte do rio Tapirapé a partir desse mesmo século (Baldus, 1970).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A antiguidade dos contatos dos Tapirapé com seus vizinhos Karajá e [[Povo:Kayapó|Kayapó]] remonta a épocas anteriores ao século XVII. Desde então, oscilam de amistosa convivência a hostilidades e enfrentamentos. Os Tapirapé têm uma série de narrativas históricas e mitológicas que assinalam sua presença secular nas matas da margem esquerda do rio Araguaia, especificamente na região de serras conhecidas como Urubu Branco, no norte da Ilha do Bananal, foz do rio Javaé, e médio curso do rio Araguaia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Grandes deslocamentos de grupos indígenas na região central do Brasil ocorridos até o século XIX os levaram de encontro aos Tapirapé nas matas paraenses, fazendo com que estes últimos se refugiassem nas matas próximas à margem esquerda do baixo Araguaia. Na história do grupo, do séc XVIII até o presente, vemos os Tapirapé entrando em contato com diversos grupos Karajá cujos territórios iam contornando, à medida que se aproximavam da Ilha do Bananal, num vigoroso movimento rumo sul: com os [[Povo:Karajá do Norte|Karajá do Norte]] no Baixo Araguaia, como os Javaé no interior da ilha e com os Karajá no médio Araguaia e foz do Tapirapé.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII e início do XIX, os Tapirapé encontravam-se divididos. Uma parte estava na margem esquerda do Araguaia, no estado do Pará, pouco acima de sua divisa atual com o Mato Grosso. Suas aldeias iam do Pará até o norte e arredores do rio Tapirapé já no século XVIII. Outra parte do grupo encontrava-se na Ilha do Bananal (atual estado do Tocantins), em contato com os Javaé. Alcançaram a ponta norte da ilha já em 1775 (Baldus, 1970). Mantinham intensa comunicação com os Javaé, principalmente das aldeias ''Wariwari ''e ''Imotxi'', com visitas, comércio regular e intercâmbio de canções e rituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O território dos Tapirapé em 1900 e pouco antes dessa data era compreendido pela margem esquerda do rio Araguaia, até pouco acima da atual divisa dos estados de Mato Grosso com o Pará. Eram aproximadamente 1.500 pessoas vivendo em cinco aldeias, todas localizadas próximas aos tributários da margem esquerda do Araguaia. Os nomes dessas aldeias eram (do norte para o sul): ''Anapatawa'', ''Xexotawa ''(grafado “Chichutawa”), ''Moo’ytawa'' (“Moutawa”), ''Makotawa ''(“Mankutawa”), e ''Tapi’itawa'' (“Tampiitawa”) (Wagley, 1988: 49).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Tapirapé, principalmente os das aldeias setentrionais, eram seguidamente atacados por grupos Kayapó; à leste, procuravam manter-se longe do curso principal do Araguaia, por temor a certas aldeias Karajá. Ainda assim o etnógrafo alemão Krause, em 1908, aponta intenso contato entre grupos Tapirapé e Karajá da aldeia do capitão João e da Barra dos Tapirapé. Informa também que esses contatos intermitentes oscilavam entre a cordialidade e hostilidade (Krause, 1940-44 e Wagley, 1988).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dentre os grupos Karajá destacam-se os Javaé, com os quais mantiveram relações pacíficas e posteriormente hostis no século XIX. Com os Karajá propriamente ditos mantém relações mais próximas no tempo: desde a metade do século XIX até o presente. Os Karajá setentrionais, principalmente, costumavam visitá-los durante a estação seca quando o grupo se encontrava nos campos ao sul da serra do Urubu Branco. Eram expedições de comércio que não raro degeneravam em choques armados, emboscadas ou surpresas sangrentas. Próximo a um local denominado Tyha, na beira do rio Tapirapé ao sul da serra do Urubu Branco, os Tapirapé assinalam dois cemitérios de guerreiros Karajá mortos aproximadamente em 1905 ou 1910 em dois grandes combates havidos no campo. Os Karajá procuravam, sobretudo, pilhar os bens dos Tapirapé e raptar crianças e mulheres. Com efeito, boa parte do visitantes ocidentais que estiveram entre os Karajá setentrionais, no fim do século XIX e início do presente, registram mulheres, moças e crianças tapirapé que viviam como cativos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir do início do século XX os Tapirapé passaram a sofrer ataques dos Kayapó cada vez mais freqüentes, o que forçou o abandono de suas aldeias setentrionais, no sul do Pará e norte de Mato Grosso, próximas ao interior da atual Conceição do Araguaia e Vila Rica, e a se concentrarem naquelas localizadas nas proximidades de serras, matas e campos do médio curso do rio Tapirapé, já em terras matogrossenses. Os atuais Tapirapé designam o local dessas aldeias habitadas nas primeiras três décadas do século XX como ''Yrywo’ywawa'', “local onde o Urubu Branco bebe”, ou, como é conhecida regionalmente, “serra do Urubu Branco”. Este território compreende matas de terras altas, num relevo composto de serras e terrenos planos. A serra do Urubu Branco localiza-se à direita da “serra dos Tapirapé” e, junto com esta última, compõem um avanço da serra do Roncador em direção ao Araguaia. A partir dessas aldeias, com grandes roças localizadas nos contrafortes de serras, atingiam também uma grande extensão de campos marginais a rios tributários do Araguaia, especialmente durante a época do verão, em longas expedições de caça e coleta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao norte dessa região, nas imediações do rio Beleza, estava a aldeia de Xexotawa, uma das mais setentrionais e única a permanecer habitada até o final do período. A oeste e ao sul o limite de seu território era marcado pela ocupação das aldeias de ''Tapi’itawa, Tokynookwatawa'' e ''Xoatawa''.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na aldeia Tapirapé existem cerca de dez casais “mistos”, isto é, formados por homens tapirapé e mulheres karajá. Estas uniões, iniciadas já na década de 50 e 60, respondiam, inicialmente, a uma necessidade de recomposição populacional do grupo, que sofreu forte depopulação. Havia, sobretudo, uma grande escassez de mulheres, o que fez com que muitos jovens tapirapé se casassem e fossem morar por um período junto aos pais da noiva, uma vez que os Karajá, como os Tapirapé, são matrilocais (ao casar-se o genro deve morar na casa de seu sogro).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Procurando escapar ao alcoolismo e à hegemonia política do grupo familiar dominante na aldeia Karajá de Itxala, se formou em 1990, a apenas 5000 metros da aldeia Tapirapé de Tawyao, uma nova aldeia Karajá, denominada ''Tytema'', formada por duas grandes famílias extensas unidas pelo casamento de seus filhos. Boa parte desses Karajá são evangélicos, parcialmente em resposta ao problema que enfrentam com o alcoolismo.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:André Toral|André Toral]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Histórico do contato ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
 |Volta do inspetor Mandacaru à aldeia Tapirapé. Foto: acervo SPI, 1912.&lt;br /&gt;
 |http://img.socioambiental.org/d/231421-1/tapirape_3.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Desde 1910 até 1947 os habitantes de Tapi’itawa, a maior aldeia do grupo, receberam visitas contínuas de funcionários do antigo SPI (Serviço de Proteção aos Índios), prospectores de látex, missionários dominicanos, protestantes, antropólogos e visitantes nacionais e estrangeiros. Essa aldeia, onde a população Tapirapé se refugiou no período de intensa depopulação, é uma das mais antigas e porta de entrada para o território Tapirapé.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O violento aparecimento de malária, gripe e simples resfriados fez sua população despencar para menos de cem pessoas no final da década de 1940 (Baldus, 1970). Com a diminuição da população, os remanescentes passam a se concentrar na aldeia de Tapi’itawa, procurando contato com a população regional e distância dos pontos setentrionais de seu território, permanentemente atacados por grupos Kayapó.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1946, não obstante, a nortista aldeia de Xexotawa é novamente ocupada por um grupo de moradores liderados por Kamaira, importante líder familiar registrado por Wagley (1988). Cerca de duas dezenas de pessoas acompanham Kamaira. Esse grupo optou por viver numa aldeia que não estivesse tão sujeita a contatos com estrangeiros e às doenças trazidas por estes últimos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1947 Tapi’itawa sofreu um grande ataque, praticado pelos Kayapó Metyktire. A aldeia foi saqueada e a maior parte de suas casas, inclusive a Casa dos Homens, queimadas. Algumas mortes ocorreram, fazendo com que os Tapirapé de Tapi’itawa se dispersassem por núcleos regionais, buscando refúgio em fazendas da região e no Posto Indígena Heloísa Alberto Torres (atual PI Tapirapé/Karajá), do SPI.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A população de Xexotawa, entrementes, também sofreu um grande ataque Kayapó. A data não pode ser precisada porque o grupo se encontrava sem contato com a população nacional. O ataque noturno dos Kayapó fez com que sua população se dispersasse e se dividisse em dois grupos, isolados um do outro, e cujos membros ignoravam o destino dos demais, julgando-os perdidos ou mortos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo dirigiu-se para o sul, reocupando o local da aldeia Xoatawa, enquanto os demais permaneceram nas proximidades da aldeia de Xexotawa, localizada nos arredores do alto curso do rio Crisóstomo. Tanto o grupo de Xoatawa quanto o de Xexotawa permaneceram rigorosamente isolados no meio da mata. Perderam contato com os demais Tapirapé, com a população nacional e com outros grupos indígenas por várias décadas até serem reunidos com os demais Tapirapé. Os habitantes dessas duas aldeias permaneceram vivendo nas proximidades da região que atualmente se designa com “serra do Urubu Branco”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Novas frentes de expansão ===&lt;br /&gt;
Embora a ocupação de não-índios na região date desde os anos 1940, é a partir da década de 50 que ela se intensifica, com as novas frentes de expansão da sociedade nacional, representadas pela pecuária através de grandes empresas agropecuárias e especuladores de terra, beneficiados por uma política de incentivos fiscais originários da Sudam, Banco da Amazônia do programa Polomazônia, se pautando em duas diretrizes básicas: (1) melhoria e ampliação da rede de estradas vicinais de apoio à pecuária e (2) desenvolvimento e consolidação da atividade pecuária.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1954 a Civa (Companhia Imobiliária do Vale do Araguaia) instala-se na nascente povoação de Santa Teresinha. Essa empresa obtivera do governo do Mato Grosso concessão para a compra e venda de títulos de extensas áreas do Araguaia. A Companhia Colonizadora Tapiraguaia, sucessora da Civa que encerrou suas atividades por insolvência no final da década de 50, continuou a negociar os loteamentos incidentes em TI Karajá e Tapirapé.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Todo o território imediatamente ao norte do rio Tapirapé – onde se incluíam o Posto Indígena Heloísa Alberto Torres e as terras habitadas tradicionalmente pelos Tapirapé e Karajá da barra do Tapirapé – fora dividido em “lotes” e vendido a particulares sem maiores delongas. As terras das aldeias da área da serra do Urubu Branco também foram loteadas e tituladas através dessa bizarra concepção original de que seriam terras devolutas e sem ocupação. As terras de Santa Teresinha, atualmente sede do município de mesmo nome, também foram loteadas e vendidas a fazendas que exigiram a retirada imediata de seus moradores tradicionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Missão Irmãzinhas de Jesus ===&lt;br /&gt;
Segundo Wagley (1988), em 1950 o responsável pelo Posto, Valentim Gomes, com a ajuda dos missionários Dominicanos, persuadiu as dispersas famílias tapirapé a se reunirem e formarem uma aldeia perto do posto do SPI. A reunião, no entanto, foi parcial, pois permaneceram na área do Urubu Branco os habitantes da aldeia Xoatawa; nas cabeceiras do córrego Gameleira e ao norte da área, o grupo que ficou na região de Xexotawa. Portanto, a instalação da população Tapirapé na nova aldeia, que dista aproximadamente 80 km de Tapi’tawa, e junto à barra do rio que leva o nome do grupo, foi feita por representantes do SPI e não representou uma proposta do próprio grupo indígena.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir de 1951, a Missão das Irmãzinhas de Jesus, a pedido do bispo dominicano de Conceição do Araguaia, instala-se junto à aldeia da barra do rio Tapirapé, passando a dar assistência aos Tapirapé na área de saúde. Na década de 70, um casal leigo da equipe da pastoral indigenista da prelazia de São Félix do Araguaia iniciou um projeto de alfabetização na língua nativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A chegada da missão, bem como o início de uma assistência regular e de excelente qualidade ao grupo, marcaram também o início da recuperação demográfica dos 51 Tapirapé (Wagley, 1988) reunidos na aldeia nova, Tawyao, próxima ao posto do SPI. Os habitantes de Xoatawa e Xexoatawa, no entanto, permaneceram sem apoio assistencial e tiveram sua população continuamente reduzida pela ação de doenças, ataques de animais selvagens e fome.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma vez instalados próximos à aldeia Karajá da barra do Tapirapé, as relações entre os grupos Karajá e Tapirapé ficaram mais amenas e os grupos iniciaram, em 1949-50, um profundo intercâmbio social e econômico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1964 o primeiro grupo dos remanescentes de Xexotawa fez contato com a população regional de Lago Grande, às margens do Araguaia. Eram três mulheres e duas crianças. Haviam atingido Lago Grande margeando lentamente o rio Crisóstomo e a região entre este e o córrego Antônio Rosa. Pertenciam a um grupo tapirapé que havia permanecido dezoito anos isolado na mata. Nessa ocasião, são trazidos para a nova aldeia. Em 1970 o último grupo remanescente de Xexotawa topou acidentalmente com um caçador regional, conseguindo estabelecer contato pacífico, reencontrando assim seus ex-parentes que moravam na aldeia nova, junto ao posto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Empresas e posseiros ===&lt;br /&gt;
Nas décadas de 1970 e 80 houve na região da Serra do Urubu Branco e em suas proximidades um violento enfrentamento entre grandes empresas e posseiros pioneiros na ocupação não-indígena da região. Muitas vezes através de pressões, da atuação de milícias armadas e do constrangimento ilegal de modestos posseiros, as grandes empresas agropecuárias forçaram a compra, mudança ou simplesmente expulsaram estes últimos das terras que ocupavam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na década de 70, em pleno regime militar, a política do Governo Federal, em especial do Ministério do Interior ao qual se ligava a Funai (Fundação Nacional do Índio), enfatizava a necessidade de ocupação da Amazônia. A oposição às legítimas pretensões territoriais dos Tapirapé foi centralizada pela figura do Coronel Nobre da Veiga, na época o presidente da Funai, e pelo então diretor do [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3592 Parque Indígena do Araguaia], sargento José Tempone. Os Tapirapé receberam, no clímax das tensas negociações com o Governo Federal e sua agência indigenista em 1981, o apoio da Prelazia de São Félix do Araguaia, da Igreja Católica e de numerosas entidades civis do Brasil e do exterior, que exigiam o cumprimento da Constituição pelo Governo Federal. O “caso Tapirapé”, em que Igreja e sociedade civil aliaram-se na defesa de um caso exemplar, frente a um Estado autoritário e que agia ao arrepio da lei, tornou-se paradigmático das relações índios e Estado nacional nesse período.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As grandes fazendas, com seus sucessores na cadeia dominial, formam a base da ocupação da região com a qual se chocam até os dias de hoje os Tapirapé, os Karajá e outros grupos regionais que foram ilegalmente despojados de suas terras por ato incorreto do estado do Mato Grosso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na região em torno do Urubu Branco, principalmente no final da década de 80 até os dias de hoje, registra-se uma série de sangrentos conflitos envolvendo trabalhadores rurais e milícias de fazendeiros locais. Existe nessa região, considerada uma das mais explosivas do país em termos do processo de ocupação fundiária, o costume, por parte de fazendas e grupos econômicos, de contratarem grupos de indivíduos, “pistoleiros”, que formam verdadeiras milícias armadas a assegurarem a integridade do que julgam suas propriedades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o reconhecimento da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3865 TI Tapirapé/Karajá] em 1983, os Tapirapé passam já no ano seguinte a reivindicar seu território tradicional, o qual nunca deixaram de ocupar: a região do Urubu Branco. Durante o período que vai de 1950 a 80 utilizaram-no como local de moradia até os anos 70 e, posteriormente, como zona de caça, coleta e práticas religiosas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 20 de novembro de 1993, cansados de esperar providências por parte da Funai, 62 Tapirapé ocuparam o retiro de uma fazenda e reocuparam a aldeia Tapi’itawa. Em 1994, a presidência da Funai aprovou o relatório produzido pelo GT (Grupo Técnico) instituído no ano anterior encarregado de definir a área da TI Urubu Branco conforme proposta dos Tapirapé. Em outubro de 1996 o Ministro da Justiça, Nelson Jobim, assinou a portaria 599 declarando essa Terra Indígena como sendo de posse permanente dos Tapirapé, a qual foi homologada no mesmo ano.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:André Toral|André Toral]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Organização social ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
 |Rapaz Tapirapé com sua filha. Foto: Arquivo da Prelazia de São Félix, 1970.&lt;br /&gt;
 |http://img.socioambiental.org/d/231432-1/tapirape_5.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma aldeia Tapirapé é composta por casas dispostas em círculo ao redor da Casa dos Homens, a takara. Até a década de 1950 as casas eram habitadas por famílias extensas. Uma família Tapirapé, idealmente, se compõe de um grupo de mulheres aparentadas (mãe, filhas e netas), representando duas a três gerações. Atualmente, no entanto, a família extensa perde importância e a família nuclear (o casal e seus filhos) é o grupo doméstico mais comum. A família nuclear, como se deduz através das mudanças ocorridas em sua terminologia de parentesco, é também a mais estável unidade de parentesco atual.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além do parentesco, outro importante princípio organizativo da sociedade Tapirapé são as chamadas “sociedades de pássaros” ou, simplesmente wyra. Exclusivamente masculinas, tais sociedades são divididas em duas grandes “metades”, que por sua vez são compostas por grupos de idade: de homens mais velhos, homens maduros e jovens. Um homem liga-se à “sociedade de pássaro” de seu pai e à medida que cresce vai passando ao outro grupo de sua própria metade. As wyra atuam competitivamente como grupos de caça, de trabalhos cerimoniais, de canto, em tarefas agrícolas, construção de casas etc.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Assim, as wyra dividem a população masculina em duas metades, sendo cada metade dividida em três classes de idade. Wagley (1988) se refere a essas metades como sendo formadas por “pássaros brancos” e “papagaios”, organizadas da seguinte maneira:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;table-responsive&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;table class=&amp;quot;table table-hover&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;th&amp;gt;'''Pássaros Brancos'''&amp;lt;/th&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;th&amp;gt;'''Faixa Etária'''&amp;lt;/th&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;th&amp;gt;'''Papagaios'''&amp;lt;/th&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;''wrachinga''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Jovens:10 – 16 anos&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;''wrankura''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;''wranchingió''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Homens maduros: 16 – 35 anos&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;''anancha''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;''wranchingó''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Homens mais velhos: 35-55 anos&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;''tanawe''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/table&amp;gt;&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
''' Extraído de Wagley, 1988: 117'''&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro princípio organizativo da sociedade Tapirapé são os “grupos de comer”, ''tataopawa''. Como seu próprio nome indica, reúnem-se para o consumo de alimentos e atualmente têm função basicamente cerimonial. Até o final da década de 1940, no entanto, atuavam como reguladores, reunindo-se para a distribuição e consumo de alimentos (Wagley, 1977: 15). São grupos de consumo de alimentos (da roça, caça, coleta, pesca etc.) intermediários entre a aldeia e o grupo doméstico. Os “grupos de comer” constituem laços que unem pessoas de casas diferentes, formando uma única unidade social. A transmissão ao “grupo de comer” específico se faz de modo que os filhos pertencem ao grupo do pai e as filhas ao da mãe. Wagley cita oito grupos de ''tataopawa'' (aqui registrados segundo sua grafia original):&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
;''Tataopawa ''- “Grupos de Comer”&lt;br /&gt;
* ''Amirapé'' (os primeiros)&lt;br /&gt;
* ''Maniutawera'' (os da mandioca)&lt;br /&gt;
* ''Awaiku'' (os da mandioca doce)&lt;br /&gt;
* ''Tawaupera'' (os da aldeia)&lt;br /&gt;
* ''Chakanepera'' (os do jacaré)&lt;br /&gt;
* ''Chanetawa'' (os da nossa aldeia)&lt;br /&gt;
* ''Pananiwana'' (os do rio)&lt;br /&gt;
* ''Kawano'' (os da vespa)&lt;br /&gt;
'''Extraído de Wagley, 1988: 128'''&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A importância econômica das “sociedades de pássaros” e dos “grupos de comer” por seu papel na produção e consumo de alimentos é fundamental. A ela se soma sua importância na vida cerimonial do grupo. Através de uma alegre e antiga rivalidade, as “sociedades de pássaros” atuam competitivamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma aldeia Tapirapé, idealmente, deveria ter uma população suficiente para prover de membros as “sociedades de pássaros” e os “grupos de comer”. Sem essas unidades presentes, a atividade econômica e a vida cerimonial não poderiam operar (Wagley, 1988: 135). Apesar da sobrevivência de formas de produção comunais, basicamente através das wyra, pode-se dizer que estas têm assumido cada vez mais funções rituais e religiosas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Chefia ===&lt;br /&gt;
Politicamente, a sociedade Tapirapé é extremamente igualitária. Os líderes das diversas casas da aldeia mantém contato diário, através de reuniões noturnas dos homens no pátio da takara. Lá são discutidas todas as questões que digam respeito à comunidade. As principais funções do “cacique”, atualmente, dizem respeito à administração de alguns bens da comunidade, como a caderneta de poupança, a lancha voadeira e o gado. Estabelece também, em nome da comunidade, contato com terceiros, sejam índios ou não. O detentor da chefia formal não faz mais do que referendar decisões discutidas à exaustão pelo coletivo dos homens. Não existe, entre os Tapirapé, a figura de uma liderança forte, o “cacique” ou “capitão”, que se impõe aos demais apoiados em seu segmento residencial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As atuais lideranças são indivíduos jovens, entre 30 e 40 anos, que falam bem o português, sabem ler e escrever, além de serem surpreendentemente bem informados a respeito do noticiário nacional que acompanham através do rádio. Conquistaram papel de destaque durante o processo de enfrentamento com a Funai e fazendas durante as décadas de 70 e 80. São lideranças testadas e aprovadas pela comunidade no desgastante processo de negociação que lhes garantiu uma terra mínima para viverem em solo matogrossense, evitando seu despejo para a ilha do Bananal. Constituem um perfil de liderança que contrasta com os antigos “caciques”: senhores na terceira idade, com domínio muito limitado do português e que não sabem ler nem escrever mas que tem sólido prestígio ritual e excelente domínio da cultura tradicional e história, e que apoiavam-se, politicamente, na força de seus respectivos segmentos residenciais.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:André Toral|André Toral]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Atividades produtivas ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
 |Mulher limpando girinos que comem no início das chuvas. A variedade do sapo é Ami'a. Foto: Antônio Carlos Moura, s/d.&lt;br /&gt;
 |http://img.socioambiental.org/d/231436-1/tapirape_6.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Tapirapé vivem em comunidades fortemente apoiadas na atividade agrícola. Suas roças lhes fornecem não só sua base de subsistência, como estruturam, juntamente com a caça, sua vida espiritual.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base econômica e religiosa se realiza sobre um terreno propício a essa atividade: matas altas não-inundáveis. Somente esse ecossistema permite a existência e a operacionalidade dos princípios que organizam uma aldeia: (1) os grupos de parentesco, (2) as sociedades de pássaros - wyra e (3) os grupos de comer - Tataopawa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pelo menos desde o século XIX os Tapirapé exploraram territórios que combinavam florestas de matas altas, propícias ao estabelecimento de roças e caça, com a proximidade de áreas marginais aos afluentes do Araguaia, ricas em lagos para a pesca, e próximas aos campos onde se dedicam, sazonalmente, à intensa coleta de grande variedade de espécies silvestres: cocos, mel e ovos de quelônios.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma aldeia, segundo a concepção Tapirapé, deve-se localizar próxima às roças, com os conceitos de aldeia e roça se confundindo. Em certos períodos, como na colheita no início do ano, os Tapirapé chegam a morar em abrigos construídos em meio às suas plantações e todo o calendário religioso do grupo está ligado à maturação dos produtos agrícolas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A agricultura intinerante utilizada pelos Tapirapé até a década de 1940, quando tinham um imenso território à sua disposição, deu lugar, atualmente, a um aproveitamento mais intensivo dos terrenos propícios à agricultura. Hoje em dia é comum o estabelecimento de roças em capoeiras (roças velhas) e de plantios nos mesmos locais que já aproveitam há muitos anos. Suas atividades agrícolas incluem derrubadas anuais para o estabelecimento de novas roças, fazendo com que desde a década de 1970 suas roças ficassem longe da aldeia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O abandono do sistema tradicional e o esgotamento dos terrenos próximos à área de refúgio para onde foram transferidos no início da década de 50 fez com que o rendimento da agricultura fosse muito reduzido. Atualmente as espécies mais cultivadas são: mandioca para o fabrico de farinha; milho arroz, banana, mamão, mandioca mansa, aipim, cará, batata doce, abóbora, amendoim, andu (tipo de feijão), algodão e outras espécies menos importantes. Próximo às casas mantêm pés de urucum, mangueiras e cuité, utilizada para fazer kari (uma bolsinha muito vendida como artesanato).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tradicionalmente, à medida que as roças ficavam muito longe da aldeia, os Tapirapé mudavam essa última para suas proximidades. Wagley (1977) calcula que eram precisos cerca de vinte anos para que a floresta pudesse se recompor e o local ser novamente ocupado. Atualmente, as novas condições de vida a que estão sujeitos os Tapirapé fê-los abandonar esse rodízio de aldeia dentro de um território ciclicamente ocupado. As roças, hoje em dia, localizam-se comumente a 15 ou 20 km longe da aldeia. Essa distância é excessiva aos Tapirapé, que a percorrem diariamente a pé, e carregados de gêneros agrícolas na volta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob o ponto de vista da agricultura, o potencial da TI Tapirapé/Karajá é muito limitado e o perfil de aproveitamento econômico da área é incompatível com um povo eminentemente agricultor como os Tapirapé. Mais de 60% de suas terras são baixas e anualmente submergidas pelas águas. Outra parte importante são os pastos e terrenos arenosos ou impróprios para a agricultura. As partes aproveitáveis, ao norte e noroeste da aldeia Tawyao, encontram-se bastante bem exploradas.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
 |Mulher tecendo tornozeleira em seu filho. Foto: Antônio Carlos Moura, s/d.&lt;br /&gt;
 |http://img.socioambiental.org/d/231441-1/tapirape_7.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Tapirapé enfatizam cada vez mais as atividades “não tradicionais”, como a produção de artesanato, pesca e criação de gado, como complementos à sua subsistência. A chegada, em 1949, à foz do Tapirapé, uma região rica em lagos piscosos, fez com que a pesca aumentasse consideravelmente sua importância na subsistência Tapirapé. A caça sem dúvida teve sua importância diminuída em relação à pesca em tempos recentes. Através da caça, no entanto, os Tapirapé conseguem uma importante fonte de proteína animal alternativa ao peixe. Caçadas coletivas ou individuais são feitas regularmente, principalmente durante o auge da estação das chuvas (fevereiro e março) nas proximidades da aldeia Tawyao e na região do Urubu Branco. O produto da caça é praticamente a única proteína animal de que o grupo dispõe durante a estação das chuvas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Caça ===&lt;br /&gt;
A caça possui, além de sua importância na nutrição do grupo, uma função simbólica fundamental. É através da caça que os Tapirapé ativam boa parte da série sociológica através da qual o grupo se estrutura. Somente as caçadas coletivas permitem a atuação conjunta dos wyra, as sociedades de pássaro, e dos “grupos de comer”, os tataopawa. As caçadas rituais são o início e condição para a realização da festa de iniciação dos jovens, seu mais importante conjunto cerimonial religioso, através dos quais são “produzidos” os novos membros da sociedade Tapirapé.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É pela importância simbólica e religiosa dada à caça que os Tapirapé se deslocam regular e anualmente para a serra do Urubu Branco. Para tanto, enfrentam grandes dificuldades: a má-vontade e arrogância dos neo-ocupantes da área que se julgam no direito de proibi-los de freqüentarem o território que percorrem secularmente. Pulando cercas, evitando estradas e sedes de fazendas, disfarçando seus rastros, os Tapirapé enfrentam todo o tipo de dificuldades para praticarem os ritos que constituem sua religião.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As espécies mais procuradas pelos Tapirapé devido seu valor na alimentação são: o porco queixada (Dicotyles albirostris), porco caetetu (Dicotyles tayassu), paca (Coelogenys paca), cotia (Dasyprocata, sp.), tamanduá bandeira (Myrmecophaga jubata), Jabuti (Testudo tabulata), quati(Nasua narica), macaco-prego (Cebus, sp), tartaruga(Podocnemis expansa) e seus ovos, tracajá (Podecnemis unifilio) e seus ovos, veado-campeiro (Dorcephalus bezoarticus), veado-mateiro (Mazama americana), tatu (Euphrarctus sexintus), guariba (Alouatta, sp), anta(Tapirus americanus) e pato-do-mato(Alopochen discolor) dentre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação é basicamente a mesma anotada por Wagley (1988), e a única ressalva a se fazer é que, devido à escassez da carne verificada nos dias de hoje, a maioria das espécies interditadas devido a tabus alimentares, como espécies de veado e tatu, tiveram seu consumo atualmente permitido a sexos e grupos etários aos quais, até a década de 40 e 50, eram interditos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa atividade tem para eles outra importância além da econômica e religiosa. Povo de floresta, o Tapirapé tem pela caça uma atração quase lúdica. Ao contrário da pesca, a caça empolga-os. Em dezembro de 1993, bastava alguém gritar que foram vistos porcos do mato nas proximidades que homens armados de rifles, arcos e flechas e bordunas saiam em louca correria na sua perseguição. Os Tapirapé têm necessidade social, alimentar e religiosa de caça.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Coleta e Pesca ===&lt;br /&gt;
A coleta é feita individualmente pelas famílias, que excursionam, durante o verão, pelos campos cerrados abertos, também chamados de “savana” que quando inundados durante o inverno se transformam no “varjão”, típico da região do Araguaia. Segundo um levantamento feito pelos alunos da escola Tapirapé em 1988, o grupo coleta 47 espécies de frutas silvestres. Dentre elas destaca-se o pequi. O conjunto das espécies coletadas pelos Tapirapé é uma importante fonte de alimentos. Possuem um profundo conhecimento botânico da região e aproveitam as espécies vegetais úteis e vitais à sua subsistência. Além de excursões familiares para a coleta em regiões mais distantes, é muito comum mulheres e crianças excursionarem para este fim pelos cerrados próximos à aldeia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A coleta é feita de forma combinada com a pesca, quando os habitantes da aldeia vão para o cerrado, acampando na beira de lagos e dedicando seu tempo à pesca, procura de ovos de tartarugas nas praias, frutas silvestres, mel, cocos e explorando as matas galerias das proximidades. A coleta do mel para festas rituais é feita pelas sociedades wyra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pesca é feita sempre durante o verão em lagoas, pequenos córregos e desaguadouros, através da utilização de armadilhas, do flechamento de peixes em locais pouco profundos, de envenenamento da água com o cipó timbó ou então com rede e arpão. Estes dois últimos métodos são empregados principalmente na pesca ao pirarucu. A pesca é também feita durante o inverno, apesar de mais difícil e menos rentável. Há também a pescaria de “espera”, onde homens fazem jiraus em árvores ou paus próximos à beira do rio e lá ficam esperando a passagem do peixe para flechá-lo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Artesanato e pecuária ===&lt;br /&gt;
O artesanato é atualmente sua mais importante e praticamente única atividade comercial, através da qual conseguem o dinheiro para aquisição de gêneros hoje indispensáveis, como artigos de ferro, roupas, armas e munição para caça, sal etc. Seu artesanato consiste basicamente na elaboração de artigos de cestaria, arcos e flechas, remos, lanças, cuias decoradas, bordunas, plumária e a famosa tawa, “cara grande”. São em geral artigos de excelente qualidade em termos do material empregado, confecção e acabamento. O comércio é feito através de “regatões” (comerciantes que passam de barco) e turistas que visitam a aldeia no verão. A “Artíndia”, loja de artesanato da Funai, e diversos compradores, representantes de lojas especializadas em artesanato indígena do sul do país, compram sua produção regularmente. Esta é revendida em cidades como S.Félix do Araguaia, Goiânia, Brasília, São Paulo. Outros compradores revendem as peças, especialmente plumárias, no exterior, com boa margem de lucro. Os Tapirapé também empreendem, por conta própria, viagens ao sul do país para venda de seu artesanato.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A criação de gado parece responder à necessidade de procurar novas formas de subsistência dentro de um espaço limitado. Os Tapirapé são, dentre os grupos ligados à administração do Parque Indígena do Araguaia, os únicos cujo rebanho bovino apresenta crescimento contínuo, evitando-se vendas ou abates descontrolados. Seu rebanho bovino, cerca de 200 cabeças de gado, está atualmente aos cuidados de vaqueiros Tapirapé, assalariados pela comunidade. Apesar de desconhecerem boa parte dos fundamentos da pecuária, esta foi a forma encontrada para se livrarem dos constantes desfalques promovidos pelos vaqueiros regionais que contratavam e que vendiam parte do rebanho para criadores de Santa Teresinha.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:André Toral|André Toral]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Xamanismo e ritual ==&lt;br /&gt;
A segurança física e emocional dos Tapirapé depende do poder de seus xamãs. Segundo os Tapirapé, para que uma mulher tenha uma criança é necessário que o xamã, o paxe, entregue a alma da criança à mãe. Isso porque, no mundo sobrenatural dos espíritos ''anchunga'', existe um número finito de almas. O espírito, ou alma, da criança entra na mulher, invocado pelo paxe (Wagley, 1988:141). Dessa forma, a esterilidade ou a fertilidade das mulheres são explicadas pela intervenção de seus xamãs.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo os Tapirapé, a principal “reserva” de almas de crianças, fundamental para a continuidade do grupo, localiza-se precisamente na serra do Urubu Branco. Mais especificamente num grande paredão de pedra, que na estação das chuvas dá origem a uma majestosa queda d’água, que se chama ''Yrywo’ywawa'', “local onde o urubu branco (ou urubu-rei) bebe água”, e que deu origem ao nome regional da serra, por ser o habitat dessa espécie de pássaro. Esse local, considerado como sagrado pelos Tapirapé, é morada de Tarepiri, um personagem mitológico que só aparece para os paxe que os procuram. Tarepiri é considerado como guardião de ''Yrywo’ywawa'' e de ''Towajaawa ''(também conhecida como serra de S. João, outro local sagrado, também citado como morada do Urubu Branco). Tareperi é considerado o “pai das crianças do lugar onde o urubu branco bebe”, Yrywo’ywawa hakawa. Tareperi defende a integridade do local ante a presença de estranhos, franqueando seu acesso aos paxe.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para garantir a continuidade dos nascimentos no grupo os paxe precisam dirigir-se, em suas viagens de sonho, até yrywo’ywawa e capturar as almas das crianças para introduzi-las no ventre das mulheres. Outro importante guardião de yrywo’ywawa e de Towajaawa é Karowara, o trovão, que também detém um grande número de almas de crianças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os ciclos cerimoniais anuais Tapirapé compõem-se dos seguintes rituais: iniciam-se com os ''xepaanogawa ''(final de setembro, início de outubro), segue-se à construção da ''takara ''(dezembro), depois o ''ka’o'', depois o ''Marakayja ''(final de fevereiro, início de março) e termina com o ritual ''Tawa ''(final de junho).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Marakayja, maior e mais extenso ritual Tapirapé, se dá o ponto culminante dos seus ciclos cerimoniais: a iniciação dos meninos e sua passagem à categoria de homens. Para a realização do cerimonial os Tapirapé dirigem-se à região do Urubu Branco e, guiados por seu paxe, que segundo eles controlam a caça, permanecem na região o tempo suficiente para a obtenção do alimento que será consumido no Marakayja. As equipes formadas pelas metades dos wyra perseguem particularmente os bandos de porcos queixadas, considerados excelente alimento, competindo para ver qual das metades obterá maior quantidade de caça. Os paxe, em seus sonhos, dirigem-se à “casa dos queixadas”, localizada precisamente na serra “''Towaiyawá''” (na grafia de Wagley) ou ''Towajaawa ''(na grafia dos atuais Tapirapé) onde mantém relações sexuais com as queixadas fêmeas, provocando aumento dos bandos. A realização do ritual ''Marakayja ''é adiada até que se obtenha a quantidade de carne necessária.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:André Toral|André Toral]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nota sobre as fontes ==&lt;br /&gt;
Esse texto sobre os Tapirapé foi elaborado a partir do &amp;quot;Relatório de Identificação e delimitação da área indígena Urubu Branco&amp;quot;, organizado pelo antropólogo André Amaral de Toral e finalizado em 1994. Tal relatório teve como objetivo servir de base no processo demarcatório da terra indígena Urubu Branco, dada como posse permanente aos Tapirapé no ano de 1996.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dois trabalhos de peso já haviam sido publicados sobre os Tapirapé. Herbert Baldus, em 1970, publicara: Tapirapé- Tribo tupi no Brasil Central. Baldus visitou os Tapirapé entre os anos 30 e 40, sendo esse uma etnografia de fôlego com inúmeras referências documentais e históricas, fundamentais para o entendimento a respeito dessa cultura. Outra referência fundamental no estudo dos Tapirapé é o norte-americano Charles Wagley, que publicou o livro Lágrimas de Boas-Vindas: Os índios Tapirapé do Brasil Central, publicado em 1988. O antropólogo acompanhou os Tapirapé durante 35 anos, passando um período intenso entre o grupo: 15 meses entre os anos de 1939-40.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:André Toral|André Toral]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;ALHO, Getúlio Geraldo R. Três Casas Indígenas : pesquisa arquitetônica sobre a casa em três grupos - Tukano, Tapirapé e Ramkokamekra. São Carlos : USP, 1985. 91 p. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;BALDUS, Herbert. Os grupos de comer e os grupos de trabalho dos Tapirapé. In: --------. Ensaios de etnologia brasileira. São Paulo : Ed. Nacional ; Brasília : INL, 1979. p. 44-59. (Brasiliana, 101)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Tapirapé : tribo tupí no Brasil Central. São Paulo : Edusp ; Companhia Editôra Nacional, 1970. 512 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;HECK, Egon Dionísio; PREZIA, Benedito Antônio Genofre. Povos indígenas : terra e vida. São Paulo : Atual, 1999. 80 p. (Espaço e Debate)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;LEITE, Yonne. De homens, árvores e sapos : forma, espaço e tempo em Tapirapé. Mana, Rio de Janeiro : Museu Nacional, v. 4, n. 2, p. 85-104, out. 1998.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;PAULA, Eunice Dias de. Escola Tapirapé : processo de apropriação de educação escolar por uma sociedade tupi. Luciara : UEMT, 1997. 90 p. (Monografia de Graduação)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Fazendo as regras : a relação dos Tapirapé com a escrita. Rev. do Museu Antropológico, Goiânia : UFGO, v. 3/4, n. 1, p. 43-52, jan./dez.99/00.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Os Tapirapé e a escrita : indícios de uma relação singular. Goiânia : UFGO, 2001. 176 p. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------; PAULA, Luiz Gouvêa de. Xema’eãwa, os jogos de barbante, e a escola Tapirapé. IN: SILVA, Aracy Lopes da; FERREIRA, Mariana Kawall Leal (Orgs.). Práticas pedagógicas na escola indígena. São Paulo : Global, 2001. p. 123-35. (Antropologia e Educação)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;PAULA, Luiz Gouvêa de. Mudanças de código em eventos de fala na língua Tapirapé durante interações entre crianças. Goiânia : UFGO, 2001. 205 p. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;PRACA, Walkiria Neiva. Nomes como predicados na língua Tapirapé. Brasília : UnB, 1999. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;O RENASCER do povo Tapirapé. São Paulo : Salesiana, 2002. 254 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;TORAL, André Amaral de. Laudo pericial antropológico relativo à Ação Ordinária de nº 91.0004263-3 (I-1.363/91) de desapropriação indireta na 4ª Vara da Justiça Federal do Mato Grosso. s.l. : s.ed., 1992. 120 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Os Tapirapé e sua área tradicional : Urubu Branco. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1991/1995. São Paulo : Instituto Socioambiental, 1996. p. 661-3.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------et al (Coords.). Xanetawa Parageta : histórias das nossas aldeias. São Paulo : Mari ; Brasília : Mec/Pnud, 1996. 112 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;WAGLEY, Charles. Cultural influences on population : a comparison of two tupí tribes. In: GROSS, Daniel R. (Ed.). Peoples and cultures of native South America : an anthropological reader. New York : The American Museum of Natural Story, 1973. p. 145-58.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Lágrimas de boas-vindas : os índios Tapirapé do Brasil Central. São Paulo : Edusp, 1988. 304 p. (Reconquista do Brasil, 2 série, 137)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;--------. Xamanismo Tapirapé. In: SCHADEN, Egon. Leituras de etnologia brasileira. São Paulo : Companhia Editora Nacional, 1976. p. 236-67.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:André Toral|André Toral]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
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--&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Apyãwa}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:André Toral}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
{{#set:Capa=2058256005487df08f5dac1.jpg}}&lt;br /&gt;
{{#set:Counter=76318}}&lt;br /&gt;
{{#set:Crédito capa=Antônio Carlos Moura, s/d}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=2004-11-01}}&lt;br /&gt;
{{#set:Estilo=escuro}}&lt;br /&gt;
{{#set:Povo Id=257}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas no Tocantins]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas no Mato Grosso]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Hupd%27%C3%A4h&amp;diff=8475</id>
		<title>Povo:Hupd'äh</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Hupd%27%C3%A4h&amp;diff=8475"/>
		<updated>2025-09-01T18:19:47Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: /* Nome */&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Já se tornou moeda corrente entre os regionais e na literatura etnográfica sobre o Noroeste Amazônico a distinção entre os chamados &amp;quot;índios do rio&amp;quot;, de fala Tukano e Arawak, e os &amp;quot;índios do mato&amp;quot;, de fala [[Povo:Maku#Língua|Maku]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Enquanto os primeiros são agricultores que fixam suas aldeias nas margens dos rios navegáveis, os Maku vagam nos divisores de água, estabelecendo-se temporariamente onde encontram condições ecológicas favoráveis à caça e adequadas ao modo como eles costumam resolver seus conflitos internos: &amp;quot;quando a gente se desentende, a gente se espalha no mato e fica lá até a raiva passar.&amp;quot;&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
=== Outras leituras ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para saber mai acesse o verbete especial sobre a região [[Povo:Etnias do Rio Negro | Etnias do Rio Negro]]&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nome ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não há uma autodenominação adotada pelo conjunto dos Maku. Na verdade, eles se dividem em seis grupos distintos, cada qual com seu próprio território, língua e autodenominação:&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;table-responsive&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;table class=&amp;quot;table table-hover&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Autodenominação'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Outros nomes'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Localização''' [leia-se &amp;quot;entre os rios...&amp;quot;]&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Nukak&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Maku&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Guaviare e Inírida, na Colômbia&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Bara''', Kakwa&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Maku, Pohsá, Boroa, Wirapoyá&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Uaupés e Papuri, na Colômbia&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;[[Povo:Hupda|Hupd'äh]]&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Maku, Pohsá, Peoná, Wirapoyá&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Papuri e Tiquiê, no Brasil e Colômbia&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;[[Povo:Yuhupdeh|Yuhupdeh]]&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Maku, Pohsá, Peoná, Wirapoyá&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Tiquiê e Traíra, no Brasil e Colômbia&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;[[Povo:Däw|Däw]]&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Maku, Kamã&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Curicuriari e Negro, no Brasil&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''[[Povo:Nadöb|Nadöb]]''', Kabori&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Maku, Guariba Tapuya, Xiruai&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Negro e Japurá, no Brasil&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/table&amp;gt;&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;h5&amp;gt; &amp;lt;span class=&amp;quot;creditos_fotos&amp;quot;&amp;gt;'''N.B'''.: Dentre as autodenominações alternativas, preferimos as que estão em negrito. &amp;lt;/span&amp;gt;&amp;lt;/h5&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com exceção dos Bara, que usam mais o termo ''bara ''(&amp;quot;irara&amp;quot;) do que o termo ''kakwa ''(&amp;quot;gente&amp;quot;) como autodenominação, e também dos Kabori, um subgrupo Nadub que se autodenomina ''kabori'' (&amp;quot;meninos&amp;quot;), todos os outros Maku usam o termo &amp;quot;gente&amp;quot; nas respectivas línguas como autodenominação. O termo ''maku'', de origem Arawak, significa ora &amp;quot;servo&amp;quot;, ora &amp;quot;selvagem&amp;quot;, sendo rejeitado pelo conjunto dos Maku em conseqüência da óbvia conotação pejorativa. Mantemos aqui o termo maku porque se consagrou na literatura etnográfica e porque não há outro que designe o conjunto desses índios. Quanto aos outros nomes, boroa e pohsá significam &amp;quot;servos&amp;quot; nas línguas Dahséa e Cubeo, respectivamente, ambas da família Tukano.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Foto: Marcos Santilli/Editora Abril, 1976&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/281921-1/maku_1.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O termo peoná, também de origem Tukano, significa &amp;quot;donos dos caminhos&amp;quot;, alusão ao fato de que os Maku não viajam de canoa, como todos os outros índios da região, mas a pé, pelos caminhos. O termo ''wirapoyá'', empregado pelos [[Povo:Desana|Desana]] (sub-grupo Tukano) para designar os Maku de sua vizinhança, significa &amp;quot;Desana estragado&amp;quot;. Ignoramos a origem do termo ''kamã'', cuja conotação também é pejorativa. O termo ''guariba ''é aplicado pelos regionais aos Nadub, em alusão à crença de que eles teriam parentesco com o macaco homônimo. O termo ''xiruai'', &amp;quot;cunhado&amp;quot; em nheengatu, é a forma amistosa pela qual os mesmos regionais se referem aos Nadub. Devido à influência do movimento indígena na região do rio Negro a partir de meados dos anos 1980, os nomes pejorativos (''boroa'', ''pohsá'', ''wirapoyá'', ''kamã, guariba'' e mesmo ''maku'') estão caindo em desuso, mas até agora não surgiu um nome genérico e neutro.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Língua ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As seis línguas Maku são aparentadas entre si, formando o que se pode chamar de família lingüística Maku. Até onde se sabe, essa família nada tem a ver com as famílias Tukano ou Aruak, se excetuarmos alguns evidentes e poucos empréstimos.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Rio Japurá. Foto: Michel Pellanders, 1987&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/281924-1/maku_2.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Praticamente todos os Maku são falantes de suas línguas. Devido à proximidade dos Tukano, os Maku da área do Uaupés (Bara, Hupda e Yuhupde) falam línguas Tukano, dando curso ao multi-lingüismo característico da região. Por outro lado, os Tukano têm sido uma espécie de barreira aculturativa para os Maku do Uaupés, pois atuam como intermediários no contato com os brancos, de modo que apenas cerca de 20% desses Maku sabem se expressar em português ou espanhol. Os Nukak, de contato muito recente (1988), pouco falam o espanhol ou qualquer outra língua que não a deles. Quanto aos Dow e Nadöb, de contato antigo (século XVIII) e sem a &amp;quot;barreira Tukano&amp;quot; na vizinhança, a grande maioria se expressa bem em português e nheengatu (língua geral ou tupi amazônico, falado majoritariamente pela população ribeirinha do médio e baixo Rio Negro, descendente dos [[Povo:Baré|Baré]], que vem se proclamando índia à medida em que avança na região o movimento indígena).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As línguas Maku têm sido estudadas em graus diversos. Bara (Kakwa), Hupda, Yuhupde e Nadöb mereceram estudos preliminares efetuados por missionários do SIL, assim como o Dow, por parte dos missionários da ALEM. No entanto, nenhum desses estudos resultou em instrumentos eficazes para o desenvolvimento da educação bilíngüe, uma demanda cada vez mais colocada pelos Maku, em justa reação à hegemonia da língua Dahséa (Tukano) nas escolas locais, mantidas pelo município e coordenadas pelos missionários católicos salesianos.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Localização ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Maku se distribuem numa área limitada a noroeste pelo rio Guaviare (um dos afluentes colombianos do Orinoco), ao norte pelo rio Negro, ao sul pelo rio Japurá e a sudeste pelo rio Uneiuxi (um dos afluentes brasileiros do Negro). Este losango soma um total aproximativo de 20 milhões de hectares. Evidentemente, nem todo ele é ocupado pelos índios. A alta dispersão espacial dos seis grupos lingüísticos Maku dentro desse vasto perímetro se deve à dominância de enormes áreas de caatinga ou campinarana, um tipo de floresta não ribeirinha, de solo extremamente pobre, pouca variabilidade vegetal e baixa concentração de animais de caça. Os Maku ocupam justamente as &amp;quot;manchas&amp;quot; de floresta de terra firme, onde a caça é mais abundante e a vegetação mais rica em espécies utilizáveis na alimentação ou na confecção de artefatos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A ocupação humana da área em tempos pré-colombianos se deu provavelmente em duas vagas: primeiro, os Maku se estabeleceram nas zonas interfluviais, nas &amp;quot;manchas&amp;quot; de terra firme; a seguir vieram os Arawak e os Tukano, estabelecendo-se nas barrancas altas dos rios, em meio ao igapó (terreno ribeirinho baixo, periodicamente inundável durante as cheias, de abril a setembro). O contato já bastante antigo entre esses povos de origem e línguas diversas, cada qual ocupando faixas ecologicamente distintas, resultou num complexo sistema de trocas comerciais e simbólicas, de que trataremos adiante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No lado brasileiro, recentemente foram homologadas cinco terras indígenas: Alto Rio Negro, Médio Rio Negro I, Médio Rio Negro II, Rio Téa e Rio Apapóris, somando um total 10,6 milhões de hectares de terras contínuas e contíguas. Os grupos Maku brasileiros, isto é, os Hupda, Yuhupde, Dow e Nadöb, distribuem-se nos terrenos interfluviais de todas essas áreas, com exceção do Médio Rio Negro II. As descrições que se seguem dizem respeito sobretudo aos Maku do Uaupés (Bara, Hupda e Yuhupde) e se baseiam nas etnografias de Silverwood-Cope (1990), Reid (1979) e Pozzobon (1984, 1992). Sobre os Maku do Uneiuxi e do Paraná Boá-Boá, veja-se Schultz (1959), Münzel (1969) e Pozzobon (1998).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Demografia ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os cerca de três mil Maku se distribuem num vasto território binacional, de modo que é bastante difícil estimar os parâmetros demográficos da população como um todo. Devido ao caráter interfluvial de seu habitat, pouco acessível às frentes pioneiras, aos missionários ou aos pesquisadores, as estimativas anteriores, que variam de 2 a 2,5 mil, são muito precárias e pouco confiáveis, de modo que não servem para se estimar a dinâmica populacional. Os estudos ainda em curso das variáveis demográficas em um determinado grupo Maku, os Hupdu, permitem afirmar provisoriamente que se trata de uma população estável, que não tem aumentado nem diminuído significativamente nos últimos decênios (Pozzobon, 1998). Por outro lado, eventuais trocas matrimoniais com grupos circunvizinhos são numericamente inexpressivas, devido ao baixo status dos Maku no sistema intertribal da região.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;table-responsive&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;table class=&amp;quot;table table-hover&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Autodenominação'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''População'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Ano'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Fonte'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Nukak&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;378&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;1995&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Franky et al. (1995)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Bara, Kakwa&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;300&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;1969&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Silverwood-Cope (1990)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Hupda&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;1500&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;1997&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Pozzobon (1997b)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Yuhupde&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;370&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;1997&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Pozzobon (1997c)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Dow&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;78&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;1994&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Oliveira, Meira and Pozzobon (1994)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Nadöb, Kabori&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;cerca de 600&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;1995&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;ISA (1996)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Total'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''cerca de 3226'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt; &amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt; &amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/table&amp;gt;&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Histórico do contato ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pobreza da campinarana dominante, somada ao caráter encachoeirado dos rios, foi um dos obstáculos à expansão das frentes pioneiras portuguesas e espanholas, que disputavam a região já no século XVII, estabelecendo destacamentos militares em alguns pontos do rio Negro, de onde os nativos apresados eram &amp;quot;descidos&amp;quot; para os centros urbanos emergentes (Barcelos, Manaus e Belém).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir do século XVIII, intensificam-se os &amp;quot;descimentos&amp;quot;, de modo que mesmo os Maku, em seus recônditos territórios interfluviais, tiveram alguns de seus efetivos apresados como escravos. Mas a análise dos documentos coloniais permite afirmar que dentre os indígenas da região eles foram os menos atingidos pelos &amp;quot;descimentos&amp;quot; ou pelas violências decorrentes do ciclo da borracha, ao final do século seguinte. O ciclo da borracha, aliás, foi possivelmente um dos motivos da adoção de práticas agrícolas pelos Maku: refugiando-se nos terrenos interfluviais para escapar ao apresamento praticado pelos seringueiros, os Tukano passaram a conviver mais intensamente com os Maku, ensinando-lhes a agricultura da mandioca, bem como uma série de itens da cultura material e espiritual de que trataremos adiante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1914, em pleno período de estagnação econômica decorrente da débacle da borracha, entram em cena os missionários salesianos, uma ordem católica voltada para a educação. Eles obtiveram a adesão de todos os índios ribeirinhos do lado brasileiro, porém encontraram muita resistência por parte dos Maku, que se recusavam a enviar suas crianças aos internatos nos centros missionários. Nos anos 1970, os salesianos tentaram algumas experiências de povoados-missão exclusivamente Maku (ver adiante). O garimpo aurífero - que se desenvolveu na região entre meados da década de 1980 e o início dos anos 1990, época em que o movimento indígena conseguiu expulsar os invasores com o apoio do Ministério Público e a força da Polícia Federal - pouco afetou os Maku, pois era praticado no mais das vezes em terreno ribeirinho. O único garimpo de terra firme, no extremo sul da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/4068 TI Alto Rio Negro], foi abandonado já em 1986 pela empresa mineradora Paranapanema, em função da baixa produtividade; com a intensificação do movimento indígena no início dos anos 1990, o ouro passou a ser explorado exclusivamente pelos índios.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Organização social ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Aldeia Pidu Bu (Cabaris, no Rio Tiquié). Foto: Jorge Pozzobon, 1997&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/281927-1/maku_3.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As aldeias Maku tradicionais variam entre 25 e 30 habitantes - cerca de seis grupos domésticos. O grupo doméstico Maku se compõe de marido, esposa ou esposas, filhos solteiros e eventuais agregados, que podem ser parentes próximos, viúvos ou solteiros, do marido ou da esposa ou esposas. Em geral, cada grupo doméstico possui sua própria fogueira, em torno da qual seus membros se reúnem para dormir e comer. Quanto às casas, resumem-se a tapiris sem paredes, podendo abrigar de um a quatro grupos domésticos (fogueiras), ligados por laços próximos de parentesco, que podem ser tanto patri quanto matrilaterais. Uma aldeia de 25 habitantes costuma ter cerca de três casas. Estas se situam numa clareira, no cimo de uma colina, perto de algum igarapé não navegável. As roças se distribuem em torno das casas ou em clareiras próximas (de 5 a 60 minutos de caminhada), que vêm a ser antigos locais de aldeia. Cada grupo doméstico possui em média duas roças de 50 x 50 m, sempre em clareiras comunais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um aglomerado de aldeias próximas, distando entre si de uma hora a um dia de caminhada, forma um grupo regional. Via de regra, os grupos regionais falam cada qual um dialeto distinto da mesma língua. Assim, cada grupo lingüístico Maku se divide no mínimo em dois grupos regionais/dialetais. Os Hupdu, por exemplo, possuem três grupos regionais (três dialetos), separados entre si por cursos de água navegáveis, cujas margens são ocupadas por &amp;quot;índios do rio&amp;quot;. Os membros adultos do mesmo grupo regional/dialetal se conhecem todos pelo nome, assim como pelas relações de parentesco que os unem. Já o conhecimento que possuem dos falantes de dialetos vizinhos, com quem não têm relações genealógicas demonstráveis, é bastante precário. Em outras palavras, o grupo regional/dialetal é um nexo fortemente endogâmico. A taxa média de casamentos endogâmicos - entre pessoas nascidas no mesmo grupo regional - é de 80%. O tamanho médio do grupo regional na área do Uaupés brasileiro é de 260 pessoas - cerca de 10 aldeias vizinhas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O território do grupo regional/dialetal resulta da justaposição de vários territórios contíguos de caça, cada qual em torno de uma aldeia. Com efeito, os homens de uma aldeia de 25 a 30 habitantes costumam caçar num raio de 7 a 10 km em torno da aldeia. A partir dela, irradia-se uma série de caminhos, alguns ligando aldeias Maku entre si, outros conduzindo a aldeias ribeirinhas, outros ainda levando aos acampamentos de caça. Cada aldeia possui em média 8 acampamentos de caça no raio de 7 a 10 km de seu entorno. Quando a aldeia ultrapassa a marca dos 30 ou 40 habitantes, ela se cinde em duas ou mais aldeias, pois numa aldeia grande, os caçadores são obrigados a se afastar mais que 10 km para encontrar caça suficiente. A longa permanência de uma aldeia num determinado lugar (cerca de cinco anos) é também motivo de mudança, para deslocar o raio de atuação dos caçadores, explorando, assim, novos territórios de caça.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Cotidiano de uma aldeia Maku ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Preparando ipadu. Foto: Jorge Pozzobon, 1997&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/281929-1/maku_4.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As mulheres se levantam quando começa a clarear o dia, tomam banho e preparam o dejejum comunal dos homens, que ocorre no mais das vezes na casa do líder da aldeia. Após a refeição, os homens partem solitários, aos pares ou em grupos maiores, dependendo dos rastros vistos no dia anterior (porcos do mato, por exemplo, são boas presas para caçadas coletivas). Depois deles partirem, as mulheres comem junto com as crianças e logo vão às roças, colher mandioca e replantar. Elas voltam perto do meio dia e preparam farinha, mingaus e beijus. Por volta das três da tarde, os homens retornam com suas presas e as entregam às esposas. Cada uma cozinha em sua própria fogueira, mas a refeição que se segue é comunal, na casa do líder, os homens comendo primeiro, sendo logo seguidos pelas mulheres e crianças. Depois disto, as três ou quatro refeições que se seguem até a hora de dormir (cerca das 21 horas) assumem um caráter cada vez mais doméstico e individual. No cotidiano, as atividades masculinas têm um ritmo frouxo, interrompido várias vezes por longos períodos de espreguiçamento nas redes, enquanto as mulheres trabalham duro nas roças, no preparo das refeições e na coleta de lenha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As mulheres, porém, não deixam de reclamar da preguiça dos homens. Estes, por seu turno, às vezes brigam entre si, acusando-se mutuamente de avareza, por não distribuírem generosamente os magros resultados das caçadas cotidianas. Quando a situação atinge o paroxismo, os grupos domésticos se separam em vários acampamentos de caça, cuja ocupação varia de dois ou três dias até um mês (somando-se todas as estadias de um grupo doméstico nos acampamentos durante o ano, têm-se uma média de quatro meses por grupo doméstico por ano). Aí invertem-se os papéis: enquanto os homens passam até doze horas caçando ininterruptamente, as mulheres se espreguiçam nas redes. E todos comem juntos, caçadores, esposas e filhos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em poucos dias nos acampamentos, os homens terão caçado muito mais do que seus grupos domésticos são capazes de consumir. Sendo assim, eles podem decidir voltar à aldeia de origem, para uma festa, que ameniza antigas rusgas ou provoca novas. Ou podem decidir trocar o excedente em caça por farinha de mandioca, ipadu (folha de coca macerada) ou beijus, fornecidos pelos índios ribeirinhos. Neste caso, alguns grupos domésticos podem decidir ficar algum tempo (de alguns dias a um mês) na aldeia ribeirinha, trabalhando nas roças e na feitura de novas casas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação entre os Maku do Uaupés e seus vizinhos ribeirinhos, de fala Tukano, é bastante hierarquizada: os primeiros são tidos como &amp;quot;escravos&amp;quot; dos últimos. Porém, isto é muito mais uma ideologia étnica do que uma prática social efetiva. Os Maku são livres para ir e vir, estabelecendo (ou rompendo) relações de &amp;quot;escravidão&amp;quot; com várias aldeias ribeirinhas ao mesmo tempo. Por outro lado, as roças Maku, em geral 80% menos produtivas que as roças ribeirinhas e incapazes de satisfazer a demanda dos próprios Maku, são poupadas. Na verdade, os Maku aceitam ser &amp;quot;escravos&amp;quot; devido às evidentes vantagens que isso lhes traz: eles têm acesso aos produtos cultivados sem terem de arcar com as conseqüências da sedentarização necessária a uma produtividade agrícola semelhante à dos Tukano (cerca de dez toneladas de tubérculos por grupo doméstico por ano, ao passo que a dos Maku não chega a três toneladas).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Organização política ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A mobilidade é muito importante para os Maku, dado que seu meio habitual de resolver conflitos é a dispersão no espaço. Não há líderes ou conselhos &amp;quot;tribais&amp;quot; que arbitrem os desentendimentos, aliás freqüentes, entre os habitantes de uma aldeia. O líder da aldeia não passa de um anfitrião e de um coordenador das caçadas coletivas. Trata-se em geral de um homem de meia idade, ainda forte para caçar e com muita experiência no assunto, em torno do qual se reúnem cinco ou seis grupos domésticos cujos cabeças são seus filhos ou seus genros. Ele não tem autoridade para julgar quem está certo e quem está errado numa briga. O líder que tenta fazê-lo não está livre de apanhar durante a briga ou de assistir à deserção irrevogável de expressiva parte de seus filhos ou genros. Assim, a dispersão espacial temporária é a única forma de evitar a fissão definitiva da aldeia por ocasião de algum conflito. Mas, dependendo da gravidade, a fissão pode ser inevitável: alguns grupos domésticos não voltam mais para a aldeia de origem, estabelecendo-se em aldeias vizinhas, onde têm parentes próximos, ou fundando nova aldeia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os grupos locais (aldeias) Maku mostram uma composição bilateral: moram juntos tanto os filhos quanto os genros do líder. O fundamento básico da amizade masculina é a relação entre cunhados, isto é, homens que trocaram irmãs. Porém, o termo &amp;quot;irmãs&amp;quot; deve ser entendido em sentido amplo. O vocabulário de parentesco é de tipo dravidiano: funda-se sobre a bipartição dos primos em proibidos para o casamento (primos paralelos, isto é, filhos de irmãos de mesmo sexo), e preferenciais para o casamento (primos cruzados, isto é, filhos de irmãos de sexos opostos). Entre os Maku, o vocabulário dravidiano está associado a um sistema de clãs patrilineares exogâmicos. Há consistência entre o vocabulário e a classificação dos clãs: assim como os primos são bipartidos em &amp;quot;irmãos&amp;quot; (os paralelos) e &amp;quot;cunhados&amp;quot; (os cruzados), os clãs são classificados em clãs &amp;quot;irmãos&amp;quot; e clãs &amp;quot;cunhados&amp;quot;, de modo que o universo dos parentes é bipartido, tanto do ponto de vista do vocabulário quanto do ponto de vista do sistema de clãs. Destarte, são amigos (co-residentes, companheiros de caçada) os homens que trocaram irmãs reais ou classificatórias entre si. Os grupos locais (aldeias) mais estáveis são os que mostram esta composição: um grupo composto de cunhados reunidos em torno de um homem de meia idade, sogro de alguns e pai de outros. Isto significa reunir no mesmo grupo local no mínimo dois clãs afins.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não há facções, grupos etários corporativos ou conselhos de anciãos entre os Maku. Eles classificam as pessoas conforme três faixas etárias principais (em língua Hupd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;): os ''dowd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;'' (verdes = crianças), os ''wudnd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;'' (maduros = adultos) e os ''w&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;h&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;dnd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;'' (secos = velhos). Os líderes de aldeia estão numa sub-classe intermediária entre os ''wudnd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;'' e os ''w&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;h&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;dnd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;''. Estes últimos, além de desempenharem quase que invariavelmente a função de xamãs, são também os nominadores. Para nominar uma criança, o velho empreende uma &amp;quot;viagem&amp;quot; (por meio de um alucinógeno do gênero ''banisteriopsis'') até o mundo dos ancestrais. Lá chegando, ele consulta os mesmos sobre o nome da criança. Cada clã possui um repertório de nomes, de modo que o nome próprio já dá a identidade clânica da pessoa, assim como seu status matrimonial (se &amp;quot;irmão&amp;quot; ou se &amp;quot;cunhado&amp;quot;) em relação aos demais.&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Arte, cultura material e jogos ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em comparação com os vizinhos Tukano e Aruak, os Maku possuem uma cultura material rudimentar na origem: canoas, bancos rituais, potes de cerâmica, pintura corporal e flautas sagradas de iniciação masculina, entre outros, são itens copiados dos vizinhos. Os itens de origem Maku parecem ser o aturá (um cesto cargueiro bastante resistente) e a zarabatana. Esta, aliás, é instrumento de concorridos torneios de tiro ao alvo, principalmente entre os Nadöb. Outros jogos apreciados pelos Maku são a piorra assoviadora, feita de coquinho e haste de paxiúba, a caça ao pombo a pedradas e certas traquinagens com animais: um homem, espreguiçando-se na rede, mata tempo oferecendo um pedaço de beiju simultaneamente ao seu tucano de estimação e ao seu cão de caça, para ver a ave desferir dolorosas bicadas no focinho do rival; crianças se divertem amarrando tições flamejantes ao rabo de cachorros vadios, para vê-los em espavorida disparada, enquanto a aldeia inteira se dobra de rir. Acrescente-se a simples galhofa, inclusive comparações de pênis e vulvas, com abundantes metáforas desabonadoras, além dos comentários debochados, em coletiva voz de falsete, sobre antigos namoros alheios.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Cosmologia e mitologia ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O universo Maku tem a forma de um ovo em pé, com três andares ou &amp;quot;mundos&amp;quot;: (1) o &amp;quot;mundo das sombras&amp;quot;, subterrâneo de onde vêm todos os &amp;quot;monstros&amp;quot;, tais como os escorpiões, as onças, as cobras venenosas, os índios do rio e os brancos; (2) o &amp;quot;nosso mundo&amp;quot;, isto é, a floresta e (3) o &amp;quot;mundo da luz&amp;quot;, acima do céu, onde vivem os ancestrais e o criador - o Filho do Osso (possível alusão ao pênis, também chamado de osso). Luz e sombra são as duas substâncias básicas de que se compõem todos os seres, em proporções diversas. Luz é fonte de vida. Sombra é fonte de morte. No &amp;quot;nosso mundo&amp;quot;, as folhas e as frutas são os seres que mais concentram luz, ao passo que os carnívoros são os que mais concentram sombra. Por isso, é melhor não comer carnívoros, mas tão somente herbívoros. No mundo da luz, após a morte, as pessoas se alimentam de deliciosos sucos de frutas e se tornam eternos adolescentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O principal ciclo mitológico dos Maku relata a epopéia do Filho do Osso - ''Idn Kamni ''em Bara, ''Kegn Teh'' em Hupda, ''K&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt; Teh'' em Yuhupde. Trata-se do sobrevivente de um incêndio que pôs fim à criação anterior, cujas tentativas de recriar o mundo resultam numa série de trapalhadas: por causa delas, existem as brigas, as doenças e a morte. Após ter sua mulher raptada pelo irmão caçula, o Filho do Osso se retira definitivamente deste mundo, indo morar no mundo da luz, acima do céu e dos trovões, que às vezes emite em expressão de desagravo. Coincidência ou não, na vida real os irmãos costumam brigar entre si, em disputa pelas mesmas mulheres, suas afins, conforme o sistema de clãs.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Ritual e xamanismo ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Aldeia do Pidu Bu. Fazendo fogo com pedras lascadas. Foto: Jorge Pozzobon, 1997&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/281931-1/maku_5.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Afora a nominação, dois outros rituais Maku utilizam alucinógenos do gênero banisteriopsis. Um deles é o ritual do jurupari, de origem ribeirinha, em que os meninos são iniciados na idade adulta. Neste rito, que consiste em representar teatralmente a chegada da anaconda ancestral aos trechos de rio atualmente ocupados pelos Tukano, os homens tocam as flautas sagradas, que não podem ser vistas pelas mulheres. O outro rito é a dança e o cântico do kaapi wayá, também de origem ribeirinha, em que o caminho serpenteante da anaconda é encenado, porém sem as flautas sagradas. Além destes, há o dabocuri, igualmente vindo dos índios do rio. É uma festa profana, divertida e alcoolizada. Entre os Maku, muitas vezes termina em verdadeiras batalhas campais, com safanões, pauladas e gritarias madrugadoras, cuja conseqüência, além de uma porção de hematomas, costuma ser a dispersão dos co-residentes em vários acampamentos de caça ou uma estratégica mudança de aldeia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em relação ao xamanismo, de modo geral, pode-se dizer que todos os velhos Maku são xamãs. Estes, porém, são de dois tipos:(''bidid&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;'') e os homens-onça (''nyaam hupd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;''). Os primeiros curam através de reza. Os últimos, através da extração do mal por meio de sucção. Freqüentemente, o mesmo indivíduo desempenha ambas as funções. Em qualquer dos casos, não inspira muito temor entre seus pares, sendo, antes, um dos alvos prediletos dos deboches. Mas por vezes pode ser acusado de malefícios e doenças, ocasião em que as pessoas que se julgam atingidas mudam de aldeia ou &amp;quot;ficam no mato até a raiva passar&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nota sobre as fontes ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O etnólogo Peter Silverwood-Cope foi quem inaugurou a pesquisa de campo intensiva sobre os Maku, mais especificamente sobre os Bara, permanecendo entre eles de 1968 a 1970. Sua tese de doutorado, recentemente publicada em português (Silverwood-Cope, 1990) aborda aspectos diversos da cultura Maku, tais como sua base ecológico-econômica, a organização sociopolítica, bem como as concepções mitológicas e cosmológicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na década seguinte, Howard Reid (1979) enfocou a mobilidade, o ciclo de desenvolvimento do indivíduo e a mudança cultural entre os Hupda - sem no entanto descuidar dos aspectos etnográficos mais tradicionais, como a etnografia da caça e coleta, a estrutura de parentesco, os rituais e a mitologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir dos anos 1980, Pozzobon (1984, 1992) se dedicou ao estudo da organização social dos Maku, estabelecendo um modelo socioestrutural generalizável para os Bara, Hupda e Yuhupde, baseado nas relações entre a identidade étnica, a endogamia regional/dialetal e a demografia das unidades sociais significativas. Deve-se mencionar ainda os estudos de Athias (1995, 1998) sobre os Hupda sedentarizados em povoados-missão, enfocando diversos aspectos da ecologia, economia, organização social e cosmologia, sobretudo concepções ligadas à saúde e à doença.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sobre os Nukak, veja-se os trabalhos de Franky Calvo, Cabrera Becerra e Mahecha (1995, 1999), bem como o de Politis (1996), dedicados a aspectos lingüísticos, à mobilidade espacial e à etnografia geral deste povo. Finalmente, sobre os Nadöb há os trabalhos de Schultz (1959), Münzel (1969) e Pozzobon (1998), que, embora não resultem de etnografias intensivas, fornecem informações importantes sobre essa fração pouco conhecida do povo Maku.&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;ASSIS, Elias C. Patrões e fregueses no Alto Rio Negro : as relações de dominação no discurso do povo Daw. São Gabriel da Cachoeira : Universidade do Amazonas, 2001. (Monografia)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;ASSIS, Lenita de Paula Souza. Do caxiri a cachaça : mudanças nos hábitos de beber do povo Daw no Alto Rio Negro. São Gabriel da Cachoeira : UFAM, 2001. 86 p. (Monografia)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;ATHIAS, Renato. Doenças e cura : sistema médico e representação entre os Hupde-Maku da região do Rio Negro, Amazonas. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre : UFRGS, v. 4, n. 9, 1998.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
--------. Hupdë-Maku et Tukano : relations inégales entre deux sociétés du Uaupés, amazonien (Brésil). Paris : Univ. de Paris X, 1995. (Tese de Doutorado)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Doença e cura : sistema médico e representação entre os Hupdë-Maku da região do Rio Negro, Amazonas. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre : UFRGS, v. 4, n. 9, 1998.&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;BAMONTE, Gerardo. I Macu dell'alto Rio Negro : delimitazione delle aree di distribuzione e breve inchiesta etnografica su alcuni insediamenti del Tiquie. Roma : Univ. Degli Studi di Roma, 1973. 318 p. (Tese de Doutorado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;CABRERA BECERRA, Gabriel. Gentes con cerbatana, canasto y sin canoa. Nomadas, s.l. : s.ed., n. 10, p. 144-55, 1999.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;CABRERA BECERRA, Gabriel; FRANKY CALVO, Carlos Eduardo; MAHECHA RUBIO, Dany. Algunos aspectos fonetico-fonologicos del idioma Nukak. In: GONZALES DI PEREZ, Mário S. (Ed.). Lenguas indígenas de Colombia. Bogotá : Instituto Caro y Cuervo, 2000. p. 547-60.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
--------. Aportes a la etnografia de los Nukak y su lengua : aspectos sobre fonologia segmental. Santafé de Bogotá : Univ. Nacional de Colombia, 1994. 584 p. (Trabajo de Grado en Antropologia)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Demografia y movilidad socio-espacial de los Nukak. Bogotá : Fundación Gaia, 1995. 63 p.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Los nukak : nómadas de la amazonía colombiana. Bogotá : Universidad Nacional de Colombia, 1999. 405 p.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Los Nukak, demografia, contato y enfermedad. In: GOMES, A. J. et al (Eds.). Amazonía Colombiana : enfermedades y endemias. Bogotá : Ministério de Cultura, 2000. p. 319-60.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Nukak, Kakua, Juhup y Hupdu (Maku) : cazadores nomades de la Amazonía Colombiana. In: CORREA RUBIO, François (Ed.). Geografia humana de Colombia : Amazonía-caqueta. Tomo VII, v. II. Bogotá : Univ. Nacional de Colombia, 2000. p. 130-211.&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;FARIA, Ivani Ferreira de. Território e territorialidades indígenas do Alto Rio Negro. Manaus : EdUA, 2003. 168 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;LUZ, Pedro Fernandes Leite da. Estudo comparativo dos complexos ritual e simbólico associados a Banisteriopsis Caapi e espécies congêneres em tribo da língua pano, arawak, tucano e maku. Rio de Janeiro : Museu Nacional/UFRJ, 1996. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MACIEL, Iraguacema. Alguns aspectos fonológicos e morfológicos da língua maku. Brasília : UnB, 1991. 76 p. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MARQUEZ, Juan Carlos Pena. A escola no tempo e no território Hupdah : mudanças no Nordeste Amazônico. Manaus : UFAM, 2003. 125 p. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MARTINS, Silvana de Andrade. Análise da morfossintaxe da língua daw (maku-kama) e sua classificação tipológica. Florianópolis : UFSC, 1994. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MARTINS, Valteir. Análise prosódica da língua daw (maku-kama) numa perspectiva não linear. Florianópolis : UFSC, 1994. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MEIRA, Márcio. Laudo antropológico Área Indígena Baixo Rio Negro. Belém : MPEG, 1991. 183 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MUÑOZ R., Maria I.; ZAMBRANO, Carlos V. Los Nukak : encuentro etnográfico en las selvas. In: BARTOLOME, Miguel A. (Coord.). Ya no hay lugar para cazadores : processo de extincción y transfiguración étnica en America Latina. Quito : Abya-Ayala, 1995. p. 145-72 p. (Biblioteca Abya-Yala, 23)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MÜNZEL, Mark. Notas preliminares sobre os Kaborí (Makú entre o Rio Negro e o Japurá). Rev. de Antropologia, São Paulo : USP, v. 17/20, p. 137-81, 1969-1972.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;OLIVEIRA, Ana Gita de. Índios e brancos no Alto Rio Negro : um estudo da situação de contato dos Tariana. Brasília : UNB, 1981. 162 p. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
--------. O mundo transformado : um estudo da &amp;quot;cultura de fronteira&amp;quot; no Alto Rio Negro. Brasília : UnB-ICH, 1992. 286 p. (Tese de Doutorado)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------; MEIRA, Márcio; POZZOBON, Jorge. Relatório antropológico, Áreas Indígenas Médio Rio Negro, Rio Téa e Rio Apapóris. Brasília : Funai, 1994. 192 p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;POLITIS, Gustavo G. Nukak. Bogotá : Instituto Amazónico de Investigaciones Científicas, 1996. 426 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;POZZOBON, Jorge. Identidade e endogamia : observações sobre a organização social dos índios Maku. Porto Alegre : UFRGS, 1984.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
--------. Isolamento e endogamia : observações sobre a organização social dos índios Maku. Porto Alegre : UFRS, 1983. 387 p. (Dissertação de Mestrado)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Langue, société et numération chez les Indiens Maku (haut Rio Negro, Brésil). Journal de la Société des Américanistes, Paris : Société des Américanistes, n. 83, p. 159-72, 1997.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Os Maku : esquecidos e discriminados. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1987/88/89/90. São Paulo : Cedi, 1991. p. 141-2. (Aconteceu Especial, 18)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Parente et demographie chez les indiens Maku. Paris : Univ. Paris VII, 1991. 257 p. (Tese de Doutorado)&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;POZZOBON, Jorge. O sistema numérico dos índios Maku. In: FERREIRA, Mariana Kawall Leal (Org.). Idéias matemáticas de povos culturalmente distintos. São Paulo : Global ; Mari/USP, 2002. p. 166-84. (Antropologia e Educação)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
--------. Vocês, brancos, não têm alma : histórias de fronteiras. Belém : UFPA ; MPEG, 2002. 140 p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;RAMOS, Alcida Rita. Patrões e clientes : relações intertribais no Alto Rio Negro. In: --------. Hierarquia e simbiose : relações intertribais no Brasil. São Paulo : Hucitec, 1980. p. 135-82.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;REID, Howard. Some aspects of movement, growth and change among the Hupdu Maku indians of Brazil. Cambridge : Univ. of Cambridge, 1979. 405 p. (Tese de Doutorado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;SALAMAND-KUAN, Catherine. Representations de la hierarchie dans le nord-ouest amazonien : le cas des indiens Maku. Paris : École des Hautes Études en Sciences Sociales, 1992. 82 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;SANTOS, Antônio Maria de Souza. Etnia e urbanização no Alto Rio Negro : São Gabriel da Cachoeira-AM. Porto Alegre : UFRS, 1983. 154 p. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;SCHULTZ, Harald. Ligeiras notas sobre os Makú do Paraná Boá-Boá. Rev. do Museu Paulista, São Paulo : Museu Paulista, v. 11, n.s., p. 109-32, 1959.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;SILVERWOOD-COPE, Peter L. Os Makú : povo caçador do Noroeste da Amazônia. Brasília : UnB, 1990. 206 p. (Coleção Pensamento Antropológico). Apresentado originalmente como Tese de Doutorado. 1973, Cambridge University.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;TORRES C., William. Nukak : aspectos etnográficos. Rev. Colombiana de Antropologia, Bogotá : Inst. Colombiano de Antropologia, n. 31, p. 195-36, 1994.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;WEIR, Evelyn Maria Helen. A negação e outros tópicos de gramática Nadeb. Campinas : Unicamp, 1984. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
--------. Nadëb. In: KAHREL, Peter; BERG, Rene van den (Eds.). Typological studies in negation. Amsterdan : John Benjamins, 1994. p. 291-323. (Typological Studies in Language, 29)&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;ZAMBRANO, Carlos Vladimir. El contacto con los nukak del Guaviare. Rev. Colombiana de Antropologia, Bogotá : Inst. Colombiano de Cultura, n. 31, p. 177-94, 1994.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Hupd'äh}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
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{{#set:Counter=63281}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=1999-01-01}}&lt;br /&gt;
{{#set:Estilo=escuro}}&lt;br /&gt;
{{#set:Povo Id=89}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas no Amazonas]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos transfronteiriços: Brasil-Colômbia]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Hupd%27%C3%A4h&amp;diff=8474</id>
		<title>Povo:Hupd'äh</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Hupd%27%C3%A4h&amp;diff=8474"/>
		<updated>2025-09-01T18:19:14Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: /* Nome */&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Já se tornou moeda corrente entre os regionais e na literatura etnográfica sobre o Noroeste Amazônico a distinção entre os chamados &amp;quot;índios do rio&amp;quot;, de fala Tukano e Arawak, e os &amp;quot;índios do mato&amp;quot;, de fala [[Povo:Maku#Língua|Maku]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Enquanto os primeiros são agricultores que fixam suas aldeias nas margens dos rios navegáveis, os Maku vagam nos divisores de água, estabelecendo-se temporariamente onde encontram condições ecológicas favoráveis à caça e adequadas ao modo como eles costumam resolver seus conflitos internos: &amp;quot;quando a gente se desentende, a gente se espalha no mato e fica lá até a raiva passar.&amp;quot;&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
=== Outras leituras ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para saber mai acesse o verbete especial sobre a região [[Povo:Etnias do Rio Negro | Etnias do Rio Negro]]&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nome ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não há uma autodenominação adotada pelo conjunto dos Maku. Na verdade, eles se dividem em seis grupos distintos, cada qual com seu próprio território, língua e autodenominação:&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;table-responsive&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;table class=&amp;quot;table table-hover&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Autodenominação'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Outros nomes'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Localização''' [leia-se &amp;quot;entre os rios...&amp;quot;]&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Nukak&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Maku&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Guaviare e Inírida, na Colômbia&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Bara''', Kakwa&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Maku, Pohsá, Boroa, Wirapoyá&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Uaupés e Papuri, na Colômbia&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;[[Povo:Hupd'äh|Hupda]]&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Maku, Pohsá, Peoná, Wirapoyá&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Papuri e Tiquiê, no Brasil e Colômbia&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;[[Povo:Yuhupdeh|Yuhupdeh]]&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Maku, Pohsá, Peoná, Wirapoyá&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Tiquiê e Traíra, no Brasil e Colômbia&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;[[Povo:Däw|Däw]]&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Maku, Kamã&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Curicuriari e Negro, no Brasil&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''[[Povo:Nadöb|Nadöb]]''', Kabori&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Maku, Guariba Tapuya, Xiruai&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Negro e Japurá, no Brasil&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/table&amp;gt;&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;h5&amp;gt; &amp;lt;span class=&amp;quot;creditos_fotos&amp;quot;&amp;gt;'''N.B'''.: Dentre as autodenominações alternativas, preferimos as que estão em negrito. &amp;lt;/span&amp;gt;&amp;lt;/h5&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com exceção dos Bara, que usam mais o termo ''bara ''(&amp;quot;irara&amp;quot;) do que o termo ''kakwa ''(&amp;quot;gente&amp;quot;) como autodenominação, e também dos Kabori, um subgrupo Nadub que se autodenomina ''kabori'' (&amp;quot;meninos&amp;quot;), todos os outros Maku usam o termo &amp;quot;gente&amp;quot; nas respectivas línguas como autodenominação. O termo ''maku'', de origem Arawak, significa ora &amp;quot;servo&amp;quot;, ora &amp;quot;selvagem&amp;quot;, sendo rejeitado pelo conjunto dos Maku em conseqüência da óbvia conotação pejorativa. Mantemos aqui o termo maku porque se consagrou na literatura etnográfica e porque não há outro que designe o conjunto desses índios. Quanto aos outros nomes, boroa e pohsá significam &amp;quot;servos&amp;quot; nas línguas Dahséa e Cubeo, respectivamente, ambas da família Tukano.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Foto: Marcos Santilli/Editora Abril, 1976&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/281921-1/maku_1.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O termo peoná, também de origem Tukano, significa &amp;quot;donos dos caminhos&amp;quot;, alusão ao fato de que os Maku não viajam de canoa, como todos os outros índios da região, mas a pé, pelos caminhos. O termo ''wirapoyá'', empregado pelos [[Povo:Desana|Desana]] (sub-grupo Tukano) para designar os Maku de sua vizinhança, significa &amp;quot;Desana estragado&amp;quot;. Ignoramos a origem do termo ''kamã'', cuja conotação também é pejorativa. O termo ''guariba ''é aplicado pelos regionais aos Nadub, em alusão à crença de que eles teriam parentesco com o macaco homônimo. O termo ''xiruai'', &amp;quot;cunhado&amp;quot; em nheengatu, é a forma amistosa pela qual os mesmos regionais se referem aos Nadub. Devido à influência do movimento indígena na região do rio Negro a partir de meados dos anos 1980, os nomes pejorativos (''boroa'', ''pohsá'', ''wirapoyá'', ''kamã, guariba'' e mesmo ''maku'') estão caindo em desuso, mas até agora não surgiu um nome genérico e neutro.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Língua ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As seis línguas Maku são aparentadas entre si, formando o que se pode chamar de família lingüística Maku. Até onde se sabe, essa família nada tem a ver com as famílias Tukano ou Aruak, se excetuarmos alguns evidentes e poucos empréstimos.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Rio Japurá. Foto: Michel Pellanders, 1987&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/281924-1/maku_2.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Praticamente todos os Maku são falantes de suas línguas. Devido à proximidade dos Tukano, os Maku da área do Uaupés (Bara, Hupda e Yuhupde) falam línguas Tukano, dando curso ao multi-lingüismo característico da região. Por outro lado, os Tukano têm sido uma espécie de barreira aculturativa para os Maku do Uaupés, pois atuam como intermediários no contato com os brancos, de modo que apenas cerca de 20% desses Maku sabem se expressar em português ou espanhol. Os Nukak, de contato muito recente (1988), pouco falam o espanhol ou qualquer outra língua que não a deles. Quanto aos Dow e Nadöb, de contato antigo (século XVIII) e sem a &amp;quot;barreira Tukano&amp;quot; na vizinhança, a grande maioria se expressa bem em português e nheengatu (língua geral ou tupi amazônico, falado majoritariamente pela população ribeirinha do médio e baixo Rio Negro, descendente dos [[Povo:Baré|Baré]], que vem se proclamando índia à medida em que avança na região o movimento indígena).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As línguas Maku têm sido estudadas em graus diversos. Bara (Kakwa), Hupda, Yuhupde e Nadöb mereceram estudos preliminares efetuados por missionários do SIL, assim como o Dow, por parte dos missionários da ALEM. No entanto, nenhum desses estudos resultou em instrumentos eficazes para o desenvolvimento da educação bilíngüe, uma demanda cada vez mais colocada pelos Maku, em justa reação à hegemonia da língua Dahséa (Tukano) nas escolas locais, mantidas pelo município e coordenadas pelos missionários católicos salesianos.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Localização ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Maku se distribuem numa área limitada a noroeste pelo rio Guaviare (um dos afluentes colombianos do Orinoco), ao norte pelo rio Negro, ao sul pelo rio Japurá e a sudeste pelo rio Uneiuxi (um dos afluentes brasileiros do Negro). Este losango soma um total aproximativo de 20 milhões de hectares. Evidentemente, nem todo ele é ocupado pelos índios. A alta dispersão espacial dos seis grupos lingüísticos Maku dentro desse vasto perímetro se deve à dominância de enormes áreas de caatinga ou campinarana, um tipo de floresta não ribeirinha, de solo extremamente pobre, pouca variabilidade vegetal e baixa concentração de animais de caça. Os Maku ocupam justamente as &amp;quot;manchas&amp;quot; de floresta de terra firme, onde a caça é mais abundante e a vegetação mais rica em espécies utilizáveis na alimentação ou na confecção de artefatos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A ocupação humana da área em tempos pré-colombianos se deu provavelmente em duas vagas: primeiro, os Maku se estabeleceram nas zonas interfluviais, nas &amp;quot;manchas&amp;quot; de terra firme; a seguir vieram os Arawak e os Tukano, estabelecendo-se nas barrancas altas dos rios, em meio ao igapó (terreno ribeirinho baixo, periodicamente inundável durante as cheias, de abril a setembro). O contato já bastante antigo entre esses povos de origem e línguas diversas, cada qual ocupando faixas ecologicamente distintas, resultou num complexo sistema de trocas comerciais e simbólicas, de que trataremos adiante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No lado brasileiro, recentemente foram homologadas cinco terras indígenas: Alto Rio Negro, Médio Rio Negro I, Médio Rio Negro II, Rio Téa e Rio Apapóris, somando um total 10,6 milhões de hectares de terras contínuas e contíguas. Os grupos Maku brasileiros, isto é, os Hupda, Yuhupde, Dow e Nadöb, distribuem-se nos terrenos interfluviais de todas essas áreas, com exceção do Médio Rio Negro II. As descrições que se seguem dizem respeito sobretudo aos Maku do Uaupés (Bara, Hupda e Yuhupde) e se baseiam nas etnografias de Silverwood-Cope (1990), Reid (1979) e Pozzobon (1984, 1992). Sobre os Maku do Uneiuxi e do Paraná Boá-Boá, veja-se Schultz (1959), Münzel (1969) e Pozzobon (1998).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Demografia ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os cerca de três mil Maku se distribuem num vasto território binacional, de modo que é bastante difícil estimar os parâmetros demográficos da população como um todo. Devido ao caráter interfluvial de seu habitat, pouco acessível às frentes pioneiras, aos missionários ou aos pesquisadores, as estimativas anteriores, que variam de 2 a 2,5 mil, são muito precárias e pouco confiáveis, de modo que não servem para se estimar a dinâmica populacional. Os estudos ainda em curso das variáveis demográficas em um determinado grupo Maku, os Hupdu, permitem afirmar provisoriamente que se trata de uma população estável, que não tem aumentado nem diminuído significativamente nos últimos decênios (Pozzobon, 1998). Por outro lado, eventuais trocas matrimoniais com grupos circunvizinhos são numericamente inexpressivas, devido ao baixo status dos Maku no sistema intertribal da região.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;table-responsive&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;table class=&amp;quot;table table-hover&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Autodenominação'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''População'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Ano'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Fonte'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Nukak&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;378&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;1995&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Franky et al. (1995)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Bara, Kakwa&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;300&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;1969&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Silverwood-Cope (1990)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Hupda&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;1500&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;1997&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Pozzobon (1997b)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Yuhupde&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;370&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;1997&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Pozzobon (1997c)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Dow&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;78&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;1994&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Oliveira, Meira and Pozzobon (1994)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Nadöb, Kabori&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;cerca de 600&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;1995&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;ISA (1996)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Total'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''cerca de 3226'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt; &amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt; &amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/table&amp;gt;&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Histórico do contato ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pobreza da campinarana dominante, somada ao caráter encachoeirado dos rios, foi um dos obstáculos à expansão das frentes pioneiras portuguesas e espanholas, que disputavam a região já no século XVII, estabelecendo destacamentos militares em alguns pontos do rio Negro, de onde os nativos apresados eram &amp;quot;descidos&amp;quot; para os centros urbanos emergentes (Barcelos, Manaus e Belém).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir do século XVIII, intensificam-se os &amp;quot;descimentos&amp;quot;, de modo que mesmo os Maku, em seus recônditos territórios interfluviais, tiveram alguns de seus efetivos apresados como escravos. Mas a análise dos documentos coloniais permite afirmar que dentre os indígenas da região eles foram os menos atingidos pelos &amp;quot;descimentos&amp;quot; ou pelas violências decorrentes do ciclo da borracha, ao final do século seguinte. O ciclo da borracha, aliás, foi possivelmente um dos motivos da adoção de práticas agrícolas pelos Maku: refugiando-se nos terrenos interfluviais para escapar ao apresamento praticado pelos seringueiros, os Tukano passaram a conviver mais intensamente com os Maku, ensinando-lhes a agricultura da mandioca, bem como uma série de itens da cultura material e espiritual de que trataremos adiante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1914, em pleno período de estagnação econômica decorrente da débacle da borracha, entram em cena os missionários salesianos, uma ordem católica voltada para a educação. Eles obtiveram a adesão de todos os índios ribeirinhos do lado brasileiro, porém encontraram muita resistência por parte dos Maku, que se recusavam a enviar suas crianças aos internatos nos centros missionários. Nos anos 1970, os salesianos tentaram algumas experiências de povoados-missão exclusivamente Maku (ver adiante). O garimpo aurífero - que se desenvolveu na região entre meados da década de 1980 e o início dos anos 1990, época em que o movimento indígena conseguiu expulsar os invasores com o apoio do Ministério Público e a força da Polícia Federal - pouco afetou os Maku, pois era praticado no mais das vezes em terreno ribeirinho. O único garimpo de terra firme, no extremo sul da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/4068 TI Alto Rio Negro], foi abandonado já em 1986 pela empresa mineradora Paranapanema, em função da baixa produtividade; com a intensificação do movimento indígena no início dos anos 1990, o ouro passou a ser explorado exclusivamente pelos índios.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Organização social ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Aldeia Pidu Bu (Cabaris, no Rio Tiquié). Foto: Jorge Pozzobon, 1997&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/281927-1/maku_3.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As aldeias Maku tradicionais variam entre 25 e 30 habitantes - cerca de seis grupos domésticos. O grupo doméstico Maku se compõe de marido, esposa ou esposas, filhos solteiros e eventuais agregados, que podem ser parentes próximos, viúvos ou solteiros, do marido ou da esposa ou esposas. Em geral, cada grupo doméstico possui sua própria fogueira, em torno da qual seus membros se reúnem para dormir e comer. Quanto às casas, resumem-se a tapiris sem paredes, podendo abrigar de um a quatro grupos domésticos (fogueiras), ligados por laços próximos de parentesco, que podem ser tanto patri quanto matrilaterais. Uma aldeia de 25 habitantes costuma ter cerca de três casas. Estas se situam numa clareira, no cimo de uma colina, perto de algum igarapé não navegável. As roças se distribuem em torno das casas ou em clareiras próximas (de 5 a 60 minutos de caminhada), que vêm a ser antigos locais de aldeia. Cada grupo doméstico possui em média duas roças de 50 x 50 m, sempre em clareiras comunais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um aglomerado de aldeias próximas, distando entre si de uma hora a um dia de caminhada, forma um grupo regional. Via de regra, os grupos regionais falam cada qual um dialeto distinto da mesma língua. Assim, cada grupo lingüístico Maku se divide no mínimo em dois grupos regionais/dialetais. Os Hupdu, por exemplo, possuem três grupos regionais (três dialetos), separados entre si por cursos de água navegáveis, cujas margens são ocupadas por &amp;quot;índios do rio&amp;quot;. Os membros adultos do mesmo grupo regional/dialetal se conhecem todos pelo nome, assim como pelas relações de parentesco que os unem. Já o conhecimento que possuem dos falantes de dialetos vizinhos, com quem não têm relações genealógicas demonstráveis, é bastante precário. Em outras palavras, o grupo regional/dialetal é um nexo fortemente endogâmico. A taxa média de casamentos endogâmicos - entre pessoas nascidas no mesmo grupo regional - é de 80%. O tamanho médio do grupo regional na área do Uaupés brasileiro é de 260 pessoas - cerca de 10 aldeias vizinhas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O território do grupo regional/dialetal resulta da justaposição de vários territórios contíguos de caça, cada qual em torno de uma aldeia. Com efeito, os homens de uma aldeia de 25 a 30 habitantes costumam caçar num raio de 7 a 10 km em torno da aldeia. A partir dela, irradia-se uma série de caminhos, alguns ligando aldeias Maku entre si, outros conduzindo a aldeias ribeirinhas, outros ainda levando aos acampamentos de caça. Cada aldeia possui em média 8 acampamentos de caça no raio de 7 a 10 km de seu entorno. Quando a aldeia ultrapassa a marca dos 30 ou 40 habitantes, ela se cinde em duas ou mais aldeias, pois numa aldeia grande, os caçadores são obrigados a se afastar mais que 10 km para encontrar caça suficiente. A longa permanência de uma aldeia num determinado lugar (cerca de cinco anos) é também motivo de mudança, para deslocar o raio de atuação dos caçadores, explorando, assim, novos territórios de caça.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Cotidiano de uma aldeia Maku ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Preparando ipadu. Foto: Jorge Pozzobon, 1997&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/281929-1/maku_4.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As mulheres se levantam quando começa a clarear o dia, tomam banho e preparam o dejejum comunal dos homens, que ocorre no mais das vezes na casa do líder da aldeia. Após a refeição, os homens partem solitários, aos pares ou em grupos maiores, dependendo dos rastros vistos no dia anterior (porcos do mato, por exemplo, são boas presas para caçadas coletivas). Depois deles partirem, as mulheres comem junto com as crianças e logo vão às roças, colher mandioca e replantar. Elas voltam perto do meio dia e preparam farinha, mingaus e beijus. Por volta das três da tarde, os homens retornam com suas presas e as entregam às esposas. Cada uma cozinha em sua própria fogueira, mas a refeição que se segue é comunal, na casa do líder, os homens comendo primeiro, sendo logo seguidos pelas mulheres e crianças. Depois disto, as três ou quatro refeições que se seguem até a hora de dormir (cerca das 21 horas) assumem um caráter cada vez mais doméstico e individual. No cotidiano, as atividades masculinas têm um ritmo frouxo, interrompido várias vezes por longos períodos de espreguiçamento nas redes, enquanto as mulheres trabalham duro nas roças, no preparo das refeições e na coleta de lenha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As mulheres, porém, não deixam de reclamar da preguiça dos homens. Estes, por seu turno, às vezes brigam entre si, acusando-se mutuamente de avareza, por não distribuírem generosamente os magros resultados das caçadas cotidianas. Quando a situação atinge o paroxismo, os grupos domésticos se separam em vários acampamentos de caça, cuja ocupação varia de dois ou três dias até um mês (somando-se todas as estadias de um grupo doméstico nos acampamentos durante o ano, têm-se uma média de quatro meses por grupo doméstico por ano). Aí invertem-se os papéis: enquanto os homens passam até doze horas caçando ininterruptamente, as mulheres se espreguiçam nas redes. E todos comem juntos, caçadores, esposas e filhos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em poucos dias nos acampamentos, os homens terão caçado muito mais do que seus grupos domésticos são capazes de consumir. Sendo assim, eles podem decidir voltar à aldeia de origem, para uma festa, que ameniza antigas rusgas ou provoca novas. Ou podem decidir trocar o excedente em caça por farinha de mandioca, ipadu (folha de coca macerada) ou beijus, fornecidos pelos índios ribeirinhos. Neste caso, alguns grupos domésticos podem decidir ficar algum tempo (de alguns dias a um mês) na aldeia ribeirinha, trabalhando nas roças e na feitura de novas casas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação entre os Maku do Uaupés e seus vizinhos ribeirinhos, de fala Tukano, é bastante hierarquizada: os primeiros são tidos como &amp;quot;escravos&amp;quot; dos últimos. Porém, isto é muito mais uma ideologia étnica do que uma prática social efetiva. Os Maku são livres para ir e vir, estabelecendo (ou rompendo) relações de &amp;quot;escravidão&amp;quot; com várias aldeias ribeirinhas ao mesmo tempo. Por outro lado, as roças Maku, em geral 80% menos produtivas que as roças ribeirinhas e incapazes de satisfazer a demanda dos próprios Maku, são poupadas. Na verdade, os Maku aceitam ser &amp;quot;escravos&amp;quot; devido às evidentes vantagens que isso lhes traz: eles têm acesso aos produtos cultivados sem terem de arcar com as conseqüências da sedentarização necessária a uma produtividade agrícola semelhante à dos Tukano (cerca de dez toneladas de tubérculos por grupo doméstico por ano, ao passo que a dos Maku não chega a três toneladas).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Organização política ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A mobilidade é muito importante para os Maku, dado que seu meio habitual de resolver conflitos é a dispersão no espaço. Não há líderes ou conselhos &amp;quot;tribais&amp;quot; que arbitrem os desentendimentos, aliás freqüentes, entre os habitantes de uma aldeia. O líder da aldeia não passa de um anfitrião e de um coordenador das caçadas coletivas. Trata-se em geral de um homem de meia idade, ainda forte para caçar e com muita experiência no assunto, em torno do qual se reúnem cinco ou seis grupos domésticos cujos cabeças são seus filhos ou seus genros. Ele não tem autoridade para julgar quem está certo e quem está errado numa briga. O líder que tenta fazê-lo não está livre de apanhar durante a briga ou de assistir à deserção irrevogável de expressiva parte de seus filhos ou genros. Assim, a dispersão espacial temporária é a única forma de evitar a fissão definitiva da aldeia por ocasião de algum conflito. Mas, dependendo da gravidade, a fissão pode ser inevitável: alguns grupos domésticos não voltam mais para a aldeia de origem, estabelecendo-se em aldeias vizinhas, onde têm parentes próximos, ou fundando nova aldeia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os grupos locais (aldeias) Maku mostram uma composição bilateral: moram juntos tanto os filhos quanto os genros do líder. O fundamento básico da amizade masculina é a relação entre cunhados, isto é, homens que trocaram irmãs. Porém, o termo &amp;quot;irmãs&amp;quot; deve ser entendido em sentido amplo. O vocabulário de parentesco é de tipo dravidiano: funda-se sobre a bipartição dos primos em proibidos para o casamento (primos paralelos, isto é, filhos de irmãos de mesmo sexo), e preferenciais para o casamento (primos cruzados, isto é, filhos de irmãos de sexos opostos). Entre os Maku, o vocabulário dravidiano está associado a um sistema de clãs patrilineares exogâmicos. Há consistência entre o vocabulário e a classificação dos clãs: assim como os primos são bipartidos em &amp;quot;irmãos&amp;quot; (os paralelos) e &amp;quot;cunhados&amp;quot; (os cruzados), os clãs são classificados em clãs &amp;quot;irmãos&amp;quot; e clãs &amp;quot;cunhados&amp;quot;, de modo que o universo dos parentes é bipartido, tanto do ponto de vista do vocabulário quanto do ponto de vista do sistema de clãs. Destarte, são amigos (co-residentes, companheiros de caçada) os homens que trocaram irmãs reais ou classificatórias entre si. Os grupos locais (aldeias) mais estáveis são os que mostram esta composição: um grupo composto de cunhados reunidos em torno de um homem de meia idade, sogro de alguns e pai de outros. Isto significa reunir no mesmo grupo local no mínimo dois clãs afins.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não há facções, grupos etários corporativos ou conselhos de anciãos entre os Maku. Eles classificam as pessoas conforme três faixas etárias principais (em língua Hupd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;): os ''dowd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;'' (verdes = crianças), os ''wudnd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;'' (maduros = adultos) e os ''w&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;h&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;dnd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;'' (secos = velhos). Os líderes de aldeia estão numa sub-classe intermediária entre os ''wudnd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;'' e os ''w&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;h&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;dnd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;''. Estes últimos, além de desempenharem quase que invariavelmente a função de xamãs, são também os nominadores. Para nominar uma criança, o velho empreende uma &amp;quot;viagem&amp;quot; (por meio de um alucinógeno do gênero ''banisteriopsis'') até o mundo dos ancestrais. Lá chegando, ele consulta os mesmos sobre o nome da criança. Cada clã possui um repertório de nomes, de modo que o nome próprio já dá a identidade clânica da pessoa, assim como seu status matrimonial (se &amp;quot;irmão&amp;quot; ou se &amp;quot;cunhado&amp;quot;) em relação aos demais.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Arte, cultura material e jogos ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em comparação com os vizinhos Tukano e Aruak, os Maku possuem uma cultura material rudimentar na origem: canoas, bancos rituais, potes de cerâmica, pintura corporal e flautas sagradas de iniciação masculina, entre outros, são itens copiados dos vizinhos. Os itens de origem Maku parecem ser o aturá (um cesto cargueiro bastante resistente) e a zarabatana. Esta, aliás, é instrumento de concorridos torneios de tiro ao alvo, principalmente entre os Nadöb. Outros jogos apreciados pelos Maku são a piorra assoviadora, feita de coquinho e haste de paxiúba, a caça ao pombo a pedradas e certas traquinagens com animais: um homem, espreguiçando-se na rede, mata tempo oferecendo um pedaço de beiju simultaneamente ao seu tucano de estimação e ao seu cão de caça, para ver a ave desferir dolorosas bicadas no focinho do rival; crianças se divertem amarrando tições flamejantes ao rabo de cachorros vadios, para vê-los em espavorida disparada, enquanto a aldeia inteira se dobra de rir. Acrescente-se a simples galhofa, inclusive comparações de pênis e vulvas, com abundantes metáforas desabonadoras, além dos comentários debochados, em coletiva voz de falsete, sobre antigos namoros alheios.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Cosmologia e mitologia ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O universo Maku tem a forma de um ovo em pé, com três andares ou &amp;quot;mundos&amp;quot;: (1) o &amp;quot;mundo das sombras&amp;quot;, subterrâneo de onde vêm todos os &amp;quot;monstros&amp;quot;, tais como os escorpiões, as onças, as cobras venenosas, os índios do rio e os brancos; (2) o &amp;quot;nosso mundo&amp;quot;, isto é, a floresta e (3) o &amp;quot;mundo da luz&amp;quot;, acima do céu, onde vivem os ancestrais e o criador - o Filho do Osso (possível alusão ao pênis, também chamado de osso). Luz e sombra são as duas substâncias básicas de que se compõem todos os seres, em proporções diversas. Luz é fonte de vida. Sombra é fonte de morte. No &amp;quot;nosso mundo&amp;quot;, as folhas e as frutas são os seres que mais concentram luz, ao passo que os carnívoros são os que mais concentram sombra. Por isso, é melhor não comer carnívoros, mas tão somente herbívoros. No mundo da luz, após a morte, as pessoas se alimentam de deliciosos sucos de frutas e se tornam eternos adolescentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O principal ciclo mitológico dos Maku relata a epopéia do Filho do Osso - ''Idn Kamni ''em Bara, ''Kegn Teh'' em Hupda, ''K&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt; Teh'' em Yuhupde. Trata-se do sobrevivente de um incêndio que pôs fim à criação anterior, cujas tentativas de recriar o mundo resultam numa série de trapalhadas: por causa delas, existem as brigas, as doenças e a morte. Após ter sua mulher raptada pelo irmão caçula, o Filho do Osso se retira definitivamente deste mundo, indo morar no mundo da luz, acima do céu e dos trovões, que às vezes emite em expressão de desagravo. Coincidência ou não, na vida real os irmãos costumam brigar entre si, em disputa pelas mesmas mulheres, suas afins, conforme o sistema de clãs.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Ritual e xamanismo ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Aldeia do Pidu Bu. Fazendo fogo com pedras lascadas. Foto: Jorge Pozzobon, 1997&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/281931-1/maku_5.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Afora a nominação, dois outros rituais Maku utilizam alucinógenos do gênero banisteriopsis. Um deles é o ritual do jurupari, de origem ribeirinha, em que os meninos são iniciados na idade adulta. Neste rito, que consiste em representar teatralmente a chegada da anaconda ancestral aos trechos de rio atualmente ocupados pelos Tukano, os homens tocam as flautas sagradas, que não podem ser vistas pelas mulheres. O outro rito é a dança e o cântico do kaapi wayá, também de origem ribeirinha, em que o caminho serpenteante da anaconda é encenado, porém sem as flautas sagradas. Além destes, há o dabocuri, igualmente vindo dos índios do rio. É uma festa profana, divertida e alcoolizada. Entre os Maku, muitas vezes termina em verdadeiras batalhas campais, com safanões, pauladas e gritarias madrugadoras, cuja conseqüência, além de uma porção de hematomas, costuma ser a dispersão dos co-residentes em vários acampamentos de caça ou uma estratégica mudança de aldeia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em relação ao xamanismo, de modo geral, pode-se dizer que todos os velhos Maku são xamãs. Estes, porém, são de dois tipos:(''bidid&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;'') e os homens-onça (''nyaam hupd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;''). Os primeiros curam através de reza. Os últimos, através da extração do mal por meio de sucção. Freqüentemente, o mesmo indivíduo desempenha ambas as funções. Em qualquer dos casos, não inspira muito temor entre seus pares, sendo, antes, um dos alvos prediletos dos deboches. Mas por vezes pode ser acusado de malefícios e doenças, ocasião em que as pessoas que se julgam atingidas mudam de aldeia ou &amp;quot;ficam no mato até a raiva passar&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nota sobre as fontes ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O etnólogo Peter Silverwood-Cope foi quem inaugurou a pesquisa de campo intensiva sobre os Maku, mais especificamente sobre os Bara, permanecendo entre eles de 1968 a 1970. Sua tese de doutorado, recentemente publicada em português (Silverwood-Cope, 1990) aborda aspectos diversos da cultura Maku, tais como sua base ecológico-econômica, a organização sociopolítica, bem como as concepções mitológicas e cosmológicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na década seguinte, Howard Reid (1979) enfocou a mobilidade, o ciclo de desenvolvimento do indivíduo e a mudança cultural entre os Hupda - sem no entanto descuidar dos aspectos etnográficos mais tradicionais, como a etnografia da caça e coleta, a estrutura de parentesco, os rituais e a mitologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir dos anos 1980, Pozzobon (1984, 1992) se dedicou ao estudo da organização social dos Maku, estabelecendo um modelo socioestrutural generalizável para os Bara, Hupda e Yuhupde, baseado nas relações entre a identidade étnica, a endogamia regional/dialetal e a demografia das unidades sociais significativas. Deve-se mencionar ainda os estudos de Athias (1995, 1998) sobre os Hupda sedentarizados em povoados-missão, enfocando diversos aspectos da ecologia, economia, organização social e cosmologia, sobretudo concepções ligadas à saúde e à doença.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sobre os Nukak, veja-se os trabalhos de Franky Calvo, Cabrera Becerra e Mahecha (1995, 1999), bem como o de Politis (1996), dedicados a aspectos lingüísticos, à mobilidade espacial e à etnografia geral deste povo. Finalmente, sobre os Nadöb há os trabalhos de Schultz (1959), Münzel (1969) e Pozzobon (1998), que, embora não resultem de etnografias intensivas, fornecem informações importantes sobre essa fração pouco conhecida do povo Maku.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;ASSIS, Elias C. Patrões e fregueses no Alto Rio Negro : as relações de dominação no discurso do povo Daw. São Gabriel da Cachoeira : Universidade do Amazonas, 2001. (Monografia)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;ASSIS, Lenita de Paula Souza. Do caxiri a cachaça : mudanças nos hábitos de beber do povo Daw no Alto Rio Negro. São Gabriel da Cachoeira : UFAM, 2001. 86 p. (Monografia)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;ATHIAS, Renato. Doenças e cura : sistema médico e representação entre os Hupde-Maku da região do Rio Negro, Amazonas. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre : UFRGS, v. 4, n. 9, 1998.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
--------. Hupdë-Maku et Tukano : relations inégales entre deux sociétés du Uaupés, amazonien (Brésil). Paris : Univ. de Paris X, 1995. (Tese de Doutorado)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Doença e cura : sistema médico e representação entre os Hupdë-Maku da região do Rio Negro, Amazonas. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre : UFRGS, v. 4, n. 9, 1998.&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;BAMONTE, Gerardo. I Macu dell'alto Rio Negro : delimitazione delle aree di distribuzione e breve inchiesta etnografica su alcuni insediamenti del Tiquie. Roma : Univ. Degli Studi di Roma, 1973. 318 p. (Tese de Doutorado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;CABRERA BECERRA, Gabriel. Gentes con cerbatana, canasto y sin canoa. Nomadas, s.l. : s.ed., n. 10, p. 144-55, 1999.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;CABRERA BECERRA, Gabriel; FRANKY CALVO, Carlos Eduardo; MAHECHA RUBIO, Dany. Algunos aspectos fonetico-fonologicos del idioma Nukak. In: GONZALES DI PEREZ, Mário S. (Ed.). Lenguas indígenas de Colombia. Bogotá : Instituto Caro y Cuervo, 2000. p. 547-60.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
--------. Aportes a la etnografia de los Nukak y su lengua : aspectos sobre fonologia segmental. Santafé de Bogotá : Univ. Nacional de Colombia, 1994. 584 p. (Trabajo de Grado en Antropologia)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Demografia y movilidad socio-espacial de los Nukak. Bogotá : Fundación Gaia, 1995. 63 p.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Los nukak : nómadas de la amazonía colombiana. Bogotá : Universidad Nacional de Colombia, 1999. 405 p.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Los Nukak, demografia, contato y enfermedad. In: GOMES, A. J. et al (Eds.). Amazonía Colombiana : enfermedades y endemias. Bogotá : Ministério de Cultura, 2000. p. 319-60.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Nukak, Kakua, Juhup y Hupdu (Maku) : cazadores nomades de la Amazonía Colombiana. In: CORREA RUBIO, François (Ed.). Geografia humana de Colombia : Amazonía-caqueta. Tomo VII, v. II. Bogotá : Univ. Nacional de Colombia, 2000. p. 130-211.&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;FARIA, Ivani Ferreira de. Território e territorialidades indígenas do Alto Rio Negro. Manaus : EdUA, 2003. 168 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;LUZ, Pedro Fernandes Leite da. Estudo comparativo dos complexos ritual e simbólico associados a Banisteriopsis Caapi e espécies congêneres em tribo da língua pano, arawak, tucano e maku. Rio de Janeiro : Museu Nacional/UFRJ, 1996. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MACIEL, Iraguacema. Alguns aspectos fonológicos e morfológicos da língua maku. Brasília : UnB, 1991. 76 p. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MARQUEZ, Juan Carlos Pena. A escola no tempo e no território Hupdah : mudanças no Nordeste Amazônico. Manaus : UFAM, 2003. 125 p. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MARTINS, Silvana de Andrade. Análise da morfossintaxe da língua daw (maku-kama) e sua classificação tipológica. Florianópolis : UFSC, 1994. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MARTINS, Valteir. Análise prosódica da língua daw (maku-kama) numa perspectiva não linear. Florianópolis : UFSC, 1994. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MEIRA, Márcio. Laudo antropológico Área Indígena Baixo Rio Negro. Belém : MPEG, 1991. 183 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MUÑOZ R., Maria I.; ZAMBRANO, Carlos V. Los Nukak : encuentro etnográfico en las selvas. In: BARTOLOME, Miguel A. (Coord.). Ya no hay lugar para cazadores : processo de extincción y transfiguración étnica en America Latina. Quito : Abya-Ayala, 1995. p. 145-72 p. (Biblioteca Abya-Yala, 23)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MÜNZEL, Mark. Notas preliminares sobre os Kaborí (Makú entre o Rio Negro e o Japurá). Rev. de Antropologia, São Paulo : USP, v. 17/20, p. 137-81, 1969-1972.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;OLIVEIRA, Ana Gita de. Índios e brancos no Alto Rio Negro : um estudo da situação de contato dos Tariana. Brasília : UNB, 1981. 162 p. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
--------. O mundo transformado : um estudo da &amp;quot;cultura de fronteira&amp;quot; no Alto Rio Negro. Brasília : UnB-ICH, 1992. 286 p. (Tese de Doutorado)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------; MEIRA, Márcio; POZZOBON, Jorge. Relatório antropológico, Áreas Indígenas Médio Rio Negro, Rio Téa e Rio Apapóris. Brasília : Funai, 1994. 192 p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;POLITIS, Gustavo G. Nukak. Bogotá : Instituto Amazónico de Investigaciones Científicas, 1996. 426 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;POZZOBON, Jorge. Identidade e endogamia : observações sobre a organização social dos índios Maku. Porto Alegre : UFRGS, 1984.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
--------. Isolamento e endogamia : observações sobre a organização social dos índios Maku. Porto Alegre : UFRS, 1983. 387 p. (Dissertação de Mestrado)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Langue, société et numération chez les Indiens Maku (haut Rio Negro, Brésil). Journal de la Société des Américanistes, Paris : Société des Américanistes, n. 83, p. 159-72, 1997.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Os Maku : esquecidos e discriminados. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1987/88/89/90. São Paulo : Cedi, 1991. p. 141-2. (Aconteceu Especial, 18)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Parente et demographie chez les indiens Maku. Paris : Univ. Paris VII, 1991. 257 p. (Tese de Doutorado)&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;POZZOBON, Jorge. O sistema numérico dos índios Maku. In: FERREIRA, Mariana Kawall Leal (Org.). Idéias matemáticas de povos culturalmente distintos. São Paulo : Global ; Mari/USP, 2002. p. 166-84. (Antropologia e Educação)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
--------. Vocês, brancos, não têm alma : histórias de fronteiras. Belém : UFPA ; MPEG, 2002. 140 p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;RAMOS, Alcida Rita. Patrões e clientes : relações intertribais no Alto Rio Negro. In: --------. Hierarquia e simbiose : relações intertribais no Brasil. São Paulo : Hucitec, 1980. p. 135-82.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;REID, Howard. Some aspects of movement, growth and change among the Hupdu Maku indians of Brazil. Cambridge : Univ. of Cambridge, 1979. 405 p. (Tese de Doutorado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;SALAMAND-KUAN, Catherine. Representations de la hierarchie dans le nord-ouest amazonien : le cas des indiens Maku. Paris : École des Hautes Études en Sciences Sociales, 1992. 82 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;SANTOS, Antônio Maria de Souza. Etnia e urbanização no Alto Rio Negro : São Gabriel da Cachoeira-AM. Porto Alegre : UFRS, 1983. 154 p. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;SCHULTZ, Harald. Ligeiras notas sobre os Makú do Paraná Boá-Boá. Rev. do Museu Paulista, São Paulo : Museu Paulista, v. 11, n.s., p. 109-32, 1959.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;SILVERWOOD-COPE, Peter L. Os Makú : povo caçador do Noroeste da Amazônia. Brasília : UnB, 1990. 206 p. (Coleção Pensamento Antropológico). Apresentado originalmente como Tese de Doutorado. 1973, Cambridge University.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;TORRES C., William. Nukak : aspectos etnográficos. Rev. Colombiana de Antropologia, Bogotá : Inst. Colombiano de Antropologia, n. 31, p. 195-36, 1994.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;WEIR, Evelyn Maria Helen. A negação e outros tópicos de gramática Nadeb. Campinas : Unicamp, 1984. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
--------. Nadëb. In: KAHREL, Peter; BERG, Rene van den (Eds.). Typological studies in negation. Amsterdan : John Benjamins, 1994. p. 291-323. (Typological Studies in Language, 29)&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;ZAMBRANO, Carlos Vladimir. El contacto con los nukak del Guaviare. Rev. Colombiana de Antropologia, Bogotá : Inst. Colombiano de Cultura, n. 31, p. 177-94, 1994.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
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[[Categoria:Povos indígenas no Amazonas]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos transfronteiriços: Brasil-Colômbia]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Hupd%27%C3%A4h&amp;diff=8473</id>
		<title>Povo:Hupd'äh</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Hupd%27%C3%A4h&amp;diff=8473"/>
		<updated>2025-09-01T18:18:49Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: /* Nome */&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Já se tornou moeda corrente entre os regionais e na literatura etnográfica sobre o Noroeste Amazônico a distinção entre os chamados &amp;quot;índios do rio&amp;quot;, de fala Tukano e Arawak, e os &amp;quot;índios do mato&amp;quot;, de fala [[Povo:Maku#Língua|Maku]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Enquanto os primeiros são agricultores que fixam suas aldeias nas margens dos rios navegáveis, os Maku vagam nos divisores de água, estabelecendo-se temporariamente onde encontram condições ecológicas favoráveis à caça e adequadas ao modo como eles costumam resolver seus conflitos internos: &amp;quot;quando a gente se desentende, a gente se espalha no mato e fica lá até a raiva passar.&amp;quot;&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
=== Outras leituras ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para saber mai acesse o verbete especial sobre a região [[Povo:Etnias do Rio Negro | Etnias do Rio Negro]]&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nome ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não há uma autodenominação adotada pelo conjunto dos Maku. Na verdade, eles se dividem em seis grupos distintos, cada qual com seu próprio território, língua e autodenominação:&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;table-responsive&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;table class=&amp;quot;table table-hover&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Autodenominação'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Outros nomes'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Localização''' [leia-se &amp;quot;entre os rios...&amp;quot;]&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Nukak&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Maku&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Guaviare e Inírida, na Colômbia&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Bara''', Kakwa&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Maku, Pohsá, Boroa, Wirapoyá&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Uaupés e Papuri, na Colômbia&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;[[Povo:Hupda|Hupd'äh]]&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Maku, Pohsá, Peoná, Wirapoyá&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Papuri e Tiquiê, no Brasil e Colômbia&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;[[Povo:Yuhupdeh|Yuhupdeh]]&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Maku, Pohsá, Peoná, Wirapoyá&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Tiquiê e Traíra, no Brasil e Colômbia&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;[[Povo:Däw|Däw]]&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Maku, Kamã&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Curicuriari e Negro, no Brasil&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''[[Povo:Nadöb|Nadöb]]''', Kabori&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Maku, Guariba Tapuya, Xiruai&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Negro e Japurá, no Brasil&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/table&amp;gt;&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;h5&amp;gt; &amp;lt;span class=&amp;quot;creditos_fotos&amp;quot;&amp;gt;'''N.B'''.: Dentre as autodenominações alternativas, preferimos as que estão em negrito. &amp;lt;/span&amp;gt;&amp;lt;/h5&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com exceção dos Bara, que usam mais o termo ''bara ''(&amp;quot;irara&amp;quot;) do que o termo ''kakwa ''(&amp;quot;gente&amp;quot;) como autodenominação, e também dos Kabori, um subgrupo Nadub que se autodenomina ''kabori'' (&amp;quot;meninos&amp;quot;), todos os outros Maku usam o termo &amp;quot;gente&amp;quot; nas respectivas línguas como autodenominação. O termo ''maku'', de origem Arawak, significa ora &amp;quot;servo&amp;quot;, ora &amp;quot;selvagem&amp;quot;, sendo rejeitado pelo conjunto dos Maku em conseqüência da óbvia conotação pejorativa. Mantemos aqui o termo maku porque se consagrou na literatura etnográfica e porque não há outro que designe o conjunto desses índios. Quanto aos outros nomes, boroa e pohsá significam &amp;quot;servos&amp;quot; nas línguas Dahséa e Cubeo, respectivamente, ambas da família Tukano.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Foto: Marcos Santilli/Editora Abril, 1976&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/281921-1/maku_1.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O termo peoná, também de origem Tukano, significa &amp;quot;donos dos caminhos&amp;quot;, alusão ao fato de que os Maku não viajam de canoa, como todos os outros índios da região, mas a pé, pelos caminhos. O termo ''wirapoyá'', empregado pelos [[Povo:Desana|Desana]] (sub-grupo Tukano) para designar os Maku de sua vizinhança, significa &amp;quot;Desana estragado&amp;quot;. Ignoramos a origem do termo ''kamã'', cuja conotação também é pejorativa. O termo ''guariba ''é aplicado pelos regionais aos Nadub, em alusão à crença de que eles teriam parentesco com o macaco homônimo. O termo ''xiruai'', &amp;quot;cunhado&amp;quot; em nheengatu, é a forma amistosa pela qual os mesmos regionais se referem aos Nadub. Devido à influência do movimento indígena na região do rio Negro a partir de meados dos anos 1980, os nomes pejorativos (''boroa'', ''pohsá'', ''wirapoyá'', ''kamã, guariba'' e mesmo ''maku'') estão caindo em desuso, mas até agora não surgiu um nome genérico e neutro.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Língua ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As seis línguas Maku são aparentadas entre si, formando o que se pode chamar de família lingüística Maku. Até onde se sabe, essa família nada tem a ver com as famílias Tukano ou Aruak, se excetuarmos alguns evidentes e poucos empréstimos.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Rio Japurá. Foto: Michel Pellanders, 1987&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/281924-1/maku_2.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Praticamente todos os Maku são falantes de suas línguas. Devido à proximidade dos Tukano, os Maku da área do Uaupés (Bara, Hupda e Yuhupde) falam línguas Tukano, dando curso ao multi-lingüismo característico da região. Por outro lado, os Tukano têm sido uma espécie de barreira aculturativa para os Maku do Uaupés, pois atuam como intermediários no contato com os brancos, de modo que apenas cerca de 20% desses Maku sabem se expressar em português ou espanhol. Os Nukak, de contato muito recente (1988), pouco falam o espanhol ou qualquer outra língua que não a deles. Quanto aos Dow e Nadöb, de contato antigo (século XVIII) e sem a &amp;quot;barreira Tukano&amp;quot; na vizinhança, a grande maioria se expressa bem em português e nheengatu (língua geral ou tupi amazônico, falado majoritariamente pela população ribeirinha do médio e baixo Rio Negro, descendente dos [[Povo:Baré|Baré]], que vem se proclamando índia à medida em que avança na região o movimento indígena).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As línguas Maku têm sido estudadas em graus diversos. Bara (Kakwa), Hupda, Yuhupde e Nadöb mereceram estudos preliminares efetuados por missionários do SIL, assim como o Dow, por parte dos missionários da ALEM. No entanto, nenhum desses estudos resultou em instrumentos eficazes para o desenvolvimento da educação bilíngüe, uma demanda cada vez mais colocada pelos Maku, em justa reação à hegemonia da língua Dahséa (Tukano) nas escolas locais, mantidas pelo município e coordenadas pelos missionários católicos salesianos.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Localização ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Maku se distribuem numa área limitada a noroeste pelo rio Guaviare (um dos afluentes colombianos do Orinoco), ao norte pelo rio Negro, ao sul pelo rio Japurá e a sudeste pelo rio Uneiuxi (um dos afluentes brasileiros do Negro). Este losango soma um total aproximativo de 20 milhões de hectares. Evidentemente, nem todo ele é ocupado pelos índios. A alta dispersão espacial dos seis grupos lingüísticos Maku dentro desse vasto perímetro se deve à dominância de enormes áreas de caatinga ou campinarana, um tipo de floresta não ribeirinha, de solo extremamente pobre, pouca variabilidade vegetal e baixa concentração de animais de caça. Os Maku ocupam justamente as &amp;quot;manchas&amp;quot; de floresta de terra firme, onde a caça é mais abundante e a vegetação mais rica em espécies utilizáveis na alimentação ou na confecção de artefatos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A ocupação humana da área em tempos pré-colombianos se deu provavelmente em duas vagas: primeiro, os Maku se estabeleceram nas zonas interfluviais, nas &amp;quot;manchas&amp;quot; de terra firme; a seguir vieram os Arawak e os Tukano, estabelecendo-se nas barrancas altas dos rios, em meio ao igapó (terreno ribeirinho baixo, periodicamente inundável durante as cheias, de abril a setembro). O contato já bastante antigo entre esses povos de origem e línguas diversas, cada qual ocupando faixas ecologicamente distintas, resultou num complexo sistema de trocas comerciais e simbólicas, de que trataremos adiante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No lado brasileiro, recentemente foram homologadas cinco terras indígenas: Alto Rio Negro, Médio Rio Negro I, Médio Rio Negro II, Rio Téa e Rio Apapóris, somando um total 10,6 milhões de hectares de terras contínuas e contíguas. Os grupos Maku brasileiros, isto é, os Hupda, Yuhupde, Dow e Nadöb, distribuem-se nos terrenos interfluviais de todas essas áreas, com exceção do Médio Rio Negro II. As descrições que se seguem dizem respeito sobretudo aos Maku do Uaupés (Bara, Hupda e Yuhupde) e se baseiam nas etnografias de Silverwood-Cope (1990), Reid (1979) e Pozzobon (1984, 1992). Sobre os Maku do Uneiuxi e do Paraná Boá-Boá, veja-se Schultz (1959), Münzel (1969) e Pozzobon (1998).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Demografia ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os cerca de três mil Maku se distribuem num vasto território binacional, de modo que é bastante difícil estimar os parâmetros demográficos da população como um todo. Devido ao caráter interfluvial de seu habitat, pouco acessível às frentes pioneiras, aos missionários ou aos pesquisadores, as estimativas anteriores, que variam de 2 a 2,5 mil, são muito precárias e pouco confiáveis, de modo que não servem para se estimar a dinâmica populacional. Os estudos ainda em curso das variáveis demográficas em um determinado grupo Maku, os Hupdu, permitem afirmar provisoriamente que se trata de uma população estável, que não tem aumentado nem diminuído significativamente nos últimos decênios (Pozzobon, 1998). Por outro lado, eventuais trocas matrimoniais com grupos circunvizinhos são numericamente inexpressivas, devido ao baixo status dos Maku no sistema intertribal da região.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;table-responsive&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;table class=&amp;quot;table table-hover&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Autodenominação'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''População'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Ano'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Fonte'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
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&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Nukak&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;378&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;1995&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Franky et al. (1995)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
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&amp;lt;td&amp;gt;Bara, Kakwa&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
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&amp;lt;td&amp;gt;1969&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Silverwood-Cope (1990)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
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&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Hupda&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;1500&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;1997&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Pozzobon (1997b)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
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&amp;lt;td&amp;gt;Yuhupde&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
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&amp;lt;td&amp;gt;1997&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Pozzobon (1997c)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
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&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Dow&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;78&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;1994&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Oliveira, Meira and Pozzobon (1994)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Nadöb, Kabori&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;cerca de 600&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;1995&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;ISA (1996)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Total'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''cerca de 3226'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt; &amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt; &amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
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&amp;lt;/table&amp;gt;&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Histórico do contato ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pobreza da campinarana dominante, somada ao caráter encachoeirado dos rios, foi um dos obstáculos à expansão das frentes pioneiras portuguesas e espanholas, que disputavam a região já no século XVII, estabelecendo destacamentos militares em alguns pontos do rio Negro, de onde os nativos apresados eram &amp;quot;descidos&amp;quot; para os centros urbanos emergentes (Barcelos, Manaus e Belém).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir do século XVIII, intensificam-se os &amp;quot;descimentos&amp;quot;, de modo que mesmo os Maku, em seus recônditos territórios interfluviais, tiveram alguns de seus efetivos apresados como escravos. Mas a análise dos documentos coloniais permite afirmar que dentre os indígenas da região eles foram os menos atingidos pelos &amp;quot;descimentos&amp;quot; ou pelas violências decorrentes do ciclo da borracha, ao final do século seguinte. O ciclo da borracha, aliás, foi possivelmente um dos motivos da adoção de práticas agrícolas pelos Maku: refugiando-se nos terrenos interfluviais para escapar ao apresamento praticado pelos seringueiros, os Tukano passaram a conviver mais intensamente com os Maku, ensinando-lhes a agricultura da mandioca, bem como uma série de itens da cultura material e espiritual de que trataremos adiante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1914, em pleno período de estagnação econômica decorrente da débacle da borracha, entram em cena os missionários salesianos, uma ordem católica voltada para a educação. Eles obtiveram a adesão de todos os índios ribeirinhos do lado brasileiro, porém encontraram muita resistência por parte dos Maku, que se recusavam a enviar suas crianças aos internatos nos centros missionários. Nos anos 1970, os salesianos tentaram algumas experiências de povoados-missão exclusivamente Maku (ver adiante). O garimpo aurífero - que se desenvolveu na região entre meados da década de 1980 e o início dos anos 1990, época em que o movimento indígena conseguiu expulsar os invasores com o apoio do Ministério Público e a força da Polícia Federal - pouco afetou os Maku, pois era praticado no mais das vezes em terreno ribeirinho. O único garimpo de terra firme, no extremo sul da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/4068 TI Alto Rio Negro], foi abandonado já em 1986 pela empresa mineradora Paranapanema, em função da baixa produtividade; com a intensificação do movimento indígena no início dos anos 1990, o ouro passou a ser explorado exclusivamente pelos índios.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Organização social ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Aldeia Pidu Bu (Cabaris, no Rio Tiquié). Foto: Jorge Pozzobon, 1997&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/281927-1/maku_3.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As aldeias Maku tradicionais variam entre 25 e 30 habitantes - cerca de seis grupos domésticos. O grupo doméstico Maku se compõe de marido, esposa ou esposas, filhos solteiros e eventuais agregados, que podem ser parentes próximos, viúvos ou solteiros, do marido ou da esposa ou esposas. Em geral, cada grupo doméstico possui sua própria fogueira, em torno da qual seus membros se reúnem para dormir e comer. Quanto às casas, resumem-se a tapiris sem paredes, podendo abrigar de um a quatro grupos domésticos (fogueiras), ligados por laços próximos de parentesco, que podem ser tanto patri quanto matrilaterais. Uma aldeia de 25 habitantes costuma ter cerca de três casas. Estas se situam numa clareira, no cimo de uma colina, perto de algum igarapé não navegável. As roças se distribuem em torno das casas ou em clareiras próximas (de 5 a 60 minutos de caminhada), que vêm a ser antigos locais de aldeia. Cada grupo doméstico possui em média duas roças de 50 x 50 m, sempre em clareiras comunais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um aglomerado de aldeias próximas, distando entre si de uma hora a um dia de caminhada, forma um grupo regional. Via de regra, os grupos regionais falam cada qual um dialeto distinto da mesma língua. Assim, cada grupo lingüístico Maku se divide no mínimo em dois grupos regionais/dialetais. Os Hupdu, por exemplo, possuem três grupos regionais (três dialetos), separados entre si por cursos de água navegáveis, cujas margens são ocupadas por &amp;quot;índios do rio&amp;quot;. Os membros adultos do mesmo grupo regional/dialetal se conhecem todos pelo nome, assim como pelas relações de parentesco que os unem. Já o conhecimento que possuem dos falantes de dialetos vizinhos, com quem não têm relações genealógicas demonstráveis, é bastante precário. Em outras palavras, o grupo regional/dialetal é um nexo fortemente endogâmico. A taxa média de casamentos endogâmicos - entre pessoas nascidas no mesmo grupo regional - é de 80%. O tamanho médio do grupo regional na área do Uaupés brasileiro é de 260 pessoas - cerca de 10 aldeias vizinhas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O território do grupo regional/dialetal resulta da justaposição de vários territórios contíguos de caça, cada qual em torno de uma aldeia. Com efeito, os homens de uma aldeia de 25 a 30 habitantes costumam caçar num raio de 7 a 10 km em torno da aldeia. A partir dela, irradia-se uma série de caminhos, alguns ligando aldeias Maku entre si, outros conduzindo a aldeias ribeirinhas, outros ainda levando aos acampamentos de caça. Cada aldeia possui em média 8 acampamentos de caça no raio de 7 a 10 km de seu entorno. Quando a aldeia ultrapassa a marca dos 30 ou 40 habitantes, ela se cinde em duas ou mais aldeias, pois numa aldeia grande, os caçadores são obrigados a se afastar mais que 10 km para encontrar caça suficiente. A longa permanência de uma aldeia num determinado lugar (cerca de cinco anos) é também motivo de mudança, para deslocar o raio de atuação dos caçadores, explorando, assim, novos territórios de caça.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Cotidiano de uma aldeia Maku ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Preparando ipadu. Foto: Jorge Pozzobon, 1997&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/281929-1/maku_4.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As mulheres se levantam quando começa a clarear o dia, tomam banho e preparam o dejejum comunal dos homens, que ocorre no mais das vezes na casa do líder da aldeia. Após a refeição, os homens partem solitários, aos pares ou em grupos maiores, dependendo dos rastros vistos no dia anterior (porcos do mato, por exemplo, são boas presas para caçadas coletivas). Depois deles partirem, as mulheres comem junto com as crianças e logo vão às roças, colher mandioca e replantar. Elas voltam perto do meio dia e preparam farinha, mingaus e beijus. Por volta das três da tarde, os homens retornam com suas presas e as entregam às esposas. Cada uma cozinha em sua própria fogueira, mas a refeição que se segue é comunal, na casa do líder, os homens comendo primeiro, sendo logo seguidos pelas mulheres e crianças. Depois disto, as três ou quatro refeições que se seguem até a hora de dormir (cerca das 21 horas) assumem um caráter cada vez mais doméstico e individual. No cotidiano, as atividades masculinas têm um ritmo frouxo, interrompido várias vezes por longos períodos de espreguiçamento nas redes, enquanto as mulheres trabalham duro nas roças, no preparo das refeições e na coleta de lenha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As mulheres, porém, não deixam de reclamar da preguiça dos homens. Estes, por seu turno, às vezes brigam entre si, acusando-se mutuamente de avareza, por não distribuírem generosamente os magros resultados das caçadas cotidianas. Quando a situação atinge o paroxismo, os grupos domésticos se separam em vários acampamentos de caça, cuja ocupação varia de dois ou três dias até um mês (somando-se todas as estadias de um grupo doméstico nos acampamentos durante o ano, têm-se uma média de quatro meses por grupo doméstico por ano). Aí invertem-se os papéis: enquanto os homens passam até doze horas caçando ininterruptamente, as mulheres se espreguiçam nas redes. E todos comem juntos, caçadores, esposas e filhos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em poucos dias nos acampamentos, os homens terão caçado muito mais do que seus grupos domésticos são capazes de consumir. Sendo assim, eles podem decidir voltar à aldeia de origem, para uma festa, que ameniza antigas rusgas ou provoca novas. Ou podem decidir trocar o excedente em caça por farinha de mandioca, ipadu (folha de coca macerada) ou beijus, fornecidos pelos índios ribeirinhos. Neste caso, alguns grupos domésticos podem decidir ficar algum tempo (de alguns dias a um mês) na aldeia ribeirinha, trabalhando nas roças e na feitura de novas casas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação entre os Maku do Uaupés e seus vizinhos ribeirinhos, de fala Tukano, é bastante hierarquizada: os primeiros são tidos como &amp;quot;escravos&amp;quot; dos últimos. Porém, isto é muito mais uma ideologia étnica do que uma prática social efetiva. Os Maku são livres para ir e vir, estabelecendo (ou rompendo) relações de &amp;quot;escravidão&amp;quot; com várias aldeias ribeirinhas ao mesmo tempo. Por outro lado, as roças Maku, em geral 80% menos produtivas que as roças ribeirinhas e incapazes de satisfazer a demanda dos próprios Maku, são poupadas. Na verdade, os Maku aceitam ser &amp;quot;escravos&amp;quot; devido às evidentes vantagens que isso lhes traz: eles têm acesso aos produtos cultivados sem terem de arcar com as conseqüências da sedentarização necessária a uma produtividade agrícola semelhante à dos Tukano (cerca de dez toneladas de tubérculos por grupo doméstico por ano, ao passo que a dos Maku não chega a três toneladas).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Organização política ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A mobilidade é muito importante para os Maku, dado que seu meio habitual de resolver conflitos é a dispersão no espaço. Não há líderes ou conselhos &amp;quot;tribais&amp;quot; que arbitrem os desentendimentos, aliás freqüentes, entre os habitantes de uma aldeia. O líder da aldeia não passa de um anfitrião e de um coordenador das caçadas coletivas. Trata-se em geral de um homem de meia idade, ainda forte para caçar e com muita experiência no assunto, em torno do qual se reúnem cinco ou seis grupos domésticos cujos cabeças são seus filhos ou seus genros. Ele não tem autoridade para julgar quem está certo e quem está errado numa briga. O líder que tenta fazê-lo não está livre de apanhar durante a briga ou de assistir à deserção irrevogável de expressiva parte de seus filhos ou genros. Assim, a dispersão espacial temporária é a única forma de evitar a fissão definitiva da aldeia por ocasião de algum conflito. Mas, dependendo da gravidade, a fissão pode ser inevitável: alguns grupos domésticos não voltam mais para a aldeia de origem, estabelecendo-se em aldeias vizinhas, onde têm parentes próximos, ou fundando nova aldeia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os grupos locais (aldeias) Maku mostram uma composição bilateral: moram juntos tanto os filhos quanto os genros do líder. O fundamento básico da amizade masculina é a relação entre cunhados, isto é, homens que trocaram irmãs. Porém, o termo &amp;quot;irmãs&amp;quot; deve ser entendido em sentido amplo. O vocabulário de parentesco é de tipo dravidiano: funda-se sobre a bipartição dos primos em proibidos para o casamento (primos paralelos, isto é, filhos de irmãos de mesmo sexo), e preferenciais para o casamento (primos cruzados, isto é, filhos de irmãos de sexos opostos). Entre os Maku, o vocabulário dravidiano está associado a um sistema de clãs patrilineares exogâmicos. Há consistência entre o vocabulário e a classificação dos clãs: assim como os primos são bipartidos em &amp;quot;irmãos&amp;quot; (os paralelos) e &amp;quot;cunhados&amp;quot; (os cruzados), os clãs são classificados em clãs &amp;quot;irmãos&amp;quot; e clãs &amp;quot;cunhados&amp;quot;, de modo que o universo dos parentes é bipartido, tanto do ponto de vista do vocabulário quanto do ponto de vista do sistema de clãs. Destarte, são amigos (co-residentes, companheiros de caçada) os homens que trocaram irmãs reais ou classificatórias entre si. Os grupos locais (aldeias) mais estáveis são os que mostram esta composição: um grupo composto de cunhados reunidos em torno de um homem de meia idade, sogro de alguns e pai de outros. Isto significa reunir no mesmo grupo local no mínimo dois clãs afins.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não há facções, grupos etários corporativos ou conselhos de anciãos entre os Maku. Eles classificam as pessoas conforme três faixas etárias principais (em língua Hupd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;): os ''dowd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;'' (verdes = crianças), os ''wudnd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;'' (maduros = adultos) e os ''w&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;h&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;dnd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;'' (secos = velhos). Os líderes de aldeia estão numa sub-classe intermediária entre os ''wudnd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;'' e os ''w&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;h&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;dnd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;''. Estes últimos, além de desempenharem quase que invariavelmente a função de xamãs, são também os nominadores. Para nominar uma criança, o velho empreende uma &amp;quot;viagem&amp;quot; (por meio de um alucinógeno do gênero ''banisteriopsis'') até o mundo dos ancestrais. Lá chegando, ele consulta os mesmos sobre o nome da criança. Cada clã possui um repertório de nomes, de modo que o nome próprio já dá a identidade clânica da pessoa, assim como seu status matrimonial (se &amp;quot;irmão&amp;quot; ou se &amp;quot;cunhado&amp;quot;) em relação aos demais.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Arte, cultura material e jogos ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em comparação com os vizinhos Tukano e Aruak, os Maku possuem uma cultura material rudimentar na origem: canoas, bancos rituais, potes de cerâmica, pintura corporal e flautas sagradas de iniciação masculina, entre outros, são itens copiados dos vizinhos. Os itens de origem Maku parecem ser o aturá (um cesto cargueiro bastante resistente) e a zarabatana. Esta, aliás, é instrumento de concorridos torneios de tiro ao alvo, principalmente entre os Nadöb. Outros jogos apreciados pelos Maku são a piorra assoviadora, feita de coquinho e haste de paxiúba, a caça ao pombo a pedradas e certas traquinagens com animais: um homem, espreguiçando-se na rede, mata tempo oferecendo um pedaço de beiju simultaneamente ao seu tucano de estimação e ao seu cão de caça, para ver a ave desferir dolorosas bicadas no focinho do rival; crianças se divertem amarrando tições flamejantes ao rabo de cachorros vadios, para vê-los em espavorida disparada, enquanto a aldeia inteira se dobra de rir. Acrescente-se a simples galhofa, inclusive comparações de pênis e vulvas, com abundantes metáforas desabonadoras, além dos comentários debochados, em coletiva voz de falsete, sobre antigos namoros alheios.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Cosmologia e mitologia ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O universo Maku tem a forma de um ovo em pé, com três andares ou &amp;quot;mundos&amp;quot;: (1) o &amp;quot;mundo das sombras&amp;quot;, subterrâneo de onde vêm todos os &amp;quot;monstros&amp;quot;, tais como os escorpiões, as onças, as cobras venenosas, os índios do rio e os brancos; (2) o &amp;quot;nosso mundo&amp;quot;, isto é, a floresta e (3) o &amp;quot;mundo da luz&amp;quot;, acima do céu, onde vivem os ancestrais e o criador - o Filho do Osso (possível alusão ao pênis, também chamado de osso). Luz e sombra são as duas substâncias básicas de que se compõem todos os seres, em proporções diversas. Luz é fonte de vida. Sombra é fonte de morte. No &amp;quot;nosso mundo&amp;quot;, as folhas e as frutas são os seres que mais concentram luz, ao passo que os carnívoros são os que mais concentram sombra. Por isso, é melhor não comer carnívoros, mas tão somente herbívoros. No mundo da luz, após a morte, as pessoas se alimentam de deliciosos sucos de frutas e se tornam eternos adolescentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O principal ciclo mitológico dos Maku relata a epopéia do Filho do Osso - ''Idn Kamni ''em Bara, ''Kegn Teh'' em Hupda, ''K&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt; Teh'' em Yuhupde. Trata-se do sobrevivente de um incêndio que pôs fim à criação anterior, cujas tentativas de recriar o mundo resultam numa série de trapalhadas: por causa delas, existem as brigas, as doenças e a morte. Após ter sua mulher raptada pelo irmão caçula, o Filho do Osso se retira definitivamente deste mundo, indo morar no mundo da luz, acima do céu e dos trovões, que às vezes emite em expressão de desagravo. Coincidência ou não, na vida real os irmãos costumam brigar entre si, em disputa pelas mesmas mulheres, suas afins, conforme o sistema de clãs.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Ritual e xamanismo ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Aldeia do Pidu Bu. Fazendo fogo com pedras lascadas. Foto: Jorge Pozzobon, 1997&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/281931-1/maku_5.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Afora a nominação, dois outros rituais Maku utilizam alucinógenos do gênero banisteriopsis. Um deles é o ritual do jurupari, de origem ribeirinha, em que os meninos são iniciados na idade adulta. Neste rito, que consiste em representar teatralmente a chegada da anaconda ancestral aos trechos de rio atualmente ocupados pelos Tukano, os homens tocam as flautas sagradas, que não podem ser vistas pelas mulheres. O outro rito é a dança e o cântico do kaapi wayá, também de origem ribeirinha, em que o caminho serpenteante da anaconda é encenado, porém sem as flautas sagradas. Além destes, há o dabocuri, igualmente vindo dos índios do rio. É uma festa profana, divertida e alcoolizada. Entre os Maku, muitas vezes termina em verdadeiras batalhas campais, com safanões, pauladas e gritarias madrugadoras, cuja conseqüência, além de uma porção de hematomas, costuma ser a dispersão dos co-residentes em vários acampamentos de caça ou uma estratégica mudança de aldeia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em relação ao xamanismo, de modo geral, pode-se dizer que todos os velhos Maku são xamãs. Estes, porém, são de dois tipos:(''bidid&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;'') e os homens-onça (''nyaam hupd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;''). Os primeiros curam através de reza. Os últimos, através da extração do mal por meio de sucção. Freqüentemente, o mesmo indivíduo desempenha ambas as funções. Em qualquer dos casos, não inspira muito temor entre seus pares, sendo, antes, um dos alvos prediletos dos deboches. Mas por vezes pode ser acusado de malefícios e doenças, ocasião em que as pessoas que se julgam atingidas mudam de aldeia ou &amp;quot;ficam no mato até a raiva passar&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nota sobre as fontes ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O etnólogo Peter Silverwood-Cope foi quem inaugurou a pesquisa de campo intensiva sobre os Maku, mais especificamente sobre os Bara, permanecendo entre eles de 1968 a 1970. Sua tese de doutorado, recentemente publicada em português (Silverwood-Cope, 1990) aborda aspectos diversos da cultura Maku, tais como sua base ecológico-econômica, a organização sociopolítica, bem como as concepções mitológicas e cosmológicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na década seguinte, Howard Reid (1979) enfocou a mobilidade, o ciclo de desenvolvimento do indivíduo e a mudança cultural entre os Hupda - sem no entanto descuidar dos aspectos etnográficos mais tradicionais, como a etnografia da caça e coleta, a estrutura de parentesco, os rituais e a mitologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir dos anos 1980, Pozzobon (1984, 1992) se dedicou ao estudo da organização social dos Maku, estabelecendo um modelo socioestrutural generalizável para os Bara, Hupda e Yuhupde, baseado nas relações entre a identidade étnica, a endogamia regional/dialetal e a demografia das unidades sociais significativas. Deve-se mencionar ainda os estudos de Athias (1995, 1998) sobre os Hupda sedentarizados em povoados-missão, enfocando diversos aspectos da ecologia, economia, organização social e cosmologia, sobretudo concepções ligadas à saúde e à doença.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sobre os Nukak, veja-se os trabalhos de Franky Calvo, Cabrera Becerra e Mahecha (1995, 1999), bem como o de Politis (1996), dedicados a aspectos lingüísticos, à mobilidade espacial e à etnografia geral deste povo. Finalmente, sobre os Nadöb há os trabalhos de Schultz (1959), Münzel (1969) e Pozzobon (1998), que, embora não resultem de etnografias intensivas, fornecem informações importantes sobre essa fração pouco conhecida do povo Maku.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;ASSIS, Elias C. Patrões e fregueses no Alto Rio Negro : as relações de dominação no discurso do povo Daw. São Gabriel da Cachoeira : Universidade do Amazonas, 2001. (Monografia)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;ASSIS, Lenita de Paula Souza. Do caxiri a cachaça : mudanças nos hábitos de beber do povo Daw no Alto Rio Negro. São Gabriel da Cachoeira : UFAM, 2001. 86 p. (Monografia)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;ATHIAS, Renato. Doenças e cura : sistema médico e representação entre os Hupde-Maku da região do Rio Negro, Amazonas. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre : UFRGS, v. 4, n. 9, 1998.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
--------. Hupdë-Maku et Tukano : relations inégales entre deux sociétés du Uaupés, amazonien (Brésil). Paris : Univ. de Paris X, 1995. (Tese de Doutorado)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Doença e cura : sistema médico e representação entre os Hupdë-Maku da região do Rio Negro, Amazonas. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre : UFRGS, v. 4, n. 9, 1998.&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;BAMONTE, Gerardo. I Macu dell'alto Rio Negro : delimitazione delle aree di distribuzione e breve inchiesta etnografica su alcuni insediamenti del Tiquie. Roma : Univ. Degli Studi di Roma, 1973. 318 p. (Tese de Doutorado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;CABRERA BECERRA, Gabriel. Gentes con cerbatana, canasto y sin canoa. Nomadas, s.l. : s.ed., n. 10, p. 144-55, 1999.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;CABRERA BECERRA, Gabriel; FRANKY CALVO, Carlos Eduardo; MAHECHA RUBIO, Dany. Algunos aspectos fonetico-fonologicos del idioma Nukak. In: GONZALES DI PEREZ, Mário S. (Ed.). Lenguas indígenas de Colombia. Bogotá : Instituto Caro y Cuervo, 2000. p. 547-60.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
--------. Aportes a la etnografia de los Nukak y su lengua : aspectos sobre fonologia segmental. Santafé de Bogotá : Univ. Nacional de Colombia, 1994. 584 p. (Trabajo de Grado en Antropologia)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Demografia y movilidad socio-espacial de los Nukak. Bogotá : Fundación Gaia, 1995. 63 p.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Los nukak : nómadas de la amazonía colombiana. Bogotá : Universidad Nacional de Colombia, 1999. 405 p.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Los Nukak, demografia, contato y enfermedad. In: GOMES, A. J. et al (Eds.). Amazonía Colombiana : enfermedades y endemias. Bogotá : Ministério de Cultura, 2000. p. 319-60.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Nukak, Kakua, Juhup y Hupdu (Maku) : cazadores nomades de la Amazonía Colombiana. In: CORREA RUBIO, François (Ed.). Geografia humana de Colombia : Amazonía-caqueta. Tomo VII, v. II. Bogotá : Univ. Nacional de Colombia, 2000. p. 130-211.&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;FARIA, Ivani Ferreira de. Território e territorialidades indígenas do Alto Rio Negro. Manaus : EdUA, 2003. 168 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;LUZ, Pedro Fernandes Leite da. Estudo comparativo dos complexos ritual e simbólico associados a Banisteriopsis Caapi e espécies congêneres em tribo da língua pano, arawak, tucano e maku. Rio de Janeiro : Museu Nacional/UFRJ, 1996. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MACIEL, Iraguacema. Alguns aspectos fonológicos e morfológicos da língua maku. Brasília : UnB, 1991. 76 p. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MARQUEZ, Juan Carlos Pena. A escola no tempo e no território Hupdah : mudanças no Nordeste Amazônico. Manaus : UFAM, 2003. 125 p. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MARTINS, Silvana de Andrade. Análise da morfossintaxe da língua daw (maku-kama) e sua classificação tipológica. Florianópolis : UFSC, 1994. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MARTINS, Valteir. Análise prosódica da língua daw (maku-kama) numa perspectiva não linear. Florianópolis : UFSC, 1994. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MEIRA, Márcio. Laudo antropológico Área Indígena Baixo Rio Negro. Belém : MPEG, 1991. 183 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MUÑOZ R., Maria I.; ZAMBRANO, Carlos V. Los Nukak : encuentro etnográfico en las selvas. In: BARTOLOME, Miguel A. (Coord.). Ya no hay lugar para cazadores : processo de extincción y transfiguración étnica en America Latina. Quito : Abya-Ayala, 1995. p. 145-72 p. (Biblioteca Abya-Yala, 23)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MÜNZEL, Mark. Notas preliminares sobre os Kaborí (Makú entre o Rio Negro e o Japurá). Rev. de Antropologia, São Paulo : USP, v. 17/20, p. 137-81, 1969-1972.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;OLIVEIRA, Ana Gita de. Índios e brancos no Alto Rio Negro : um estudo da situação de contato dos Tariana. Brasília : UNB, 1981. 162 p. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
--------. O mundo transformado : um estudo da &amp;quot;cultura de fronteira&amp;quot; no Alto Rio Negro. Brasília : UnB-ICH, 1992. 286 p. (Tese de Doutorado)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------; MEIRA, Márcio; POZZOBON, Jorge. Relatório antropológico, Áreas Indígenas Médio Rio Negro, Rio Téa e Rio Apapóris. Brasília : Funai, 1994. 192 p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;POLITIS, Gustavo G. Nukak. Bogotá : Instituto Amazónico de Investigaciones Científicas, 1996. 426 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;POZZOBON, Jorge. Identidade e endogamia : observações sobre a organização social dos índios Maku. Porto Alegre : UFRGS, 1984.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
--------. Isolamento e endogamia : observações sobre a organização social dos índios Maku. Porto Alegre : UFRS, 1983. 387 p. (Dissertação de Mestrado)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Langue, société et numération chez les Indiens Maku (haut Rio Negro, Brésil). Journal de la Société des Américanistes, Paris : Société des Américanistes, n. 83, p. 159-72, 1997.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Os Maku : esquecidos e discriminados. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1987/88/89/90. São Paulo : Cedi, 1991. p. 141-2. (Aconteceu Especial, 18)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Parente et demographie chez les indiens Maku. Paris : Univ. Paris VII, 1991. 257 p. (Tese de Doutorado)&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;POZZOBON, Jorge. O sistema numérico dos índios Maku. In: FERREIRA, Mariana Kawall Leal (Org.). Idéias matemáticas de povos culturalmente distintos. São Paulo : Global ; Mari/USP, 2002. p. 166-84. (Antropologia e Educação)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
--------. Vocês, brancos, não têm alma : histórias de fronteiras. Belém : UFPA ; MPEG, 2002. 140 p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;RAMOS, Alcida Rita. Patrões e clientes : relações intertribais no Alto Rio Negro. In: --------. Hierarquia e simbiose : relações intertribais no Brasil. São Paulo : Hucitec, 1980. p. 135-82.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;REID, Howard. Some aspects of movement, growth and change among the Hupdu Maku indians of Brazil. Cambridge : Univ. of Cambridge, 1979. 405 p. (Tese de Doutorado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;SALAMAND-KUAN, Catherine. Representations de la hierarchie dans le nord-ouest amazonien : le cas des indiens Maku. Paris : École des Hautes Études en Sciences Sociales, 1992. 82 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;SANTOS, Antônio Maria de Souza. Etnia e urbanização no Alto Rio Negro : São Gabriel da Cachoeira-AM. Porto Alegre : UFRS, 1983. 154 p. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;SCHULTZ, Harald. Ligeiras notas sobre os Makú do Paraná Boá-Boá. Rev. do Museu Paulista, São Paulo : Museu Paulista, v. 11, n.s., p. 109-32, 1959.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;SILVERWOOD-COPE, Peter L. Os Makú : povo caçador do Noroeste da Amazônia. Brasília : UnB, 1990. 206 p. (Coleção Pensamento Antropológico). Apresentado originalmente como Tese de Doutorado. 1973, Cambridge University.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;TORRES C., William. Nukak : aspectos etnográficos. Rev. Colombiana de Antropologia, Bogotá : Inst. Colombiano de Antropologia, n. 31, p. 195-36, 1994.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;WEIR, Evelyn Maria Helen. A negação e outros tópicos de gramática Nadeb. Campinas : Unicamp, 1984. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
--------. Nadëb. In: KAHREL, Peter; BERG, Rene van den (Eds.). Typological studies in negation. Amsterdan : John Benjamins, 1994. p. 291-323. (Typological Studies in Language, 29)&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;ZAMBRANO, Carlos Vladimir. El contacto con los nukak del Guaviare. Rev. Colombiana de Antropologia, Bogotá : Inst. Colombiano de Cultura, n. 31, p. 177-94, 1994.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
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{{DISPLAYTITLE:Hupd'äh}}&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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{{#set:Data verbete=1999-01-01}}&lt;br /&gt;
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[[Categoria:Povos indígenas no Amazonas]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos transfronteiriços: Brasil-Colômbia]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Hupd%27%C3%A4h&amp;diff=8472</id>
		<title>Povo:Hupd'äh</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Hupd%27%C3%A4h&amp;diff=8472"/>
		<updated>2025-09-01T18:18:12Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Já se tornou moeda corrente entre os regionais e na literatura etnográfica sobre o Noroeste Amazônico a distinção entre os chamados &amp;quot;índios do rio&amp;quot;, de fala Tukano e Arawak, e os &amp;quot;índios do mato&amp;quot;, de fala [[Povo:Maku#Língua|Maku]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Enquanto os primeiros são agricultores que fixam suas aldeias nas margens dos rios navegáveis, os Maku vagam nos divisores de água, estabelecendo-se temporariamente onde encontram condições ecológicas favoráveis à caça e adequadas ao modo como eles costumam resolver seus conflitos internos: &amp;quot;quando a gente se desentende, a gente se espalha no mato e fica lá até a raiva passar.&amp;quot;&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
=== Outras leituras ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para saber mai acesse o verbete especial sobre a região [[Povo:Etnias do Rio Negro | Etnias do Rio Negro]]&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nome ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não há uma autodenominação adotada pelo conjunto dos Maku. Na verdade, eles se dividem em seis grupos distintos, cada qual com seu próprio território, língua e autodenominação:&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;table-responsive&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;table class=&amp;quot;table table-hover&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Autodenominação'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Outros nomes'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Localização''' [leia-se &amp;quot;entre os rios...&amp;quot;]&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Nukak&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Maku&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Guaviare e Inírida, na Colômbia&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Bara''', Kakwa&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Maku, Pohsá, Boroa, Wirapoyá&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Uaupés e Papuri, na Colômbia&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;[[Povo:Hupda|Hupda]]&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Maku, Pohsá, Peoná, Wirapoyá&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Papuri e Tiquiê, no Brasil e Colômbia&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;[[Povo:Yuhupdeh|Yuhupdeh]]&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Maku, Pohsá, Peoná, Wirapoyá&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Tiquiê e Traíra, no Brasil e Colômbia&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;[[Povo:Däw|Däw]]&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Maku, Kamã&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Curicuriari e Negro, no Brasil&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''[[Povo:Nadöb|Nadöb]]''', Kabori&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Maku, Guariba Tapuya, Xiruai&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Negro e Japurá, no Brasil&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/table&amp;gt;&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;h5&amp;gt; &amp;lt;span class=&amp;quot;creditos_fotos&amp;quot;&amp;gt;'''N.B'''.: Dentre as autodenominações alternativas, preferimos as que estão em negrito. &amp;lt;/span&amp;gt;&amp;lt;/h5&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com exceção dos Bara, que usam mais o termo ''bara ''(&amp;quot;irara&amp;quot;) do que o termo ''kakwa ''(&amp;quot;gente&amp;quot;) como autodenominação, e também dos Kabori, um subgrupo Nadub que se autodenomina ''kabori'' (&amp;quot;meninos&amp;quot;), todos os outros Maku usam o termo &amp;quot;gente&amp;quot; nas respectivas línguas como autodenominação. O termo ''maku'', de origem Arawak, significa ora &amp;quot;servo&amp;quot;, ora &amp;quot;selvagem&amp;quot;, sendo rejeitado pelo conjunto dos Maku em conseqüência da óbvia conotação pejorativa. Mantemos aqui o termo maku porque se consagrou na literatura etnográfica e porque não há outro que designe o conjunto desses índios. Quanto aos outros nomes, boroa e pohsá significam &amp;quot;servos&amp;quot; nas línguas Dahséa e Cubeo, respectivamente, ambas da família Tukano.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Foto: Marcos Santilli/Editora Abril, 1976&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/281921-1/maku_1.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O termo peoná, também de origem Tukano, significa &amp;quot;donos dos caminhos&amp;quot;, alusão ao fato de que os Maku não viajam de canoa, como todos os outros índios da região, mas a pé, pelos caminhos. O termo ''wirapoyá'', empregado pelos [[Povo:Desana|Desana]] (sub-grupo Tukano) para designar os Maku de sua vizinhança, significa &amp;quot;Desana estragado&amp;quot;. Ignoramos a origem do termo ''kamã'', cuja conotação também é pejorativa. O termo ''guariba ''é aplicado pelos regionais aos Nadub, em alusão à crença de que eles teriam parentesco com o macaco homônimo. O termo ''xiruai'', &amp;quot;cunhado&amp;quot; em nheengatu, é a forma amistosa pela qual os mesmos regionais se referem aos Nadub. Devido à influência do movimento indígena na região do rio Negro a partir de meados dos anos 1980, os nomes pejorativos (''boroa'', ''pohsá'', ''wirapoyá'', ''kamã, guariba'' e mesmo ''maku'') estão caindo em desuso, mas até agora não surgiu um nome genérico e neutro.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Língua ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As seis línguas Maku são aparentadas entre si, formando o que se pode chamar de família lingüística Maku. Até onde se sabe, essa família nada tem a ver com as famílias Tukano ou Aruak, se excetuarmos alguns evidentes e poucos empréstimos.&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Rio Japurá. Foto: Michel Pellanders, 1987&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/281924-1/maku_2.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Praticamente todos os Maku são falantes de suas línguas. Devido à proximidade dos Tukano, os Maku da área do Uaupés (Bara, Hupda e Yuhupde) falam línguas Tukano, dando curso ao multi-lingüismo característico da região. Por outro lado, os Tukano têm sido uma espécie de barreira aculturativa para os Maku do Uaupés, pois atuam como intermediários no contato com os brancos, de modo que apenas cerca de 20% desses Maku sabem se expressar em português ou espanhol. Os Nukak, de contato muito recente (1988), pouco falam o espanhol ou qualquer outra língua que não a deles. Quanto aos Dow e Nadöb, de contato antigo (século XVIII) e sem a &amp;quot;barreira Tukano&amp;quot; na vizinhança, a grande maioria se expressa bem em português e nheengatu (língua geral ou tupi amazônico, falado majoritariamente pela população ribeirinha do médio e baixo Rio Negro, descendente dos [[Povo:Baré|Baré]], que vem se proclamando índia à medida em que avança na região o movimento indígena).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As línguas Maku têm sido estudadas em graus diversos. Bara (Kakwa), Hupda, Yuhupde e Nadöb mereceram estudos preliminares efetuados por missionários do SIL, assim como o Dow, por parte dos missionários da ALEM. No entanto, nenhum desses estudos resultou em instrumentos eficazes para o desenvolvimento da educação bilíngüe, uma demanda cada vez mais colocada pelos Maku, em justa reação à hegemonia da língua Dahséa (Tukano) nas escolas locais, mantidas pelo município e coordenadas pelos missionários católicos salesianos.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Localização ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Maku se distribuem numa área limitada a noroeste pelo rio Guaviare (um dos afluentes colombianos do Orinoco), ao norte pelo rio Negro, ao sul pelo rio Japurá e a sudeste pelo rio Uneiuxi (um dos afluentes brasileiros do Negro). Este losango soma um total aproximativo de 20 milhões de hectares. Evidentemente, nem todo ele é ocupado pelos índios. A alta dispersão espacial dos seis grupos lingüísticos Maku dentro desse vasto perímetro se deve à dominância de enormes áreas de caatinga ou campinarana, um tipo de floresta não ribeirinha, de solo extremamente pobre, pouca variabilidade vegetal e baixa concentração de animais de caça. Os Maku ocupam justamente as &amp;quot;manchas&amp;quot; de floresta de terra firme, onde a caça é mais abundante e a vegetação mais rica em espécies utilizáveis na alimentação ou na confecção de artefatos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A ocupação humana da área em tempos pré-colombianos se deu provavelmente em duas vagas: primeiro, os Maku se estabeleceram nas zonas interfluviais, nas &amp;quot;manchas&amp;quot; de terra firme; a seguir vieram os Arawak e os Tukano, estabelecendo-se nas barrancas altas dos rios, em meio ao igapó (terreno ribeirinho baixo, periodicamente inundável durante as cheias, de abril a setembro). O contato já bastante antigo entre esses povos de origem e línguas diversas, cada qual ocupando faixas ecologicamente distintas, resultou num complexo sistema de trocas comerciais e simbólicas, de que trataremos adiante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No lado brasileiro, recentemente foram homologadas cinco terras indígenas: Alto Rio Negro, Médio Rio Negro I, Médio Rio Negro II, Rio Téa e Rio Apapóris, somando um total 10,6 milhões de hectares de terras contínuas e contíguas. Os grupos Maku brasileiros, isto é, os Hupda, Yuhupde, Dow e Nadöb, distribuem-se nos terrenos interfluviais de todas essas áreas, com exceção do Médio Rio Negro II. As descrições que se seguem dizem respeito sobretudo aos Maku do Uaupés (Bara, Hupda e Yuhupde) e se baseiam nas etnografias de Silverwood-Cope (1990), Reid (1979) e Pozzobon (1984, 1992). Sobre os Maku do Uneiuxi e do Paraná Boá-Boá, veja-se Schultz (1959), Münzel (1969) e Pozzobon (1998).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Demografia ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os cerca de três mil Maku se distribuem num vasto território binacional, de modo que é bastante difícil estimar os parâmetros demográficos da população como um todo. Devido ao caráter interfluvial de seu habitat, pouco acessível às frentes pioneiras, aos missionários ou aos pesquisadores, as estimativas anteriores, que variam de 2 a 2,5 mil, são muito precárias e pouco confiáveis, de modo que não servem para se estimar a dinâmica populacional. Os estudos ainda em curso das variáveis demográficas em um determinado grupo Maku, os Hupdu, permitem afirmar provisoriamente que se trata de uma população estável, que não tem aumentado nem diminuído significativamente nos últimos decênios (Pozzobon, 1998). Por outro lado, eventuais trocas matrimoniais com grupos circunvizinhos são numericamente inexpressivas, devido ao baixo status dos Maku no sistema intertribal da região.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;table-responsive&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;table class=&amp;quot;table table-hover&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Autodenominação'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''População'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Ano'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Fonte'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Nukak&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;378&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;1995&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Franky et al. (1995)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Bara, Kakwa&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;300&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;1969&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Silverwood-Cope (1990)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Hupda&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;1500&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;1997&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Pozzobon (1997b)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Yuhupde&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;370&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;1997&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Pozzobon (1997c)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Dow&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;78&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;1994&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Oliveira, Meira and Pozzobon (1994)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;Nadöb, Kabori&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;cerca de 600&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;1995&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;ISA (1996)&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''Total'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt;'''cerca de 3226'''&amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt; &amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;td&amp;gt; &amp;lt;/td&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/tr&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/table&amp;gt;&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Histórico do contato ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pobreza da campinarana dominante, somada ao caráter encachoeirado dos rios, foi um dos obstáculos à expansão das frentes pioneiras portuguesas e espanholas, que disputavam a região já no século XVII, estabelecendo destacamentos militares em alguns pontos do rio Negro, de onde os nativos apresados eram &amp;quot;descidos&amp;quot; para os centros urbanos emergentes (Barcelos, Manaus e Belém).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir do século XVIII, intensificam-se os &amp;quot;descimentos&amp;quot;, de modo que mesmo os Maku, em seus recônditos territórios interfluviais, tiveram alguns de seus efetivos apresados como escravos. Mas a análise dos documentos coloniais permite afirmar que dentre os indígenas da região eles foram os menos atingidos pelos &amp;quot;descimentos&amp;quot; ou pelas violências decorrentes do ciclo da borracha, ao final do século seguinte. O ciclo da borracha, aliás, foi possivelmente um dos motivos da adoção de práticas agrícolas pelos Maku: refugiando-se nos terrenos interfluviais para escapar ao apresamento praticado pelos seringueiros, os Tukano passaram a conviver mais intensamente com os Maku, ensinando-lhes a agricultura da mandioca, bem como uma série de itens da cultura material e espiritual de que trataremos adiante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1914, em pleno período de estagnação econômica decorrente da débacle da borracha, entram em cena os missionários salesianos, uma ordem católica voltada para a educação. Eles obtiveram a adesão de todos os índios ribeirinhos do lado brasileiro, porém encontraram muita resistência por parte dos Maku, que se recusavam a enviar suas crianças aos internatos nos centros missionários. Nos anos 1970, os salesianos tentaram algumas experiências de povoados-missão exclusivamente Maku (ver adiante). O garimpo aurífero - que se desenvolveu na região entre meados da década de 1980 e o início dos anos 1990, época em que o movimento indígena conseguiu expulsar os invasores com o apoio do Ministério Público e a força da Polícia Federal - pouco afetou os Maku, pois era praticado no mais das vezes em terreno ribeirinho. O único garimpo de terra firme, no extremo sul da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/4068 TI Alto Rio Negro], foi abandonado já em 1986 pela empresa mineradora Paranapanema, em função da baixa produtividade; com a intensificação do movimento indígena no início dos anos 1990, o ouro passou a ser explorado exclusivamente pelos índios.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Organização social ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Aldeia Pidu Bu (Cabaris, no Rio Tiquié). Foto: Jorge Pozzobon, 1997&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/281927-1/maku_3.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As aldeias Maku tradicionais variam entre 25 e 30 habitantes - cerca de seis grupos domésticos. O grupo doméstico Maku se compõe de marido, esposa ou esposas, filhos solteiros e eventuais agregados, que podem ser parentes próximos, viúvos ou solteiros, do marido ou da esposa ou esposas. Em geral, cada grupo doméstico possui sua própria fogueira, em torno da qual seus membros se reúnem para dormir e comer. Quanto às casas, resumem-se a tapiris sem paredes, podendo abrigar de um a quatro grupos domésticos (fogueiras), ligados por laços próximos de parentesco, que podem ser tanto patri quanto matrilaterais. Uma aldeia de 25 habitantes costuma ter cerca de três casas. Estas se situam numa clareira, no cimo de uma colina, perto de algum igarapé não navegável. As roças se distribuem em torno das casas ou em clareiras próximas (de 5 a 60 minutos de caminhada), que vêm a ser antigos locais de aldeia. Cada grupo doméstico possui em média duas roças de 50 x 50 m, sempre em clareiras comunais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um aglomerado de aldeias próximas, distando entre si de uma hora a um dia de caminhada, forma um grupo regional. Via de regra, os grupos regionais falam cada qual um dialeto distinto da mesma língua. Assim, cada grupo lingüístico Maku se divide no mínimo em dois grupos regionais/dialetais. Os Hupdu, por exemplo, possuem três grupos regionais (três dialetos), separados entre si por cursos de água navegáveis, cujas margens são ocupadas por &amp;quot;índios do rio&amp;quot;. Os membros adultos do mesmo grupo regional/dialetal se conhecem todos pelo nome, assim como pelas relações de parentesco que os unem. Já o conhecimento que possuem dos falantes de dialetos vizinhos, com quem não têm relações genealógicas demonstráveis, é bastante precário. Em outras palavras, o grupo regional/dialetal é um nexo fortemente endogâmico. A taxa média de casamentos endogâmicos - entre pessoas nascidas no mesmo grupo regional - é de 80%. O tamanho médio do grupo regional na área do Uaupés brasileiro é de 260 pessoas - cerca de 10 aldeias vizinhas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O território do grupo regional/dialetal resulta da justaposição de vários territórios contíguos de caça, cada qual em torno de uma aldeia. Com efeito, os homens de uma aldeia de 25 a 30 habitantes costumam caçar num raio de 7 a 10 km em torno da aldeia. A partir dela, irradia-se uma série de caminhos, alguns ligando aldeias Maku entre si, outros conduzindo a aldeias ribeirinhas, outros ainda levando aos acampamentos de caça. Cada aldeia possui em média 8 acampamentos de caça no raio de 7 a 10 km de seu entorno. Quando a aldeia ultrapassa a marca dos 30 ou 40 habitantes, ela se cinde em duas ou mais aldeias, pois numa aldeia grande, os caçadores são obrigados a se afastar mais que 10 km para encontrar caça suficiente. A longa permanência de uma aldeia num determinado lugar (cerca de cinco anos) é também motivo de mudança, para deslocar o raio de atuação dos caçadores, explorando, assim, novos territórios de caça.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Cotidiano de uma aldeia Maku ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Preparando ipadu. Foto: Jorge Pozzobon, 1997&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/281929-1/maku_4.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As mulheres se levantam quando começa a clarear o dia, tomam banho e preparam o dejejum comunal dos homens, que ocorre no mais das vezes na casa do líder da aldeia. Após a refeição, os homens partem solitários, aos pares ou em grupos maiores, dependendo dos rastros vistos no dia anterior (porcos do mato, por exemplo, são boas presas para caçadas coletivas). Depois deles partirem, as mulheres comem junto com as crianças e logo vão às roças, colher mandioca e replantar. Elas voltam perto do meio dia e preparam farinha, mingaus e beijus. Por volta das três da tarde, os homens retornam com suas presas e as entregam às esposas. Cada uma cozinha em sua própria fogueira, mas a refeição que se segue é comunal, na casa do líder, os homens comendo primeiro, sendo logo seguidos pelas mulheres e crianças. Depois disto, as três ou quatro refeições que se seguem até a hora de dormir (cerca das 21 horas) assumem um caráter cada vez mais doméstico e individual. No cotidiano, as atividades masculinas têm um ritmo frouxo, interrompido várias vezes por longos períodos de espreguiçamento nas redes, enquanto as mulheres trabalham duro nas roças, no preparo das refeições e na coleta de lenha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As mulheres, porém, não deixam de reclamar da preguiça dos homens. Estes, por seu turno, às vezes brigam entre si, acusando-se mutuamente de avareza, por não distribuírem generosamente os magros resultados das caçadas cotidianas. Quando a situação atinge o paroxismo, os grupos domésticos se separam em vários acampamentos de caça, cuja ocupação varia de dois ou três dias até um mês (somando-se todas as estadias de um grupo doméstico nos acampamentos durante o ano, têm-se uma média de quatro meses por grupo doméstico por ano). Aí invertem-se os papéis: enquanto os homens passam até doze horas caçando ininterruptamente, as mulheres se espreguiçam nas redes. E todos comem juntos, caçadores, esposas e filhos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em poucos dias nos acampamentos, os homens terão caçado muito mais do que seus grupos domésticos são capazes de consumir. Sendo assim, eles podem decidir voltar à aldeia de origem, para uma festa, que ameniza antigas rusgas ou provoca novas. Ou podem decidir trocar o excedente em caça por farinha de mandioca, ipadu (folha de coca macerada) ou beijus, fornecidos pelos índios ribeirinhos. Neste caso, alguns grupos domésticos podem decidir ficar algum tempo (de alguns dias a um mês) na aldeia ribeirinha, trabalhando nas roças e na feitura de novas casas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação entre os Maku do Uaupés e seus vizinhos ribeirinhos, de fala Tukano, é bastante hierarquizada: os primeiros são tidos como &amp;quot;escravos&amp;quot; dos últimos. Porém, isto é muito mais uma ideologia étnica do que uma prática social efetiva. Os Maku são livres para ir e vir, estabelecendo (ou rompendo) relações de &amp;quot;escravidão&amp;quot; com várias aldeias ribeirinhas ao mesmo tempo. Por outro lado, as roças Maku, em geral 80% menos produtivas que as roças ribeirinhas e incapazes de satisfazer a demanda dos próprios Maku, são poupadas. Na verdade, os Maku aceitam ser &amp;quot;escravos&amp;quot; devido às evidentes vantagens que isso lhes traz: eles têm acesso aos produtos cultivados sem terem de arcar com as conseqüências da sedentarização necessária a uma produtividade agrícola semelhante à dos Tukano (cerca de dez toneladas de tubérculos por grupo doméstico por ano, ao passo que a dos Maku não chega a três toneladas).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Organização política ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A mobilidade é muito importante para os Maku, dado que seu meio habitual de resolver conflitos é a dispersão no espaço. Não há líderes ou conselhos &amp;quot;tribais&amp;quot; que arbitrem os desentendimentos, aliás freqüentes, entre os habitantes de uma aldeia. O líder da aldeia não passa de um anfitrião e de um coordenador das caçadas coletivas. Trata-se em geral de um homem de meia idade, ainda forte para caçar e com muita experiência no assunto, em torno do qual se reúnem cinco ou seis grupos domésticos cujos cabeças são seus filhos ou seus genros. Ele não tem autoridade para julgar quem está certo e quem está errado numa briga. O líder que tenta fazê-lo não está livre de apanhar durante a briga ou de assistir à deserção irrevogável de expressiva parte de seus filhos ou genros. Assim, a dispersão espacial temporária é a única forma de evitar a fissão definitiva da aldeia por ocasião de algum conflito. Mas, dependendo da gravidade, a fissão pode ser inevitável: alguns grupos domésticos não voltam mais para a aldeia de origem, estabelecendo-se em aldeias vizinhas, onde têm parentes próximos, ou fundando nova aldeia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os grupos locais (aldeias) Maku mostram uma composição bilateral: moram juntos tanto os filhos quanto os genros do líder. O fundamento básico da amizade masculina é a relação entre cunhados, isto é, homens que trocaram irmãs. Porém, o termo &amp;quot;irmãs&amp;quot; deve ser entendido em sentido amplo. O vocabulário de parentesco é de tipo dravidiano: funda-se sobre a bipartição dos primos em proibidos para o casamento (primos paralelos, isto é, filhos de irmãos de mesmo sexo), e preferenciais para o casamento (primos cruzados, isto é, filhos de irmãos de sexos opostos). Entre os Maku, o vocabulário dravidiano está associado a um sistema de clãs patrilineares exogâmicos. Há consistência entre o vocabulário e a classificação dos clãs: assim como os primos são bipartidos em &amp;quot;irmãos&amp;quot; (os paralelos) e &amp;quot;cunhados&amp;quot; (os cruzados), os clãs são classificados em clãs &amp;quot;irmãos&amp;quot; e clãs &amp;quot;cunhados&amp;quot;, de modo que o universo dos parentes é bipartido, tanto do ponto de vista do vocabulário quanto do ponto de vista do sistema de clãs. Destarte, são amigos (co-residentes, companheiros de caçada) os homens que trocaram irmãs reais ou classificatórias entre si. Os grupos locais (aldeias) mais estáveis são os que mostram esta composição: um grupo composto de cunhados reunidos em torno de um homem de meia idade, sogro de alguns e pai de outros. Isto significa reunir no mesmo grupo local no mínimo dois clãs afins.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não há facções, grupos etários corporativos ou conselhos de anciãos entre os Maku. Eles classificam as pessoas conforme três faixas etárias principais (em língua Hupd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;): os ''dowd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;'' (verdes = crianças), os ''wudnd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;'' (maduros = adultos) e os ''w&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;h&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;dnd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;'' (secos = velhos). Os líderes de aldeia estão numa sub-classe intermediária entre os ''wudnd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;'' e os ''w&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;h&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;dnd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;''. Estes últimos, além de desempenharem quase que invariavelmente a função de xamãs, são também os nominadores. Para nominar uma criança, o velho empreende uma &amp;quot;viagem&amp;quot; (por meio de um alucinógeno do gênero ''banisteriopsis'') até o mundo dos ancestrais. Lá chegando, ele consulta os mesmos sobre o nome da criança. Cada clã possui um repertório de nomes, de modo que o nome próprio já dá a identidade clânica da pessoa, assim como seu status matrimonial (se &amp;quot;irmão&amp;quot; ou se &amp;quot;cunhado&amp;quot;) em relação aos demais.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Arte, cultura material e jogos ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em comparação com os vizinhos Tukano e Aruak, os Maku possuem uma cultura material rudimentar na origem: canoas, bancos rituais, potes de cerâmica, pintura corporal e flautas sagradas de iniciação masculina, entre outros, são itens copiados dos vizinhos. Os itens de origem Maku parecem ser o aturá (um cesto cargueiro bastante resistente) e a zarabatana. Esta, aliás, é instrumento de concorridos torneios de tiro ao alvo, principalmente entre os Nadöb. Outros jogos apreciados pelos Maku são a piorra assoviadora, feita de coquinho e haste de paxiúba, a caça ao pombo a pedradas e certas traquinagens com animais: um homem, espreguiçando-se na rede, mata tempo oferecendo um pedaço de beiju simultaneamente ao seu tucano de estimação e ao seu cão de caça, para ver a ave desferir dolorosas bicadas no focinho do rival; crianças se divertem amarrando tições flamejantes ao rabo de cachorros vadios, para vê-los em espavorida disparada, enquanto a aldeia inteira se dobra de rir. Acrescente-se a simples galhofa, inclusive comparações de pênis e vulvas, com abundantes metáforas desabonadoras, além dos comentários debochados, em coletiva voz de falsete, sobre antigos namoros alheios.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Cosmologia e mitologia ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O universo Maku tem a forma de um ovo em pé, com três andares ou &amp;quot;mundos&amp;quot;: (1) o &amp;quot;mundo das sombras&amp;quot;, subterrâneo de onde vêm todos os &amp;quot;monstros&amp;quot;, tais como os escorpiões, as onças, as cobras venenosas, os índios do rio e os brancos; (2) o &amp;quot;nosso mundo&amp;quot;, isto é, a floresta e (3) o &amp;quot;mundo da luz&amp;quot;, acima do céu, onde vivem os ancestrais e o criador - o Filho do Osso (possível alusão ao pênis, também chamado de osso). Luz e sombra são as duas substâncias básicas de que se compõem todos os seres, em proporções diversas. Luz é fonte de vida. Sombra é fonte de morte. No &amp;quot;nosso mundo&amp;quot;, as folhas e as frutas são os seres que mais concentram luz, ao passo que os carnívoros são os que mais concentram sombra. Por isso, é melhor não comer carnívoros, mas tão somente herbívoros. No mundo da luz, após a morte, as pessoas se alimentam de deliciosos sucos de frutas e se tornam eternos adolescentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O principal ciclo mitológico dos Maku relata a epopéia do Filho do Osso - ''Idn Kamni ''em Bara, ''Kegn Teh'' em Hupda, ''K&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt; Teh'' em Yuhupde. Trata-se do sobrevivente de um incêndio que pôs fim à criação anterior, cujas tentativas de recriar o mundo resultam numa série de trapalhadas: por causa delas, existem as brigas, as doenças e a morte. Após ter sua mulher raptada pelo irmão caçula, o Filho do Osso se retira definitivamente deste mundo, indo morar no mundo da luz, acima do céu e dos trovões, que às vezes emite em expressão de desagravo. Coincidência ou não, na vida real os irmãos costumam brigar entre si, em disputa pelas mesmas mulheres, suas afins, conforme o sistema de clãs.&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Ritual e xamanismo ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|Aldeia do Pidu Bu. Fazendo fogo com pedras lascadas. Foto: Jorge Pozzobon, 1997&lt;br /&gt;
|http://img.socioambiental.org/d/281931-1/maku_5.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Afora a nominação, dois outros rituais Maku utilizam alucinógenos do gênero banisteriopsis. Um deles é o ritual do jurupari, de origem ribeirinha, em que os meninos são iniciados na idade adulta. Neste rito, que consiste em representar teatralmente a chegada da anaconda ancestral aos trechos de rio atualmente ocupados pelos Tukano, os homens tocam as flautas sagradas, que não podem ser vistas pelas mulheres. O outro rito é a dança e o cântico do kaapi wayá, também de origem ribeirinha, em que o caminho serpenteante da anaconda é encenado, porém sem as flautas sagradas. Além destes, há o dabocuri, igualmente vindo dos índios do rio. É uma festa profana, divertida e alcoolizada. Entre os Maku, muitas vezes termina em verdadeiras batalhas campais, com safanões, pauladas e gritarias madrugadoras, cuja conseqüência, além de uma porção de hematomas, costuma ser a dispersão dos co-residentes em vários acampamentos de caça ou uma estratégica mudança de aldeia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em relação ao xamanismo, de modo geral, pode-se dizer que todos os velhos Maku são xamãs. Estes, porém, são de dois tipos:(''bidid&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;'') e os homens-onça (''nyaam hupd&amp;lt;strike&amp;gt;u&amp;lt;/strike&amp;gt;''). Os primeiros curam através de reza. Os últimos, através da extração do mal por meio de sucção. Freqüentemente, o mesmo indivíduo desempenha ambas as funções. Em qualquer dos casos, não inspira muito temor entre seus pares, sendo, antes, um dos alvos prediletos dos deboches. Mas por vezes pode ser acusado de malefícios e doenças, ocasião em que as pessoas que se julgam atingidas mudam de aldeia ou &amp;quot;ficam no mato até a raiva passar&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nota sobre as fontes ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O etnólogo Peter Silverwood-Cope foi quem inaugurou a pesquisa de campo intensiva sobre os Maku, mais especificamente sobre os Bara, permanecendo entre eles de 1968 a 1970. Sua tese de doutorado, recentemente publicada em português (Silverwood-Cope, 1990) aborda aspectos diversos da cultura Maku, tais como sua base ecológico-econômica, a organização sociopolítica, bem como as concepções mitológicas e cosmológicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na década seguinte, Howard Reid (1979) enfocou a mobilidade, o ciclo de desenvolvimento do indivíduo e a mudança cultural entre os Hupda - sem no entanto descuidar dos aspectos etnográficos mais tradicionais, como a etnografia da caça e coleta, a estrutura de parentesco, os rituais e a mitologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir dos anos 1980, Pozzobon (1984, 1992) se dedicou ao estudo da organização social dos Maku, estabelecendo um modelo socioestrutural generalizável para os Bara, Hupda e Yuhupde, baseado nas relações entre a identidade étnica, a endogamia regional/dialetal e a demografia das unidades sociais significativas. Deve-se mencionar ainda os estudos de Athias (1995, 1998) sobre os Hupda sedentarizados em povoados-missão, enfocando diversos aspectos da ecologia, economia, organização social e cosmologia, sobretudo concepções ligadas à saúde e à doença.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sobre os Nukak, veja-se os trabalhos de Franky Calvo, Cabrera Becerra e Mahecha (1995, 1999), bem como o de Politis (1996), dedicados a aspectos lingüísticos, à mobilidade espacial e à etnografia geral deste povo. Finalmente, sobre os Nadöb há os trabalhos de Schultz (1959), Münzel (1969) e Pozzobon (1998), que, embora não resultem de etnografias intensivas, fornecem informações importantes sobre essa fração pouco conhecida do povo Maku.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;ASSIS, Elias C. Patrões e fregueses no Alto Rio Negro : as relações de dominação no discurso do povo Daw. São Gabriel da Cachoeira : Universidade do Amazonas, 2001. (Monografia)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;ASSIS, Lenita de Paula Souza. Do caxiri a cachaça : mudanças nos hábitos de beber do povo Daw no Alto Rio Negro. São Gabriel da Cachoeira : UFAM, 2001. 86 p. (Monografia)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;ATHIAS, Renato. Doenças e cura : sistema médico e representação entre os Hupde-Maku da região do Rio Negro, Amazonas. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre : UFRGS, v. 4, n. 9, 1998.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
--------. Hupdë-Maku et Tukano : relations inégales entre deux sociétés du Uaupés, amazonien (Brésil). Paris : Univ. de Paris X, 1995. (Tese de Doutorado)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Doença e cura : sistema médico e representação entre os Hupdë-Maku da região do Rio Negro, Amazonas. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre : UFRGS, v. 4, n. 9, 1998.&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;BAMONTE, Gerardo. I Macu dell'alto Rio Negro : delimitazione delle aree di distribuzione e breve inchiesta etnografica su alcuni insediamenti del Tiquie. Roma : Univ. Degli Studi di Roma, 1973. 318 p. (Tese de Doutorado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;CABRERA BECERRA, Gabriel. Gentes con cerbatana, canasto y sin canoa. Nomadas, s.l. : s.ed., n. 10, p. 144-55, 1999.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;CABRERA BECERRA, Gabriel; FRANKY CALVO, Carlos Eduardo; MAHECHA RUBIO, Dany. Algunos aspectos fonetico-fonologicos del idioma Nukak. In: GONZALES DI PEREZ, Mário S. (Ed.). Lenguas indígenas de Colombia. Bogotá : Instituto Caro y Cuervo, 2000. p. 547-60.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
--------. Aportes a la etnografia de los Nukak y su lengua : aspectos sobre fonologia segmental. Santafé de Bogotá : Univ. Nacional de Colombia, 1994. 584 p. (Trabajo de Grado en Antropologia)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Demografia y movilidad socio-espacial de los Nukak. Bogotá : Fundación Gaia, 1995. 63 p.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Los nukak : nómadas de la amazonía colombiana. Bogotá : Universidad Nacional de Colombia, 1999. 405 p.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Los Nukak, demografia, contato y enfermedad. In: GOMES, A. J. et al (Eds.). Amazonía Colombiana : enfermedades y endemias. Bogotá : Ministério de Cultura, 2000. p. 319-60.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Nukak, Kakua, Juhup y Hupdu (Maku) : cazadores nomades de la Amazonía Colombiana. In: CORREA RUBIO, François (Ed.). Geografia humana de Colombia : Amazonía-caqueta. Tomo VII, v. II. Bogotá : Univ. Nacional de Colombia, 2000. p. 130-211.&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;FARIA, Ivani Ferreira de. Território e territorialidades indígenas do Alto Rio Negro. Manaus : EdUA, 2003. 168 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;LUZ, Pedro Fernandes Leite da. Estudo comparativo dos complexos ritual e simbólico associados a Banisteriopsis Caapi e espécies congêneres em tribo da língua pano, arawak, tucano e maku. Rio de Janeiro : Museu Nacional/UFRJ, 1996. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MACIEL, Iraguacema. Alguns aspectos fonológicos e morfológicos da língua maku. Brasília : UnB, 1991. 76 p. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MARQUEZ, Juan Carlos Pena. A escola no tempo e no território Hupdah : mudanças no Nordeste Amazônico. Manaus : UFAM, 2003. 125 p. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MARTINS, Silvana de Andrade. Análise da morfossintaxe da língua daw (maku-kama) e sua classificação tipológica. Florianópolis : UFSC, 1994. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MARTINS, Valteir. Análise prosódica da língua daw (maku-kama) numa perspectiva não linear. Florianópolis : UFSC, 1994. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MEIRA, Márcio. Laudo antropológico Área Indígena Baixo Rio Negro. Belém : MPEG, 1991. 183 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MUÑOZ R., Maria I.; ZAMBRANO, Carlos V. Los Nukak : encuentro etnográfico en las selvas. In: BARTOLOME, Miguel A. (Coord.). Ya no hay lugar para cazadores : processo de extincción y transfiguración étnica en America Latina. Quito : Abya-Ayala, 1995. p. 145-72 p. (Biblioteca Abya-Yala, 23)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MÜNZEL, Mark. Notas preliminares sobre os Kaborí (Makú entre o Rio Negro e o Japurá). Rev. de Antropologia, São Paulo : USP, v. 17/20, p. 137-81, 1969-1972.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;OLIVEIRA, Ana Gita de. Índios e brancos no Alto Rio Negro : um estudo da situação de contato dos Tariana. Brasília : UNB, 1981. 162 p. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
--------. O mundo transformado : um estudo da &amp;quot;cultura de fronteira&amp;quot; no Alto Rio Negro. Brasília : UnB-ICH, 1992. 286 p. (Tese de Doutorado)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------; MEIRA, Márcio; POZZOBON, Jorge. Relatório antropológico, Áreas Indígenas Médio Rio Negro, Rio Téa e Rio Apapóris. Brasília : Funai, 1994. 192 p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;POLITIS, Gustavo G. Nukak. Bogotá : Instituto Amazónico de Investigaciones Científicas, 1996. 426 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;POZZOBON, Jorge. Identidade e endogamia : observações sobre a organização social dos índios Maku. Porto Alegre : UFRGS, 1984.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
--------. Isolamento e endogamia : observações sobre a organização social dos índios Maku. Porto Alegre : UFRS, 1983. 387 p. (Dissertação de Mestrado)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Langue, société et numération chez les Indiens Maku (haut Rio Negro, Brésil). Journal de la Société des Américanistes, Paris : Société des Américanistes, n. 83, p. 159-72, 1997.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Os Maku : esquecidos e discriminados. In: RICARDO, Carlos Alberto (Ed.). Povos Indígenas no Brasil : 1987/88/89/90. São Paulo : Cedi, 1991. p. 141-2. (Aconteceu Especial, 18)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
--------. Parente et demographie chez les indiens Maku. Paris : Univ. Paris VII, 1991. 257 p. (Tese de Doutorado)&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;POZZOBON, Jorge. O sistema numérico dos índios Maku. In: FERREIRA, Mariana Kawall Leal (Org.). Idéias matemáticas de povos culturalmente distintos. São Paulo : Global ; Mari/USP, 2002. p. 166-84. (Antropologia e Educação)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
--------. Vocês, brancos, não têm alma : histórias de fronteiras. Belém : UFPA ; MPEG, 2002. 140 p.&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;RAMOS, Alcida Rita. Patrões e clientes : relações intertribais no Alto Rio Negro. In: --------. Hierarquia e simbiose : relações intertribais no Brasil. São Paulo : Hucitec, 1980. p. 135-82.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;REID, Howard. Some aspects of movement, growth and change among the Hupdu Maku indians of Brazil. Cambridge : Univ. of Cambridge, 1979. 405 p. (Tese de Doutorado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;SALAMAND-KUAN, Catherine. Representations de la hierarchie dans le nord-ouest amazonien : le cas des indiens Maku. Paris : École des Hautes Études en Sciences Sociales, 1992. 82 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;SANTOS, Antônio Maria de Souza. Etnia e urbanização no Alto Rio Negro : São Gabriel da Cachoeira-AM. Porto Alegre : UFRS, 1983. 154 p. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;SCHULTZ, Harald. Ligeiras notas sobre os Makú do Paraná Boá-Boá. Rev. do Museu Paulista, São Paulo : Museu Paulista, v. 11, n.s., p. 109-32, 1959.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;SILVERWOOD-COPE, Peter L. Os Makú : povo caçador do Noroeste da Amazônia. Brasília : UnB, 1990. 206 p. (Coleção Pensamento Antropológico). Apresentado originalmente como Tese de Doutorado. 1973, Cambridge University.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;TORRES C., William. Nukak : aspectos etnográficos. Rev. Colombiana de Antropologia, Bogotá : Inst. Colombiano de Antropologia, n. 31, p. 195-36, 1994.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;WEIR, Evelyn Maria Helen. A negação e outros tópicos de gramática Nadeb. Campinas : Unicamp, 1984. (Dissertação de Mestrado)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
--------. Nadëb. In: KAHREL, Peter; BERG, Rene van den (Eds.). Typological studies in negation. Amsterdan : John Benjamins, 1994. p. 291-323. (Typological Studies in Language, 29)&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;ZAMBRANO, Carlos Vladimir. El contacto con los nukak del Guaviare. Rev. Colombiana de Antropologia, Bogotá : Inst. Colombiano de Cultura, n. 31, p. 177-94, 1994.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)|Jorge Pozzobon (1955-2001)]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
Cuidado ao editar esta seção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Hupd'äh}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Jorge Pozzobon (1955-2001)}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
{{#set:Capa=54411068248d287f206d5f.jpg}}&lt;br /&gt;
{{#set:Counter=63281}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=1999-01-01}}&lt;br /&gt;
{{#set:Estilo=escuro}}&lt;br /&gt;
{{#set:Povo Id=89}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas no Amazonas]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos transfronteiriços: Brasil-Colômbia]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Situa%C3%A7%C3%A3o_jur%C3%ADdica_das_TIs_no_Brasil_hoje&amp;diff=8471</id>
		<title>Situação jurídica das TIs no Brasil hoje</title>
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		<updated>2025-08-27T18:37:32Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: /* Demarcações nos últimos governos */&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;=Situação jurídica das TIs no Brasil hoje=&lt;br /&gt;
Para um quadro completo da situação jurídica das TIs hoje, acesse o painel [https://terrasindigenas.org.br Terras Indígenas no Brasil] do ISA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==Demarcações nos últimos governos==&lt;br /&gt;
Abaixo, tabela com o reconhecimento de [[O que são Terras Indígenas? | Terras Indígenas]] (TI) no Brasil, nos governos dos presidentes Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Luis Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;htmltag tagname=&amp;quot;iframe&amp;quot; allowtransparency=&amp;quot;true&amp;quot; frameborder=&amp;quot;0&amp;quot; src=&amp;quot;https://metabase.socioambiental.org/public/question/02416f25-ce55-45c8-ba06-fafa2c9ac0e9&amp;quot; width=&amp;quot;100%&amp;quot; height=&amp;quot;610px&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;/htmltag&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
'''*''' Terras Indígenas de diferentes mandatos não devem ser somadas, várias delas foram declaradas ou homologadas mais de uma vez.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Categoria:Terras Indígenas]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
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		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Situa%C3%A7%C3%A3o_jur%C3%ADdica_das_TIs_no_Brasil_hoje&amp;diff=8470</id>
		<title>Situação jurídica das TIs no Brasil hoje</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Situa%C3%A7%C3%A3o_jur%C3%ADdica_das_TIs_no_Brasil_hoje&amp;diff=8470"/>
		<updated>2025-08-27T18:35:08Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: /* Demarcações nos últimos governos */&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;=Situação jurídica das TIs no Brasil hoje=&lt;br /&gt;
Para um quadro completo da situação jurídica das TIs hoje, acesse o painel [https://terrasindigenas.org.br Terras Indígenas no Brasil] do ISA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==Demarcações nos últimos governos==&lt;br /&gt;
Abaixo, tabela com o reconhecimento de [[O que são Terras Indígenas? | Terras Indígenas]] (TI) no Brasil, nos governos dos presidentes Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Luis Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;htmltag tagname=&amp;quot;iframe&amp;quot; allowtransparency=&amp;quot;true&amp;quot; frameborder=&amp;quot;0&amp;quot; src=&amp;quot;https://metabase.socioambiental.org/public/question/02416f25-ce55-45c8-ba06-fafa2c9ac0e9&amp;quot; width=&amp;quot;100%&amp;quot; height=&amp;quot;610px&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;/htmltag&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot; &lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
! colspan=&amp;quot;3&amp;quot; | Demarcações - Brasil&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| Presidente [período]&lt;br /&gt;
| Homologações*&lt;br /&gt;
| Declarações&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| Luiz Inácio Lula da Silva [jan 2023 - atual]&lt;br /&gt;
| 13&lt;br /&gt;
| 10&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| Jair Bolsonaro [jan 2019 - dez 2022]&lt;br /&gt;
| 0&lt;br /&gt;
| 0&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| Michel Temer [mai 2016 a dez 2018]&lt;br /&gt;
| 1&lt;br /&gt;
| 3&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| Dilma Rousseff [jan 2015 a mai 2016]&lt;br /&gt;
| 10&lt;br /&gt;
| 15&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| Dilma Rousseff [jan 2011 a dez 2014]&lt;br /&gt;
| 11&lt;br /&gt;
| 11&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| Luiz Inácio Lula da Silva [jan 2007 a dez 2010]&lt;br /&gt;
| 19&lt;br /&gt;
| 49&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| Luiz Inácio Lula da Silva [jan 2003 a dez 2006]&lt;br /&gt;
| 64&lt;br /&gt;
| 30&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| Fernando Henrique Cardoso [jan 1999 a dez 2002]&lt;br /&gt;
| 30&lt;br /&gt;
| 60&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| Fernando Henrique Cardoso [jan 1995 a dez 1998]&lt;br /&gt;
| 112&lt;br /&gt;
| 59&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| Itamar Franco [out 92 a dez 94]&lt;br /&gt;
| 19&lt;br /&gt;
| 39&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| Fernando Collor [mar 90 a set 92]&lt;br /&gt;
| 110&lt;br /&gt;
| 57&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
'''*''' Terras Indígenas de diferentes mandatos não devem ser somadas, várias delas foram declaradas ou homologadas mais de uma vez.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Categoria:Terras Indígenas]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Mulheres_ind%C3%ADgenas_em_movimento&amp;diff=8469</id>
		<title>Mulheres indígenas em movimento</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Mulheres_ind%C3%ADgenas_em_movimento&amp;diff=8469"/>
		<updated>2025-08-25T19:14:22Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: /* Mapa das Organizações das Mulheres Indígenas */&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;{{Título | Mulheres indígenas em movimento}}&lt;br /&gt;
A participação de mulheres nos movimentos indígenas é uma realidade há muito tempo, mas só nos últimos anos é que essa presença se fortaleceu e multiplicou. Com iniciativas nos mais diferentes âmbitos, as mulheres indígenas têm demonstrado sua força nos territórios, na política institucional, no associativismo, nas universidades e nas artes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As primeiras organizações criadas por indígenas datam do fim da década de 1980, muitas delas como resultado de assembleias indígenas e outros processos de mobilização de décadas anteriores. O monitoramento feito pelo ISA desde os anos 1990 sempre apontou a existência desses coletivos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A multiplicação das [[organizações indígenas]] e a presença cada vez maior de mulheres indígenas em posições de destaque vêm mudando a cara do movimento indígena, que inicialmente fora protagonizado por homens. Elas estão em organizações regionais, que contam com departamentos de mulheres, como na [https://apoinme.org/ Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme)]; em organizações locais, como a [https://associacaohahi.org.br/ Associação Hahi de Mulheres Krahô]; e ainda em instâncias da política institucional, no Legislativo, nos cargos de chefia da [https://pib.socioambiental.org/pt/Funda%C3%A7%C3%A3o_Nacional_dos_Povos_Ind%C3%ADgenas_(Funai) Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai)] e à frente do [https://www.gov.br/povosindigenas Ministério dos Povos Indígenas (MPI)]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesta página, editada em parceria com a [https://anmiga.org Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga)], você encontra um panorama destes movimentos de mulheres indígenas e das diferentes formas como elas vêm se organizando na atualidade, além de perfis de algumas de suas lideranças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==Mapa das Organizações das Mulheres Indígenas==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &amp;lt;strong&amp;gt;Mapa das Organizações das Mulheres Indígenas no Brasil&amp;lt;/strong&amp;gt; foi construído como uma forma de mostrar a potência do associativismo indígena, fornecendo a dimensão da organização das mulheres indígenas; contribuindo com a identificação de zonas de concentração e lacunas do associativismo dessas mulheres; e fortalecendo a rede com caminhos possíveis de ação e articulação política. A cada nova edição podemos verificar, em números, o que temos acompanhado a olhos vivos: &amp;lt;strong&amp;gt;o expressivo crescimento da luta das mulheres indígenas no País&amp;lt;/strong&amp;gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;htmltag tagname=&amp;quot;iframe&amp;quot; src=&amp;quot;https://mulheresindigenasnomapa.socioambiental.org&amp;quot; width=&amp;quot;100%&amp;quot; height=&amp;quot;394&amp;quot; allow=&amp;quot;autoplay&amp;quot;&amp;gt; Video Iframe &amp;lt;/htmltag&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;small&amp;gt;Mapa das Organizações das Mulheres Indígenas no Brasil 2024, Anmiga/ISA&amp;lt;/small&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Lançada em 2024, a edição mais recente é resultado da colaboração entre pesquisadoras da Anmiga e do ISA em todas suas etapas de produção. O levantamento das organizações foi feito a partir de uma estratégia metodológica casada. Valemo-nos das informações já reunidas no Sistema de Áreas Protegidas (SisArp), um dos bancos de dados do ISA, e, graças à inédita parceria com a Anmiga, pudemos realizar também um esforço de busca ativa: construímos e circulamos um formulário &amp;lt;em&amp;gt;online&amp;lt;/em&amp;gt;, que foi preenchido por mulheres indígenas de todo o País, em resposta à convocatória das comunicadoras da Articulação. Assim, foi possível registrar &amp;lt;strong&amp;gt;241&amp;lt;/strong&amp;gt; organizações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O passo seguinte da pesquisa colaborativa foi a triagem das organizações, permanecendo no levantamento apenas aquelas que atendessem a três critérios: &amp;lt;strong&amp;gt;ser formada por indígenas, exclusivamente por mulheres e estar em funcionamento&amp;lt;/strong&amp;gt;. Ainda foi realizada uma extensa checagem dos dados do SisArp, para confirmar se as organizações seguem ativas e atualizar os contatos de suas representantes. A consolidação dos dados contou ainda com uma ação de checagem no 20º ATL, que ocorreu entre os dias 22 e 26 de abril de 2024. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;htmltag tagname=&amp;quot;iframe&amp;quot; src=&amp;quot;https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/maps/2022-08/g1d00002.pdf&amp;quot; width=&amp;quot;100%&amp;quot; height=&amp;quot;394&amp;quot; allow=&amp;quot;autoplay&amp;quot;&amp;gt; Video Iframe &amp;lt;/htmltag&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;small&amp;gt;Mapa das Organizações das Mulheres Indígenas no Brasil 2020, ISA&amp;lt;/small&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 2019, esse movimento já se fazia notar. Em abril, mais de 500 mulheres conquistaram, pela primeira vez, uma plenária exclusiva no Acampamento Terra Livre (ATL). Em agosto do mesmo ano, elas colocaram na rua a [https://pib.socioambiental.org/pt/Narrativas_Ind%C3%ADgenas#Primeira_Marcha_das_Mulheres_Ind.C3.ADgenas_.282019.29 1ª Marcha das Mulheres Indígenas]. No ano seguinte, as mulheres bioma fundaram a Anmiga. Na esteira dessa mobilização, em 2020, o ISA lançou a primeira edição do mapa do associativismo das mulheres indígenas, que registrou a existência de &amp;lt;strong&amp;gt;92&amp;lt;/strong&amp;gt; organizações. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;htmltag tagname=&amp;quot;iframe&amp;quot; src=&amp;quot;https://e.infogram.com/696c1fd7-c275-4a02-ac7c-12fdd256543b?src=embed&amp;quot; width=&amp;quot;100%&amp;quot; height=&amp;quot;850&amp;quot; allow=&amp;quot;autoplay&amp;quot;&amp;gt; Video Iframe &amp;lt;/htmltag&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;gt;&lt;br /&gt;
Saiba mais sobre o processo de construção do primeiro mapa no artigo &lt;br /&gt;
[https://pib.socioambiental.org/pt/Onde_est%C3%A3o_as_organiza%C3%A7%C3%B5es_de_mulheres_ind%C3%ADgenas_no_Brasil Onde estão as organizações de mulheres indígenas no Brasil?], de Beatriz Moraes Murer e Silvia de Melo Futada.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==Como se movimentam as indígenas mulheres?==&lt;br /&gt;
As mulheres indígenas estão em movimento de diversas formas: são departamentos, núcleos, redes, uniões, conselhos, articulações, coletivos,  associações, organizações, grupos, institutos e movimentos de mulheres indígenas – entre outras nomenclaturas –, que expressam uma grande diversidade de formas de se organizar. Os levantamentos que realizamos nas duas edições do mapa não se restringiram a associações que contam com CNPJ, mas buscaram rastrear, com algumas limitações, diferentes expressões do &amp;lt;strong&amp;gt;associativismo das mulheres indígenas&amp;lt;/strong&amp;gt; no Brasil. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Parte das organizações reúnem mulheres por povo ([https://www.instagram.com/coletivodemulheresiny Coletivo de Mulheres Iny Mahadu]); por Terra Indígena ([https://www.instagram.com/mulheres_do_xingu Movimento Mulheres do Território Indígena do Xingu]); por estado (Comissão de Mulheres Indígenas de Pernambuco); por região (Mulheres Indígenas Alto Rio Guamá); por bioma (Guardiãs do Pantanal); por atividade econômica ([https://www.instagram.com/loja.tece Tecê – Iniciativa de Mulheres Indígenas Artesãs de Rondônia]), entre outras. Há também organizações pluriétnicas, que articulam mulheres de mais de um povo, como a [https://www.instagram.com/amicopbauru Associação das Mulheres Indígenas do Centro-Oeste Paulista (Amicop)] e  sediadas em espaços urbanos, como a Kaguateca – Coletivo de Mulheres Indígenas de Campo Grande.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa diversidade é tributária das especificidades do associativismo e  movimentos políticos de cada povo ou contexto indígena, das diferentes respostas dadas pelos movimentos de mulheres indígenas aos desafios que buscam enfrentar e dos variados motivos que as levam a se organizar. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
São também diversas as formas como as organizações de mulheres indígenas se relacionam com os contextos em que emergiram. Em alguns casos, os movimentos de mulheres se conformam em organizações próprias; em outros, em departamentos vinculados a organizações já existentes; ou, ainda, ganham nomes e modos de organização diferentes, como fóruns, núcleos, coletivos, redes etc.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A [https://www.instagram.com/guerreiras.indigenas.ro Associação das Guerreiras Indígenas de Rondônia (Agir)] é um dos exemplos de organização, oficializada em 2015, por mulheres dos povos [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Tupari Tupari], [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Surui_Paiter Surui Paiter], [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Cinta_larga Cinta Larga], [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Oro_Win Oro Win], [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Apurin%C3%A3 Apurinã], entre outros. Elas já se movimentavam no contexto do associativismo estadual e regional, participando por exemplo, do Departamento de Mulheres da [https://www.paiter-surui.com/metareila Associação Metareilá], do povo [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Surui_Paiter Surui Paiter].  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#slideshow: slide&lt;br /&gt;
| https://widgets.socioambiental.org/sites/widgets/files/linha_do_tempo1.png&lt;br /&gt;
| https://widgets.socioambiental.org/sites/widgets/files/linha_do_tempo2.png&lt;br /&gt;
| https://widgets.socioambiental.org/sites/widgets/files/linha_do_tempo3.png&lt;br /&gt;
| https://widgets.socioambiental.org/sites/widgets/files/linha_do_tempo4.png&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;small&amp;gt;Linha do tempo do associativismo de mulheres indígenas, Anmiga/ISA&amp;lt;/small&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para além de organizações próprias, outro caminho comum de se organizar são os departamentos, grupos, secretarias, coordenadorias de mulheres presentes em inúmeras organizações indígenas não compostas exclusivamente por elas. É o caso dos departamentos da [https://foirn.org.br Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn)], do [https://www.instagram.com/mupoiba Movimento Unido dos Povos e Organizações Indígenas da Bahia (Mupoiba)] e da [https://www.menirexikrin.com.br/ Menire Xikrin do Bacajá], parte da [https://www.instagram.com/abexbacaja Associação Bebô Xikrin do Bacajá]. Esses casos não se resumem à atuação dessas organizações mistas junto às mulheres, mas são resultado dos movimentos singulares delas naquele contexto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Existem ainda outras formas de vinculação de movimentos de mulheres a organizações indígenas, como o Fórum das Kunhangue Ruvixa da [https://www.yvyrupa.org.br Comissão Guarani Yvyrupa (CGY)], que congrega coletivos de mulheres [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Guarani_Mbya guarani mbya] e [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Guarani_%C3%91andeva guarani ñandeva] e foi oficializado como parte da estrutura de governança da CGY em 2022, após uma série de encontros de mulheres guarani, em diferentes aldeias e regiões. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Movimentos como esses, de encontros de mulheres indígenas, ainda que fundamentais para a mobilização das mulheres em muitos contextos, não puderam ser incluídos nestes mapas, por dificuldades de representação cartográfica e de apuração de informações. Por isso, os [https://medium.com/hist%C3%B3rias-socioambientais/mulheres-yanomami-em-movimento-6891cae7e477 Encontros de Mulheres Yanomami], que ocorrem há pelo menos 14 anos na TI Yanomami (AM/RR), não constam nos mapas, assim como as assembleias de mulheres guarani da CGY ou as [https://anmiga.org/caravana-das-originarias-2022/ Caravanas das Originárias da Terra], da Anmiga – sendo incluídas somente organizações que por ventura tenham emergido desses processos de mobilização.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há ainda movimentos de mulheres que, por diferentes motivos, não se apresentam sob a forma de entidades ou coletivos e, por isso, não foram incluídos nestes levantamentos. Outros, mesmo emergindo de processos de mobilização no território, transformaram-se em organizações, como é o caso da [https://www.kunangue.com/ Kuñangue Aty Guasu], a grande assembleia das mulheres [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Guarani_Kaiow%C3%A1 guarani kaiowá] e [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Guarani_%C3%91andeva guarani ñandeva].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well col-sm-6 pull-right margem-left&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
===Veja também===&lt;br /&gt;
*[[Mulheres mebêngôkre kayapó: conquistando novos espaços]]&lt;br /&gt;
*[[Mulheres yanomami e a nova invasão garimpeira]]&lt;br /&gt;
*[[Movimento das Kunhangue]]&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A permanência parece ser uma das dificuldades do associativismo das mulheres indígenas, possivelmente uma marca dos movimentos sociais em geral. Nas palavras das integrantes da Anmiga, garantir que as organizações permaneçam mobilizadas para além da gestão das fundadoras é um dos maiores desafios vividos pelas mulheres indígenas organizadas. Outros desafios, segundo elas, são: formalizar as organizações e obter financiamento para projetos – o que impacta sua sustentabilidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O fenômeno do associativismo de mulheres indígenas também se presta a um desafio da visibilidade. Ao se &amp;lt;em&amp;gt;nomearem&amp;lt;/em&amp;gt; enquanto entidades ou coletivos, as mulheres indígenas enfatizam que sempre estiveram em movimento – ainda que sem o devido reconhecimento de sua participação e  formas próprias de organização –, ao mesmo tempo em que fazem aparecer novos sujeitos políticos e instauram outras possibilidades de ação política.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==O que leva as mulheres indígenas a se organizarem?==&lt;br /&gt;
Em 2017, Sonia Guajajara ecoou pela primeira vez a mensagem: “A luta pela mãe terra é a mãe de todas as lutas”. Desde então, ela se tornou um lema na organização das indígenas mulheres no Brasil, que se mobilizam em torno de inúmeras outras pautas comuns. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma das pautas que motivam essa mobilização é o reconhecimento enquanto detentoras de saberes e verdadeiras lideranças, presentes e atuantes no movimento. “Do chão da aldeia para o chão do mundo”, elas buscam ocupar os espaços de poder e tomada de decisão, apoiando que diferentes mulheres se coloquem à disposição para ocupar cargos que, muitas vezes, são exercidos pelos parentes homens. É o caso, por exemplo, das mulheres do povo [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Meb%C3%AAng%C3%B4kre_(Kayap%C3%B3) Mẽbengôkre Kayapó], que vêm se destacando tanto no movimento indígena nacional, quanto como lideranças em suas aldeias. “Nós somos porque nossas ancestrais já foram” é o lema que anima as mulheres indígenas à liderança.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, há outros motivos que levam as mulheres a se mobilizarem. Em Mato Grosso do Sul, as mulheres do povo [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Kadiw%c3%a9u Kadiwéu] atuam por meio da Associação de Mulheres Artistas Kadiwéu (Amak), na esteira de outra organização focada na produção da cerâmica tradicional de seu povo, a Associação das Ceramistas Kadiwéu, que esteve ativa na década de 1990. No Vale do Javari (AM), artesãs de diferentes povos vêm se articulando localmente em associações e também na [https://www.instagram.com/mai_vjbrasil Mulheres Artesãs Indígenas do Vale do Javari (MAI)], coletivo fundado em 2019 e que hoje articula cerca de 230 mulheres em torno da produção de artesanatos e da agricultura, com apoio do projeto “Javari Vale da Arte”, da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É também pensando na produção e difusão de suas artes e saberes que emergem outras organizações, como o [https://surarasdotapajos.org.br/ Coletivo de Mulheres Indígenas Suraras do Tapajós], pautada na música e na dança; ou como o Movimento das Mulheres Indígenas Yarang, uma rede de mulheres coletoras de sementes tradicionais do povo [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Ikpeng Ikpeng], no território indígena do Xingu. A [https://www.instagram.com/parteiraspotiguarapb/ Associação de Parteiras e Benzedeiras Potiguara da Paraíba (Aparbep)], por sua vez,  articula-se em torno de saberes e fazeres reconhecidos como patrimônio cultural do país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra pauta fundamental é o enfrentamento às violências contra as mulheres e seus corpos-territórios. A violência é inimiga e adversária do bem-estar das mulheres dentro dos seus territórios. Em um manifesto escrito em 2021, elas questionam: “Como calar diante de um ataque? Diante de um Genocídio que faz a Terra gritar mesmo quando estamos em silêncio? Porque a Terra tem muitos filhos e uma mãe chora quando vê, quando sente que a vida que gerou, hoje é ameaçada”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em torno dessa pauta também surgiram outras organizações, de abrangência local ou regional. É o caso do [https://www.instagram.com/gtguaritapelavida Grupo de Trabalho Guarita pela Vida (GT-GPV)], fundado por mulheres do povo [https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Kaingang Kaingang] especificamente para denunciar e combater a violência contra a mulher na [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3680 TI Guarita], no Rio Grande do Sul. O combate à violência contra a mulher nas comunidades também é o objetivo principal do [https://www.instagram.com/xondariasjerarete/ Coletivo Xondaria Kuery Jera Rete], criado por mulheres guarani em homenagem a Florinda Jera Rete, uma das primeiras cacicas no Paraná.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há organizações de mulheres centradas na defesa territorial, como as [https://guerreirasdafloresta.com.br Guerreiras da Floresta/Tentehar Kuzá Gwer Wá], que somam forças aos Guardiões da Floresta, na proteção da [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3600 TI Araribóia], no Maranhão. Assegurar a demarcação de Terras Indígenas e garantir um território seguro para o bem viver é essencial, ainda mais num contexto de tantas violações ao &amp;lt;em&amp;gt;corpo-território&amp;lt;/em&amp;gt; – como a tese do “Marco Temporal”. As mulheres também se movem por seus modos de vida, por saúde e educação diferenciadas e de qualidade e pela valorização da alimentação tradicional. Todas essas reivindicações não se separam de cantos, rezas e rituais sagrados, que inspiram a seguir na luta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
===A Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga)===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
“Somos corpos-territórios, somos de todos os biomas desse Brasil, somos a Anmiga”&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A organização de representação política nacional e internacional das mulheres indígenas do Brasil foi nomeada como Anmiga em 2021. O processo de consolidação da presença dos nossos &amp;lt;em&amp;gt;corpos-territórios&amp;lt;/em&amp;gt; nos diferentes espaços e instituições desafia-os a diminuir o estranhamento, no que se refere a tipos de lideranças femininas que estamos formando, nos territórios e fora deles.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A nossa luta como defensoras de direitos humanos e ambientais é por quem se foi, por nós e pelas que virão, pela demarcação de todas as nossas terras. Afinal, a luta pela Mãe Terra é a mãe de todas as lutas. Anmiga é força e continuidade de lutas, pelas mãos, vozes, escritas e falas das mulheres.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Anmiga nos ajudou a partilhar a nossa humanidade e a nos conectarmos com os nossos territórios-corpos na diversidade, fortaleceu o nosso eu-mulher, nos ensinou como amar e cuidar do corpo é um ato político ancestral e a nos orgulharmos de sermos guardiãs da Terra. Nós revolucionamos os termos e nosso conceito próprio de organização ao sermos as mulheres terras, sementes, raízes e águas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
São esses &amp;lt;em&amp;gt;corpos-territórios&amp;lt;/em&amp;gt; que se movimentam em diferentes lugares realizando diferentes atos de reflorestarmentes, somando no trabalho educacional antirracista e de respeito aos povos indígenas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vamos juntas construir o &amp;lt;em&amp;gt;bem viver&amp;lt;/em&amp;gt; e viver bem para todos! &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vamos juntas &amp;lt;em&amp;gt;reflorestarmentes&amp;lt;/em&amp;gt; para curar nossa terra!&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
====A Anmiga e seus conceitos====&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;strong&amp;gt;Corpo-território&amp;lt;/strong&amp;gt;: o &amp;lt;em&amp;gt;corpo-território&amp;lt;/em&amp;gt; da mulher indígena carrega consigo a ancestralidade, a espiritualidade, a memória e a história, é um corpo político e intrinsecamente ligado ao território. É coletivo, uma vez que é construído a partir da coletividade de um povo e do bioma de onde veio. Ele é território de conhecimento. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;strong&amp;gt;“Corpos são territórios e territórios são corpos”.&amp;lt;/strong&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;strong&amp;gt;Reflorestarmentes&amp;lt;/strong&amp;gt;: chamado à humanidade por outra forma de se relacionar com a Mãe Terra e entre nós – os seres que vivem nela – pela vida e pelo bem viver. Propõe-se uma relação a partir das ciências ancestrais, que cuide da Mãe Terra e, consequentemente, dos &amp;lt;em&amp;gt;corpos-territórios&amp;lt;/em&amp;gt; e espíritos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;strong&amp;gt;“Corpo é terra e floresta é mente”. &amp;lt;/strong&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
====Como a Anmiga se organiza?====&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* &amp;lt;strong&amp;gt;Mulheres Bioma&amp;lt;/strong&amp;gt;: são várias gerações de corpos de mulheres indígenas conectados com a ancestralidade e com o corpo da Terra e seus biomas.&lt;br /&gt;
* &amp;lt;strong&amp;gt;Mulheres Terra&amp;lt;/strong&amp;gt;: são as cofundadoras e atuam na articulação nacional;&lt;br /&gt;
* &amp;lt;strong&amp;gt;Mulheres Raízes&amp;lt;/strong&amp;gt;: são as anciãs, estão no território, na base, e se articulam localmente;&lt;br /&gt;
* &amp;lt;strong&amp;gt;Mulheres Semente&amp;lt;/strong&amp;gt;: geralmente as mais jovens; elas são as responsáveis por articular os territórios nas regiões e nos estados brasileiros;&lt;br /&gt;
* &amp;lt;strong&amp;gt;Mulheres Água&amp;lt;/strong&amp;gt;: são as mulheres que ficam a cargo da articulação internacional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Saiba mais no [https://anmiga.org site da Anmiga]!&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==Conheça mulheres indígenas==&lt;br /&gt;
De anciãs a estudantes, passando por lideranças e cineastas, são muitas as mulheres que fazem a diferença nos movimentos indígenas. Também são muito diversos seus perfis e trajetórias. Reunimos aqui narrativas e depoimentos de algumas dessas figuras!&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/%22Por_isso_que_n%C3%B3s_mulheres_estamos_lutando._Quando_eu_t%C3%B4_em_cima_da_terra,_eu_luto.%22 Teresa Herewy Krikati]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/3/5/8/8_0387cc1e42a69d8/53588scr_wm_e658fc44251500e.jpg|Teresa Herewy Krikati. Foto: Mariana Spagnuolo Furtado/ISA, 2019.&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/Os_anci%C3%A3os_patax%C3%B3_sempre_tiveram_a_sabedoria_das_ervas Japira Pataxó]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/4/3/0/0/5_b71a1caa1563f7f/143005scr_6a4f677d711cc14.jpg|Japira Pataxó. Foto: Kefas Matos, 2021.&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/%22A_mulher_%C3%A9_como_%C3%A1rvore:_cada_galho_tem_o_seu_cl%C3%A3,_sua_etnia,_seu_povo._Essa_%C3%A1rvore_tem_uma_raiz_muito_grande._Mesmo_que_tentem_torrar_nossa_raiz,_essa_%C3%A1rvore_cada_vez_t%C3%A1_crescendo!%22 Alessandra Munduruku]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/4/4/4_746e36f7923e9ce/444scr_wm_6e6a9d304e77694.jpg|Alessandra Munduruku. Foto: Selma Gomes/ISA, 2019.&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/%22A_gente_existia_antes%22 Leila Rocha]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/4/4/6_fc019a5a53fb417/446scr_57dd2f5389c92f2.jpg|Leila Lopes posa para retrato no Acampamento Terra Livre 2017. Foto: Luiza Calagian/ISA, 2017.&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/%22Conversamos_com_o_que_a_gente_cultiva%22 Ajãreaty Wajãpi]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/1088940-2/700pxajareatywajapi_dominiquegallois-2012.jpg|Ajãreaty Wajãpi. Foto:Dominique Gallois, 2012 &lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/%E2%80%9CNossos_parentes_est%C3%A3o_acompanhando_e_realmente_%C3%A9_muito_bom_ver_que_eles_est%C3%A3o_por_dentro%E2%80%9D Janete Figueiredo Alves]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/3/8/1/6_d69d98b0fd28e44/13816scr_ce90fa930774eb6.jpg|Janete Figueredo Alves, desana da Terra Indígena Alto Rio Negro (AM), durante o Acampamento Terra Livre de 2018, em Brasília (DF). Foto: Mario Brunoro/ISA&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/A_palavra_genoc%C3%ADdio_%C3%A9_muito_fraca_para_o_que_a_gente_realmente_vive_nos_territ%C3%B3rios Angela Kaxuyana]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/0/2/2/5/9_cb1b0ab4abc87e3/102259scr_ed98d3e276d3000.jpg|Angela Kaxuyana. Foto: Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA, 2022.&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/%22A_gente_aprende_observando_as_nossas_m%C3%A3es%22 Aracy Xavante]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/1088937-2/700pxaracyxavante_camilagauditano.jpg|Aracy Xavante. Foto: Camila Gauditano, S/d.&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/O_nosso_territ%C3%B3rio_%C3%A9_o_ponto_central_dessa_conjuntura_pol%C3%ADtica Maial Paiakan]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/0/2/5/8/3_b172bb27fb7598f/102583scr_811f4745e9d0fac.jpg|Maial Paiakan. Foto: Kamikia Kĩsêdjê.&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/%22Se_n%C3%A3o_temos_esse_cuidado_com_o_corpo_e_com_a_natureza,_vai_se_acabando,_vai_morrendo,_de_ambas_as_partes.%22 Olga Macuxi]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/4/5/6/6/5_a0a3debc9ee0d17/45665scr_wm_61917a2cc874058.jpg|Olga Macuxi. Foto: Mariana Spagnuolo Furtado/ISA, 2019.&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/%22A_nossa_primeira_casa_foi_um_corpo_de_uma_mulher,_ent%C3%A3o_o_respeito_com_o_mesmo_%C3%A9_de_extrema_import%C3%A2ncia_para_a_luta%E2%80%A6%22 Sol Jeripancó]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/3/5/8/7_d041b05d40542be/53587scr_wm_fb93be299fa55af.jpg|Sol Jeripancó. Foto: Daniele Leal de Araújo/ISA, 2019.&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/%22Antes_do_contato_a_terra_era_t%C3%A3o_aberta...%22 Wisio Kawaiwete]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/1088921-2/700pxwisiokawaiwete3_isabelharari-2016_JPG.jpg|Wisio Kawaiweté. Foto: Isabel Harari, 2016.&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/Uruhe%27i_e_Maripyaipok Dona Maria Trindade Lopes]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/763731-2/DSC_3331_edit.JPG|Dona Maria Trindade Lopes. Foto: Alba L. G. Figueroa.&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/%22Rio_Negro,_n%C3%B3s_cuidamos%22 Francy Baniwa] &lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/0/8/2/2/5_0e30aeb3c67db50/108225scr_cc92d063a97cdea.jpg|Francy Baniwa. Foto: Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA, 2022.&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/samara-pataxo-pelos-que-ja-foram-e-os-que-ainda-virao Samara Pataxó]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://www.socioambiental.org/sites/default/files/styles/nsa_meia_coluna/public/2022-05/Alexandre%20J%C3%BAnior.jpg|Samara Pataxó / Alexandre Júnior&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/%22Agora_vivemos_na_mistura%22 Fátima Paumari]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/1088943-4/700pxIMG_4802.jpg|Fátima Paumari, com a neta pamela, aldeia Crispim, TI Paumari do Lago Marahã (AM), setembro de 2016 / Oiara Bonilla&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/%22Minhas_filhas_est%C3%A3o_me_chamando_de_semente%22 Magaró Ikpeng]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/3/8/9/1/3_b13277a60c97f51/38913scr_wm_7f5d33ea13421a7.jpg|Magaró Ikpeng. Foto: Carol Quintanilha / ISA, 2019&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/Uma_foto,_uma_hist%C3%B3ria/Anna_Terra_Yawalapiti Anna Terra Yawalapiti]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/1088912-2/umafotoumahistoria_annaterra.jpg|Anna Terra Yawalapiti segura imagem de seu pai, Pirakumã Yawalapiti, no ano de 2013. Foto: Mario de Brunoro/ISA, 2017.&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/%22Tinham_muitas_pr%C3%A1ticas_boas,_os_antigos%22 Catarina Pedrosa]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/1088946-2/700px004.jpg|Catarina Pedrosa, Comunidade Cunuri, Rio Tiquié, TI Alto Rio Negro, AM. Abril de 2013. / Melissa Santana de Oliveira&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/Nosso_territ%C3%B3rio,_nossa_vida,_%C3%A9_um_movimento Kerexu Yxapyry]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/0/2/3/0/6_d01066de64648b6/102306scr_d41329798f8b869.jpg|Kerexu Yxapyry. Foto: Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA, 2022.&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/%22N%C3%B3s_temos_muito_valor_e_conhecimento%22 Orcinda Ïpüna]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/1088925-2/700pxorcinaticuna.jpg|Orcinda Ïpüna. Foto: Patrícia C. Rosa, 2016.&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/%22M%C3%A3e,_se_eu_morrer,_n%C3%A3o_deixe_que_eu_morra_sem_ser_Witoto._Grite_que_eu_sou_Witoto!%22 Vanda Witoto]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/0/2/2/4/5_2e541f73041419f/102245scr_8c5f046b05a8529.jpg|Vanda Witoto. Foto: Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA, 2022.&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/%22Todo_mundo_tem_que_ser_yarang%22 Koré Ikpeng]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/3/9/0/5/0_1eaedbd784ca315/39050scr_wm_13e3a40f4ac9e51.jpg|Koré Ikpeng. Foto: Carol Quintanilha/ISA&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/%22Se_n%C3%A3o_tiver_mais_reza,_o_mundo_vai_acabar%22 Estela Vera]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/985745-2/estelavera_guaraniMS.png|Estela Vera, Tekoha Potrero Guasu. Foto: Lauriene Seraguza, 2016.&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/%22Sem_o_territ%C3%B3rio,_a_nossa_cultura_acaba,_os_nossos_filhos_se_perdem,_n%C3%A9%3F_Sem_ele_a_gente_n%C3%A3o_existe._Sem_ele,_simplesmente_n%C3%A3o_existem_os_povos_ind%C3%ADgenas.%22 Watatakalu Yawalapiti]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/4/5/6/7/7_6777f2397c7a676/45677scr_wm_b19349a19405eb0.jpg|Watatakalu Yawalapiti. Foto: Mariana Spagnuolo Furtado/ISA, 2019.&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/%22Gostaria_que_todo_mundo,_ind%C3%ADgenas_e_n%C3%A3o_ind%C3%ADgenas,_se_unissem_na_mesma_for%C3%A7a_e_lutassem_para_melhorar_as_coisas._As_mulheres_todas_de_m%C3%A3os_dadas_unidas_para_mudar_as_coisas_para_a_melhor.%22 Kerexu Mirim Guarani]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/4/5/5/4/8_5ab60351570dacf/45548scr_wm_2b19253eda14b3d.jpg|Kerexu Mirim Guarani. Foto: Silvia de Melo Futada/ISA, 2019.&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/%22Estamos_lutando_pelos_nossos_direitos,_garantir_a_sa%C3%BAde,_a_terra_para_nossas_crian%C3%A7as,_que_%C3%A9_de_extrema_import%C3%A2ncia_para_darmos_segmentos_%C3%A0s_futuras_gera%C3%A7%C3%B5es.%22 Rosângela Ara Poty]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/4/5/6/6/8_94efbbb9746c81b/45668pre_wm_853975190af9f4c.jpg| Rosângela Ara Poty. Foto: Mariana Spagnuolo Furtado/ISA, 2019.&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/%22%C3%89_hora_de_seguirmos_construindo_esses_la%C3%A7os_de_poder_entre_as_mulheres%22 Josiane Tutchiauna]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/1088928-2/700pxjosianeticuna.jpg|Josiane Tutchiauna. Foto: Patrícia C. Rosa, 2016.&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/sonia-guajajara-demarcando-terras-demarcando-telas Sonia Guajajara]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://www.socioambiental.org/sites/default/files/styles/nsa_meia_coluna/public/2022-05/2_Midia%20Ninja.jpg|Sonia Guajajara / Mídia Ninja&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/paola-abache-indigena-warao-imigrante-venezuelana-e-nova-miss-trans-de Paola Abache]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://www.socioambiental.org/sites/default/files/styles/large/public/2023-10/RS130305_IMG_4862-lpr.jpg|Paola Abache / Fabrício Araújo/ISA&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/samela-satere-mawe-comunicacao-como-ferramenta-de-luta-da-juventude Samela Sateré Mawé]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://www.socioambiental.org/sites/default/files/styles/large/public/2022-08/Nathalie%20Brasil_Cedida%20por%20Samela%20Sater%C3%A9-Maw%C3%A9.jpg|Samela Sateré Mawé / Nathalie Brasil&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/celia-xakriaba-e-hora-de-mulherizar-e-indigenizar-politica-0 Célia Xakriabá]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://www.socioambiental.org/sites/default/files/styles/large/public/2022-10/RS86644_926_20160510_40.jpg|Célia Xakriabá / Tatiane Klein/ISA&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/ariene-susui-com-caneta-na-mao-e-em-espacos-de-poder Ariene Susui]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://www.socioambiental.org/sites/default/files/styles/large/public/2022-12/WhatsApp%20Image%202022-12-07%20at%2010.31.30.jpeg|Ariene Susui / Arquivo pessoal&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/daiara-tukano-celebrar-ancestralidade-e-desenhar-o-mundo Daiara Tukano]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://www.socioambiental.org/sites/default/files/styles/large/public/2023-02/RS111863_DSC_2470-lpr.jpg|Daiara Tukano / Claudio Tavares/ISA&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/corpo-e-territorio-mulheres-indigenas-se-unem-para-garantir-direitos-e Dadá Baniwa]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://www.socioambiental.org/sites/default/files/styles/large/public/2023-09/Dad%C3%A1_Baniwa_IMG4%20%281%29.jpeg|Dadá Baniwa / Benjamin Mast/La Mochila Migrante/ISA&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/corpo-e-territorio-mulheres-indigenas-se-unem-para-garantir-direitos-e Tuíre Kayapó]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://www.socioambiental.org/sites/default/files/styles/large/public/2023-09/Tui%CC%81ra_003%20%281%29.jpeg|Tuíre Kayapó / Benjamin Mast/La Mochila Migrante/ISA&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/corpo-e-territorio-mulheres-indigenas-se-unem-para-garantir-direitos-e Joziléia Kaingang]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://www.socioambiental.org/sites/default/files/styles/large/public/2023-09/Josileia_IMG3%20%282%29%20%281%29.jpg|Joziléia Kaingang / Benjamin Mast/La Mochila Migrante/ISA&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://site-antigo.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/chirley-pankara-no-solo-da-aldeia-e-nos-corredores-da-alesp Chirley Pankará]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://site-antigo.socioambiental.org/sites/blog.socioambiental.org/files/styles/nsa-paisagem/public/nsa/divulgacao_1.jpeg|Chirley Pankará / Divulgação&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://site-antigo.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/ehuana-yanomami-fortalecendo-os-conhecimentos-tradicionais-e-defendendo-seu-territorio Ehuana Yanomami]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://site-antigo.socioambiental.org/sites/blog.socioambiental.org/files/styles/nsa-paisagem/public/nsa/rs25128_13.1-lpr1.jpg|Ehuana Yanomami, a primeira mulher yanomami a escrever um livro na língua yanomami, no XI Encontro de Mulheres Yanomami. Foto: Alan Azevedo/ISA, 2018&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://site-antigo.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/joenia-wapichana-a-voz-indigena-na-casa-do-povo Joenia Wapichana]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/1/2/1/5/5/6_983a13db2c35c1e/121556scr_wm_194b93b89511168.jpg|Joenia Wapichana, 2023 / Benjamin Mast / La Mochila Produções / ISA&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://site-antigo.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/mayalu-txucarramae-saude-bem-viver-e-combate-as-fake-news Mayalú Txucarramãe]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://site-antigo.socioambiental.org/sites/blog.socioambiental.org/files/styles/nsa-paisagem/public/nsa/1_caca_meirelles.jpeg|Mayalú Txucarramãe / Cacá Meirelles&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://site-antigo.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/nara-bare-pela-amazonia-e-pela-vida-de-corpo-territorio-e-espirito Nara Baré]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://site-antigo.socioambiental.org/sites/blog.socioambiental.org/files/styles/nsa-paisagem-sem-marca-dagua/public/nsa/felipe_beltrame_brigada_amazonia.jpg|Nara Baré / Foto: Felipe Beltrame/Brigada Amazônia&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://site-antigo.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/o-e-kaiapo-uma-nova-cacica-a-batalhar-com-e-pelos-seus O-é Kaiapó]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://site-antigo.socioambiental.org/sites/blog.socioambiental.org/files/styles/nsa-paisagem/public/nsa/foto_2whatsapp_image_2021-05-18_at_10.41.57_0.jpeg|O-é na Aldeia Krenhyedjá, na Terra Indígena Kayapó. Foto: Beptemexti Kayapó/Coletivo Beture&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://site-antigo.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/txai-surui-juventude-indigena-contra-a-emergencia-climatica Txai Suruí]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://site-antigo.socioambiental.org/sites/blog.socioambiental.org/files/styles/nsa-paisagem-sem-marca-dagua/public/nsa/txai5.jpg|Acervo Pessoal&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/%22J%C3%A1_me_questionaram_sobre_como_era_o_feminismo_ind%C3%ADgena,_como_era_o_feminismo_nas_aldeias._Eu_respondo_que_o_nosso_feminismo_%C3%A9_inconsciente,_porque_elas_j%C3%A1_tem_o_empoderamento,_elas_j%C3%A1_t%C3%AAm_suas_autonomias.%22 Luana Kumaruara]&lt;br /&gt;
| &lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/4/5/7/4/9_1b35cb90a3bd11b/45749scr_wm_d6c4754592a02d9.jpg|Luana Kumaruara à esquerda, segurando a faixa. Foto: Beatriz Moraes Murer/ISA, 2019.&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/%22As_meninas_aprendem_sentando_perto_das_mais_velhas%22 Fátima Iauanique]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/1088960-1/miniatura_129pxfatima-denisebakairi3_valeriamacedo-2016.jpg|Fátima Iauanique. Foto: Valéria Macedo, 2016.&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
{{Info-link&lt;br /&gt;
|[https://pib.socioambiental.org/pt/%22Eu_sempre_sonho_com_a_aldeia%22 Denise Ianairu]&lt;br /&gt;
|&lt;br /&gt;
|https://img.socioambiental.org/d/1088958-1/miniatura_129pxfatima-denisebakairi3_valeriamacedo-2016_2_.jpg|Denise Ianairu. Foto: Valéria Macedo, 2016.&lt;br /&gt;
}}&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Awa_Guaj%C3%A1&amp;diff=8468</id>
		<title>Povo:Awa Guajá</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Awa_Guaj%C3%A1&amp;diff=8468"/>
		<updated>2025-07-30T17:40:41Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Crianças brincando em acampamento de caça. Aldeia Awa, TI Caru, 2013. Foto: Uirá Garcia &lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/7_30283c83f062354/71177scr_2c21db22ee091f3.jpg?v=2020-12-10+13%3A18%3A02&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Guajá, que vivem na pré-Amazônia brasileira, constituem um dos últimos habitantes dos formadores dos rios Pindaré e Gurupi, os Awa Guajá vivem em terras indígenas situadas nos últimos refúgios de floresta amazônica no estado do Maranhão. A maior parte da população vive em aldeias, mas há grupos vivendo em isolamento voluntário nas TIs Awá, Caru e Araribóia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A história dos Awa Guajá é marcada por genocídios e pela violência sofrida ao longo de décadas, desde os primeiros contatos com os não indígenas. Seu território tradicional foi atravessado e cortado ao meio pela Rodovia BR-222, na década 1960, e pela Estrada de Ferro Carajás, nos anos 1980. A partir das frentes de colonização e da implementação das políticas de desenvolvimento econômico no norte do país, ocorridas no período militar, os Awa resistiram como puderam para se manterem vivos e seguirem com um modo de vida essencialmente ligado à floresta. O profundo conhecimento sobre a mata, os animais e as plantas revela formas de ação que evidenciam o quanto os Awa são responsáveis por manter vivo o que restou de floresta no Maranhão. Apesar de sua resiliência, é notável impactos irreversíveis dessas políticas no que diz respeito à garantia de seus direitos territoriais. Um povo cuja alimentação tradicional é constituída por aquilo que coletam e caçam na mata vive hoje desafios imensos – o maior deles é a proteção das florestas tropicais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nomes ==&lt;br /&gt;
Os Awa Guajá, também conhecidos como Guajá, se autodenominam Awa, termo que inclui todos os falantes da língua, independentemente de onde vivam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Empregamos aqui no nome composto Awa Guajá, respeitando a forma como esse povo prefere ser reconhecido atualmente. A palavra Awa é sem acento agudo, seguindo a ortografia utilizada pelas comunidades em suas escolas, e a palavra Guajá, uma denominação externa, respeita a ortografia do português. &lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
Politicamente, os termos Awa Guajá, Awá e Guajá ainda são utilizados por eles de forma alternada, a depender do contexto, dos interlocutores e de outros fatores sociopolíticos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As primeiras menções a esse povo datam da década de 1940 e lá encontramos a denominação Guajá. O nome foi atribuído por não indígenas durante os primeiros contatos com o objetivo de distinguir essa população dos Tenetehara ([[Povo:Guajajara|Guajajara]]), um povo vizinho. Outras fontes apontam que foram os [[Povo:Ka'apor|Ka'apor]] os primeiros a chamá-los de Guajá. Nos documentos produzidos até a década de 1990, eram nomeados Guajá. &lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
''Awa'' é a autodesignação destas pessoas e significa &amp;quot;gente&amp;quot;, &amp;quot;humano&amp;quot;. A palavra é empregada pelos Awa Guajá para se diferenciar de outros tipos de gente. Para eles, a humanidade não é uma unidade homogênea que pode ser expressa na ideia de que &amp;quot;somos todos humanos&amp;quot;. Ao contrário, a humanidade em seu sentido forte refere-se somente a pessoas que falam a mesma língua, compartilham um espaço e um modo de vida, alimentam-se da mesma forma, respeitam as mesmas regras de etiqueta etc.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
O termo awa também é utilizado por diversos grupos amazônicos falantes de línguas da família Tupi-Guarani para se referir a si próprios como &amp;quot;gente&amp;quot;, &amp;quot;humano&amp;quot;. É o caso, por exemplo, dos [[Povo:Parakanã|Parakanã]] do Pará, dos [[Povo:Asurini do Xingu|Asuriní do rio Xingu]] e dos vizinhos Ka'apor.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|O caçador Majhuxa’a (à esquerda) e sua esposa Pakawãja (em pé), compartilhando um pedaço da saborosa carne de paca com seu cunhado Akamatỹa. Aldeia Tiracambu, TI Caru, 2013. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/8/5_a6d46ec75dbda6d/71185scr_1b623538433599b.jpg?v=2020-12-10+13%3A22%3A11&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
Para os Awa Guajá, existem tipos diferentes de &amp;quot;gente&amp;quot; ou &amp;quot;humanos&amp;quot;. Pessoas muito próximas entre si, como os residentes de uma mesma aldeia, se chamam de ''Awatea'', &amp;quot;gente mesmo&amp;quot; ou &amp;quot;gente de verdade&amp;quot;, quando querem se diferenciar dos demais. Pessoas que vivem em aldeias diferentes podem se referir umas às outras utilizando o termo ''Awa'' e não necessariamente ''Awatea''. Quando os Awa Guajá se pensam como um todo (um povo indígena diferente dos demais) se consideram ''Awa'', que é a autodesignação mais geral.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
Mas como são chamadas as pessoas que são consideradas diferentes? Há três categorias centrais utilizadas para se referir a outros tipos de gente: 1) ''Kamara'', usada para se referir aos indígenas de outras etnias; 2) ''Karaia'', remete aos não indígenas; 3) ''Mihua'', termo utilizado para nomear os Awá e outros povos desconhecidos, potencialmente bravos, como os Awa Guajá isolados. Outro termo que usam para designar os isolados é ''Awa ka'apahara'', &amp;quot;gente do mato&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Língua ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Em um descanso na floresta, durante uma caçada, Airuhua conversa com seu filho Jahara. Aldeia Juriti, TI Awa, 2008.  Foto: Uirá Garcia &lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/1_a8851b3a8b9d9a8/71171scr_0b6b1f624584f31.jpg?v=2020-12-10+13%3A15%3A44&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
A língua Guajá integra o Tronco Tupí e pertence ao subgrupo VIII da família linguística Tupi-Guarani, que inclui as línguas faladas pelos povos Ka'apor, [[Povo:Wajãpi|Wajãpi]], [[Povo:Zo'é|Zo'é]], [[Povo:Amanayé|Amanayé]], [[Povo:Anambé|Anambé]], [[Povo:Tembé|Tembé]], [[Povo:Tapirapé|Tapirapé]], entre outras (Rodrigues, 1984/85; Cabral, 1996). Foi inicialmente estudada por Péricles Cunha (1988) e mais recentemente por Marina Magalhães (2002 e 2007). &lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
Devido ao fato de os Awa Guajá viverem, antes do contato e da sedentarização, organizados em pequenos grupos familiares dispersos em vários territórios, a língua possui variantes associadas aos grupos de origem. Atualmente, vivem na mesma aldeia grupos distintos que foram contatados em momentos diferentes e é possível identificar variações linguísticas sutis específicas a cada um desses grupos, relacionadas à realização de alguns fonemas e itens lexicais. &lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
Há ainda as diferenças relacionadas aos locais onde as aldeias awá foram criadas. A variante falada pelos Awa Guajá que vivem na [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3575 Terra Indígena Alto Turiaçu] é diferente das demais: há empréstimos da língua falada pelos Ka’apor, povo com o qual compartilham o território. Já a variante dos Awa Guajá residentes nas Terras Indígenas [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3645 Caru] e [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3608 Awá], compartilha palavras e estruturas gramaticais com a língua Guajajara.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
No que se refere à sua vitalidade, a língua Guajá é falada fluentemente em todas as comunidades e por todos os indivíduos e não apresenta indícios de que está enfraquecendo. Observa-se ainda, em todas as aldeias, um grau de bilinguismo que pode variar razoavelmente considerando aspectos como gênero, idade e grau de convivência com os não indígenas. De maneira geral, aqueles que melhor se comunicam em português são os homens mais jovens que costumam representar o povo em reuniões e eventos relacionados a questões político-sociais e que, normalmente, acompanham os velhos, as mulheres e as crianças quando estes precisam sair das aldeias. No entanto, especificamente na aldeia Cocal, há lideranças femininas bilíngues que também exercem essa mesma função.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;small&amp;gt;[&amp;lt;em&amp;gt;Colaboração de Marina Magalhães (Linguista, UNB)&amp;lt;/em&amp;gt;]&amp;lt;/small&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== População e localização == &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awa Guajá são uma pequena população que se encontra na porção oriental da Amazônia, no noroeste do estado do Maranhão. Seu contingente populacional é estimado em cerca de 520 pessoas (Garcia, 2018) e a maioria vive em contato há décadas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Da direita para a esquerda, os jovens Tarapẽ, Xikapiõ e Juwi’ia, à noite em um retiro de caça. TI Awá, 2016. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/8/6_9c4baf5a1f6c4e4/71186scr_406af308848bb48.jpg?v=2020-12-10+13%3A22%3A48&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A mais antiga aldeia é Cocal (antigo Posto Indígena Guajá), localizada na [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3575 TI Alto Turiaçu], onde também vivem os povos Ka'apor e Tembé. Na [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3645 TI Caru], território compartilhado com os Tenetehara (Guajajara), estão as aldeias  Tiracambu e Nova Samiỹ. Já na [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3608 TI Awá], a última a ser demarcada, está localizada a aldeia Juriti.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há também grupos awa isolados, confirmados pela Funai, que vivem entre as TIs Awá e Caru, além de um outro grupo isolado na [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3600 TI Araribóia], território guajajara mais ao sul e a leste. Este é o principal registro da presença de isolados awa guajá cuja população é estimada em dezenas de pessoas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
De acordo com notícias, relatórios da Funai, documentações dispersas e, sobretudo, os relatos dos Guajajara, estima-se que existiam, em 2019, ao menos 60 Awa Guajá isolados na TI Araribóia. Este dado impressiona, pois tratam-se de grupos isolados vivendo em uma Terra Indígena que abriga mais de 14 mil pessoas do povo Guajajara e que sofre com o altíssimo índice de desmatamento decorrente da ação de madeireiros ilegais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pouco se sabe sobre a maneira que esses isolados awa guajá se organizam; quantos grupos são; em quais regiões da TI Araribóia cada grupo estaria; o número exato de pessoas, entre outras informações estratégicas. Devido à sua grande mobilidade e ao fato de estarem constantemente fugindo de madeireiros, narcotraficantes, pequenos posseiros e outros invasores, é difícil termos certeza de onde esses grupos isolados estariam e mesmo quantos são.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A porção de floresta amazônica no Maranhão é uma região com alto grau de pressão antrópica e de desmatamento e é lá onde vivem os Awa. Seus territórios estão nas últimas parcelas de floresta tropical parcialmente preservadas do estado e formam um corredor verde junto com a Reserva Biológica/REBIO do Gurupi, a única Unidade de Conservação de proteção integral na amazônia maranhense. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo estudos, em 2017, 75% da floresta amazônica havia sido desmatada no Maranhão. As principais atividades econômicas na região são, de um lado, o corte de madeira e a produção de carvão vegetal e, de outro, o desenvolvimento da agropecuária e as plantações de eucalipto nas áreas desmatadas. A consequência disso é que há décadas as Terras Indígenas têm sido invadidas e os seus habitantes, as maiores vítimas do desmatamento. O número de lideranças indígenas assassinadas no Maranhão é extremamente alto. Um estudo feito em 2019 pelo Instituto Socioambiental e ''Joint Research Centre'' aponta que nas Terras Indígenas habitadas pelos Awa Guajá 92% da floresta remanescente está degradada, ao passo que a TI Araribóia, palco de diversos assassinatos a lideranças guajajara nesse ano, tem 38% da floresta remanescente comprometida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awa Guajá, ao lado de outros povos, vivem ilhados em áreas remanescentes da floresta amazônica e estão ameaçados pela destruição ambiental e pela violência que vem no lastro destas atividades ilegais.&lt;br /&gt;
{{Well&lt;br /&gt;
|conteudo=&lt;br /&gt;
Veja o documentário ''Ka’a zar ukyze wà - Os Donos da Floresta em Perigo'' (2019) dirigido por Flay Guajajara, Edivan dos Santos Guajajara e Erisvan Bone Guajajara sobre os Awa isolados na TI Araribóia. &lt;br /&gt;
{{Vídeo&lt;br /&gt;
|12&lt;br /&gt;
|https://www.youtube.com/embed/yol-QPrVi3A|16by9|}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;clearfix&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;br&amp;gt;O filme traz imagens inéditas desse grupo e um pedido de socorro dos Guajajara pela proteção das florestas e dos Awa isolados cujo modo de vida depende essencialmente da floresta. Se a destruição continuar, o que será de suas vidas?&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fuga e resistência awá na longa duração ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diversos grupos indígenas que hoje ocupam o norte do Brasil migraram nos últimos séculos da região do médio Tocantins devido às frentes de colonização que avançavam para a região central do país. Diversos eventos devem ter colaborado para esses fluxos: guerras, como a Cabanagem (1835-1840) que atingiu a antiga província do Grão-Pará; a escravização indígena, assim como o aumento populacional da região onde viviam (Cormier, 2003). Esses elementos desestabilizaram a vida de vários povos que tiveram que fugir. Muitos deles seguiram para o norte e esse parece ter sido o caso dos Awa Guajá, Ka'apor, Wajãpi, Zo'é, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma das hipóteses mais prováveis é a dos Awa Guajá terem chegado na região depois dos Ka’apor, grupo historicamente inimigo, que também havia migrado para a região do rio Turiaçu. Até o século XIX, os Awa poderiam ser encontrados na porção leste do Pará e provavelmente no final desse século atravessaram o rio Gurupi para alcançar o atual Maranhão (Balée, 1994). Lá encontraram os Tenetehara, possíveis descendentes dos Tupi da costa maranhense (Wagley e Galvão, 1961). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Desde o século XIX, sabe-se que seus territórios se situam nas cabeceiras dos rios Pindaré, Turiaçu e seus tributários (Gomes, 1982). Outros relatos afirmam que há pelo menos 150 anos grupos awa guajá vivem nas imediações dos rios Pindaré e Turiaçu. Os fluxos migratórios desse povo ocorreram, muito provavelmente, no século XIX, quando grupos se deslocaram em direção ao norte, ocupando áreas onde hoje estão localizadas as TIs Caru, Awá e Alto Turiaçu. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar da dificuldade de traçar um histórico desses movimentos migratórios ao longo de séculos, é certo que pelo menos desde o início do século XX os Awa Guajá viviam próximos ao rio Pindaré, que ainda hoje é designado ''’yramãja'', o “grande rio”. Foi provavelmente através desse rio que os Awa ocuparam boa parte do seu território, chegando às cabeceiras do rio Caru e seus igarapés. Ao observar os afluentes do Pindaré, como os rios Zutiua, Buriticupu e Caru, notamos que esta bacia é como um conjunto de artérias que abrange todo o território tradicional dos Awa Guajá. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gomes e Meirelles (2002) consideram a possibilidade da região da Terra Indígena Araribóia ter sido o “coração” de um grande território awa guajá. Estes autores observam que tanto as áreas de serra na TI Araribóia, quanto as serras próximas (Desordem e Tiracambu) foram ocupadas pelos Awa tendo em vista o baixo “interesse agrícola” dessas terras para povos como os Ka’apor e Tenetehara. Os Awa Guajá nunca moraram próximos a rios navegáveis, sempre preferiram as áreas de topo de serra drenadas pelos rios Turiaçu, Caru e Pindaré e rios menores como o Turi, Turizinho, Rio do Sangue, Rio do Peixe, além de inúmeros igarapés. Foi perto desses pequenos igarapés que os Awa se sentiram mais seguros, dado o isolamento e o farto acesso à água. Em seus relatos sobre as inúmeras fugas vividas, a sede (''haiwê'') que sofriam é sempre mencionada com pesar. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A TI Araribóia, que hoje abriga grupos awa guajá isolados, parece central para se compreender a trajetória dos Awa Guajá como um todo, tanto dos grupos que preferem o isolamento, quanto dos Awa que vivem nas outras TIs. É como se todos os Awa estivessem conectados a ancestrais comuns que viveram na região onde hoje é a TI Araribóia. Se, nas últimas décadas, as duas áreas com presença confirmada de isolados (TIs Awá e Caru; TI Araribóia) abrigam grupos independentes, no sentido de serem, segundo a Funai, diferentes “registros”, o mesmo não teria ocorrido no passado se observamos a ocupação da região a partir uma longa duração. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antes da construção da rodovia BR-222, na década 1960, havia algo próximo a um território awa guajá contínuo, uma espécie de corredor que ia da TI Araribóia à TI Alto Turiaçu. Esses fluxos foram interrompidos no século XX, com a chegada de migrantes decorrente da construção da rodovia e com a construção da Estrada de Ferro Carajás, na década de 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que está na origem de quase todo o êxodo dos Awa Guajá, desde a saída de seu território ancestral (TI Araribóia) até a chegada nas matas do Pindaré, onde estão hoje as principais aldeias, é justamente o esgarçamento de seus espaços de vida (a floresta) devido às sucessivas levas de migrantes, a formação de povoados e, em seguida, de pequenos municípios próximos às Terras Indígenas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As fugas vividas pelos Awa ocorreram devido ao avanço das frentes de colonização no Maranhão iniciadas na década de 1960, com o apoio do governo, sobretudo, por meio da extinta Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste). O discurso oficial na época era o de que não havia povos indígenas na região e que havia ali um vazio demográfico. Ao longo das décadas seguintes, muitos povos indígenas foram contatados, territórios foram criados, no entanto outros grupos continuaram fugindo até a década de 1980, quando foi criado o Projeto Grande Carajás. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A economia que emergia na região até então ocupada pelos povos indígenas era inteiramente dependente da exploração dos recursos da floresta: extração de madeira, abertura de roças, produção de carvão, exploração de recursos naturais como as folhas de jaborandi (como foi o caso da indústria farmacêutica Merck), além da abertura de pastos e plantio de capim. Infelizmente, a drástica diminuição dos recursos florestais ainda é a tônica da economia regional que é resultado direto de políticas oficiais voltadas ao desenvolvimento econômico da região norte impulsionadas, sobretudo, nos anos da ditadura militar no Brasil e presentes até hoje. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas políticas tiveram impactos irreversíveis nos territórios dos Awa Guajá, em suas relações e na própria concepção de tempo que estrutura suas vidas - este dividiu-se entre o “tempo do mato” (''imỹna ka’ape'') e o tempo que marca a vida nas aldeias. A reunião de grupos familiares em aldeias grandes é uma experiência relativamente recente entre os Awa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Histórias dos contatos ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XX, mesmo com a intensificação da ocupação não indígena na região, os Awa conseguiram permanecer isolados, pois continuaram a fugir. Até o final da década de 1960, havia pouca informação sobre eles. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Embora o contato oficial entre o Estado brasileiro e os Awa Guajá tenha se iniciado na década de 1970, já se tem notícias de contatos com os Awa desde 1943, quando um pequeno grupo apareceu às margens do rio Pindaré. Em 1965, com a abertura da rodovia São Luís-Belém, outro contato mal-sucedido foi realizado com um grupo de 12 pessoas. Trabalhadores da estrada avistaram esse grupo e acionaram a Funai, que levou cerca de seis a sete indígenas para o então Posto Indígena Gonçalves Dias e todos morreram alguns meses depois (Gomes, 1985). Desde essa época até o final da década de 1980, morreram de tuberculose, sarampo, malária, disenteria e, sobretudo, gripe. Todos os Awa com mais de 25 anos guardam na memória histórias de pessoas próximas vitimadas pela gripe. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os processos de contato se dão lentamente desde a década de 1940. Em muitos encontros, os Awa contraíram doenças como sarampo e gripe, acarretando mortes, muitas vezes, de todo um grupo local. Oficialmente, o processo de contato com agências do Estado brasileiro teve início em 1973 com as expedições realizadas pelos sertanistas José Carlos Meirelles, Florindo Diniz e Jairo Patusco. Foi somente em 1976 que se deu o primeiro contato com um grupo que estava no alto curso do Rio Turiaçu. Este grupo deu origem ao que hoje é a aldeia Cocal (antigo Posto Indígena Guajá), na TI Alto Turiaçu. Dos 56 indivíduos contatados em 1976, restaram somente 26 pessoas, em 1980, doentes de malária e gripe. Em 2002, essa aldeia tinha 67 pessoas (Gomes e Meirelles, 2002).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ocorreram diversas iniciativas de aproximação, sobretudo, entre os anos 1970 e 1980. Além das frentes de atração, algumas famílias eram contatadas &amp;quot;por acaso&amp;quot;, em encontros com regionais ou com outros indígenas e não raro terminavam em mortes. Quando contatados fora do âmbito de atuação das frentes de atração, os Awa eram, em seguida, enviados para aldeias já criadas pelo órgão indigenista. Muitas vezes, não mantinham a menor relação com os residentes dessas aldeias e não tinham conhecimento necessário sobre a região para onde a Funai os havia levado. Outro fenômeno comum eram os próprios Awa buscarem o contato, aproximando-se dos vilarejos em busca de alimento e socorro. Na década de 1970, viveram um momento crítico, quase foram extintos. Restava-lhes pouca opção contra o genocídio: buscar o contato ou continuar a fugir. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar dessas expedições de contato realizadas pelo órgão indigenista oficial, boa parte do século XX foi marcada pelas fugas dos Awa Guajá. Foram épocas de muito sofrimento caracterizadas pela impermanência dos acampamentos e pelo risco permanente de serem mortos por não indígenas ou de morrerem devido a doenças infectocontagiosas. Em fuga permanente, não era possível viver de maneira adequada, caçar de forma certa e as coisas importantes para se ter perto, como arcos, feixes de flechas, objetos, tição de fogo etc., eram deixados para trás durante as &amp;quot;correrias&amp;quot;. Era preciso conter o choro das crianças para que os Awa em fuga não fossem ouvidos pelos não indígenas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As memórias recentes dos Awa Guajá estão repletas de episódios traumáticos. São relatos de sobreviventes de um genocídio nos quais são comuns menções à sede, ao medo, à tristeza, à falta de cônjuges, à morte. Em outras palavras, foram experiências de puro horror. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;quot;Os karai [não indígenas] mataram a minha esposa e meu filho. Eles atiraram neles na mata. Atiraram com arma de fogo feita de ferro. Eu era o pai. Quem morreu foi um antigo filho meu. Os karai o mataram com arma de fogo. Nós corremos e eles foram atrás de nós e os mataram. Os karai matam até crianças Awa! Mataram meu filho! Eu andei muito pela mata. Às vezes era muito calor e sentia sede. De longe eu ficava observando os karai. Via suas plantações de mandioca e milho. E pensava que um dia ia matá-los. Andava muito pela floresta: a floresta é grande! Muitas vezes eu estava tão perto dos karai que escutava o galo cantar. Por vezes eu passava fome&amp;quot;.&amp;lt;small&amp;gt;Karapiru, aldeia Tiracambu, 2013.&amp;lt;/small&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que manteve os Awá vivos e praticamente “invisíveis” durante todo o século XX foi a capacidade de viverem em grupos pequenos na floresta. Diante da necessidade de estarem permanentemente em fuga, esses grupos se dispersaram na mata e muitos deles somente voltaram a se encontrar após o contato oficial, quando foram reduzidos em aldeias permanentes. Não por acaso, ainda persistem pequenas diferenças dialetais entre os grupos locais que vivem nas quatro aldeias do povo Awa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A estratégia de incorporar nas equipes de expedições de contato indivíduos contatados do mesmo povo que está em isolamento foi e ainda é utilizada entre os Awa, como em toda a Amazônia indígena. Entretanto, nos últimos contatos ocorridos em 2006 e 2014, os Awa decidiram fazer sozinhos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A existência de Awa isolados na Terra Indígena Araribóia é alvo de grande preocupação por parte dos Tenetehara, povo que compartilha o território com esses isolados e que vêm atuando como uma espécie de protetor. Da mesma forma, os Awa Guajá que vivem nas aldeias estão preocupados com o tipo de vida precária que seus “parentes isolados” estão levando. Com frequência, homens awa que vivem nas TIs Caru e Awá se juntam às expedições na TI Araribóia, organizadas pela Frente de Proteção Etnoambiental Awá-Guajá (FPEAG)/Funai, para, de alguma maneira, contribuir para a proteção dos parentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os isolados Awa Guajá da TI Araribóia somam dezenas de pessoas, diferindo dos isolados que vivem entre as TIs Awá e Caru, que são menos numerosos. Da perspectiva dos Awa contatados, esses que conhecemos como “isolados” são chamados ora de “gente do mato” (''awa ka’apahara''), quando considerados “próximos”, ora de “gente brava” (''mihua''), quando são concebidos como distantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a década de 1990, ocorreram outros contatos na região da Araribóia com famílias e/ou indivíduos Awa Guajá que, posteriormente, foram transferidos para as TIs Caru e Awá. Os isolados que, hoje, resistem na TI Araribóia são remanescentes de um conjunto populacional composto por falantes de uma mesma língua (o Guajá) que vive separado há bastante tempo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No fim de 2014, houve o contato com três pessoas awa guajá na TI Caru. Eram remanescentes de um grupo que resistiu ao contato desde a década de 1980, conhecido como o “grupo de Miri-Miri”, em referência ao nome de seu líder. Esse grupo justificou a criação do posto indígena Tiracambu (TI Caru) visando, ali, fixá-los, mas Miri-Miri e seu pessoal preferiram permanecer na floresta. Estima-se que todos os isolados existentes na TI Caru sejam remanescentes ou descendentes do grupo de Miri-Miri. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após décadas fugindo, ora pelas serras, ora pelas matas drenadas pelos rios Pindaré, esse pequeno grupo se viu encurralado e sem perspectivas em um dos territórios mais ameaçados da Amazônia. O contato foi feito por um grupo residente na aldeia Awá (TI Caru). Há quase uma década, em 2006, pessoas dessa mesma aldeia localizaram e contataram membros do grupo encontrado em 2014.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A autonomia política dos Awa representada por pequenos grupos familiares, base de sua organização social pré-contato, fez com que o processo de contato atravessasse a década de 1990 e se arrastasse até hoje. Os grupos awa que evitam a todo o custo o contato estão nas áreas de mata contínua entre as TIs Caru e Awá e na TI Araribóia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Os Awá Guajá e a Estrada de Ferro Carajás ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Estrada de Ferro Carajás do Programa Grande Carajás, pólo de produção e exportação de minérios da então Companhia Vale do Rio Doce (hoje Vale S/A), foi inaugurada em 1985. A construção da ferrovia acelerou os contatos com grupos indígenas que até então viviam sem contato no Pará e no Maranhão. A política indigenista favoreceu a Vale do Rio Doce, na época empresa estatal, ao retirar os indígenas de seus territórios apenas por serem áreas por onde passaria a estrada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse período, os contatos com os grupos awa estavam no início, mas centenas de indivíduos não contatados já haviam morrido por causa de doenças e assassinatos perpetrados pela população regional emergente. A partir de 1982, a Companhia Vale do Rio Doce firmou um convênio com a Funai para dar início a delimitação das áreas que seriam destinadas aos Awa Guajá. Foi nesse contexto que começaram os trabalhos de demarcação das Terras Indígenas Caru e Alto Turiaçu, para onde eram levados os Awa que iam sendo contatados pela Funai.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Índios Guajá do Rio Turiaçu e membros da Frente de Atração. Foto: Vincent Carelli/Vídeo nas Aldeias&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/3/8/5/1_d35b0399549edef/53851scr_d9cb59546cb2cd7.jpg?v=2020-03-13+15%3A17%3A01&lt;br /&gt;
}} &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Motivado pela passagem da ferrovia em locais próximos aos territórios awa, o órgão indigenista reativou as chamadas frente de atração e então, a partir de 1984, novas famílias awa foram contatadas e novas mortes advindas de contatos pouco planejados ocorreram. Nessa época, muitos grupos awa foram localizados e alguns contatados nos igarapés formadores da cabeceira do rio Caru, como o igarapé Água Branca, um dos limites da Terra Indígena Caru, e o Igarapé Brejão. Estes locais estavam invadidos por pequenos grupos de posseiros e grileiros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O fato de a ferrovia cortar ao meio os territórios tradicionais awa pode ser atestado em inúmeros episódios ocorridos na década de 1980. Em 15 de agosto de 1985, na altura do km 396 da EFC, um motorista da empresa Tratex, empreiteira que trabalhava para a Companhia Vale do rio Doce, foi ferido por uma flecha no momento em que trabalhava na construção de um desvio que liga a ferrovia a BR-222. Só nesse ano, foi o terceiro episódio desse tipo que aconteceu nas imediações da ferrovia, envolvendo a população local recém-instalada e/ou trabalhadores da Vale e os Awa (Gomes, 1985). Em uma expedição realizada em agosto de 1985, Gomes ouviu relatos de que trabalhadores da ferrovia viam com frequência os Awa ao longo da estrada, assim como muitos moradores que viviam em lotes e fazendas próximas à ferrovia de Carajás. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1985, teve início a identificação da TI Awá. Essa TI interliga as TIs Caru, que margeia a ferrovia, e Alto Turiaçu, e foi destinada ao usufruto exclusivo dos Awa Guajá. No entanto, até a sua desintrusão completa, em 2014, estava invadida por centenas de ocupantes ilegais, entre eles fazendeiros, posseiros, madeireiros e pequenos agricultores. Nos últimos anos, mesmo após um longo processo de desintrusão, parte dos antigos ocupantes ilegais e invasores da TI Awá voltaram ao território ocupando-o novamente com gado e roças de mandioca para a produção comercial de farinha.   &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Projeto Carajás afetou não apenas os Awa Guajá, mas também cerca de 40 comunidades indígenas distintas (Treece, 1987), influenciando diretamente a atual configuração socioespacial dos povos indígenas na região, que perderam parcelas significativas de seus territórios tradicionais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A duplicação da ferrovia intensificou os impactos da Estrada de Ferro sobre as TIs onde vivem os Awa Guajá. As aldeias Awá e Tiracambu, na TI Caru, são muito próximas dos trilhos e, portanto, expostas à poluição sonora provocada pelo ruído dos trens de carga. O projeto de duplicação também resultou no aumento das pressões de madeireiros e invasores sobre os territórios indígenas que, até hoje, sofrem com invasões e incêndios criminosos, como os ocorridos em 2015 que afetaram 57,5% da TI Awá. &lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
O impacto da estrada de ferro é sentido pelos Awa Guajá de diversas formas. Além da presença física da ferrovia, do crescimento populacional regional e da pressão sobre seus territórios (intensificado pela duplicação), há a destruição florestal. Transtornos ecológicos decorrentes dos impactos da ferrovia, como a dispersão e morte dos animais, têm afetado suas atividades de caça, que são fundamentais para os Awa Guajá. O barulho produzido pelos trens (''terẽ ma’iha'')espanta os animais e atrapalha os sentidos dos caçadores em suas atividades diárias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como a grande maioria dos povos amazônicos, os Awa não possuem uma palavra para designar &amp;quot;animal&amp;quot;, mas sim para &amp;quot;caça&amp;quot; ou &amp;quot;presa&amp;quot;: ''ma'amiara''. Hoje em dia, no entanto, fazem uma distinção clara entre &amp;quot;caça brava&amp;quot; (''haitema'á'') e &amp;quot;caça mansa&amp;quot; (''haite’yma'a''). A &amp;quot;caça brava&amp;quot; está acostumada com o barulho dos tratores, motosserras, trens e povoados que existem no entorno dos territórios e por isso mais atenta e difícil de ser caçada. Já a &amp;quot;caça mansa&amp;quot; é aquela que vive no interior da Terra Indígena, em áreas ainda preservadas. Nesses lugares, os animais não estão acostumados com a presença humana e, portanto, vivem menos escondidos - são mais suscetíveis a virarem presa dos caçadores awa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para os Awa, o silêncio e a atenção são atitudes fundamentais para se viver na floresta. Porém, com a construção da ferrovia, essa experiência tem sido modificada brutalmente. A destruição ambiental também é vivida em termos sonoros, pois remete à produção contínua de barulho.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a ampliação da estrada de ferro da Vale, concluída em 2018, foi implementado um Plano Básico Ambiental (PBA) e, ao lado desse plano, foi renovado o acordo de cooperação para mitigação dos impactos estabelecidos desde a construção da ferrovia. A Vale destinou parte dos recursos do projeto para atividades de compensação, atendendo os povos Awá, Guajajara e Ka’apor. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este projeto da Vale acumula um número considerável de denúncias de violações de direitos humanos e socioambientais (consulte o [http://global.org.br/wp-content/uploads/2013/10/relatorio_missao_carajas.pdf relatório sobre o Projeto Ferro Carajás]).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Organização social e política ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awa Guajá sempre viveram em pequenos grupos e privilegiam formas independentes e mais “fragmentadas” de organização social, marcadas, inclusive, pela dispersão geográfica dos grupos locais. Isso fica evidente quando vemos a abrangência de seus territórios: vão desde as TIs Alto Turiaçu, Awá, Caru até a TI Araribóia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Existem registros da presença e/ou passagem dos Awa em regiões muito distantes entre si, desde a cidade de Araguaína, no Tocantins, passando pela região entre os rios Zutiua e Pindaré, no Maranhão, chegando até povoados no baixo rio Caru. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há ainda relatos de Awa que, durante suas fugas percorreram longas distâncias, alcançando os estados de Goiás, Bahia e Minas Gerais. A trágica história de Karapiru, documentada por Andrea Tonacci no filme &amp;quot;Serra da Desordem&amp;quot; (2006), é um desses casos. Após testemunhar o assassinato de sua família por posseiros que haviam invadido seu território, Karapiru iniciou uma longa jornada de fuga pelas serras do Brasil central. Depois de uma década em fuga solitária, foi encontrado pela Funai em 1988, no estado da Bahia, a mais de mil quilômetros de distância de seu ponto de partida, no Maranhão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As grandes aldeias onde hoje os Awa vivem, com cerca de 50 a 200 pessoas - a depender da aldeia - são novidade. Apesar de reunirem muitas pessoas, cada aldeia se estrutura como um conjunto de pequenas aldeias, uma vez que não há pátio central ou qualquer construção ou espaço que seja o centro da vida coletiva. Suas aldeias, formadas por diferentes famílias, são organizadas por “setores” baseados em grupos de &amp;quot;homens importantes&amp;quot; ou “chefes” (''tamỹ''). Pensar a comunidade como um “todo homogêneo” é uma ideia que os Awa Guajá não compartilham. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As famílias são como unidades autônomas e todo chefe de família é uma espécie de líder (''tamỹ'' ou ''xipa tamỹ'') em potencial. Não faz sentido, portanto, falar em uma liderança que represente o “todo”, o “povo” ou a “sociedade awa&amp;quot; etc. O coletivo pode ser articulado em contextos específicos, mas logo se dissolve em uma organização social descentralizada. É por isso que a noção de liderança também assume um sentido específico: é aquele que consegue convencer os outros com as suas palavras ou com a sua empolgação com relação a uma tarefa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
''Myty'' é um termo que remete a um entendimento importante sobre a política e pode ser traduzido para o português por “puxar”. Uma liderança ou um chefe (''tamỹ'') tem como principal atribuição &amp;quot;puxar&amp;quot; um coletivo. É quem vai na frente, puxando os demais. A expressão ''myty ipamẽ'' dá essa ideia, justamente: “puxando e indo junto/misturado”. Os trabalhos na roça, as caçadas e outras ações são pensadas dessa maneira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em todas as atividades, nos mais diversos aspectos da existência, os ''tamỹ'' são evocados. A &amp;quot;chefia&amp;quot; entre os Awa não se baseia em acordos ou consensos coletivos fomentados por um único indivíduo. A figura do cacique é, portanto, inexistente. Mesmo as pessoas que são chamadas em português de &amp;quot;lideranças&amp;quot;, têm suas funções mais próximas às dos &amp;quot;interlocutores&amp;quot; ou &amp;quot;diplomatas&amp;quot;, que fazem mediações ou traduções entre realidades políticas diferentes. Não há chefes com poder coercitivo ou capaz de organizar toda uma aldeia. Quando muito os chefes awa conseguem convencer o seu &amp;quot;pessoal&amp;quot;, a sua família e pessoas próximas - nada mais do que isso. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após décadas organizados em quatro aldeias (Cocal, Juriti, Awá e Tiracambu), os Awa Guajá contatados estão se dividindo em novas outras aldeias, como Nova Samiỹ e Aldeia da Cachoeira, e não sabemos quantas mais virão.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vivendo afastados entre si, desde antes do contato até hoje, os diferentes grupos locais awa não correspondem a uma idealização de “grupo indígena” com intercâmbios intercomunitários, autoidentificação com o “grupo” e alianças em diferentes situações. Por mais paradoxal que possa parecer, talvez tenha sido justamente essa “fragmentação” que possibilitou aos Awa permanecerem sem contato com os não indígenas, resguardando-os, assim, de um fim ainda mais trágico como o completo extermínio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Florestas habitadas ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Piraima’a e Jawatra’ia (na rede) durante uma caçada. Aldeia Juriti, TI Awa, 2016. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/8_976c4cf905b64b5/71178scr_f9af74df66b99ed.jpg?v=2020-12-10+13%3A18%3A46&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar dos Awa Guajá não viverem mais em acampamentos temporários e não dormirem em tapiris como antigamente, a vida na floresta (''ka'a'') continua sendo fundamental. A mata é um local ''haxỹ'' (&amp;quot;fresco&amp;quot;) e ''parahỹ'' (&amp;quot;bonito&amp;quot;, &amp;quot;bom&amp;quot;, &amp;quot;perfeito&amp;quot;), diferindo da aldeia que dizem ser ''haku'' (&amp;quot;quente&amp;quot;) e ''manahỹ'' (&amp;quot;desagradável&amp;quot;, &amp;quot;imperfeita&amp;quot;). No verão, especialmente, as aldeias viram base para suas incursões de caça, principal atividade produtiva. Os Awa caçam e dormem na mata e passam longas temporadas na floresta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O conjunto de ambientes habitados pelos Awa é composto pelas terras firmes (wytyry), pelas zonas de várzea e pelos cursos de rio ou simplesmente '''ya'' (&amp;quot;água&amp;quot;) que, durante os meses de chuva, formam um complexo de alagados. Estes ambientes diversos constituem um conglomerado de áreas de caça identificadas por diferentes topônimos que, por sua vez, possuem uma infinidade de trilhas (e algumas clareiras) as quais atravessam todo o território tradicional awa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse conjunto territorial é denominado, genericamente, de ''haka'a'' (&amp;quot;minha floresta&amp;quot;) e, mais especificamente, de ''harakwaha'' (&amp;quot;meu lugar&amp;quot;, &amp;quot;meu domínio&amp;quot;). ''Haka'a'' e ''harakwaha'' são expressões que, muitas vezes, são empregadas como sinônimos. Em português, costumam traduzir por &amp;quot;minha área&amp;quot;, fazendo alusão ao processo de demarcação de suas terras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
''Harakwaha'' denota não só a mata, mas também as relações estabelecidas entre as pessoas, os animais e as plantas. A ideia expressa por essa palavra extrapola as relações dos humanos com os seus espaços e inclui os relacionamentos de outros seres, não humanos, com floresta, águas, aldeia, céu, entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O local reconhecido enquanto tal por um grupo (familiar, local etc.) também é chamado de ''harakwaha''. É a área onde as pessoas de um grupo circulam, onde caçam e manejam seus recursos. Tradicionalmente, os ''harakwaha'' eram exclusivos de uma família e/ou grupo local que o conhecia profundamente. Os limites entre essas áreas eram dados pelos ''harakwaha'' de outros grupos, muitas vezes, de parentes próximos. Até o contato, todo o território awa era uma extensa malha formada por diversos ''harakwaha'' e cada grupo local ou, frequentemente, grupo familiar circulava por um desses espaços, conhecendo-o, nomeando-o, interagindo e explorando seus recursos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right &lt;br /&gt;
|Posto Indígena Juriti, TI Awá, 2007. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/9_50597ecc986577a/71179scr_4b853a109dfdd36.jpg?v=2020-12-10+13%3A19%3A06&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As últimas décadas trouxeram mudanças na forma de os Awa se organizarem espacialmente. Assim como as configurações das aldeias se alteraram, dando lugar a aglomerados populacionais formados por diferentes grupos locais, os espaços de circulação desses grupos também foram afetados. As aldeias awa são frutos de uma engenharia social do contato e reúnem grupos diferentes que antes viviam dispersos em áreas distintas. Isso quer dizer que muitas pessoas que hoje vivem juntas não se conheciam antes do contato. A &amp;quot;vida em aldeia&amp;quot; surgiu, entre os Awa, no contexto das frentes de atração da Funai e dos chamados &amp;quot;postos indígenas&amp;quot;. É interessante observar, no início, que os Awa usavam o termo ''funai'' para nomear as aldeias onde passaram a viver.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Cotidiano ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O modo de vida dos Awa Guajá é inteiramente dependente da relação que estabelecem com a floresta e os seres que nela vivem. A caça é uma delas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A caça, para os Awa Guajá, é uma atividade central, não somente em termos de subsistência, mas especialmente em termos existenciais. Trata-se de uma prática que diz muito sobre suas concepções sobre a vida que está essencialmente ligada à floresta. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse povo é denominado genericamente de &amp;quot;caçador-coletor&amp;quot;, uma categoria arbitrária para se referir a populações cuja subsistência está baseada na caça, na pesca e na coleta de produtos florestais e que não dependem de uma prática agrícola. Muitos povos &amp;quot;caçadores-coletores&amp;quot; podem até plantar, mas não baseiam a sua vida exclusivamente aos ciclos agrícolas, com calendários associados aos trabalhos nos roçados e jardins. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Da esquerda para a direita, Wa'amixĩa, Piakwa, Manijasĩa coletando Jussara. Aldeia Tiracambu, TI Caru, 2013. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/8/3_3ee38fe2a6f8066/71183scr_968ece811e43332.jpg?v=2020-12-10+13%3A21%3A12&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O crescente desmatamento na Amazônia maranhense é uma grande ameaça ao modo de vida awa e traz sérias preocupações para esse povo que até pouco tempo vivia exclusivamente daquilo que tirava da floresta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a época do contato, os Awa não praticavam agricultura, atividade que tem sido introduzida ao longo dos anos nas aldeias pela Funai, principalmente, o cultivo de mandioca, macaxeira, milho, arroz, abóbora, feijão, frutas, dentre outros. Tal atividade, no entanto, ainda está diretamente ligada à Funai, que organiza os trabalhos com as comunidades. Trabalhadores temporários são contratados para auxiliar os Awa em suas roças e o sistema de trabalho é o mesmo adotado pela tradicional agricultura de “corte e queima” maranhense (Forline, 1997).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre os Awa, não se encontra nenhum dos subprodutos de uma “agricultura tradicional indígena&amp;quot;, como o fumo, o beiju e as bebidas fermentadas, tal como se vê entre outros povos amazônicos e povos horticultores Tupi. Tradicionalmente, toda a alimentação awa vem da floresta: as caças, os méis e os frutos como pequis, cupuaçu, bacuri, bacaba, inajá, dentre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A farinha de mandioca era desconhecida pelos Awa até os contatos oficiais com a Funai. Essa farinha é, para eles, uma comida dos brancos. Uma das histórias dos primeiros contatos com os Awa é que muitos se recusavam a comer farinha, pois pensavam que se tratava de um tipo de terra. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Piraima’a posa orgulhoso ao lado da anta que recém abatera. Aldeia Juriti, TI Awa, 2007. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/6_4a665417ecfdbc6/71176scr_aaf00db90897f39.jpg?v=2020-12-10+13%3A17%3A24&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mesmo que hoje em todas aldeias awa se pratique a agricultura, a caça continua movendo a vida das famílias. As pessoas seguem dispostas a abandonar atividades nos roçados para averiguar rastros da existência de uma vara de porcos ou de um bando de guaribas na mata. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A centralidade da caça é marcante e isso fica evidente na expressão usada com frequência pelos Awa para se referir a si próprios: ''watama'a aria'', &amp;quot;nós somos caçadores&amp;quot;. Todas as outras atividades, como a pesca e coleta de mel e frutos são tributárias dela ou postas em segundo plano. Forline (1997) realizou um estudo sobre o tempo alocado pelos Awa em suas diversas atividades cotidianas e demonstrou que a caça é aquela que ocupa mais tempo em seus dias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, o conhecimento awa sobre a floresta e, mais particularmente, sobre as plantas é tributário a seu interesse pela caça. Cormier ressalta o baixo número de plantas utilizadas pelos humanos para consumo, medicamentos, xamanismo etc. quando comparado com o número de plantas conhecidas consumidas pelos animais de caça, mais especificamente os macacos (Cormier, 2003). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Jui’i e seu avô Mĩtũrũhũa preparando o jacaré para a refeição. Aldeia Juriti, TI Awa, 2008. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/5_e80dddff76eb6f4/71175scr_c7ae3e9060987ff.jpg?v=2020-12-10+13%3A17%3A06&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pesca, apesar de amplamente praticada, é, tradicionalmente, uma atividade menos desenvolvida. Os Awa Guajá permaneceram, em boa parte de sua história, distante dos cursos de grandes rios e não possuíam canoa ou qualquer técnica mais apurada para a captura de peixes (tal como armadilhas ou represas). Embora os peixes não estejam no topo das suas preferências alimentares, os rios e igarapés abastecem as pessoas não só de peixes, mas também com as carnes de uma espécie de jacaré (''jakare'') e de poraquês (''manaky''). Além desses, a capininga (''jaxajhua'' - Kinosternon scorpioides), um quelônio habitante dos lodos nos igarapés, é muito apreciada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alimentação, saúde e floresta em pé ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awa Guajá realizam uma distinção muito clara entre &amp;quot;comida dos brancos&amp;quot; (''karai nimi'ua'') e &amp;quot;comida de verdade&amp;quot; (''hanimiu tea'') ou &amp;quot;comida de gente&amp;quot; (''awa nimi'ua''), isto é, sua alimentação tradicional composta basicamente por carnes de caça, peixes, mel e frutos coletados na floresta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apreciam comer carne todos os dias, de preferência, várias vezes ao dia. Gostam, especialmente, da carne de capelão/guariba e outros macacos; queixadas e caititus; pacas, cotias e tatus; além da anta, veado dentre outros animais. Existe uma relação diretamente proporcional entre o porte do animal ingerido e as qualidades alimentares de sua carne. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Juxa’a moqueando cotias em um acampamento de caça. TI Awa, 2016. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/2_7a0f6909b904b27/71172scr_1e7dc8111e72716.jpg?v=2020-12-10+13%3A16%3A17&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Comer o animal correto é fundamental para a boa formação do corpo de uma pessoa humana. Um corpo forte e belo faz-se com uma alimentação boa e farta; ele se fortalece com a ingestão constante de carnes de caça. Por não fazerem estoques, saem diariamente para caçar. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos dias de hoje, ao lado dos alimentos tradicionais, consomem a farinha de mandioca, frutas e diversos cultivares introduzidos pela Funai, como a abóbora, milho, macaxeira, arroz, feijão, batata-doce, entre outros. O consumo de alimentos não indígenas, apesar de bem disseminado e apreciado, é suspenso em momentos de resguardo, quando as mulheres estão em período de menstruação, durante resguardo pós-parto ou doença. &lt;br /&gt;
Mesmo com as mudanças no regime alimentar, os Awa guardam um grande interesse pelas carnes de caça, frutos de coleta (babaçu, inajá, bacaba, buriti, bacuri, pequi e outros) e mel. Conhecem dezenas de espécies de mel que além de servirem como fonte de energia, trazem “alegria para o corpo”. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A alimentação correta para os Awa é muito mais do que ingestão de calorias. Eles, mais do que ninguém, sabem o que é produzir e lutar pela própria comida. Caçam sempre que podem e essa tecnologia desenvolvida há centenas de anos abrange formas de conhecimento e intervenções no ambiente muito sofisticadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A floresta para os Awa é a grande fonte de alimentos, é lá onde vivem os animais de caça. No entanto, estes estão cada vez mais ameaçados pela degradação ambiental que vem ocorrendo há décadas na Amazônia maranhense. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há, portanto, uma relação direta entre a floresta, a qualidade da alimentação e a saúde das pessoas. A degradação ambiental e o desmatamento florestal são fatores que afetam profundamente a saúde dessa população. Não por acaso, uma de suas maiores preocupações é o risco iminente do fim da alimentação tradicional. Com frequência, perguntam: &amp;quot;Os brancos não sabem que vão acabar com os nossos animais?&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Caçadas na floresta ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Descanso durante uma caçada. Aldeia Juriti, TI Awa, 2006. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/4_cf470eae529bb70/71174scr_b140a3db0f0207d.jpg?v=2020-12-10+13%3A16%3A50&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As aldeias parecem pontos de chegada e parada do mato, pois as coisas boas da vida acontecem na floresta. Uma caçada curta não dura menos que seis horas e, em média, as pessoas ficam cerca de dez horas na floresta para ter o mínimo de sucesso em suas saídas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As caçadas podem ser executadas com espingardas, arco e flechas e armadilhas. São realizadas de diversas maneiras: individuais; em casal; com grupos de irmãos, cônjuges e filhos; caçadas de uma jornada diurna ou esperas noturnas; e até mesmo grandes caçadas coletivas, que podem mobilizar boa parte de uma aldeia. Por serem compreendidos como aspectos importantes, os tipos de animais caçados (''hama’a'', “minha caça”), as atitudes dos caçadores e sua saúde e vitalidade são temas que sempre surgem relacionados nos relatos dos Awa sobre as caçadas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Numa única jornada, além de pescar, caçar com flechas e espingardas, cavar buracos para pegar bichos, caçar com cachorro, ainda é possível: extrair resinas de maçaranduba e jatobá (utilizadas na iluminação noturna das casas) e embiras para fazer &amp;quot;cordas&amp;quot;; confeccionar cestos cargueiros com folhas de açaí para levar o peso que acumularam; coletar mel, carás e outros tubérculos encontrados na floresta e na capoeira na volta para a aldeia. Em meio a tudo isso, as mulheres ainda carregavam seus filhos, os amamentam e os fazem dormir, espantando os mosquitos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Da esquerda para direita: Takamỹa à, seguido por seu filho, Majhuxa’a, Hajkaramykỹa e seu filho Warajua, comendo mel durante caminhada na floresta. Aldeia Awa, TI Caru, 2013. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/8/1_9b501ab243a2bf5/71181scr_e7d14a8f7342d2d.jpg?v=2020-12-10+13%3A20%3A08&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas jornadas na floresta podem ser chamadas de ''wataha'', cuja tradução é &amp;quot;caminhada&amp;quot;. ''Wataha'' é sinônimo de muitas ações que se desenrolam no decorrer de uma jornada (andar, caçar e coletar) e exprimem a própria vida para os Awa. As caçadas são chamadas genericamente de ''wata'' (“andar-caçar”) e todo homem caçador é referido ''watama'a'', cuja tradução literal é &amp;quot;caminhador&amp;quot; e que pode ser traduzida por &amp;quot;caçador&amp;quot;. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O principal objetivo de uma caminhada (''wataha'') é caçar um animal, de preferência uma carne gorda (''ikirá'') e saborosa (''he’ẽ''). Quase sempre, os Awa saem para floresta para “matar” (''ika'') uma caça previamente rastreada, seja por ser a época dos frutos apreciados pela presa, seja porque alguém sonhou com ela.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao fim das caçadas, além de comida, os Awa costumam voltar repletos de filhotinhos de animais para presentearem suas filhas e esposas.  Algo que chama à atenção é a quantidade de animais de criação ou xerimbabos que existem em suas aldeias e que, antes do contato, eram criados no mato. As aldeias são repletas de animais e, muitas vezes, podem chegar a ultrapassar o número de moradores humanos. São macacos, jacus, quatis, jacamins, cotias, pacas, tartarugas, porcos e até filhotes de onça criados pelas mulheres, crianças e, em alguns casos, pelos homens. Esses animais têm um ciclo de vida nas aldeias desde a sua captura até a soltura depois de uma certa idade. Macacos adultos, com cinco ou seis anos podem se tornar violentos e atacar as crianças e por isso não devem conviver no mesmo espaço.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Quando caminham no mato é muito comum eles assobiarem de tempos em tempos, a fim de atrair pássaros emplumados como azulonas, inhambus e jacupembas. Tais animais, dizem os Awá, cantam pouco na época das chuvas, e os homens os imitam para ouvirem suas respostas e, eventualmente, caçá-los enquanto se deslocam. Ouvir a resposta dessas aves aos assobios humanos é uma das formas de conexão dos Guajá com os animais. &lt;br /&gt;
Os povos caçadores como os Awa mobilizam um grande aparato sonoro como parte de sua tecnologia de caça. A floresta “fala” com os Awa de diversas maneiras. Além de uma audição aguçada, outro componente complementar é a capacidade de imitar o som dos animais. Durante as caçadas não se fala, mas existe uma outra linguagem na floresta: assobios, urros, barulhos, gritos e imitações. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para cada animal um tipo de imitação é produzido. Tal conhecimento acústico, quando empregado à caça, envolve nuances e técnicas que servem para ludibriar as presas ou funcionam como sinais para os caçadores rastrearem. Os Awá conseguem, inclusive, adaptar para a sua língua o canto de alguns pássaros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O objetivo dos chamados para atrair animais (''hamakai'') é fazer com que o bicho pense se tratar de algum &amp;quot;parente próximo&amp;quot; (''harapihiara ha'ỹ'') e levar o animal à morte. A ideia é que os sons imitados se pareçam com os sons de &amp;quot;amigos&amp;quot; (''hary''), &amp;quot;irmãos&amp;quot; (''harapihiara''), &amp;quot;filhos&amp;quot; (''imymyra'', ''tajyra'', ''taira''), e outros parentes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As pessoas awa têm uma atenção acústica desenvolvida a ponto de, muitas vezes, dispensarem o apoio da visão em caçadas noturnas sem lanterna. À espera de animais na madrugada, são capazes de distinguir a espécie de um animal e outras características, como o peso e sexo, ao escutar o peso da passada ou mesmo ao sentir um odor característico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Caçada de capelão ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awa são caçadores habilidosos e possuem uma técnica apurada para a captura de mamíferos arborícolas, em particular, quatro espécies de primatas: macaco guariba ou “capelão” (''waria'' - Alouatta belzebul); macaco-cairara (''kaihua'' - Cebus kaapori); macaco-cuxiú (''kwixua'' - Chiropotes satanus) e macaco-prego (''ka’ia'' - Cebus apella].  A técnica, que consiste em uma emboscada aérea dos animais, ainda contemplaria a captura de quatis (''kwaxia'' - Nasua nasua) e ouriços-caixeiros (''akanũa'' - Coendu prehensilis), mamíferos também de hábitos arborícolas. A carne mais apreciada é a do guariba, que é sinônimo de alimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para além do fato de comerem esse animal, os Awa gostam de escutá-los. O capelão é considerado o animal terrestre mais barulhento do mundo e o seu grito pode ser ouvido por mais de 4 Km e produzir 130 decibéis. O fato dos guaribas serem animais sonoros é importante para os Awa: os guaribas, assim como os humanos, cantam.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Enquanto Uriximatỹa olha para a câmera, Kamará, Takya e Pirama’a observam a copa de uma árvore a procura de macacos, aldeia Juriti, TI Awa, 2007. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/3_b343a0409435b92/71173scr_1c1cd80135fa8cd.jpg?v=2020-12-10+13%3A16%3A32&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awa gostam do canto desses animais. Sempre que podem elogiam a capacidade deles de produzir um &amp;quot;belo canto&amp;quot; (''jã paryhỹ'') – característica que os diferencia de outros macacos. Dificilmente caçam os capelães no final da tarde, pois é a hora que estão cantando. Então, param para ouvi-los. Os Awa conseguem distinguir pelas vozes quantos são fêmeas ou machos; adultos ou filhotes - tal como a pegada de um animal terrestre revelará seu peso, idade, sexo e outras informações relevantes para o caçador. A partir dessas informações que traçam os seus planos para o dia seguinte. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A técnica de caça aos capelães envolve cerco e intimidação que é chamada warí babopô (&amp;quot;espantar o capelão&amp;quot;). Trata-se de uma emboscada aérea. Para caçá-los, cada homem sobe estrategicamente em outras árvores situadas ao redor da árvore onde estão os animais. Ao perceberem a proximidade dos caçadores, os animais tendem a se esconder nas partes mais elevadas da copa de uma árvore. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Enquanto os homens sobem silenciosamente nas árvores, um caçador experiente, quase sempre um velho, sobe o mais próximo que consegue à copa da árvore onde se escondem os animais. Uma vez lá em cima, observa, mexe nas folhas e tenta encontrar algum vestígio ou esconderijo do grupo, que está camuflado, e quando finalmente se certifica que estão ali, inicia uma fala muito específica. No cerco que se inicia, ganha vida um processo comunicativo no qual o animal é ameaçado; escorraçado de seu abrigo de folhas; muitos gritos são dados, principalmente por esse homem. Enquanto isso, quem permanece no solo (mulheres e crianças) ajuda-o com gritos e assobios. O cerco consiste em fazer com que os animais escondidos fujam de seus abrigos, se dispersem para as outras árvores para finalmente serem abatidos na fuga. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo pode durar horas com o caçador desafiando os animais até que uma hora, apavorados, fogem. No momento imediato à fuga, na confusão, escuta-se tiros misturados a gritos, zunidos de flecha e berros desafiadores dos valentes capelães. Após alguns segundos, os animais são feridos e caem das árvores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Cosmografia == &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O eixo céu e terra é um dos aspectos fundamentais para o entendimento do mundo awa, como para a maioria dos grupos Tupi-Guarani. A terra (''wya''), o local onde vivem os humanos, é apenas uma pequena parte do universo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há também diversos ''iwa'' (&amp;quot;céus&amp;quot;), onde habitam os mortos e outros seres celestes, como os karawara. Os patamares celestes (''iwa'') são incontáveis e os humanos não sabem ao certo quantos níveis existem sobre a terra. A subida ao céu (''ohi iwa pe'') é experimentada pelos homens, sobretudo, durante o ritual da ''takaja'' e uma vez no céu, eles conseguem subir para mais dois ou três patamares para visitar outras aldeias celestes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cosmografia awa também faz referência a um mundo subterrâneo, igualmente denominado ''iwa'', onde habita uma outra humanidade, sobre a qual os humanos da terra pouco sabem. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cosmos atual é compreendido como resultado da separação de um mundo anterior, no qual o céu, a terra e o subterrâneo eram muito próximos. Como em diversas sociocosmologias tupi, os Awa se referem a uma histórica separação entre as camadas cósmicas, cujo resultado principal foi a diferenciação entre os habitantes da terra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
''Iwa'' (&amp;quot;céu&amp;quot;), ''haripa'' (&amp;quot;aldeia&amp;quot;) e ''ka’a'' (“floresta”) são os principais eixos em torno dos quais a vida dos Awa Guajá gravita. Céu e mata são domínios pelos quais guardam grande interesse, figurando como temas centrais em boa parte das conversas cotidianas.&lt;br /&gt;
  &lt;br /&gt;
A floresta (''ka’a'') é o local onde os Awa sempre viveram e o habitat de tudo aquilo que conhecem: animais, mel, plantas medicinais, frutos etc. Apesar de todo perigo que oferece, a floresta ofereceu, ao longo da história recente desse povo, segurança para que conseguissem viver distanciados dos ''kamara'' (“outros indígenas”) e dos ''karaia'' (“não indígenas”).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Pessoa humana == &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A humanidade foi criada por Maíra, o herói cultural. Sozinho no mundo, produziu a partir de um tronco de árvore a primeira mulher na terra (''wya''). Com o seu surgimento e a consequente gravidez, inicia-se um ciclo a partir do nascimento de dois meninos gêmeos, os filhos dos heróis, Maíra e Ajỹ. As narrativas (''mumu'uaena'') contadas pelos Awa abordam as aventuras desses gêmeos enquanto estavam na terra, pois depois decidem abandoná-la e vão viver no céu (''iwa'').&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Em primeiro plano, o ancião Tatajkamaha (já falecido), e ao fundo os jovens Guardiões da Floresta na TI Awá, 2016. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/8/4_45023f0345a535a/71184scr_26d8b9cde93e943.jpg?v=2020-12-10+13%3A21%3A35&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pessoa humana é constituída por três elementos: ''ipirera'' (&amp;quot;corpo&amp;quot; ou “couro”), ''haitekera'' (&amp;quot;princípio vital&amp;quot; ou &amp;quot;vitalidade&amp;quot;) e ''ha'aera'' (&amp;quot;raiva-espectro&amp;quot; ou &amp;quot;alma penada&amp;quot;). Nenhum destes elementos é um princípio abstrato, tais como “representações” do que seria a pessoa humana. Ao contrário, remetem a noções relativas à fisiologia dos corpos e fornecem uma terminologia apropriada para o entendimento das relações entre humanos e não humanos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Quando uma pessoa morre, os Awa costumam dizer que &amp;quot;''haitekera'' foi para ''iwa''&amp;quot; (''haitekera oho iwape'') e, uma vez falecida, permanece no céu. A ideia de morte implica no deslocamento espacial do princípio vital da pessoa da terra para os patamares celestes. Seu “couro” permanece na terra até apodrecer e a “raiva” segue para a floresta (''ka'a''), em locais recônditos, e se transforma em ''ajỹ''. Esta última categoria remete a espectros canibais que vivem na mata e costumam atacar os humanos, provocando-lhes doenças. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awá traduzem ''ha’aera'' para o português como “raiva”, mas não se trata da mesma “raiva” que se expressa pelo termo ''imahy'' (“bravo”, &amp;quot;aborrecido”). Esta última é um sentimento que, apesar de perigoso e desprezado, é muito comum e importante em diversas situações, como na guerra. ''Ha’aera'', ao contrário, pode ser traduzido pela ideia de “raiva-espectro”, devido tanto à sua condição de “sombra”. Um princípio invisível e espectral que é dotado de grande penetração. É algo que todo humano carrega, pois faz parte da sua composição física, porém, ao ser liberado após a morte, age como uma energia formadora de seres ligados à morte, os ''ajỹ''.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Assim como os humanos, diversas presas animais também liberam &amp;quot;raiva&amp;quot; (''ha’aera'') e isso traz muitos problemas aos humanos, especialmente, aos caçadores. A &amp;quot;raiva-espectro&amp;quot; dos animais caçados pode buscar vingança, emanando doenças e retirando a sorte de caçadas futuras. Macacos, veados, porcos, dentre outros animais de caça, mesmo depois de mortos, podem se lançar em uma vingança noturna e invisível com a intenção de atingir o caçador, deixando-o doente. Muitos caçadores, principalmente quando estão dormindo, podem ser atacados pelo espectro raivoso do animal abatido. Esta é uma causa comum de doenças entre os Awa Guajá. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com frequência, as doenças são causadas por um desequilíbrio entre esses elementos que compõem a pessoa e são desencadeadas por motivos diferentes: o medo; a tristeza; a saudade; um sonho ruim; um alimento proibido que por algum motivo seja ingerido; o contato com cadáveres; a falta de alimentação adequada; o encontro com os ''ajỹ'', os seres-espectros que habitam a floresta. Apesar de terem causas diferentes, as doenças têm alguns sintomas que são característicos de uma disfunção no “princípio vital” de uma pessoa: fraqueza no corpo, dores no fígado, no coração e na cabeça. Esses e outros sintomas são comumente associados à vulnerabilidade do &amp;quot;princípio vital&amp;quot; (''haitekera'') que pode abandonar o corpo da pessoa temporariamente, expondo-a a situações de perigo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== ''Karawara'', os espíritos da floresta ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os ''karawara'' são espíritos celestes que embora vivam em patamares superiores (''iwa''), mantêm um trânsito constante com a terra. Costumam vir em busca de “caça”, “água”, “mel&amp;quot; (e por vezes fogo), produtos essenciais para a vida no céu. Nessas vindas para terra podem ajudar os humanos com curas xamânicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Possuem uma imagem humana celestial definida: são bem adornados com cocares e braceletes. São habitantes de um lugar limpo e agradável, caçadores infalíveis, cantores magníficos e falantes de uma outra língua, uma fala celeste (''iwa ma’iha'', “fala do céu”) cuja prosódia é o canto (''jã''). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se perguntarmos a uma pessoa awa o que é um ''karawara'', provavelmente, teremos respostas como: ''awa parahỹ'' (&amp;quot;humanos belos&amp;quot;); ''awaetea'' (&amp;quot;gente de verdade&amp;quot;); ''awa katy'' (&amp;quot;pessoas boas&amp;quot;); ou ''karawara wate'' (&amp;quot;os karawara estão lá em cima&amp;quot;). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A floresta é o lugar onde os espíritos ''karawara'' também caçam, mas aqui na terra eles podem assumir também a forma de animais e plantas. Cada espírito celeste possui na terra um correspondente animal, vegetal ou mesmo fenômeno da natureza, que seriam como suas extensões terrenas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
São relacionados a pequenos animais, insetos, plantas e alguns objetos. Seriam, por exemplo, uma &amp;quot;gente pica-pau&amp;quot;, &amp;quot;gente pássaro juriti&amp;quot;, &amp;quot;gente tucano&amp;quot;, &amp;quot;papagaio”, “siricora&amp;quot;, &amp;quot;sabiá&amp;quot;, &amp;quot;borboletas&amp;quot;, &amp;quot;marimbondos&amp;quot;, &amp;quot;gente taquara&amp;quot;, dentre outras plantas e bichos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada ''karawara'' é especializado em um tipo de caça, por exemplo: ''karawara Puhu'ua Jara'' (gente pipira-de-bico-vermelho) é caçador de macaco-prego; ''karawara Makaró'' (gente pomba-galega) é caçador de queixada; ''karawara Xakara Jara'' (gente gavião-caracoleiro e gente gavião-de-cauda-curta) é caçador de guariba; ''karawara Taky Jará'' (gente tucano-de-bico-preto) se alimenta de bacabas; ''karawara Waha Jara'' (gente carangueijo-do-rio) é caçador de veado; e ''Haira Jara (gente irara ou papa- mel) desce à terra para coletar mel. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Descem à terra (''wya'') para caçar, preferindo não pisar no solo, pois entendem que o chão da terra é muito sujo, repleto de podridão, doenças e perecimento. A terra é habitada por criaturas desprezíveis aos olhos dos ''karawara'', como os animais de criação dos brancos, principalmente os cachorros - cuja palavra na língua dos ''karawara'' é ''karory'ỹma'', “lixo” -, além de galinhas, bovinos e porcos domésticos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os ''karawara'' sentem tanta fobia pela sujeira terrena que quando voltam para sua morada passam um tempo cuspindo no chão (''jaru'' , “seu cuspir”) para liberar a sujeira através da saliva, se purificando. Os Awa também o fazem ao limparem vísceras, lidarem com sangue, carne podre ou qualquer outro odor fétido que impregne seus corpos. Alguns ''karawara'', como ''Inamẽxa’a'' (gente-pássaro-saurá) e ''Inamẽtyxa’a'' (gente-pássaro-anambé-azul) nunca descem à terra, pois a consideram extremamente suja. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Caçam com arcos, flechas e espingardas de cima das árvores, sem pisar o solo terreno (''wype'', “na terra”), e com uma rapidez espantosa. Seus equipamentos de caça lançam luzes e raios. Tanto a munição das armas quanto as flechas são constituídas por ''tata'' (energia/fogo), o que faz com que seus disparos sejam certeiros. O animal morre sem qualquer ferimento e, principalmente, sem derramar sangue. Os ''karawara'' tem pavor de sangue. Após a presa abatida, amarram suas pernas com embira (''iwira''), a levam para o céu, onde todo o processo de limpeza e cozimento da carne é realizado. Como os ''karawara'' conseguem carnes na quantidade que desejam, nunca estocam carnes moqueada em suas casas, tal como fazem os humanos. Ao contrário, eles comem tudo até que se acabe. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em poucas palavras, os ''karawara'' seriam, ao mesmo tempo, caçadores, pajés e espíritos magníficos. Ao descerem à terra (para caçar, extrair mel ou buscar água), os humanos não os encontram pois, além de serem rápidos em suas caçadas, as realizam em locais e matas distantes, onde os Awa não alcançam. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
São esses seres grandes pajés e os seus cantos de cura são cantos que tematizam suas caçadas. Para os humanos, essa relação entre xamanismo e caça também é marcante; muitos &amp;quot;rezadores&amp;quot; são grandes caçadores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Arte vocal ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cantar é um aspecto central para compreender a importância da caça e dos ''karawara'' na vida dos Awa. É possível dizer que uma das coisas que os Awa Guajá mais gostam de fazer, além de caçar, seja cantar. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cantam em muitas situações: antes do amanhecer, acompanhando o nascer do sol, avisando a uma seção residencial que o sol irá raiar; a noite, para embalar as crianças no sono; nas caçadas, bem baixinho para que não sejam ouvidos; ou bem alto, ao voltarem para a casa com a caça abatida.  Existem cantos que manifestam alegria, prazer sexual e a condição de se estar junto. Cantam mesmo até sem qualquer motivo aparente, só pelo prazer de soltar a voz.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;quot;Cantar bonito&amp;quot; (''jã paryhỹ'') que é &amp;quot;cantar duro/forte&amp;quot; (''jã hatỹ''). Os Awa valorizam a duração e a força do som emitido ao cantar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A arte vocal awa é extremamente rica. É possível dizer que há tantas canções quanto são os karawara. Foram eles que ensinaram os cantos para a humanidade e cada um tem o seu repertório próprio. Cantar à noite, por exemplo, para uma criança dormir bem, sem pesadelos, é algo que os ''karawara'' aconselham aos humanos até hoje. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os cantos que os Awa executam na terra são os mesmos que os ''karawara'' produzem no céu e os temas variam de acordo com cada ''karawara'', pois cada espírito tem as suas peculiaridades. Esses inúmeros cantos revelam os aspectos mais essenciais de cada ''karawara'', que é o dono do canto: sua alimentação; seu modo de caçar e outros detalhes de sua existência. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao cantar em casa à noite, planejando uma caçada, muitos caçadores podem atrair o ''karawara'' (dono do canto) que, durante a caçada, sobretudo nas esperas noturnas, pode entrar no corpo do caçador e, tal como um &amp;quot;espírito auxiliar&amp;quot;, aumentar sua eficiência. Os ''karawara'', portanto, auxiliam os Awa em suas caçadas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os cantos remetem diretamente à presa que o ''karawara'', dono do canto, costuma caçar. E, nesse sentido, são cantos de caça que os Awa entoam, em voz baixa, quando vão para floresta caçar e, em voz alta, quando retornam para aldeia após um dia de caça.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A forma dos cantos é parecida, mas o que muda são os conteúdos, pois remetem a um ''karawara'' específico. Vejamos um exemplo:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Canto de ''karawara tapi'i jara'' (gente-anta) ====&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;row&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;col-md-4 col-md-offset-2&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
{{Lead |&lt;br /&gt;
Awata taryka pyha&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
A'u hanimi'ũa pyha&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
A'u hanimi'ũa&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
Awata pyha&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
A'u akaju&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
Awata matarahỹ nipe&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;col-md-5&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
{{Lead |&lt;br /&gt;
Eu ando (caço) atrás de tatajuba à noite&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
Eu como minha comida à noite&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
Eu como minha comida&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
Eu ando (caço) à noite&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
Eu como caju do mato&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
Eu ando (caço) pelo escuro&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awa não cantam para os ''karawara'', mas como os ''karawara''. Eles se tornam esses espíritos celestes para cantar e caçar. Ao cantar, evocam o ponto de vista desses caçadores infalíveis que vivem no céu e ao fazê-lo se aproximam de um ideal de caça, inalcançável para os humanos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há ainda os cantos relacionados ao xamanismo awa que são realizados durante as sessões de cura. É no ritual da ''takaja'' que os cantos atingem um de seus principais objetivos: a comunicação com os ''karawara''.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Ritual ''takaja'' ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além dos Awa, outros povos montam &amp;quot;tocaias para a realização de diversos rituais, como os Asurini do Xingu, [[Povo:Aikewara|Aikewara]], Parakanã, entre outros. Apesar das diferenças entre elas, tais espaços se caracterizam por serem locais onde espíritos e divindades celestes se instalam ao visitar a terra, seja para se alimentar, cantar, dançar ou curar. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A tocaia awa, chamada ''takaja'', tem como objetivo aproximar os mundos e trazer os ''karawara'' para cantar na terra, permitindo também que os homens viajem ao céu para cantar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos meses do verão, um abrigo ritual semelhante a uma tocaia (''takaja'') é construído e é lá onde o ritual acontece. É somente durante à noite que os homens entram na ''takaja'' e entoam os cantos. A escuridão é uma das marcas desse momento ritual, os ''karawara'' só descem à terra na escuridão, pois, mesmo vindo caçar durante o dia, não gostam da luminosidade terrena. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas tocaias rituais, diferentemente daquelas feitas para caçar, há uma abertura no teto, de onde os xamãs-cantadores awa partem para alcançar ''iwa'', as plataformas celestes. A ''takaja'' não funciona como uma &amp;quot;casa cerimonial&amp;quot; em um pátio central, que congregaria humanos e deuses; ela é um elemento bem discreto e minimalista nas aldeias awa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Piraima’a se preparando para o ritual de “subida para o céu”. Aldeia Juriti, TI Awa, 2009. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/0_f6f20472c931084/71170scr_ed36843a4698c54.jpg?v=2020-12-10+13%3A15%3A30&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No início da noite, os homens começam a entoar seus cantos de maneira muito potente. E, aos poucos, começam a se adornar. Suas esposas os ajudam a se paramentar. A ornamentação consiste em braceletes com penas de tucano, chamados ''jamakwa'', e um cocar formado com as mesmas penas, chamado ''jakỹita''. No corpo e nos cabelos são afixadas penugens brancas de harpia, gaviões ou urubu-rei. Estas são presas com resina cheirosa de dois tipos de breu chamados ''jawarako'' e ''uhuka''. O cheiro dessas resinas, dizem os Awa, é o próprio cheiro dos ''karawara''. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Enquanto se adornam, os homens cantam, e uma vez prontos se dirigem ao abrigo cantando e dançando com passos específicos: as duas mãos entrelaçadas sobre o peito e, sem mudar a postura das mãos, levantam e abaixam o corpo como os movimentos de uma ave a ciscar o chão. Esta é uma das danças executadas pelos ''karawara'' no céu e imitadas pelos humanos na terra. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cantoria (''janaha'') e a dança (''panỹ'') se iniciam, enquanto, um de cada vez, os homens adentram a ''takaja'' para cantar. Uma vez dentro, o homem inicia uma sucessão de cantos que são entoados com toda a força. Do lado de fora da ''takaja'', homens, mulheres e, por vezes, nos momentos iniciais da noite, crianças, seguem cantando. É possível perceber o som da voz masculina dentro da ''takaja'' se deslocando de um lado para outro, já que o homem que se encontra dentro está dançando em movimentos circulares. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
De repente ouve-se o barulho de um salto e um silêncio mortal no interior do abrigo: - O homem foi para o céu (''oho iwape''), alguém comenta. Nessa hora, a esposa, irmã ou outra mulher ligada ao viajante celeste inicia um canto frenético. É só a partir daí que podemos enxergar a importância das mulheres durante a cantoria. Sem elas dificilmente os homens conseguiriam voltar para casa, pois não conseguiriam encontrar o caminho de volta; atravessam muitos céus e poderiam facilmente se perder nesses mundos. O canto das esposas é o único elo que permite a conexão entre o céu a terra. Após subir ao céu, um homem pode permanecer lá por um tempo relativamente longo (algumas horas). Todo o ritual da ''takaja'' pode durar desde duas até umas seis horas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Da mesma forma como ocorre quando alguém sonha (''imuhy''), o corpo do homem, quando dentro da ''takaja'', permanece na terra e o &amp;quot;princípio vital&amp;quot; (''hajtekera'') se desprende do corpo e viaja até o céu. Subir até lá é sempre perigoso. Os ''karawara'' convidam os homens para que subam mais em outros céus, que conheçam outras aldeias celestes; comam deliciosos banquetes; conheçam outros cantos, outras danças. Mas os humanos sabem que isso significaria a sua morte. Se os homens se distanciarem da terra, não ouviriam mais suas esposas cantando e assim perderiam o caminho de volta. todos sabem que não se deve andar muito nas plataformas celestes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Aru ''karawara'', trazer os espíritos celestes ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os homens se deslocam para os patamares celestes (''iwa'') a fim de entrar em contato com os ''karawara'', espíritos celestes. O ritual da ''takaja'' também tem como objetivo aproximar os ''karawara'' que vem na terra cantar, dançar e realizar curas xamânicas, pois são considerados grandes pajés.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma vez que o homem vai para o céu, o silêncio reina no interior da ''takaja''. Esse estado permanece por longos minutos e algum tempo depois, ouve-se o barulho de um pulo: dois pés pisam o chão simultaneamente, o que indica que algum visitante celeste veio a terra cantar. Quando os homens sobem aos céus, seu corpo fica dentro da ''takaja'', vazio, e é utilizado pelos ''karawara'' como uma pele. Ao se referir a quem sobe, os Awa dizem que ele &amp;quot;traz os ''karawara''&amp;quot;. Uma vez no céu, o homem diz aos seres celestes: &amp;quot;Desçam, vão ver seus parentes na terra&amp;quot;. Alguns são bem-vindos, outros não e por isso devem ser espantados. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada ''karawara'' tem especificidades em seus cantos de modo que todas as pessoas que estão do lado de fora da ''takaja'' sabem exatamente qual ser está em seu interior. Quando descem do céu, emitem sons característicos de seus duplos terrestres (onça, gavião, pássaros, marimbondos, porcos etc.). À medida que os homens saem da ''takaja'' para cantar do lado de fora (quem canta são os próprios ''karawara''), param na frente das mulheres e crianças, cantam (''jã'') e sopram (''pyy'') os seus corpos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de cura consiste basicamente em trazer o &amp;quot;calor do céu&amp;quot; (''iwa rakuha'') e soprá-lo em diversas partes do corpo da pessoa. Esse calor pode agir de forma preventiva, fortalecendo o corpo, assim como pode curar uma pessoa doente. Os sopros executados pelo cantador-xamã fazem com que as pessoas fiquem bem, sem doença. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há uma outra expressão para mencionar esse procedimento terapêutico: ''ru iwa janaha'', &amp;quot;trazer a música/canto do céu&amp;quot;. Os ''karawara'' e a cura estão diretamente relacionados. É pelo canto que os homens se comunicam com esses espíritos celestes que, então, os auxiliam nas curas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terapêutica awa se vale de cantos e remédios tradicionais. Os Awa não fazem uso de tabaco nem de bebidas fortificantes que seriam consumidas pelos cantadores-xamãs. O máximo que utilizam são remédios da floresta como auxílio da cura, porém o básico é o canto e o sopro. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além da ''takaja'', há pelo menos uma outra forma de trazer os ''karawara'' à terra: por meio de cantos noturnos feitos por um homem em sua casa. Seu princípio vital deixa o corpo e vai ao céu enquanto o ''karawara'' vem à terra para curar. Quando o homem canta, o ''karawara'' se instala em seu peito e logo lhe comunica os procedimentos que devem ser feitos. Essas curas são chamadas simplesmente de ''karawara'' ou ru ''karawara'' (&amp;quot;trazer espírito&amp;quot;). Os corpos dos pacientes são, então, soprados, tirando o agente patogênico (''ha'aera'') que ali se instalou. &lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
Os ''karawara'' ajudam os homens a curar e a caçar, pois com eles estabelecem relações de reciprocidades. Mas sem a caça, o mel e a água terrena os ''karawara'' morrem. Nesse sentido, o desequilíbrio ecológico é também desequilíbrio cósmico. O fim da vida celeste pode ser provocado pelo desmatamento e degradação ambiental na terra e pela penúria alimentar dos ''karawara'' e dos Awa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awá nunca falaram explicitamente sobre uma teoria fatalista oriunda do desmatamento, mas sugeriram, em diversos momentos, o descontentamento dos ''karawara'' com o fim da floresta. Os ''karawara'' estão os mais interessados nas florestas em pé, pois o mundo dos espíritos celestes está em relação de continuidade com o mundo dos Awa. Isso acarreta apreensão e tristeza aos humanos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Novas formas de organização política ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awa Guajá que vivem nas aldeias são considerados pelo Estado brasileiro como um povo de “recente contato” e por isso vivem sob sua forte tutela. São pessoas que vivenciaram diversas políticas de contato: desde a criação das chamadas “frentes de atração”, passando pelos postos indígenas até a reestruturação da Funai e a criação das Frentes de Proteção Etnoambiental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao longo desse período, esses Awa foram alijados de qualquer processo participativo que pudesse prepará-los para a barbárie que chegaria, mais recentemente, com a duplicação da Estrada de Ferro Carajás e diversas outras ameaças como a maciça invasão de seus territórios por madeireiros e posseiros.&lt;br /&gt;
  &lt;br /&gt;
Os Awa estão no meio de um turbilhão de transformações decorrentes do contato, do desmatamento e da invasão de seus territórios, de novos relacionamentos com a Frente de Proteção Awá-Guajá/Funai, os Guajajara (seus aliados na proteção da floresta), além de outros agentes. Além disso, há a chegado de recursos oriundos de um Plano Básico Ambiental (PBA) de mitigação dos impactos da duplicação da ferrovia Carajás da Vale. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fim de lidar com esses desafios, criaram duas associações indígenas cujo objetivo principal é fortalecê-los frente a tantas mudanças e ameaças. Em 2018, foram fundadas a Associação Kakỹ (TI Alto Turiaçu) e a Associação Arari (TIs Caru e Awá). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Reunião de formação da organizações indígenas Arari e Kakỹ. Aldeia Awá, TI Caru, 2016.&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/6/5_7494e35d760e870/71165scr_2cd34438332d060.jpg?v=2020-12-10+12%3A46%3A51&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As associações receberam um aporte financeiro inicial oriundos do Plano Básico Ambiental (PBA) da duplicação da ferrovia e hoje conta com diretorias constituídas e um assessor não indígena contratado cada uma. Esse processo tem aproximado de maneira inédita os Awa das diferentes aldeias e, além disso, do ponto de vista desse povo, as associações vêm atuando como um interlocutor entre as aldeias e os diversos agentes de fora. O objetivo principal dessas organizações é formular projetos que sejam interessantes para as aldeias no sentido de promover ações com as quais os Awa se identificam e ao mesmo tempo gerar renda para as famílias. As mulheres, especialmente, estão engajadas na produção de artesanatos os quais desejam comercializar por meio da Associação Arari e também esperam participar de oficinas promovidas pela associação (de artesanato, mas não só), com a participação de instrutores possam ensiná-las novas técnicas e linguagens ou apoiá-las no aperfeiçoamento de trabalhos que já realizam. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os resultados de todos esses processos ainda são incertos, mas para os Awa Guajá já passou da hora de assumir o protagonismo de suas vidas. Durante décadas foram retratados como “exóticos”, “nômades”, “caçadores-coletores”, “sobreviventes” e toda a sorte de adjetivos que ressaltavam uma equivocada primitividade. Hoje estão buscando gerir plenamente suas vidas, cujos desafios, como a entrada do dinheiro com benefícios sociais, a chegada de ONGs, as compensações ambientais e mesmo as missões evangélicas (para o caso da TI Alto Turiaçu), os colocam em contextos que trazem muitas incertezas, inclusive, existenciais. O maior desafio reside em garantir de forma conciliada a proteção dos recursos naturais, o desenvolvimento de fontes de renda sustentáveis e a manutenção da qualidade de vida, frente a tantos retrocessos que o Brasil vem atravessando nas áreas ambientais e de direitos humanos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Notas sobre as fontes ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar deste verbete basear-se substancialmente em meu próprio trabalho, cujos principais resultados podem ser encontrados no livro ''Crônicas de Caça e Criação'' (2018), muitos autores são decisivos para a consolidação de uma literatura qualificada sobre os Awa Guajá.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Autores como Loretta Cormier (2003) Louis Forline (1997) e, sobretudo, William Balée (1994) e Mércio Gomes (1982, 1985) dedicaram páginas importantes de seus trabalhos a fim de reconstruir a ocupação awa guajá na região do leste amazônico que, mesmo com relatos esporádicos desde o século XIX, raramente apareceu na bibliografia etnológica especializada.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Das primeiras descrições, a mais segura provavelmente é a da Curt Nimuendajú (1948) à época do ''Handbook of South American Indians'' (Vol. 3). Além de se basear em sua passagem pela região, o autor também compila um conjunto de outros relatos. Em Nimuendajú (1948) são contempladas descrições como a de Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio (1825) que, em 1774, menciona entre os grupos indígenas do baixo Tocantins os Uaya. Um outro autor apresentado por Nimuendaju, Cezar Augusto Marques (1864), menciona os Ayaya, um povo &amp;quot;selvagem&amp;quot; que se encontrava nas imediações da estrada que ligava Imperatriz a Belém. De acordo com Araujo Brusque (1862: 12) os Uaiara (Guajará, segundo Nimuendajú) podiam ser vistos no alto curso do Rio Gurupi, mas não fixaram residência naquela região (Nimuendajú, 1948: 135-136). Antes de Nimuendajú, o engenheiro Gustavo Luís Guilherme Dodt viajou pela região do Gurupi (na segunda metade do século XIX) e em 1873 publicou o seu relato que foi reeditado em 1939 (Dodt, 1939).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1957, François-Xavier Beghin publicou um curto e pioneiro relato de viagem no ''Journal de la société des américanistes'' a partir de um encontro que teve com um grupo awa que vivia na região do rio Turiaçu, no limite com o estado do Pará. Tal encontro, muito bem descrito, foi mediado por seu Raimundo, um homem negro que trabalhava como guarda-linha na região. Neste relato, o autor capta elementos importantes sobre os Awa que até hoje são fontes de debate e interesse: gosto pela vida na mata, o interesse pela caça e pela criação de animais em suas pequenas aldeias-acampamentos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Posteriormente, foi em trabalhos sobre os Ka’apor, como o de Francis Huxley (1963) e Darcy Ribeiro (1996), que conhecemos um pouco mais dos Awa - a partir da descrição dos encontros dos Ka’apor (e mesmo desses antropólogos) com grupos awa da região do rio Gurupi.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em relação ao contato, o primeiro relatório oficial foi redigido pela antropóloga italiana Valéria Parise em 1973 (''Relatório da viagem ao Alto Rio Carú e Igarapé da Fome para verificar a presença de índios Guajá''). Junto com Parise estavam também os sertanistas Jairo Alberto Patusco e José Carlos Meirelles, este último veio se tornar um dos mais importantes indigenistas do país. Na década de 1980, Mércio Gomes também escreveu um conjunto de relatórios, comunicações e reflexões em parte como pesquisador independente, em parte para a Funai e como coordenador do chamado “Programa Awá”, concebido no bojo da construção da Estrada de Ferro Carajás. O objetivo do programa era conter o impacto da construção da ferrovia na vida dessa população. Os relatórios e publicações de Gomes são importantes para termos a real dimensão do violento efeito do contato na vida dos Awa. Tais documentos encontram-se nos arquivos da Funai e destacamos aqui os trabalhos de 1985: ''Programa Awá – relatório Inicial; Relatório antropológico sobre a área indígena Guajá (Awá-Gurupi); Relatório sobre os índios Guajá Próximos à ferrovia Carajás - Km 400'' e, em parceria com José Carlos Meirelles, ''Área indígena Awá-Gurupi. Estudos e proposta''. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As décadas de 1980 e 1990, como desdobramento dos primeiros contatos oficiais com parte da população awa guajá, propiciou o aparecimento de diversas pesquisas, sobretudo, nas áreas de linguística e antropologia. Na linguística, a ''Análise fonêmica preliminar da língua Guajá'' (1987) de Péricles Cunha é pioneira. Em antropologia, temos as teses de Louis Carlos Forline, ''The persistence and cultural transformation of the Guaja Indians: Foragers of Maranhão state, Brazil'' (1997), e de Loretta Cormier, que veio a ser publicada em livro com o título ''Kinship With Monkeys'' (2003) - são os dois primeiros trabalhos monográficos sobre os Awa. Ao lado desses, o livro ''Footprints of the forest: Ka’apor ethnobotany – the historical ecology of plant utilization by an amazonian people'' de William Balée (1994), que realiza uma comparação entre os Ka’apor e os Guajá e suas distintas formas de manejo da floresta, é um marco na literatura, não só sobre os Awa Guajá, mas sobre a Amazônia como um todo.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em anos mais recentes, um conjunto de antropólogos e linguistas vêm se dedicando ao estudo de diferentes aspectos da vida dessa população. Muitos desses autores estiveram apenas de passagem, o que em nada diminui a sua contribuição. Outros, por sua vez, vêm construindo uma parceria duradoura que associa atuação política e produção de um conhecimento situado a partir dos interesses dos Guajá. Sob uma perspectiva mais materialista, da ecologia política, destacam-se a dissertação de mestrado de Helbert Medeiros Prado, ''O impacto da caça versus a conservação de primatas numa comunidade indígena Guajá'' (2008), e publicações de Prado com Louis Carlos Forline e Renato Kipnis como ''&amp;quot;Hunting Practices among the Awá-Guajá: Towards a long-term analysis of sustainability in an Amazonian indigenous community&amp;quot;'' (2012). Além desses estudos, um grupo de arqueólogos estrangeiros também publicou análises nessa mesma perspectiva. Destacamos o artigo de Alfredo González Rubial, Almudena Hernando e Gustavo Politis ''&amp;quot;Ontology of the self and material culture: Arrow-making among the Awá hunter-gatherers (Brazil)&amp;quot;'' (2010). Por fim, sob essa perspectiva, é importante destacar o livro de William Balée ''Cultural Forests of the Amazon. A Historical Ecology of People and their Landscapes'' (2013).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob uma perspectiva histórica e do contato destacamos os trabalhos de Eliane Cantarino O'Dweyer, ''O papel social do Antropólogo'' (2010), com uma profunda reflexão sobre a produção de dados para o laudo da Terra Indígena Awá e os desdobramentos dessa pesquisa. Há também a coletânea organizada por Almudena Hernando e Elisabeth Maria Beserra Coelho - ''Estudos sobre os Awá – caçadores-coletores em transição'' (2013) que reúne trabalhos de autores com diferentes orientações.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Reunindo etnograficamente história, política e ecologia a tese de doutorado Guilherme Ramos Cardoso, ''Ariku karai pyry: o &amp;quot;ficar no meio dos brancos&amp;quot; para os Awa do Pindaré, MA'' (2019 Unicamp), e a dissertação de mestrado de Marcelo Yokoi - ''Na Terra, no céu: os Awá-Guajá e os Outros'' (2014 Unicamp) - também se destacam como fontes incontornáveis. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mais recentemente, na área de linguística, a tese ''Sobre a Morfologia e a Sintaxe da Língua Guajá'' (Família Tupi-Guarani) (2007 UnB) de Marina Magalhães é uma contribuição decisiva. E, além desta, a tese de Flávia de Freitas Berto - ''Tipologia de articulação de cláusulas: contribuições de um estudo sobre o Guajá'' (2017 Unesp) também se destaca. Além dessas, a pesquisa ''Awa Papejapoha: um estudo sobre educação escolar entre os awá guajá/MA'' (2015 UnB) de Rosana de Jesus Diniz Santos, a partir de sua experiência enquanto missionária do CIMI e professora da escola indígena é uma importante contribuição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências bibliográficas ==&lt;br /&gt;
{{Well |conteudo=&lt;br /&gt;
* '''BALÉE, William L.''' 1994. Footprints of the forest: Ka’apor ethnobotany - the historical ecology of plant utilization by an Amazonian people. New York: Columbia University Press, 1994.&lt;br /&gt;
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* '''BERTO, Flavia de Freitas'''. ''Tipologia de articulação de cláusulas: contribuições de um estudo sobre o Guajá''. Tese de doutorado, UNESP 2017. &lt;br /&gt;
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* '''CARDOSO, Guilherme Ramos.''' 2019. ''Ariku karai pyry: o &amp;quot;ficar no meio dos brancos&amp;quot; para os Awa do Pindaré, MA''. Tese de Doutorado, UNICAMP, 2019.&lt;br /&gt;
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* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 2012a. “Ka’á Watá, ‘andar na floresta’: caça e território em um grupo tupi da Amazônia”. Mediações – Revista de Ciências Sociais, 17(1), pp. 172-190.&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
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* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 2010. &amp;lt;/nowiki&amp;gt;''Karawara: a caça e o mundo dos Awá-Guajá''. Tese (Doutorado) USP. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Universidade de São Paulo, São Paulo. [https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8134/tde-26072011-145355/publico/2010_UiraFelippeGarcia.pdf https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8134/tde-26072011-145355/publico/2010_UiraFelippeGarcia.pdf]&lt;br /&gt;
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}}&lt;br /&gt;
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== VÍDEOS ==&lt;br /&gt;
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		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Awa_Guaj%C3%A1&amp;diff=8467</id>
		<title>Povo:Awa Guajá</title>
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		<updated>2025-07-30T17:39:44Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Crianças brincando em acampamento de caça. Aldeia Awa, TI Caru, 2013. Foto: Uirá Garcia &lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/7_30283c83f062354/71177scr_2c21db22ee091f3.jpg?v=2020-12-10+13%3A18%3A02&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Guajá, que vivem na pré-Amazônia brasileira, constituem um dos últimos habitantes dos formadores dos rios Pindaré e Gurupi, os Awa Guajá vivem em terras indígenas situadas nos últimos refúgios de floresta amazônica no estado do Maranhão. A maior parte da população vive em aldeias, mas há grupos vivendo em isolamento voluntário nas TIs Awá, Caru e Araribóia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A história dos Awa Guajá é marcada por genocídios e pela violência sofrida ao longo de décadas, desde os primeiros contatos com os não indígenas. Seu território tradicional foi atravessado e cortado ao meio pela Rodovia BR-222, na década 1960, e pela Estrada de Ferro Carajás, nos anos 1980. A partir das frentes de colonização e da implementação das políticas de desenvolvimento econômico no norte do país, ocorridas no período militar, os Awa resistiram como puderam para se manterem vivos e seguirem com um modo de vida essencialmente ligado à floresta. O profundo conhecimento sobre a mata, os animais e as plantas revela formas de ação que evidenciam o quanto os Awa são responsáveis por manter vivo o que restou de floresta no Maranhão. Apesar de sua resiliência, é notável impactos irreversíveis dessas políticas no que diz respeito à garantia de seus direitos territoriais. Um povo cuja alimentação tradicional é constituída por aquilo que coletam e caçam na mata vive hoje desafios imensos – o maior deles é a proteção das florestas tropicais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Nomes ==&lt;br /&gt;
Os Awa Guajá, também conhecidos como Guajá, se autodenominam Awa, termo que inclui todos os falantes da língua, independentemente de onde vivam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Empregamos aqui no nome composto Awa Guajá, respeitando a forma como esse povo prefere ser reconhecido atualmente. A palavra Awa é sem acento agudo, seguindo a ortografia utilizada pelas comunidades em suas escolas, e a palavra Guajá, uma denominação externa, respeita a ortografia do português. &lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
Politicamente, os termos Awa Guajá, Awá e Guajá ainda são utilizados por eles de forma alternada, a depender do contexto, dos interlocutores e de outros fatores sociopolíticos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As primeiras menções a esse povo datam da década de 1940 e lá encontramos a denominação Guajá. O nome foi atribuído por não indígenas durante os primeiros contatos com o objetivo de distinguir essa população dos Tenetehara ([[Povo:Guajajara|Guajajara]]), um povo vizinho. Outras fontes apontam que foram os [[Povo:Ka'apor|Ka'apor]] os primeiros a chamá-los de Guajá. Nos documentos produzidos até a década de 1990, eram nomeados Guajá. &lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
''Awa'' é a autodesignação destas pessoas e significa &amp;quot;gente&amp;quot;, &amp;quot;humano&amp;quot;. A palavra é empregada pelos Awa Guajá para se diferenciar de outros tipos de gente. Para eles, a humanidade não é uma unidade homogênea que pode ser expressa na ideia de que &amp;quot;somos todos humanos&amp;quot;. Ao contrário, a humanidade em seu sentido forte refere-se somente a pessoas que falam a mesma língua, compartilham um espaço e um modo de vida, alimentam-se da mesma forma, respeitam as mesmas regras de etiqueta etc.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
O termo awa também é utilizado por diversos grupos amazônicos falantes de línguas da família Tupi-Guarani para se referir a si próprios como &amp;quot;gente&amp;quot;, &amp;quot;humano&amp;quot;. É o caso, por exemplo, dos [[Povo:Parakanã|Parakanã]] do Pará, dos [[Povo:Asurini do Xingu|Asuriní do rio Xingu]] e dos vizinhos Ka'apor.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|O caçador Majhuxa’a (à esquerda) e sua esposa Pakawãja (em pé), compartilhando um pedaço da saborosa carne de paca com seu cunhado Akamatỹa. Aldeia Tiracambu, TI Caru, 2013. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/8/5_a6d46ec75dbda6d/71185scr_1b623538433599b.jpg?v=2020-12-10+13%3A22%3A11&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
Para os Awa Guajá, existem tipos diferentes de &amp;quot;gente&amp;quot; ou &amp;quot;humanos&amp;quot;. Pessoas muito próximas entre si, como os residentes de uma mesma aldeia, se chamam de ''Awatea'', &amp;quot;gente mesmo&amp;quot; ou &amp;quot;gente de verdade&amp;quot;, quando querem se diferenciar dos demais. Pessoas que vivem em aldeias diferentes podem se referir umas às outras utilizando o termo ''Awa'' e não necessariamente ''Awatea''. Quando os Awa Guajá se pensam como um todo (um povo indígena diferente dos demais) se consideram ''Awa'', que é a autodesignação mais geral.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
Mas como são chamadas as pessoas que são consideradas diferentes? Há três categorias centrais utilizadas para se referir a outros tipos de gente: 1) ''Kamara'', usada para se referir aos indígenas de outras etnias; 2) ''Karaia'', remete aos não indígenas; 3) ''Mihua'', termo utilizado para nomear os Awá e outros povos desconhecidos, potencialmente bravos, como os Awa Guajá isolados. Outro termo que usam para designar os isolados é ''Awa ka'apahara'', &amp;quot;gente do mato&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Língua ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Em um descanso na floresta, durante uma caçada, Airuhua conversa com seu filho Jahara. Aldeia Juriti, TI Awa, 2008.  Foto: Uirá Garcia &lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/1_a8851b3a8b9d9a8/71171scr_0b6b1f624584f31.jpg?v=2020-12-10+13%3A15%3A44&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
A língua Guajá integra o Tronco Tupí e pertence ao subgrupo VIII da família linguística Tupi-Guarani, que inclui as línguas faladas pelos povos Ka'apor, [[Povo:Wajãpi|Wajãpi]], [[Povo:Zo'é|Zo'é]], [[Povo:Amanayé|Amanayé]], [[Povo:Anambé|Anambé]], [[Povo:Tembé|Tembé]], [[Povo:Tapirapé|Tapirapé]], entre outras (Rodrigues, 1984/85; Cabral, 1996). Foi inicialmente estudada por Péricles Cunha (1988) e mais recentemente por Marina Magalhães (2002 e 2007). &lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
Devido ao fato de os Awa Guajá viverem, antes do contato e da sedentarização, organizados em pequenos grupos familiares dispersos em vários territórios, a língua possui variantes associadas aos grupos de origem. Atualmente, vivem na mesma aldeia grupos distintos que foram contatados em momentos diferentes e é possível identificar variações linguísticas sutis específicas a cada um desses grupos, relacionadas à realização de alguns fonemas e itens lexicais. &lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
Há ainda as diferenças relacionadas aos locais onde as aldeias awá foram criadas. A variante falada pelos Awa Guajá que vivem na [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3575 Terra Indígena Alto Turiaçu] é diferente das demais: há empréstimos da língua falada pelos Ka’apor, povo com o qual compartilham o território. Já a variante dos Awa Guajá residentes nas Terras Indígenas [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3645 Caru] e [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3608 Awá], compartilha palavras e estruturas gramaticais com a língua Guajajara.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
No que se refere à sua vitalidade, a língua Guajá é falada fluentemente em todas as comunidades e por todos os indivíduos e não apresenta indícios de que está enfraquecendo. Observa-se ainda, em todas as aldeias, um grau de bilinguismo que pode variar razoavelmente considerando aspectos como gênero, idade e grau de convivência com os não indígenas. De maneira geral, aqueles que melhor se comunicam em português são os homens mais jovens que costumam representar o povo em reuniões e eventos relacionados a questões político-sociais e que, normalmente, acompanham os velhos, as mulheres e as crianças quando estes precisam sair das aldeias. No entanto, especificamente na aldeia Cocal, há lideranças femininas bilíngues que também exercem essa mesma função.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;small&amp;gt;[&amp;lt;em&amp;gt;Colaboração de Marina Magalhães (Linguista, UNB)&amp;lt;/em&amp;gt;]&amp;lt;/small&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== População e localização == &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awa Guajá são uma pequena população que se encontra na porção oriental da Amazônia, no noroeste do estado do Maranhão. Seu contingente populacional é estimado em cerca de 520 pessoas (Garcia, 2018) e a maioria vive em contato há décadas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Da direita para a esquerda, os jovens Tarapẽ, Xikapiõ e Juwi’ia, à noite em um retiro de caça. TI Awá, 2016. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/8/6_9c4baf5a1f6c4e4/71186scr_406af308848bb48.jpg?v=2020-12-10+13%3A22%3A48&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A mais antiga aldeia é Cocal (antigo Posto Indígena Guajá), localizada na [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3575 TI Alto Turiaçu], onde também vivem os povos Ka'apor e Tembé. Na [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3645 TI Caru], território compartilhado com os Tenetehara (Guajajara), estão as aldeias  Tiracambu e Nova Samiỹ. Já na [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3608 TI Awá], a última a ser demarcada, está localizada a aldeia Juriti.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há também grupos awa isolados, confirmados pela Funai, que vivem entre as TIs Awá e Caru, além de um outro grupo isolado na [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3600 TI Araribóia], território guajajara mais ao sul e a leste. Este é o principal registro da presença de isolados awa guajá cuja população é estimada em dezenas de pessoas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
De acordo com notícias, relatórios da Funai, documentações dispersas e, sobretudo, os relatos dos Guajajara, estima-se que existiam, em 2019, ao menos 60 Awa Guajá isolados na TI Araribóia. Este dado impressiona, pois tratam-se de grupos isolados vivendo em uma Terra Indígena que abriga mais de 14 mil pessoas do povo Guajajara e que sofre com o altíssimo índice de desmatamento decorrente da ação de madeireiros ilegais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pouco se sabe sobre a maneira que esses isolados awa guajá se organizam; quantos grupos são; em quais regiões da TI Araribóia cada grupo estaria; o número exato de pessoas, entre outras informações estratégicas. Devido à sua grande mobilidade e ao fato de estarem constantemente fugindo de madeireiros, narcotraficantes, pequenos posseiros e outros invasores, é difícil termos certeza de onde esses grupos isolados estariam e mesmo quantos são.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A porção de floresta amazônica no Maranhão é uma região com alto grau de pressão antrópica e de desmatamento e é lá onde vivem os Awa. Seus territórios estão nas últimas parcelas de floresta tropical parcialmente preservadas do estado e formam um corredor verde junto com a Reserva Biológica/REBIO do Gurupi, a única Unidade de Conservação de proteção integral na amazônia maranhense. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo estudos, em 2017, 75% da floresta amazônica havia sido desmatada no Maranhão. As principais atividades econômicas na região são, de um lado, o corte de madeira e a produção de carvão vegetal e, de outro, o desenvolvimento da agropecuária e as plantações de eucalipto nas áreas desmatadas. A consequência disso é que há décadas as Terras Indígenas têm sido invadidas e os seus habitantes, as maiores vítimas do desmatamento. O número de lideranças indígenas assassinadas no Maranhão é extremamente alto. Um estudo feito em 2019 pelo Instituto Socioambiental e ''Joint Research Centre'' aponta que nas Terras Indígenas habitadas pelos Awa Guajá 92% da floresta remanescente está degradada, ao passo que a TI Araribóia, palco de diversos assassinatos a lideranças guajajara nesse ano, tem 38% da floresta remanescente comprometida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awa Guajá, ao lado de outros povos, vivem ilhados em áreas remanescentes da floresta amazônica e estão ameaçados pela destruição ambiental e pela violência que vem no lastro destas atividades ilegais.&lt;br /&gt;
{{Well&lt;br /&gt;
|conteudo=&lt;br /&gt;
Veja o documentário ''Ka’a zar ukyze wà - Os Donos da Floresta em Perigo'' (2019) dirigido por Flay Guajajara, Edivan dos Santos Guajajara e Erisvan Bone Guajajara sobre os Awa isolados na TI Araribóia. &lt;br /&gt;
{{Vídeo&lt;br /&gt;
|12&lt;br /&gt;
|https://www.youtube.com/embed/yol-QPrVi3A|16by9|}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;clearfix&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;br&amp;gt;O filme traz imagens inéditas desse grupo e um pedido de socorro dos Guajajara pela proteção das florestas e dos Awa isolados cujo modo de vida depende essencialmente da floresta. Se a destruição continuar, o que será de suas vidas?&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fuga e resistência awá na longa duração ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diversos grupos indígenas que hoje ocupam o norte do Brasil migraram nos últimos séculos da região do médio Tocantins devido às frentes de colonização que avançavam para a região central do país. Diversos eventos devem ter colaborado para esses fluxos: guerras, como a Cabanagem (1835-1840) que atingiu a antiga província do Grão-Pará; a escravização indígena, assim como o aumento populacional da região onde viviam (Cormier, 2003). Esses elementos desestabilizaram a vida de vários povos que tiveram que fugir. Muitos deles seguiram para o norte e esse parece ter sido o caso dos Awa Guajá, Ka'apor, Wajãpi, Zo'é, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma das hipóteses mais prováveis é a dos Awa Guajá terem chegado na região depois dos Ka’apor, grupo historicamente inimigo, que também havia migrado para a região do rio Turiaçu. Até o século XIX, os Awa poderiam ser encontrados na porção leste do Pará e provavelmente no final desse século atravessaram o rio Gurupi para alcançar o atual Maranhão (Balée, 1994). Lá encontraram os Tenetehara, possíveis descendentes dos Tupi da costa maranhense (Wagley e Galvão, 1961). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Desde o século XIX, sabe-se que seus territórios se situam nas cabeceiras dos rios Pindaré, Turiaçu e seus tributários (Gomes, 1982). Outros relatos afirmam que há pelo menos 150 anos grupos awa guajá vivem nas imediações dos rios Pindaré e Turiaçu. Os fluxos migratórios desse povo ocorreram, muito provavelmente, no século XIX, quando grupos se deslocaram em direção ao norte, ocupando áreas onde hoje estão localizadas as TIs Caru, Awá e Alto Turiaçu. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar da dificuldade de traçar um histórico desses movimentos migratórios ao longo de séculos, é certo que pelo menos desde o início do século XX os Awa Guajá viviam próximos ao rio Pindaré, que ainda hoje é designado ''’yramãja'', o “grande rio”. Foi provavelmente através desse rio que os Awa ocuparam boa parte do seu território, chegando às cabeceiras do rio Caru e seus igarapés. Ao observar os afluentes do Pindaré, como os rios Zutiua, Buriticupu e Caru, notamos que esta bacia é como um conjunto de artérias que abrange todo o território tradicional dos Awa Guajá. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gomes e Meirelles (2002) consideram a possibilidade da região da Terra Indígena Araribóia ter sido o “coração” de um grande território awa guajá. Estes autores observam que tanto as áreas de serra na TI Araribóia, quanto as serras próximas (Desordem e Tiracambu) foram ocupadas pelos Awa tendo em vista o baixo “interesse agrícola” dessas terras para povos como os Ka’apor e Tenetehara. Os Awa Guajá nunca moraram próximos a rios navegáveis, sempre preferiram as áreas de topo de serra drenadas pelos rios Turiaçu, Caru e Pindaré e rios menores como o Turi, Turizinho, Rio do Sangue, Rio do Peixe, além de inúmeros igarapés. Foi perto desses pequenos igarapés que os Awa se sentiram mais seguros, dado o isolamento e o farto acesso à água. Em seus relatos sobre as inúmeras fugas vividas, a sede (''haiwê'') que sofriam é sempre mencionada com pesar. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A TI Araribóia, que hoje abriga grupos awa guajá isolados, parece central para se compreender a trajetória dos Awa Guajá como um todo, tanto dos grupos que preferem o isolamento, quanto dos Awa que vivem nas outras TIs. É como se todos os Awa estivessem conectados a ancestrais comuns que viveram na região onde hoje é a TI Araribóia. Se, nas últimas décadas, as duas áreas com presença confirmada de isolados (TIs Awá e Caru; TI Araribóia) abrigam grupos independentes, no sentido de serem, segundo a Funai, diferentes “registros”, o mesmo não teria ocorrido no passado se observamos a ocupação da região a partir uma longa duração. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antes da construção da rodovia BR-222, na década 1960, havia algo próximo a um território awa guajá contínuo, uma espécie de corredor que ia da TI Araribóia à TI Alto Turiaçu. Esses fluxos foram interrompidos no século XX, com a chegada de migrantes decorrente da construção da rodovia e com a construção da Estrada de Ferro Carajás, na década de 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que está na origem de quase todo o êxodo dos Awa Guajá, desde a saída de seu território ancestral (TI Araribóia) até a chegada nas matas do Pindaré, onde estão hoje as principais aldeias, é justamente o esgarçamento de seus espaços de vida (a floresta) devido às sucessivas levas de migrantes, a formação de povoados e, em seguida, de pequenos municípios próximos às Terras Indígenas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As fugas vividas pelos Awa ocorreram devido ao avanço das frentes de colonização no Maranhão iniciadas na década de 1960, com o apoio do governo, sobretudo, por meio da extinta Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste). O discurso oficial na época era o de que não havia povos indígenas na região e que havia ali um vazio demográfico. Ao longo das décadas seguintes, muitos povos indígenas foram contatados, territórios foram criados, no entanto outros grupos continuaram fugindo até a década de 1980, quando foi criado o Projeto Grande Carajás. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A economia que emergia na região até então ocupada pelos povos indígenas era inteiramente dependente da exploração dos recursos da floresta: extração de madeira, abertura de roças, produção de carvão, exploração de recursos naturais como as folhas de jaborandi (como foi o caso da indústria farmacêutica Merck), além da abertura de pastos e plantio de capim. Infelizmente, a drástica diminuição dos recursos florestais ainda é a tônica da economia regional que é resultado direto de políticas oficiais voltadas ao desenvolvimento econômico da região norte impulsionadas, sobretudo, nos anos da ditadura militar no Brasil e presentes até hoje. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas políticas tiveram impactos irreversíveis nos territórios dos Awa Guajá, em suas relações e na própria concepção de tempo que estrutura suas vidas - este dividiu-se entre o “tempo do mato” (''imỹna ka’ape'') e o tempo que marca a vida nas aldeias. A reunião de grupos familiares em aldeias grandes é uma experiência relativamente recente entre os Awa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Histórias dos contatos ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XX, mesmo com a intensificação da ocupação não indígena na região, os Awa conseguiram permanecer isolados, pois continuaram a fugir. Até o final da década de 1960, havia pouca informação sobre eles. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Embora o contato oficial entre o Estado brasileiro e os Awa Guajá tenha se iniciado na década de 1970, já se tem notícias de contatos com os Awa desde 1943, quando um pequeno grupo apareceu às margens do rio Pindaré. Em 1965, com a abertura da rodovia São Luís-Belém, outro contato mal-sucedido foi realizado com um grupo de 12 pessoas. Trabalhadores da estrada avistaram esse grupo e acionaram a Funai, que levou cerca de seis a sete indígenas para o então Posto Indígena Gonçalves Dias e todos morreram alguns meses depois (Gomes, 1985). Desde essa época até o final da década de 1980, morreram de tuberculose, sarampo, malária, disenteria e, sobretudo, gripe. Todos os Awa com mais de 25 anos guardam na memória histórias de pessoas próximas vitimadas pela gripe. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os processos de contato se dão lentamente desde a década de 1940. Em muitos encontros, os Awa contraíram doenças como sarampo e gripe, acarretando mortes, muitas vezes, de todo um grupo local. Oficialmente, o processo de contato com agências do Estado brasileiro teve início em 1973 com as expedições realizadas pelos sertanistas José Carlos Meirelles, Florindo Diniz e Jairo Patusco. Foi somente em 1976 que se deu o primeiro contato com um grupo que estava no alto curso do Rio Turiaçu. Este grupo deu origem ao que hoje é a aldeia Cocal (antigo Posto Indígena Guajá), na TI Alto Turiaçu. Dos 56 indivíduos contatados em 1976, restaram somente 26 pessoas, em 1980, doentes de malária e gripe. Em 2002, essa aldeia tinha 67 pessoas (Gomes e Meirelles, 2002).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ocorreram diversas iniciativas de aproximação, sobretudo, entre os anos 1970 e 1980. Além das frentes de atração, algumas famílias eram contatadas &amp;quot;por acaso&amp;quot;, em encontros com regionais ou com outros indígenas e não raro terminavam em mortes. Quando contatados fora do âmbito de atuação das frentes de atração, os Awa eram, em seguida, enviados para aldeias já criadas pelo órgão indigenista. Muitas vezes, não mantinham a menor relação com os residentes dessas aldeias e não tinham conhecimento necessário sobre a região para onde a Funai os havia levado. Outro fenômeno comum eram os próprios Awa buscarem o contato, aproximando-se dos vilarejos em busca de alimento e socorro. Na década de 1970, viveram um momento crítico, quase foram extintos. Restava-lhes pouca opção contra o genocídio: buscar o contato ou continuar a fugir. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar dessas expedições de contato realizadas pelo órgão indigenista oficial, boa parte do século XX foi marcada pelas fugas dos Awa Guajá. Foram épocas de muito sofrimento caracterizadas pela impermanência dos acampamentos e pelo risco permanente de serem mortos por não indígenas ou de morrerem devido a doenças infectocontagiosas. Em fuga permanente, não era possível viver de maneira adequada, caçar de forma certa e as coisas importantes para se ter perto, como arcos, feixes de flechas, objetos, tição de fogo etc., eram deixados para trás durante as &amp;quot;correrias&amp;quot;. Era preciso conter o choro das crianças para que os Awa em fuga não fossem ouvidos pelos não indígenas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As memórias recentes dos Awa Guajá estão repletas de episódios traumáticos. São relatos de sobreviventes de um genocídio nos quais são comuns menções à sede, ao medo, à tristeza, à falta de cônjuges, à morte. Em outras palavras, foram experiências de puro horror. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;quot;Os karai [não indígenas] mataram a minha esposa e meu filho. Eles atiraram neles na mata. Atiraram com arma de fogo feita de ferro. Eu era o pai. Quem morreu foi um antigo filho meu. Os karai o mataram com arma de fogo. Nós corremos e eles foram atrás de nós e os mataram. Os karai matam até crianças Awa! Mataram meu filho! Eu andei muito pela mata. Às vezes era muito calor e sentia sede. De longe eu ficava observando os karai. Via suas plantações de mandioca e milho. E pensava que um dia ia matá-los. Andava muito pela floresta: a floresta é grande! Muitas vezes eu estava tão perto dos karai que escutava o galo cantar. Por vezes eu passava fome&amp;quot;.&amp;lt;small&amp;gt;Karapiru, aldeia Tiracambu, 2013.&amp;lt;/small&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que manteve os Awá vivos e praticamente “invisíveis” durante todo o século XX foi a capacidade de viverem em grupos pequenos na floresta. Diante da necessidade de estarem permanentemente em fuga, esses grupos se dispersaram na mata e muitos deles somente voltaram a se encontrar após o contato oficial, quando foram reduzidos em aldeias permanentes. Não por acaso, ainda persistem pequenas diferenças dialetais entre os grupos locais que vivem nas quatro aldeias do povo Awa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A estratégia de incorporar nas equipes de expedições de contato indivíduos contatados do mesmo povo que está em isolamento foi e ainda é utilizada entre os Awa, como em toda a Amazônia indígena. Entretanto, nos últimos contatos ocorridos em 2006 e 2014, os Awa decidiram fazer sozinhos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A existência de Awa isolados na Terra Indígena Araribóia é alvo de grande preocupação por parte dos Tenetehara, povo que compartilha o território com esses isolados e que vêm atuando como uma espécie de protetor. Da mesma forma, os Awa Guajá que vivem nas aldeias estão preocupados com o tipo de vida precária que seus “parentes isolados” estão levando. Com frequência, homens awa que vivem nas TIs Caru e Awá se juntam às expedições na TI Araribóia, organizadas pela Frente de Proteção Etnoambiental Awá-Guajá (FPEAG)/Funai, para, de alguma maneira, contribuir para a proteção dos parentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os isolados Awa Guajá da TI Araribóia somam dezenas de pessoas, diferindo dos isolados que vivem entre as TIs Awá e Caru, que são menos numerosos. Da perspectiva dos Awa contatados, esses que conhecemos como “isolados” são chamados ora de “gente do mato” (''awa ka’apahara''), quando considerados “próximos”, ora de “gente brava” (''mihua''), quando são concebidos como distantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a década de 1990, ocorreram outros contatos na região da Araribóia com famílias e/ou indivíduos Awa Guajá que, posteriormente, foram transferidos para as TIs Caru e Awá. Os isolados que, hoje, resistem na TI Araribóia são remanescentes de um conjunto populacional composto por falantes de uma mesma língua (o Guajá) que vive separado há bastante tempo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No fim de 2014, houve o contato com três pessoas awa guajá na TI Caru. Eram remanescentes de um grupo que resistiu ao contato desde a década de 1980, conhecido como o “grupo de Miri-Miri”, em referência ao nome de seu líder. Esse grupo justificou a criação do posto indígena Tiracambu (TI Caru) visando, ali, fixá-los, mas Miri-Miri e seu pessoal preferiram permanecer na floresta. Estima-se que todos os isolados existentes na TI Caru sejam remanescentes ou descendentes do grupo de Miri-Miri. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após décadas fugindo, ora pelas serras, ora pelas matas drenadas pelos rios Pindaré, esse pequeno grupo se viu encurralado e sem perspectivas em um dos territórios mais ameaçados da Amazônia. O contato foi feito por um grupo residente na aldeia Awá (TI Caru). Há quase uma década, em 2006, pessoas dessa mesma aldeia localizaram e contataram membros do grupo encontrado em 2014.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A autonomia política dos Awa representada por pequenos grupos familiares, base de sua organização social pré-contato, fez com que o processo de contato atravessasse a década de 1990 e se arrastasse até hoje. Os grupos awa que evitam a todo o custo o contato estão nas áreas de mata contínua entre as TIs Caru e Awá e na TI Araribóia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Os Awá Guajá e a Estrada de Ferro Carajás ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Estrada de Ferro Carajás do Programa Grande Carajás, pólo de produção e exportação de minérios da então Companhia Vale do Rio Doce (hoje Vale S/A), foi inaugurada em 1985. A construção da ferrovia acelerou os contatos com grupos indígenas que até então viviam sem contato no Pará e no Maranhão. A política indigenista favoreceu a Vale do Rio Doce, na época empresa estatal, ao retirar os indígenas de seus territórios apenas por serem áreas por onde passaria a estrada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse período, os contatos com os grupos awa estavam no início, mas centenas de indivíduos não contatados já haviam morrido por causa de doenças e assassinatos perpetrados pela população regional emergente. A partir de 1982, a Companhia Vale do Rio Doce firmou um convênio com a Funai para dar início a delimitação das áreas que seriam destinadas aos Awa Guajá. Foi nesse contexto que começaram os trabalhos de demarcação das Terras Indígenas Caru e Alto Turiaçu, para onde eram levados os Awa que iam sendo contatados pela Funai.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Índios Guajá do Rio Turiaçu e membros da Frente de Atração. Foto: Vincent Carelli/Vídeo nas Aldeias&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/3/8/5/1_d35b0399549edef/53851scr_d9cb59546cb2cd7.jpg?v=2020-03-13+15%3A17%3A01&lt;br /&gt;
}} &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Motivado pela passagem da ferrovia em locais próximos aos territórios awa, o órgão indigenista reativou as chamadas frente de atração e então, a partir de 1984, novas famílias awa foram contatadas e novas mortes advindas de contatos pouco planejados ocorreram. Nessa época, muitos grupos awa foram localizados e alguns contatados nos igarapés formadores da cabeceira do rio Caru, como o igarapé Água Branca, um dos limites da Terra Indígena Caru, e o Igarapé Brejão. Estes locais estavam invadidos por pequenos grupos de posseiros e grileiros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O fato de a ferrovia cortar ao meio os territórios tradicionais awa pode ser atestado em inúmeros episódios ocorridos na década de 1980. Em 15 de agosto de 1985, na altura do km 396 da EFC, um motorista da empresa Tratex, empreiteira que trabalhava para a Companhia Vale do rio Doce, foi ferido por uma flecha no momento em que trabalhava na construção de um desvio que liga a ferrovia a BR-222. Só nesse ano, foi o terceiro episódio desse tipo que aconteceu nas imediações da ferrovia, envolvendo a população local recém-instalada e/ou trabalhadores da Vale e os Awa (Gomes, 1985). Em uma expedição realizada em agosto de 1985, Gomes ouviu relatos de que trabalhadores da ferrovia viam com frequência os Awa ao longo da estrada, assim como muitos moradores que viviam em lotes e fazendas próximas à ferrovia de Carajás. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1985, teve início a identificação da TI Awá. Essa TI interliga as TIs Caru, que margeia a ferrovia, e Alto Turiaçu, e foi destinada ao usufruto exclusivo dos Awa Guajá. No entanto, até a sua desintrusão completa, em 2014, estava invadida por centenas de ocupantes ilegais, entre eles fazendeiros, posseiros, madeireiros e pequenos agricultores. Nos últimos anos, mesmo após um longo processo de desintrusão, parte dos antigos ocupantes ilegais e invasores da TI Awá voltaram ao território ocupando-o novamente com gado e roças de mandioca para a produção comercial de farinha.   &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Projeto Carajás afetou não apenas os Awa Guajá, mas também cerca de 40 comunidades indígenas distintas (Treece, 1987), influenciando diretamente a atual configuração socioespacial dos povos indígenas na região, que perderam parcelas significativas de seus territórios tradicionais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A duplicação da ferrovia intensificou os impactos da Estrada de Ferro sobre as TIs onde vivem os Awa Guajá. As aldeias Awá e Tiracambu, na TI Caru, são muito próximas dos trilhos e, portanto, expostas à poluição sonora provocada pelo ruído dos trens de carga. O projeto de duplicação também resultou no aumento das pressões de madeireiros e invasores sobre os territórios indígenas que, até hoje, sofrem com invasões e incêndios criminosos, como os ocorridos em 2015 que afetaram 57,5% da TI Awá. &lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
O impacto da estrada de ferro é sentido pelos Awa Guajá de diversas formas. Além da presença física da ferrovia, do crescimento populacional regional e da pressão sobre seus territórios (intensificado pela duplicação), há a destruição florestal. Transtornos ecológicos decorrentes dos impactos da ferrovia, como a dispersão e morte dos animais, têm afetado suas atividades de caça, que são fundamentais para os Awa Guajá. O barulho produzido pelos trens (''terẽ ma’iha'')espanta os animais e atrapalha os sentidos dos caçadores em suas atividades diárias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como a grande maioria dos povos amazônicos, os Awa não possuem uma palavra para designar &amp;quot;animal&amp;quot;, mas sim para &amp;quot;caça&amp;quot; ou &amp;quot;presa&amp;quot;: ''ma'amiara''. Hoje em dia, no entanto, fazem uma distinção clara entre &amp;quot;caça brava&amp;quot; (''haitema'á'') e &amp;quot;caça mansa&amp;quot; (''haite’yma'a''). A &amp;quot;caça brava&amp;quot; está acostumada com o barulho dos tratores, motosserras, trens e povoados que existem no entorno dos territórios e por isso mais atenta e difícil de ser caçada. Já a &amp;quot;caça mansa&amp;quot; é aquela que vive no interior da Terra Indígena, em áreas ainda preservadas. Nesses lugares, os animais não estão acostumados com a presença humana e, portanto, vivem menos escondidos - são mais suscetíveis a virarem presa dos caçadores awa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para os Awa, o silêncio e a atenção são atitudes fundamentais para se viver na floresta. Porém, com a construção da ferrovia, essa experiência tem sido modificada brutalmente. A destruição ambiental também é vivida em termos sonoros, pois remete à produção contínua de barulho.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a ampliação da estrada de ferro da Vale, concluída em 2018, foi implementado um Plano Básico Ambiental (PBA) e, ao lado desse plano, foi renovado o acordo de cooperação para mitigação dos impactos estabelecidos desde a construção da ferrovia. A Vale destinou parte dos recursos do projeto para atividades de compensação, atendendo os povos Awá, Guajajara e Ka’apor. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este projeto da Vale acumula um número considerável de denúncias de violações de direitos humanos e socioambientais (consulte o [http://global.org.br/wp-content/uploads/2013/10/relatorio_missao_carajas.pdf relatório sobre o Projeto Ferro Carajás]).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Organização social e política ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awa Guajá sempre viveram em pequenos grupos e privilegiam formas independentes e mais “fragmentadas” de organização social, marcadas, inclusive, pela dispersão geográfica dos grupos locais. Isso fica evidente quando vemos a abrangência de seus territórios: vão desde as TIs Alto Turiaçu, Awá, Caru até a TI Araribóia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Existem registros da presença e/ou passagem dos Awa em regiões muito distantes entre si, desde a cidade de Araguaína, no Tocantins, passando pela região entre os rios Zutiua e Pindaré, no Maranhão, chegando até povoados no baixo rio Caru. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há ainda relatos de Awa que, durante suas fugas percorreram longas distâncias, alcançando os estados de Goiás, Bahia e Minas Gerais. A trágica história de Karapiru, documentada por Andrea Tonacci no filme &amp;quot;Serra da Desordem&amp;quot; (2006), é um desses casos. Após testemunhar o assassinato de sua família por posseiros que haviam invadido seu território, Karapiru iniciou uma longa jornada de fuga pelas serras do Brasil central. Depois de uma década em fuga solitária, foi encontrado pela Funai em 1988, no estado da Bahia, a mais de mil quilômetros de distância de seu ponto de partida, no Maranhão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As grandes aldeias onde hoje os Awa vivem, com cerca de 50 a 200 pessoas - a depender da aldeia - são novidade. Apesar de reunirem muitas pessoas, cada aldeia se estrutura como um conjunto de pequenas aldeias, uma vez que não há pátio central ou qualquer construção ou espaço que seja o centro da vida coletiva. Suas aldeias, formadas por diferentes famílias, são organizadas por “setores” baseados em grupos de &amp;quot;homens importantes&amp;quot; ou “chefes” (''tamỹ''). Pensar a comunidade como um “todo homogêneo” é uma ideia que os Awa Guajá não compartilham. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As famílias são como unidades autônomas e todo chefe de família é uma espécie de líder (''tamỹ'' ou ''xipa tamỹ'') em potencial. Não faz sentido, portanto, falar em uma liderança que represente o “todo”, o “povo” ou a “sociedade awa&amp;quot; etc. O coletivo pode ser articulado em contextos específicos, mas logo se dissolve em uma organização social descentralizada. É por isso que a noção de liderança também assume um sentido específico: é aquele que consegue convencer os outros com as suas palavras ou com a sua empolgação com relação a uma tarefa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
''Myty'' é um termo que remete a um entendimento importante sobre a política e pode ser traduzido para o português por “puxar”. Uma liderança ou um chefe (''tamỹ'') tem como principal atribuição &amp;quot;puxar&amp;quot; um coletivo. É quem vai na frente, puxando os demais. A expressão ''myty ipamẽ'' dá essa ideia, justamente: “puxando e indo junto/misturado”. Os trabalhos na roça, as caçadas e outras ações são pensadas dessa maneira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em todas as atividades, nos mais diversos aspectos da existência, os ''tamỹ'' são evocados. A &amp;quot;chefia&amp;quot; entre os Awa não se baseia em acordos ou consensos coletivos fomentados por um único indivíduo. A figura do cacique é, portanto, inexistente. Mesmo as pessoas que são chamadas em português de &amp;quot;lideranças&amp;quot;, têm suas funções mais próximas às dos &amp;quot;interlocutores&amp;quot; ou &amp;quot;diplomatas&amp;quot;, que fazem mediações ou traduções entre realidades políticas diferentes. Não há chefes com poder coercitivo ou capaz de organizar toda uma aldeia. Quando muito os chefes awa conseguem convencer o seu &amp;quot;pessoal&amp;quot;, a sua família e pessoas próximas - nada mais do que isso. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após décadas organizados em quatro aldeias (Cocal, Juriti, Awá e Tiracambu), os Awa Guajá contatados estão se dividindo em novas outras aldeias, como Nova Samiỹ e Aldeia da Cachoeira, e não sabemos quantas mais virão.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vivendo afastados entre si, desde antes do contato até hoje, os diferentes grupos locais awa não correspondem a uma idealização de “grupo indígena” com intercâmbios intercomunitários, autoidentificação com o “grupo” e alianças em diferentes situações. Por mais paradoxal que possa parecer, talvez tenha sido justamente essa “fragmentação” que possibilitou aos Awa permanecerem sem contato com os não indígenas, resguardando-os, assim, de um fim ainda mais trágico como o completo extermínio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Florestas habitadas ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Piraima’a e Jawatra’ia (na rede) durante uma caçada. Aldeia Juriti, TI Awa, 2016. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/8_976c4cf905b64b5/71178scr_f9af74df66b99ed.jpg?v=2020-12-10+13%3A18%3A46&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar dos Awa Guajá não viverem mais em acampamentos temporários e não dormirem em tapiris como antigamente, a vida na floresta (''ka'a'') continua sendo fundamental. A mata é um local ''haxỹ'' (&amp;quot;fresco&amp;quot;) e ''parahỹ'' (&amp;quot;bonito&amp;quot;, &amp;quot;bom&amp;quot;, &amp;quot;perfeito&amp;quot;), diferindo da aldeia que dizem ser ''haku'' (&amp;quot;quente&amp;quot;) e ''manahỹ'' (&amp;quot;desagradável&amp;quot;, &amp;quot;imperfeita&amp;quot;). No verão, especialmente, as aldeias viram base para suas incursões de caça, principal atividade produtiva. Os Awa caçam e dormem na mata e passam longas temporadas na floresta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O conjunto de ambientes habitados pelos Awa é composto pelas terras firmes (wytyry), pelas zonas de várzea e pelos cursos de rio ou simplesmente '''ya'' (&amp;quot;água&amp;quot;) que, durante os meses de chuva, formam um complexo de alagados. Estes ambientes diversos constituem um conglomerado de áreas de caça identificadas por diferentes topônimos que, por sua vez, possuem uma infinidade de trilhas (e algumas clareiras) as quais atravessam todo o território tradicional awa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse conjunto territorial é denominado, genericamente, de ''haka'a'' (&amp;quot;minha floresta&amp;quot;) e, mais especificamente, de ''harakwaha'' (&amp;quot;meu lugar&amp;quot;, &amp;quot;meu domínio&amp;quot;). ''Haka'a'' e ''harakwaha'' são expressões que, muitas vezes, são empregadas como sinônimos. Em português, costumam traduzir por &amp;quot;minha área&amp;quot;, fazendo alusão ao processo de demarcação de suas terras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
''Harakwaha'' denota não só a mata, mas também as relações estabelecidas entre as pessoas, os animais e as plantas. A ideia expressa por essa palavra extrapola as relações dos humanos com os seus espaços e inclui os relacionamentos de outros seres, não humanos, com floresta, águas, aldeia, céu, entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O local reconhecido enquanto tal por um grupo (familiar, local etc.) também é chamado de ''harakwaha''. É a área onde as pessoas de um grupo circulam, onde caçam e manejam seus recursos. Tradicionalmente, os ''harakwaha'' eram exclusivos de uma família e/ou grupo local que o conhecia profundamente. Os limites entre essas áreas eram dados pelos ''harakwaha'' de outros grupos, muitas vezes, de parentes próximos. Até o contato, todo o território awa era uma extensa malha formada por diversos ''harakwaha'' e cada grupo local ou, frequentemente, grupo familiar circulava por um desses espaços, conhecendo-o, nomeando-o, interagindo e explorando seus recursos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right &lt;br /&gt;
|Posto Indígena Juriti, TI Awá, 2007. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/9_50597ecc986577a/71179scr_4b853a109dfdd36.jpg?v=2020-12-10+13%3A19%3A06&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As últimas décadas trouxeram mudanças na forma de os Awa se organizarem espacialmente. Assim como as configurações das aldeias se alteraram, dando lugar a aglomerados populacionais formados por diferentes grupos locais, os espaços de circulação desses grupos também foram afetados. As aldeias awa são frutos de uma engenharia social do contato e reúnem grupos diferentes que antes viviam dispersos em áreas distintas. Isso quer dizer que muitas pessoas que hoje vivem juntas não se conheciam antes do contato. A &amp;quot;vida em aldeia&amp;quot; surgiu, entre os Awa, no contexto das frentes de atração da Funai e dos chamados &amp;quot;postos indígenas&amp;quot;. É interessante observar, no início, que os Awa usavam o termo ''funai'' para nomear as aldeias onde passaram a viver.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Cotidiano ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O modo de vida dos Awa Guajá é inteiramente dependente da relação que estabelecem com a floresta e os seres que nela vivem. A caça é uma delas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A caça, para os Awa Guajá, é uma atividade central, não somente em termos de subsistência, mas especialmente em termos existenciais. Trata-se de uma prática que diz muito sobre suas concepções sobre a vida que está essencialmente ligada à floresta. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse povo é denominado genericamente de &amp;quot;caçador-coletor&amp;quot;, uma categoria arbitrária para se referir a populações cuja subsistência está baseada na caça, na pesca e na coleta de produtos florestais e que não dependem de uma prática agrícola. Muitos povos &amp;quot;caçadores-coletores&amp;quot; podem até plantar, mas não baseiam a sua vida exclusivamente aos ciclos agrícolas, com calendários associados aos trabalhos nos roçados e jardins. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Da esquerda para a direita, Wa'amixĩa, Piakwa, Manijasĩa coletando Jussara. Aldeia Tiracambu, TI Caru, 2013. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/8/3_3ee38fe2a6f8066/71183scr_968ece811e43332.jpg?v=2020-12-10+13%3A21%3A12&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O crescente desmatamento na Amazônia maranhense é uma grande ameaça ao modo de vida awa e traz sérias preocupações para esse povo que até pouco tempo vivia exclusivamente daquilo que tirava da floresta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a época do contato, os Awa não praticavam agricultura, atividade que tem sido introduzida ao longo dos anos nas aldeias pela Funai, principalmente, o cultivo de mandioca, macaxeira, milho, arroz, abóbora, feijão, frutas, dentre outros. Tal atividade, no entanto, ainda está diretamente ligada à Funai, que organiza os trabalhos com as comunidades. Trabalhadores temporários são contratados para auxiliar os Awa em suas roças e o sistema de trabalho é o mesmo adotado pela tradicional agricultura de “corte e queima” maranhense (Forline, 1997).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre os Awa, não se encontra nenhum dos subprodutos de uma “agricultura tradicional indígena&amp;quot;, como o fumo, o beiju e as bebidas fermentadas, tal como se vê entre outros povos amazônicos e povos horticultores Tupi. Tradicionalmente, toda a alimentação awa vem da floresta: as caças, os méis e os frutos como pequis, cupuaçu, bacuri, bacaba, inajá, dentre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A farinha de mandioca era desconhecida pelos Awa até os contatos oficiais com a Funai. Essa farinha é, para eles, uma comida dos brancos. Uma das histórias dos primeiros contatos com os Awa é que muitos se recusavam a comer farinha, pois pensavam que se tratava de um tipo de terra. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Piraima’a posa orgulhoso ao lado da anta que recém abatera. Aldeia Juriti, TI Awa, 2007. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/6_4a665417ecfdbc6/71176scr_aaf00db90897f39.jpg?v=2020-12-10+13%3A17%3A24&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mesmo que hoje em todas aldeias awa se pratique a agricultura, a caça continua movendo a vida das famílias. As pessoas seguem dispostas a abandonar atividades nos roçados para averiguar rastros da existência de uma vara de porcos ou de um bando de guaribas na mata. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A centralidade da caça é marcante e isso fica evidente na expressão usada com frequência pelos Awa para se referir a si próprios: ''watama'a aria'', &amp;quot;nós somos caçadores&amp;quot;. Todas as outras atividades, como a pesca e coleta de mel e frutos são tributárias dela ou postas em segundo plano. Forline (1997) realizou um estudo sobre o tempo alocado pelos Awa em suas diversas atividades cotidianas e demonstrou que a caça é aquela que ocupa mais tempo em seus dias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, o conhecimento awa sobre a floresta e, mais particularmente, sobre as plantas é tributário a seu interesse pela caça. Cormier ressalta o baixo número de plantas utilizadas pelos humanos para consumo, medicamentos, xamanismo etc. quando comparado com o número de plantas conhecidas consumidas pelos animais de caça, mais especificamente os macacos (Cormier, 2003). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Jui’i e seu avô Mĩtũrũhũa preparando o jacaré para a refeição. Aldeia Juriti, TI Awa, 2008. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/5_e80dddff76eb6f4/71175scr_c7ae3e9060987ff.jpg?v=2020-12-10+13%3A17%3A06&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pesca, apesar de amplamente praticada, é, tradicionalmente, uma atividade menos desenvolvida. Os Awa Guajá permaneceram, em boa parte de sua história, distante dos cursos de grandes rios e não possuíam canoa ou qualquer técnica mais apurada para a captura de peixes (tal como armadilhas ou represas). Embora os peixes não estejam no topo das suas preferências alimentares, os rios e igarapés abastecem as pessoas não só de peixes, mas também com as carnes de uma espécie de jacaré (''jakare'') e de poraquês (''manaky''). Além desses, a capininga (''jaxajhua'' - Kinosternon scorpioides), um quelônio habitante dos lodos nos igarapés, é muito apreciada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alimentação, saúde e floresta em pé ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awa Guajá realizam uma distinção muito clara entre &amp;quot;comida dos brancos&amp;quot; (''karai nimi'ua'') e &amp;quot;comida de verdade&amp;quot; (''hanimiu tea'') ou &amp;quot;comida de gente&amp;quot; (''awa nimi'ua''), isto é, sua alimentação tradicional composta basicamente por carnes de caça, peixes, mel e frutos coletados na floresta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apreciam comer carne todos os dias, de preferência, várias vezes ao dia. Gostam, especialmente, da carne de capelão/guariba e outros macacos; queixadas e caititus; pacas, cotias e tatus; além da anta, veado dentre outros animais. Existe uma relação diretamente proporcional entre o porte do animal ingerido e as qualidades alimentares de sua carne. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Juxa’a moqueando cotias em um acampamento de caça. TI Awa, 2016. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/2_7a0f6909b904b27/71172scr_1e7dc8111e72716.jpg?v=2020-12-10+13%3A16%3A17&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Comer o animal correto é fundamental para a boa formação do corpo de uma pessoa humana. Um corpo forte e belo faz-se com uma alimentação boa e farta; ele se fortalece com a ingestão constante de carnes de caça. Por não fazerem estoques, saem diariamente para caçar. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos dias de hoje, ao lado dos alimentos tradicionais, consomem a farinha de mandioca, frutas e diversos cultivares introduzidos pela Funai, como a abóbora, milho, macaxeira, arroz, feijão, batata-doce, entre outros. O consumo de alimentos não indígenas, apesar de bem disseminado e apreciado, é suspenso em momentos de resguardo, quando as mulheres estão em período de menstruação, durante resguardo pós-parto ou doença. &lt;br /&gt;
Mesmo com as mudanças no regime alimentar, os Awa guardam um grande interesse pelas carnes de caça, frutos de coleta (babaçu, inajá, bacaba, buriti, bacuri, pequi e outros) e mel. Conhecem dezenas de espécies de mel que além de servirem como fonte de energia, trazem “alegria para o corpo”. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A alimentação correta para os Awa é muito mais do que ingestão de calorias. Eles, mais do que ninguém, sabem o que é produzir e lutar pela própria comida. Caçam sempre que podem e essa tecnologia desenvolvida há centenas de anos abrange formas de conhecimento e intervenções no ambiente muito sofisticadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A floresta para os Awa é a grande fonte de alimentos, é lá onde vivem os animais de caça. No entanto, estes estão cada vez mais ameaçados pela degradação ambiental que vem ocorrendo há décadas na Amazônia maranhense. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há, portanto, uma relação direta entre a floresta, a qualidade da alimentação e a saúde das pessoas. A degradação ambiental e o desmatamento florestal são fatores que afetam profundamente a saúde dessa população. Não por acaso, uma de suas maiores preocupações é o risco iminente do fim da alimentação tradicional. Com frequência, perguntam: &amp;quot;Os brancos não sabem que vão acabar com os nossos animais?&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Caçadas na floresta ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Descanso durante uma caçada. Aldeia Juriti, TI Awa, 2006. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/4_cf470eae529bb70/71174scr_b140a3db0f0207d.jpg?v=2020-12-10+13%3A16%3A50&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As aldeias parecem pontos de chegada e parada do mato, pois as coisas boas da vida acontecem na floresta. Uma caçada curta não dura menos que seis horas e, em média, as pessoas ficam cerca de dez horas na floresta para ter o mínimo de sucesso em suas saídas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As caçadas podem ser executadas com espingardas, arco e flechas e armadilhas. São realizadas de diversas maneiras: individuais; em casal; com grupos de irmãos, cônjuges e filhos; caçadas de uma jornada diurna ou esperas noturnas; e até mesmo grandes caçadas coletivas, que podem mobilizar boa parte de uma aldeia. Por serem compreendidos como aspectos importantes, os tipos de animais caçados (''hama’a'', “minha caça”), as atitudes dos caçadores e sua saúde e vitalidade são temas que sempre surgem relacionados nos relatos dos Awa sobre as caçadas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Numa única jornada, além de pescar, caçar com flechas e espingardas, cavar buracos para pegar bichos, caçar com cachorro, ainda é possível: extrair resinas de maçaranduba e jatobá (utilizadas na iluminação noturna das casas) e embiras para fazer &amp;quot;cordas&amp;quot;; confeccionar cestos cargueiros com folhas de açaí para levar o peso que acumularam; coletar mel, carás e outros tubérculos encontrados na floresta e na capoeira na volta para a aldeia. Em meio a tudo isso, as mulheres ainda carregavam seus filhos, os amamentam e os fazem dormir, espantando os mosquitos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Da esquerda para direita: Takamỹa à, seguido por seu filho, Majhuxa’a, Hajkaramykỹa e seu filho Warajua, comendo mel durante caminhada na floresta. Aldeia Awa, TI Caru, 2013. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/8/1_9b501ab243a2bf5/71181scr_e7d14a8f7342d2d.jpg?v=2020-12-10+13%3A20%3A08&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas jornadas na floresta podem ser chamadas de ''wataha'', cuja tradução é &amp;quot;caminhada&amp;quot;. ''Wataha'' é sinônimo de muitas ações que se desenrolam no decorrer de uma jornada (andar, caçar e coletar) e exprimem a própria vida para os Awa. As caçadas são chamadas genericamente de ''wata'' (“andar-caçar”) e todo homem caçador é referido ''watama'a'', cuja tradução literal é &amp;quot;caminhador&amp;quot; e que pode ser traduzida por &amp;quot;caçador&amp;quot;. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O principal objetivo de uma caminhada (''wataha'') é caçar um animal, de preferência uma carne gorda (''ikirá'') e saborosa (''he’ẽ''). Quase sempre, os Awa saem para floresta para “matar” (''ika'') uma caça previamente rastreada, seja por ser a época dos frutos apreciados pela presa, seja porque alguém sonhou com ela.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao fim das caçadas, além de comida, os Awa costumam voltar repletos de filhotinhos de animais para presentearem suas filhas e esposas.  Algo que chama à atenção é a quantidade de animais de criação ou xerimbabos que existem em suas aldeias e que, antes do contato, eram criados no mato. As aldeias são repletas de animais e, muitas vezes, podem chegar a ultrapassar o número de moradores humanos. São macacos, jacus, quatis, jacamins, cotias, pacas, tartarugas, porcos e até filhotes de onça criados pelas mulheres, crianças e, em alguns casos, pelos homens. Esses animais têm um ciclo de vida nas aldeias desde a sua captura até a soltura depois de uma certa idade. Macacos adultos, com cinco ou seis anos podem se tornar violentos e atacar as crianças e por isso não devem conviver no mesmo espaço.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Quando caminham no mato é muito comum eles assobiarem de tempos em tempos, a fim de atrair pássaros emplumados como azulonas, inhambus e jacupembas. Tais animais, dizem os Awá, cantam pouco na época das chuvas, e os homens os imitam para ouvirem suas respostas e, eventualmente, caçá-los enquanto se deslocam. Ouvir a resposta dessas aves aos assobios humanos é uma das formas de conexão dos Guajá com os animais. &lt;br /&gt;
Os povos caçadores como os Awa mobilizam um grande aparato sonoro como parte de sua tecnologia de caça. A floresta “fala” com os Awa de diversas maneiras. Além de uma audição aguçada, outro componente complementar é a capacidade de imitar o som dos animais. Durante as caçadas não se fala, mas existe uma outra linguagem na floresta: assobios, urros, barulhos, gritos e imitações. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para cada animal um tipo de imitação é produzido. Tal conhecimento acústico, quando empregado à caça, envolve nuances e técnicas que servem para ludibriar as presas ou funcionam como sinais para os caçadores rastrearem. Os Awá conseguem, inclusive, adaptar para a sua língua o canto de alguns pássaros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O objetivo dos chamados para atrair animais (''hamakai'') é fazer com que o bicho pense se tratar de algum &amp;quot;parente próximo&amp;quot; (''harapihiara ha'ỹ'') e levar o animal à morte. A ideia é que os sons imitados se pareçam com os sons de &amp;quot;amigos&amp;quot; (''hary''), &amp;quot;irmãos&amp;quot; (''harapihiara''), &amp;quot;filhos&amp;quot; (''imymyra'', ''tajyra'', ''taira''), e outros parentes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As pessoas awa têm uma atenção acústica desenvolvida a ponto de, muitas vezes, dispensarem o apoio da visão em caçadas noturnas sem lanterna. À espera de animais na madrugada, são capazes de distinguir a espécie de um animal e outras características, como o peso e sexo, ao escutar o peso da passada ou mesmo ao sentir um odor característico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Caçada de capelão ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awa são caçadores habilidosos e possuem uma técnica apurada para a captura de mamíferos arborícolas, em particular, quatro espécies de primatas: macaco guariba ou “capelão” (''waria'' - Alouatta belzebul); macaco-cairara (''kaihua'' - Cebus kaapori); macaco-cuxiú (''kwixua'' - Chiropotes satanus) e macaco-prego (''ka’ia'' - Cebus apella].  A técnica, que consiste em uma emboscada aérea dos animais, ainda contemplaria a captura de quatis (''kwaxia'' - Nasua nasua) e ouriços-caixeiros (''akanũa'' - Coendu prehensilis), mamíferos também de hábitos arborícolas. A carne mais apreciada é a do guariba, que é sinônimo de alimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para além do fato de comerem esse animal, os Awa gostam de escutá-los. O capelão é considerado o animal terrestre mais barulhento do mundo e o seu grito pode ser ouvido por mais de 4 Km e produzir 130 decibéis. O fato dos guaribas serem animais sonoros é importante para os Awa: os guaribas, assim como os humanos, cantam.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Enquanto Uriximatỹa olha para a câmera, Kamará, Takya e Pirama’a observam a copa de uma árvore a procura de macacos, aldeia Juriti, TI Awa, 2007. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/3_b343a0409435b92/71173scr_1c1cd80135fa8cd.jpg?v=2020-12-10+13%3A16%3A32&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awa gostam do canto desses animais. Sempre que podem elogiam a capacidade deles de produzir um &amp;quot;belo canto&amp;quot; (''jã paryhỹ'') – característica que os diferencia de outros macacos. Dificilmente caçam os capelães no final da tarde, pois é a hora que estão cantando. Então, param para ouvi-los. Os Awa conseguem distinguir pelas vozes quantos são fêmeas ou machos; adultos ou filhotes - tal como a pegada de um animal terrestre revelará seu peso, idade, sexo e outras informações relevantes para o caçador. A partir dessas informações que traçam os seus planos para o dia seguinte. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A técnica de caça aos capelães envolve cerco e intimidação que é chamada warí babopô (&amp;quot;espantar o capelão&amp;quot;). Trata-se de uma emboscada aérea. Para caçá-los, cada homem sobe estrategicamente em outras árvores situadas ao redor da árvore onde estão os animais. Ao perceberem a proximidade dos caçadores, os animais tendem a se esconder nas partes mais elevadas da copa de uma árvore. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Enquanto os homens sobem silenciosamente nas árvores, um caçador experiente, quase sempre um velho, sobe o mais próximo que consegue à copa da árvore onde se escondem os animais. Uma vez lá em cima, observa, mexe nas folhas e tenta encontrar algum vestígio ou esconderijo do grupo, que está camuflado, e quando finalmente se certifica que estão ali, inicia uma fala muito específica. No cerco que se inicia, ganha vida um processo comunicativo no qual o animal é ameaçado; escorraçado de seu abrigo de folhas; muitos gritos são dados, principalmente por esse homem. Enquanto isso, quem permanece no solo (mulheres e crianças) ajuda-o com gritos e assobios. O cerco consiste em fazer com que os animais escondidos fujam de seus abrigos, se dispersem para as outras árvores para finalmente serem abatidos na fuga. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo pode durar horas com o caçador desafiando os animais até que uma hora, apavorados, fogem. No momento imediato à fuga, na confusão, escuta-se tiros misturados a gritos, zunidos de flecha e berros desafiadores dos valentes capelães. Após alguns segundos, os animais são feridos e caem das árvores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Cosmografia == &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O eixo céu e terra é um dos aspectos fundamentais para o entendimento do mundo awa, como para a maioria dos grupos Tupi-Guarani. A terra (''wya''), o local onde vivem os humanos, é apenas uma pequena parte do universo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há também diversos ''iwa'' (&amp;quot;céus&amp;quot;), onde habitam os mortos e outros seres celestes, como os karawara. Os patamares celestes (''iwa'') são incontáveis e os humanos não sabem ao certo quantos níveis existem sobre a terra. A subida ao céu (''ohi iwa pe'') é experimentada pelos homens, sobretudo, durante o ritual da ''takaja'' e uma vez no céu, eles conseguem subir para mais dois ou três patamares para visitar outras aldeias celestes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cosmografia awa também faz referência a um mundo subterrâneo, igualmente denominado ''iwa'', onde habita uma outra humanidade, sobre a qual os humanos da terra pouco sabem. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cosmos atual é compreendido como resultado da separação de um mundo anterior, no qual o céu, a terra e o subterrâneo eram muito próximos. Como em diversas sociocosmologias tupi, os Awa se referem a uma histórica separação entre as camadas cósmicas, cujo resultado principal foi a diferenciação entre os habitantes da terra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
''Iwa'' (&amp;quot;céu&amp;quot;), ''haripa'' (&amp;quot;aldeia&amp;quot;) e ''ka’a'' (“floresta”) são os principais eixos em torno dos quais a vida dos Awa Guajá gravita. Céu e mata são domínios pelos quais guardam grande interesse, figurando como temas centrais em boa parte das conversas cotidianas.&lt;br /&gt;
  &lt;br /&gt;
A floresta (''ka’a'') é o local onde os Awa sempre viveram e o habitat de tudo aquilo que conhecem: animais, mel, plantas medicinais, frutos etc. Apesar de todo perigo que oferece, a floresta ofereceu, ao longo da história recente desse povo, segurança para que conseguissem viver distanciados dos ''kamara'' (“outros indígenas”) e dos ''karaia'' (“não indígenas”).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Pessoa humana == &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A humanidade foi criada por Maíra, o herói cultural. Sozinho no mundo, produziu a partir de um tronco de árvore a primeira mulher na terra (''wya''). Com o seu surgimento e a consequente gravidez, inicia-se um ciclo a partir do nascimento de dois meninos gêmeos, os filhos dos heróis, Maíra e Ajỹ. As narrativas (''mumu'uaena'') contadas pelos Awa abordam as aventuras desses gêmeos enquanto estavam na terra, pois depois decidem abandoná-la e vão viver no céu (''iwa'').&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Em primeiro plano, o ancião Tatajkamaha (já falecido), e ao fundo os jovens Guardiões da Floresta na TI Awá, 2016. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/8/4_45023f0345a535a/71184scr_26d8b9cde93e943.jpg?v=2020-12-10+13%3A21%3A35&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pessoa humana é constituída por três elementos: ''ipirera'' (&amp;quot;corpo&amp;quot; ou “couro”), ''haitekera'' (&amp;quot;princípio vital&amp;quot; ou &amp;quot;vitalidade&amp;quot;) e ''ha'aera'' (&amp;quot;raiva-espectro&amp;quot; ou &amp;quot;alma penada&amp;quot;). Nenhum destes elementos é um princípio abstrato, tais como “representações” do que seria a pessoa humana. Ao contrário, remetem a noções relativas à fisiologia dos corpos e fornecem uma terminologia apropriada para o entendimento das relações entre humanos e não humanos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Quando uma pessoa morre, os Awa costumam dizer que &amp;quot;''haitekera'' foi para ''iwa''&amp;quot; (''haitekera oho iwape'') e, uma vez falecida, permanece no céu. A ideia de morte implica no deslocamento espacial do princípio vital da pessoa da terra para os patamares celestes. Seu “couro” permanece na terra até apodrecer e a “raiva” segue para a floresta (''ka'a''), em locais recônditos, e se transforma em ''ajỹ''. Esta última categoria remete a espectros canibais que vivem na mata e costumam atacar os humanos, provocando-lhes doenças. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awá traduzem ''ha’aera'' para o português como “raiva”, mas não se trata da mesma “raiva” que se expressa pelo termo ''imahy'' (“bravo”, &amp;quot;aborrecido”). Esta última é um sentimento que, apesar de perigoso e desprezado, é muito comum e importante em diversas situações, como na guerra. ''Ha’aera'', ao contrário, pode ser traduzido pela ideia de “raiva-espectro”, devido tanto à sua condição de “sombra”. Um princípio invisível e espectral que é dotado de grande penetração. É algo que todo humano carrega, pois faz parte da sua composição física, porém, ao ser liberado após a morte, age como uma energia formadora de seres ligados à morte, os ''ajỹ''.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Assim como os humanos, diversas presas animais também liberam &amp;quot;raiva&amp;quot; (''ha’aera'') e isso traz muitos problemas aos humanos, especialmente, aos caçadores. A &amp;quot;raiva-espectro&amp;quot; dos animais caçados pode buscar vingança, emanando doenças e retirando a sorte de caçadas futuras. Macacos, veados, porcos, dentre outros animais de caça, mesmo depois de mortos, podem se lançar em uma vingança noturna e invisível com a intenção de atingir o caçador, deixando-o doente. Muitos caçadores, principalmente quando estão dormindo, podem ser atacados pelo espectro raivoso do animal abatido. Esta é uma causa comum de doenças entre os Awa Guajá. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com frequência, as doenças são causadas por um desequilíbrio entre esses elementos que compõem a pessoa e são desencadeadas por motivos diferentes: o medo; a tristeza; a saudade; um sonho ruim; um alimento proibido que por algum motivo seja ingerido; o contato com cadáveres; a falta de alimentação adequada; o encontro com os ''ajỹ'', os seres-espectros que habitam a floresta. Apesar de terem causas diferentes, as doenças têm alguns sintomas que são característicos de uma disfunção no “princípio vital” de uma pessoa: fraqueza no corpo, dores no fígado, no coração e na cabeça. Esses e outros sintomas são comumente associados à vulnerabilidade do &amp;quot;princípio vital&amp;quot; (''haitekera'') que pode abandonar o corpo da pessoa temporariamente, expondo-a a situações de perigo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== ''Karawara'', os espíritos da floresta ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os ''karawara'' são espíritos celestes que embora vivam em patamares superiores (''iwa''), mantêm um trânsito constante com a terra. Costumam vir em busca de “caça”, “água”, “mel&amp;quot; (e por vezes fogo), produtos essenciais para a vida no céu. Nessas vindas para terra podem ajudar os humanos com curas xamânicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Possuem uma imagem humana celestial definida: são bem adornados com cocares e braceletes. São habitantes de um lugar limpo e agradável, caçadores infalíveis, cantores magníficos e falantes de uma outra língua, uma fala celeste (''iwa ma’iha'', “fala do céu”) cuja prosódia é o canto (''jã''). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se perguntarmos a uma pessoa awa o que é um ''karawara'', provavelmente, teremos respostas como: ''awa parahỹ'' (&amp;quot;humanos belos&amp;quot;); ''awaetea'' (&amp;quot;gente de verdade&amp;quot;); ''awa katy'' (&amp;quot;pessoas boas&amp;quot;); ou ''karawara wate'' (&amp;quot;os karawara estão lá em cima&amp;quot;). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A floresta é o lugar onde os espíritos ''karawara'' também caçam, mas aqui na terra eles podem assumir também a forma de animais e plantas. Cada espírito celeste possui na terra um correspondente animal, vegetal ou mesmo fenômeno da natureza, que seriam como suas extensões terrenas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
São relacionados a pequenos animais, insetos, plantas e alguns objetos. Seriam, por exemplo, uma &amp;quot;gente pica-pau&amp;quot;, &amp;quot;gente pássaro juriti&amp;quot;, &amp;quot;gente tucano&amp;quot;, &amp;quot;papagaio”, “siricora&amp;quot;, &amp;quot;sabiá&amp;quot;, &amp;quot;borboletas&amp;quot;, &amp;quot;marimbondos&amp;quot;, &amp;quot;gente taquara&amp;quot;, dentre outras plantas e bichos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada ''karawara'' é especializado em um tipo de caça, por exemplo: ''karawara Puhu'ua Jara'' (gente pipira-de-bico-vermelho) é caçador de macaco-prego; ''karawara Makaró'' (gente pomba-galega) é caçador de queixada; ''karawara Xakara Jara'' (gente gavião-caracoleiro e gente gavião-de-cauda-curta) é caçador de guariba; ''karawara Taky Jará'' (gente tucano-de-bico-preto) se alimenta de bacabas; ''karawara Waha Jara'' (gente carangueijo-do-rio) é caçador de veado; e ''Haira Jara (gente irara ou papa- mel) desce à terra para coletar mel. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Descem à terra (''wya'') para caçar, preferindo não pisar no solo, pois entendem que o chão da terra é muito sujo, repleto de podridão, doenças e perecimento. A terra é habitada por criaturas desprezíveis aos olhos dos ''karawara'', como os animais de criação dos brancos, principalmente os cachorros - cuja palavra na língua dos ''karawara'' é ''karory'ỹma'', “lixo” -, além de galinhas, bovinos e porcos domésticos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os ''karawara'' sentem tanta fobia pela sujeira terrena que quando voltam para sua morada passam um tempo cuspindo no chão (''jaru'' , “seu cuspir”) para liberar a sujeira através da saliva, se purificando. Os Awa também o fazem ao limparem vísceras, lidarem com sangue, carne podre ou qualquer outro odor fétido que impregne seus corpos. Alguns ''karawara'', como ''Inamẽxa’a'' (gente-pássaro-saurá) e ''Inamẽtyxa’a'' (gente-pássaro-anambé-azul) nunca descem à terra, pois a consideram extremamente suja. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Caçam com arcos, flechas e espingardas de cima das árvores, sem pisar o solo terreno (''wype'', “na terra”), e com uma rapidez espantosa. Seus equipamentos de caça lançam luzes e raios. Tanto a munição das armas quanto as flechas são constituídas por ''tata'' (energia/fogo), o que faz com que seus disparos sejam certeiros. O animal morre sem qualquer ferimento e, principalmente, sem derramar sangue. Os ''karawara'' tem pavor de sangue. Após a presa abatida, amarram suas pernas com embira (''iwira''), a levam para o céu, onde todo o processo de limpeza e cozimento da carne é realizado. Como os ''karawara'' conseguem carnes na quantidade que desejam, nunca estocam carnes moqueada em suas casas, tal como fazem os humanos. Ao contrário, eles comem tudo até que se acabe. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em poucas palavras, os ''karawara'' seriam, ao mesmo tempo, caçadores, pajés e espíritos magníficos. Ao descerem à terra (para caçar, extrair mel ou buscar água), os humanos não os encontram pois, além de serem rápidos em suas caçadas, as realizam em locais e matas distantes, onde os Awa não alcançam. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
São esses seres grandes pajés e os seus cantos de cura são cantos que tematizam suas caçadas. Para os humanos, essa relação entre xamanismo e caça também é marcante; muitos &amp;quot;rezadores&amp;quot; são grandes caçadores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Arte vocal ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cantar é um aspecto central para compreender a importância da caça e dos ''karawara'' na vida dos Awa. É possível dizer que uma das coisas que os Awa Guajá mais gostam de fazer, além de caçar, seja cantar. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cantam em muitas situações: antes do amanhecer, acompanhando o nascer do sol, avisando a uma seção residencial que o sol irá raiar; a noite, para embalar as crianças no sono; nas caçadas, bem baixinho para que não sejam ouvidos; ou bem alto, ao voltarem para a casa com a caça abatida.  Existem cantos que manifestam alegria, prazer sexual e a condição de se estar junto. Cantam mesmo até sem qualquer motivo aparente, só pelo prazer de soltar a voz.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;quot;Cantar bonito&amp;quot; (''jã paryhỹ'') que é &amp;quot;cantar duro/forte&amp;quot; (''jã hatỹ''). Os Awa valorizam a duração e a força do som emitido ao cantar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A arte vocal awa é extremamente rica. É possível dizer que há tantas canções quanto são os karawara. Foram eles que ensinaram os cantos para a humanidade e cada um tem o seu repertório próprio. Cantar à noite, por exemplo, para uma criança dormir bem, sem pesadelos, é algo que os ''karawara'' aconselham aos humanos até hoje. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os cantos que os Awa executam na terra são os mesmos que os ''karawara'' produzem no céu e os temas variam de acordo com cada ''karawara'', pois cada espírito tem as suas peculiaridades. Esses inúmeros cantos revelam os aspectos mais essenciais de cada ''karawara'', que é o dono do canto: sua alimentação; seu modo de caçar e outros detalhes de sua existência. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao cantar em casa à noite, planejando uma caçada, muitos caçadores podem atrair o ''karawara'' (dono do canto) que, durante a caçada, sobretudo nas esperas noturnas, pode entrar no corpo do caçador e, tal como um &amp;quot;espírito auxiliar&amp;quot;, aumentar sua eficiência. Os ''karawara'', portanto, auxiliam os Awa em suas caçadas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os cantos remetem diretamente à presa que o ''karawara'', dono do canto, costuma caçar. E, nesse sentido, são cantos de caça que os Awa entoam, em voz baixa, quando vão para floresta caçar e, em voz alta, quando retornam para aldeia após um dia de caça.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A forma dos cantos é parecida, mas o que muda são os conteúdos, pois remetem a um ''karawara'' específico. Vejamos um exemplo:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Canto de ''karawara tapi'i jara'' (gente-anta) ====&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;row&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;col-md-4 col-md-offset-2&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
{{Lead |&lt;br /&gt;
Awata taryka pyha&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
A'u hanimi'ũa pyha&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
A'u hanimi'ũa&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
Awata pyha&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
A'u akaju&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
Awata matarahỹ nipe&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;col-md-5&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
{{Lead |&lt;br /&gt;
Eu ando (caço) atrás de tatajuba à noite&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
Eu como minha comida à noite&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
Eu como minha comida&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
Eu ando (caço) à noite&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
Eu como caju do mato&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
Eu ando (caço) pelo escuro&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awa não cantam para os ''karawara'', mas como os ''karawara''. Eles se tornam esses espíritos celestes para cantar e caçar. Ao cantar, evocam o ponto de vista desses caçadores infalíveis que vivem no céu e ao fazê-lo se aproximam de um ideal de caça, inalcançável para os humanos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há ainda os cantos relacionados ao xamanismo awa que são realizados durante as sessões de cura. É no ritual da ''takaja'' que os cantos atingem um de seus principais objetivos: a comunicação com os ''karawara''.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Ritual ''takaja'' ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além dos Awa, outros povos montam &amp;quot;tocaias para a realização de diversos rituais, como os Asurini do Xingu, [[Povo:Aikewara|Aikewara]], Parakanã, entre outros. Apesar das diferenças entre elas, tais espaços se caracterizam por serem locais onde espíritos e divindades celestes se instalam ao visitar a terra, seja para se alimentar, cantar, dançar ou curar. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A tocaia awa, chamada ''takaja'', tem como objetivo aproximar os mundos e trazer os ''karawara'' para cantar na terra, permitindo também que os homens viajem ao céu para cantar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos meses do verão, um abrigo ritual semelhante a uma tocaia (''takaja'') é construído e é lá onde o ritual acontece. É somente durante à noite que os homens entram na ''takaja'' e entoam os cantos. A escuridão é uma das marcas desse momento ritual, os ''karawara'' só descem à terra na escuridão, pois, mesmo vindo caçar durante o dia, não gostam da luminosidade terrena. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas tocaias rituais, diferentemente daquelas feitas para caçar, há uma abertura no teto, de onde os xamãs-cantadores awa partem para alcançar ''iwa'', as plataformas celestes. A ''takaja'' não funciona como uma &amp;quot;casa cerimonial&amp;quot; em um pátio central, que congregaria humanos e deuses; ela é um elemento bem discreto e minimalista nas aldeias awa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Piraima’a se preparando para o ritual de “subida para o céu”. Aldeia Juriti, TI Awa, 2009. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/0_f6f20472c931084/71170scr_ed36843a4698c54.jpg?v=2020-12-10+13%3A15%3A30&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No início da noite, os homens começam a entoar seus cantos de maneira muito potente. E, aos poucos, começam a se adornar. Suas esposas os ajudam a se paramentar. A ornamentação consiste em braceletes com penas de tucano, chamados ''jamakwa'', e um cocar formado com as mesmas penas, chamado ''jakỹita''. No corpo e nos cabelos são afixadas penugens brancas de harpia, gaviões ou urubu-rei. Estas são presas com resina cheirosa de dois tipos de breu chamados ''jawarako'' e ''uhuka''. O cheiro dessas resinas, dizem os Awa, é o próprio cheiro dos ''karawara''. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Enquanto se adornam, os homens cantam, e uma vez prontos se dirigem ao abrigo cantando e dançando com passos específicos: as duas mãos entrelaçadas sobre o peito e, sem mudar a postura das mãos, levantam e abaixam o corpo como os movimentos de uma ave a ciscar o chão. Esta é uma das danças executadas pelos ''karawara'' no céu e imitadas pelos humanos na terra. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cantoria (''janaha'') e a dança (''panỹ'') se iniciam, enquanto, um de cada vez, os homens adentram a ''takaja'' para cantar. Uma vez dentro, o homem inicia uma sucessão de cantos que são entoados com toda a força. Do lado de fora da ''takaja'', homens, mulheres e, por vezes, nos momentos iniciais da noite, crianças, seguem cantando. É possível perceber o som da voz masculina dentro da ''takaja'' se deslocando de um lado para outro, já que o homem que se encontra dentro está dançando em movimentos circulares. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
De repente ouve-se o barulho de um salto e um silêncio mortal no interior do abrigo: - O homem foi para o céu (''oho iwape''), alguém comenta. Nessa hora, a esposa, irmã ou outra mulher ligada ao viajante celeste inicia um canto frenético. É só a partir daí que podemos enxergar a importância das mulheres durante a cantoria. Sem elas dificilmente os homens conseguiriam voltar para casa, pois não conseguiriam encontrar o caminho de volta; atravessam muitos céus e poderiam facilmente se perder nesses mundos. O canto das esposas é o único elo que permite a conexão entre o céu a terra. Após subir ao céu, um homem pode permanecer lá por um tempo relativamente longo (algumas horas). Todo o ritual da ''takaja'' pode durar desde duas até umas seis horas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Da mesma forma como ocorre quando alguém sonha (''imuhy''), o corpo do homem, quando dentro da ''takaja'', permanece na terra e o &amp;quot;princípio vital&amp;quot; (''hajtekera'') se desprende do corpo e viaja até o céu. Subir até lá é sempre perigoso. Os ''karawara'' convidam os homens para que subam mais em outros céus, que conheçam outras aldeias celestes; comam deliciosos banquetes; conheçam outros cantos, outras danças. Mas os humanos sabem que isso significaria a sua morte. Se os homens se distanciarem da terra, não ouviriam mais suas esposas cantando e assim perderiam o caminho de volta. todos sabem que não se deve andar muito nas plataformas celestes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Aru ''karawara'', trazer os espíritos celestes ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os homens se deslocam para os patamares celestes (''iwa'') a fim de entrar em contato com os ''karawara'', espíritos celestes. O ritual da ''takaja'' também tem como objetivo aproximar os ''karawara'' que vem na terra cantar, dançar e realizar curas xamânicas, pois são considerados grandes pajés.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma vez que o homem vai para o céu, o silêncio reina no interior da ''takaja''. Esse estado permanece por longos minutos e algum tempo depois, ouve-se o barulho de um pulo: dois pés pisam o chão simultaneamente, o que indica que algum visitante celeste veio a terra cantar. Quando os homens sobem aos céus, seu corpo fica dentro da ''takaja'', vazio, e é utilizado pelos ''karawara'' como uma pele. Ao se referir a quem sobe, os Awa dizem que ele &amp;quot;traz os ''karawara''&amp;quot;. Uma vez no céu, o homem diz aos seres celestes: &amp;quot;Desçam, vão ver seus parentes na terra&amp;quot;. Alguns são bem-vindos, outros não e por isso devem ser espantados. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada ''karawara'' tem especificidades em seus cantos de modo que todas as pessoas que estão do lado de fora da ''takaja'' sabem exatamente qual ser está em seu interior. Quando descem do céu, emitem sons característicos de seus duplos terrestres (onça, gavião, pássaros, marimbondos, porcos etc.). À medida que os homens saem da ''takaja'' para cantar do lado de fora (quem canta são os próprios ''karawara''), param na frente das mulheres e crianças, cantam (''jã'') e sopram (''pyy'') os seus corpos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de cura consiste basicamente em trazer o &amp;quot;calor do céu&amp;quot; (''iwa rakuha'') e soprá-lo em diversas partes do corpo da pessoa. Esse calor pode agir de forma preventiva, fortalecendo o corpo, assim como pode curar uma pessoa doente. Os sopros executados pelo cantador-xamã fazem com que as pessoas fiquem bem, sem doença. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há uma outra expressão para mencionar esse procedimento terapêutico: ''ru iwa janaha'', &amp;quot;trazer a música/canto do céu&amp;quot;. Os ''karawara'' e a cura estão diretamente relacionados. É pelo canto que os homens se comunicam com esses espíritos celestes que, então, os auxiliam nas curas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terapêutica awa se vale de cantos e remédios tradicionais. Os Awa não fazem uso de tabaco nem de bebidas fortificantes que seriam consumidas pelos cantadores-xamãs. O máximo que utilizam são remédios da floresta como auxílio da cura, porém o básico é o canto e o sopro. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além da ''takaja'', há pelo menos uma outra forma de trazer os ''karawara'' à terra: por meio de cantos noturnos feitos por um homem em sua casa. Seu princípio vital deixa o corpo e vai ao céu enquanto o ''karawara'' vem à terra para curar. Quando o homem canta, o ''karawara'' se instala em seu peito e logo lhe comunica os procedimentos que devem ser feitos. Essas curas são chamadas simplesmente de ''karawara'' ou ru ''karawara'' (&amp;quot;trazer espírito&amp;quot;). Os corpos dos pacientes são, então, soprados, tirando o agente patogênico (''ha'aera'') que ali se instalou. &lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
Os ''karawara'' ajudam os homens a curar e a caçar, pois com eles estabelecem relações de reciprocidades. Mas sem a caça, o mel e a água terrena os ''karawara'' morrem. Nesse sentido, o desequilíbrio ecológico é também desequilíbrio cósmico. O fim da vida celeste pode ser provocado pelo desmatamento e degradação ambiental na terra e pela penúria alimentar dos ''karawara'' e dos Awa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awá nunca falaram explicitamente sobre uma teoria fatalista oriunda do desmatamento, mas sugeriram, em diversos momentos, o descontentamento dos ''karawara'' com o fim da floresta. Os ''karawara'' estão os mais interessados nas florestas em pé, pois o mundo dos espíritos celestes está em relação de continuidade com o mundo dos Awa. Isso acarreta apreensão e tristeza aos humanos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Novas formas de organização política ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awa Guajá que vivem nas aldeias são considerados pelo Estado brasileiro como um povo de “recente contato” e por isso vivem sob sua forte tutela. São pessoas que vivenciaram diversas políticas de contato: desde a criação das chamadas “frentes de atração”, passando pelos postos indígenas até a reestruturação da Funai e a criação das Frentes de Proteção Etnoambiental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao longo desse período, esses Awa foram alijados de qualquer processo participativo que pudesse prepará-los para a barbárie que chegaria, mais recentemente, com a duplicação da Estrada de Ferro Carajás e diversas outras ameaças como a maciça invasão de seus territórios por madeireiros e posseiros.&lt;br /&gt;
  &lt;br /&gt;
Os Awa estão no meio de um turbilhão de transformações decorrentes do contato, do desmatamento e da invasão de seus territórios, de novos relacionamentos com a Frente de Proteção Awá-Guajá/Funai, os Guajajara (seus aliados na proteção da floresta), além de outros agentes. Além disso, há a chegado de recursos oriundos de um Plano Básico Ambiental (PBA) de mitigação dos impactos da duplicação da ferrovia Carajás da Vale. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fim de lidar com esses desafios, criaram duas associações indígenas cujo objetivo principal é fortalecê-los frente a tantas mudanças e ameaças. Em 2018, foram fundadas a Associação Kakỹ (TI Alto Turiaçu) e a Associação Arari (TIs Caru e Awá). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Reunião de formação da organizações indígenas Arari e Kakỹ. Aldeia Awá, TI Caru, 2016.&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/6/5_7494e35d760e870/71165scr_2cd34438332d060.jpg?v=2020-12-10+12%3A46%3A51&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As associações receberam um aporte financeiro inicial oriundos do Plano Básico Ambiental (PBA) da duplicação da ferrovia e hoje conta com diretorias constituídas e um assessor não indígena contratado cada uma. Esse processo tem aproximado de maneira inédita os Awa das diferentes aldeias e, além disso, do ponto de vista desse povo, as associações vêm atuando como um interlocutor entre as aldeias e os diversos agentes de fora. O objetivo principal dessas organizações é formular projetos que sejam interessantes para as aldeias no sentido de promover ações com as quais os Awa se identificam e ao mesmo tempo gerar renda para as famílias. As mulheres, especialmente, estão engajadas na produção de artesanatos os quais desejam comercializar por meio da Associação Arari e também esperam participar de oficinas promovidas pela associação (de artesanato, mas não só), com a participação de instrutores possam ensiná-las novas técnicas e linguagens ou apoiá-las no aperfeiçoamento de trabalhos que já realizam. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os resultados de todos esses processos ainda são incertos, mas para os Awa Guajá já passou da hora de assumir o protagonismo de suas vidas. Durante décadas foram retratados como “exóticos”, “nômades”, “caçadores-coletores”, “sobreviventes” e toda a sorte de adjetivos que ressaltavam uma equivocada primitividade. Hoje estão buscando gerir plenamente suas vidas, cujos desafios, como a entrada do dinheiro com benefícios sociais, a chegada de ONGs, as compensações ambientais e mesmo as missões evangélicas (para o caso da TI Alto Turiaçu), os colocam em contextos que trazem muitas incertezas, inclusive, existenciais. O maior desafio reside em garantir de forma conciliada a proteção dos recursos naturais, o desenvolvimento de fontes de renda sustentáveis e a manutenção da qualidade de vida, frente a tantos retrocessos que o Brasil vem atravessando nas áreas ambientais e de direitos humanos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Notas sobre as fontes ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar deste verbete basear-se substancialmente em meu próprio trabalho, cujos principais resultados podem ser encontrados no livro ''Crônicas de Caça e Criação'' (2018), muitos autores são decisivos para a consolidação de uma literatura qualificada sobre os Awa Guajá.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Autores como Loretta Cormier (2003) Louis Forline (1997) e, sobretudo, William Balée (1994) e Mércio Gomes (1982, 1985) dedicaram páginas importantes de seus trabalhos a fim de reconstruir a ocupação awa guajá na região do leste amazônico que, mesmo com relatos esporádicos desde o século XIX, raramente apareceu na bibliografia etnológica especializada.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Das primeiras descrições, a mais segura provavelmente é a da Curt Nimuendajú (1948) à época do ''Handbook of South American Indians'' (Vol. 3). Além de se basear em sua passagem pela região, o autor também compila um conjunto de outros relatos. Em Nimuendajú (1948) são contempladas descrições como a de Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio (1825) que, em 1774, menciona entre os grupos indígenas do baixo Tocantins os Uaya. Um outro autor apresentado por Nimuendaju, Cezar Augusto Marques (1864), menciona os Ayaya, um povo &amp;quot;selvagem&amp;quot; que se encontrava nas imediações da estrada que ligava Imperatriz a Belém. De acordo com Araujo Brusque (1862: 12) os Uaiara (Guajará, segundo Nimuendajú) podiam ser vistos no alto curso do Rio Gurupi, mas não fixaram residência naquela região (Nimuendajú, 1948: 135-136). Antes de Nimuendajú, o engenheiro Gustavo Luís Guilherme Dodt viajou pela região do Gurupi (na segunda metade do século XIX) e em 1873 publicou o seu relato que foi reeditado em 1939 (Dodt, 1939).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1957, François-Xavier Beghin publicou um curto e pioneiro relato de viagem no ''Journal de la société des américanistes'' a partir de um encontro que teve com um grupo awa que vivia na região do rio Turiaçu, no limite com o estado do Pará. Tal encontro, muito bem descrito, foi mediado por seu Raimundo, um homem negro que trabalhava como guarda-linha na região. Neste relato, o autor capta elementos importantes sobre os Awa que até hoje são fontes de debate e interesse: gosto pela vida na mata, o interesse pela caça e pela criação de animais em suas pequenas aldeias-acampamentos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Posteriormente, foi em trabalhos sobre os Ka’apor, como o de Francis Huxley (1963) e Darcy Ribeiro (1996), que conhecemos um pouco mais dos Awa - a partir da descrição dos encontros dos Ka’apor (e mesmo desses antropólogos) com grupos awa da região do rio Gurupi.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em relação ao contato, o primeiro relatório oficial foi redigido pela antropóloga italiana Valéria Parise em 1973 (''Relatório da viagem ao Alto Rio Carú e Igarapé da Fome para verificar a presença de índios Guajá''). Junto com Parise estavam também os sertanistas Jairo Alberto Patusco e José Carlos Meirelles, este último veio se tornar um dos mais importantes indigenistas do país. Na década de 1980, Mércio Gomes também escreveu um conjunto de relatórios, comunicações e reflexões em parte como pesquisador independente, em parte para a Funai e como coordenador do chamado “Programa Awá”, concebido no bojo da construção da Estrada de Ferro Carajás. O objetivo do programa era conter o impacto da construção da ferrovia na vida dessa população. Os relatórios e publicações de Gomes são importantes para termos a real dimensão do violento efeito do contato na vida dos Awa. Tais documentos encontram-se nos arquivos da Funai e destacamos aqui os trabalhos de 1985: ''Programa Awá – relatório Inicial; Relatório antropológico sobre a área indígena Guajá (Awá-Gurupi); Relatório sobre os índios Guajá Próximos à ferrovia Carajás - Km 400'' e, em parceria com José Carlos Meirelles, ''Área indígena Awá-Gurupi. Estudos e proposta''. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As décadas de 1980 e 1990, como desdobramento dos primeiros contatos oficiais com parte da população awa guajá, propiciou o aparecimento de diversas pesquisas, sobretudo, nas áreas de linguística e antropologia. Na linguística, a ''Análise fonêmica preliminar da língua Guajá'' (1987) de Péricles Cunha é pioneira. Em antropologia, temos as teses de Louis Carlos Forline, ''The persistence and cultural transformation of the Guaja Indians: Foragers of Maranhão state, Brazil'' (1997), e de Loretta Cormier, que veio a ser publicada em livro com o título ''Kinship With Monkeys'' (2003) - são os dois primeiros trabalhos monográficos sobre os Awa. Ao lado desses, o livro ''Footprints of the forest: Ka’apor ethnobotany – the historical ecology of plant utilization by an amazonian people'' de William Balée (1994), que realiza uma comparação entre os Ka’apor e os Guajá e suas distintas formas de manejo da floresta, é um marco na literatura, não só sobre os Awa Guajá, mas sobre a Amazônia como um todo.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em anos mais recentes, um conjunto de antropólogos e linguistas vêm se dedicando ao estudo de diferentes aspectos da vida dessa população. Muitos desses autores estiveram apenas de passagem, o que em nada diminui a sua contribuição. Outros, por sua vez, vêm construindo uma parceria duradoura que associa atuação política e produção de um conhecimento situado a partir dos interesses dos Guajá. Sob uma perspectiva mais materialista, da ecologia política, destacam-se a dissertação de mestrado de Helbert Medeiros Prado, ''O impacto da caça versus a conservação de primatas numa comunidade indígena Guajá'' (2008), e publicações de Prado com Louis Carlos Forline e Renato Kipnis como ''&amp;quot;Hunting Practices among the Awá-Guajá: Towards a long-term analysis of sustainability in an Amazonian indigenous community&amp;quot;'' (2012). Além desses estudos, um grupo de arqueólogos estrangeiros também publicou análises nessa mesma perspectiva. Destacamos o artigo de Alfredo González Rubial, Almudena Hernando e Gustavo Politis ''&amp;quot;Ontology of the self and material culture: Arrow-making among the Awá hunter-gatherers (Brazil)&amp;quot;'' (2010). Por fim, sob essa perspectiva, é importante destacar o livro de William Balée ''Cultural Forests of the Amazon. A Historical Ecology of People and their Landscapes'' (2013).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob uma perspectiva histórica e do contato destacamos os trabalhos de Eliane Cantarino O'Dweyer, ''O papel social do Antropólogo'' (2010), com uma profunda reflexão sobre a produção de dados para o laudo da Terra Indígena Awá e os desdobramentos dessa pesquisa. Há também a coletânea organizada por Almudena Hernando e Elisabeth Maria Beserra Coelho - ''Estudos sobre os Awá – caçadores-coletores em transição'' (2013) que reúne trabalhos de autores com diferentes orientações.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Reunindo etnograficamente história, política e ecologia a tese de doutorado Guilherme Ramos Cardoso, ''Ariku karai pyry: o &amp;quot;ficar no meio dos brancos&amp;quot; para os Awa do Pindaré, MA'' (2019 Unicamp), e a dissertação de mestrado de Marcelo Yokoi - ''Na Terra, no céu: os Awá-Guajá e os Outros'' (2014 Unicamp) - também se destacam como fontes incontornáveis. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mais recentemente, na área de linguística, a tese ''Sobre a Morfologia e a Sintaxe da Língua Guajá'' (Família Tupi-Guarani) (2007 UnB) de Marina Magalhães é uma contribuição decisiva. E, além desta, a tese de Flávia de Freitas Berto - ''Tipologia de articulação de cláusulas: contribuições de um estudo sobre o Guajá'' (2017 Unesp) também se destaca. Além dessas, a pesquisa ''Awa Papejapoha: um estudo sobre educação escolar entre os awá guajá/MA'' (2015 UnB) de Rosana de Jesus Diniz Santos, a partir de sua experiência enquanto missionária do CIMI e professora da escola indígena é uma importante contribuição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências bibliográficas ==&lt;br /&gt;
{{Well |conteudo=&lt;br /&gt;
* '''BALÉE, William L.''' 1994. Footprints of the forest: Ka’apor ethnobotany - the historical ecology of plant utilization by an Amazonian people. New York: Columbia University Press, 1994.&lt;br /&gt;
* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 1992. People of the fallow: a historical ecology of foraging in lowland South America. In: REDFORD, Kent H.; PADOCH, Christine J. (Eds.). Conservation of neotropical forests. Nova York: Columbia University Press, p. 35-57.&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 1984. The persistence of Ka’apor culture. &amp;lt;/nowiki&amp;gt;New York: Columbia University. 290 p. (Tese de Doutorado).&lt;br /&gt;
* '''BERTO, Flavia de Freitas'''. ''Tipologia de articulação de cláusulas: contribuições de um estudo sobre o Guajá''. Tese de doutorado, UNESP 2017. &lt;br /&gt;
* '''BEGHIN, François-Xavier.''' 1957. &amp;quot;Relation du premier contact avec les indiens Guajá&amp;quot;. Journal de la Société des Américanistes, N.S. XLVI: 197:204.&lt;br /&gt;
* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 1951. &amp;quot;Les Guajá&amp;quot;. Revista do Museu Paulista, N.S. 5:137-39&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
* '''CABRAL, Ana Suelly A. C.''' 1996. “Algumas evidências linguísticas de parentesco genético do Jo'é com línguas Tupí-Guaraní”. Moara, revista dos Cursos de Pós-Graduação em Letras, n.4, p. 47-76. Belém: UFPA. &lt;br /&gt;
* '''CARDOSO, Guilherme Ramos.''' 2019. ''Ariku karai pyry: o &amp;quot;ficar no meio dos brancos&amp;quot; para os Awa do Pindaré, MA''. Tese de Doutorado, UNICAMP, 2019.&lt;br /&gt;
* '''CORMIER, Loretta A.''' Kinship with monkeys: the Guajá foragers of eastern Amazonia. New York: Columbia University Press, 2003.&lt;br /&gt;
* '''CUNHA, Péricles Luiz.''' 1987. Análise fonêmica da língua Guajá. Campinas: Unicamp, 68 p. (Dissertação de Mestrado).&lt;br /&gt;
* '''GARCIA, Uirá F.''' 2019. “Pelas Matas do Pindaré: imagens do isolamento Awa-Guajá”. In: Ricardo, Fany (org). ''Cercos e Resistências: Povos indígenas isolados na Amazônia''. São Paulo: Instituto Socioambiental.&lt;br /&gt;
* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 2018. &amp;lt;/nowiki&amp;gt;''Crônicas de caça e criação''. São Paulo: Hedra; Fapesp. Coleção Mundo Indígena.&lt;br /&gt;
* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 2015. Sobre o poder da criação: parentesco e outras relações awá-guajá. Mana. vol.21, n.1 &amp;lt;/nowiki&amp;gt;[https://doi.org/10.1590/0104-93132015v21n1p091 https://doi.org/10.1590/0104-93132015v21n1p091] &lt;br /&gt;
* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 2012a. “Ka’á Watá, ‘andar na floresta’: caça e território em um grupo tupi da Amazônia”. Mediações – Revista de Ciências Sociais, 17(1), pp. 172-190.&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 2012b. “O funeral do caçador: caça e perigo na Amazônia”. Anuário Antropológico, 2011(II), pp. 33-55.&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 2010. &amp;lt;/nowiki&amp;gt;''Karawara: a caça e o mundo dos Awá-Guajá''. Tese (Doutorado) USP. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Universidade de São Paulo, São Paulo. [https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8134/tde-26072011-145355/publico/2010_UiraFelippeGarcia.pdf https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8134/tde-26072011-145355/publico/2010_UiraFelippeGarcia.pdf]&lt;br /&gt;
* '''GOMES, Mércio Pereira.''' 1988. Os índios e o Brasil. Petrópolis: Vozes.&lt;br /&gt;
* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 1991. O povo Guajá e as condições reais para sua sobrevivência. In: Povos indígenas no Brasil 1987/88/89/90. In: RICARDO, Carlos Alberto. Povos indígenas no Brasil 1987/88/89/90. São Paulo: Centro Ecumênico de Documentação e Informação – CEDI. p. 354-369.&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
* '''GOMES, Ivanise P.''' 1991. Aspectos fonológicos do parakanã e morfossintáticos do awá-guajá (tupi). Recife: UFPE, 120 p. (Dissertação de Mestrado).&lt;br /&gt;
* '''FORLINE, Louis Carlos.''' 1998. Indigenous peoples and state players in Amazonia: implication of contact, settlement and food security among the Guajá indians of Maranhão state, Brazil. Poematropic, Belém: Poema, v. 1, n. 1, p. 26-33.&lt;br /&gt;
* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 1997. The persistence and cultural transformation of the Guajá indians: foragers of Maranhão state, Brazil. &amp;lt;/nowiki&amp;gt;Gainesville: University of Florida. (Tese de Doutorado)&lt;br /&gt;
* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 1996. El pueblo Guajá y la palmera Babaçu (Orbignya martiana). Desarrollo Agroflorestal y Comunidad Campesina, Salta-Argentina: s.ed., v. 1, n. esp., p. 36-41.&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 1995. Os índios Guajá: sua situação alimentar face ao contato e sua transição à agricultura. In: VERDUM, Ricardo (Coord.). Mapa da fome entre os povos indígenas no Brasil (II): contribuição à formulação de política de segurança alimentar sustentáveis. Brasília: Inesc; Rio de Janeiro: Peti/MN; Salvador: Anaí-BA. p. 71-3.&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 1995. A mulher do caçador: uma análise a partir dos índios Guajá. In: ÁLVARES, Maria Luzia M.; D'INCAO, Maria Ângela (Orgs.). A mulher existe? Uma contribuição ao estudo da mulher e gênero na Amazônia. Belém: MPEG. p. 57-79.&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
* '''HERNANDO, Almudena, Gustavo Politis, Alfredo González Ruibal, Elizabeth Beserra Coelho.''' 2011. &amp;quot;Gender, Power, and Mobility among the Awá-Guajá (Maranhão, Brazil)&amp;quot;. In: Journal of Anthropological Research, vol. 67, 2011.&lt;br /&gt;
* '''HERNANDO, Almudena e Coelho, Elisabeth Maria Beserra (org).''' 2013. Estudos sobre os Awá – caçadores-coletores em transição. São Luís: Edufma. &lt;br /&gt;
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* '''MAGALHÃES, Marina M. S.''' 2002. Aspectos Fonológicos e Morfossintáticos da Língua Guajá. Dissertação (Mestrado em Linguística). Brasília: Universidade de Brasília.&lt;br /&gt;
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* '''PRADO, Helbert Medeiros.''' 2008. O impacto da caça versus a conservação de primatas numa comunidade indígena Guajá. Dissertação de Mestrado. Universidade de São Paulo.&lt;br /&gt;
* '''PRADO, Helbert Medeiros, Louis Carlos Forline, Renato Kipnis.''' 2012. &amp;quot;Hunting Practices among the Awá-Guajá: Towards a long-term analysis of sustainability in an Amazonian indigenous community. In: Bol. Mus. Para. Emilio Goeldi. Cienc. Hum,. Belém, v.7, n.2, p: 00-00. mai-ago, 2012.&lt;br /&gt;
* '''RODRIGUES, Aryon. '''1984/1985. “Relações internas na família lingüística Tupí-Guaraní”. Revista de Antropologia, vol. 27/28, p. 33-53. São Paulo: USP.&lt;br /&gt;
* '''RUBIAL, Alfredo González, Almudena Hernando, Gustavo Politis.''' 2010. &amp;quot;Ontology of the self and material culture: Arrow-making among the Awá hunter-gatherers (Brazil)&amp;quot;. In: ''Journal of Anthropological Archeology.''&lt;br /&gt;
* '''RUBIAL, Alfredo González, Gustavo Politis, Almudena Hernando, Elizabeth Beserra de Coelho.''' 2010. &amp;quot;Domestic Space and Cultural Transformation Among the Awá of Eastern Amazonia&amp;quot;. In: ''BAR International Series 2183/ Archaeological Invisibility and Forgotten Knowledge: Conference Proceedings, Łódź, Poland, 5th–7th September 2007.''&lt;br /&gt;
* '''SANTOS, Rosana de Jesus Diniz.''' 2015. ''Awa Papejapoha: um estudo sobre educação escolar entre os awá guajá/MA''. Monografia de especialização em Desenvolvimento e relações sociais no campo: diversidade e interculturalidade dos povos originários, comunidades tradicionais e camponesas do Brasil, Universidade de Brasília.&lt;br /&gt;
* '''SILVEIRA, Maria Luiza dos Santos.''' 2001. Identidade em mulheres índias: um processo sobre processos de transformação. São Paulo: USP-IP. 377 p. (Dissertação de Mestrado)&lt;br /&gt;
* '''TREECE, Dave.''' 1987. Bound in misery and iron: the impact of the Grande Carajás Programme on the indians of Brazil. Londres: Survival International.&lt;br /&gt;
* '''VARGA, István van Deursen.''' “A insustentável leveza do estado: devastação, genocídio, doenças e miséria nas fronteiras contemporâneas da Amazônia, no Maranhão. In Acta Amazonica, vol. 38(1) 2008: 85 – 100. &lt;br /&gt;
* '''YOKOI, Marcelo.''' 2014. ''Na terra, no céu: Os Awá-Guajá e os Outros''. UFSCar. Dissertação (Mestrado). [https://repositorio.ufscar.br/bitstream/handle/ufscar/234/5846.pdf?sequence=1&amp;amp;isAllowed=y https://repositorio.ufscar.br/bitstream/handle/ufscar/234/5846.pdf?sequence=1&amp;amp;isAllowed=y]&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== VÍDEOS ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;huzzazWrapper&amp;quot; style=&amp;quot;width:100%; height: 1700px; margin: 0 auto;&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;htmltag allowfullscreen=&amp;quot;&amp;quot; allowtransparency=&amp;quot;true&amp;quot; frameborder=&amp;quot;0&amp;quot; height=&amp;quot;100%&amp;quot; mozallowfullscreen=&amp;quot;&amp;quot; src=&amp;quot;https://huzzaz.com/embed/aw-guaj?vpp=12&amp;quot; tagname=&amp;quot;iframe&amp;quot; webkitallowfullscreen=&amp;quot;&amp;quot; width=&amp;quot;100%&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;/htmltag&amp;gt;&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas no Maranhão]]&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
Cuidado ao editar esta seção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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--&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Guajá}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Uirá Garcia}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Marina Maria Silva Magalhães}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
{{#set:Capa=awaguaja_capa.png}}&lt;br /&gt;
{{#set:Counter=83306}}&lt;br /&gt;
{{#set:Crédito capa=Uirá Garcia, 1999}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=2020-11-05}}&lt;br /&gt;
{{#set:Estilo=escuro}}&lt;br /&gt;
{{#set:Povo Id=77}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Awa_Guaj%C3%A1&amp;diff=8466</id>
		<title>Povo:Awa Guajá</title>
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		<updated>2025-07-30T15:31:39Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Crianças brincando em acampamento de caça. Aldeia Awa, TI Caru, 2013. Foto: Uirá Garcia &lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/7_30283c83f062354/71177scr_2c21db22ee091f3.jpg?v=2020-12-10+13%3A18%3A02&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Guajá, que vivem na pré-Amazônia brasileira, constituem um dos últimos habitantes dos formadores dos rios Pindaré e Gurupi, os Awa Guajá vivem em terras indígenas situadas nos últimos refúgios de floresta amazônica no estado do Maranhão. A maior parte da população vive em aldeias, mas há grupos vivendo em isolamento voluntário nas TIs Awá, Caru e Araribóia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A história dos Awa Guajá é marcada por genocídios e pela violência sofrida ao longo de décadas, desde os primeiros contatos com os não indígenas. Seu território tradicional foi atravessado e cortado ao meio pela Rodovia BR-222, na década 1960, e pela Estrada de Ferro Carajás, nos anos 1980. A partir das frentes de colonização e da implementação das políticas de desenvolvimento econômico no norte do país, ocorridas no período militar, os Awa resistiram como puderam para se manterem vivos e seguirem com um modo de vida essencialmente ligado à floresta. O profundo conhecimento sobre a mata, os animais e as plantas revela formas de ação que evidenciam o quanto os Awa são responsáveis por manter vivo o que restou de floresta no Maranhão. Apesar de sua resiliência, é notável impactos irreversíveis dessas políticas no que diz respeito à garantia de seus direitos territoriais. Um povo cuja alimentação tradicional é constituída por aquilo que coletam e caçam na mata vive hoje desafios imensos – o maior deles é a proteção das florestas tropicais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;htmltag tagname=&amp;quot;iframe&amp;quot; src=&amp;quot;https://open.spotify.com/track/5FC0p8pWmmiZdJSShZgGB8?si=b10e3b75ebe94acf&amp;quot; width=&amp;quot;100%&amp;quot; height=&amp;quot;394&amp;quot; allow=&amp;quot;autoplay&amp;quot;&amp;gt; Video Iframe &amp;lt;/htmltag&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;small&amp;gt;  &amp;lt;/small&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nomes ==&lt;br /&gt;
Os Awa Guajá, também conhecidos como Guajá, se autodenominam Awa, termo que inclui todos os falantes da língua, independentemente de onde vivam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Empregamos aqui no nome composto Awa Guajá, respeitando a forma como esse povo prefere ser reconhecido atualmente. A palavra Awa é sem acento agudo, seguindo a ortografia utilizada pelas comunidades em suas escolas, e a palavra Guajá, uma denominação externa, respeita a ortografia do português. &lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
Politicamente, os termos Awa Guajá, Awá e Guajá ainda são utilizados por eles de forma alternada, a depender do contexto, dos interlocutores e de outros fatores sociopolíticos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As primeiras menções a esse povo datam da década de 1940 e lá encontramos a denominação Guajá. O nome foi atribuído por não indígenas durante os primeiros contatos com o objetivo de distinguir essa população dos Tenetehara ([[Povo:Guajajara|Guajajara]]), um povo vizinho. Outras fontes apontam que foram os [[Povo:Ka'apor|Ka'apor]] os primeiros a chamá-los de Guajá. Nos documentos produzidos até a década de 1990, eram nomeados Guajá. &lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
''Awa'' é a autodesignação destas pessoas e significa &amp;quot;gente&amp;quot;, &amp;quot;humano&amp;quot;. A palavra é empregada pelos Awa Guajá para se diferenciar de outros tipos de gente. Para eles, a humanidade não é uma unidade homogênea que pode ser expressa na ideia de que &amp;quot;somos todos humanos&amp;quot;. Ao contrário, a humanidade em seu sentido forte refere-se somente a pessoas que falam a mesma língua, compartilham um espaço e um modo de vida, alimentam-se da mesma forma, respeitam as mesmas regras de etiqueta etc.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
O termo awa também é utilizado por diversos grupos amazônicos falantes de línguas da família Tupi-Guarani para se referir a si próprios como &amp;quot;gente&amp;quot;, &amp;quot;humano&amp;quot;. É o caso, por exemplo, dos [[Povo:Parakanã|Parakanã]] do Pará, dos [[Povo:Asurini do Xingu|Asuriní do rio Xingu]] e dos vizinhos Ka'apor.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left&lt;br /&gt;
|O caçador Majhuxa’a (à esquerda) e sua esposa Pakawãja (em pé), compartilhando um pedaço da saborosa carne de paca com seu cunhado Akamatỹa. Aldeia Tiracambu, TI Caru, 2013. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/8/5_a6d46ec75dbda6d/71185scr_1b623538433599b.jpg?v=2020-12-10+13%3A22%3A11&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
Para os Awa Guajá, existem tipos diferentes de &amp;quot;gente&amp;quot; ou &amp;quot;humanos&amp;quot;. Pessoas muito próximas entre si, como os residentes de uma mesma aldeia, se chamam de ''Awatea'', &amp;quot;gente mesmo&amp;quot; ou &amp;quot;gente de verdade&amp;quot;, quando querem se diferenciar dos demais. Pessoas que vivem em aldeias diferentes podem se referir umas às outras utilizando o termo ''Awa'' e não necessariamente ''Awatea''. Quando os Awa Guajá se pensam como um todo (um povo indígena diferente dos demais) se consideram ''Awa'', que é a autodesignação mais geral.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
Mas como são chamadas as pessoas que são consideradas diferentes? Há três categorias centrais utilizadas para se referir a outros tipos de gente: 1) ''Kamara'', usada para se referir aos indígenas de outras etnias; 2) ''Karaia'', remete aos não indígenas; 3) ''Mihua'', termo utilizado para nomear os Awá e outros povos desconhecidos, potencialmente bravos, como os Awa Guajá isolados. Outro termo que usam para designar os isolados é ''Awa ka'apahara'', &amp;quot;gente do mato&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Língua ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Em um descanso na floresta, durante uma caçada, Airuhua conversa com seu filho Jahara. Aldeia Juriti, TI Awa, 2008.  Foto: Uirá Garcia &lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/1_a8851b3a8b9d9a8/71171scr_0b6b1f624584f31.jpg?v=2020-12-10+13%3A15%3A44&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
A língua Guajá integra o Tronco Tupí e pertence ao subgrupo VIII da família linguística Tupi-Guarani, que inclui as línguas faladas pelos povos Ka'apor, [[Povo:Wajãpi|Wajãpi]], [[Povo:Zo'é|Zo'é]], [[Povo:Amanayé|Amanayé]], [[Povo:Anambé|Anambé]], [[Povo:Tembé|Tembé]], [[Povo:Tapirapé|Tapirapé]], entre outras (Rodrigues, 1984/85; Cabral, 1996). Foi inicialmente estudada por Péricles Cunha (1988) e mais recentemente por Marina Magalhães (2002 e 2007). &lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
Devido ao fato de os Awa Guajá viverem, antes do contato e da sedentarização, organizados em pequenos grupos familiares dispersos em vários territórios, a língua possui variantes associadas aos grupos de origem. Atualmente, vivem na mesma aldeia grupos distintos que foram contatados em momentos diferentes e é possível identificar variações linguísticas sutis específicas a cada um desses grupos, relacionadas à realização de alguns fonemas e itens lexicais. &lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
Há ainda as diferenças relacionadas aos locais onde as aldeias awá foram criadas. A variante falada pelos Awa Guajá que vivem na [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3575 Terra Indígena Alto Turiaçu] é diferente das demais: há empréstimos da língua falada pelos Ka’apor, povo com o qual compartilham o território. Já a variante dos Awa Guajá residentes nas Terras Indígenas [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3645 Caru] e [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3608 Awá], compartilha palavras e estruturas gramaticais com a língua Guajajara.&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
No que se refere à sua vitalidade, a língua Guajá é falada fluentemente em todas as comunidades e por todos os indivíduos e não apresenta indícios de que está enfraquecendo. Observa-se ainda, em todas as aldeias, um grau de bilinguismo que pode variar razoavelmente considerando aspectos como gênero, idade e grau de convivência com os não indígenas. De maneira geral, aqueles que melhor se comunicam em português são os homens mais jovens que costumam representar o povo em reuniões e eventos relacionados a questões político-sociais e que, normalmente, acompanham os velhos, as mulheres e as crianças quando estes precisam sair das aldeias. No entanto, especificamente na aldeia Cocal, há lideranças femininas bilíngues que também exercem essa mesma função.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;small&amp;gt;[&amp;lt;em&amp;gt;Colaboração de Marina Magalhães (Linguista, UNB)&amp;lt;/em&amp;gt;]&amp;lt;/small&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== População e localização == &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awa Guajá são uma pequena população que se encontra na porção oriental da Amazônia, no noroeste do estado do Maranhão. Seu contingente populacional é estimado em cerca de 520 pessoas (Garcia, 2018) e a maioria vive em contato há décadas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Da direita para a esquerda, os jovens Tarapẽ, Xikapiõ e Juwi’ia, à noite em um retiro de caça. TI Awá, 2016. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/8/6_9c4baf5a1f6c4e4/71186scr_406af308848bb48.jpg?v=2020-12-10+13%3A22%3A48&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A mais antiga aldeia é Cocal (antigo Posto Indígena Guajá), localizada na [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3575 TI Alto Turiaçu], onde também vivem os povos Ka'apor e Tembé. Na [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3645 TI Caru], território compartilhado com os Tenetehara (Guajajara), estão as aldeias  Tiracambu e Nova Samiỹ. Já na [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3608 TI Awá], a última a ser demarcada, está localizada a aldeia Juriti.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há também grupos awa isolados, confirmados pela Funai, que vivem entre as TIs Awá e Caru, além de um outro grupo isolado na [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3600 TI Araribóia], território guajajara mais ao sul e a leste. Este é o principal registro da presença de isolados awa guajá cuja população é estimada em dezenas de pessoas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
De acordo com notícias, relatórios da Funai, documentações dispersas e, sobretudo, os relatos dos Guajajara, estima-se que existiam, em 2019, ao menos 60 Awa Guajá isolados na TI Araribóia. Este dado impressiona, pois tratam-se de grupos isolados vivendo em uma Terra Indígena que abriga mais de 14 mil pessoas do povo Guajajara e que sofre com o altíssimo índice de desmatamento decorrente da ação de madeireiros ilegais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pouco se sabe sobre a maneira que esses isolados awa guajá se organizam; quantos grupos são; em quais regiões da TI Araribóia cada grupo estaria; o número exato de pessoas, entre outras informações estratégicas. Devido à sua grande mobilidade e ao fato de estarem constantemente fugindo de madeireiros, narcotraficantes, pequenos posseiros e outros invasores, é difícil termos certeza de onde esses grupos isolados estariam e mesmo quantos são.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A porção de floresta amazônica no Maranhão é uma região com alto grau de pressão antrópica e de desmatamento e é lá onde vivem os Awa. Seus territórios estão nas últimas parcelas de floresta tropical parcialmente preservadas do estado e formam um corredor verde junto com a Reserva Biológica/REBIO do Gurupi, a única Unidade de Conservação de proteção integral na amazônia maranhense. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo estudos, em 2017, 75% da floresta amazônica havia sido desmatada no Maranhão. As principais atividades econômicas na região são, de um lado, o corte de madeira e a produção de carvão vegetal e, de outro, o desenvolvimento da agropecuária e as plantações de eucalipto nas áreas desmatadas. A consequência disso é que há décadas as Terras Indígenas têm sido invadidas e os seus habitantes, as maiores vítimas do desmatamento. O número de lideranças indígenas assassinadas no Maranhão é extremamente alto. Um estudo feito em 2019 pelo Instituto Socioambiental e ''Joint Research Centre'' aponta que nas Terras Indígenas habitadas pelos Awa Guajá 92% da floresta remanescente está degradada, ao passo que a TI Araribóia, palco de diversos assassinatos a lideranças guajajara nesse ano, tem 38% da floresta remanescente comprometida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awa Guajá, ao lado de outros povos, vivem ilhados em áreas remanescentes da floresta amazônica e estão ameaçados pela destruição ambiental e pela violência que vem no lastro destas atividades ilegais.&lt;br /&gt;
{{Well&lt;br /&gt;
|conteudo=&lt;br /&gt;
Veja o documentário ''Ka’a zar ukyze wà - Os Donos da Floresta em Perigo'' (2019) dirigido por Flay Guajajara, Edivan dos Santos Guajajara e Erisvan Bone Guajajara sobre os Awa isolados na TI Araribóia. &lt;br /&gt;
{{Vídeo&lt;br /&gt;
|12&lt;br /&gt;
|https://www.youtube.com/embed/yol-QPrVi3A|16by9|}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;clearfix&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;br&amp;gt;O filme traz imagens inéditas desse grupo e um pedido de socorro dos Guajajara pela proteção das florestas e dos Awa isolados cujo modo de vida depende essencialmente da floresta. Se a destruição continuar, o que será de suas vidas?&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fuga e resistência awá na longa duração ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diversos grupos indígenas que hoje ocupam o norte do Brasil migraram nos últimos séculos da região do médio Tocantins devido às frentes de colonização que avançavam para a região central do país. Diversos eventos devem ter colaborado para esses fluxos: guerras, como a Cabanagem (1835-1840) que atingiu a antiga província do Grão-Pará; a escravização indígena, assim como o aumento populacional da região onde viviam (Cormier, 2003). Esses elementos desestabilizaram a vida de vários povos que tiveram que fugir. Muitos deles seguiram para o norte e esse parece ter sido o caso dos Awa Guajá, Ka'apor, Wajãpi, Zo'é, entre outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma das hipóteses mais prováveis é a dos Awa Guajá terem chegado na região depois dos Ka’apor, grupo historicamente inimigo, que também havia migrado para a região do rio Turiaçu. Até o século XIX, os Awa poderiam ser encontrados na porção leste do Pará e provavelmente no final desse século atravessaram o rio Gurupi para alcançar o atual Maranhão (Balée, 1994). Lá encontraram os Tenetehara, possíveis descendentes dos Tupi da costa maranhense (Wagley e Galvão, 1961). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Desde o século XIX, sabe-se que seus territórios se situam nas cabeceiras dos rios Pindaré, Turiaçu e seus tributários (Gomes, 1982). Outros relatos afirmam que há pelo menos 150 anos grupos awa guajá vivem nas imediações dos rios Pindaré e Turiaçu. Os fluxos migratórios desse povo ocorreram, muito provavelmente, no século XIX, quando grupos se deslocaram em direção ao norte, ocupando áreas onde hoje estão localizadas as TIs Caru, Awá e Alto Turiaçu. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar da dificuldade de traçar um histórico desses movimentos migratórios ao longo de séculos, é certo que pelo menos desde o início do século XX os Awa Guajá viviam próximos ao rio Pindaré, que ainda hoje é designado ''’yramãja'', o “grande rio”. Foi provavelmente através desse rio que os Awa ocuparam boa parte do seu território, chegando às cabeceiras do rio Caru e seus igarapés. Ao observar os afluentes do Pindaré, como os rios Zutiua, Buriticupu e Caru, notamos que esta bacia é como um conjunto de artérias que abrange todo o território tradicional dos Awa Guajá. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gomes e Meirelles (2002) consideram a possibilidade da região da Terra Indígena Araribóia ter sido o “coração” de um grande território awa guajá. Estes autores observam que tanto as áreas de serra na TI Araribóia, quanto as serras próximas (Desordem e Tiracambu) foram ocupadas pelos Awa tendo em vista o baixo “interesse agrícola” dessas terras para povos como os Ka’apor e Tenetehara. Os Awa Guajá nunca moraram próximos a rios navegáveis, sempre preferiram as áreas de topo de serra drenadas pelos rios Turiaçu, Caru e Pindaré e rios menores como o Turi, Turizinho, Rio do Sangue, Rio do Peixe, além de inúmeros igarapés. Foi perto desses pequenos igarapés que os Awa se sentiram mais seguros, dado o isolamento e o farto acesso à água. Em seus relatos sobre as inúmeras fugas vividas, a sede (''haiwê'') que sofriam é sempre mencionada com pesar. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A TI Araribóia, que hoje abriga grupos awa guajá isolados, parece central para se compreender a trajetória dos Awa Guajá como um todo, tanto dos grupos que preferem o isolamento, quanto dos Awa que vivem nas outras TIs. É como se todos os Awa estivessem conectados a ancestrais comuns que viveram na região onde hoje é a TI Araribóia. Se, nas últimas décadas, as duas áreas com presença confirmada de isolados (TIs Awá e Caru; TI Araribóia) abrigam grupos independentes, no sentido de serem, segundo a Funai, diferentes “registros”, o mesmo não teria ocorrido no passado se observamos a ocupação da região a partir uma longa duração. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antes da construção da rodovia BR-222, na década 1960, havia algo próximo a um território awa guajá contínuo, uma espécie de corredor que ia da TI Araribóia à TI Alto Turiaçu. Esses fluxos foram interrompidos no século XX, com a chegada de migrantes decorrente da construção da rodovia e com a construção da Estrada de Ferro Carajás, na década de 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que está na origem de quase todo o êxodo dos Awa Guajá, desde a saída de seu território ancestral (TI Araribóia) até a chegada nas matas do Pindaré, onde estão hoje as principais aldeias, é justamente o esgarçamento de seus espaços de vida (a floresta) devido às sucessivas levas de migrantes, a formação de povoados e, em seguida, de pequenos municípios próximos às Terras Indígenas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As fugas vividas pelos Awa ocorreram devido ao avanço das frentes de colonização no Maranhão iniciadas na década de 1960, com o apoio do governo, sobretudo, por meio da extinta Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste). O discurso oficial na época era o de que não havia povos indígenas na região e que havia ali um vazio demográfico. Ao longo das décadas seguintes, muitos povos indígenas foram contatados, territórios foram criados, no entanto outros grupos continuaram fugindo até a década de 1980, quando foi criado o Projeto Grande Carajás. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A economia que emergia na região até então ocupada pelos povos indígenas era inteiramente dependente da exploração dos recursos da floresta: extração de madeira, abertura de roças, produção de carvão, exploração de recursos naturais como as folhas de jaborandi (como foi o caso da indústria farmacêutica Merck), além da abertura de pastos e plantio de capim. Infelizmente, a drástica diminuição dos recursos florestais ainda é a tônica da economia regional que é resultado direto de políticas oficiais voltadas ao desenvolvimento econômico da região norte impulsionadas, sobretudo, nos anos da ditadura militar no Brasil e presentes até hoje. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas políticas tiveram impactos irreversíveis nos territórios dos Awa Guajá, em suas relações e na própria concepção de tempo que estrutura suas vidas - este dividiu-se entre o “tempo do mato” (''imỹna ka’ape'') e o tempo que marca a vida nas aldeias. A reunião de grupos familiares em aldeias grandes é uma experiência relativamente recente entre os Awa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Histórias dos contatos ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XX, mesmo com a intensificação da ocupação não indígena na região, os Awa conseguiram permanecer isolados, pois continuaram a fugir. Até o final da década de 1960, havia pouca informação sobre eles. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Embora o contato oficial entre o Estado brasileiro e os Awa Guajá tenha se iniciado na década de 1970, já se tem notícias de contatos com os Awa desde 1943, quando um pequeno grupo apareceu às margens do rio Pindaré. Em 1965, com a abertura da rodovia São Luís-Belém, outro contato mal-sucedido foi realizado com um grupo de 12 pessoas. Trabalhadores da estrada avistaram esse grupo e acionaram a Funai, que levou cerca de seis a sete indígenas para o então Posto Indígena Gonçalves Dias e todos morreram alguns meses depois (Gomes, 1985). Desde essa época até o final da década de 1980, morreram de tuberculose, sarampo, malária, disenteria e, sobretudo, gripe. Todos os Awa com mais de 25 anos guardam na memória histórias de pessoas próximas vitimadas pela gripe. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os processos de contato se dão lentamente desde a década de 1940. Em muitos encontros, os Awa contraíram doenças como sarampo e gripe, acarretando mortes, muitas vezes, de todo um grupo local. Oficialmente, o processo de contato com agências do Estado brasileiro teve início em 1973 com as expedições realizadas pelos sertanistas José Carlos Meirelles, Florindo Diniz e Jairo Patusco. Foi somente em 1976 que se deu o primeiro contato com um grupo que estava no alto curso do Rio Turiaçu. Este grupo deu origem ao que hoje é a aldeia Cocal (antigo Posto Indígena Guajá), na TI Alto Turiaçu. Dos 56 indivíduos contatados em 1976, restaram somente 26 pessoas, em 1980, doentes de malária e gripe. Em 2002, essa aldeia tinha 67 pessoas (Gomes e Meirelles, 2002).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ocorreram diversas iniciativas de aproximação, sobretudo, entre os anos 1970 e 1980. Além das frentes de atração, algumas famílias eram contatadas &amp;quot;por acaso&amp;quot;, em encontros com regionais ou com outros indígenas e não raro terminavam em mortes. Quando contatados fora do âmbito de atuação das frentes de atração, os Awa eram, em seguida, enviados para aldeias já criadas pelo órgão indigenista. Muitas vezes, não mantinham a menor relação com os residentes dessas aldeias e não tinham conhecimento necessário sobre a região para onde a Funai os havia levado. Outro fenômeno comum eram os próprios Awa buscarem o contato, aproximando-se dos vilarejos em busca de alimento e socorro. Na década de 1970, viveram um momento crítico, quase foram extintos. Restava-lhes pouca opção contra o genocídio: buscar o contato ou continuar a fugir. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar dessas expedições de contato realizadas pelo órgão indigenista oficial, boa parte do século XX foi marcada pelas fugas dos Awa Guajá. Foram épocas de muito sofrimento caracterizadas pela impermanência dos acampamentos e pelo risco permanente de serem mortos por não indígenas ou de morrerem devido a doenças infectocontagiosas. Em fuga permanente, não era possível viver de maneira adequada, caçar de forma certa e as coisas importantes para se ter perto, como arcos, feixes de flechas, objetos, tição de fogo etc., eram deixados para trás durante as &amp;quot;correrias&amp;quot;. Era preciso conter o choro das crianças para que os Awa em fuga não fossem ouvidos pelos não indígenas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As memórias recentes dos Awa Guajá estão repletas de episódios traumáticos. São relatos de sobreviventes de um genocídio nos quais são comuns menções à sede, ao medo, à tristeza, à falta de cônjuges, à morte. Em outras palavras, foram experiências de puro horror. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;quot;Os karai [não indígenas] mataram a minha esposa e meu filho. Eles atiraram neles na mata. Atiraram com arma de fogo feita de ferro. Eu era o pai. Quem morreu foi um antigo filho meu. Os karai o mataram com arma de fogo. Nós corremos e eles foram atrás de nós e os mataram. Os karai matam até crianças Awa! Mataram meu filho! Eu andei muito pela mata. Às vezes era muito calor e sentia sede. De longe eu ficava observando os karai. Via suas plantações de mandioca e milho. E pensava que um dia ia matá-los. Andava muito pela floresta: a floresta é grande! Muitas vezes eu estava tão perto dos karai que escutava o galo cantar. Por vezes eu passava fome&amp;quot;.&amp;lt;small&amp;gt;Karapiru, aldeia Tiracambu, 2013.&amp;lt;/small&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que manteve os Awá vivos e praticamente “invisíveis” durante todo o século XX foi a capacidade de viverem em grupos pequenos na floresta. Diante da necessidade de estarem permanentemente em fuga, esses grupos se dispersaram na mata e muitos deles somente voltaram a se encontrar após o contato oficial, quando foram reduzidos em aldeias permanentes. Não por acaso, ainda persistem pequenas diferenças dialetais entre os grupos locais que vivem nas quatro aldeias do povo Awa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A estratégia de incorporar nas equipes de expedições de contato indivíduos contatados do mesmo povo que está em isolamento foi e ainda é utilizada entre os Awa, como em toda a Amazônia indígena. Entretanto, nos últimos contatos ocorridos em 2006 e 2014, os Awa decidiram fazer sozinhos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A existência de Awa isolados na Terra Indígena Araribóia é alvo de grande preocupação por parte dos Tenetehara, povo que compartilha o território com esses isolados e que vêm atuando como uma espécie de protetor. Da mesma forma, os Awa Guajá que vivem nas aldeias estão preocupados com o tipo de vida precária que seus “parentes isolados” estão levando. Com frequência, homens awa que vivem nas TIs Caru e Awá se juntam às expedições na TI Araribóia, organizadas pela Frente de Proteção Etnoambiental Awá-Guajá (FPEAG)/Funai, para, de alguma maneira, contribuir para a proteção dos parentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os isolados Awa Guajá da TI Araribóia somam dezenas de pessoas, diferindo dos isolados que vivem entre as TIs Awá e Caru, que são menos numerosos. Da perspectiva dos Awa contatados, esses que conhecemos como “isolados” são chamados ora de “gente do mato” (''awa ka’apahara''), quando considerados “próximos”, ora de “gente brava” (''mihua''), quando são concebidos como distantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a década de 1990, ocorreram outros contatos na região da Araribóia com famílias e/ou indivíduos Awa Guajá que, posteriormente, foram transferidos para as TIs Caru e Awá. Os isolados que, hoje, resistem na TI Araribóia são remanescentes de um conjunto populacional composto por falantes de uma mesma língua (o Guajá) que vive separado há bastante tempo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No fim de 2014, houve o contato com três pessoas awa guajá na TI Caru. Eram remanescentes de um grupo que resistiu ao contato desde a década de 1980, conhecido como o “grupo de Miri-Miri”, em referência ao nome de seu líder. Esse grupo justificou a criação do posto indígena Tiracambu (TI Caru) visando, ali, fixá-los, mas Miri-Miri e seu pessoal preferiram permanecer na floresta. Estima-se que todos os isolados existentes na TI Caru sejam remanescentes ou descendentes do grupo de Miri-Miri. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após décadas fugindo, ora pelas serras, ora pelas matas drenadas pelos rios Pindaré, esse pequeno grupo se viu encurralado e sem perspectivas em um dos territórios mais ameaçados da Amazônia. O contato foi feito por um grupo residente na aldeia Awá (TI Caru). Há quase uma década, em 2006, pessoas dessa mesma aldeia localizaram e contataram membros do grupo encontrado em 2014.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A autonomia política dos Awa representada por pequenos grupos familiares, base de sua organização social pré-contato, fez com que o processo de contato atravessasse a década de 1990 e se arrastasse até hoje. Os grupos awa que evitam a todo o custo o contato estão nas áreas de mata contínua entre as TIs Caru e Awá e na TI Araribóia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Os Awá Guajá e a Estrada de Ferro Carajás ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Estrada de Ferro Carajás do Programa Grande Carajás, pólo de produção e exportação de minérios da então Companhia Vale do Rio Doce (hoje Vale S/A), foi inaugurada em 1985. A construção da ferrovia acelerou os contatos com grupos indígenas que até então viviam sem contato no Pará e no Maranhão. A política indigenista favoreceu a Vale do Rio Doce, na época empresa estatal, ao retirar os indígenas de seus territórios apenas por serem áreas por onde passaria a estrada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse período, os contatos com os grupos awa estavam no início, mas centenas de indivíduos não contatados já haviam morrido por causa de doenças e assassinatos perpetrados pela população regional emergente. A partir de 1982, a Companhia Vale do Rio Doce firmou um convênio com a Funai para dar início a delimitação das áreas que seriam destinadas aos Awa Guajá. Foi nesse contexto que começaram os trabalhos de demarcação das Terras Indígenas Caru e Alto Turiaçu, para onde eram levados os Awa que iam sendo contatados pela Funai.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Índios Guajá do Rio Turiaçu e membros da Frente de Atração. Foto: Vincent Carelli/Vídeo nas Aldeias&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/5/3/8/5/1_d35b0399549edef/53851scr_d9cb59546cb2cd7.jpg?v=2020-03-13+15%3A17%3A01&lt;br /&gt;
}} &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Motivado pela passagem da ferrovia em locais próximos aos territórios awa, o órgão indigenista reativou as chamadas frente de atração e então, a partir de 1984, novas famílias awa foram contatadas e novas mortes advindas de contatos pouco planejados ocorreram. Nessa época, muitos grupos awa foram localizados e alguns contatados nos igarapés formadores da cabeceira do rio Caru, como o igarapé Água Branca, um dos limites da Terra Indígena Caru, e o Igarapé Brejão. Estes locais estavam invadidos por pequenos grupos de posseiros e grileiros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O fato de a ferrovia cortar ao meio os territórios tradicionais awa pode ser atestado em inúmeros episódios ocorridos na década de 1980. Em 15 de agosto de 1985, na altura do km 396 da EFC, um motorista da empresa Tratex, empreiteira que trabalhava para a Companhia Vale do rio Doce, foi ferido por uma flecha no momento em que trabalhava na construção de um desvio que liga a ferrovia a BR-222. Só nesse ano, foi o terceiro episódio desse tipo que aconteceu nas imediações da ferrovia, envolvendo a população local recém-instalada e/ou trabalhadores da Vale e os Awa (Gomes, 1985). Em uma expedição realizada em agosto de 1985, Gomes ouviu relatos de que trabalhadores da ferrovia viam com frequência os Awa ao longo da estrada, assim como muitos moradores que viviam em lotes e fazendas próximas à ferrovia de Carajás. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1985, teve início a identificação da TI Awá. Essa TI interliga as TIs Caru, que margeia a ferrovia, e Alto Turiaçu, e foi destinada ao usufruto exclusivo dos Awa Guajá. No entanto, até a sua desintrusão completa, em 2014, estava invadida por centenas de ocupantes ilegais, entre eles fazendeiros, posseiros, madeireiros e pequenos agricultores. Nos últimos anos, mesmo após um longo processo de desintrusão, parte dos antigos ocupantes ilegais e invasores da TI Awá voltaram ao território ocupando-o novamente com gado e roças de mandioca para a produção comercial de farinha.   &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Projeto Carajás afetou não apenas os Awa Guajá, mas também cerca de 40 comunidades indígenas distintas (Treece, 1987), influenciando diretamente a atual configuração socioespacial dos povos indígenas na região, que perderam parcelas significativas de seus territórios tradicionais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A duplicação da ferrovia intensificou os impactos da Estrada de Ferro sobre as TIs onde vivem os Awa Guajá. As aldeias Awá e Tiracambu, na TI Caru, são muito próximas dos trilhos e, portanto, expostas à poluição sonora provocada pelo ruído dos trens de carga. O projeto de duplicação também resultou no aumento das pressões de madeireiros e invasores sobre os territórios indígenas que, até hoje, sofrem com invasões e incêndios criminosos, como os ocorridos em 2015 que afetaram 57,5% da TI Awá. &lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
O impacto da estrada de ferro é sentido pelos Awa Guajá de diversas formas. Além da presença física da ferrovia, do crescimento populacional regional e da pressão sobre seus territórios (intensificado pela duplicação), há a destruição florestal. Transtornos ecológicos decorrentes dos impactos da ferrovia, como a dispersão e morte dos animais, têm afetado suas atividades de caça, que são fundamentais para os Awa Guajá. O barulho produzido pelos trens (''terẽ ma’iha'')espanta os animais e atrapalha os sentidos dos caçadores em suas atividades diárias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como a grande maioria dos povos amazônicos, os Awa não possuem uma palavra para designar &amp;quot;animal&amp;quot;, mas sim para &amp;quot;caça&amp;quot; ou &amp;quot;presa&amp;quot;: ''ma'amiara''. Hoje em dia, no entanto, fazem uma distinção clara entre &amp;quot;caça brava&amp;quot; (''haitema'á'') e &amp;quot;caça mansa&amp;quot; (''haite’yma'a''). A &amp;quot;caça brava&amp;quot; está acostumada com o barulho dos tratores, motosserras, trens e povoados que existem no entorno dos territórios e por isso mais atenta e difícil de ser caçada. Já a &amp;quot;caça mansa&amp;quot; é aquela que vive no interior da Terra Indígena, em áreas ainda preservadas. Nesses lugares, os animais não estão acostumados com a presença humana e, portanto, vivem menos escondidos - são mais suscetíveis a virarem presa dos caçadores awa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para os Awa, o silêncio e a atenção são atitudes fundamentais para se viver na floresta. Porém, com a construção da ferrovia, essa experiência tem sido modificada brutalmente. A destruição ambiental também é vivida em termos sonoros, pois remete à produção contínua de barulho.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a ampliação da estrada de ferro da Vale, concluída em 2018, foi implementado um Plano Básico Ambiental (PBA) e, ao lado desse plano, foi renovado o acordo de cooperação para mitigação dos impactos estabelecidos desde a construção da ferrovia. A Vale destinou parte dos recursos do projeto para atividades de compensação, atendendo os povos Awá, Guajajara e Ka’apor. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este projeto da Vale acumula um número considerável de denúncias de violações de direitos humanos e socioambientais (consulte o [http://global.org.br/wp-content/uploads/2013/10/relatorio_missao_carajas.pdf relatório sobre o Projeto Ferro Carajás]).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Organização social e política ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awa Guajá sempre viveram em pequenos grupos e privilegiam formas independentes e mais “fragmentadas” de organização social, marcadas, inclusive, pela dispersão geográfica dos grupos locais. Isso fica evidente quando vemos a abrangência de seus territórios: vão desde as TIs Alto Turiaçu, Awá, Caru até a TI Araribóia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Existem registros da presença e/ou passagem dos Awa em regiões muito distantes entre si, desde a cidade de Araguaína, no Tocantins, passando pela região entre os rios Zutiua e Pindaré, no Maranhão, chegando até povoados no baixo rio Caru. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há ainda relatos de Awa que, durante suas fugas percorreram longas distâncias, alcançando os estados de Goiás, Bahia e Minas Gerais. A trágica história de Karapiru, documentada por Andrea Tonacci no filme &amp;quot;Serra da Desordem&amp;quot; (2006), é um desses casos. Após testemunhar o assassinato de sua família por posseiros que haviam invadido seu território, Karapiru iniciou uma longa jornada de fuga pelas serras do Brasil central. Depois de uma década em fuga solitária, foi encontrado pela Funai em 1988, no estado da Bahia, a mais de mil quilômetros de distância de seu ponto de partida, no Maranhão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As grandes aldeias onde hoje os Awa vivem, com cerca de 50 a 200 pessoas - a depender da aldeia - são novidade. Apesar de reunirem muitas pessoas, cada aldeia se estrutura como um conjunto de pequenas aldeias, uma vez que não há pátio central ou qualquer construção ou espaço que seja o centro da vida coletiva. Suas aldeias, formadas por diferentes famílias, são organizadas por “setores” baseados em grupos de &amp;quot;homens importantes&amp;quot; ou “chefes” (''tamỹ''). Pensar a comunidade como um “todo homogêneo” é uma ideia que os Awa Guajá não compartilham. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As famílias são como unidades autônomas e todo chefe de família é uma espécie de líder (''tamỹ'' ou ''xipa tamỹ'') em potencial. Não faz sentido, portanto, falar em uma liderança que represente o “todo”, o “povo” ou a “sociedade awa&amp;quot; etc. O coletivo pode ser articulado em contextos específicos, mas logo se dissolve em uma organização social descentralizada. É por isso que a noção de liderança também assume um sentido específico: é aquele que consegue convencer os outros com as suas palavras ou com a sua empolgação com relação a uma tarefa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
''Myty'' é um termo que remete a um entendimento importante sobre a política e pode ser traduzido para o português por “puxar”. Uma liderança ou um chefe (''tamỹ'') tem como principal atribuição &amp;quot;puxar&amp;quot; um coletivo. É quem vai na frente, puxando os demais. A expressão ''myty ipamẽ'' dá essa ideia, justamente: “puxando e indo junto/misturado”. Os trabalhos na roça, as caçadas e outras ações são pensadas dessa maneira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em todas as atividades, nos mais diversos aspectos da existência, os ''tamỹ'' são evocados. A &amp;quot;chefia&amp;quot; entre os Awa não se baseia em acordos ou consensos coletivos fomentados por um único indivíduo. A figura do cacique é, portanto, inexistente. Mesmo as pessoas que são chamadas em português de &amp;quot;lideranças&amp;quot;, têm suas funções mais próximas às dos &amp;quot;interlocutores&amp;quot; ou &amp;quot;diplomatas&amp;quot;, que fazem mediações ou traduções entre realidades políticas diferentes. Não há chefes com poder coercitivo ou capaz de organizar toda uma aldeia. Quando muito os chefes awa conseguem convencer o seu &amp;quot;pessoal&amp;quot;, a sua família e pessoas próximas - nada mais do que isso. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após décadas organizados em quatro aldeias (Cocal, Juriti, Awá e Tiracambu), os Awa Guajá contatados estão se dividindo em novas outras aldeias, como Nova Samiỹ e Aldeia da Cachoeira, e não sabemos quantas mais virão.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vivendo afastados entre si, desde antes do contato até hoje, os diferentes grupos locais awa não correspondem a uma idealização de “grupo indígena” com intercâmbios intercomunitários, autoidentificação com o “grupo” e alianças em diferentes situações. Por mais paradoxal que possa parecer, talvez tenha sido justamente essa “fragmentação” que possibilitou aos Awa permanecerem sem contato com os não indígenas, resguardando-os, assim, de um fim ainda mais trágico como o completo extermínio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Florestas habitadas ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Piraima’a e Jawatra’ia (na rede) durante uma caçada. Aldeia Juriti, TI Awa, 2016. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/8_976c4cf905b64b5/71178scr_f9af74df66b99ed.jpg?v=2020-12-10+13%3A18%3A46&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar dos Awa Guajá não viverem mais em acampamentos temporários e não dormirem em tapiris como antigamente, a vida na floresta (''ka'a'') continua sendo fundamental. A mata é um local ''haxỹ'' (&amp;quot;fresco&amp;quot;) e ''parahỹ'' (&amp;quot;bonito&amp;quot;, &amp;quot;bom&amp;quot;, &amp;quot;perfeito&amp;quot;), diferindo da aldeia que dizem ser ''haku'' (&amp;quot;quente&amp;quot;) e ''manahỹ'' (&amp;quot;desagradável&amp;quot;, &amp;quot;imperfeita&amp;quot;). No verão, especialmente, as aldeias viram base para suas incursões de caça, principal atividade produtiva. Os Awa caçam e dormem na mata e passam longas temporadas na floresta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O conjunto de ambientes habitados pelos Awa é composto pelas terras firmes (wytyry), pelas zonas de várzea e pelos cursos de rio ou simplesmente '''ya'' (&amp;quot;água&amp;quot;) que, durante os meses de chuva, formam um complexo de alagados. Estes ambientes diversos constituem um conglomerado de áreas de caça identificadas por diferentes topônimos que, por sua vez, possuem uma infinidade de trilhas (e algumas clareiras) as quais atravessam todo o território tradicional awa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse conjunto territorial é denominado, genericamente, de ''haka'a'' (&amp;quot;minha floresta&amp;quot;) e, mais especificamente, de ''harakwaha'' (&amp;quot;meu lugar&amp;quot;, &amp;quot;meu domínio&amp;quot;). ''Haka'a'' e ''harakwaha'' são expressões que, muitas vezes, são empregadas como sinônimos. Em português, costumam traduzir por &amp;quot;minha área&amp;quot;, fazendo alusão ao processo de demarcação de suas terras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
''Harakwaha'' denota não só a mata, mas também as relações estabelecidas entre as pessoas, os animais e as plantas. A ideia expressa por essa palavra extrapola as relações dos humanos com os seus espaços e inclui os relacionamentos de outros seres, não humanos, com floresta, águas, aldeia, céu, entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O local reconhecido enquanto tal por um grupo (familiar, local etc.) também é chamado de ''harakwaha''. É a área onde as pessoas de um grupo circulam, onde caçam e manejam seus recursos. Tradicionalmente, os ''harakwaha'' eram exclusivos de uma família e/ou grupo local que o conhecia profundamente. Os limites entre essas áreas eram dados pelos ''harakwaha'' de outros grupos, muitas vezes, de parentes próximos. Até o contato, todo o território awa era uma extensa malha formada por diversos ''harakwaha'' e cada grupo local ou, frequentemente, grupo familiar circulava por um desses espaços, conhecendo-o, nomeando-o, interagindo e explorando seus recursos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right &lt;br /&gt;
|Posto Indígena Juriti, TI Awá, 2007. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/9_50597ecc986577a/71179scr_4b853a109dfdd36.jpg?v=2020-12-10+13%3A19%3A06&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As últimas décadas trouxeram mudanças na forma de os Awa se organizarem espacialmente. Assim como as configurações das aldeias se alteraram, dando lugar a aglomerados populacionais formados por diferentes grupos locais, os espaços de circulação desses grupos também foram afetados. As aldeias awa são frutos de uma engenharia social do contato e reúnem grupos diferentes que antes viviam dispersos em áreas distintas. Isso quer dizer que muitas pessoas que hoje vivem juntas não se conheciam antes do contato. A &amp;quot;vida em aldeia&amp;quot; surgiu, entre os Awa, no contexto das frentes de atração da Funai e dos chamados &amp;quot;postos indígenas&amp;quot;. É interessante observar, no início, que os Awa usavam o termo ''funai'' para nomear as aldeias onde passaram a viver.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Cotidiano ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O modo de vida dos Awa Guajá é inteiramente dependente da relação que estabelecem com a floresta e os seres que nela vivem. A caça é uma delas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A caça, para os Awa Guajá, é uma atividade central, não somente em termos de subsistência, mas especialmente em termos existenciais. Trata-se de uma prática que diz muito sobre suas concepções sobre a vida que está essencialmente ligada à floresta. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse povo é denominado genericamente de &amp;quot;caçador-coletor&amp;quot;, uma categoria arbitrária para se referir a populações cuja subsistência está baseada na caça, na pesca e na coleta de produtos florestais e que não dependem de uma prática agrícola. Muitos povos &amp;quot;caçadores-coletores&amp;quot; podem até plantar, mas não baseiam a sua vida exclusivamente aos ciclos agrícolas, com calendários associados aos trabalhos nos roçados e jardins. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Da esquerda para a direita, Wa'amixĩa, Piakwa, Manijasĩa coletando Jussara. Aldeia Tiracambu, TI Caru, 2013. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/8/3_3ee38fe2a6f8066/71183scr_968ece811e43332.jpg?v=2020-12-10+13%3A21%3A12&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O crescente desmatamento na Amazônia maranhense é uma grande ameaça ao modo de vida awa e traz sérias preocupações para esse povo que até pouco tempo vivia exclusivamente daquilo que tirava da floresta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a época do contato, os Awa não praticavam agricultura, atividade que tem sido introduzida ao longo dos anos nas aldeias pela Funai, principalmente, o cultivo de mandioca, macaxeira, milho, arroz, abóbora, feijão, frutas, dentre outros. Tal atividade, no entanto, ainda está diretamente ligada à Funai, que organiza os trabalhos com as comunidades. Trabalhadores temporários são contratados para auxiliar os Awa em suas roças e o sistema de trabalho é o mesmo adotado pela tradicional agricultura de “corte e queima” maranhense (Forline, 1997).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre os Awa, não se encontra nenhum dos subprodutos de uma “agricultura tradicional indígena&amp;quot;, como o fumo, o beiju e as bebidas fermentadas, tal como se vê entre outros povos amazônicos e povos horticultores Tupi. Tradicionalmente, toda a alimentação awa vem da floresta: as caças, os méis e os frutos como pequis, cupuaçu, bacuri, bacaba, inajá, dentre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A farinha de mandioca era desconhecida pelos Awa até os contatos oficiais com a Funai. Essa farinha é, para eles, uma comida dos brancos. Uma das histórias dos primeiros contatos com os Awa é que muitos se recusavam a comer farinha, pois pensavam que se tratava de um tipo de terra. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Piraima’a posa orgulhoso ao lado da anta que recém abatera. Aldeia Juriti, TI Awa, 2007. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/6_4a665417ecfdbc6/71176scr_aaf00db90897f39.jpg?v=2020-12-10+13%3A17%3A24&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mesmo que hoje em todas aldeias awa se pratique a agricultura, a caça continua movendo a vida das famílias. As pessoas seguem dispostas a abandonar atividades nos roçados para averiguar rastros da existência de uma vara de porcos ou de um bando de guaribas na mata. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A centralidade da caça é marcante e isso fica evidente na expressão usada com frequência pelos Awa para se referir a si próprios: ''watama'a aria'', &amp;quot;nós somos caçadores&amp;quot;. Todas as outras atividades, como a pesca e coleta de mel e frutos são tributárias dela ou postas em segundo plano. Forline (1997) realizou um estudo sobre o tempo alocado pelos Awa em suas diversas atividades cotidianas e demonstrou que a caça é aquela que ocupa mais tempo em seus dias. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, o conhecimento awa sobre a floresta e, mais particularmente, sobre as plantas é tributário a seu interesse pela caça. Cormier ressalta o baixo número de plantas utilizadas pelos humanos para consumo, medicamentos, xamanismo etc. quando comparado com o número de plantas conhecidas consumidas pelos animais de caça, mais especificamente os macacos (Cormier, 2003). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Jui’i e seu avô Mĩtũrũhũa preparando o jacaré para a refeição. Aldeia Juriti, TI Awa, 2008. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
| https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/5_e80dddff76eb6f4/71175scr_c7ae3e9060987ff.jpg?v=2020-12-10+13%3A17%3A06&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pesca, apesar de amplamente praticada, é, tradicionalmente, uma atividade menos desenvolvida. Os Awa Guajá permaneceram, em boa parte de sua história, distante dos cursos de grandes rios e não possuíam canoa ou qualquer técnica mais apurada para a captura de peixes (tal como armadilhas ou represas). Embora os peixes não estejam no topo das suas preferências alimentares, os rios e igarapés abastecem as pessoas não só de peixes, mas também com as carnes de uma espécie de jacaré (''jakare'') e de poraquês (''manaky''). Além desses, a capininga (''jaxajhua'' - Kinosternon scorpioides), um quelônio habitante dos lodos nos igarapés, é muito apreciada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alimentação, saúde e floresta em pé ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awa Guajá realizam uma distinção muito clara entre &amp;quot;comida dos brancos&amp;quot; (''karai nimi'ua'') e &amp;quot;comida de verdade&amp;quot; (''hanimiu tea'') ou &amp;quot;comida de gente&amp;quot; (''awa nimi'ua''), isto é, sua alimentação tradicional composta basicamente por carnes de caça, peixes, mel e frutos coletados na floresta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apreciam comer carne todos os dias, de preferência, várias vezes ao dia. Gostam, especialmente, da carne de capelão/guariba e outros macacos; queixadas e caititus; pacas, cotias e tatus; além da anta, veado dentre outros animais. Existe uma relação diretamente proporcional entre o porte do animal ingerido e as qualidades alimentares de sua carne. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Juxa’a moqueando cotias em um acampamento de caça. TI Awa, 2016. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/2_7a0f6909b904b27/71172scr_1e7dc8111e72716.jpg?v=2020-12-10+13%3A16%3A17&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Comer o animal correto é fundamental para a boa formação do corpo de uma pessoa humana. Um corpo forte e belo faz-se com uma alimentação boa e farta; ele se fortalece com a ingestão constante de carnes de caça. Por não fazerem estoques, saem diariamente para caçar. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos dias de hoje, ao lado dos alimentos tradicionais, consomem a farinha de mandioca, frutas e diversos cultivares introduzidos pela Funai, como a abóbora, milho, macaxeira, arroz, feijão, batata-doce, entre outros. O consumo de alimentos não indígenas, apesar de bem disseminado e apreciado, é suspenso em momentos de resguardo, quando as mulheres estão em período de menstruação, durante resguardo pós-parto ou doença. &lt;br /&gt;
Mesmo com as mudanças no regime alimentar, os Awa guardam um grande interesse pelas carnes de caça, frutos de coleta (babaçu, inajá, bacaba, buriti, bacuri, pequi e outros) e mel. Conhecem dezenas de espécies de mel que além de servirem como fonte de energia, trazem “alegria para o corpo”. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A alimentação correta para os Awa é muito mais do que ingestão de calorias. Eles, mais do que ninguém, sabem o que é produzir e lutar pela própria comida. Caçam sempre que podem e essa tecnologia desenvolvida há centenas de anos abrange formas de conhecimento e intervenções no ambiente muito sofisticadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A floresta para os Awa é a grande fonte de alimentos, é lá onde vivem os animais de caça. No entanto, estes estão cada vez mais ameaçados pela degradação ambiental que vem ocorrendo há décadas na Amazônia maranhense. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há, portanto, uma relação direta entre a floresta, a qualidade da alimentação e a saúde das pessoas. A degradação ambiental e o desmatamento florestal são fatores que afetam profundamente a saúde dessa população. Não por acaso, uma de suas maiores preocupações é o risco iminente do fim da alimentação tradicional. Com frequência, perguntam: &amp;quot;Os brancos não sabem que vão acabar com os nossos animais?&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Caçadas na floresta ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Descanso durante uma caçada. Aldeia Juriti, TI Awa, 2006. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/4_cf470eae529bb70/71174scr_b140a3db0f0207d.jpg?v=2020-12-10+13%3A16%3A50&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As aldeias parecem pontos de chegada e parada do mato, pois as coisas boas da vida acontecem na floresta. Uma caçada curta não dura menos que seis horas e, em média, as pessoas ficam cerca de dez horas na floresta para ter o mínimo de sucesso em suas saídas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As caçadas podem ser executadas com espingardas, arco e flechas e armadilhas. São realizadas de diversas maneiras: individuais; em casal; com grupos de irmãos, cônjuges e filhos; caçadas de uma jornada diurna ou esperas noturnas; e até mesmo grandes caçadas coletivas, que podem mobilizar boa parte de uma aldeia. Por serem compreendidos como aspectos importantes, os tipos de animais caçados (''hama’a'', “minha caça”), as atitudes dos caçadores e sua saúde e vitalidade são temas que sempre surgem relacionados nos relatos dos Awa sobre as caçadas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Numa única jornada, além de pescar, caçar com flechas e espingardas, cavar buracos para pegar bichos, caçar com cachorro, ainda é possível: extrair resinas de maçaranduba e jatobá (utilizadas na iluminação noturna das casas) e embiras para fazer &amp;quot;cordas&amp;quot;; confeccionar cestos cargueiros com folhas de açaí para levar o peso que acumularam; coletar mel, carás e outros tubérculos encontrados na floresta e na capoeira na volta para a aldeia. Em meio a tudo isso, as mulheres ainda carregavam seus filhos, os amamentam e os fazem dormir, espantando os mosquitos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Da esquerda para direita: Takamỹa à, seguido por seu filho, Majhuxa’a, Hajkaramykỹa e seu filho Warajua, comendo mel durante caminhada na floresta. Aldeia Awa, TI Caru, 2013. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/8/1_9b501ab243a2bf5/71181scr_e7d14a8f7342d2d.jpg?v=2020-12-10+13%3A20%3A08&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas jornadas na floresta podem ser chamadas de ''wataha'', cuja tradução é &amp;quot;caminhada&amp;quot;. ''Wataha'' é sinônimo de muitas ações que se desenrolam no decorrer de uma jornada (andar, caçar e coletar) e exprimem a própria vida para os Awa. As caçadas são chamadas genericamente de ''wata'' (“andar-caçar”) e todo homem caçador é referido ''watama'a'', cuja tradução literal é &amp;quot;caminhador&amp;quot; e que pode ser traduzida por &amp;quot;caçador&amp;quot;. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O principal objetivo de uma caminhada (''wataha'') é caçar um animal, de preferência uma carne gorda (''ikirá'') e saborosa (''he’ẽ''). Quase sempre, os Awa saem para floresta para “matar” (''ika'') uma caça previamente rastreada, seja por ser a época dos frutos apreciados pela presa, seja porque alguém sonhou com ela.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao fim das caçadas, além de comida, os Awa costumam voltar repletos de filhotinhos de animais para presentearem suas filhas e esposas.  Algo que chama à atenção é a quantidade de animais de criação ou xerimbabos que existem em suas aldeias e que, antes do contato, eram criados no mato. As aldeias são repletas de animais e, muitas vezes, podem chegar a ultrapassar o número de moradores humanos. São macacos, jacus, quatis, jacamins, cotias, pacas, tartarugas, porcos e até filhotes de onça criados pelas mulheres, crianças e, em alguns casos, pelos homens. Esses animais têm um ciclo de vida nas aldeias desde a sua captura até a soltura depois de uma certa idade. Macacos adultos, com cinco ou seis anos podem se tornar violentos e atacar as crianças e por isso não devem conviver no mesmo espaço.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Quando caminham no mato é muito comum eles assobiarem de tempos em tempos, a fim de atrair pássaros emplumados como azulonas, inhambus e jacupembas. Tais animais, dizem os Awá, cantam pouco na época das chuvas, e os homens os imitam para ouvirem suas respostas e, eventualmente, caçá-los enquanto se deslocam. Ouvir a resposta dessas aves aos assobios humanos é uma das formas de conexão dos Guajá com os animais. &lt;br /&gt;
Os povos caçadores como os Awa mobilizam um grande aparato sonoro como parte de sua tecnologia de caça. A floresta “fala” com os Awa de diversas maneiras. Além de uma audição aguçada, outro componente complementar é a capacidade de imitar o som dos animais. Durante as caçadas não se fala, mas existe uma outra linguagem na floresta: assobios, urros, barulhos, gritos e imitações. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para cada animal um tipo de imitação é produzido. Tal conhecimento acústico, quando empregado à caça, envolve nuances e técnicas que servem para ludibriar as presas ou funcionam como sinais para os caçadores rastrearem. Os Awá conseguem, inclusive, adaptar para a sua língua o canto de alguns pássaros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O objetivo dos chamados para atrair animais (''hamakai'') é fazer com que o bicho pense se tratar de algum &amp;quot;parente próximo&amp;quot; (''harapihiara ha'ỹ'') e levar o animal à morte. A ideia é que os sons imitados se pareçam com os sons de &amp;quot;amigos&amp;quot; (''hary''), &amp;quot;irmãos&amp;quot; (''harapihiara''), &amp;quot;filhos&amp;quot; (''imymyra'', ''tajyra'', ''taira''), e outros parentes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As pessoas awa têm uma atenção acústica desenvolvida a ponto de, muitas vezes, dispensarem o apoio da visão em caçadas noturnas sem lanterna. À espera de animais na madrugada, são capazes de distinguir a espécie de um animal e outras características, como o peso e sexo, ao escutar o peso da passada ou mesmo ao sentir um odor característico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Caçada de capelão ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awa são caçadores habilidosos e possuem uma técnica apurada para a captura de mamíferos arborícolas, em particular, quatro espécies de primatas: macaco guariba ou “capelão” (''waria'' - Alouatta belzebul); macaco-cairara (''kaihua'' - Cebus kaapori); macaco-cuxiú (''kwixua'' - Chiropotes satanus) e macaco-prego (''ka’ia'' - Cebus apella].  A técnica, que consiste em uma emboscada aérea dos animais, ainda contemplaria a captura de quatis (''kwaxia'' - Nasua nasua) e ouriços-caixeiros (''akanũa'' - Coendu prehensilis), mamíferos também de hábitos arborícolas. A carne mais apreciada é a do guariba, que é sinônimo de alimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para além do fato de comerem esse animal, os Awa gostam de escutá-los. O capelão é considerado o animal terrestre mais barulhento do mundo e o seu grito pode ser ouvido por mais de 4 Km e produzir 130 decibéis. O fato dos guaribas serem animais sonoros é importante para os Awa: os guaribas, assim como os humanos, cantam.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
|Enquanto Uriximatỹa olha para a câmera, Kamará, Takya e Pirama’a observam a copa de uma árvore a procura de macacos, aldeia Juriti, TI Awa, 2007. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/3_b343a0409435b92/71173scr_1c1cd80135fa8cd.jpg?v=2020-12-10+13%3A16%3A32&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awa gostam do canto desses animais. Sempre que podem elogiam a capacidade deles de produzir um &amp;quot;belo canto&amp;quot; (''jã paryhỹ'') – característica que os diferencia de outros macacos. Dificilmente caçam os capelães no final da tarde, pois é a hora que estão cantando. Então, param para ouvi-los. Os Awa conseguem distinguir pelas vozes quantos são fêmeas ou machos; adultos ou filhotes - tal como a pegada de um animal terrestre revelará seu peso, idade, sexo e outras informações relevantes para o caçador. A partir dessas informações que traçam os seus planos para o dia seguinte. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A técnica de caça aos capelães envolve cerco e intimidação que é chamada warí babopô (&amp;quot;espantar o capelão&amp;quot;). Trata-se de uma emboscada aérea. Para caçá-los, cada homem sobe estrategicamente em outras árvores situadas ao redor da árvore onde estão os animais. Ao perceberem a proximidade dos caçadores, os animais tendem a se esconder nas partes mais elevadas da copa de uma árvore. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Enquanto os homens sobem silenciosamente nas árvores, um caçador experiente, quase sempre um velho, sobe o mais próximo que consegue à copa da árvore onde se escondem os animais. Uma vez lá em cima, observa, mexe nas folhas e tenta encontrar algum vestígio ou esconderijo do grupo, que está camuflado, e quando finalmente se certifica que estão ali, inicia uma fala muito específica. No cerco que se inicia, ganha vida um processo comunicativo no qual o animal é ameaçado; escorraçado de seu abrigo de folhas; muitos gritos são dados, principalmente por esse homem. Enquanto isso, quem permanece no solo (mulheres e crianças) ajuda-o com gritos e assobios. O cerco consiste em fazer com que os animais escondidos fujam de seus abrigos, se dispersem para as outras árvores para finalmente serem abatidos na fuga. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo pode durar horas com o caçador desafiando os animais até que uma hora, apavorados, fogem. No momento imediato à fuga, na confusão, escuta-se tiros misturados a gritos, zunidos de flecha e berros desafiadores dos valentes capelães. Após alguns segundos, os animais são feridos e caem das árvores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Cosmografia == &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O eixo céu e terra é um dos aspectos fundamentais para o entendimento do mundo awa, como para a maioria dos grupos Tupi-Guarani. A terra (''wya''), o local onde vivem os humanos, é apenas uma pequena parte do universo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há também diversos ''iwa'' (&amp;quot;céus&amp;quot;), onde habitam os mortos e outros seres celestes, como os karawara. Os patamares celestes (''iwa'') são incontáveis e os humanos não sabem ao certo quantos níveis existem sobre a terra. A subida ao céu (''ohi iwa pe'') é experimentada pelos homens, sobretudo, durante o ritual da ''takaja'' e uma vez no céu, eles conseguem subir para mais dois ou três patamares para visitar outras aldeias celestes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cosmografia awa também faz referência a um mundo subterrâneo, igualmente denominado ''iwa'', onde habita uma outra humanidade, sobre a qual os humanos da terra pouco sabem. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cosmos atual é compreendido como resultado da separação de um mundo anterior, no qual o céu, a terra e o subterrâneo eram muito próximos. Como em diversas sociocosmologias tupi, os Awa se referem a uma histórica separação entre as camadas cósmicas, cujo resultado principal foi a diferenciação entre os habitantes da terra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
''Iwa'' (&amp;quot;céu&amp;quot;), ''haripa'' (&amp;quot;aldeia&amp;quot;) e ''ka’a'' (“floresta”) são os principais eixos em torno dos quais a vida dos Awa Guajá gravita. Céu e mata são domínios pelos quais guardam grande interesse, figurando como temas centrais em boa parte das conversas cotidianas.&lt;br /&gt;
  &lt;br /&gt;
A floresta (''ka’a'') é o local onde os Awa sempre viveram e o habitat de tudo aquilo que conhecem: animais, mel, plantas medicinais, frutos etc. Apesar de todo perigo que oferece, a floresta ofereceu, ao longo da história recente desse povo, segurança para que conseguissem viver distanciados dos ''kamara'' (“outros indígenas”) e dos ''karaia'' (“não indígenas”).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Pessoa humana == &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A humanidade foi criada por Maíra, o herói cultural. Sozinho no mundo, produziu a partir de um tronco de árvore a primeira mulher na terra (''wya''). Com o seu surgimento e a consequente gravidez, inicia-se um ciclo a partir do nascimento de dois meninos gêmeos, os filhos dos heróis, Maíra e Ajỹ. As narrativas (''mumu'uaena'') contadas pelos Awa abordam as aventuras desses gêmeos enquanto estavam na terra, pois depois decidem abandoná-la e vão viver no céu (''iwa'').&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Em primeiro plano, o ancião Tatajkamaha (já falecido), e ao fundo os jovens Guardiões da Floresta na TI Awá, 2016. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/8/4_45023f0345a535a/71184scr_26d8b9cde93e943.jpg?v=2020-12-10+13%3A21%3A35&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pessoa humana é constituída por três elementos: ''ipirera'' (&amp;quot;corpo&amp;quot; ou “couro”), ''haitekera'' (&amp;quot;princípio vital&amp;quot; ou &amp;quot;vitalidade&amp;quot;) e ''ha'aera'' (&amp;quot;raiva-espectro&amp;quot; ou &amp;quot;alma penada&amp;quot;). Nenhum destes elementos é um princípio abstrato, tais como “representações” do que seria a pessoa humana. Ao contrário, remetem a noções relativas à fisiologia dos corpos e fornecem uma terminologia apropriada para o entendimento das relações entre humanos e não humanos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Quando uma pessoa morre, os Awa costumam dizer que &amp;quot;''haitekera'' foi para ''iwa''&amp;quot; (''haitekera oho iwape'') e, uma vez falecida, permanece no céu. A ideia de morte implica no deslocamento espacial do princípio vital da pessoa da terra para os patamares celestes. Seu “couro” permanece na terra até apodrecer e a “raiva” segue para a floresta (''ka'a''), em locais recônditos, e se transforma em ''ajỹ''. Esta última categoria remete a espectros canibais que vivem na mata e costumam atacar os humanos, provocando-lhes doenças. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awá traduzem ''ha’aera'' para o português como “raiva”, mas não se trata da mesma “raiva” que se expressa pelo termo ''imahy'' (“bravo”, &amp;quot;aborrecido”). Esta última é um sentimento que, apesar de perigoso e desprezado, é muito comum e importante em diversas situações, como na guerra. ''Ha’aera'', ao contrário, pode ser traduzido pela ideia de “raiva-espectro”, devido tanto à sua condição de “sombra”. Um princípio invisível e espectral que é dotado de grande penetração. É algo que todo humano carrega, pois faz parte da sua composição física, porém, ao ser liberado após a morte, age como uma energia formadora de seres ligados à morte, os ''ajỹ''.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Assim como os humanos, diversas presas animais também liberam &amp;quot;raiva&amp;quot; (''ha’aera'') e isso traz muitos problemas aos humanos, especialmente, aos caçadores. A &amp;quot;raiva-espectro&amp;quot; dos animais caçados pode buscar vingança, emanando doenças e retirando a sorte de caçadas futuras. Macacos, veados, porcos, dentre outros animais de caça, mesmo depois de mortos, podem se lançar em uma vingança noturna e invisível com a intenção de atingir o caçador, deixando-o doente. Muitos caçadores, principalmente quando estão dormindo, podem ser atacados pelo espectro raivoso do animal abatido. Esta é uma causa comum de doenças entre os Awa Guajá. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com frequência, as doenças são causadas por um desequilíbrio entre esses elementos que compõem a pessoa e são desencadeadas por motivos diferentes: o medo; a tristeza; a saudade; um sonho ruim; um alimento proibido que por algum motivo seja ingerido; o contato com cadáveres; a falta de alimentação adequada; o encontro com os ''ajỹ'', os seres-espectros que habitam a floresta. Apesar de terem causas diferentes, as doenças têm alguns sintomas que são característicos de uma disfunção no “princípio vital” de uma pessoa: fraqueza no corpo, dores no fígado, no coração e na cabeça. Esses e outros sintomas são comumente associados à vulnerabilidade do &amp;quot;princípio vital&amp;quot; (''haitekera'') que pode abandonar o corpo da pessoa temporariamente, expondo-a a situações de perigo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== ''Karawara'', os espíritos da floresta ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os ''karawara'' são espíritos celestes que embora vivam em patamares superiores (''iwa''), mantêm um trânsito constante com a terra. Costumam vir em busca de “caça”, “água”, “mel&amp;quot; (e por vezes fogo), produtos essenciais para a vida no céu. Nessas vindas para terra podem ajudar os humanos com curas xamânicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Possuem uma imagem humana celestial definida: são bem adornados com cocares e braceletes. São habitantes de um lugar limpo e agradável, caçadores infalíveis, cantores magníficos e falantes de uma outra língua, uma fala celeste (''iwa ma’iha'', “fala do céu”) cuja prosódia é o canto (''jã''). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se perguntarmos a uma pessoa awa o que é um ''karawara'', provavelmente, teremos respostas como: ''awa parahỹ'' (&amp;quot;humanos belos&amp;quot;); ''awaetea'' (&amp;quot;gente de verdade&amp;quot;); ''awa katy'' (&amp;quot;pessoas boas&amp;quot;); ou ''karawara wate'' (&amp;quot;os karawara estão lá em cima&amp;quot;). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A floresta é o lugar onde os espíritos ''karawara'' também caçam, mas aqui na terra eles podem assumir também a forma de animais e plantas. Cada espírito celeste possui na terra um correspondente animal, vegetal ou mesmo fenômeno da natureza, que seriam como suas extensões terrenas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
São relacionados a pequenos animais, insetos, plantas e alguns objetos. Seriam, por exemplo, uma &amp;quot;gente pica-pau&amp;quot;, &amp;quot;gente pássaro juriti&amp;quot;, &amp;quot;gente tucano&amp;quot;, &amp;quot;papagaio”, “siricora&amp;quot;, &amp;quot;sabiá&amp;quot;, &amp;quot;borboletas&amp;quot;, &amp;quot;marimbondos&amp;quot;, &amp;quot;gente taquara&amp;quot;, dentre outras plantas e bichos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada ''karawara'' é especializado em um tipo de caça, por exemplo: ''karawara Puhu'ua Jara'' (gente pipira-de-bico-vermelho) é caçador de macaco-prego; ''karawara Makaró'' (gente pomba-galega) é caçador de queixada; ''karawara Xakara Jara'' (gente gavião-caracoleiro e gente gavião-de-cauda-curta) é caçador de guariba; ''karawara Taky Jará'' (gente tucano-de-bico-preto) se alimenta de bacabas; ''karawara Waha Jara'' (gente carangueijo-do-rio) é caçador de veado; e ''Haira Jara (gente irara ou papa- mel) desce à terra para coletar mel. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Descem à terra (''wya'') para caçar, preferindo não pisar no solo, pois entendem que o chão da terra é muito sujo, repleto de podridão, doenças e perecimento. A terra é habitada por criaturas desprezíveis aos olhos dos ''karawara'', como os animais de criação dos brancos, principalmente os cachorros - cuja palavra na língua dos ''karawara'' é ''karory'ỹma'', “lixo” -, além de galinhas, bovinos e porcos domésticos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os ''karawara'' sentem tanta fobia pela sujeira terrena que quando voltam para sua morada passam um tempo cuspindo no chão (''jaru'' , “seu cuspir”) para liberar a sujeira através da saliva, se purificando. Os Awa também o fazem ao limparem vísceras, lidarem com sangue, carne podre ou qualquer outro odor fétido que impregne seus corpos. Alguns ''karawara'', como ''Inamẽxa’a'' (gente-pássaro-saurá) e ''Inamẽtyxa’a'' (gente-pássaro-anambé-azul) nunca descem à terra, pois a consideram extremamente suja. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Caçam com arcos, flechas e espingardas de cima das árvores, sem pisar o solo terreno (''wype'', “na terra”), e com uma rapidez espantosa. Seus equipamentos de caça lançam luzes e raios. Tanto a munição das armas quanto as flechas são constituídas por ''tata'' (energia/fogo), o que faz com que seus disparos sejam certeiros. O animal morre sem qualquer ferimento e, principalmente, sem derramar sangue. Os ''karawara'' tem pavor de sangue. Após a presa abatida, amarram suas pernas com embira (''iwira''), a levam para o céu, onde todo o processo de limpeza e cozimento da carne é realizado. Como os ''karawara'' conseguem carnes na quantidade que desejam, nunca estocam carnes moqueada em suas casas, tal como fazem os humanos. Ao contrário, eles comem tudo até que se acabe. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em poucas palavras, os ''karawara'' seriam, ao mesmo tempo, caçadores, pajés e espíritos magníficos. Ao descerem à terra (para caçar, extrair mel ou buscar água), os humanos não os encontram pois, além de serem rápidos em suas caçadas, as realizam em locais e matas distantes, onde os Awa não alcançam. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
São esses seres grandes pajés e os seus cantos de cura são cantos que tematizam suas caçadas. Para os humanos, essa relação entre xamanismo e caça também é marcante; muitos &amp;quot;rezadores&amp;quot; são grandes caçadores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Arte vocal ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cantar é um aspecto central para compreender a importância da caça e dos ''karawara'' na vida dos Awa. É possível dizer que uma das coisas que os Awa Guajá mais gostam de fazer, além de caçar, seja cantar. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cantam em muitas situações: antes do amanhecer, acompanhando o nascer do sol, avisando a uma seção residencial que o sol irá raiar; a noite, para embalar as crianças no sono; nas caçadas, bem baixinho para que não sejam ouvidos; ou bem alto, ao voltarem para a casa com a caça abatida.  Existem cantos que manifestam alegria, prazer sexual e a condição de se estar junto. Cantam mesmo até sem qualquer motivo aparente, só pelo prazer de soltar a voz.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;quot;Cantar bonito&amp;quot; (''jã paryhỹ'') que é &amp;quot;cantar duro/forte&amp;quot; (''jã hatỹ''). Os Awa valorizam a duração e a força do som emitido ao cantar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A arte vocal awa é extremamente rica. É possível dizer que há tantas canções quanto são os karawara. Foram eles que ensinaram os cantos para a humanidade e cada um tem o seu repertório próprio. Cantar à noite, por exemplo, para uma criança dormir bem, sem pesadelos, é algo que os ''karawara'' aconselham aos humanos até hoje. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os cantos que os Awa executam na terra são os mesmos que os ''karawara'' produzem no céu e os temas variam de acordo com cada ''karawara'', pois cada espírito tem as suas peculiaridades. Esses inúmeros cantos revelam os aspectos mais essenciais de cada ''karawara'', que é o dono do canto: sua alimentação; seu modo de caçar e outros detalhes de sua existência. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao cantar em casa à noite, planejando uma caçada, muitos caçadores podem atrair o ''karawara'' (dono do canto) que, durante a caçada, sobretudo nas esperas noturnas, pode entrar no corpo do caçador e, tal como um &amp;quot;espírito auxiliar&amp;quot;, aumentar sua eficiência. Os ''karawara'', portanto, auxiliam os Awa em suas caçadas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os cantos remetem diretamente à presa que o ''karawara'', dono do canto, costuma caçar. E, nesse sentido, são cantos de caça que os Awa entoam, em voz baixa, quando vão para floresta caçar e, em voz alta, quando retornam para aldeia após um dia de caça.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A forma dos cantos é parecida, mas o que muda são os conteúdos, pois remetem a um ''karawara'' específico. Vejamos um exemplo:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Canto de ''karawara tapi'i jara'' (gente-anta) ====&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;row&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;col-md-4 col-md-offset-2&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
{{Lead |&lt;br /&gt;
Awata taryka pyha&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
A'u hanimi'ũa pyha&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
A'u hanimi'ũa&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
Awata pyha&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
A'u akaju&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
Awata matarahỹ nipe&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;col-md-5&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
{{Lead |&lt;br /&gt;
Eu ando (caço) atrás de tatajuba à noite&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
Eu como minha comida à noite&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
Eu como minha comida&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
Eu ando (caço) à noite&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
Eu como caju do mato&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
Eu ando (caço) pelo escuro&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awa não cantam para os ''karawara'', mas como os ''karawara''. Eles se tornam esses espíritos celestes para cantar e caçar. Ao cantar, evocam o ponto de vista desses caçadores infalíveis que vivem no céu e ao fazê-lo se aproximam de um ideal de caça, inalcançável para os humanos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há ainda os cantos relacionados ao xamanismo awa que são realizados durante as sessões de cura. É no ritual da ''takaja'' que os cantos atingem um de seus principais objetivos: a comunicação com os ''karawara''.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Ritual ''takaja'' ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além dos Awa, outros povos montam &amp;quot;tocaias para a realização de diversos rituais, como os Asurini do Xingu, [[Povo:Aikewara|Aikewara]], Parakanã, entre outros. Apesar das diferenças entre elas, tais espaços se caracterizam por serem locais onde espíritos e divindades celestes se instalam ao visitar a terra, seja para se alimentar, cantar, dançar ou curar. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A tocaia awa, chamada ''takaja'', tem como objetivo aproximar os mundos e trazer os ''karawara'' para cantar na terra, permitindo também que os homens viajem ao céu para cantar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos meses do verão, um abrigo ritual semelhante a uma tocaia (''takaja'') é construído e é lá onde o ritual acontece. É somente durante à noite que os homens entram na ''takaja'' e entoam os cantos. A escuridão é uma das marcas desse momento ritual, os ''karawara'' só descem à terra na escuridão, pois, mesmo vindo caçar durante o dia, não gostam da luminosidade terrena. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas tocaias rituais, diferentemente daquelas feitas para caçar, há uma abertura no teto, de onde os xamãs-cantadores awa partem para alcançar ''iwa'', as plataformas celestes. A ''takaja'' não funciona como uma &amp;quot;casa cerimonial&amp;quot; em um pátio central, que congregaria humanos e deuses; ela é um elemento bem discreto e minimalista nas aldeias awa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Piraima’a se preparando para o ritual de “subida para o céu”. Aldeia Juriti, TI Awa, 2009. Foto: Uirá Garcia&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/7/0_f6f20472c931084/71170scr_ed36843a4698c54.jpg?v=2020-12-10+13%3A15%3A30&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No início da noite, os homens começam a entoar seus cantos de maneira muito potente. E, aos poucos, começam a se adornar. Suas esposas os ajudam a se paramentar. A ornamentação consiste em braceletes com penas de tucano, chamados ''jamakwa'', e um cocar formado com as mesmas penas, chamado ''jakỹita''. No corpo e nos cabelos são afixadas penugens brancas de harpia, gaviões ou urubu-rei. Estas são presas com resina cheirosa de dois tipos de breu chamados ''jawarako'' e ''uhuka''. O cheiro dessas resinas, dizem os Awa, é o próprio cheiro dos ''karawara''. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Enquanto se adornam, os homens cantam, e uma vez prontos se dirigem ao abrigo cantando e dançando com passos específicos: as duas mãos entrelaçadas sobre o peito e, sem mudar a postura das mãos, levantam e abaixam o corpo como os movimentos de uma ave a ciscar o chão. Esta é uma das danças executadas pelos ''karawara'' no céu e imitadas pelos humanos na terra. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cantoria (''janaha'') e a dança (''panỹ'') se iniciam, enquanto, um de cada vez, os homens adentram a ''takaja'' para cantar. Uma vez dentro, o homem inicia uma sucessão de cantos que são entoados com toda a força. Do lado de fora da ''takaja'', homens, mulheres e, por vezes, nos momentos iniciais da noite, crianças, seguem cantando. É possível perceber o som da voz masculina dentro da ''takaja'' se deslocando de um lado para outro, já que o homem que se encontra dentro está dançando em movimentos circulares. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
De repente ouve-se o barulho de um salto e um silêncio mortal no interior do abrigo: - O homem foi para o céu (''oho iwape''), alguém comenta. Nessa hora, a esposa, irmã ou outra mulher ligada ao viajante celeste inicia um canto frenético. É só a partir daí que podemos enxergar a importância das mulheres durante a cantoria. Sem elas dificilmente os homens conseguiriam voltar para casa, pois não conseguiriam encontrar o caminho de volta; atravessam muitos céus e poderiam facilmente se perder nesses mundos. O canto das esposas é o único elo que permite a conexão entre o céu a terra. Após subir ao céu, um homem pode permanecer lá por um tempo relativamente longo (algumas horas). Todo o ritual da ''takaja'' pode durar desde duas até umas seis horas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Da mesma forma como ocorre quando alguém sonha (''imuhy''), o corpo do homem, quando dentro da ''takaja'', permanece na terra e o &amp;quot;princípio vital&amp;quot; (''hajtekera'') se desprende do corpo e viaja até o céu. Subir até lá é sempre perigoso. Os ''karawara'' convidam os homens para que subam mais em outros céus, que conheçam outras aldeias celestes; comam deliciosos banquetes; conheçam outros cantos, outras danças. Mas os humanos sabem que isso significaria a sua morte. Se os homens se distanciarem da terra, não ouviriam mais suas esposas cantando e assim perderiam o caminho de volta. todos sabem que não se deve andar muito nas plataformas celestes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Aru ''karawara'', trazer os espíritos celestes ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os homens se deslocam para os patamares celestes (''iwa'') a fim de entrar em contato com os ''karawara'', espíritos celestes. O ritual da ''takaja'' também tem como objetivo aproximar os ''karawara'' que vem na terra cantar, dançar e realizar curas xamânicas, pois são considerados grandes pajés.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma vez que o homem vai para o céu, o silêncio reina no interior da ''takaja''. Esse estado permanece por longos minutos e algum tempo depois, ouve-se o barulho de um pulo: dois pés pisam o chão simultaneamente, o que indica que algum visitante celeste veio a terra cantar. Quando os homens sobem aos céus, seu corpo fica dentro da ''takaja'', vazio, e é utilizado pelos ''karawara'' como uma pele. Ao se referir a quem sobe, os Awa dizem que ele &amp;quot;traz os ''karawara''&amp;quot;. Uma vez no céu, o homem diz aos seres celestes: &amp;quot;Desçam, vão ver seus parentes na terra&amp;quot;. Alguns são bem-vindos, outros não e por isso devem ser espantados. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada ''karawara'' tem especificidades em seus cantos de modo que todas as pessoas que estão do lado de fora da ''takaja'' sabem exatamente qual ser está em seu interior. Quando descem do céu, emitem sons característicos de seus duplos terrestres (onça, gavião, pássaros, marimbondos, porcos etc.). À medida que os homens saem da ''takaja'' para cantar do lado de fora (quem canta são os próprios ''karawara''), param na frente das mulheres e crianças, cantam (''jã'') e sopram (''pyy'') os seus corpos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de cura consiste basicamente em trazer o &amp;quot;calor do céu&amp;quot; (''iwa rakuha'') e soprá-lo em diversas partes do corpo da pessoa. Esse calor pode agir de forma preventiva, fortalecendo o corpo, assim como pode curar uma pessoa doente. Os sopros executados pelo cantador-xamã fazem com que as pessoas fiquem bem, sem doença. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há uma outra expressão para mencionar esse procedimento terapêutico: ''ru iwa janaha'', &amp;quot;trazer a música/canto do céu&amp;quot;. Os ''karawara'' e a cura estão diretamente relacionados. É pelo canto que os homens se comunicam com esses espíritos celestes que, então, os auxiliam nas curas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terapêutica awa se vale de cantos e remédios tradicionais. Os Awa não fazem uso de tabaco nem de bebidas fortificantes que seriam consumidas pelos cantadores-xamãs. O máximo que utilizam são remédios da floresta como auxílio da cura, porém o básico é o canto e o sopro. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além da ''takaja'', há pelo menos uma outra forma de trazer os ''karawara'' à terra: por meio de cantos noturnos feitos por um homem em sua casa. Seu princípio vital deixa o corpo e vai ao céu enquanto o ''karawara'' vem à terra para curar. Quando o homem canta, o ''karawara'' se instala em seu peito e logo lhe comunica os procedimentos que devem ser feitos. Essas curas são chamadas simplesmente de ''karawara'' ou ru ''karawara'' (&amp;quot;trazer espírito&amp;quot;). Os corpos dos pacientes são, então, soprados, tirando o agente patogênico (''ha'aera'') que ali se instalou. &lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
Os ''karawara'' ajudam os homens a curar e a caçar, pois com eles estabelecem relações de reciprocidades. Mas sem a caça, o mel e a água terrena os ''karawara'' morrem. Nesse sentido, o desequilíbrio ecológico é também desequilíbrio cósmico. O fim da vida celeste pode ser provocado pelo desmatamento e degradação ambiental na terra e pela penúria alimentar dos ''karawara'' e dos Awa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awá nunca falaram explicitamente sobre uma teoria fatalista oriunda do desmatamento, mas sugeriram, em diversos momentos, o descontentamento dos ''karawara'' com o fim da floresta. Os ''karawara'' estão os mais interessados nas florestas em pé, pois o mundo dos espíritos celestes está em relação de continuidade com o mundo dos Awa. Isso acarreta apreensão e tristeza aos humanos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Novas formas de organização política ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Awa Guajá que vivem nas aldeias são considerados pelo Estado brasileiro como um povo de “recente contato” e por isso vivem sob sua forte tutela. São pessoas que vivenciaram diversas políticas de contato: desde a criação das chamadas “frentes de atração”, passando pelos postos indígenas até a reestruturação da Funai e a criação das Frentes de Proteção Etnoambiental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao longo desse período, esses Awa foram alijados de qualquer processo participativo que pudesse prepará-los para a barbárie que chegaria, mais recentemente, com a duplicação da Estrada de Ferro Carajás e diversas outras ameaças como a maciça invasão de seus territórios por madeireiros e posseiros.&lt;br /&gt;
  &lt;br /&gt;
Os Awa estão no meio de um turbilhão de transformações decorrentes do contato, do desmatamento e da invasão de seus territórios, de novos relacionamentos com a Frente de Proteção Awá-Guajá/Funai, os Guajajara (seus aliados na proteção da floresta), além de outros agentes. Além disso, há a chegado de recursos oriundos de um Plano Básico Ambiental (PBA) de mitigação dos impactos da duplicação da ferrovia Carajás da Vale. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fim de lidar com esses desafios, criaram duas associações indígenas cujo objetivo principal é fortalecê-los frente a tantas mudanças e ameaças. Em 2018, foram fundadas a Associação Kakỹ (TI Alto Turiaçu) e a Associação Arari (TIs Caru e Awá). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#miniatura: left &lt;br /&gt;
|Reunião de formação da organizações indígenas Arari e Kakỹ. Aldeia Awá, TI Caru, 2016.&lt;br /&gt;
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/1/1/6/5_7494e35d760e870/71165scr_2cd34438332d060.jpg?v=2020-12-10+12%3A46%3A51&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As associações receberam um aporte financeiro inicial oriundos do Plano Básico Ambiental (PBA) da duplicação da ferrovia e hoje conta com diretorias constituídas e um assessor não indígena contratado cada uma. Esse processo tem aproximado de maneira inédita os Awa das diferentes aldeias e, além disso, do ponto de vista desse povo, as associações vêm atuando como um interlocutor entre as aldeias e os diversos agentes de fora. O objetivo principal dessas organizações é formular projetos que sejam interessantes para as aldeias no sentido de promover ações com as quais os Awa se identificam e ao mesmo tempo gerar renda para as famílias. As mulheres, especialmente, estão engajadas na produção de artesanatos os quais desejam comercializar por meio da Associação Arari e também esperam participar de oficinas promovidas pela associação (de artesanato, mas não só), com a participação de instrutores possam ensiná-las novas técnicas e linguagens ou apoiá-las no aperfeiçoamento de trabalhos que já realizam. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os resultados de todos esses processos ainda são incertos, mas para os Awa Guajá já passou da hora de assumir o protagonismo de suas vidas. Durante décadas foram retratados como “exóticos”, “nômades”, “caçadores-coletores”, “sobreviventes” e toda a sorte de adjetivos que ressaltavam uma equivocada primitividade. Hoje estão buscando gerir plenamente suas vidas, cujos desafios, como a entrada do dinheiro com benefícios sociais, a chegada de ONGs, as compensações ambientais e mesmo as missões evangélicas (para o caso da TI Alto Turiaçu), os colocam em contextos que trazem muitas incertezas, inclusive, existenciais. O maior desafio reside em garantir de forma conciliada a proteção dos recursos naturais, o desenvolvimento de fontes de renda sustentáveis e a manutenção da qualidade de vida, frente a tantos retrocessos que o Brasil vem atravessando nas áreas ambientais e de direitos humanos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Notas sobre as fontes ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar deste verbete basear-se substancialmente em meu próprio trabalho, cujos principais resultados podem ser encontrados no livro ''Crônicas de Caça e Criação'' (2018), muitos autores são decisivos para a consolidação de uma literatura qualificada sobre os Awa Guajá.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Autores como Loretta Cormier (2003) Louis Forline (1997) e, sobretudo, William Balée (1994) e Mércio Gomes (1982, 1985) dedicaram páginas importantes de seus trabalhos a fim de reconstruir a ocupação awa guajá na região do leste amazônico que, mesmo com relatos esporádicos desde o século XIX, raramente apareceu na bibliografia etnológica especializada.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Das primeiras descrições, a mais segura provavelmente é a da Curt Nimuendajú (1948) à época do ''Handbook of South American Indians'' (Vol. 3). Além de se basear em sua passagem pela região, o autor também compila um conjunto de outros relatos. Em Nimuendajú (1948) são contempladas descrições como a de Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio (1825) que, em 1774, menciona entre os grupos indígenas do baixo Tocantins os Uaya. Um outro autor apresentado por Nimuendaju, Cezar Augusto Marques (1864), menciona os Ayaya, um povo &amp;quot;selvagem&amp;quot; que se encontrava nas imediações da estrada que ligava Imperatriz a Belém. De acordo com Araujo Brusque (1862: 12) os Uaiara (Guajará, segundo Nimuendajú) podiam ser vistos no alto curso do Rio Gurupi, mas não fixaram residência naquela região (Nimuendajú, 1948: 135-136). Antes de Nimuendajú, o engenheiro Gustavo Luís Guilherme Dodt viajou pela região do Gurupi (na segunda metade do século XIX) e em 1873 publicou o seu relato que foi reeditado em 1939 (Dodt, 1939).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1957, François-Xavier Beghin publicou um curto e pioneiro relato de viagem no ''Journal de la société des américanistes'' a partir de um encontro que teve com um grupo awa que vivia na região do rio Turiaçu, no limite com o estado do Pará. Tal encontro, muito bem descrito, foi mediado por seu Raimundo, um homem negro que trabalhava como guarda-linha na região. Neste relato, o autor capta elementos importantes sobre os Awa que até hoje são fontes de debate e interesse: gosto pela vida na mata, o interesse pela caça e pela criação de animais em suas pequenas aldeias-acampamentos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Posteriormente, foi em trabalhos sobre os Ka’apor, como o de Francis Huxley (1963) e Darcy Ribeiro (1996), que conhecemos um pouco mais dos Awa - a partir da descrição dos encontros dos Ka’apor (e mesmo desses antropólogos) com grupos awa da região do rio Gurupi.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em relação ao contato, o primeiro relatório oficial foi redigido pela antropóloga italiana Valéria Parise em 1973 (''Relatório da viagem ao Alto Rio Carú e Igarapé da Fome para verificar a presença de índios Guajá''). Junto com Parise estavam também os sertanistas Jairo Alberto Patusco e José Carlos Meirelles, este último veio se tornar um dos mais importantes indigenistas do país. Na década de 1980, Mércio Gomes também escreveu um conjunto de relatórios, comunicações e reflexões em parte como pesquisador independente, em parte para a Funai e como coordenador do chamado “Programa Awá”, concebido no bojo da construção da Estrada de Ferro Carajás. O objetivo do programa era conter o impacto da construção da ferrovia na vida dessa população. Os relatórios e publicações de Gomes são importantes para termos a real dimensão do violento efeito do contato na vida dos Awa. Tais documentos encontram-se nos arquivos da Funai e destacamos aqui os trabalhos de 1985: ''Programa Awá – relatório Inicial; Relatório antropológico sobre a área indígena Guajá (Awá-Gurupi); Relatório sobre os índios Guajá Próximos à ferrovia Carajás - Km 400'' e, em parceria com José Carlos Meirelles, ''Área indígena Awá-Gurupi. Estudos e proposta''. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As décadas de 1980 e 1990, como desdobramento dos primeiros contatos oficiais com parte da população awa guajá, propiciou o aparecimento de diversas pesquisas, sobretudo, nas áreas de linguística e antropologia. Na linguística, a ''Análise fonêmica preliminar da língua Guajá'' (1987) de Péricles Cunha é pioneira. Em antropologia, temos as teses de Louis Carlos Forline, ''The persistence and cultural transformation of the Guaja Indians: Foragers of Maranhão state, Brazil'' (1997), e de Loretta Cormier, que veio a ser publicada em livro com o título ''Kinship With Monkeys'' (2003) - são os dois primeiros trabalhos monográficos sobre os Awa. Ao lado desses, o livro ''Footprints of the forest: Ka’apor ethnobotany – the historical ecology of plant utilization by an amazonian people'' de William Balée (1994), que realiza uma comparação entre os Ka’apor e os Guajá e suas distintas formas de manejo da floresta, é um marco na literatura, não só sobre os Awa Guajá, mas sobre a Amazônia como um todo.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em anos mais recentes, um conjunto de antropólogos e linguistas vêm se dedicando ao estudo de diferentes aspectos da vida dessa população. Muitos desses autores estiveram apenas de passagem, o que em nada diminui a sua contribuição. Outros, por sua vez, vêm construindo uma parceria duradoura que associa atuação política e produção de um conhecimento situado a partir dos interesses dos Guajá. Sob uma perspectiva mais materialista, da ecologia política, destacam-se a dissertação de mestrado de Helbert Medeiros Prado, ''O impacto da caça versus a conservação de primatas numa comunidade indígena Guajá'' (2008), e publicações de Prado com Louis Carlos Forline e Renato Kipnis como ''&amp;quot;Hunting Practices among the Awá-Guajá: Towards a long-term analysis of sustainability in an Amazonian indigenous community&amp;quot;'' (2012). Além desses estudos, um grupo de arqueólogos estrangeiros também publicou análises nessa mesma perspectiva. Destacamos o artigo de Alfredo González Rubial, Almudena Hernando e Gustavo Politis ''&amp;quot;Ontology of the self and material culture: Arrow-making among the Awá hunter-gatherers (Brazil)&amp;quot;'' (2010). Por fim, sob essa perspectiva, é importante destacar o livro de William Balée ''Cultural Forests of the Amazon. A Historical Ecology of People and their Landscapes'' (2013).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob uma perspectiva histórica e do contato destacamos os trabalhos de Eliane Cantarino O'Dweyer, ''O papel social do Antropólogo'' (2010), com uma profunda reflexão sobre a produção de dados para o laudo da Terra Indígena Awá e os desdobramentos dessa pesquisa. Há também a coletânea organizada por Almudena Hernando e Elisabeth Maria Beserra Coelho - ''Estudos sobre os Awá – caçadores-coletores em transição'' (2013) que reúne trabalhos de autores com diferentes orientações.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Reunindo etnograficamente história, política e ecologia a tese de doutorado Guilherme Ramos Cardoso, ''Ariku karai pyry: o &amp;quot;ficar no meio dos brancos&amp;quot; para os Awa do Pindaré, MA'' (2019 Unicamp), e a dissertação de mestrado de Marcelo Yokoi - ''Na Terra, no céu: os Awá-Guajá e os Outros'' (2014 Unicamp) - também se destacam como fontes incontornáveis. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mais recentemente, na área de linguística, a tese ''Sobre a Morfologia e a Sintaxe da Língua Guajá'' (Família Tupi-Guarani) (2007 UnB) de Marina Magalhães é uma contribuição decisiva. E, além desta, a tese de Flávia de Freitas Berto - ''Tipologia de articulação de cláusulas: contribuições de um estudo sobre o Guajá'' (2017 Unesp) também se destaca. Além dessas, a pesquisa ''Awa Papejapoha: um estudo sobre educação escolar entre os awá guajá/MA'' (2015 UnB) de Rosana de Jesus Diniz Santos, a partir de sua experiência enquanto missionária do CIMI e professora da escola indígena é uma importante contribuição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências bibliográficas ==&lt;br /&gt;
{{Well |conteudo=&lt;br /&gt;
* '''BALÉE, William L.''' 1994. Footprints of the forest: Ka’apor ethnobotany - the historical ecology of plant utilization by an Amazonian people. New York: Columbia University Press, 1994.&lt;br /&gt;
* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 1992. People of the fallow: a historical ecology of foraging in lowland South America. In: REDFORD, Kent H.; PADOCH, Christine J. (Eds.). Conservation of neotropical forests. Nova York: Columbia University Press, p. 35-57.&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 1984. The persistence of Ka’apor culture. &amp;lt;/nowiki&amp;gt;New York: Columbia University. 290 p. (Tese de Doutorado).&lt;br /&gt;
* '''BERTO, Flavia de Freitas'''. ''Tipologia de articulação de cláusulas: contribuições de um estudo sobre o Guajá''. Tese de doutorado, UNESP 2017. &lt;br /&gt;
* '''BEGHIN, François-Xavier.''' 1957. &amp;quot;Relation du premier contact avec les indiens Guajá&amp;quot;. Journal de la Société des Américanistes, N.S. XLVI: 197:204.&lt;br /&gt;
* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 1951. &amp;quot;Les Guajá&amp;quot;. Revista do Museu Paulista, N.S. 5:137-39&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
* '''CABRAL, Ana Suelly A. C.''' 1996. “Algumas evidências linguísticas de parentesco genético do Jo'é com línguas Tupí-Guaraní”. Moara, revista dos Cursos de Pós-Graduação em Letras, n.4, p. 47-76. Belém: UFPA. &lt;br /&gt;
* '''CARDOSO, Guilherme Ramos.''' 2019. ''Ariku karai pyry: o &amp;quot;ficar no meio dos brancos&amp;quot; para os Awa do Pindaré, MA''. Tese de Doutorado, UNICAMP, 2019.&lt;br /&gt;
* '''CORMIER, Loretta A.''' Kinship with monkeys: the Guajá foragers of eastern Amazonia. New York: Columbia University Press, 2003.&lt;br /&gt;
* '''CUNHA, Péricles Luiz.''' 1987. Análise fonêmica da língua Guajá. Campinas: Unicamp, 68 p. (Dissertação de Mestrado).&lt;br /&gt;
* '''GARCIA, Uirá F.''' 2019. “Pelas Matas do Pindaré: imagens do isolamento Awa-Guajá”. In: Ricardo, Fany (org). ''Cercos e Resistências: Povos indígenas isolados na Amazônia''. São Paulo: Instituto Socioambiental.&lt;br /&gt;
* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 2018. &amp;lt;/nowiki&amp;gt;''Crônicas de caça e criação''. São Paulo: Hedra; Fapesp. Coleção Mundo Indígena.&lt;br /&gt;
* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 2015. Sobre o poder da criação: parentesco e outras relações awá-guajá. Mana. vol.21, n.1 &amp;lt;/nowiki&amp;gt;[https://doi.org/10.1590/0104-93132015v21n1p091 https://doi.org/10.1590/0104-93132015v21n1p091] &lt;br /&gt;
* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 2012a. “Ka’á Watá, ‘andar na floresta’: caça e território em um grupo tupi da Amazônia”. Mediações – Revista de Ciências Sociais, 17(1), pp. 172-190.&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 2012b. “O funeral do caçador: caça e perigo na Amazônia”. Anuário Antropológico, 2011(II), pp. 33-55.&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 2010. &amp;lt;/nowiki&amp;gt;''Karawara: a caça e o mundo dos Awá-Guajá''. Tese (Doutorado) USP. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Universidade de São Paulo, São Paulo. [https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8134/tde-26072011-145355/publico/2010_UiraFelippeGarcia.pdf https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8134/tde-26072011-145355/publico/2010_UiraFelippeGarcia.pdf]&lt;br /&gt;
* '''GOMES, Mércio Pereira.''' 1988. Os índios e o Brasil. Petrópolis: Vozes.&lt;br /&gt;
* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 1991. O povo Guajá e as condições reais para sua sobrevivência. In: Povos indígenas no Brasil 1987/88/89/90. In: RICARDO, Carlos Alberto. Povos indígenas no Brasil 1987/88/89/90. São Paulo: Centro Ecumênico de Documentação e Informação – CEDI. p. 354-369.&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
* '''GOMES, Ivanise P.''' 1991. Aspectos fonológicos do parakanã e morfossintáticos do awá-guajá (tupi). Recife: UFPE, 120 p. (Dissertação de Mestrado).&lt;br /&gt;
* '''FORLINE, Louis Carlos.''' 1998. Indigenous peoples and state players in Amazonia: implication of contact, settlement and food security among the Guajá indians of Maranhão state, Brazil. Poematropic, Belém: Poema, v. 1, n. 1, p. 26-33.&lt;br /&gt;
* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 1997. The persistence and cultural transformation of the Guajá indians: foragers of Maranhão state, Brazil. &amp;lt;/nowiki&amp;gt;Gainesville: University of Florida. (Tese de Doutorado)&lt;br /&gt;
* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 1996. El pueblo Guajá y la palmera Babaçu (Orbignya martiana). Desarrollo Agroflorestal y Comunidad Campesina, Salta-Argentina: s.ed., v. 1, n. esp., p. 36-41.&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 1995. Os índios Guajá: sua situação alimentar face ao contato e sua transição à agricultura. In: VERDUM, Ricardo (Coord.). Mapa da fome entre os povos indígenas no Brasil (II): contribuição à formulação de política de segurança alimentar sustentáveis. Brasília: Inesc; Rio de Janeiro: Peti/MN; Salvador: Anaí-BA. p. 71-3.&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
* &amp;lt;nowiki&amp;gt;--------. 1995. A mulher do caçador: uma análise a partir dos índios Guajá. In: ÁLVARES, Maria Luzia M.; D'INCAO, Maria Ângela (Orgs.). A mulher existe? Uma contribuição ao estudo da mulher e gênero na Amazônia. Belém: MPEG. p. 57-79.&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
* '''HERNANDO, Almudena, Gustavo Politis, Alfredo González Ruibal, Elizabeth Beserra Coelho.''' 2011. &amp;quot;Gender, Power, and Mobility among the Awá-Guajá (Maranhão, Brazil)&amp;quot;. In: Journal of Anthropological Research, vol. 67, 2011.&lt;br /&gt;
* '''HERNANDO, Almudena e Coelho, Elisabeth Maria Beserra (org).''' 2013. Estudos sobre os Awá – caçadores-coletores em transição. São Luís: Edufma. &lt;br /&gt;
* '''LARAIA, Roque de Barros.''' 1976. &amp;quot;Arranjos poliândricos&amp;quot; na sociedade Suruí. In: SCHADEN, Egon. Leituras de etnologia brasileira. São Paulo: Companhia Ed. Nacional. p. 193-8 (Originalmente publicado na Rev. do Museu Paulista, São Paulo: Museu Paulista, v. 14, n.s., p. 71-6, 1963).&lt;br /&gt;
* '''MAGALHÃES, Marina M. S.''' 2002. Aspectos Fonológicos e Morfossintáticos da Língua Guajá. Dissertação (Mestrado em Linguística). Brasília: Universidade de Brasília.&lt;br /&gt;
* _________. 2007. SOBRE A MORFOLOGIA E A SINTAXE DA LÍNGUA GUAJÁ. (FAMÍLIA TUPÍ-GUARANÍ). Tese de doutorado em Linguística, Brasília: Universidade de Brasília. [https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/3188/1/Tese_Marina%20Magalhaes.pdf https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/3188/1/Tese_Marina%20Magalhaes.pdf]&lt;br /&gt;
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* '''PRADO, Helbert Medeiros.''' 2008. O impacto da caça versus a conservação de primatas numa comunidade indígena Guajá. Dissertação de Mestrado. Universidade de São Paulo.&lt;br /&gt;
* '''PRADO, Helbert Medeiros, Louis Carlos Forline, Renato Kipnis.''' 2012. &amp;quot;Hunting Practices among the Awá-Guajá: Towards a long-term analysis of sustainability in an Amazonian indigenous community. In: Bol. Mus. Para. Emilio Goeldi. Cienc. Hum,. Belém, v.7, n.2, p: 00-00. mai-ago, 2012.&lt;br /&gt;
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* '''RUBIAL, Alfredo González, Gustavo Politis, Almudena Hernando, Elizabeth Beserra de Coelho.''' 2010. &amp;quot;Domestic Space and Cultural Transformation Among the Awá of Eastern Amazonia&amp;quot;. In: ''BAR International Series 2183/ Archaeological Invisibility and Forgotten Knowledge: Conference Proceedings, Łódź, Poland, 5th–7th September 2007.''&lt;br /&gt;
* '''SANTOS, Rosana de Jesus Diniz.''' 2015. ''Awa Papejapoha: um estudo sobre educação escolar entre os awá guajá/MA''. Monografia de especialização em Desenvolvimento e relações sociais no campo: diversidade e interculturalidade dos povos originários, comunidades tradicionais e camponesas do Brasil, Universidade de Brasília.&lt;br /&gt;
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* '''VARGA, István van Deursen.''' “A insustentável leveza do estado: devastação, genocídio, doenças e miséria nas fronteiras contemporâneas da Amazônia, no Maranhão. In Acta Amazonica, vol. 38(1) 2008: 85 – 100. &lt;br /&gt;
* '''YOKOI, Marcelo.''' 2014. ''Na terra, no céu: Os Awá-Guajá e os Outros''. UFSCar. Dissertação (Mestrado). [https://repositorio.ufscar.br/bitstream/handle/ufscar/234/5846.pdf?sequence=1&amp;amp;isAllowed=y https://repositorio.ufscar.br/bitstream/handle/ufscar/234/5846.pdf?sequence=1&amp;amp;isAllowed=y]&lt;br /&gt;
}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== VÍDEOS ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;huzzazWrapper&amp;quot; style=&amp;quot;width:100%; height: 1700px; margin: 0 auto;&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;htmltag allowfullscreen=&amp;quot;&amp;quot; allowtransparency=&amp;quot;true&amp;quot; frameborder=&amp;quot;0&amp;quot; height=&amp;quot;100%&amp;quot; mozallowfullscreen=&amp;quot;&amp;quot; src=&amp;quot;https://huzzaz.com/embed/aw-guaj?vpp=12&amp;quot; tagname=&amp;quot;iframe&amp;quot; webkitallowfullscreen=&amp;quot;&amp;quot; width=&amp;quot;100%&amp;quot;&amp;gt;&amp;lt;/htmltag&amp;gt;&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil|Equipe de edição da Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas no Maranhão]]&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
Cuidado ao editar esta seção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bloco &amp;quot;&amp;lt;noinclude&amp;gt;&amp;quot; usado para evitar que propriedades sejam propagadas em páginas transcluídas:&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Guajá}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Uirá Garcia}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Marina Maria Silva Magalhães}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Tingui_Bot%C3%B3&amp;diff=8465</id>
		<title>Povo:Tingui Botó</title>
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		<updated>2025-07-30T15:30:25Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Os Tingui-Botó habitam a comunidade Olho D´Água do Meio, no município alagoano de Feira Grande. Até o início da década de 1980, eram conhecidos como &amp;quot;caboclos&amp;quot;, quando foi-lhes reconhecida a identidade indígena pela Funai. Desde esse período preservam dois hectares de mata para realizar o ritual secreto do Ouricuri, principal emblema de sua identidade, que continuam resguardando das populações vizinhas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nome ==&lt;br /&gt;
O nome Tingui-Botó é de origem recente. Nos registros históricos e nos levantamentos gerais da região, como os realizados por Duarte e Hohenthal Jr., os remanescentes indígenas de Olho d'Água do Meio, povoado do município de Feira Grande, são identificados como Xocó ou Shocó. Mas, segundo relatou ao Instituto Socioambiental o cacique Eliziano de Campos e o pajé Adalberto Ferreira da Silva, os Tingui-Botó não são Xocó e sim Kariri.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A atual denominação teria sido dada por João Botó, curandeiro e pajé que, juntamente com sua família, se instalou em Olho d'Água do Meio provavelmente nos anos 1940. Isso ocorreu depois da criação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, em Porto Real do Colégio. Com a formação da nova comunidade, foi revitalizado o ritual do Ouricuri, desencadeando um processo de agregação em torno da &amp;quot;taba&amp;quot;, ou seja, do território sagrado, onde o ritual se realiza secretamente a cerca de dois hectares da localidade. Esta versão da origem do nome &amp;quot;Botó&amp;quot; me foi dada pelo pajé dos Kariri- Xocó na década de 1980, sendo confirmada em 2002 pelos índios acima citados ao Instituto Socioambiental. Estes também disseram que a denominação &amp;quot;Tingui&amp;quot; tem como origem uma árvore com esse nome, cujas folhas foram utilizadas no acampamento erguido durante a vinda para Olho D´Água do Meio.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata|Vera Lúcia Calheiros Mata]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Língua ==&lt;br /&gt;
Os Tingui-Botó falam o português à moda das populações rurais do nordeste. Alegam, porém, falar sua língua ancestral no ritual secreto do Ouricuri. De acordo com o cacique Eliziano de Campos e o pajé Adalberto Ferreira da Silva, sua língua é designada Dzbokuá.&amp;lt;htmltag href=&amp;quot;https://img.socioambiental.org/d/235148-1/tingui_boto_2.jpg&amp;quot; rel=&amp;quot;lightbox[g2image]&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; title=&amp;quot;Dança da Lança. Foto: Kayaku, 2003&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/htmltag&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse sentido, o etnólogo Ugo Maia Andrade afirma que o cariri era uma língua corrente em uma extensa área no interior do Nordeste e estava dividido em quatro dialetos, entre os quais o &amp;quot;dzubukuá&amp;quot;. Por se tratar de uma língua não mais falada usualmente pelas populações locais, seu estudo linguístico é precário e quase todo baseado nas gramáticas elaboradas por missionários que estiveram na região durante os séculos XVII e XVIII (sobre o assunto, ver a página sobre o povo [[Povo:Tumbalalá | Tumbalalá]]).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata|Vera Lúcia Calheiros Mata]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Localização e população ==&lt;br /&gt;
{{Lead|Texto informado por &amp;lt;strong&amp;gt;Ricardo Tingüi Botó&amp;lt;/strong&amp;gt;}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O povo Tingüi Botó vive na [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3876 Terra Indígena Tingüi Botó], localizada entre os municípios de Feira Grande e Campo Grande, em Alagoas (AL). Com uma extensão de 535 hectares, a área é uma reserva indígena demarcada pela FUNAI e dispõe de Casa de Farinha, Unidade Básica de Saúde e Escola Estadual Indígena. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nessa terra, a população total é de 195 famílias ou 469 pessoas, segundo informações da comunidade. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por Ricardo Tingui Botó. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== História e etnogênese ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
 |Foto: Celso Brandão, 1999 &lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/235154-1/tingui_boto_3.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Tingui-Botó foram reconhecidos como grupo indígena em 1980 por Clovis Antunes, professor da Universidade Federal de Alagoas, que enviou documentação à Funai. Trata-se de um dos casos de resgate da identidade étnica de uma população anteriormente dispersa, em processo de etnogênese.  À substituição de uma identidade &amp;quot;acanhada&amp;quot; de caboclo pelo orgulho étnico de ser índio, seguem-se desdobramentos políticos tais como a reinvindicação de posse de terras por direito imemorial e a luta pelo seu reconhecimento pelo órgão tutelar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até 1983 possuíam apenas a pequena área de cerca de dois hectares coberta de mata para preservar o segredo do Ouricuri das populações não indígenas circunvizinhas. Moravam num arruado em Olho d'Água do Meio e trabalhavam nas fazendas da região como meeiros (com direito à metade da colheita do que plantavam) ou alugados (contratados para executar determinada tarefa agrícola em troca de pagamento).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1983, a FUNAI instalou um posto indígena na área. No ano seguinte, o órgão adquiriu duas pequenas propriedades: a Fazenda Boacica, com 30 hectares, e a Fazenda Olho d'Água do Meio, de 31,5 hectares. Em 1988 comprou a Fazenda Ypioca, com 59,6 hectares. Assim, hoje a comunidade dispõe de uma área de 121,1 hectares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Produzem artesanato de palha, além de cocares, colares e bordunas.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata|Vera Lúcia Calheiros Mata]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nota sobre as fontes ==&lt;br /&gt;
Há somente um trabalho exclusivamente dedicado aos Tingui-Botó. É monografia de Benildo Gomes de Farias, ''Tingui-Botó: uma etnografia'', apresentada como monografia de graduação na Univeridade Federal de Alagoas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tratando-se de uma denominação recente, nos levantamentos regionais mais antigos os Tingui-Botó são referidos com outros nomes. Assim, Hohenthal Jr., em As tribos indígenas do médio e baixo São Francisco (1960), identifica-os enquanto &amp;quot;shocós&amp;quot; de Olho d'Água do Meio; Duarte, em Tribos, aldeias e missões de indios nas Alagoas (1969), a eles se refere como &amp;quot;shocó&amp;quot;ou &amp;quot;xocó&amp;quot;. Há também referências a eles em Claudio Sant'Ana, Alagoas seus índios e suas terras (1991), e no Atlas das Terras Indígenas do Nordeste (1993).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata|Vera Lúcia Calheiros Mata]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;DUARTE, A. Tribos, aldeias e missões de índios nas Alagoas. Rev. do Instituto Histórico, Maceió : Instituto Histórico, s.n., 1969.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;FARIAS, Benildo Gomes de. Tingui-Botó : uma etnografia. Maceió : UFAL, 1998. 94 p. (Monografia para obtenção do grau de Bacharel em Ciências Sociais)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;HOHENTHAL JÚNIOR, W. D. As tribos indígenas do médio e baixo São Francisco. Rev. do Museu Paulista, São Paulo : Museu Paulista, v. 12, n.s., 1960.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MUSEU NACIONAL. PETI. Atlas das terras indígenas do Nordeste : Alagoas, Bahia (exceto sul), Ceará, Paraíba, Pernambuco, Sergipe. Rio de Janeiro : Museu Nacional-Peti, 1993. 93 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;RONDINELLI, Rosely Curi (Coord.). Inventário analítico do arquivo permanente do Museu do Índio - Funai : documentos textuais 1950-1994. Rio de Janeiro : Museu do Índio, 1997. 150 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;SANT'ANA, Claudio L. F. Alagoas seus índios e suas terras. Recife : Funai, 1991.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata|Vera Lúcia Calheiros Mata]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas em Alagoas]]&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
Cuidado ao editar esta seção.&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Tingui Botó}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
{{#set:Capa=1775821639487df37b1fd6c.jpg}}&lt;br /&gt;
{{#set:Counter=19628}}&lt;br /&gt;
{{#set:Crédito capa=Kayaku, 2000}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=1999-05-01}}&lt;br /&gt;
{{#set:Estilo=escuro}}&lt;br /&gt;
{{#set:Povo Id=265}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Tingui_Bot%C3%B3&amp;diff=8464</id>
		<title>Povo:Tingui Botó</title>
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		<updated>2025-07-30T15:29:49Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: /* Localização e população */&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Os Tingui-Botó habitam a comunidade Olho D´Água do Meio, no município alagoano de Feira Grande. Até o início da década de 1980, eram conhecidos como &amp;quot;caboclos&amp;quot;, quando foi-lhes reconhecida a identidade indígena pela Funai. Desde esse período preservam dois hectares de mata para realizar o ritual secreto do Ouricuri, principal emblema de sua identidade, que continuam resguardando das populações vizinhas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nome ==&lt;br /&gt;
O nome Tingui-Botó é de origem recente. Nos registros históricos e nos levantamentos gerais da região, como os realizados por Duarte e Hohenthal Jr., os remanescentes indígenas de Olho d'Água do Meio, povoado do município de Feira Grande, são identificados como Xocó ou Shocó. Mas, segundo relatou ao Instituto Socioambiental o cacique Eliziano de Campos e o pajé Adalberto Ferreira da Silva, os Tingui-Botó não são Xocó e sim Kariri.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A atual denominação teria sido dada por João Botó, curandeiro e pajé que, juntamente com sua família, se instalou em Olho d'Água do Meio provavelmente nos anos 1940. Isso ocorreu depois da criação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, em Porto Real do Colégio. Com a formação da nova comunidade, foi revitalizado o ritual do Ouricuri, desencadeando um processo de agregação em torno da &amp;quot;taba&amp;quot;, ou seja, do território sagrado, onde o ritual se realiza secretamente a cerca de dois hectares da localidade. Esta versão da origem do nome &amp;quot;Botó&amp;quot; me foi dada pelo pajé dos Kariri- Xocó na década de 1980, sendo confirmada em 2002 pelos índios acima citados ao Instituto Socioambiental. Estes também disseram que a denominação &amp;quot;Tingui&amp;quot; tem como origem uma árvore com esse nome, cujas folhas foram utilizadas no acampamento erguido durante a vinda para Olho D´Água do Meio.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata|Vera Lúcia Calheiros Mata]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Língua ==&lt;br /&gt;
Os Tingui-Botó falam o português à moda das populações rurais do nordeste. Alegam, porém, falar sua língua ancestral no ritual secreto do Ouricuri. De acordo com o cacique Eliziano de Campos e o pajé Adalberto Ferreira da Silva, sua língua é designada Dzbokuá.&amp;lt;htmltag href=&amp;quot;https://img.socioambiental.org/d/235148-1/tingui_boto_2.jpg&amp;quot; rel=&amp;quot;lightbox[g2image]&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; title=&amp;quot;Dança da Lança. Foto: Kayaku, 2003&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/htmltag&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse sentido, o etnólogo Ugo Maia Andrade afirma que o cariri era uma língua corrente em uma extensa área no interior do Nordeste e estava dividido em quatro dialetos, entre os quais o &amp;quot;dzubukuá&amp;quot;. Por se tratar de uma língua não mais falada usualmente pelas populações locais, seu estudo linguístico é precário e quase todo baseado nas gramáticas elaboradas por missionários que estiveram na região durante os séculos XVII e XVIII (sobre o assunto, ver a página sobre o povo [[Povo:Tumbalalá | Tumbalalá]]).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata|Vera Lúcia Calheiros Mata]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== História e etnogênese ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
 |Foto: Celso Brandão, 1999 &lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/235154-1/tingui_boto_3.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Tingui-Botó foram reconhecidos como grupo indígena em 1980 por Clovis Antunes, professor da Universidade Federal de Alagoas, que enviou documentação à Funai. Trata-se de um dos casos de resgate da identidade étnica de uma população anteriormente dispersa, em processo de etnogênese.  À substituição de uma identidade &amp;quot;acanhada&amp;quot; de caboclo pelo orgulho étnico de ser índio, seguem-se desdobramentos políticos tais como a reinvindicação de posse de terras por direito imemorial e a luta pelo seu reconhecimento pelo órgão tutelar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até 1983 possuíam apenas a pequena área de cerca de dois hectares coberta de mata para preservar o segredo do Ouricuri das populações não indígenas circunvizinhas. Moravam num arruado em Olho d'Água do Meio e trabalhavam nas fazendas da região como meeiros (com direito à metade da colheita do que plantavam) ou alugados (contratados para executar determinada tarefa agrícola em troca de pagamento).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1983, a FUNAI instalou um posto indígena na área. No ano seguinte, o órgão adquiriu duas pequenas propriedades: a Fazenda Boacica, com 30 hectares, e a Fazenda Olho d'Água do Meio, de 31,5 hectares. Em 1988 comprou a Fazenda Ypioca, com 59,6 hectares. Assim, hoje a comunidade dispõe de uma área de 121,1 hectares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Produzem artesanato de palha, além de cocares, colares e bordunas.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata|Vera Lúcia Calheiros Mata]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Localização e população ==&lt;br /&gt;
{{Lead|Texto informado por &amp;lt;strong&amp;gt;Ricardo Tingüi Botó&amp;lt;/strong&amp;gt;}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O povo Tingüi Botó vive na [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3876 Terra Indígena Tingüi Botó], localizada entre os municípios de Feira Grande e Campo Grande, em Alagoas (AL). Com uma extensão de 535 hectares, a área é uma reserva indígena demarcada pela FUNAI e dispõe de Casa de Farinha, Unidade Básica de Saúde e Escola Estadual Indígena. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nessa terra, a população total é de 195 famílias ou 469 pessoas, segundo informações da comunidade. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por Ricardo Tingui Botó. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nota sobre as fontes ==&lt;br /&gt;
Há somente um trabalho exclusivamente dedicado aos Tingui-Botó. É monografia de Benildo Gomes de Farias, ''Tingui-Botó: uma etnografia'', apresentada como monografia de graduação na Univeridade Federal de Alagoas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tratando-se de uma denominação recente, nos levantamentos regionais mais antigos os Tingui-Botó são referidos com outros nomes. Assim, Hohenthal Jr., em As tribos indígenas do médio e baixo São Francisco (1960), identifica-os enquanto &amp;quot;shocós&amp;quot; de Olho d'Água do Meio; Duarte, em Tribos, aldeias e missões de indios nas Alagoas (1969), a eles se refere como &amp;quot;shocó&amp;quot;ou &amp;quot;xocó&amp;quot;. Há também referências a eles em Claudio Sant'Ana, Alagoas seus índios e suas terras (1991), e no Atlas das Terras Indígenas do Nordeste (1993).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata|Vera Lúcia Calheiros Mata]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;DUARTE, A. Tribos, aldeias e missões de índios nas Alagoas. Rev. do Instituto Histórico, Maceió : Instituto Histórico, s.n., 1969.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;FARIAS, Benildo Gomes de. Tingui-Botó : uma etnografia. Maceió : UFAL, 1998. 94 p. (Monografia para obtenção do grau de Bacharel em Ciências Sociais)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;HOHENTHAL JÚNIOR, W. D. As tribos indígenas do médio e baixo São Francisco. Rev. do Museu Paulista, São Paulo : Museu Paulista, v. 12, n.s., 1960.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MUSEU NACIONAL. PETI. Atlas das terras indígenas do Nordeste : Alagoas, Bahia (exceto sul), Ceará, Paraíba, Pernambuco, Sergipe. Rio de Janeiro : Museu Nacional-Peti, 1993. 93 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;RONDINELLI, Rosely Curi (Coord.). Inventário analítico do arquivo permanente do Museu do Índio - Funai : documentos textuais 1950-1994. Rio de Janeiro : Museu do Índio, 1997. 150 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;SANT'ANA, Claudio L. F. Alagoas seus índios e suas terras. Recife : Funai, 1991.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata|Vera Lúcia Calheiros Mata]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas em Alagoas]]&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
Cuidado ao editar esta seção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bloco &amp;quot;&amp;lt;noinclude&amp;gt;&amp;quot; usado para evitar que propriedades sejam propagadas em páginas transcluídas:&lt;br /&gt;
Detalhes em http://www.mediawiki.org/wiki/Transclusion#Semantic_MediaWiki&lt;br /&gt;
--&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Tingui Botó}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
{{#set:Capa=1775821639487df37b1fd6c.jpg}}&lt;br /&gt;
{{#set:Counter=19628}}&lt;br /&gt;
{{#set:Crédito capa=Kayaku, 2000}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=1999-05-01}}&lt;br /&gt;
{{#set:Estilo=escuro}}&lt;br /&gt;
{{#set:Povo Id=265}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Tingui_Bot%C3%B3&amp;diff=8463</id>
		<title>Povo:Tingui Botó</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Tingui_Bot%C3%B3&amp;diff=8463"/>
		<updated>2025-07-30T15:28:22Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Os Tingui-Botó habitam a comunidade Olho D´Água do Meio, no município alagoano de Feira Grande. Até o início da década de 1980, eram conhecidos como &amp;quot;caboclos&amp;quot;, quando foi-lhes reconhecida a identidade indígena pela Funai. Desde esse período preservam dois hectares de mata para realizar o ritual secreto do Ouricuri, principal emblema de sua identidade, que continuam resguardando das populações vizinhas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nome ==&lt;br /&gt;
O nome Tingui-Botó é de origem recente. Nos registros históricos e nos levantamentos gerais da região, como os realizados por Duarte e Hohenthal Jr., os remanescentes indígenas de Olho d'Água do Meio, povoado do município de Feira Grande, são identificados como Xocó ou Shocó. Mas, segundo relatou ao Instituto Socioambiental o cacique Eliziano de Campos e o pajé Adalberto Ferreira da Silva, os Tingui-Botó não são Xocó e sim Kariri.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A atual denominação teria sido dada por João Botó, curandeiro e pajé que, juntamente com sua família, se instalou em Olho d'Água do Meio provavelmente nos anos 1940. Isso ocorreu depois da criação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, em Porto Real do Colégio. Com a formação da nova comunidade, foi revitalizado o ritual do Ouricuri, desencadeando um processo de agregação em torno da &amp;quot;taba&amp;quot;, ou seja, do território sagrado, onde o ritual se realiza secretamente a cerca de dois hectares da localidade. Esta versão da origem do nome &amp;quot;Botó&amp;quot; me foi dada pelo pajé dos Kariri- Xocó na década de 1980, sendo confirmada em 2002 pelos índios acima citados ao Instituto Socioambiental. Estes também disseram que a denominação &amp;quot;Tingui&amp;quot; tem como origem uma árvore com esse nome, cujas folhas foram utilizadas no acampamento erguido durante a vinda para Olho D´Água do Meio.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata|Vera Lúcia Calheiros Mata]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Língua ==&lt;br /&gt;
Os Tingui-Botó falam o português à moda das populações rurais do nordeste. Alegam, porém, falar sua língua ancestral no ritual secreto do Ouricuri. De acordo com o cacique Eliziano de Campos e o pajé Adalberto Ferreira da Silva, sua língua é designada Dzbokuá.&amp;lt;htmltag href=&amp;quot;https://img.socioambiental.org/d/235148-1/tingui_boto_2.jpg&amp;quot; rel=&amp;quot;lightbox[g2image]&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; title=&amp;quot;Dança da Lança. Foto: Kayaku, 2003&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/htmltag&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse sentido, o etnólogo Ugo Maia Andrade afirma que o cariri era uma língua corrente em uma extensa área no interior do Nordeste e estava dividido em quatro dialetos, entre os quais o &amp;quot;dzubukuá&amp;quot;. Por se tratar de uma língua não mais falada usualmente pelas populações locais, seu estudo linguístico é precário e quase todo baseado nas gramáticas elaboradas por missionários que estiveram na região durante os séculos XVII e XVIII (sobre o assunto, ver a página sobre o povo [[Povo:Tumbalalá | Tumbalalá]]).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata|Vera Lúcia Calheiros Mata]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== História e etnogênese ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
 |Foto: Celso Brandão, 1999 &lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/235154-1/tingui_boto_3.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Tingui-Botó foram reconhecidos como grupo indígena em 1980 por Clovis Antunes, professor da Universidade Federal de Alagoas, que enviou documentação à Funai. Trata-se de um dos casos de resgate da identidade étnica de uma população anteriormente dispersa, em processo de etnogênese.  À substituição de uma identidade &amp;quot;acanhada&amp;quot; de caboclo pelo orgulho étnico de ser índio, seguem-se desdobramentos políticos tais como a reinvindicação de posse de terras por direito imemorial e a luta pelo seu reconhecimento pelo órgão tutelar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até 1983 possuíam apenas a pequena área de cerca de dois hectares coberta de mata para preservar o segredo do Ouricuri das populações não indígenas circunvizinhas. Moravam num arruado em Olho d'Água do Meio e trabalhavam nas fazendas da região como meeiros (com direito à metade da colheita do que plantavam) ou alugados (contratados para executar determinada tarefa agrícola em troca de pagamento).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1983, a FUNAI instalou um posto indígena na área. No ano seguinte, o órgão adquiriu duas pequenas propriedades: a Fazenda Boacica, com 30 hectares, e a Fazenda Olho d'Água do Meio, de 31,5 hectares. Em 1988 comprou a Fazenda Ypioca, com 59,6 hectares. Assim, hoje a comunidade dispõe de uma área de 121,1 hectares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Produzem artesanato de palha, além de cocares, colares e bordunas.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata|Vera Lúcia Calheiros Mata]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Localização e população ==&lt;br /&gt;
{{Lead|Texto informado por Ricardo Tingüi Botó}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O povo Tingüi Botó vive na [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3876 Terra Indígena Tingüi Botó], localizada entre os municípios de Feira Grande e Campo Grande, em Alagoas (AL). Com uma extensão de 535 hectares, a área é uma reserva indígena demarcada pela FUNAI e dispõe de Casa de Farinha, Unidade Básica de Saúde e Escola Estadual Indígena. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nessa terra, a população total é de 195 famílias ou 469 pessoas, segundo informações da comunidade. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por Ricardo Tingui Botó. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nota sobre as fontes ==&lt;br /&gt;
Há somente um trabalho exclusivamente dedicado aos Tingui-Botó. É monografia de Benildo Gomes de Farias, ''Tingui-Botó: uma etnografia'', apresentada como monografia de graduação na Univeridade Federal de Alagoas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tratando-se de uma denominação recente, nos levantamentos regionais mais antigos os Tingui-Botó são referidos com outros nomes. Assim, Hohenthal Jr., em As tribos indígenas do médio e baixo São Francisco (1960), identifica-os enquanto &amp;quot;shocós&amp;quot; de Olho d'Água do Meio; Duarte, em Tribos, aldeias e missões de indios nas Alagoas (1969), a eles se refere como &amp;quot;shocó&amp;quot;ou &amp;quot;xocó&amp;quot;. Há também referências a eles em Claudio Sant'Ana, Alagoas seus índios e suas terras (1991), e no Atlas das Terras Indígenas do Nordeste (1993).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata|Vera Lúcia Calheiros Mata]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;DUARTE, A. Tribos, aldeias e missões de índios nas Alagoas. Rev. do Instituto Histórico, Maceió : Instituto Histórico, s.n., 1969.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;FARIAS, Benildo Gomes de. Tingui-Botó : uma etnografia. Maceió : UFAL, 1998. 94 p. (Monografia para obtenção do grau de Bacharel em Ciências Sociais)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;HOHENTHAL JÚNIOR, W. D. As tribos indígenas do médio e baixo São Francisco. Rev. do Museu Paulista, São Paulo : Museu Paulista, v. 12, n.s., 1960.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MUSEU NACIONAL. PETI. Atlas das terras indígenas do Nordeste : Alagoas, Bahia (exceto sul), Ceará, Paraíba, Pernambuco, Sergipe. Rio de Janeiro : Museu Nacional-Peti, 1993. 93 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;RONDINELLI, Rosely Curi (Coord.). Inventário analítico do arquivo permanente do Museu do Índio - Funai : documentos textuais 1950-1994. Rio de Janeiro : Museu do Índio, 1997. 150 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;SANT'ANA, Claudio L. F. Alagoas seus índios e suas terras. Recife : Funai, 1991.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata|Vera Lúcia Calheiros Mata]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas em Alagoas]]&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
Cuidado ao editar esta seção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bloco &amp;quot;&amp;lt;noinclude&amp;gt;&amp;quot; usado para evitar que propriedades sejam propagadas em páginas transcluídas:&lt;br /&gt;
Detalhes em http://www.mediawiki.org/wiki/Transclusion#Semantic_MediaWiki&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Tingui Botó}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
{{#set:Capa=1775821639487df37b1fd6c.jpg}}&lt;br /&gt;
{{#set:Counter=19628}}&lt;br /&gt;
{{#set:Crédito capa=Kayaku, 2000}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=1999-05-01}}&lt;br /&gt;
{{#set:Estilo=escuro}}&lt;br /&gt;
{{#set:Povo Id=265}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Tingui_Bot%C3%B3&amp;diff=8462</id>
		<title>Povo:Tingui Botó</title>
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		<updated>2025-07-30T15:20:27Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: /* Localização e população */&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Os Tingui-Botó habitam a comunidade Olho D´Água do Meio, no município alagoano de Feira Grande. Até o início da década de 80, eram conhecidos como &amp;quot;caboclos&amp;quot;, quando foi-lhes reconhecida a identidade indígena pela Funai. Desde esse período preservam dois hectares de mata para realizar o ritual secreto do Ouricuri, principal emblema de sua identidade, que continuam resguardando das populações vizinhas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nome ==&lt;br /&gt;
O nome Tingui-Botó é de origem recente. Nos registros históricos e nos levantamentos gerais da região, como os realizados por Duarte e Hohenthal Jr., os remanescentes indígenas de Olho d'Água do Meio, povoado do município de Feira Grande, são identificados como Xocó ou Shocó. Mas, segundo relatou ao Instituto Socioambiental o cacique Eliziano de Campos e o pajé Adalberto Ferreira da Silva, os Tingui-Botó não são Xocó e sim Kariri.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A atual denominação teria sido dada por João Botó, curandeiro e pajé que, juntamente com sua família, se instalou em Olho d'Água do Meio provavelmente nos anos 1940. Isso ocorreu depois da criação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, em Porto Real do Colégio. Com a formação da nova comunidade, foi revitalizado o ritual do Ouricuri, desencadeando um processo de agregação em torno da &amp;quot;taba&amp;quot;, ou seja, do território sagrado, onde o ritual se realiza secretamente a cerca de dois hectares da localidade. Esta versão da origem do nome &amp;quot;Botó&amp;quot; me foi dada pelo pajé dos Kariri- Xocó na década de 1980, sendo confirmada em 2002 pelos índios acima citados ao Instituto Socioambiental. Estes também disseram que a denominação &amp;quot;Tingui&amp;quot; tem como origem uma árvore com esse nome, cujas folhas foram utilizadas no acampamento erguido durante a vinda para Olho D´Água do Meio.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata|Vera Lúcia Calheiros Mata]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Língua ==&lt;br /&gt;
Os Tingui-Botó falam o português à moda das populações rurais do nordeste. Alegam, porém, falar sua língua ancestral no ritual secreto do Ouricuri. De acordo com o cacique Eliziano de Campos e o pajé Adalberto Ferreira da Silva, sua língua é designada Dzbokuá.&amp;lt;htmltag href=&amp;quot;https://img.socioambiental.org/d/235148-1/tingui_boto_2.jpg&amp;quot; rel=&amp;quot;lightbox[g2image]&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; title=&amp;quot;Dança da Lança. Foto: Kayaku, 2003&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/htmltag&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse sentido, o etnólogo Ugo Maia Andrade afirma que o cariri era uma língua corrente em uma extensa área no interior do Nordeste e estava dividido em quatro dialetos, entre os quais o &amp;quot;dzubukuá&amp;quot;. Por se tratar de uma língua não mais falada usualmente pelas populações locais, seu estudo linguístico é precário e quase todo baseado nas gramáticas elaboradas por missionários que estiveram na região durante os séculos XVII e XVIII (sobre o assunto, ver a página sobre o povo [[Povo:Tumbalalá | Tumbalalá]]).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata|Vera Lúcia Calheiros Mata]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== História e etnogênese ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
 |Foto: Celso Brandão, 1999 &lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/235154-1/tingui_boto_3.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Tingui-Botó foram reconhecidos como grupo indígena em 1980 por Clovis Antunes, professor da Universidade Federal de Alagoas, que enviou documentação à Funai. Trata-se de um dos casos de resgate da identidade étnica de uma população anteriormente dispersa, em processo de etnogênese.  À substituição de uma identidade &amp;quot;acanhada&amp;quot; de caboclo pelo orgulho étnico de ser índio, seguem-se desdobramentos políticos tais como a reinvindicação de posse de terras por direito imemorial e a luta pelo seu reconhecimento pelo órgão tutelar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até 1983 possuíam apenas a pequena área de cerca de dois hectares coberta de mata para preservar o segredo do Ouricuri das populações não indígenas circunvizinhas. Moravam num arruado em Olho d'Água do Meio e trabalhavam nas fazendas da região como meeiros (com direito à metade da colheita do que plantavam) ou alugados (contratados para executar determinada tarefa agrícola em troca de pagamento).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1983, a FUNAI instalou um posto indígena na área. No ano seguinte, o órgão adquiriu duas pequenas propriedades: a Fazenda Boacica, com 30 hectares, e a Fazenda Olho d'Água do Meio, de 31,5 hectares. Em 1988 comprou a Fazenda Ypioca, com 59,6 hectares. Assim, hoje a comunidade dispõe de uma área de 121,1 hectares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Produzem artesanato de palha, além de cocares, colares e bordunas.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata|Vera Lúcia Calheiros Mata]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Localização e população ==&lt;br /&gt;
O povo Tingüi Botó vive na [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3876 Terra Indígena Tingüi Botó], localizada entre os municípios de Feira Grande e Campo Grande, em Alagoas (AL). Com uma extensão de 535 hectares, a área é uma reserva indígena demarcada pela FUNAI e dispõe de Casa de Farinha, Unidade Básica de Saúde e Escola Estadual Indígena. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nessa terra, a população total é de 195 famílias ou 469 pessoas, segundo informações da comunidade. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por Ricardo Tingui Botó. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nota sobre as fontes ==&lt;br /&gt;
Há somente um trabalho exclusivamente dedicado aos Tingui-Botó. É monografia de Benildo Gomes de Farias, ''Tingui-Botó: uma etnografia'', apresentada como monografia de graduação na Univeridade Federal de Alagoas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tratando-se de uma denominação recente, nos levantamentos regionais mais antigos os Tingui-Botó são referidos com outros nomes. Assim, Hohenthal Jr., em As tribos indígenas do médio e baixo São Francisco (1960), identifica-os enquanto &amp;quot;shocós&amp;quot; de Olho d'Água do Meio; Duarte, em Tribos, aldeias e missões de indios nas Alagoas (1969), a eles se refere como &amp;quot;shocó&amp;quot;ou &amp;quot;xocó&amp;quot;. Há também referências a eles em Claudio Sant'Ana, Alagoas seus índios e suas terras (1991), e no Atlas das Terras Indígenas do Nordeste (1993).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata|Vera Lúcia Calheiros Mata]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;DUARTE, A. Tribos, aldeias e missões de índios nas Alagoas. Rev. do Instituto Histórico, Maceió : Instituto Histórico, s.n., 1969.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;FARIAS, Benildo Gomes de. Tingui-Botó : uma etnografia. Maceió : UFAL, 1998. 94 p. (Monografia para obtenção do grau de Bacharel em Ciências Sociais)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;HOHENTHAL JÚNIOR, W. D. As tribos indígenas do médio e baixo São Francisco. Rev. do Museu Paulista, São Paulo : Museu Paulista, v. 12, n.s., 1960.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MUSEU NACIONAL. PETI. Atlas das terras indígenas do Nordeste : Alagoas, Bahia (exceto sul), Ceará, Paraíba, Pernambuco, Sergipe. Rio de Janeiro : Museu Nacional-Peti, 1993. 93 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;RONDINELLI, Rosely Curi (Coord.). Inventário analítico do arquivo permanente do Museu do Índio - Funai : documentos textuais 1950-1994. Rio de Janeiro : Museu do Índio, 1997. 150 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;SANT'ANA, Claudio L. F. Alagoas seus índios e suas terras. Recife : Funai, 1991.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata|Vera Lúcia Calheiros Mata]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas em Alagoas]]&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
Cuidado ao editar esta seção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bloco &amp;quot;&amp;lt;noinclude&amp;gt;&amp;quot; usado para evitar que propriedades sejam propagadas em páginas transcluídas:&lt;br /&gt;
Detalhes em http://www.mediawiki.org/wiki/Transclusion#Semantic_MediaWiki&lt;br /&gt;
--&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Tingui Botó}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
{{#set:Capa=1775821639487df37b1fd6c.jpg}}&lt;br /&gt;
{{#set:Counter=19628}}&lt;br /&gt;
{{#set:Crédito capa=Kayaku, 2000}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=1999-05-01}}&lt;br /&gt;
{{#set:Estilo=escuro}}&lt;br /&gt;
{{#set:Povo Id=265}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Tingui_Bot%C3%B3&amp;diff=8461</id>
		<title>Povo:Tingui Botó</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Povo:Tingui_Bot%C3%B3&amp;diff=8461"/>
		<updated>2025-07-30T15:20:15Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: /* Localização */&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Os Tingui-Botó habitam a comunidade Olho D´Água do Meio, no município alagoano de Feira Grande. Até o início da década de 80, eram conhecidos como &amp;quot;caboclos&amp;quot;, quando foi-lhes reconhecida a identidade indígena pela Funai. Desde esse período preservam dois hectares de mata para realizar o ritual secreto do Ouricuri, principal emblema de sua identidade, que continuam resguardando das populações vizinhas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nome ==&lt;br /&gt;
O nome Tingui-Botó é de origem recente. Nos registros históricos e nos levantamentos gerais da região, como os realizados por Duarte e Hohenthal Jr., os remanescentes indígenas de Olho d'Água do Meio, povoado do município de Feira Grande, são identificados como Xocó ou Shocó. Mas, segundo relatou ao Instituto Socioambiental o cacique Eliziano de Campos e o pajé Adalberto Ferreira da Silva, os Tingui-Botó não são Xocó e sim Kariri.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A atual denominação teria sido dada por João Botó, curandeiro e pajé que, juntamente com sua família, se instalou em Olho d'Água do Meio provavelmente nos anos 1940. Isso ocorreu depois da criação do Posto Indígena Padre Alfredo Dâmaso, em Porto Real do Colégio. Com a formação da nova comunidade, foi revitalizado o ritual do Ouricuri, desencadeando um processo de agregação em torno da &amp;quot;taba&amp;quot;, ou seja, do território sagrado, onde o ritual se realiza secretamente a cerca de dois hectares da localidade. Esta versão da origem do nome &amp;quot;Botó&amp;quot; me foi dada pelo pajé dos Kariri- Xocó na década de 1980, sendo confirmada em 2002 pelos índios acima citados ao Instituto Socioambiental. Estes também disseram que a denominação &amp;quot;Tingui&amp;quot; tem como origem uma árvore com esse nome, cujas folhas foram utilizadas no acampamento erguido durante a vinda para Olho D´Água do Meio.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata|Vera Lúcia Calheiros Mata]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Língua ==&lt;br /&gt;
Os Tingui-Botó falam o português à moda das populações rurais do nordeste. Alegam, porém, falar sua língua ancestral no ritual secreto do Ouricuri. De acordo com o cacique Eliziano de Campos e o pajé Adalberto Ferreira da Silva, sua língua é designada Dzbokuá.&amp;lt;htmltag href=&amp;quot;https://img.socioambiental.org/d/235148-1/tingui_boto_2.jpg&amp;quot; rel=&amp;quot;lightbox[g2image]&amp;quot; tagname=&amp;quot;a&amp;quot; title=&amp;quot;Dança da Lança. Foto: Kayaku, 2003&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/htmltag&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse sentido, o etnólogo Ugo Maia Andrade afirma que o cariri era uma língua corrente em uma extensa área no interior do Nordeste e estava dividido em quatro dialetos, entre os quais o &amp;quot;dzubukuá&amp;quot;. Por se tratar de uma língua não mais falada usualmente pelas populações locais, seu estudo linguístico é precário e quase todo baseado nas gramáticas elaboradas por missionários que estiveram na região durante os séculos XVII e XVIII (sobre o assunto, ver a página sobre o povo [[Povo:Tumbalalá | Tumbalalá]]).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata|Vera Lúcia Calheiros Mata]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== História e etnogênese ==&lt;br /&gt;
{{#miniatura: right&lt;br /&gt;
 |Foto: Celso Brandão, 1999 &lt;br /&gt;
 |https://img.socioambiental.org/d/235154-1/tingui_boto_3.jpg&lt;br /&gt;
 }}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os Tingui-Botó foram reconhecidos como grupo indígena em 1980 por Clovis Antunes, professor da Universidade Federal de Alagoas, que enviou documentação à Funai. Trata-se de um dos casos de resgate da identidade étnica de uma população anteriormente dispersa, em processo de etnogênese.  À substituição de uma identidade &amp;quot;acanhada&amp;quot; de caboclo pelo orgulho étnico de ser índio, seguem-se desdobramentos políticos tais como a reinvindicação de posse de terras por direito imemorial e a luta pelo seu reconhecimento pelo órgão tutelar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até 1983 possuíam apenas a pequena área de cerca de dois hectares coberta de mata para preservar o segredo do Ouricuri das populações não indígenas circunvizinhas. Moravam num arruado em Olho d'Água do Meio e trabalhavam nas fazendas da região como meeiros (com direito à metade da colheita do que plantavam) ou alugados (contratados para executar determinada tarefa agrícola em troca de pagamento).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1983, a FUNAI instalou um posto indígena na área. No ano seguinte, o órgão adquiriu duas pequenas propriedades: a Fazenda Boacica, com 30 hectares, e a Fazenda Olho d'Água do Meio, de 31,5 hectares. Em 1988 comprou a Fazenda Ypioca, com 59,6 hectares. Assim, hoje a comunidade dispõe de uma área de 121,1 hectares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Produzem artesanato de palha, além de cocares, colares e bordunas.&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata|Vera Lúcia Calheiros Mata]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Localização e população ==&lt;br /&gt;
O povo Tingüi Botó vive na [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3876 Terra Indígena Tingüi Botó], localizada entre os municípios de Feira Grande e Campo Grande, em Alagoas (AL). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com uma extensão de 535 hectares, a área é uma reserva indígena demarcada pela FUNAI e dispõe de Casa de Farinha, Unidade Básica de Saúde e Escola Estadual Indígena. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nessa terra, a população total é de 195 famílias ou 469 pessoas, segundo informações da comunidade. &lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por Ricardo Tingui Botó. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Nota sobre as fontes ==&lt;br /&gt;
Há somente um trabalho exclusivamente dedicado aos Tingui-Botó. É monografia de Benildo Gomes de Farias, ''Tingui-Botó: uma etnografia'', apresentada como monografia de graduação na Univeridade Federal de Alagoas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tratando-se de uma denominação recente, nos levantamentos regionais mais antigos os Tingui-Botó são referidos com outros nomes. Assim, Hohenthal Jr., em As tribos indígenas do médio e baixo São Francisco (1960), identifica-os enquanto &amp;quot;shocós&amp;quot; de Olho d'Água do Meio; Duarte, em Tribos, aldeias e missões de indios nas Alagoas (1969), a eles se refere como &amp;quot;shocó&amp;quot;ou &amp;quot;xocó&amp;quot;. Há também referências a eles em Claudio Sant'Ana, Alagoas seus índios e suas terras (1991), e no Atlas das Terras Indígenas do Nordeste (1993).&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata|Vera Lúcia Calheiros Mata]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fontes de informação ==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;DUARTE, A. Tribos, aldeias e missões de índios nas Alagoas. Rev. do Instituto Histórico, Maceió : Instituto Histórico, s.n., 1969.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;FARIAS, Benildo Gomes de. Tingui-Botó : uma etnografia. Maceió : UFAL, 1998. 94 p. (Monografia para obtenção do grau de Bacharel em Ciências Sociais)&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;HOHENTHAL JÚNIOR, W. D. As tribos indígenas do médio e baixo São Francisco. Rev. do Museu Paulista, São Paulo : Museu Paulista, v. 12, n.s., 1960.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;MUSEU NACIONAL. PETI. Atlas das terras indígenas do Nordeste : Alagoas, Bahia (exceto sul), Ceará, Paraíba, Pernambuco, Sergipe. Rio de Janeiro : Museu Nacional-Peti, 1993. 93 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;RONDINELLI, Rosely Curi (Coord.). Inventário analítico do arquivo permanente do Museu do Índio - Funai : documentos textuais 1950-1994. Rio de Janeiro : Museu do Índio, 1997. 150 p.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 &lt;br /&gt;
&amp;lt;ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;li&amp;gt;SANT'ANA, Claudio L. F. Alagoas seus índios e suas terras. Recife : Funai, 1991.&amp;lt;/li&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/ul&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;!-- Seção escrita por [[Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata|Vera Lúcia Calheiros Mata]]. --&amp;gt;&lt;br /&gt;
[[Categoria:Povos indígenas em Alagoas]]&lt;br /&gt;
&amp;lt;!--&lt;br /&gt;
Cuidado ao editar esta seção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bloco &amp;quot;&amp;lt;noinclude&amp;gt;&amp;quot; usado para evitar que propriedades sejam propagadas em páginas transcluídas:&lt;br /&gt;
Detalhes em http://www.mediawiki.org/wiki/Transclusion#Semantic_MediaWiki&lt;br /&gt;
--&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;noinclude&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{DISPLAYTITLE:Tingui Botó}}&lt;br /&gt;
{{#set:Tem autor=Usuário:Vera Lúcia Calheiros Mata}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{#set:Ativo=1}}&lt;br /&gt;
{{#set:Capa=1775821639487df37b1fd6c.jpg}}&lt;br /&gt;
{{#set:Counter=19628}}&lt;br /&gt;
{{#set:Crédito capa=Kayaku, 2000}}&lt;br /&gt;
{{#set:Data verbete=1999-05-01}}&lt;br /&gt;
{{#set:Estilo=escuro}}&lt;br /&gt;
{{#set:Povo Id=265}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/noinclude&amp;gt;&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
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		<title>Onde estão?</title>
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		<updated>2025-07-24T18:48:11Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: /* Quem vive onde */&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;{{Título |Onde estão?}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os povos indígenas contemporâneos estão espalhados por todo o território brasileiro e vários desses povos também habitam países vizinhos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, as comunidades indígenas vivem tanto em terras coletivas – demarcadas pelo governo federal para seu usufruto exclusivo –, quanto em outros contextos territoriais, como cidades e áreas ainda não demarcadas. As chamadas [[O que são Terras Indígenas? |Terras Indígenas]] (TIs) somam, hoje, {{#total_area_ti: total}} áreas, [https://pib.socioambiental.org/pt/Localiza%C3%A7%C3%A3o_e_extens%C3%A3o_das_TIs a maior parte delas na Amazônia Legal]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O reconhecimento das Terras Indígenas por parte do Estado ([[Demarcações |processo de demarcação]]) é um capítulo ainda não encerrado da história brasileira. Muitas delas estão demarcadas e contam com registros em cartórios, outras estão em fase de reconhecimento; há, também, áreas indígenas sem nenhuma regularização. Além disso, diversas TIs estão envolvidas em conflitos fundiários e polêmicas judiciais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo o Censo IBGE de 2022, a [https://pib.socioambiental.org/pt/Quantos_s%C3%A3o%3F população indígena no Brasil] é atualmente de 1.693.535 pessoas, das quais 689.532 vivem em Terras Indígenas já declaradas ou homologadas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Isso representa aproximadamente 20% a mais do que o registrado no Censo de 2010, mas muito menos do que a maior parte dessa população – cerca de 60% do total, que ainda luta pelo reconhecimento oficial de suas terras e/ou vive em outros contextos, como o urbano. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==Quem vive onde==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
Para saber em quais estados estão os diferentes povos, pesquise abaixo:&lt;br /&gt;
{{#quadro_localizacao:}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
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		<title>Onde estão?</title>
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		<updated>2025-07-24T18:44:34Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;{{Título |Onde estão?}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os povos indígenas contemporâneos estão espalhados por todo o território brasileiro e vários desses povos também habitam países vizinhos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, as comunidades indígenas vivem tanto em terras coletivas – demarcadas pelo governo federal para seu usufruto exclusivo –, quanto em outros contextos territoriais, como cidades e áreas ainda não demarcadas. As chamadas [[O que são Terras Indígenas? |Terras Indígenas]] (TIs) somam, hoje, {{#total_area_ti: total}} áreas, [https://pib.socioambiental.org/pt/Localiza%C3%A7%C3%A3o_e_extens%C3%A3o_das_TIs a maior parte delas na Amazônia Legal]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O reconhecimento das Terras Indígenas por parte do Estado ([[Demarcações |processo de demarcação]]) é um capítulo ainda não encerrado da história brasileira. Muitas delas estão demarcadas e contam com registros em cartórios, outras estão em fase de reconhecimento; há, também, áreas indígenas sem nenhuma regularização. Além disso, diversas TIs estão envolvidas em conflitos fundiários e polêmicas judiciais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo o Censo IBGE de 2022, a [https://pib.socioambiental.org/pt/Quantos_s%C3%A3o%3F população indígena no Brasil] é atualmente de 1.693.535 pessoas, das quais 689.532 vivem em Terras Indígenas já declaradas ou homologadas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Isso representa aproximadamente 20% a mais do que o registrado no Censo de 2010, mas muito menos do que a maior parte dessa população – cerca de 60% do total, que ainda luta pelo reconhecimento oficial de suas terras e/ou vive em outros contextos, como o urbano. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==Quem vive onde==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
Para saber em quais estados estão os diferentes grupos, pesquise abaixo:&lt;br /&gt;
{{#quadro_localizacao:}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
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	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Onde_est%C3%A3o%3F&amp;diff=8458</id>
		<title>Onde estão?</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Onde_est%C3%A3o%3F&amp;diff=8458"/>
		<updated>2025-07-24T18:43:50Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;{{Título |Onde estão?}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os povos indígenas contemporâneos estão espalhados por todo o território brasileiro e vários desses povos também habitam países vizinhos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, as comunidades indígenas vivem tanto em terras coletivas – demarcadas pelo governo federal para seu usufruto exclusivo –, quanto em outros contextos territoriais, como cidades e áreas ainda não demarcadas. As chamadas [[O que são Terras Indígenas? |Terras Indígenas]] (TIs) somam, hoje, {{#total_area_ti: total}} áreas, [https://pib.socioambiental.org/pt/Localiza%C3%A7%C3%A3o_e_extens%C3%A3o_das_TIs a maior parte delas na Amazônia Legal]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O reconhecimento das Terras Indígenas por parte do Estado ([[Demarcações |processo de demarcação]]) é um capítulo ainda não encerrado da história brasileira. Muitas delas estão demarcadas e contam com registros em cartórios, outras estão em fase de reconhecimento; há, também, áreas indígenas sem nenhuma regularização. Além disso, diversas TIs estão envolvidas em conflitos fundiários e polêmicas judiciais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo o Censo IBGE de 2022, a [https://pib.socioambiental.org/pt/Quantos_s%C3%A3o%3F população indígena no Brasil] é atualmente de 1.693.535 pessoas, das quais 689.532 vivem em Terras Indígenas já declaradas ou homologadas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Isso representa aproximadamente 20% a mais do que o registrado no Censo de 2010, mas muito menos do que a maior parte dessa população, cerca de 60% do total, que ainda luta pelo reconhecimento oficial de suas terras ou está vivendo em outros contextos, como o urbano. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==Quem vive onde==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
Para saber em quais estados estão os diferentes grupos, pesquise abaixo:&lt;br /&gt;
{{#quadro_localizacao:}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Onde_est%C3%A3o%3F&amp;diff=8457</id>
		<title>Onde estão?</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Onde_est%C3%A3o%3F&amp;diff=8457"/>
		<updated>2025-07-24T18:42:47Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;{{Título |Onde estão?}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os povos indígenas contemporâneos estão espalhados por todo o território brasileiro e vários desses povos também habitam países vizinhos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, as comunidades indígenas vivem tanto em terras coletivas – demarcadas pelo governo federal para seu usufruto exclusivo –, quanto em outros contextos territoriais, como cidades e áreas ainda não demarcadas. As chamadas [[O que são Terras Indígenas? |Terras Indígenas]] (TIs) somam, hoje, {{#total_area_ti: total}} áreas, [https://pib.socioambiental.org/pt/Localiza%C3%A7%C3%A3o_e_extens%C3%A3o_das_TIs a maior parte delas na Amazônia Legal]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O reconhecimento das Terras Indígenas por parte do Estado ([[Demarcações |processo de demarcação]]) é um capítulo ainda não encerrado da história brasileira. Muitas delas estão demarcadas e contam com registros em cartórios, outras estão em fase de reconhecimento; há, também, áreas indígenas sem nenhuma regularização. Além disso, diversas TIs estão envolvidas em conflitos fundiários e polêmicas judiciais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo o Censo IBGE de 2022, a [https://pib.socioambiental.org/pt/Quantos_s%C3%A3o%3F população indígena no Brasil] é atualmente de 1.693.535 pessoas, das quais 689.532 vivem em Terras Indígenas já declaradas ou homologadas. Isso representa aproximadamente 20% a mais do que o registrado no Censo de 2010, mas muito menos do que a maior parte dessa população, cerca de 60% do total, que ainda luta pelo reconhecimento oficial de suas terras ou está vivendo em outros contextos, como o urbano. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==Quem vive onde==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
Para saber em quais estados estão os diferentes grupos, pesquise abaixo:&lt;br /&gt;
{{#quadro_localizacao:}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
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		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Onde_est%C3%A3o%3F&amp;diff=8456</id>
		<title>Onde estão?</title>
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		<updated>2025-07-24T18:40:48Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;{{Título |Onde estão?}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os povos indígenas contemporâneos estão espalhados por todo o território brasileiro e vários desses povos também habitam países vizinhos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, as comunidades indígenas vivem tanto em terras coletivas – demarcadas pelo governo federal para seu usufruto exclusivo –, quanto em outros contextos territoriais, como cidades e áreas ainda não demarcadas. As chamadas [[O que são Terras Indígenas? |Terras Indígenas]] (TIs) somam, hoje, {{#total_area_ti: total}} áreas, [https://pib.socioambiental.org/pt/Localiza%C3%A7%C3%A3o_e_extens%C3%A3o_das_TIs a maior parte delas na Amazônia Legal]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O reconhecimento das Terras Indígenas por parte do Estado ([[Demarcações |processo de demarcação]]) é um capítulo ainda não encerrado da história brasileira. Muitas delas estão demarcadas e contam com registros em cartórios, outras estão em fase de reconhecimento; há, também, áreas indígenas sem nenhuma regularização. Além disso, diversas TIs estão envolvidas em conflitos fundiários e polêmicas judiciais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo o Censo IBGE de 2022, a [https://pib.socioambiental.org/pt/Quantos_s%C3%A3o%3F população indígena no Brasil] é atualmente de 1.693.535 pessoas, das quais 689.532 vivem em Terras Indígenas já declaradas ou homologadas. Isso representa cerca de 20% a mais do que o registrado no Censo de 2010, mas muito menos do que os 60% dos indígenas, que ainda lutam pelo reconhecimento oficial de suas terras ou estão vivendo em outros contextos, como o urbano. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==Quem vive onde==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
Para saber em quais estados estão os diferentes grupos, pesquise abaixo:&lt;br /&gt;
{{#quadro_localizacao:}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
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		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=Onde_est%C3%A3o%3F&amp;diff=8455</id>
		<title>Onde estão?</title>
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		<updated>2025-07-24T18:37:08Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: Atualização e correção do conteúdo&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;{{Título |Onde estão?}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os povos indígenas contemporâneos estão espalhados por todo o território brasileiro e vários desses povos também habitam países vizinhos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, as comunidades indígenas vivem tanto em terras coletivas – demarcadas pelo governo federal para seu usufruto exclusivo –, quanto em outros contextos territoriais, como cidades e em áreas ainda não demarcadas. As chamadas [[O que são Terras Indígenas? |Terras Indígenas]] (TIs) somam, hoje, {{#total_area_ti: total}} áreas, [https://pib.socioambiental.org/pt/Localiza%C3%A7%C3%A3o_e_extens%C3%A3o_das_TIs a maior parte delas na Amazônia Legal]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O reconhecimento das Terras Indígenas por parte do Estado ([[Demarcações |processo de demarcação]]) é um capítulo ainda não encerrado da história brasileira. Muitas delas estão demarcadas e contam com registros em cartórios, outras estão em fase de reconhecimento; há, também, áreas indígenas sem nenhuma regularização. Além disso, diversas TIs estão envolvidas em conflitos fundiários e polêmicas judiciais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo o Censo IBGE de 2022, a [https://pib.socioambiental.org/pt/Quantos_s%C3%A3o%3F população indígena no Brasil] é atualmente de 1.693.535 pessoas, das quais 689.532 vivem em Terras Indígenas já declaradas ou homologadas. Isso representa cerca de 20% a mais do que o registrado no Censo de 2010, mas muito menos do que os 60% dos indígenas, que ainda lutam pelo reconhecimento oficial de suas terras ou estão vivendo em outros contextos, como o urbano. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==Quem vive onde==&lt;br /&gt;
&amp;lt;div class=&amp;quot;well&amp;quot;&amp;gt;&lt;br /&gt;
Para saber em quais estados estão os diferentes grupos, pesquise abaixo:&lt;br /&gt;
{{#quadro_localizacao:}}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/div&amp;gt;&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
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		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=%E2%80%9CN%C3%A3o_sabia_se_morria_de_sede_ou_de_fome%E2%80%9D&amp;diff=8454</id>
		<title>“Não sabia se morria de sede ou de fome”</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=%E2%80%9CN%C3%A3o_sabia_se_morria_de_sede_ou_de_fome%E2%80%9D&amp;diff=8454"/>
		<updated>2025-07-21T18:54:03Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;{{Título |“Não sabia se morria de sede ou de fome”}}&lt;br /&gt;
{{Lead |por '''Luiz Kaiowá'''}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Naquela época a Funai não olhava por nós. Um dia, nós fomos em Campo Grande. Nós ficamos lá, naquela linha do trem de ferro. Fiquei doze dias na estrada. Pedia. Comia se me davam; comia se me davam. Aí... da Funai. Aí veio aquela sopa de milho. Vamos falar... polenta de milho, polenta doce. Aí deu pra nós... &amp;quot;Volta pra sua terra! Não é pra ficar andando, não... Não fica andando&amp;quot;. Aí mandou nós sairmos e nós saímos rodando a estrada de novo. Nós saímos, não tinha aquela Nova Alvorada do Sul, não tinha casa; só tinha uma casa, que era um hotel-dormitório. Nós jantamos ali. Estava preparado para construir. Aí nós seguimos... Aquela ali era a estrada de cascalho. Não sabia se morria de sede ou se de fome. Era louco...&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nós achamos uma companhia lá na frente, com três dias [de caminhada]. Ele colocou matula pra nós e nós seguimos. Nós não sabia era [...], nós não sabia era como, não sabia o que era sofrimento, não queria saber de nada. Com quinze dias, vinte dias, chegamos a São Paulo, capital São Paulo. Naquela época São Paulo era pequeno. Se chegava por aqui, ia pro oeste; e aqui descia pra baixo. Você via a cidade looooonge, como assim no Mbokaja. Mbokaja é bem mais pertinho. Você via longe e ia de a pé. Aqui nós descemos de carona; naquela época já existia carona e hoje não está existindo. Aí nós fomos: eu, Pedrinho, Anibal e outro, Joselino. E outro, Francisco. São cinco. E um tuja, um menino desse tamanho; menino carijó. Pequeno, daquele tamanho. Foi de a pé, sem segurança. Foi de a pé. Aí nós fomos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Naquela época a Funai não olhava o índio, não. Hoje a Funai tem que colocar assim, ó: &amp;quot;O meu índio... eu gosto de índio! Eu gosto de índio, eu gosto de índio!&amp;quot;. Que nada! Eu conheço. Eu fui de ponta cabeça até o último. Eu, quando eu vejo a pessoa [dizer] &amp;quot;eu gosto&amp;quot;, aqui está festejando, está pulando alto que não gosta da pessoa. Até o pai da gente não gosta da gente! Pode saber bem que até o pai da gente não gosta da gente! Gosta, mas não é muito! [risos]&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É verdade! É realmente. Aí nós viemos, nós embora... Nós via aquela onça, atrás daquele mandiocal assim. Uma baita onça assim: &amp;quot;Oh a onça lá! A onça lá!&amp;quot;. Nós tinha oração pra onça; o nativo tem oração pra onça não pegar. Você pode pousar aqui na beira da estrada, pode aqui e nem vê ali.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fiquei pra lá... Acabou aquela matulita, nós tínhamos rapadura e farinha dentro da mochila. Nós mastigávamos aquilo pra enganar o estômago. [...] Aí nós dormimos na rua. Aí chegou o cabo. [...] Você não sabe o rumo... Nós já andamos aí pra achar a migração, nós não achamos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;quot;Entra aí!&amp;quot;. Colocou a gente dentro do camburão. Ficamos lá 90 dias. Aí nós fomos pro Rio. No Rio ficamos um ano e oito meses. Aí falaram: &amp;quot;Vocês vão pra Belo Horizonte&amp;quot;. Aí nós fomos pra Belo Horizonte. Chegamos em Belo Horizonte. Meio-dia chegou o cabo Antônio, que era Krenak lá de Krenak, de Espírito Santo, né? Na divisa. Aí chega o cabo Antônio. Chamou o Anibal, o Pedro e o outro, Francisco. Nós ficamos eu e o Joselino lá... na época falava pensão. Pensão de Dona Geni. Ficamos lá. Lá no centro de Belo Horizonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No outro dia veio de novo, nós fomos lá pra Casa da Floresta. Já era perto do Instituto Agronômico lá no prédio da Funai também - só que lá já é a Terceira Cavalaria. Tinha uma casa grande... Ficamos tempo lá. Seis anos, por aí. (...)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No outro dia, o Dr. Silva: &amp;quot;Eu vou levar você lá em Maxakali&amp;quot;. Começou a falar: &amp;quot;Eu vou levar vocês lá em Maxakali&amp;quot;. No outro dia nós pegamos aquela Secatur, caminhonete. Aí nós fomos. De lá nós viajamos um dia, dois dias, quando foi três dias que chegamos no Posto Maxakali. Aí já ficamos lá. Nós chegamos dia 22 de agosto, em 1950. Parece, 1950. 1949, por aí. Desde pequeno.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[Fomos] em dois. Era o meu primo. O Joselino já morreu. Polícia mataram ele. Andar e não achar o que quer. Não achar o certo. Chegamos [aqui]. Eu cheguei foi 1978 aqui. Cheguei no dia 3 de fevereiro aqui em Lagoa Rica. De noite ainda... Fevereiro, dia 3, à noite. Na época essa estrada não tinha, a pista não tinha ainda. Não tinha asfalto. Era uma poeira. E o tal de Penga, professor, morava aqui, bem perto da aldeia já. Nós encontramos ele lá em Presidente Prudente, lá no Paranazão. Foi lá no ônibus, onde nós estávamos. Aí ele veio: &amp;quot;Oh, che ray'i. Ele gostava de falar che ray'i&amp;quot;. Ele conhecia nós. Ele é dali e foi servir quartel lá em São Paulo. Ele já morreu também, tem tempo já.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
===Indígenas soldados===&lt;br /&gt;
Tem bastante! Tem, tem, tem muito! Tem o índio soldado Kalapalo, tem Kayapó. Kalapalo não. Kayapó, Kariri, Calha Norte. Tem Tupiniquim, tem vários. Só soldado, só nativo. Totó era Maxakali. Totó é nativo maxakali. E tupi-guarani. Ele é civil. Totó, Quelézim, Dival, Doutor, Carmino, quem mais? Carmino, quem mais? Rondon só passou; não serviu não. Totó, Quelezinho são irmãos. E o Dival já é outro. E o outro é Doutor. Tem outro mais, tem, Quimquim. Quimquim era louco. Quando ele bebe pinga, sai da frente; o facão come. Cortou tudo a mão do Guido. Foi feio. Eu não quero nem lembrar o que eu passei. Me entregar pro Deus.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;em&amp;gt;Trecho de entrevista em vídeo concedida por Luiz Kaiowá em 15 de fevereiro de 2019 à pesquisadora Tatiane Klein, com a participação de Carolina Santanna, Felipe Almeida e Rafael Monteiro Tannus&amp;lt;/em&amp;gt;&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=%E2%80%9CN%C3%A3o_sabia_se_morria_de_sede_ou_de_fome%E2%80%9D&amp;diff=8453</id>
		<title>“Não sabia se morria de sede ou de fome”</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="https://pib.socioambiental.org/pt/index.php?title=%E2%80%9CN%C3%A3o_sabia_se_morria_de_sede_ou_de_fome%E2%80%9D&amp;diff=8453"/>
		<updated>2025-07-17T20:19:08Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Tatiane: Criou página com '{{Título |“Não sabia se morria de sede ou de fome”}} {{Lead |por '''Luiz Kaiowá'''}}'&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;{{Título |“Não sabia se morria de sede ou de fome”}}&lt;br /&gt;
{{Lead |por '''Luiz Kaiowá'''}}&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Tatiane</name></author>
	</entry>
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