De Povos Indígenas no Brasil
Foto: Egon Heck, 1982

Deni

Autodenominação
Jamamadi
Onde estão Quantos são
AM 2064 (Siasi/Sesai, 2020)
Família linguística
Arawá

Os Deni estão entre os grupos indígenas da região dos rios Juruá e Purus que, na década de 1940, sofreram os impactos do segundo ciclo da borracha, que atraiu milhares de migrantes. Com estes, vieram doenças, violentas disputas territoriais e exploração da mão-de-obra indígena. Desde então, os Deni tiveram que esperar décadas até terem seus direitos territoriais assegurados, sendo preciso iniciar uma campanha de audemarcação das terras, com apoio de algumas Ongs, para então conseguir a demarcação oficial, que só foi concluída em agosto de 2003. Ainda enfrentam, contudo, os problemas advindos de invasões recorrentes para atividades clandestinas como pesca e extração de madeira.

Nome e Língua

Os Deni do rio Xeruã se autodenominam "Jamamadi-Deni", enquanto os Deni do rio Cuniuá se autodenominam "Madihá-Deni". Tal diferenciação é resultado da influência exercida pela missão Novas Tribos do Brasil, que atua na região do rio Cuniuá desde 1982.*

A língua Deni pertence à família lingüística Arawá. Poucos estudos existem sobre o Arawá, que inclui, além da língua Deni, as seguintes línguas: Paumari, Jamamadi, Banawa–Yafi, Jarawara, Kulina e Suruwahá, sendo todas essas etnias habitantes da área etnográfica do Juruá-Purus (Melatti, 1998). Segundo o lingüista Aryon Rodrigues, as línguas da família Arawá são muito semelhantes entre si, sendo a língua Paumari um pouco diferenciada das demais (Rodrigues, 1986:71). Dixon denomina Madi à língua falada pelos Jarawara, Jamamadi e Banawa-Yafi, pois afirma que são mutuamente inteligíveis e partilham o vocabulário em 95%. Segundo o autor, Madi tem forte semelhança gramatical e lexical com as línguas Deni e Kulina (Dixon, 1999: 292-306).

* Nota da Edição

A respeito dessa observação, o missionário da MNTB, Vladmir Cunha, enviou o seguinte comentário:

"Os Deni se auto- denominam "Madiha", não por influência da MNTB. Conhecendo a língua, pode se perceber facilmente que é esse o nome que eles dão para si próprios. O termo "Jamamadi" era atribuído no passado aos Deni, mas nunca foi bem aceito pelo povo por sua semelhança fonética com "zama madi" = pessoa selvagem (de comportamento típico de um animal), assim como o termo "índio" é rejeitado por ser semelhante a "izu" = excremento. Consultei os Deni do rio Xeruã sobre a origem dessa informação e eles me disseram que eles nunca gostaram de ser chamados por uma palavra usada para xingamento. Já o termo "Deni", usado oficialmente pela maioria das ONGs e por OGs, é apenas um sufixo pluralizador de alguns subtantivos da língua e tem sido bem aceito pelo povo. Atualmente quando um Deni quer se referir a eles próprios usando o termo Deni (para eles uma palavra portuguesa) no plural eles falam "Denideni" = os Deni."

Localização e população

Vista parcial da aldeia Visagem, localizada à margem direita do rio Cuniuá. Foto: Rodrigo Padua Rodrigues Chaves, 1999.
Vista parcial da aldeia Visagem, localizada à margem direita do rio Cuniuá. Foto: Rodrigo Padua Rodrigues Chaves, 1999.

Os índios Deni habitam uma extensa região compreendida entre os rios Juruá e Purus, nos municípios de Itamarati, Lábrea e Tapauá, no Estado do Amazonas. Segundo o relatório ambiental elaborado por Pezzuti, a área indígena pertence à bacia hidrográfica do Solimões e é drenada por um afluente do Juruá, o Rio Xeruã, e pelo Canaçã e Cuniuá, afluentes do Tapauá, que por sua vez deságua no Purus. A Terra Indígena Deni está inserida na região que separa a bacia de drenagem destes dois grandes rios de água branca (o Juruá e o Purus).

Para fins de análise, a Terra Indígena pode ser dividida em duas porções: a Ocidental e a Oriental. Na porção ocidental existem quatro aldeias, situadas no rio Xeruã e em alguns de seus afluentes. São elas: Rezemã, Morada Nova, Boiador e Itaúba. O Xeruã é afluente do rio Juruá. Na porção oriental existem mais quatro aldeias, todas situadas à margem do rio Cuniuá, afluente do rio Purus: Cidadezinha, Marrecão, Visagem e Samaúma.

Não há ligação fluvial entre o Xeruã e o Cuniuá; por via terrestre existe um varadouro (caminho pela mata) que liga a aldeia Itaúba à antiga aldeia Kumarú Novo. A viagem dura em média três dias. Para as outras aldeias, a viagem pode se estender por uma ou duas semanas. Existem diversos varadouros que interligam as aldeias e locais de caça, coleta e pesca.

Em maio de 1999, constatamos que 666 índios habitavam a Terra Indígena em 116 residências distribuídas por nove aldeias. Dados atualizados em 2002 pelas ONGs Greenpeace, CIMI e OPAN indicaram um crescimento da população para 736 pessoas, em oito aldeias. Em 2010, a população Deni alcançou 1.254 pessoas, segundo os dados da FUNASA.

Histórico e situação territorial

As primeiras intervenções do Estado que objetivavam a regularização fundiária da Terra Indígena Deni e demais terras indígenas da área etnográfica Juruá-Purus datam da década de 1930. O auxiliar do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), José Santana Barros, participou da viagem de inspeção ao rio Tapauá e seus afluentes entre 18 de março e 24 de abril de 1930. Apresentou relatório de viagem, no qual cita e discorre sobre diversas etnias que habitavam a região. Era uma primeira tentativa de identificar áreas habitadas pelos índios no Juruá-Purus, à qual seguiram-se outras expedições do SPI na década de 1940. Infelizmente, nenhuma proposta de regularização fundiária foi apresentada, não obstante os relatórios apresentarem dados bastante interessantes.

Muitos anos depois, através da portaria n.º 1813/E, de 07/01/85, foi criado o grupo técnico (GT) para proceder os estudos de identificação e levantamento ocupacional visando a definição dos limites da Área Indígena Deni. Foram designados cinco técnicos, que deveriam realizar os trabalhos de campo em 30 dias. O relatório antropológico, de responsabilidade da pesquisadora Therezinha de Barcellos Baumann, nunca foi apresentado. Desse GT, foi produzido apenas o memorial descritivo de delimitação e uma informação de duas páginas sobre o número de ocupantes não-índios e população Deni aproximada. A Área Indígena Deni foi definida com superfície de 998.400 ha e perímetro de 750 Km.

Em 21/01/1992, a Comissão Especial de Análise (CEA), criada pela Funai objetivando aproveitar os trabalhos anteriores ao decreto nº 22/91