De Povos Indígenas no Brasil
Foto: Eduardo Viveiros de Castro, 1991

Mudanças entre as edições de "Povo:Araweté"

Autodenominação
Bïde
Onde estão Quantos são
PA 568 (Siasi/Sesai, 2020)
Família linguística
Tupi-Guarani
 
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== Introdução ==
 
 
{{#miniatura: left |Moça com pintura facial e indumentária típica araweté.
 
{{#miniatura: left |Moça com pintura facial e indumentária típica araweté.
 
Foto: Eduardo Viveiros de Castro|http://img.socioambiental.org/d/209416-1/arawete_17.jpg}}
 
Foto: Eduardo Viveiros de Castro|http://img.socioambiental.org/d/209416-1/arawete_17.jpg}}
  
 
Os Araweté são um povo tupi-guarani de caçadores e agricultores da floresta de terra firme. "Estamos no meio", dizem os Araweté da humanidade. Habitamos a terra, este patamar intermediário entre os dois céus e o mundo subterrâneo, povoados pelos deuses que se exilaram no começo dos tempos. Os Araweté dizem viver agora "na beira da terra": sua tradição fala de sucessivos deslocamentos a partir de algum lugar a leste (o centro da terra), sempre em fuga diante de inimigos mais poderosos. Toda sua longa história de guerras, mortes e fugas, e a catástrofe demográfica do "contato", se não se apagam da memória araweté, nunca chegaram a diminuir seu ímpeto vital e alegria.
 
Os Araweté são um povo tupi-guarani de caçadores e agricultores da floresta de terra firme. "Estamos no meio", dizem os Araweté da humanidade. Habitamos a terra, este patamar intermediário entre os dois céus e o mundo subterrâneo, povoados pelos deuses que se exilaram no começo dos tempos. Os Araweté dizem viver agora "na beira da terra": sua tradição fala de sucessivos deslocamentos a partir de algum lugar a leste (o centro da terra), sempre em fuga diante de inimigos mais poderosos. Toda sua longa história de guerras, mortes e fugas, e a catástrofe demográfica do "contato", se não se apagam da memória araweté, nunca chegaram a diminuir seu ímpeto vital e alegria.
 
 
 
 
 
 
 
 
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<h3>Outras leituras</h3>
 
 
<htmltag tagname="a" href="/files/file/PIB_verbetes/arawete/osaraweteeoplanoemergencial.pdf">Os Araweté e o Plano Emergencial</htmltag>, por Guilherme Orlandini Heurich, pesquisador do Museu Nacional/UFRJ.
 
</div>
 
 
 
== Nome e população ==
 
== Nome e população ==
 
{{#miniatura: left |Foto: Eduardo Viveiros de Castro|http://img.socioambiental.org/d/209377-1/arawete_2.jpg}}
 
{{#miniatura: left |Foto: Eduardo Viveiros de Castro|http://img.socioambiental.org/d/209377-1/arawete_2.jpg}}
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Segundo depoimento de Tarcício Feitosa (membro do CIMI - Conselho Indigenista Missionário) ao ISA na época, a morosidade do DSEI (Distrito Sanitário Indígena) de Altamira em tomar as devidas providências facilitou o impacto da epidemia sobre a população. Desde então, a população retomou seu crescimento e em maio de 2003, segundo dados da Funai, contava 293 pessoas, sendo três recém-nascidos. A seguir, uma lista dos dados censitários disponíveis sobre os Araweté desde o contato oficial:
 
Segundo depoimento de Tarcício Feitosa (membro do CIMI - Conselho Indigenista Missionário) ao ISA na época, a morosidade do DSEI (Distrito Sanitário Indígena) de Altamira em tomar as devidas providências facilitou o impacto da epidemia sobre a população. Desde então, a população retomou seu crescimento e em maio de 2003, segundo dados da Funai, contava 293 pessoas, sendo três recém-nascidos. A seguir, uma lista dos dados censitários disponíveis sobre os Araweté desde o contato oficial:
  
 
 
 
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<caption>Série histórica da população Araweté: 1992-2003</caption>
 
<caption>Série histórica da população Araweté: 1992-2003</caption>
 
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<th>Data/Fonte</th>
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<th>Censo</th>
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<td>27.07.76 [inf. Lisbôa, 1992]</td>
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<td>27 pessoas chegam ao Posto da Funai no Ipixuna</td>
            <td>27.07.76 [inf. Lisbôa, 1992]</td>
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            <td>27 pessoas chegam ao Posto da Funai no Ipixuna</td>
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<td>04.09.76''' '''[Diário João Evangelista de Carvalho]</td>
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<td>44 pessoas na aldeia próxima ao Posto</td>
            <td>04.09.76''' '''[Diário João Evangelista de Carvalho]</td>
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            <td>44 pessoas na aldeia próxima ao Posto</td>
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<td>Censo JEC de março 1977 [Müller et al., 1979: 24]</td>
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<td>120 pessoas</td>
            <td>Censo JEC de março 1977 [Müller et al., 1979: 24]</td>
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            <td>120 pessoas</td>
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<td>Meados de 1977 [Censo JEC] (Arnaud, 1978: 10-11)</td>
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<td>119 pessoas (59 homens/60 mulheres)</td>
            <td>Meados de 1977 [Censo JEC] (Arnaud, 1978: 10-11)</td>
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            <td>119 pessoas (59 homens/60 mulheres)</td>
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<td>11.05.77 [Censo JEC]</td>
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<td>129 pessoas (61 homens/ 58 mulheres)</td>
            <td>11.05.77 [Censo JEC]</td>
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            <td>129 pessoas (61 homens/ 58 mulheres)</td>
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<td>17.06.77 [Censo JEC]</td>
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<td>120 pessoas (62 homens/58 mulheres)</td>
            <td>17.06.77 [Censo JEC]</td>
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<td>11.10.77 [Censo JEC]</td>
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<td>117 pessoas</td>
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<td>14.03.78 [Censo Funai]</td>
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<td>121 pessoas</td>
            <td>14.03.78 [Censo Funai]</td>
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            <td>121 pessoas</td>
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<td>Julho de 1978 [Censo Funai] (Müller op.cit.: 25)</td>
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<td>122 pessoas</td>
            <td>Julho de 1978 [Censo Funai] (Müller op.cit.: 25)</td>
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<td>Meados de 1979 [Censo Müller] (op.cit.: 28)</td>
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<td>133 pessoas (71 homens/62mulheres)</td>
            <td>Meados de 1979 [Censo Müller] (op.cit.: 28)</td>
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            <td>133 pessoas (71 homens/62mulheres)</td>
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<td>02.01.80 [Censo Funai]</td>
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<td>136 pessoas (66 homens/70 mulheres)</td>
            <td>02.01.80 [Censo Funai]</td>
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<td>25.04.80 [Censo Funai]</td>
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<td>138 pessoas (66 homens/72 mulhres)</td>
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            <td>138 pessoas (66 homens/72 mulhres)</td>
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<td>Junho de 1981[Censo Eduardo Viveiros de Castro]</td>
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<td>130 pessoas (62 homens/68 mulheres)</td>
            <td>Junho de 1981[Censo Eduardo Viveiros de Castro]</td>
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            <td>130 pessoas (62 homens/68 mulheres)</td>
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<td>Abril de 1982  [Censo Eduardo Viveiros de Castro]</td>
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<td>136 pessoas (63 homens/73 mulheres)</td>
            <td>Abril de 1982  [Censo Eduardo Viveiros de Castro]</td>
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            <td>136 pessoas (63 homens/73 mulheres)</td>
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<td>Fevereiro de 1983  [Censo Eduardo Viveiros de Castro]</td>
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<td>136 pessoas (64 homens/72 mulheres)</td>
            <td>Fevereiro de 1983  [Censo Eduardo Viveiros de Castro]</td>
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            <td>136 pessoas (64 homens/72 mulheres)</td>
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<td>19.12.83 [Censo Funai]</td>
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<td>139 pessoas</td>
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            <td>139 pessoas</td>
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<td>Dezembro de 1985 [Censo Funai]</td>
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<td>153 pessoas</td>
            <td>Dezembro de 1985 [Censo Funai]</td>
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            <td>153 pessoas</td>
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<td>03.11.86 [Censo Funai]</td>
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<td>160 pessoas</td>
            <td>03.11.86 [Censo Funai]</td>
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            <td>160 pessoas</td>
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<td>16.06.87 [Censo Funai]</td>
        <tr>
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<td>162 pessoas (85 homens/77 mulheres)</td>
            <td>16.06.87 [Censo Funai]</td>
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            <td>162 pessoas (85 homens/77 mulheres)</td>
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<td>1988 [Censo Eduardo Viveiros de Castro]</td>
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<td>168 pessoas</td>
            <td>1988 [Censo Eduardo Viveiros de Castro]</td>
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            <td>168 pessoas</td>
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        </tr>
+
<td>15.12.89 [Censo Funai]</td>
        <tr>
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<td>181 pessoas (91 homens/90 mulheres)</td>
            <td>15.12.89 [Censo Funai]</td>
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            <td>181 pessoas (91 homens/90 mulheres)</td>
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<td>04.04.92 [Censo Eduardo Viveiros de Castro]</td>
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<td>195 pessoas (92 homens/103 mulheres)</td>
            <td>04.04.92 [Censo Eduardo Viveiros de Castro]</td>
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</tr>
            <td>195 pessoas (92 homens/103 mulheres)</td>
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<td>1992 [Censo Lo Curto-Funai de setembro]</td>
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<td>205 pessoas (95 homens/110mulheres)</td>
            <td>1992 [Censo Lo Curto-Funai de setembro]</td>
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            <td>205 pessoas (95 homens/110mulheres)</td>
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<tr>
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<td>2000 [Censo Funasa de novembro]</td>
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<td>278 pessoas</td>
            <td>2000 [Censo Funasa de novembro]</td>
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            <td>278 pessoas</td>
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<td>12.05.2003 [Censo Funai]</td>
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<td>293 pessoas</td>
            <td>12.05.2003 [Censo Funai]</td>
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            <td>293 pessoas</td>
 
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<!-- Seção escrita por [[Usuário:Eduardo Viveiros de Castro|Eduardo Viveiros de Castro]]. -->
 
<!-- Seção escrita por [[Usuário:Eduardo Viveiros de Castro|Eduardo Viveiros de Castro]]. -->
  
 
== Língua ==
 
== Língua ==
{{#miniatura: left |Foto: Beto Ricardo, 1991.|http://img.socioambiental.org/d/209382-1/arawete_4.jpg}}
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{{#miniatura: right
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|Foto: Beto Ricardo, 1991.
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|http://img.socioambiental.org/d/209382-1/arawete_4.jpg}}
  
A língua araweté pertence à grande família Tupi-Guarani. É possível que os Araweté, como vários outros grupos tupi da região, sejam os descendentes da tribo dos Pacajás, objeto de intensa atividade missionária por parte dos jesuítas durante o século XVII. As crônicas missionárias registram que parte desse numeroso povo resistiu à catequese, retornando à floresta. Mas a língua araweté, se comparada às línguas faladas por seus vizinhos tupi-guarani mais próximos (os Asuriní do Koatinemo, os Parakanã, os Asuriní do Trocará, os Suruí, os Tapirapé), todas elas bastante semelhantes entre si, mostra-se bastante diferenciada. Isto sugere que a separação dos Araweté foi mais antiga, ou mesmo que eles podem ter vindo de outra região do Brasil.
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A língua araweté pertence à grande família Tupi-Guarani. É possível que os Araweté, como vários outros grupos tupi da região, sejam os descendentes da tribo dos Pacajás, objeto de intensa atividade missionária por parte dos jesuítas durante o século XVII. As crônicas missionárias registram que parte desse numeroso povo resistiu à catequese, retornando à floresta. Mas a língua araweté, se comparada às línguas faladas por seus vizinhos tupi-guarani mais próximos (os Asuriní do Koatinemo, os [[Povo:Parakanã|Parakanã]], os Asuriní do Trocará, os Suruí, os [[Povo:Tapirapé|Tapirapé]]), todas elas bastante semelhantes entre si, mostra-se bastante diferenciada. Isto sugere que a separação dos Araweté foi mais antiga, ou mesmo que eles podem ter vindo de outra região do Brasil.
  
 
Ainda há uma parte significativa da população araweté que não fala Português. E, dentre os falantes, a maioria não possui fluência.
 
Ainda há uma parte significativa da população araweté que não fala Português. E, dentre os falantes, a maioria não possui fluência.
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{{#miniatura: left |Foto: Eduardo Viveiros de Castro|http://img.socioambiental.org/d/209387-1/arawete_6.jpg}}
 
{{#miniatura: left |Foto: Eduardo Viveiros de Castro|http://img.socioambiental.org/d/209387-1/arawete_6.jpg}}
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As consoantes "p", "b", "m", "n" soam aproximadamente como em português; o "ñ" como o "nh" em português; o "k" como o "c" de "casa"; o "t" como em "tudo", mesmo diante de "i"; o " d" soa como "tch" (como o "t" de "tio", no falar carioca); o "c" como "ts"; o "r" como em "caro", mesmo em começo de palavra; o "d" como o "th" do inglês "that"; o "d" como em "body", na pronúncia americana; o "y", o "w" e o "h" soam como no inglês "yes", "work", "home". O sinal ' entre duas vogais indica uma oclusão glotal suave, isto é, uma pequena pausa entre os dois sons separados por ele. A vogal tônica da maioria das palavras é a última; apenas quando este não é o caso, indica-se o acento por um traço sob a vogal: assim, por exemplo, ''bïde'' se pronuncia "''bïdé''", e ''Maï'' se pronuncia "''Máï''".
 
As consoantes "p", "b", "m", "n" soam aproximadamente como em português; o "ñ" como o "nh" em português; o "k" como o "c" de "casa"; o "t" como em "tudo", mesmo diante de "i"; o " d" soa como "tch" (como o "t" de "tio", no falar carioca); o "c" como "ts"; o "r" como em "caro", mesmo em começo de palavra; o "d" como o "th" do inglês "that"; o "d" como em "body", na pronúncia americana; o "y", o "w" e o "h" soam como no inglês "yes", "work", "home". O sinal ' entre duas vogais indica uma oclusão glotal suave, isto é, uma pequena pausa entre os dois sons separados por ele. A vogal tônica da maioria das palavras é a última; apenas quando este não é o caso, indica-se o acento por um traço sob a vogal: assim, por exemplo, ''bïde'' se pronuncia "''bïdé''", e ''Maï'' se pronuncia "''Máï''".
 
 
<!-- Seção escrita por [[Usuário:Eduardo Viveiros de Castro|Eduardo Viveiros de Castro]]. -->
 
<!-- Seção escrita por [[Usuário:Eduardo Viveiros de Castro|Eduardo Viveiros de Castro]]. -->
  
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{{#miniatura: left |A volta da caçada. Foto: Eduardo Viveiros de Castro, 1982|http://img.socioambiental.org/d/209390-1/arawete_7.jpg}}
 
{{#miniatura: left |A volta da caçada. Foto: Eduardo Viveiros de Castro, 1982|http://img.socioambiental.org/d/209390-1/arawete_7.jpg}}
  
Os Araweté habitam hoje numa só aldeia à margem do igarapé Ipixuna, afluente da margem direita do Médio Xingu. O Ipixuna é um rio de águas negras, encachoeirado, que corre em um leito rochoso na direção Sudeste/Noroeste. A vegetação dominante na bacia do Ipixuna é a floresta aberta com palmeiras, onde as árvores raramente ultrapassam 25 metros. Nos arredores da aldeia há extensas áreas de "mata de cipó", onde lianas e plantas espinhosas tornam a caminhada difícil. O terreno é pontilhado de irrupções graníticas que em seu topo se cobrem de cactos e bromélias. A caça é abundante, dada a grande quantidade de árvores frutíferas, que atraem os animais O regime de chuvas é bem marcado, com uma estação seca que se estende de abril a novembro, e uma chuvosa nos meses restantes. Entre agosto e novembro o rio se torna impraticável, expondo extensos lajeiros e formando poços de água estagnada propícios à pesca.
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Os Araweté, em 2021, vivem em 23 aldeias na região do igarapé Ipixuna, afluente da margem direita do Médio Xingu. O Ipixuna é um rio de águas negras, encachoeirado, que corre em um leito rochoso na direção Sudeste/Noroeste. A vegetação dominante na bacia do Ipixuna é a floresta aberta com palmeiras, onde as árvores raramente ultrapassam 25 metros. Nos arredores da aldeia há extensas áreas de "mata de cipó", onde lianas e plantas espinhosas tornam a caminhada difícil. O terreno é pontilhado de irrupções graníticas que em seu topo se cobrem de cactos e bromélias. A caça é abundante, dada a grande quantidade de árvores frutíferas, que atraem os animais O regime de chuvas é bem marcado, com uma estação seca que se estende de abril a novembro, e uma chuvosa nos meses restantes. Entre agosto e novembro o rio se torna impraticável, expondo extensos lajeiros e formando poços de água estagnada propícios à pesca.
 
 
De 1978 a 2001, os Araweté habitaram em uma outra aldeia à beira do Ipixuna, a alguns quilômetros da aldeia atual. Desde que se deslocaram das águas do Bacajá em direção ao Xingu, eles circulam por uma área compreendida entre as bacias dos rios Bom Jardim, ao sul, e Piranhaquara, ao norte, que inclui os rios Canafístula, Jatobá e Ipixuna. A Terra Araweté é contígua a três outras: TI Apyterewa (dos índios Parakanã) ao sul, TI Koatieno (dos Asuriní) ao norte e nordeste e TI Trincheira-Bacajá (dos Kayapó-Xikrin) a leste, tendo o rio Xingu como limite oeste.
 
  
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De 1978 a 2001, os Araweté habitaram em uma outra aldeia à beira do Ipixuna, a alguns quilômetros da aldeia atual. Desde que se deslocaram das águas do Bacajá em direção ao Xingu, eles circulam por uma área compreendida entre as bacias dos rios Bom Jardim, ao sul, e Piranhaquara, ao norte, que inclui os rios Canafístula, Jatobá e Ipixuna. A Terra Araweté é contígua a três outras: [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3585 TI Apyterewa] (dos índios Parakanã) ao sul, TI Koatieno (dos Asuriní) ao norte e nordeste e [https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3609 TI Trincheira-Bacajá] (dos Kayapó-Xikrin) a leste, tendo o rio Xingu como limite oeste.
 
<!-- Seção escrita por [[Usuário:Eduardo Viveiros de Castro|Eduardo Viveiros de Castro]]. -->
 
<!-- Seção escrita por [[Usuário:Eduardo Viveiros de Castro|Eduardo Viveiros de Castro]]. -->
  
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Não se sabe quantos começaram a caminhada, mas apenas 27 chegaram junto com os sertanistas que lideravam a marcha; o restante veio chegando aos poucos. Alguns índios se desviaram, no caminho, para as aldeias antigas, ali permanecendo algumas semanas; mas logo um novo ataque parakanã fez toda a população araweté que sobreviveu à caminhada e aos inimigos se juntar no Posto da Funai. Em março de 1977, o primeiro censo feito pela Funai contou 120 pessoas. Os Araweté me desfiaram os nomes de 77 pessoas que desapareceram no período entre sua chegada no Xingu, em janeiro de 1976, e sua chegada no Posto Velho, em julho daquele ano; três dessas morreram no último ataque parakanã: 73, portanto, foram vítimas do contato e da desastrosa caminhada - 36% da população total à época.
 
Não se sabe quantos começaram a caminhada, mas apenas 27 chegaram junto com os sertanistas que lideravam a marcha; o restante veio chegando aos poucos. Alguns índios se desviaram, no caminho, para as aldeias antigas, ali permanecendo algumas semanas; mas logo um novo ataque parakanã fez toda a população araweté que sobreviveu à caminhada e aos inimigos se juntar no Posto da Funai. Em março de 1977, o primeiro censo feito pela Funai contou 120 pessoas. Os Araweté me desfiaram os nomes de 77 pessoas que desapareceram no período entre sua chegada no Xingu, em janeiro de 1976, e sua chegada no Posto Velho, em julho daquele ano; três dessas morreram no último ataque parakanã: 73, portanto, foram vítimas do contato e da desastrosa caminhada - 36% da população total à época.
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{{#miniatura: left |Kãyipayerä sentado em cima de latas de óleo na casa do chefe do Posto Indígena Ipixuna. Foto: Eduardo Viveiros de Castro, 1982.|http://img.socioambiental.org/d/209397-1/arawete_10.jpg}}
 
{{#miniatura: left |Kãyipayerä sentado em cima de latas de óleo na casa do chefe do Posto Indígena Ipixuna. Foto: Eduardo Viveiros de Castro, 1982.|http://img.socioambiental.org/d/209397-1/arawete_10.jpg}}
 
  
 
Em 1978, os Araweté se mudaram, juntamente com o Posto da Funai, para um sítio mais próximo da foz do Ipixuna, onde residiram até 2001. Nos primeiros anos, viver com os brancos não era muito fácil. A interação entre índios e funcionários da Funai se fundava em uma série de mal-entendidos culturais, em expectativas estereotipadas e em demandas contraditórias. Era muito comum a emissão professoral de juízos sobre o 'caráter' típico dos Araweté: que eram preguiçosos, que passavam fome por descuido e imprevidência (e no entanto a população era visivelmente bem nutrida), que não eram solidários entre si, que só falavam e pensavam em sexo (o que era sublinhado, na verdade, por ser um dos únicos assuntos em que a vida dos índios interessava os brancos); e assim por diante. Havia toda uma série de procedimentos de 'infantilização' dos índios, pequenos ritos de degradação, como os exames médicos em público, censuras sobre a 'pouca higiene' de certas práticas tradicionais, o costume de se lhes pôr apelidos pejorativos. Só ouvi serem elogiados pelo temperamento cordato, alegre e (deveras!) paciente. Mas na verdade tudo isso não era apenas (às vezes, de forma alguma) uma questão de 'má vontade' ou de brutalidade desse ou daquele funcionário. Havia um sistema; esse era o modo de articulação entre índios e brancos.
 
Em 1978, os Araweté se mudaram, juntamente com o Posto da Funai, para um sítio mais próximo da foz do Ipixuna, onde residiram até 2001. Nos primeiros anos, viver com os brancos não era muito fácil. A interação entre índios e funcionários da Funai se fundava em uma série de mal-entendidos culturais, em expectativas estereotipadas e em demandas contraditórias. Era muito comum a emissão professoral de juízos sobre o 'caráter' típico dos Araweté: que eram preguiçosos, que passavam fome por descuido e imprevidência (e no entanto a população era visivelmente bem nutrida), que não eram solidários entre si, que só falavam e pensavam em sexo (o que era sublinhado, na verdade, por ser um dos únicos assuntos em que a vida dos índios interessava os brancos); e assim por diante. Havia toda uma série de procedimentos de 'infantilização' dos índios, pequenos ritos de degradação, como os exames médicos em público, censuras sobre a 'pouca higiene' de certas práticas tradicionais, o costume de se lhes pôr apelidos pejorativos. Só ouvi serem elogiados pelo temperamento cordato, alegre e (deveras!) paciente. Mas na verdade tudo isso não era apenas (às vezes, de forma alguma) uma questão de 'má vontade' ou de brutalidade desse ou daquele funcionário. Havia um sistema; esse era o modo de articulação entre índios e brancos.
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Embora a maior parte do dinheiro tenha sido confiscada pelo Governo Collor em março daquele ano, os três meses em que ele esteve disponível foram suficientes para uma mudança radical nas condições do sistema Posto/aldeia. Por um lado, várias melhorias importantes foram feitas no equipamento do Posto Indígena: nova enfermaria, motores para transporte e geração de energia, a aquisição de um barco com alta capacidade de carga, ferramentas etc. Por outro lado, os Araweté passaram a ter um acesso bastante amplo a uma quantidade de mercadorias que antes eram de obtenção difícil, demorada e limitada. Proliferaram as espingardas, panelas, machados, lanternas, pilhas, roupas, tabaco…
 
Embora a maior parte do dinheiro tenha sido confiscada pelo Governo Collor em março daquele ano, os três meses em que ele esteve disponível foram suficientes para uma mudança radical nas condições do sistema Posto/aldeia. Por um lado, várias melhorias importantes foram feitas no equipamento do Posto Indígena: nova enfermaria, motores para transporte e geração de energia, a aquisição de um barco com alta capacidade de carga, ferramentas etc. Por outro lado, os Araweté passaram a ter um acesso bastante amplo a uma quantidade de mercadorias que antes eram de obtenção difícil, demorada e limitada. Proliferaram as espingardas, panelas, machados, lanternas, pilhas, roupas, tabaco…
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{{#miniatura: left |Chefe do Posto Indígena Ipixuna (Eliezer G. da Silva) distribuindo bens encomendados pelos índios, comprados em Altamira com o dinheiro resultante da venda à FUNAI de seu artesanato. Foto: Eduardo Viveiros de Castro, 1982.|http://img.socioambiental.org/d/209400-1/arawete_11.jpg}}
 
{{#miniatura: left |Chefe do Posto Indígena Ipixuna (Eliezer G. da Silva) distribuindo bens encomendados pelos índios, comprados em Altamira com o dinheiro resultante da venda à FUNAI de seu artesanato. Foto: Eduardo Viveiros de Castro, 1982.|http://img.socioambiental.org/d/209400-1/arawete_11.jpg}}
 
  
 
A partir de meados de 1989, a situação começou a piorar, com o confisco da caderneta de poupança 'dos Araweté'. Nessa época, um médico italiano, Aldo Lo Curto, encantou-se pelo grupo e passou a investir na área alguns dos recursos que levanta em seu país de origem, por meio de palestras e exposições sobre os índios brasileiros. Isso permitiu a contratação de uma enfermeira e de uma professora, e a compra de alguns equipamentos para o posto. Mas a manutenção da pauta de consumo do grupo, elevada após a entrada do dinheiro da madeira, permaneceu um problema. Com a aguda recessão do período Collor, e especialmente com o desmonte da máquina administrativa federal, a Funai mergulhou em uma situação de insolvência. Com isso, os Araweté ficaram reduzidos à ajuda de Lo Curto e a arranjos de emergência entre a chefia do PI Ipixuna e a Funai de Altamira. Começaram a faltar alguns itens essenciais, como remédios, combustível e munição. Essa foi a situação que encontramos em 1991, quando visitei o Ipixuna, junto com a equipe do Cedi.
 
A partir de meados de 1989, a situação começou a piorar, com o confisco da caderneta de poupança 'dos Araweté'. Nessa época, um médico italiano, Aldo Lo Curto, encantou-se pelo grupo e passou a investir na área alguns dos recursos que levanta em seu país de origem, por meio de palestras e exposições sobre os índios brasileiros. Isso permitiu a contratação de uma enfermeira e de uma professora, e a compra de alguns equipamentos para o posto. Mas a manutenção da pauta de consumo do grupo, elevada após a entrada do dinheiro da madeira, permaneceu um problema. Com a aguda recessão do período Collor, e especialmente com o desmonte da máquina administrativa federal, a Funai mergulhou em uma situação de insolvência. Com isso, os Araweté ficaram reduzidos à ajuda de Lo Curto e a arranjos de emergência entre a chefia do PI Ipixuna e a Funai de Altamira. Começaram a faltar alguns itens essenciais, como remédios, combustível e munição. Essa foi a situação que encontramos em 1991, quando visitei o Ipixuna, junto com a equipe do Cedi.
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Em fevereiro de 1988, Iwarawï foi levado a Altamira para se tratar de uma grave pneumonia que havia contraído logo após o contato. As duas mulheres, suas filhas, casaram-se na aldeia: Mitãñã-kãñî-hi e seu filho foram viver com um viúvo; Pïdî-hi, respectivamente mulher e mãe do homem e do menino mortos pelos Xikrin, casou-se com um primo solteiro. Embora cercados por seus parentes próximos da aldeia, esses sobreviventes custaram a se acostumar à nova situação. Os outros Araweté os achavam estranhos: falavam com um sotaque e