De Povos Indígenas no Brasil
Foto: Ana Crita de Oliveira, 1974

Mudanças entre as edições de "Povo:Ye'kwana"

Autodenominação
Soto
Onde estão Quantos são
RR 681 (Siasi/Sesai, 2020)
Venezuela 7997 (INE, 2011)
Família linguística
Karib
(Pequeno acréscimo de texto que Majoi enviou →‎Notas sobre as fontes)
 
(8 revisões intermediárias pelo mesmo usuário não estão sendo mostradas)
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== Centralidade das roças ==
 
== Centralidade das roças ==
 
A mandioca-brava é, sem dúvida, um dos elementos centrais na dieta alimentar dos Ye’kwana, assim como de outros povos. O cultivo da mandioca-brava é uma prática envolve a produção do alimento verdadeiramente saudável e também diz respeito a um modo de viver muito antigo extremamente valorizado pelos Ye’kwana.
 
A mandioca-brava é, sem dúvida, um dos elementos centrais na dieta alimentar dos Ye’kwana, assim como de outros povos. O cultivo da mandioca-brava é uma prática envolve a produção do alimento verdadeiramente saudável e também diz respeito a um modo de viver muito antigo extremamente valorizado pelos Ye’kwana.
 
Todos os tipos de mandioca-brava hoje produzidos nas roças ye’kwana têm sua origem em uma única maniva, roubada de uma roça celeste e plantada na terra. Primeiro, foi plantada fora do território ye’kwana, onde hoje é o Monte Roraima (''Dodoimä’jödö''), e depois foi transplantada no alto rio Orinoco, onde hoje se encontra a Serra Marawaka (''Madaawaka’jödö''). Ambas as serras são tepuis, um tipo de formação rochosa que tem o formato de uma mesa, com paredes íngremes e o topo plano, e são o que sobrou das árvores gigantescas repletas de frutos que existiram no início dos tempos e que foram cortadas pelos antigos.
 
  
 
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Todos os tipos de mandioca-brava hoje produzidos nas roças ye’kwana têm sua origem em uma única maniva, roubada de uma roça celeste e plantada na terra. Primeiro, foi plantada fora do território ye’kwana, onde hoje é o Monte Roraima (''Dodoimä’jödö''), e depois foi transplantada no alto rio Orinoco, onde hoje se encontra a Serra Marawaka (''Madaawaka’jödö''). Ambas as serras são tepuis, um tipo de formação rochosa que tem o formato de uma mesa, com paredes íngremes e o topo plano, e são o que sobrou das árvores gigantescas repletas de frutos que existiram no início dos tempos e que foram cortadas pelos antigos.
  
 
A mandioca-brava é uma planta de origem celeste e foi trazida por uma pessoa que vivia na terra no tempo em que todos se alimentavam com argila. O nome utilizado nos cantos rituais para denominar essa “maniva primordial” é ''ädeeja''.  
 
A mandioca-brava é uma planta de origem celeste e foi trazida por uma pessoa que vivia na terra no tempo em que todos se alimentavam com argila. O nome utilizado nos cantos rituais para denominar essa “maniva primordial” é ''ädeeja''.  
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A história narra a saga de ''Wayaama'', um ''Kuichui'' (jupará), que foi para o céu em busca da maniva. Subiu nas árvores mais altas que havia em busca de um caminho até a roça de ''Udeenadiwa'' no céu. O jupará roubou um pedaço da mandioca-brava e escondeu-o em sua unha e depois de muito ser perseguido (inclusive morto), voltou à terra para plantar o primeiro pé, onde hoje é o Monte Roraima. A ''ädeeja'' cresceu rapidamente e se transformou em uma árvore enorme cheia de frutos. Por ficar longe demais de onde viviam as pessoas, a árvore foi derrubada e uma nova muda foi levada à região de ''Yujudunnha'', próxima de suas casas. A primeira tentativa foi frustrada, pois a planta foi estragada por inimigos e não cresceu. Uma nova tentativa aconteceu. As pessoas responsáveis pelo transporte da planta andaram por caminhos protegidos para não atrair a atenção dos inimigos que queriam roubar a ''ädeeja'' ou estragá-la.  
 
A história narra a saga de ''Wayaama'', um ''Kuichui'' (jupará), que foi para o céu em busca da maniva. Subiu nas árvores mais altas que havia em busca de um caminho até a roça de ''Udeenadiwa'' no céu. O jupará roubou um pedaço da mandioca-brava e escondeu-o em sua unha e depois de muito ser perseguido (inclusive morto), voltou à terra para plantar o primeiro pé, onde hoje é o Monte Roraima. A ''ädeeja'' cresceu rapidamente e se transformou em uma árvore enorme cheia de frutos. Por ficar longe demais de onde viviam as pessoas, a árvore foi derrubada e uma nova muda foi levada à região de ''Yujudunnha'', próxima de suas casas. A primeira tentativa foi frustrada, pois a planta foi estragada por inimigos e não cresceu. Uma nova tentativa aconteceu. As pessoas responsáveis pelo transporte da planta andaram por caminhos protegidos para não atrair a atenção dos inimigos que queriam roubar a ''ädeeja'' ou estragá-la.  
  
Na segunda tentativa, na região do alto Orinoco, a planta vingou e de um dia para outro a maniva se transformou em uma árvore gigantesca, cuja abundância de frutos alimentou muita gente. Mas a árvore era grande demais e por isso quando os frutos maduros caiam acabavam matando as pessoas que estavam ali embaixo. Decidiram derrubar a árvore ''Madaawaka'' e distribuir os talos de mandioca entre todas as pessoas que ajudaram a tombá-la. As mudas tiradas de ''Madaawaka'' deram origem a todas as plantas cultivadas nas roças dos Ye’kwana e de outros povos, não só à mandioca-brava, mas também ao milho, à batata doce, ao inhame, ao cará, à abóbora, à banana, à cana de açúcar, ao cubiu, à cabaça etc.
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|Roça nova com plantação de cubiu. Fuduuwaadunnha. TI Yanomami, Roraima. Majoí Gongora, 2013.
 
|Roça nova com plantação de cubiu. Fuduuwaadunnha. TI Yanomami, Roraima. Majoí Gongora, 2013.
 
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Na segunda tentativa, na região do alto Orinoco, a planta vingou e de um dia para outro a maniva se transformou em uma árvore gigantesca, cuja abundância de frutos alimentou muita gente. Mas a árvore era grande demais e por isso quando os frutos maduros caiam acabavam matando as pessoas que estavam ali embaixo. Decidiram derrubar a árvore ''Madaawaka'' e distribuir os talos de mandioca entre todas as pessoas que ajudaram a tombá-la. As mudas tiradas de ''Madaawaka'' deram origem a todas as plantas cultivadas nas roças dos Ye’kwana e de outros povos, não só à mandioca-brava, mas também ao milho, à batata doce, ao inhame, ao cará, à abóbora, à banana, à cana de açúcar, ao cubiu, à cabaça etc.
  
 
Após esse grande acontecimento, inúmeras transformações se deram, como a diferenciação entre línguas faladas pelas pessoas e a diferenciação entre povos – e cada um agora tinha a sua própria roça. Depois da derrubada de ''Madaawaka'', todos participaram da primeira grande festa que existiu na terra chamada ''äddwaajä edeemi’jhödö''. É essa cerimônia que os Ye’kwana realizam assim que terminam de derrubar as últimas árvores de suas roças novas.  
 
Após esse grande acontecimento, inúmeras transformações se deram, como a diferenciação entre línguas faladas pelas pessoas e a diferenciação entre povos – e cada um agora tinha a sua própria roça. Depois da derrubada de ''Madaawaka'', todos participaram da primeira grande festa que existiu na terra chamada ''äddwaajä edeemi’jhödö''. É essa cerimônia que os Ye’kwana realizam assim que terminam de derrubar as últimas árvores de suas roças novas.  
 
É importante destacar que apesar da mandioca-brava ter sido plantada na terra, as pessoas daquele tempo não sabiam prepará-la, isto é, extrair o seu veneno (''eke'') e fazer o beiju. De acordo com os dados de Guss (1989), foi ''Edodicha'', um poderoso pajé, que trouxe de um plano celeste, os materiais e os conhecimentos relativos à fabricação dos objetos usados para preparar a mandioca-brava: o ralo (''tadaddwe''), tipiti (''tönköi''), o cesto onde se apóia a massa (''waja tönköijhato''), a peneira (''manaade''), a chapa onde se assa o beiju (''fötadi''), o abano para o fogo (''wadiwadi''), cestos carqueiros feminino e masculino (''wöwa'' e ''tudui''), entre outros.
 
  
 
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É importante destacar que apesar da mandioca-brava ter sido plantada na terra, as pessoas daquele tempo não sabiam prepará-la, isto é, extrair o seu veneno (''eke'') e fazer o beiju. De acordo com os dados de Guss (1989), foi ''Edodicha'', um poderoso pajé, que trouxe de um plano celeste, os materiais e os conhecimentos relativos à fabricação dos objetos usados para preparar a mandioca-brava: o ralo (''tadaddwe''), tipiti (''tönköi''), o cesto onde se apóia a massa (''waja tönköijhato''), a peneira (''manaade''), a chapa onde se assa o beiju (''fötadi''), o abano para o fogo (''wadiwadi''), cestos cargueiros feminino e masculino (''wöwa'' e ''tudui''), entre outros.
  
 
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== Artes ==
 
== Artes ==
Entre os Ye’kwana, não faz sentido falar das artes como algo separado de outros domínios da vida. Assim como outras habilidades, a capacidade de fabricar artefatos, por exemplo, é expressão de uma pessoa que é sábia, ''tawaanojo’nato''. Essa sabedoria encontrada na arte de fazer com perfeição objetos importantes para o seu modo de vida encontra a sua base nas histórias antigas (''wätunnä''), nos cantos e nos conhecimentos rituais necessários para se viver bem.
 
 
 
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|Puçá (''faaji'') sendo tecido. Fuduuwaadunnha. TI Yanomami, Roraima. José Cury, 2017.
 
|Puçá (''faaji'') sendo tecido. Fuduuwaadunnha. TI Yanomami, Roraima. José Cury, 2017.
 
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Entre os Ye’kwana, não faz sentido falar das artes como algo separado de outros domínios da vida. Assim como outras habilidades, a capacidade de fabricar artefatos, por exemplo, é expressão de uma pessoa que é sábia, ''tawaanojo’nato''. Essa sabedoria encontrada na arte de fazer com perfeição objetos importantes para o seu modo de vida encontra a sua base nas histórias antigas (''wätunnä''), nos cantos e nos conhecimentos rituais necessários para se viver bem.
  
 
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Os jovens têm aprendido a fazer, principalmente, os objetos trançados e as pinturas corporais. Muitos começaram a inventar padrões de desenhos diferentes dos tradicionais, trazendo inovações.
 
Os jovens têm aprendido a fazer, principalmente, os objetos trançados e as pinturas corporais. Muitos começaram a inventar padrões de desenhos diferentes dos tradicionais, trazendo inovações.
  
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|Jovem se adorna antes da festa. Fuduuwaadunnha. TI Yanomami, Roraima. José Cury/ Museu do Índio-FUNAI / Povo Ye’kwana, 2018.
 
|Jovem se adorna antes da festa. Fuduuwaadunnha. TI Yanomami, Roraima. José Cury/ Museu do Índio-FUNAI / Povo Ye’kwana, 2018.
 
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Os donos das histórias contam que a maior parte das cestarias feitas pelos Ye’kwana foi criada para permitir o processamento da mandioca-brava, tornando-a própria ao consumo humano. Antigamente, havia uma roça grande chamada ''Faduuwaka'' e nela foram plantados todos os tipos de mandioca. Quando chegou a época da colheita, os Ye’kwana não tinham onde carregar. Buscaram arumã e cipó e fizeram cestas para os homens (''tudui'') e para as mulheres (''wöwa''). Também fizeram peneira, tipiti, balaio, abano para virar beiju etc. As cestas ''wöwa'' e ''tudui'', hoje em dia, são usadas em diversas situações: quando saem para caçar; vão fazer viagem longa; ou para carregar outras coisas no dia a dia.
 
Os donos das histórias contam que a maior parte das cestarias feitas pelos Ye’kwana foi criada para permitir o processamento da mandioca-brava, tornando-a própria ao consumo humano. Antigamente, havia uma roça grande chamada ''Faduuwaka'' e nela foram plantados todos os tipos de mandioca. Quando chegou a época da colheita, os Ye’kwana não tinham onde carregar. Buscaram arumã e cipó e fizeram cestas para os homens (''tudui'') e para as mulheres (''wöwa''). Também fizeram peneira, tipiti, balaio, abano para virar beiju etc. As cestas ''wöwa'' e ''tudui'', hoje em dia, são usadas em diversas situações: quando saem para caçar; vão fazer viagem longa; ou para carregar outras coisas no dia a dia.
  
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|As mulheres fazem os cestos wöwa e os homens fazem os balaios ''waja'' e seus cestos carqueiros ''tudui''. Fuduuwaadunnha. TI Yanomami, Roraima. José Cury, 2019.
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|As mulheres fazem os cestos wöwa e os homens fazem os balaios ''waja'' e seus cestos cargueiros ''tudui''. Fuduuwaadunnha. TI Yanomami, Roraima. José Cury, 2019.
 
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A maior parte dos adornos corporais é feita com miçangas. Há uma relação muito antiga e forte dos Ye’kwana com as miçangas. Miçanga em Ye’kwana é ''mayuudu''. A importância desse elemento na cultura ye’kwana é tal que cada ciclo de vida é festejado com um novo conjunto de miçangas.  
 
A maior parte dos adornos corporais é feita com miçangas. Há uma relação muito antiga e forte dos Ye’kwana com as miçangas. Miçanga em Ye’kwana é ''mayuudu''. A importância desse elemento na cultura ye’kwana é tal que cada ciclo de vida é festejado com um novo conjunto de miçangas.  
  
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|Detalhe da pintura facial, dos brincos e colares de miçanga que adornam as pessoas. Fuduuwaadunnha. TI Yanomami, Roraima. José Cury/ Museu do Índio-FUNAI / Povo Ye’kwana, 2018.
 
|Detalhe da pintura facial, dos brincos e colares de miçanga que adornam as pessoas. Fuduuwaadunnha. TI Yanomami, Roraima. José Cury/ Museu do Índio-FUNAI / Povo Ye’kwana, 2018.
 
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Linha 609: Linha 609:
 
Alguns adornos são usados para o embelezamento dos homens como o colar de dentes de porco do mato e o cocar com as penas de algumas aves como arara e papagaio. Ao mesmo tempo, quando homens e mulheres usam todos os adornos, colocam sobre a pintura corporal penugens de gavião, que ficam coladas ao corpo. Usam enfeites durante as festas tradicionais ou quando estão fazendo trabalhos coletivos como a derrubada das roças e a construção de casas.  
 
Alguns adornos são usados para o embelezamento dos homens como o colar de dentes de porco do mato e o cocar com as penas de algumas aves como arara e papagaio. Ao mesmo tempo, quando homens e mulheres usam todos os adornos, colocam sobre a pintura corporal penugens de gavião, que ficam coladas ao corpo. Usam enfeites durante as festas tradicionais ou quando estão fazendo trabalhos coletivos como a derrubada das roças e a construção de casas.  
  
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|Colar de dentes porco do mato usado pelas lideranças masculinas. Fuduuwaadunnha. TI Yanomami, Roraima. Majoí Gongora, 2013.
 
|Colar de dentes porco do mato usado pelas lideranças masculinas. Fuduuwaadunnha. TI Yanomami, Roraima. Majoí Gongora, 2013.
 
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/3/9/2/5_dac62b8d07cf7a5/73925scr_7213f9e5a25a57b.jpg?v=2021-02-17+12%3A15%3A03
 
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Linha 627: Linha 627:
 
Para os Ye’kwana, existem duas cores que são usadas nas pinturas dos objetos e dos corpos: a preta e a vermelha. Existem três formas de pintar o corpo: com o dedo, com uma tala fina e com o carimbo ''akaajä''. Geralmente, as crianças, as meninas-moças e as mulheres em resguardo podem ser pintadas com o dedo.  
 
Para os Ye’kwana, existem duas cores que são usadas nas pinturas dos objetos e dos corpos: a preta e a vermelha. Existem três formas de pintar o corpo: com o dedo, com uma tala fina e com o carimbo ''akaajä''. Geralmente, as crianças, as meninas-moças e as mulheres em resguardo podem ser pintadas com o dedo.  
 
    
 
    
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|Carimbos (''akaajä'') usados na pintura facial e corporal. Fuduuwaadunnha. TI Yanomami, Roraima. José Cury/ Museu do Índio-FUNAI / Povo Ye’kwana, 2018.
 
|Carimbos (''akaajä'') usados na pintura facial e corporal. Fuduuwaadunnha. TI Yanomami, Roraima. José Cury/ Museu do Índio-FUNAI / Povo Ye’kwana, 2018.
 
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Além disso, a criação da associação foi pensada como uma forma de organizar a luta contra as ameaças a seus territórios, especialmente, o garimpo de ouro que existe há décadas na TI Yanomami. A presença de garimpeiros ilegais na região do Rio Uraricoera é antiga e ainda é uma das principais ameaças enfrentadas hoje pelos povos Ye’kwana e Yanomami. A comunidade Wachannha, situada na margem esquerda desse rio, é uma das mais afetadas pelo garimpo e pela contaminação decorrente desta atividade predatória.
 
Além disso, a criação da associação foi pensada como uma forma de organizar a luta contra as ameaças a seus territórios, especialmente, o garimpo de ouro que existe há décadas na TI Yanomami. A presença de garimpeiros ilegais na região do Rio Uraricoera é antiga e ainda é uma das principais ameaças enfrentadas hoje pelos povos Ye’kwana e Yanomami. A comunidade Wachannha, situada na margem esquerda desse rio, é uma das mais afetadas pelo garimpo e pela contaminação decorrente desta atividade predatória.
  
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|“Tatuzão do Mutum”, área de garimpo próxima à comunidade Waichannha. TI Yanomami, Roraima. Marília Garcia Senlle/ISA, 2019.
 
|“Tatuzão do Mutum”, área de garimpo próxima à comunidade Waichannha. TI Yanomami, Roraima. Marília Garcia Senlle/ISA, 2019.
 
|https://galeria.socioambiental.org/filestore/7/5/5/2/3_cc81fcefc809bdc/75523scr_44d4991f8d20104.jpg?v=2021-03-18+16%3A17%3A48
 
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Linha 673: Linha 673:
 
Além de participar do movimento indígena em Roraima, a SEDUUME é parceira das organizações indígenas que representam os diferentes grupos yanomami, pois há um interesse comum na construção a governança interna da TI Yanomami. Desde 2015, as associações indígenas que atuam nessa TI têm se reunido em importantes encontros como o Encontro Binacional Yanomami Ye’kwana, as oficinas para a elaboração do [https://www.socioambiental.org/sites/blog.socioambiental.org/files/arquivos/yal00051_2.pdf#overlay-context=pt-br/o-isa/projetos-estrategicos/gestao-das-terras-indigenas-das-bacias-do-rio-negro-e-xingu Plano de Gestão Territorial e Ambiental da Terra Indígena Yanomami (PGTA-TIY)] e o [https://rca.org.br/wp-content/uploads/2019/09/PROTOCOLO-Yanomami-capa-e-MIOLO-final-min.pdf Protocolo de Consulta], finalizados em 2019. O [https://www.youtube.com/watch?v=GS2vSMddgwo Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana] é expressão dessa união em prol da luta pela integridade da TI Yanomami.
 
Além de participar do movimento indígena em Roraima, a SEDUUME é parceira das organizações indígenas que representam os diferentes grupos yanomami, pois há um interesse comum na construção a governança interna da TI Yanomami. Desde 2015, as associações indígenas que atuam nessa TI têm se reunido em importantes encontros como o Encontro Binacional Yanomami Ye’kwana, as oficinas para a elaboração do [https://www.socioambiental.org/sites/blog.socioambiental.org/files/arquivos/yal00051_2.pdf#overlay-context=pt-br/o-isa/projetos-estrategicos/gestao-das-terras-indigenas-das-bacias-do-rio-negro-e-xingu Plano de Gestão Territorial e Ambiental da Terra Indígena Yanomami (PGTA-TIY)] e o [https://rca.org.br/wp-content/uploads/2019/09/PROTOCOLO-Yanomami-capa-e-MIOLO-final-min.pdf Protocolo de Consulta], finalizados em 2019. O [https://www.youtube.com/watch?v=GS2vSMddgwo Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana] é expressão dessa união em prol da luta pela integridade da TI Yanomami.
  
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|Ao fundo, as lideranças Maurício Ye’kwana, Julio Ye’kwana, presidente da SEDUUME, e Davi Kopenawa durante o primeiro Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana. Terra Indígena Yanomami. Foto: Victor Moriyama/ISA, 2019.
 
|Ao fundo, as lideranças Maurício Ye’kwana, Julio Ye’kwana, presidente da SEDUUME, e Davi Kopenawa durante o primeiro Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana. Terra Indígena Yanomami. Foto: Victor Moriyama/ISA, 2019.
 
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|https://galeria.socioambiental.org/filestore/4/8/9/0/8_18a3cf3346dd6ab/48908scr_4e90fbfac45ac52.jpg?v=2019-12-02+16%3A46%3A02
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Em julho de 2018, em Waichannha, a SEDUUME promoveu uma oficina, com apoio do ISA e parceria do Instituto ATÁ, para que o chocolatier César de Mendes mostrasse aos indígenas de diferentes comunidades da região as técnicas de colheita e processamento dos frutos do cacau para produção da matéria-prima para chocolates finos. Naquela ocasião, foi produzida a primeira barra de chocolate da história da Terra Indígena Yanomami. Em 2019, o primeiro lote do Chocolate Yanomami, produzido com cacau nativo beneficiado na comunidade Waichannha e transformado em 1.000 barras de 50g por Mendes, foi apresentado ao público em São Paulo.
 
Em julho de 2018, em Waichannha, a SEDUUME promoveu uma oficina, com apoio do ISA e parceria do Instituto ATÁ, para que o chocolatier César de Mendes mostrasse aos indígenas de diferentes comunidades da região as técnicas de colheita e processamento dos frutos do cacau para produção da matéria-prima para chocolates finos. Naquela ocasião, foi produzida a primeira barra de chocolate da história da Terra Indígena Yanomami. Em 2019, o primeiro lote do Chocolate Yanomami, produzido com cacau nativo beneficiado na comunidade Waichannha e transformado em 1.000 barras de 50g por Mendes, foi apresentado ao público em São Paulo.
  
Entre 2017 e 2020, a SEDUUME esteve engajada na realização de uma parceria com o Museu do Índio/Funai, no âmbito do Programa de Documentação de Culturas e Línguas Indígenas. Fruto de uma colaboração entre pesquisadores não-indígenas, pesquisadores ye’kwana e a associação, o projeto '''''Aaseesewaadi: documentação de cantos do povo Ye’kwana''''' teve como objetivo principal documentar cantos tradicionais do povo Ye'kwana, um dos pilares de seu modo de vida.
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Entre 2017 e 2020, a SEDUUME esteve engajada na realização de uma parceria com o Museu do Índio/Funai, no âmbito do Programa de Documentação de Culturas e Línguas Indígenas. Fruto de uma colaboração entre pesquisadores não-indígenas, pesquisadores ye’kwana e a associação, o projeto ''Aaseesewaadi: documentação de cantos do povo Ye’kwana'' teve como objetivo principal documentar cantos tradicionais do povo Ye'kwana, um dos pilares de seu modo de vida.
  
 
== Situação socioambiental de Auaris ==
 
== Situação socioambiental de Auaris ==
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Em Fuduuwaadunnha, mesmo com o enfraquecimento dos solos, as mais de 60 roças existentes hoje continuam produzindo muito alimento. Nelas, são cultivadas mais de 50 variedades tradicionais que são a principal fonte de alimento dos moradores e também um importante complemento para quem se encontra na cidade. As mulheres ye’kwana procuram sempre que podem enviar nos voos de rotina da Sesai sacos de beiju, farinha de mandioca etc. para seus parentes que estão em Boa Vista. Para os Ye’kwana, uma boa refeição deve ser sempre acompanhada de beiju e chibé.
 
Em Fuduuwaadunnha, mesmo com o enfraquecimento dos solos, as mais de 60 roças existentes hoje continuam produzindo muito alimento. Nelas, são cultivadas mais de 50 variedades tradicionais que são a principal fonte de alimento dos moradores e também um importante complemento para quem se encontra na cidade. As mulheres ye’kwana procuram sempre que podem enviar nos voos de rotina da Sesai sacos de beiju, farinha de mandioca etc. para seus parentes que estão em Boa Vista. Para os Ye’kwana, uma boa refeição deve ser sempre acompanhada de beiju e chibé.
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== Notas sobre as fontes ==
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Existe uma vasta literatura etnológica sobre os Ye'kwana. Os principais estudos realizados no século 20 sobre esse povo são: Barandiarán, Coppen, Arvelo-Jiménez, Civrieux e Guss. Entre os estudos mais recentes sobre os Ye’kwana na Venezuela, destacam-se as teses de doutorado de Monterrey-Silva (2007) e Lauer (2005). É importante observar que há uma vasta documentação etnográfica sobre os Ye’kwana encontrada em relatos (e nos acervos) das expedições realizadas por viajantes europeus como Schomburgk, Chaffanjon, Koch-Grünberg, Gheerbrant e Grelier.
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Até o final dos anos 1990 nenhum estudo etnográfico havia sido feito entre os Ye’kwana no Brasil. Desde então, três teses de doutorado foram produzidas por antropólogas cujas pesquisas foram realizadas em Fuduuwaadunnha, comunidade mais populosa situada às margens do igarapé Fuduuwaadu, na região do alto Auaris (Andrade, 2007; Moreira, 2012 e Gongora, 2017). Há também as dissertações de mestrado de Diniz (2006) sobre a mitologia ye’kwana e de Ferreira (2015) sobre a cestaria e a estética ye'kwana e Cury (2019) sobre os cuidados com as imagens e sua repercussão na produção fílmica entre os Ye'kwana. Antes desses estudos, Alcida Ramos (1980, 1990, 1991 e 1996) era a referência principal, pois trabalhou na região de Auaris com os Sanöma, um grupo yanomami, e publicou diversos estudos sobre a dinâmica relacional Sanöma/Ye’kwana.
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Os trabalhos de Karenina Andrade, Elaine Moreira e Majoí Gongora abarcam vários temas, a saber: as redes comerciais nas quais os Ye'kwana estão inseridos; trajetórias ye’kwana no processo de escolarização e questões relacionadas às profissões que surgiram a partir da implementação de políticas públicas na Terra Indígena Yanomami; as histórias das origens (''wätunnä''); o xamanismo; a chefia; os cantos ''acchudi'' e ''ädeemi''; cadernos de canto; noção de pessoa (duplos); regimes de circulação e transmissão dos cantos; as relações com grupos missionários e questões ligadas à recusa de conversão; a intensificação das relações com os não indígenas e diagnósticos nativos sobre o enfraquecimento da pessoa e da ‘cultura ye’kwana’; escatologia e cosmologia etc.
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É importante destacar, ainda, a produção acadêmica realizada por pesquisadores ye’kwana que se formaram no âmbito dos cursos oferecidos aos povos indígenas pelo Instituto Insikiran– UFRR (Rocha, Raul 2008; Rocha, Reinaldo 2008; Gimenes, M. 2009; Gimenes, H. 2009; Rodrigues, 2014; Silva, C. 2014) e no âmbito de programas de graduação (Velázquez, 2015) e em programas de pós graduação que contam com ações afirmativas. Castro Costa da Silva (2017) e Osmar Carlos da Silva (2017) foram primeiros Ye’kwana a obter o título de mestre, o primeiro em geografia pela Universidade Federal de Roraima (UFRR) e o segundo, em antropologia pelo Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro.
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Os estudos sobre a língua Ye’kwana ganharam um impulso com a publicação de ''Grammaire Fonctionnelle-Typologique du Ye'kwana'' de Cáceres (2011), principal referência sobre a língua. No Brasil, há a pesquisa de Costa (2013 e 2018) junto aos Ye’kwana de Auaris sobre a categoria gramatical de número e quantificação.
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Com relação aos cantos ''acchudi'' e ''ädeemi'', a questão da sua centralidade na vida dos Ye’kwana já aparece nos trabalhos pioneiros de Barandiarán, Arvelo-Jiménez, Civrieux e Guss. Nestes estudos, considerados ‘clássicos’ da literatura sobre os Ye’kwana, há referências sobre os cantos como saberes altamente valorizados e sobre o fato de o domínio de seus repertórios ser uma qualidade de poucas pessoas, conhecidas como ‘donos de canto’ (''achudi edhaamo ''ou ''ädeemi edhaamo'').
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Arvelo-Jiménez, autora da primeira etnografia sobre os Ye’kwana, ressalta que a vida de uma comunidade ye’kwana é permeada por rituais que se constituem como um espaço privilegiado de comunicação com entes invisíveis e também como uma técnica de controle de forças perigosas oriundas de diferentes domínios cósmicos. E os rituais dependem basicamente da execução de cantos, pois são eles que ''agem'' sobre o mundo, transformando. É através dos cantos que a agência agressiva de subjetividades não humanas é controlada, apaziguada e/ou afugentada e os xamãs - o ''föwai'' (xamã/pajé) e o ''acchudi edhaajä'' ou ''ädeemi edhaajä'' (dono de canto’ - desempenham um papel central.
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Há nos trabalhos de Barandiarán (1962b, 1979a), Arvelo-Jiménez (1971) e Guss (1989) uma percepção comum de que o ''föwai'' seria o “xamã clássico” e que o dono de canto se ocuparia de outras práticas rituais, não menos importantes, como as ações propiciatórias, terapêuticas, de desintoxicação e afugentamento. Guss (1989) descreve as ações levadas a cabo pelo pajé como um “sistema emergencial” e os rituais conduzidos pelos donos de canto como um “sistema de controle diário” que é acompanhado de outras ações protetivas como, por exemplo, o uso de pinturas corporais e a manipulação de plantas ''mada'' que protegem os humanos dos ataques dos ''odo’shankomo ''(noção que abarca uma infinidade de inimigos não humanos, subjetividades invisíveis de natureza predatória).
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David Guss (1989) é a principal referência para os estudos das formas de expressão ye’kwana (cantos e arte gráfica, particularmente) e a sua forte imbricação com as narrativas míticas desse povo (''wätunnä''). Foi a campo com intuito de estudar a mitologia, mas diante da complexidade do tema e do interesse dos homens em falar sobre cestaria e produzi-la, mudou o seu ponto de partida. Segundo o autor (1989), os grandes conhecedores das narrativas eram também aqueles que dominavam a arte de trançar, atividade realizada cotidianamente, especialmente durante as conversas dos homens. Guss ouviu inúmeras narrativas míticas enquanto aprendia a fazer trançados e a diferenciar seus padrões gráficos. A partir dessa imersão, foi tecendo relações entre essa arte e as ações por ela mobilizadas – evidentemente, os cantos também desempenham aí um papel central.
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Posteriormente, a maior parte dos estudos realizados trazia caracterizações gerais sobre os cantos ye’kwana baseadas nas primeiras etnografias sobre este povo, mas careciam de uma análise mais sistemática e aprofundada do tema. Só mais recentemente que estudos sobre os cantos ''acchudi'' e ''ädeemi'' ganharam um novo fôlego com as teses de doutorado de Moreira (2012) e de Gongora (2017) e a dissertação de mestrado de Osmar Carlos da Silva (2017).
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Moreira dedicou-se, entre outras coisas, ao estudo dos ''cadernos de canto'' (manuscritos das letras dos cantos) que começaram a ser usados pelos Ye’kwana há algumas décadas como suporte mnemotécnico e se difundiram entre os ''cantadores'' da região de Auaris e alhures. Moreira relaciona a questão do “enfraquecimento dos corpos” e a dificuldade de as pessoas aprenderem a cantar de cor. Os ''cadernos de canto'' emergem nesse contexto como uma alternativa para os ''cantadores'' e aprendizes executarem os cantos integralmente. A autora traz descrições etnográficas sobre importantes rituais ye’kwana e sobre as relações entre mestre e aprendiz no contexto de transmissão dos cantos ''acchudi'' e ''ädeemi, ''destacando-se aí a noção de ‘pagamento’ (''ejeemadö''). O ‘pagamento’ se dá através de miçangas (''mayuudu''), objetos que materializam o vínculo que existe entre o mestre e o aprendiz, ativando a potência agentiva dos cantos. Se o pagamento não for efetuado pelo aprendiz, o canto aprendido não terá eficácia durante o ritual.
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Gongora (2017), por sua vez, buscou compreender a centralidade dos cantos na vida ye’kwana. Sua tese combina a análise de cantos e seus contextos enunciativos com uma investigação detalhada da cosmologia e da noção de pessoa entre os Ye’kwana, aspectos pouco explorados na literatura sobre esse povo. Transcrições e traduções de cantos ''achudi'', narrativas míticas, exegeses e descrições etnográficas são os recursos usados pela autora para evidenciar o lugar de destaque que os cantos ocupam na ontologia nativa e analisar a noção de replicação, marcante na cosmopraxis ye’kwana. Gongora também descreve os regimes de circulação e transmissão dos cantos e os processos de transferências de substâncias, afecções, qualidades e cristais de canto que marcam a relação mestre-aprendiz e analisa noções importantes como ''widiiki'' (‘cristal’) e ''sejje'' (‘sabedoria’, ‘inteligência’). Também incorpora em sua reflexão os impasses contemporâneos relacionados à transmissão dos cantos às novas gerações, com ênfase nas percepções dos mais velhos.
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Osmar Carlos da Silva – o primeiro ye’kwana a se tornar antropólogo – em sua dissertação de mestrado (2017), defendida recentemente no Museu Nacional-UFRJ, aborda o rico universo dos cantos ''acchudi'' e ''ädeemi''. Dedica-se à transcrição, tradução e análise de três conjuntos de cantos que compõem o extenso repertório do canto ''ädeemi'' conhecido por ''mma edeemi’jödö,'' realizado na ocasião da construção e da inauguração de uma casa (''mma''). Além disso, apresenta importantes relatos de sábios ye’kwana sobre essas artes verbais e as histórias das origens (''wätunnä'') e traz depoimentos pessoais sobre a preocupação dos Ye’kwana com relação ao número reduzido de ‘donos de canto’ e ao desinteresse das novas gerações em aprender a cantar ''acchudi'' e ''ädeemi''. Silva (2017) afirma que a escolha de seu objeto de estudo deve-se ao pouco conhecimento que tinha sobre os cantos e a seu interesse em aprender a cantar ''ädeemi. ''O autor conta que “o tema foi escolhido para valorizar os cantos tradicionais para novas gerações, principalmente para aprendizagem de nossos filhos e filhas, de nossos netos e netas, que estão deixando o nosso conhecimento, os modos de ensinamento da cultura de seus antepassados”.
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== Fontes de informação ==
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*RODRIGUES, JÚLIO DAVID MAGALHÃES. 2014. Ye’kuana nödöjätöödö – Artesanato Ye’kuana. Boa Vista. Trabalho de conclusão do Curso de Gestão Territorial Indígena, Instituto Insikiran de Formação Superior Indígena – UFRR.
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*RONDON, Cândido Mariano da Silva. 1963. ''Índios do Brasil, Norte do Rio Amazonas'' (volume 3), Editora Ministério da Agricultura.
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*SCHOMBURGK, RICHARD. 1923. ''Travels in British Guiana. Daily Chronicle 1840-1844. ''Edit. Leipzig, Vol. 2, Georgetown.
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*SCHOMBURGK, ROBERT HERMANN. 1850. “A vocabulary of the Maiongkong language”. In: ''Proceedings of the Philological Society, ''London. pp. 217-223.
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*SILVA, CASTRO COSTA DA. 2014. Auaris e a Historia da ocupação: população, recursos naturais e território. Boa Vista. Trabalho de Conclusão do Curso de Gestão Territorial Indígena, Instituto Insikiran de Formação Superior Indígena - UFRR.
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*SILVA, CASTRO COSTA DA. 2017. ''Transformações socioespaciais das comunidades indígenas ye'kuana e sanumã na Região de Auaris - Roraima''. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós Graduação em Sociedade e Fronteira, Universidade Federal de Roraima UFRR, Boa Vista.
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*SILVA, OSMAR CARLOS. 2017. ''Cantos celestes: uma etnografia da tradição musical ye’kuana (Roraima, Brasil)''. Dissertação de Mestrado em Antropologia Social, Museu Nacional/UFRJ, Rio de Janeiro.
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*VELÁZQUEZ, ZULEIMA M. JIMÉNEZ. 2015. K''udadañano / La Esmeralda, municipio Alto Orinoco, estado Amazonas: de aldea ye'kuana a conglomerado multiétnico - una reconstrucción histórica''. Caracas, Universidad Central de Venezuela, Escuela de Antropología, Departamento de Etnología y Antropologia Social. (monografia de conclusão de curso)
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*WILBERT, JOHANNES. 1963. Los Makiritare. In Indios de la región Orinoco-Ventuari. Edited by J. Wilbert, pp. 161-76. Caracas: Fundación La Salle de Ciencias Naturales, Editorial Sucre.
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*WILBERT, JOHANNES. 1994. Yekuana. In South America. Edited by J. Wilbert, pp. 380-82. In ‘The Encyclopedia of World Cultures’, Vol. 7. Edited by D. Levinson (Series Ed.). Boston, Massachusetts: Hall.
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Edição atual tal como às 10h55min de 10 de maio de 2021

Exímios navegadores e agricultores, os Ye’kwana são um povo de língua karíb originário da região de cabeceiras dos rios Cunucunuma, Padamo, Cuntinamo, Metacuni, Ventuari e Auaris, situada em áreas transfronteiriças. Por serem grandes conhecedores da região, tornaram-se há séculos figuras importantes nas relações de troca que haviam entre diversos povos indígenas. A maior parte da população ye’kwana encontra-se na Venezuela e, no Brasil, mais de 750 pessoas vivem na Terra Indígena Yanomami, em três comunidades principais: Fuduuwaadunnha, Waichannha e Kudatannha. São muito habilidosos e perfeccionistas naquilo que fazem e essas qualidades se expressam em suas artes, como nos balaios compostos por belos motivos gráficos, nas tangas femininas feitas com miçanga ou nos carimbos de madeira usados para pintura corporal. É na arte de cantar e cuidar das pessoas, dos alimentos e dos objetos de uso diário que sábios e sábias ye’kwana dedicam a maior parte de suas vidas. Encontram nos conhecimentos e práticas ensinadas pelos ancestrais mais antigos bons caminhos para se viver.

Nomes

Saída para pescar. Região de Auaris, TI Yanomami, Roraima. Ana Gita de Oliveira, 1974.
Saída para pescar. Região de Auaris, TI Yanomami, Roraima. Ana Gita de Oliveira, 1974.

Os Ye’kwana ficaram conhecidos na literatura histórica e etnológica pelos etnônimos Maiongong (termo pemon) e Makiritare (palavra arawak). O etnônimo Ye’kwana e suas variantes De’kwana ou Dhe’kwana foram registrados pela primeira vez pelo viajante alemão Koch-Grünberg e é uma autodenominação nativa. No entanto, autodenominam-se soto cuja tradução é pessoa ou gente.

Soto é um termo comum e possui diferentes significados a depender dos contextos em que é empregado. Com frequência, os Ye’kwana usam essa palavra para se referir a si próprios enquanto um coletivo distinto dos demais e então quando dizem, por exemplo, soto a’deddu (língua dos humanos) estão se referindo somente ao seu idioma. Também empregam soto como designação genérica de “pessoa humana” e assim o termo pode incluir outros grupos indígenas e não indígenas. A palavra soto também pode ser empregada a certos seres invisíveis. Além disso, o termo se acompanhado dos sufixos -jönö e -je dá origem a sotojönö (não pessoa, não humano) e sotooje (com aspecto de humano).

Internamente, diferenciam-se de acordo com as regiões onde vivem: aqueles oriundos da região de cabeceiras Yujudunnha (território tradicional) são yujuduwana ou yujudunnhano e os que vivem rio abaixo, em locais desconhecidos ou distantes, são denominados anennhankomo. Há outro tipo de classificação que leva em conta a localização geográfica ou bacia hidrográfica do local de origem: quem é do rio Medeewadi (Caura) é denominado Medewaadinnhano; quem é do rio Yawadejudi (Auaris) é Yawaadejunnhano; do rio Entawaade (Ventuari) é Entawaadennhano etc.

Língua

A língua Ye'kwana pertencente à família linguística karíb. É a segunda maior família linguística da América do Sul no que diz respeito ao número de línguas existentes. De acordo com a classificação proposta por Gildea (2012), o Ye'kwana pertence ao ramo guianense junto com as línguas Kari’nja, Wayana e Taranoan (Tarano).

A gramática elaborada pela linguista Natalia Cáceres, Grammaire Fonctionnelle Typologique du Ye'kwana (2011) é a principal referência sobre a língua Ye’kwana.

A maior parte das línguas karíb encontra-se no norte do Brasil, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa e também há grupos falantes no oeste da Colômbia e no Brasil Central. De acordo com Gildea (2012), existem cerca de 25 línguas karíb e o número total de falantes gira em torno de 60 mil a 100 mil pessoas.

Menina ye’kwana, comunidade Waichannha (Waikás), TI Yanomami, Roraima. Rogério Assis/ISA, 2018.
Menina ye’kwana, comunidade Waichannha (Waikás), TI Yanomami, Roraima. Rogério Assis/ISA, 2018.

No Brasil, os Ye’kwana são majoritariamente monolíngues, especialmente, os mais velhos, as mulheres e as crianças. Em geral, os homens adultos e jovens entendem e falam bem Português, porém muitos ainda têm dificuldade de se comunicar na língua portuguesa. Alguns Ye’kwana conhecem a língua Sanöma, falada pelo grupo yanomami vizinho. Há pessoas que entendem e falam o Espanhol, dada a proximidade geográfica com a Venezuela e o fato de que a maior parte da população ye’kwana vive nesse país.

Localização e população

Vista aérea da comunidade Waichannha, região Waikás, rio Uraricoera. TI Yanomami, Roraima. Rogério Assis / ISA, 2018.
Vista aérea da comunidade Waichannha, região Waikás, rio Uraricoera. TI Yanomami, Roraima. Rogério Assis / ISA, 2018.

A área de ocupação tradicional do povo Ye’kwana é a região onde estão as cabeceiras dos rios Cunucunuma, Padamo, Cuntinamo, Metacuni, Ventuari e Auaris. Essa região é denominada de Yujudunnha (“área de cabeceira”). Há séculos, os Ye’kwana estão vivendo em uma região mais extensa, incluindo áreas ao longo dos rios Caura, Paragua, Orinoco e Uraricoera. Suas comunidades estão distribuídas entre os estados Amazonas e Bolívar, no sul da Venezuela, e no Brasil, estão localizadas na Terra Indígena Yanomami, no noroeste de Roraima.

A maior parte da população ye’kwana encontra-se na Venezuela. Em 2011, havia 7.997 pessoas (Instituto Nacional de Estadística), vivendo em mais de 60 aldeias. Já no Brasil, os Ye’kwana são cerca de 760 pessoas (Siasi/Sesai, 2019) vivendo em três aldeias principais: Fuduuwaadunnha e Kudaatannha, na região de Auaris, e Waichannha ou Waikás, às margens do rio Uraricoera.

Viagem no Rio Uraricoera, TI Yanomami, Roraima. Guilherme Gnipper Trevisan, 2014.
Viagem no Rio Uraricoera, TI Yanomami, Roraima. Guilherme Gnipper Trevisan, 2014.

No lado brasileiro, as aldeias situam-se em locais remotos e de difícil acesso em área grande extensão de floresta densa com relevo montanhoso. A região de Auaris abriga a maior parte da população ye’kwana no Brasil, cerca de 615 pessoas (Siasi/Sesai, 2019), e também é habitada pelos Sanöma (grupo yanomami) que se estabeleceram na região a partir do contato com missionários da Missão Evangélica da Amazônia (MEVA) nos anos 1960. Estes dois povos fazem parte de redes de relações interétnicas e intercomunitárias que ultrapassam os limites das fronteiras nacionais.

Yujudunnha, território tradicional

Os Ye’kwana vivem desde tempos imemoriais em Yujudunnha região de cabeceira dos rios Cunucunuma, Padamo, Cuntinamo, Ventuari, Metacuni, Caura e Auaris. São originários da cabeceira do rio Cuntinamo, na fronteira Brasil e Venezuela.

Yujudunnha é o centro dos conhecimentos e do modo de vida ye’kwana. É o coração do território ye’kwana, pois foi lá onde Wanaadi (demiurgo celeste) pisou pela primeira vez e onde começou a fazer o mundo e tudo que hoje existe. Os lugares e as paisagens dessa região são centrais para os Ye’kwana, pois, além de ser seu território, são também marcos ou testemunhos de suas histórias verdadeiras (wätunnä).

De acordo com essas histórias antigas, o primeiro ye’kwana chamava-se Yuduwaana e ao chegar do céu na região do Cuntinamo, mais precisamente, na Serra Ye’kwana. Essa primeira área de ocupação é denominada Kamasonnha e foi a partir daí que os Ye’kwana começaram a se expandir, povoando outras regiões.

Kuyuujaani, por Danilo da Silva Rocha, 2020.
Kuyuujaani, por Danilo da Silva Rocha, 2020.

Um dos personagens importantes das histórias wätunnä é Kuyuujaani, responsável pela demarcação do território tradicional. Toda a área demarcada por Kuyuujaani é Ye’kwana nonoodö, “território ye’kwana”. Wanaadi, o demiurgo, deu a Kuyuujaani a tarefa de delimitar os lugares onde os Ye’kwana iriam viver e criar suas comunidades.

No extenso território demarcado por Kuyuujaani, existem diferenciações internas como: antigas comunidades; lugares onde os ancestrais passaram; comunidades atuais; serras importantes; caminhos terrestres; áreas de roça; áreas de caçada coletiva; locais de pesca; rios; cachoeiras; os poços de água; lagos; as pedras etc. Quando sobrevoamos as comunidades, avistamos algumas casas. Pode parecer que não há nada além disso, mas existem diversas trilhas na floresta que formam verdadeiras veias embaixo das árvores.

Os territórios e seus donos

Para os Ye'kwana, o território não é de modo algum um espaço vazio a ser ocupado pelos humanos. Existem espíritos bons e ruins que ali vivem. As árvores, as frutas, os animais, as montanhas, as pedras, as cachoeiras, lagos e correntes de água têm seus donos (edhaamo). Quando vão derrubar uma área para fazer uma nova roça, os Ye’kwana pedem permissão ao dono das árvores e quando caçam os animais, também pedem autorização a seu dono.

Antes de criar novas aldeias, os Ye’kwana buscam o aval do föwai (pajé) ou acchudi edhaamo (sábios, donos de canto). Eles consultam os donos invisíveis dos lugares e somente após a autorização dos sábios os Ye’kwana começam a preparar o local da nova morada e vão escolher suas áreas de roça.

Em toda comunidade ye'kwana, há donos não humanos que habitam as serras, os poços de água, lugares proibidos e outros que vivem na floresta e são chamados de yoodadai e maawade - não têm morada fixa e vivem andando pelas matas. As almas dos moradores de uma determinada comunidade estão familiarizadas com os donos invisíveis daquele território e por isso os respeitam muito. Do contrário, a comunidade ou uma pessoa poderá sofrer ataques de espíritos ruins, situação que pode levar ao adoecimento e à morte.

Criança acompanha sua mãe no caminho da roça até a comunidade. Fuduuwaadunnha, TI Yanomami, Roraima. Majoí Gongora, 2018.
Criança acompanha sua mãe no caminho da roça até a comunidade. Fuduuwaadunnha, TI Yanomami, Roraima. Majoí Gongora, 2018.

Quando os Ye'kwana se afastam de seu lugar de origem, precisam tomar muito cuidado, pois espíritos ruins que vivem ali podem causar doenças, isto é, roubar as almas ou duplos (äkaato) das pessoas. Os Ye'kwana sabem que esses seres invisíveis podem prejudicar a sua vida e por isso utilizam plantas e cantos para sua proteção. Quando uma pessoa viaja pela primeira vez precisa se proteger bastante: não pode dar risadas quando um animal aparecer e a cada boca de rio ou grande cachoeira, precisa pingar nos olhos o líquido de wananha (gengibre).

Outros elementos e atividades também delimitam o domínio de uma comunidade: os lugares de caça e pesca; as áreas de roças; os rios; as trilhas; os locais de acampamentos e de onde se tira palhas, madeiras, cipós etc. Esses limites precisam ser respeitados pelas outras comunidades. Não se pode fazer roças em outra comunidade sem sua autorização e os rios também são limites importantes. Por exemplo, se os moradores de uma comunidade da região Auaris quiserem caçar em outro rio, precisam conversar com uma comunidade localizada ali e pedir permissão para a caçada.

Histórico dos contatos

As relações entre os Ye’kwana e os não indígenas são antigas e remontam ao século XVIII se considerarmos os contatos estabelecidos entre grupos ye’kwana habitantes na região do alto Orinoco (Venezuela) e os colonizadores europeus. As experiências de contato dos Ye’kwana com os não indígenas e com outros povos indígenas foram diversas e cada grupo têm uma história própria.

Os Ye’kwana, por serem gente canoeira, se inseriram há séculos em redes de trocas que incluíam diversos grupos indígenas e nesses percursos também se relacionaram com os não indígenas, chamados em sua língua de yadaanawichomo. São conhecedores excepcionais da geografia e hidrografia de seu território tradicional; sabem os nomes de todos os rios, igarapés e cachoeiras existentes ali.

São excelentes construtores de canoa (kudiiyada) e foi por meio desse objeto que conseguiram conhecer lugares além do seu território tradicional. Arvelo-Jimenez (1974), relata que um ye’kwana conhecido como Aramari, um navegante incansável e comerciante muito ativo, fazia viagens ao Brasil que duravam de um a três anos. As rotas de suas viagens eram grandes, passava pelo Canal de Cassiquiare, Rio Negro, Manaus, Rio Branco, Rio Uraricoera, Rio Auaris e depois voltava para a Venezuela pelos rios Padamo, Orinoco e, finalmente, o Cunucunuma.

Desde muito tempo, os Ye’kwana iam a diversas regiões em busca objetos de interesse que eram trocados por ralos, canoas, zarabatanas, entre outros. Trocavam bastante com os povos que habitavam Fadimennha, a região do lavrado roraimense, e, muitas vezes, viajam até onde hoje é Georgetown (Guiana) para obter objetos como a espingarda e tecido vermelho para fazer a vestimenta masculina tradicional (wayuuku). As visitas a outras comunidades ye’kwana eram muito comuns e ainda hoje fazem parte de seu cotidiano. Costumam fazer viagens pelos caminhos terrestres e pelos diversos rios que se localizam nos dois lados da fronteira Brasil e Venezuela.

Criança segura um ralo de mandioca, artigo produzido pelos Ye’kwana que sempre foi cobiçado nas redes de troca com outros povos. Foto: Volkmar Ziegler, 1982.
Criança segura um ralo de mandioca, artigo produzido pelos Ye’kwana que sempre foi cobiçado nas redes de troca com outros povos. Foto: Volkmar Ziegler, 1982.

Como outras populações indígenas, os Ye’kwana experimentaram diversas relações com os não indígenas, como alianças, conflitos, perseguições, que alteraram em parte os territórios ocupados por eles antes da chegada dos colonizadores europeus. No caso dos grupos ye’kwana que vivem no Brasil, esse contato mais próximo se deu no fim do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, quando um grupo de seringalistas, comandado por Tomás Funes, invadiu o centro do território ye’kwana em busca de escravos para trabalhar na extração do caucho. Essa perseguição foi extremamente violenta, destruiu inúmeras aldeias e provocou centenas de mortes entre os Ye’kwana. Barandiarán estima que cerca de 1000 pessoas foram mortas e mais de 20 aldeias foram destruídas (1979).

Tamanha brutalidade dos seringalistas levou a uma dispersão generalizada para outras regiões a leste. Uma parte desse povo se refugiou na região do rio Auaris, área de ocupação tradicional que, naquele tempo, era usada, principalmente, para as caçadas coletivas. Essa região tornou-se, então, uma alternativa às famílias ye’kwana que fugiam das perseguições dos seringalistas, dando origem à população ye’kwana que desde então vive de forma permanente no Brasil.

A história das aldeias ye’kwana no Brasil está intimamente ligada a esses deslocamentos forçados. Apesar desses acontecimentos trágicos, os vínculos entre as comunidades ye’kwana no Brasil e Venezuela se mantiveram forte. Há redes de relações intercomunitárias e interpessoais que atravessam a fronteira.

Comunidade Fayya Ku’jännha, Região de Auaris, TI Yanomami, Roraima. Alcida Ramos, 1974.
Comunidade Fayya Ku’jännha, Região de Auaris, TI Yanomami, Roraima. Alcida Ramos, 1974.

No Brasil, registros dos primeiros encontros com os não indígenas são imagens e descrições sobre os Ye’kwana de Auaris da década de 1930 encontradas em Índios do Brasil (Rondon, 1963). Há registros fotográficos e fílmicos de encontros do expedicionário francês Alain Gheerbrant e sua equipe com grupos ye’kwana que viviam no alto Auaris, especificamente, na comunidade Detuukwännha. A expedição comandada por Gheerbrant ocorreu no final da década de 1940, partindo do Orinoco em direção à região de cabeceiras do Ventuari e seguiu para Auaris.

Entre o fim dos anos 1950 e o início dos anos 1960, um grupo ye’kwana que viajava em direção à Boa Vista encontrou no rio Uraricoera uma expedição composta por missionários e militares em busca dos Sanöma, grupo yanomami. Desejavam construir uma pista de pouso para se instalar ali. Na ocasião, depois de terem conversado, esses viajantes ye’kwana foram contratados para abrir a pista (Moreira, 2004).

No início dos anos 1960, uma pista no alto Auaris foi construída pelos próprios indígenas da região, com ajuda dos militares da Força Aérea Brasileira (FAB) e dos missionários da Missão Evangélica da Amazônia (MEVA), que deram as ferramentas para abrir a pista. Logo, a MEVA instalou-se na região e estabeleceu os primeiros contatos com os Sanöma. Depois, uma base da Força Aérea Brasileira (FAB) foi implantada próxima à pista de pouso, onde hoje está o 5o Pelotão Especial de Fronteira. A pista de pouso foi um elemento que modificou a região de Auaris. Aquelas comunidades que já se encontravam em locais próximos à pista permanecem até lá hoje e aquelas mais distantes se aproximaram mais da pista.

Aeródromo da Auaris, Região de Auaris, TI Yanomami, Roraima. Rogério Assis / ISA, 2018.
Aeródromo da Auaris, Região de Auaris, TI Yanomami, Roraima. Rogério Assis / ISA, 2018.

Apesar de viverem em áreas remotas, os deslocamentos dos Ye’kwana para Boa Vista se intensificaram nas últimas décadas. A instalação em suas aldeias de postos de saúde favoreceu essa dinâmica, pois com a presença constante de técnicos da saúde (indígenas e não indígenas), a rotina de voos permitiu aos Ye’kwana uma mobilidade que era impensável décadas atrás.

Há menos de meio século, homens adultos empreendiam viagens de canoa até Boa Vista ou iam até as fazendas de gado situadas nas cercanias para obter bens como sabão, sal, munição, espingardas, terçados e miçangas via troca ou trabalho assalariado. A viagem durava cerca de 30 dias devido às inúmeras corredeiras e cachoeiras no trajeto que liga os rios Auaris, Uraricoera e Branco e, muitas vezes, era necessário o transporte das canoas em trilhas construídas na mata. O retorno à Auaris levava em média 90 dias, pois ao invés de descer as cachoeiras, era preciso subir.

Rio Uraricoera, TI Yanomami, Roraima. Guilherme Gnipper Trevisan, 2014.
Rio Uraricoera, TI Yanomami, Roraima. Guilherme Gnipper Trevisan, 2014.

A partir da segunda metade do século 20, essa rota fluvial deixou de ser frequente. Com a instalação da pista, a assistência regular de saúde e a implantação de escolas nas comunidades, as dinâmicas de deslocamento se alteraram. Por um lado, as viagens de avião a Boa Vista passaram a ser mais frequentes e, se antes eram somente os homens adultos que realizavam este longo percurso, agora jovens, mulheres e crianças também transitam nesses outros mundos e aproximam-se mais dos modos de vida dos não indígenas. Por outro lado, teve início um processo de sedentarização da população indígena de Auaris que passou a construir suas aldeias nas proximidades da pista, dos postos de saúde, das escolas e dos espaços ocupados por missionários e militares. A sedentarizacão associada ao aumento populacional levou à falta de recursos naturais tão essenciais, como a caça e pesca, e à pressão sobre os recursos ainda disponíveis na região.

Um levantamento sobre a presença dos Ye’kwana na cidade de Boa vista feito pelos próprios indígenas aponta que, em 2011, mais da metade dos jovens de 15 a 27 anos da maior aldeia estava vivendo na cidade. Na maioria dos casos a mudança estava ligada à continuação do ensino formal (Ensino Médio ou cursos oferecidos pelo Insikiran-UFRR). Apesar do forte envolvimento dos Ye’kwana com o desenvolvimento do ensino escolar em suas aldeias, não foi implantado o Ensino Médio em nenhuma das escolas - é um dos grandes gargalos da educação escolar, pois boa parte dos jovens, assim que concluem o Ensino Fundamental vão viver na cidade para ingressar no ensino médio. Muitos continuam os estudos e ingressam em cursos de licenciatura intercultural ou de pós-graduação.

Com os jovens cada vez mais distantes do cotidiano na aldeia, muitos conhecimentos valiosos para o povo Ye’kwana deixam de circular entre as diferentes gerações, como os saberes relacionados aos cantos (acchudi), às histórias verdadeiras (wätunnä), às artes, às habilidades ligadas à caça, à pesca, à construção de casas, canoas etc. Os pais, apesar de incentivarem a presença de seus filhos nas escolas da cidade ou da comunidade, preocupam-se com a falta de interesse dos jovens pelos conhecimentos ye’kwana e o seu interesse crescente pelos modos de vida e pelas coisas dos não indígenas.

A vida na cidade cria situações novas que dão acesso a conhecimentos diversos. As novas modalidades de relação com os não indígenas têm suscitado reflexões dentro e fora da aldeia, as quais são postas em diálogo com as imagens produzidas pelos antigos, que antes desciam em grandes canoas pelos afluentes do Rio Branco até chegar à cidade.

A chegada da escrita: presença missionária e a escola

Pouco tempo depois dos primeiros contatos entre os Ye’kwana e os espanhóis, se deu a primeira tentativa de evangelização. Em 1765, foi fundado o aldeamento San Francisco de la Esmeralda na região do Orinoco por um missionário capuchinho, Jose Antonio de Jerez de los Cabelleros, que pretendia converter à força centenas de indígenas, entre eles, os Ye’kwana, além de forçá-los a construir uma igreja no local. Em 1769, missão foi abandonada e depois disso, encontros com missionários passaram a ser esporádicos até meados do século 20.

A presença dos papéis escritos (fajeeda) na vida cotidiana passou a ser sentida de forma efetiva com a instalação de missões religiosas em territórios ye’kwana na Venezuela a partir da metade do século 20. Missionários da New Tribes Mission (Missão Novas Tribos) fundaram as primeiras aldeias nos territórios ye’kwana, piaroa e yanomami entre 1947 e 1956. Entre os Ye’kwana, tentaram penetrar pela região do Ventuari, mas não foram bem recebidos. Avançaram pela região do rio Cunucunuma e em 1956 fundaram a comunidade Akanannha, perto da confluência dos rios Orinoco e Cunucunuma. A ideia era que esta aldeia se tornasse uma espécie de base para a formação de pastores ye’kwana que servissem como vetores de conversão na região. Mais tarde aldeias como Tama Tama, Tokishanamannha e Mudeshijannha, no rio Padamo, se converteriam, o que neste contexto significava a proibição de práticas rituais ye’kwana, do consumo de tabaco e de bebida fermentada.

No bojo da atuação da Missão Novas Tribos, estava a instalação de escolas que, como em outros lugares, serviram de ferramenta ao proselitismo religioso (alfabetização em Espanhol e produção de materiais bilíngues, entre eles a Bíblia ou Wanaadi A'deddu (Palavras de Wanaadi). Devido a uma estratégia extremamente agressiva e impositiva, a Novas Tribos não conseguiu avançar em outras áreas de ocupação ye’kwana, restringindo sua atuação à região do rio Cununcunuma.

Na década de 1970, a presença destes missionários já provocava muitas críticas entre lideranças ye’kwana e outros povos que tiveram seus territórios invadidos por estes grupos. Como contou Manuel Velásquez, o renomado dono de canto Warné Yawadi tentou impedir a entrada destes missionários em sua região, mas não foi bem-sucedido, e abandonou a aldeia em que vivia e fundou uma nova em área de difícil acesso, nas cabeceiras do alto Cuntinamo.

Warné gravou um filme chamado Hoy hablo a Caracas (direção de Carlos Azpúrua, 1978) em que denuncia a presença destes missionários em território ye’kwana. Surge, neste contexto de intensa pressão missionária em territórios indígenas na Venezuela, um movimento nacional de apoio aos povos indígenas sem precedentes que foi organizado por pesquisadores, indigenistas, artistas e políticos cujas reivindicações eram não só a expulsão destas missões religiosas como também a construção de uma legislação específica a estes povos (Guss, 1989). Somente, em 2005, a Missão Novas Tribos foi expulsa do território venezuelano pelo então presidente Hugo Chávez.

Além de evangélicos, grupos católicos também se instalaram entre os Ye’kwana, ainda que o foco de suas ações não fosse a conversão religiosa. Em 1959, foi criada uma aldeia no alto Erebato pela Fraternidade de Foucauld chamada Santa Maria de Erebato (Jöwötönnha), e alguns anos depois foi fundada Cacuri (Kakudinnha), uma comunidade que teve apoio de uma missão salesiana. Daniel Barandiarán foi o primeiro missionário da Fraternidade Foucauld e viveu muitos anos entre os Ye’kwana do alto Erebato. É autor de muitos artigos e livros sobre esse povo, os quais contém importantes dados etnográficos. Também escreveu sob o pseudônimo Damian de Escoriaza (Guss, 1989).

Tiveram inúmeros embates que ocorreram a partir da chegada de missionários evangélicos e católicos entre os Ye’kwana na Venezuela, como os conflitos entre os “crentes” e os “tradicionalistas” (Arvelo-Jiménez, 1979). De todo modo, é importante mencionar como as notícias sobre a presença destes grupos religiosos chegaram às aldeias ye’kwana no Brasil e suas reflexões sobre a chegada dos papéis (fajeeda) e da escola, espaço onde se deu o aprendizado da escrita alfabética.

Moreira (2004) e Andrade (2012, 2014) notam que o tom dos comentários sobre a atuação dos missionários nas aldeias na Venezuela, principalmente dos evangélicos da Missão Novas Tribos, era bastante crítico, principalmente por conta das proibições às quais eram submetidos (não podiam fumar tabaco, tomar caxiri, fazer festa, rituais de cura etc.). Assim, disse o antigo tuxaua de Fuduuwaadunnha, Neri Magalhães: “Quando Donaldo perguntava: Vocês aceitariam ser crentes? Nós respondemos: Nós não queremos ser crentes. Nossos parentes ficaram crentes rápido e enfraqueceram” (Moreira, 2004).

De forma geral, em Auaris, a conversão à religião dos não indígenas era condenada, no entanto, havia um interesse crescente pela escrita alfabética. No início dos anos 1960, um Ye’kwana de Auaris foi viver durante alguns anos em Medadannha (La Esmeralda) e quando voltou deu início a uma experiência de alfabetização a partir de cartilhas que trouxe de lá, que não deu certo (Andrade, 2012).

Crianças com uniformes escolares na comunidade Kujaashinnha, Região de Auaris, TI Yanomami, Roraima. Acervo APYB, década de 1990.
Crianças com uniformes escolares na comunidade Kujaashinnha, Região de Auaris, TI Yanomami, Roraima. Acervo APYB, década de 1990.

A Missão Evangélica da Amazônia (MEVA) instalou-se na região do alto Auaris nesta mesma década, logo depois da abertura da pista de pouso, mas apesar de prestar atendimento à saúde a todos os indígenas, estes missionários voltaram as suas ações aos Sanöma, grupo yanomami vizinho.

No início dos anos 1980, um casal de missionários da MEVA foi morar com os Ye’kwana do alto Auaris, mas um episódio interessante os fez desistir da investida. Em 1981, lideranças ye’kwana de várias comunidades, a convite de Warné Yawadi, se juntaram a uma grande conferência organizada por Ye’kwana evangélicos em Mudeshijannha, no rio Padamo, para debater ideias trazidas pela Missão Novas Tribos. O então tuxaua de Auaris esteve presente junto com mais quatro homens desta comunidade. Segundo relatos registrados por Moreira (2004), os embates ali giraram em torno de questionamentos sobre o “surgimento dos crentes” e o “caminho da salvação” que estes religiosos pregavam e chegaram ao entendimento de que os crentes eram descendentes de Kaaju (inimigo do demiurgo) e que ali estavam para destruir a vida dos Ye’kwana. Na volta desta viagem, as lideranças de Auaris fizeram uma festa enorme, regada a muito caxiri e tabaco, e não demorou muito para que o casal de missionários da MEVA pedisse o seu desligamento.

Professor e alunos da Escola Apolinário Gimenes, comunidade Fuduuwaadunnha, TI Yanomami. Tiago Moreira dos Santos, 2016.
Professor e alunos da Escola Apolinário Gimenes, comunidade Fuduuwaadunnha, TI Yanomami. Tiago Moreira dos Santos, 2016.

Em 1983, uma outra missionária da MEVA foi enviada à Auaris. Segundo depoimentos, as lideranças ye’kwana disseram que permitiriam a sua permanência desde que não fizesse proselitismo religioso - o que eles queriam era aprender a escrita alfabética e o Português. Ela foi aceita como professora e então tuxaua Neri Magalhães permitiu que ela contasse as “histórias dela” na escola – e eles seguiram contando as suas histórias (wätunnä). A partir de então, Jandyra foi viver com os Ye’kwana de Auaris e foi responsável pela alfabetização dos primeiros adultos e jovens. Esta primeira turma terminou a formação de ensino fundamental em Boa Vista e deu origem aos primeiros professores ye’kwana da escola Apolinário Gimenes, na comunidade Fuduuwaaunnha - a primeira construída no Brasil e reconhecida pela Secretaria da Educação do estado de Roraima em 1991. Esses professores foram os primeiros alunos dos cursos modulares de magistério indígena e do curso de Licenciatura Intercultural oferecidos na Universidade Federal de Roraima (Insikiran-UFRR). Hoje são estas pessoas que levam adiante as escolas nas demais comunidades ye’kwana.

Wätunnä, histórias das origens

As referências aos mais antigos ancestrais fazem parte da vida cotidiana dos Ye’kwana de forma notável. Estão presentes em diversos contextos, especialmente, nas festas e rituais e nas conversas diárias nas quais surgem explicações sobre ye’kwana weichojo, o modo de vida ye’kwana. As explicações sobre o bem viver são encontradas nas histórias sobre o tempo antigo (fenaadä könä’jaato) e sobre os feitos de Wanaadi, demiurgo.

Os Ye’kwana se referem a essas narrativas usando o termo wätunnä (histórias) e são consideradas histórias verdadeiras, pois aconteceram de fato. Wätunnä edhaajä é o dono de histórias, a pessoa que conhece um extenso repertório dessas histórias. São relatos contados oralmente que remontam ao início dos tempos e narram acontecimentos e processos ligados ao surgimento da terra, dos humanos, de todos os povos, dos animais, alimentos, dos costumes, dos rios, árvores.

Balaio com o grafismo Wanaadi motai (costas do demiurgo). In: Guss, 1990, p. 205.
Balaio com o grafismo Wanaadi motai (costas do demiurgo). In: Guss, 1990, p. 205.

Wätunnä conta como o demiurgo Wanaadi criou o mundo e como seu irmão e inimigo, Kaajushawa, Kaaju ou Odo’sha, procurou a todo custo estragá-lo, trazendo sofrimento, doença e morte às pessoas. A relação entre Wanaadi e Kaajushawa ocupa um lugar privilegiado na cosmologia ye’kwana. Os processos que deram origem ao mundo de hoje estão ligados a essa disputa entre o Wanaadi e Kaajushawa, um criava e o outro destruía.

Kajuushawa foi a primeira criação de Wanaadi e ensinou-lhe tudo. Depois que atingiu o mesmo nível de conhecimento de seu criador, voltou-se contra ele. Foi a partir dessa disputa que o céu se separou da terra; que a perenidade da vida foi atravessada pela morte e suas formas liminares como as doenças; que a luminosidade absoluta deu espaço à alternância entre dia e noite etc. As paisagens e seus habitantes foram marcados pelas ações de Wanaadi e seu irmão e seus efeitos podem ser vistos e sentidos ainda hoje.

Balaio com o grafismo “rosto de Odo'sha”. In: Guss, 1990, p. 175
Balaio com o grafismo “rosto de Odo'sha”. In: Guss, 1990, p. 175

Os Ye’kwana costumam utilizar o nome Kaaju para se referir ao irmão de Wanaadi, pois este não gosta que seu verdadeiro nome (Kajuushawa) seja enunciado. Então, por precaução, deve-dizer apenas Kaaju ou Odo’sha.

As histórias verdadeiras contam que desde tempos primordiais a terra foi contaminada por Kaaju, tornando-a amoijhe (contaminado, envenenado). Embora o demiurgo tenha buscado criar na terra formas de vida semelhantes àquelas existentes nos planos celestes (kajunnha), o resultado não foi esse. Wanaadi enviou pessoas celestes para curar a terra envenenada e finalmente conseguiu fabricar uma terra boa para as pessoas viverem.

A vida na terra é continuamente ameaçada pelos odo’shankomo, inimigos enviados por Kaaju (ou Odo’sha), que fazem mal aos humanos de várias formas. A presença deletéria de Kaaju passou a ser sentida com mais intensidade pelos ancestrais dos Ye’kwana quando o demiurgo voltou à sua morada celeste. Wanaadi, cansado das investidas de seu irmão e triste com as tentativas fracassadas para eliminá-lo da terra, deixou à humanidade algumas armas de proteção contra seu irmão.

Todo ye’kwana busca adquirir conhecimentos para se proteger dos odo’shankomo – os principais saberes são as histórias wätunnä e os cantos acchudi e ädeemi. O maior conhecedor era o föwai ou kadeeju (pajé), que hoje não existe mais. Os pajés ye’kwana possuíam um poder similar a Wanaadi e seus auxiliares que foram os primeiros pajés da terra. Atualmente, os grandes conhecedores ye’kwana são os donos de canto (acchudi edhaamo) e os donos das histórias (wätunnä edhaamo). É durante as festas e rituais que as pessoas interessadas nos saberes antigos costumam aprender, pois são geralmente nessas ocasiões que wätunnä é contada e são realizados os repertórios de cantos.

A centralidade dos cantos na vida ye’kwana está relacionada aos problemas provocados pelos odo’shankomo constantemente. Diante de ameaças cotidianas, a vida de uma pessoa é marcada por inúmeros rituais que são sempre acompanhados de cantos específicos. Estes cantos são rezas ou benzimentos voltados à construção de corpos, objetos, substâncias e espaços eminentemente humanos ou próprios para a vida humana. Para viver sem riscos, também é preciso cuidar cotidianamente de si, dos parentes e da comunidade por meio de ações que visam proteção como resguardos, dietas alimentares, restrições comportamentais, uso de tabaco e de elementos/substâncias protetoras como as resinas perfumadas, os amuletos, os colares, as tintas, banhos e infusões com ervas etc. Já dizia Guss (1989) que as ações profiláticas são para os Ye’kwana antídotos ou atos de revide à ameaça que sofrem na vida cotidiana.

É preciso cantar para que algo ou alguém deixe de estar amoijhe (contaminado, envenenado) e esse é um dos principais meios para se viver bem. Por meio das palavras cantadas e do sopro, o canto e o cantador eliminam substâncias perigosas e introduzem nos corpos e nos espaços (roças e casas), vitalidade (tadonnhe), elemento intangível, celeste, que restaura a vida dos humanos e também de outros seres, como as plantas.

A transformação da primeira terra por Wanaadi

Texto baseado nas falas dos sábios Pery Magalhães, Vicente Castro, Luís Manuel Contrera, Eliezer Maldonado Silva e Romeu José Gonçalo.

Seduume [Wanaadi] foi quem primeiro transformou o céu e a terra. Ninguém sabe como ele surgiu, ninguém sabe como ele se transformou. A luz do sol Nhaajidiyyana ilumina Seduume no céu de Töweiyewaana. Ele vive bem ali, lugar de vitalidade, onde ninguém morre. Seduume apesar de viver no céu está sempre com o pensamento voltado para cá. Ele trouxe do céu a terra de Awaadaja para os humanos viverem, mas Kaajushawa, seu irmão e seu principal inimigo, atrapalhou o seu trabalho.

Seduume teve que colocar fogo na terra de Awaadaja estragada pelo irmão. A queimada durou vinte dias e a fumaça que subia ao céu caiu nas mãos de Maiyyediikiya, o dono da chuva. Essa fumaça se converteu em chuva. Durante vinte dias choveu sem parar. A terra ficou inundada e água alcançou o céu. Mesmo depois de vinte dias, a água não havia secado. Seduume pediu para o beija-flor Waasoodoimhä secar o dilúvio com o widiiki (“cristal”, “pedra brilhante”) de Makuunaimhä. Esse cristal se transformou nas zarabatanas de Makuunaimhä e Shidiijuiyana, e foi com esse instrumento que o beija-flor Waasoodoimhä puxou toda a água, secando a terra. Sobrou só a areia de Kayatta.

Pessoas foram enviadas do céu para varrer a terra e com esse movimento diferenciaram e nomearam os territórios de todos os povos. O território ye’kwana foi chamado de Planície de Yoodaimhä, e a terra situada do outro lado do mar foi denominada de Terra de Taweekadi. A terra estava vazia. Não havia pessoas humanas, nem animais. Não tinha ar, nem água. Maduuda (tatu-canastra) e Fa’jadi (tatu-bola) foram os primeiros a experimentar a vida aqui e a tocar a terra pela primeira vez. Depois, Seduume enviou do céu as árvores que hoje existem em Yujuudunnha, nossa região de origem, e também aquelas existentes em outros lugares.

Essas árvores foram plantadas por Maduuda e Fa’jadi e cresceram com vitalidade. Seduume logo pensou que a terra já estava boa para os humanos viverem. Fez uma pessoa chamada Yuudawaana. Como não havia ar na terra, ele respirava o ar enviado do céu por Seduume. Foi Yuudawaana quem pisou na primeira terra, ele pisou em Kamaasonnha. Em seguida, Seduume trouxe água e pedra. Essa última foi trazida para cá para deixar a terra firme, forte e segura. * Originalmente publicado no livro Território Ye’kwana: a vida em Auaris (2017)

Cantos para se viver bem

Mais do que formas de expressão artística, os cantos são tecnologias ensinadas aos Ye’kwana por seus ancestrais e possibilitam a existência propriamente humana, afastando os perigos provocados pelos odo’shankomo. Os cantos são compreendidos como armas de defesa (konemjönö ewanakatojoje, “proteção contra aquilo que faz mal”).

Os cantos realizados hoje nas festas e nos rituais pelos donos de canto são réplicas dos cantos celestes feitos na terra pelo demiurgo, Wanaadi, e seus auxiliares. Não há invenção de novos cantos, ao contrário, os Ye’kwana são assertivos em dizer que continuam fazendo os mesmos cantos aprendidos pelos antigos ancestrais e guardados na memória dos sábios e sábias ye’kwana.

Os donos e donas de canto (acchudi edhaamo) cuidam da transmissão e da circulação dos cantos e são figuras muito importantes na vida comunitária e mestres rituais muito respeitados. Para ser reconhecida como tal, a pessoa deve conhecer um vasto repertório de cantos, práticas e conhecimentos rituais, incluindo as histórias (wätunnä) e o léxico especial da fala ritual.

Execução de um canto durante a realização do ritual da menina moça. Comunidade Fuduuwaadunnha, TI Yanomami. Majoí Gongora, 2013.
Execução de um canto durante a realização do ritual da menina moça. Comunidade Fuduuwaadunnha, TI Yanomami. Majoí Gongora, 2013.

Os cantos acchudi e ädeemi são considerados os mais importantes vetores de circulação das histórias wätunnä. Então, uma pessoa que é dona de canto também é considerada dona de história, pois para realizar um canto ritual é preciso profundo conhecimento dos eventos que aconteceram no tempo das origens.

A descrição a seguir nos ajuda a compreender a imbricação entre as histórias e os cantos:

“Acchudi vem desde wätunnä, é wätunnä que se transforma em acchudi. Acchudi [cantos] vem de acontecimentos dos primórdios, de quando surgimos, e é isso que é cantado e rezado. Ninguém inventa wätunnä, acchudi e ädeemi. Primeiro, Odo’sha estragou a terra, a floresta, a água e o alimento. Então, o mundo como está hoje foi curado após o estrago de Odo’sha. As coisas que estavam no mundo estavam estragadas, mas as pessoas daquele tempo fizeram reza para curar o planeta terra. Waidhe curou o planeta terra estragado. A capivara, a ariranha e a lontra curaram a água. Por isso, hoje em dia, rezamos falando delas, dizendo que fazemos a mesma coisa que a ariranha, a capivara e a lontra fizeram, para que, assim, o Wiyu tenha medo e não mexa com as pessoas” (Osmar Carlos da Silva, 2017).

O modo de vida ye’kwana espelha as ações e palavras ensinadas a seus ancestrais pelas primeiras pessoas que existiram no mundo. Os rituais são, assim como os cantos, repetições de ações realizadas pelos antigos no início dos tempos com a finalidade benzer, curar e proteger as pessoas.

Para os Ye’kwana, cantar é a ação ritual por excelência e há duas categorias de canto distintas: ädeemi e acchudi.

Cantos ädeemi

Os cantos ädeemi são realizados em festivais comunitários também denominados ädeemi (e podem ser chamados de wänwänä - ‘festa’, ‘baile’), momento em que se canta, se dança e se bebe caxiri (yadaaki) ao longo de vários dias. As festas ädeemi são caracterizadas por repertórios específicos de cantos cujos versos enunciados pelo dono de canto, o mestre cerimonial, são repetidos pelos participantes que, ao mesmo tempo, realizam sequências coreográficas ao redor do pilar central da casa comunal. Nesses festivais, há momentos em que a execução dos cantos para e dá lugar às músicas instrumentais tocadas por flautas de bambu (wana) e tambores (samjuda) que são acompanhadas por danças.

Os cantos ädeemi são bastantes extensos e são constituídos por vários conjuntos, com motivos melódicos (chäämadö) diferentes entre si, o que torna o seu aprendizado bastante complexo.

Entre as mais importantes cerimônias ädeemi, estão as festas da roça nova (tooki ou äddwaajä edeemi’jhödö), da casa nova (ättä ou mma edeemi’jhödö) e da caçada (tänöökö, maji ou wasai edeemi’jhödö).

A festa da roça nova deve ser feita quando as roças estão sem vida (tadonnhe’da) ou quando a mandioca-brava está apodrecendo muito cedo. A mandioca-brava tem um duplo (äkaato); ela é viva como uma pessoa, por isso os Ye’kwana cuidam das roças como se fossem seus filhos. Se não cuidar direito, as plantam ficam tristes e com raiva, como uma criança, e seus duplos retornam ao céu e as plantas aqui na terra ficam enfraquecidas. Por isso, a mulher precisa ir todos os dias na roça para alegrar sua plantação.

Os cantos feitos durante a festa äddwaajä edeemi’jhödö procuram trazer para terra o duplo (äkaato) da mandioca-brava principal que está no céu e que é a matriz de todos os cultivares. No ritual, a ligação entre as roças celestes e terrestres é refeita e as plantas voltam a crescer com vitalidade nas roças.

O ritual da construção e inauguração da casa (mma edeemi’jhödö) é feito toda vez que uma nova casa vai ser erguida na comunidade. Esse é o mais longo de todos, pois começa com a construção da estrutura, quando é colocado e erguido o pilar central da casa, e continua meses depois com a inauguração da casa. Os cantos ädeemi dessa festa são inúmeros e estão organizados em vários conjuntos que correspondem às várias etapas da construção da casa.

''Ättä'', casa redonda, Fuduuwaadunnha, TI Yanomami. Tiago Moreira dos Santos, 2016.
''Ättä'', casa redonda, Fuduuwaadunnha, TI Yanomami. Tiago Moreira dos Santos, 2016.

Uma importante etapa desse longo ritual chama-se odo’shankomo enno’jadö (“para afastar os espíritos ruins”) e é feita após o término da construção de casa, no mesmo dia ou depois. A festa de inauguração somente acontece depois dessa ação ritual, pois para uma família viver bem e com saúde naquele lugar é preciso afugentar os espíritos ruins.

As cerimônias ädeemi possuem um valor inestimável para os Ye’kwana, pois são feitas à imagem e semelhança das primeiras festas realizadas por seus ancestrais mais antigos.

Cantos acchudi

Os cantos acchudi são realizados cotidianamente e estão relacionados às práticas de cuidado, resguardo e proteção que fazem parte de todas as etapas de vida de uma pessoa. Tanto podem ser feitos no interior da casa comunal com a presença de toda a comunidade, quanto podem ser realizados no domínio restrito da vida familiar. Os cantos acchudi, apesar de serem considerados mais fáceis de aprender e mais curtos, são muito numerosos.

Esses cantos permitem aos Ye’kwana viverem bem, isto é, terem saúde e alegria. Há cantos acchudi para: a chegada de um recém-nascido; a primeira saída do bebê da casa onde nasceu; a criança pisar no chão com segurança; proteger da menina moça na primeira menstruação e durante seu isolamento; benzer a carne de caça, peixes e aves antes de serem consumidos pela primeira vez ou após um tempo de resguardo; afugentar espíritos ruins e inimigos da comunidade; benzer uma canoa nova, um tipiti ou outro objeto que será usado pela primeira vez... Além de inúmeros outros cantos acchudi, existem aqueles que curam (adonkwadö), isto é, restabelecem a vitalidade de uma pessoa.

Como disse o jovem pesquisador ye’kwana, Robélio Claudio Rodrigues (2019):

“Acchudi é muito importante para nós, povo Ye'kwana, serve para purificar algo e proteger a alma. O canto acchudi deve ser usado pelo ser humano desde o nascimento, durante o crescimento e até o resto da vida. Toda vez precisamos fazer acchudi antes de consumir qualquer carne ou usar algo. Mesmo o nosso alimento, nós cantamos para torná-lo comestível, porque todos são amoijhe (contaminados), fazem mal para nós. Com acchudi cuidamos da criança, para ela ter saúde, ter boa inteligência".

Quando se canta acchudi, um verso é enunciado logo após o outro – não há repetição como nos cantos ädeemi. Outro elemento que diferencia as duas categorias de cantos é o sopro (aji’mmadö) que caracteriza todas as performances de acchudi. Durante a realização de um canto ou após o seu término, o dono de canto sopra o objeto ou a pessoa que está recebendo aquela ação ritual – é o sopro que transporta a potência do canto para o objeto ou a pessoa, transformando-a.

Pessoa humana

A pessoa humana (soto) é composta várias almas ou duplos -äkaato ou äkaatokoomo, no plural – elementos autônomos e diferentes que podem se desligar do corpo quando a pessoa desmaia, adoece, sonha ou morre. O adoecimento de uma pessoa está diretamente associado à perda ou roubo de seus duplos por algum odo’shankomo (seres invisíveis perigosos).

Na literatura etnológica, a noção äkaato foi traduzida de diferentes formas: “princípio vital”, “duplo”, “alma”, “espírito”, “sombra”, “reflexo”, “eu imaterial” etc. Os Ye’kwana de Auaris costumam traduzir este conceito por “espírito” ou “alma”.

A pessoa possui duplos no interior de seu corpo: um dentro dos olhos e outro no coração. Costumam se referir ao duplo do olho usando os seguintes termos: ayenudu ekaato (“duplo do teu olho”) e äsejjedö (“tua sabedoria ou inteligência”). Já o duplo que fica no coração costuma ser chamado de yo’tadö (“seu meio ou cerne”) ou odo’tadö (“teu meio ou cerne”).

Jovens adornados para a festa. Fuduuwaadunnha, TI Yanomami. José Cury/ Museu do Índio-FUNAI / Povo Ye’kwana, 2018.
Jovens adornados para a festa. Fuduuwaadunnha, TI Yanomami. José Cury/ Museu do Índio-FUNAI / Povo Ye’kwana, 2018.

A presença do duplo do olho no corpo é o índice de vitalidade, pensamento próprio e inteligência. É no olho que está a verdadeira sabedoria. O termo äsejjedö (tua sabedoria) é uma das formas de denominar o duplo do olho – noção semelhante a de outros povos como os Waiwai, Kaxinawa, Marubo, entre outros. Os olhos abertos são expressão da presença do duplo do olho no interior da pessoa e são, portanto, um importante sinal vital. O duplo do olho costuma se desanexar do corpo durante o sonho e tais afastamentos (temporários, no melhor dos casos) podem provocar o enfraquecimento da pessoa.

Com a morte da pessoa, os duplos que se alojam nos olhos e no coração retornam a seu local de origem: ao céu do demiurgo Wanaadi. Além desses duplos de origem celeste, os Ye’kwana mencionam outros aspectos da pessoa que também são nomeados de äkaato. Estes estão ligados ao corpo, mas estão “fora” dele, pois são suas projeções. Remetem àquilo que em português denominamos de “sombra”, “reflexo” ou “imagem”. Há o duplo do sol (shii äkaato); duplo da noite (koijhai äkaato); duplo na água (na’kwa’ka äkaato); duplo no espelho (fekuudeaka äkaato) etc. Fotografias e imagens em vídeo de uma pessoa também são seus duplos. Os vídeos, especificamente, são chamados de äkaato ajäiyajä (duplo agarrado).

Esses duplos, após o falecimento da pessoa, retornam a seus locais de origem que são diversos. O duplo do sol retorna ao sol e a sombra que surge no chão à noite é devorada pela lua (Nuunä), ser canibal. A imagem refletida nos cursos d'água ficará com Wiyu, designação dos donos invisíveis das paisagens e dos seres aquáticos, uma das principais ameaças aos Ye’kwana. O duplo refletido nos espelhos viverá com Kaaju, maior inimigo dos humanos. Os duplos capturados pelos aparatos tecnológicos, como câmeras de vídeo, ficarão aprisionados nesses suportes.

Um outro aspecto da pessoa que surge com sua morte é denominado äkaatomjä ou äkaatomjödö (literalmente ‘ex-duplo’, ‘pretérito-duplo’ ou ‘o que foi o duplo’). Este ex-duplo é um espectro terrestre da pessoa que ganha corpo depois de seu falecimento. Ele refaz os caminhos percorridos em vida pela pessoa até finalmente retornar ao local de seu nascimento onde permanecerá para sempre ao lado do cupinzeiro onde foi está enterrada a sua placenta. Lauer (2005) descreve-o como um ser invisível que segue a pessoa enquanto viva e que, depois de sua morte, torna-se um espectro que pode assumir a aparência de um anão repugnante raramente visto. O ex-duplo gosta de alimentar vínculos afetivos entre o morto e seus parentes e amigos por meio de sonhos e de lembranças e isso é ruim para os familiares vivos, pois esse desejo de proximidade entre os mortos e os vivos pode se transformar em tristeza, adoecimento e morte.

Casas

Os Ye'kwana procuram viver sempre próximos a rios e igarapés. É por meio desses caminhos que navegam em seu território. Para escolher o local da habitação, é preciso conversar com os donos invisíveis daquele lugar: são os espíritos das serras, lagos, remansos ou de antigos pajés que viveram ali.

Casa redonda (''ättä''). Fuduuwaadunnha, TI Yanomami. José Cury/ Museu do Índio-FUNAI / Povo Ye’kwana, 2018.
Casa redonda (''ättä''). Fuduuwaadunnha, TI Yanomami. José Cury/ Museu do Índio-FUNAI / Povo Ye’kwana, 2018.

Casa no estilo ''famaakadi''. Comunidade Kudatannha. TI Yanomami, Roraima. Majoí Gongora, 2013.
Casa no estilo ''famaakadi''. Comunidade Kudatannha. TI Yanomami, Roraima. Majoí Gongora, 2013.

Casa no estilo ''koneedo ju’jä''. Comunidade Fuduuwaadunnha. TI Yanomami, Roraima. Majoí Gongora, 2019.
Casa no estilo ''koneedo ju’jä''. Comunidade Fuduuwaadunnha. TI Yanomami, Roraima. Majoí Gongora, 2019.

O ato de conversar com esses espíritos é tarefa dos pajés (föwai) ou donos de canto (acchudi edhaamo). Eles fazem um diagnóstico da área pretendida e negociam com esses donos. Uma vez concluída essa etapa, inicia-se a construção de uma casa provisória, um abrigo, até se estabelecerem definitivamente. Antes de se mudar, as pessoas esperam suas roças ficarem prontas.

Como disse Arvelo-Jimenez (1974), uma construção circular no meio da floresta evidencia a existência de uma comunidade ye'kwana. Antigamente, as famílias ye'kwana se abrigavam em uma casa coletiva e a mais utilizada era ättä, a casa redonda. Junto ao pilar central da casa há um espaço chamado anna (centro), onde dormiam os homens solteiros e eram feitas as refeições masculinas, as festas e rituais. Ao redor da anna, estavam os espaços reservados às famílias (ä’sa), cada uma com seu próprio fogo. Na parte externa da casa, está o terreiro chamado födoodo.

Além da ättä, existem outros dois tipos de casas construídas pelos Ye’kwana: koneedo ju’jä (“cabeça do peixe koneedo”) e famaakadi - que tem um formato retangular.

Uma das primeiras casas feitas por Wanaadi ganhou o nome de Kushamakadi e tinha esse último formato. Muito tempo depois, os irmãos Yudeeke e Shichäämöna construíram uma casa redonda (ättä) cujo nome é Waata’jödö, onde hoje está a serra de mesmo nome na região do Uraricoera, próxima à comunidade Waichannha.

Serra ''Waata'jödö'', antiga casa redonda dos irmãos Yudeeke e Shichäämöna. Rio Uraricoera. TI Yanomami, Roraima. Guilherme Gnipper Trevisan, 2017.
Serra ''Waata'jödö'', antiga casa redonda dos irmãos Yudeeke e Shichäämöna. Rio Uraricoera. TI Yanomami, Roraima. Guilherme Gnipper Trevisan, 2017.

É comum encontrar nas comunidades ye'kwana na Venezuela uma casa redonda (ättä). No Brasil, esse tipo de construção não é mais comum. Na década de 1960, na época da construção da pista de pouso em Auaris, os Ye’kwana viviam em uma casa redonda. Quando se mudaram para Fayya Ku’jännha, em 1974, construíram uma casa do tipo famaakadi, coberta com a palha de bacabeira. Era uma casa comunal, porém, algumas famílias decidiram construir casas separadas. No final de década de 1980, quando mudaram para outro lado do rio Auaris, cada pai de família decidiu construir sua casa própria com repartições internas para que suas filhas casadas pudessem viver ali com seus maridos e filhos.

Beijus secam sobre o teto da residência coberto com telhas de alumínio. Comunidade Fuduuwaadunnha, TI Yanomami, Roraima. Majoí Gongora, 2013.
Beijus secam sobre o teto da residência coberto com telhas de alumínio. Comunidade Fuduuwaadunnha, TI Yanomami, Roraima. Majoí Gongora, 2013.

No início dos anos 2000, com maior poder aquisitivo devido aos trabalhos assalariados, algumas famílias compraram telhas de alumínio, pois perceberam a durabilidade do novo material e a escassez de palhas na região. Atualmente, as casas ye'kwana são, em sua maioria, cobertas com a telha de alumínio. Ao lado da casa coberta com essa telha, há geralmente uma casa menor coberta com palha, onde os alimentos como o beiju são preparados.

Casa redonda (''ättä''). Fuduuwaadunnha. TI Yanomami, Roraima. Majoí Gongora/Museu do Índio-FUNAI / Povo Ye’kwana, 2018.
Casa redonda (''ättä''). Fuduuwaadunnha. TI Yanomami, Roraima. Majoí Gongora/Museu do Índio-FUNAI / Povo Ye’kwana, 2018.

Depois de mais de uma década sem uma casa redonda, o tuxaua de Fuduuwaadunnha decidiu construir uma ättä que foi concluída em 2016. Atualmente, a casa redonda nas comunidades ye'kwana não é utilizada como moradia permanente, mas é o espaço para reuniões, festas e onde todas as noites os homens se reúnem para trocar informações sobre o dia a dia e repassar notícias que chegam pela radiofonia.

Vida comunitária

Os Ye'kwana, como a maioria dos povos indígenas, transmitem seus conhecimentos oralmente. As crianças aprendem com seus pais ou parentes mais próximos, participando das atividades cotidianas: os meninos aprendem com o pai e as meninas com a sua mãe.

A coletividade é o mais importante valor para esse povo. Quando constroem uma nova casa ou vão derrubar a mata para fazer roças novas, todo mundo ajuda, tanto os homens, quanto as mulheres. As mulheres trazem o chib